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domingo, 22 de maio de 2011

Elis Regina e uma afirmação questionável

Sinto que não conseguirei escrever esse texto sem recorrer a alguns bons exemplos de cultura geral e cultura bastante específica. Estruturar o meu questionamento requer comparações, análises menos superficiais - é preciso, talvez, de certa subjetividade para entender aonde quero chegar.

A música é Como nossos pais. O compositor é Belchior e a intérprete é Elis Regina. Na voz dela, tão peremptória e incisiva - ao mesmo tempo doce e carinhosa, porém - ouvimos que "viver é melhor que sonhar", que, dentro do contexto crítico a que se propõe essa canção, é extremamente aceitável. Fosse escrito de outro modo, fosse apresentado de outro modo, decerto a estrutura discursiva se perderia sem que os elementos artísticos dessa obra se revelassem em sua totalidade. Não se pode ignorar, aliás, que dentro da própria canção essa afirmação encaixa-se num paradoxo aparentemente imutável devido à constante retroalimentação do passar das gerações, que parece se mostrar cíclico: por mais que os personagens de quem o eu-lírico fale tentem algo novo, por mais que tracem caminhos diferentes, que saiam às ruas, que relembrem - que sonhem! - eles sempre serão como os seus pais. Se viver é melhor que sonhar, como então a vida pode não se fazer modificar, estagnando as pessoas a situações que as precedem e que não as obrigatoriamente forçam a permanecer de um mesmo modo?

Decerto há argumentos bastante sólidos a respeito do porquê viver é melhor do que se manter à margem da vida, idealizando-a em vez de a consumar. Afirma-se que as experiências de viver, ainda que tragam consequências ruins, são necessárias à formação do indivíduo, pois conseguem construir-lhe uma personalidade, um caráter, moldá-lo de modo que ele aprenda a ter discernimento a respeito das situações. Um sonho, porém, é capaz de modificar o pensamento de alguém em relação às situações que ela obrigatoriamente conhece - assumir que sonhar e viver são antônimos é afirmar que quem sonha não está vivo, o que não se verifica verdadeiro, posto que, para idealizar (aqui intepretado com sinônino de sonhar), é necessário que se conheça a realidade e que se tenha certas experiências de mundo. A busca pelo idealizado, pelo "inalcançável", resulta na percepção de que a vida real não pode conceber o desejo como se lhe quer - inevitavelmente, surge um pensamento crítico a respeito do que a vida pode oferecer e se é justo que ela não ofereça mais.

Alega-se que quem só sonha não vive, só se ilude. Aí, contraponho uma pergunta a essa afirmação: e quem vive, por viver, não se ilude? Por experiência de vida, afirmo que viver é também se iludir, porque a felicidade a que somos submetidos - a felicidade que a vida nos oferece - é em sua maior parte clandestina e alieanadora: chega como não devia e, em vez de exaltar o espírito, apenas encobre a realidade. Esquece-se assim, por causa de breves momentos de felicidade - estes oferecidos por viver -, de tudo aquilo que é fonte de problema; esquece-se, por assumir-se vívido e feliz, daquilo que pouco a pouco destrói o humor, dilacera a obstinação, interrompe os planos e, acima de tudo, perturba a funcionalidade do dia-a-dia. Contraditoriamente, então, de viver oriunda-se a distração da busca por uma vida melhor: é a vida atrapalhando a vida. Se, para Marx, "a religião é o ópio do povo", esse mesmo ópio é, para Schopenhauer, a felicidade. O filósofo alemão afirmava que o homem não deve sentir-se feliz, já que isso não lhe trazia qualquer bem, apenas o afastava de um motivo maior - deve-se, segundo ele, viver para não ser feliz; qual é, então, a função da vida se a felicidade é justamente o que todos buscam?

Os poetas decadentistas preteriam a vida em função do sonho. Para eles, em oposição à música cantada por Elis, "sonhar é melhor que viver": nos sonhos, há a perfeição; a idealização traz consigo o tipo de felicidade que a vida jamais poderá oferecer, haja vista que ela, bastante coletiva e concreta, não faz jus à individualidade - e consequentemente às necessidades e merecimentos de cada ser. Que problemáticas existem nos sonhos se eles acontecem exclusivamente num plano subjetivo e, bons ou ruins, mantêm-se apenas na mente de quem os sonhos? Numa oposição, percebe-se que a vida, considerando esse aspecto, traz mais desvantagens, uma vez que ela oferece fome, miséria, dor, desespero, frio a quaisquer pessoas.

