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fevereiro 06, 2013
fevereiro 04, 2013
(continuação)
Cláudio exerceu também a censura, o que não se fazia há muito [ ], mas igualmente no desempenho destas funções mostrou irregularidade de carácter e de comportamento.
Ocupou-se sempre com a maior solicitude do abastecimento e segurança de Roma. [ ] Iniciou grandes trabalhos, embora se preocupasse mais com o número deles do que com a sua utilidade. Distribuiu frequentes vezes gratificações ao povo. Deu também muitos espectáculos magníficos [ ]. (p.282-85)
Em Roma e fora dela, reformou Cláudio ou restabeleceu ou instituiu muitos usos relativos às cerimónias religiosas, aos costumes civis ou militares, aos direitos das diferentes ordens do Estado [ ]. Regulamentou a promoção militar dos cavaleiros [ ]. Estabeleceu um soldo e um género de serviço fictício, a que deu o nome de supranumerário, que conferia um título sem funções. (p.287)
Muito jovem ainda, teve duas mulheres [ ]. Repudiou a primeira, ainda virgem, porque os pais dela tinham caído em desgraça junto de Augusto; a outra perdeu-a, por doença, no próprio dia fixado para a boda. Desposou em seguida Pláucia Urgulanila, de família triunfal, e depois Elisa Petina, filha de um consular.
De uma e outra se separou pelo divórcio: de Petina, por causa de faltas ligeiras; de Urgulanila, em virtude das suas vergonhosas devassidões ligeiras [ ]. Contraiu depois matrimónio com Valéria Messalina [ ]. Mas quando soube que além dos seus excessos e crimes [ ] mandou-a matar, declarando [ ] «que, como se saía mal nos casamentos, ficaria solteiro; e que, se violasse o seu juramento, consentia deixar-se matar [ ]».
Apesar disso, tratou, dentro de pouco, de nova união com a mesma Petina, a quem repudiara, e com Sólia Paulina, que fora casada com Caio César [Calígula]. Mas, seduzido pelos encantos de Agripina, filha de Germânico, seu irmão [falecido], [ ] subornou senadores, levando-os a proporem [ ] que ele fosse casado com ela, visto que aquela união ser de importância capital para o Estado. (p.288-89)
Teve filhos das suas três mulheres: de Urgulanila, Druso e Cláudia; de Petina, António; de Messalina, Octávio e Germânico, a que cognominou pouco depois de Britânico. Entre os libertos de quem mais se afeiçoou contam-se o eunuco Posides, a quem se atreveu a honrar com uma lança sem ferro [recompensa militar], na presença de soldados valorosos [ ]. (p.289)
Governado [ ], pelos seus libertos e pelas esposas, viveu mais como escravo que como imperador. Dignidades, comandos, impunidades, suplícios, tudo isto ele distribuiu para satisfazer os seus desejos e caprichos, e as mais das vezes sem dar por tal. (p.290-91)
Não deixava de haver em toda a sua pessoa um certo ar de grandeza e dignidade, quer de pé quer sentado, mas principalmente quando em repouso. [ ] De saúde má, desde que tomou conta do império, melhorou, salvo no que toca ao estômago [ ]. Organizou grandes e frequentes banquetes [ ]. Estava sempre pronto a comer e a beber a qualquer hora e em qualquer lugar. (p.291-92-93)
Amou apaixonadamente as mulheres, mas nunca teve comércio amoroso com homens. Apreciava muito os jogos de azar; chegou mesmo a publicar um tratado sobre esta arte. Deu provas de um natural cruel e sanguinário tanto nas pequenas como nas grandes coisas. [ ] Mas o traço mais saliente do seu carácter era desconfiança e o medo. [ ] O seu amor por Messalina, por mais ardente que fosse, resistiu menos ao ressentimento dos seus ultrajes que ao receio das suas maquinações [ ]. (p.298)
Para o fim da vida, deu Cláudio provas evidentes de arrependimento por ter casado com Agripina e adoptado Nero. Um dia em que os seus libertos celebravam na sua presença a equidade de uma sentença contra uma mulher adúltera, disse-lhes ele «que a sorte lhe havia dado também esposas impúdicas, mas não impunes».»
Suetónio, Os Doze Césares,
trad. e notas João Gaspar Simões
Lisboa, Biblioteca editores Independentes, 2007
fevereiro 02, 2013
«Cláudio [-10 a.C.; 54 d.C.] nasceu em Lugduno [Lion, França] [ ], nas calendas de Agosto [ ] e foi chamado Tibério Cláudio Druso. [ ] Durante quase toda a sua infância e adolescência teve de lutar contra teimosas enfermidades [ ] que tanto lhe enfraqueceram o espírito e o corpo.
No entanto, desde a juventude se consagrou ao estudo das letras gregas e latinas com zelo apreciável, e ocasiões houve em que se exprimiu em público nas duas línguas. Apesar destas provas de saber, não conseguiu, todavia, alcançar considerações nem suscitar melhores esperanças. (p.265)
Sua mãe Antónia a cada passo dizia que ele era um monstro, que não fora acabado, mas apenas esboçado pela natureza; [ ] Sua avó Augusta tratou-o sempre com o maior desdém, só lhe dirigia a palavra em raras ocasiões e quando tinha algo que dizer-lhe fazia-o através de uma carta lacónica e dura ou por interposta pessoa. [ ] (p.265-66)
Depois de assim passar a maior parte da sua vida, Cláudio foi imperador aos cinquenta anos, graças a um acaso extraordinário. Repelido pelos assassinos de Calígula, no momento em que estes afastavam a turba, como se o imperador quisesse estar só, Cláudio refugiara-se num pavilhão conhecido com Hermeum, e, pouco depois, transido de pânico, ao ouvir falar no assassínio, à socapa esgueirou-se até uma galeria próxima e ali se escondeu, embrulhando-se no reposteiro que colgava da porta. (p.270-71)
Estando assim escondido, um soldado, que andava de um lado para outro, viu-lhe os pés, quis saber de quem se tratava, reconheceu-o, fê-lo sair dali e como Cláudio, assustado, se lhe lançava aos pés, saudou-o chamando-lhe imperador. Depois conduziu-o até junto dos seus companheiros [ ] que o colocaram numa liteira [ ], pegaram nela aos ombros e levaram-na até ao acampamento. [ ](p.271)
Mas na manhã seguinte, o Senado [ ] vendo que o povo pedia em altos gritos um chefe único, apontando para ele, deixou que os soldados armados prestassem juramento a Cláudio, o qual prometeu a cada um destes quinze mil sestércios. Eis como ele foi o primeiro dos Césares a comprar a peso de ouro a fidelidade das legiões.
Já estabelecido no poder, [ ] outorgou uma amnistia geral e completa, que observou religiosamente. Apenas mandou executar um pequeno número de tribunos e centuriões que havia tomado parte na conjura contra Caio [Calígula], tanto a título de exemplo como por saber que eles tinham exigido também a sua morte. (p.272-74)
Sóbrio na escolha de honras e no exercício do poder, absteve-se de usar o título de Imperador e recusou aceitar todas as distinções excessivas. [ ] Exerceu quatro consulados [ ]. Nem sempre seguia as leis à letra, tornando-as mais suaves ou mais severas, segundo a justiça do caso ou segundo os seus impulsos. (p.276-78-79-80)
(continua)
Suetónio, Os Doze Césares,
trad. e notas João Gaspar Simões
Lisboa, Biblioteca editores Independentes, 2007