Esse texto se trata, sobretudo, de uma análise, mas também de um desabafo.
Gostaria, agora, de estar sonhando, não vivendo.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

No meio do caminho tinha uma vaca.

O tema que eu escolhi hoje parece meio incomum, mas é algo sobre o que eu venho pensando ultimamente. Primeiro, explicarei de onde veio a ideia, depois divagarei sobre isso. Devo dizer que os bovinos fazem parte do meu cotidiano - ainda que eu não more numa área rural nem tenha sítio da família. Mas eles, os bois e vacas, estão lá, num pasto imenso, ao lado da rodovia, todos os dias, e, quando vou pra universidade, eu sempre os vejo, ruminando tranquilamente, e me observando com olhos intensos e ao mesmo tempo plácidos.

Imagem escolhida pela minha colega Jacqueline, que, segundo ela mesma, possui um penteado semelhante ao desse bovino.

Acho curioso notar o modo como os bovinos de portam. Há neles uma graça e sutileza muito grandes, que me comovem - sempre quero acariciá-los quando estou passando e vejo, a menos de três metros de mim, uma vaca comendo e vagando o olhar pelo horizonte. Aí me pergunto: será que ela vê a mesma coisa que eu? Fico pensando nisso, às vezes. Fico pensando se ela, se fosse racional (e talvez seja!), acha incômodo passar o dia todo ali, naquele pasto, vendo as mesmas imagens, numa sucessão inerte de estudantes, carros e calor. Sim, os bovinos ficam no calor, movimentando-se serenamente, como se ignorassem o horrível calor que faz nessa cidade onde moro. Aí, penso outra coisa: como manter essa serenidade diante de tamanha adversidade?

Observar o comportamento bovino me faz reavaliar a minha vida. Estivesse eu tão brando em relação aos problemas, decerto seria mais feliz, pois - como o boi à beira da estrada, que observa tão perto o mormaço -, apenas me focaria naquilo que me faz bem. Penso também que, fosse eu assim, seria alienado. O boi, complacente, me observa tolerante, mas será que se pergunta quanto mal eu lhe posso fazer? Será que se pergunta o porquê de, todos os dias, estar, às oito horas da manhã, próximo à rodovia, e, às cinco da tarde, próximo aos eucaliptos, na entrada da universidade? Tudo me parece muito condicionado, pouco produtivo, pouco questionador. Aí me lembro que estou abordando a vida bovina e me lembro que não preciso ser tão crítico.

Enquanto escrevia isso, pensei num outro fator: o preconceito. Aqui cabe apresentar o paradoxo das consequência de ser ou não ser um bovino. Quem tem vinte cães em sua propriedade, nomeia-os todos, tendo às vezes dificuldades em se lembrar de seus nomes. Quem, no entanto, possui gado, simplesmente deixa os animais, sem criar grandes vínculos, sem se dar o trabalho de dar-lhes nomes. Eu honestamente acho isso um absurdo, pois tenho tanta vontade de abraçar um cão como tenho vontade de abraçar a uma vaca; logo não vejo porque diferi-los assim, nomeando a um e não ao outro.

Enfim, vou encerrar esse texto, não há mais o que dizer. Só quero dizer que defendo os bovinos, porque eu os acho simpáticos, principalmente quando eles me encaram, como se quisessem que eu me aproximasse, como se quisessem saber mais sobre mim, como se, a eles, a minha vida importasse e eu não fosse só mais um dos muitos que caminham por ali todos os dias. E também quero dizer que defendo os outros animais, defendo todos aqueles que me causam vontade de abraçar (como ursos, leões-marinhos e girafas) e aqueles que eu não abraçaria, mas que sou capaz de reconhecer sua importância no ecossistema. No entanto, quero expressar a minha insatisfação em relação às pombas, nome genérico que, com exceção do tucano e da borboleta, atribuo a todos os animais que voam.

terça-feira, 22 de março de 2011

Dois Tipos de Ménage

Das experiências sexuais que já tive na vida, posso garantir que entendo alguma coisa de ménage. O famoso ménage à trois nunca foi algo com que eu sonhava – ver duas garotas se beijando nunca foi uma das minhas fantasias primordiais e imaginar-me num amasso intenso com uma garota e um cara também não me ocorria com freqüência. Eis então que num momento determinado, eu acabei experimentando tanto um quanto outro: envolvi-me numa mistura com duas garotas e também estive com um casal.

Gostei de ambas as situações, não nego. Ambas me excitaram e me proporcionaram sensações diferentes. Com as duas garotas, eu percebi o charme (e prazer) irrefutável de ver duas garotas se desejando com ardor; com o casal, eu percebi que é bom deixar de lado certos preconceitos e se entregar a algo que lhe seja novo – mesmo que, a princípio, seja estranho o contato com outra barba que não seja a sua. Mas, sobretudo, o que as minhas experiências no ménage me ensinaram é que existem, pelo menos, dois tipos muitos simples de ménage: aquele em que ocorre a catálise e, portanto, necessita de um elemento catalisador, e aquele em que os três corpos são como o fenômeno da combustão.

Pode parecer estranho, mas é simples de entender. Vamos ao primeiro exemplo: o catalisador. Como se sabe, uma determinada reação química aconteceria, de acordo com o conjunto de fatores que caracterizam os elementos postos em contato. O elemento A reagiria com o elemento B, ainda que isso demorasse algum tempo. O acréscimo do elemento C – o catalisador – à somatória faz com que os três reajam juntos a princípio, acelerando a reação entre A e B. O que isso quer dizer, na prática: um terceiro elemento é dispensável e o ménage, ainda que seja a três na prática, torna-se a dois efetivamente. Ana e André se desejam desesperadamente e, em comum, eles têm um amigo, João, que é descontraído o suficiente, mas que, como um todo, não agrada aos dois. Mesmo assim, acabam envolvidos, já que João facilita as coisas, acelerando o processo de contato, abreviando as esperas potenciais que existiriam, mas, tal qual o catalisador da reação química, ele age no começo, mas depois de dissipada sua finalidade primeira na reação, ele para de fazer efeito, de modo que a tensão sexual fica apenas entre Ana e André. Vale lembrar que o elemento catalisador é dispensável numa reação química: ela aconteceria eventualmente sem o auxílio dele.

Há também o segundo caso, que é aquele que comparo ao fenômeno da combustão. Como é sabido, são necessários irrevogavelmente três elementos para que o ato de queimar aconteça: o comburente, o combustível e o calor. Na ausência de um desses elementos, a combustão não acontece. Desse modo, pode-se dizer que Ana, André e João estão em perfeita sintonia e que os três nutrem os mesmos desejos (ou desejos muito próximos) uns pelos outros. Numa relação, nenhum teria função de enfeite, nenhum seria preterido ao outro, os três funcionariam juntos e em nenhum momento alguma dessas pessoas se sentiria “menos desejada” ou “posta de lado”, como facilmente poderia acontecer no caso comentado acima.

Por experiência, eu poderia dizer que o melhor ménage é o que se assimila à combustão. Nele, é evidente a sintonia e a predisposição de todos os membros a envolver-se com os outros, numa sóbria comunhão de desejos. Feliz ou infelizmente, não sei, penso já ter participado como elemento catalisador e como elemento fundamental. Quanto a isso, só posso dizer que o melhor a fazer é estar numa combustão viva – que é aquela que sai fogo! A outra não eleva muito, ainda que garante alguma experiência nova

sábado, 22 de janeiro de 2011

E se, em vez de conversar, nós cantássemos?

Eu sou cinéfilo assumido. Adoro ver filmes, vejo-os sempre, acordo e durmo pensando nos filmes que eu vou ver ao longo do dia. Confesso: não há filme que eu não veja. Pode ser que eu torça o nariz a princípio, pode ser que eu definitivamente não queira vê-lo – mas o vejo mesmo assim. Sempre há algo para aprender com um filme, mesmo que ele seja ruim – ou muito ruim, às vezes.

Quero com esse texto expressar a minha simpatia por um gênero de filme: os musicais. Eu sei que muitos simplesmente não gostam de títulos como Cantando na Chuva, Minha Bela Dama, Hair, Moulin Rouge, Chicago e muitos outros, que não vou colocar aqui a fim de economizar espaço e deixar esse texto mais dinâmico. Eu sei também que as pessoas reclamam bastante desses filmes porque eles retratam uma realidade que, honestamente, em nada se parece com a realidade, a não ser que um de nós chega à padaria, pede três pães franceses e a atendente dá saltos e piruetas, embaladas por uma alegre canção, em vez de simplesmente atender o seu pedido, recolher o dinheiro e lhe entregar o produto.

Admito: os filmes musicais não são verossímeis. No entanto, refuto minha própria afirmação: eles trabalham com a verossimilhança, tanto quanto qualquer outro filme de qualquer outro gênero. Pode parecer paradoxal, mas não há engano – essa é a estrutura dos musicais, eles trabalham com uma constante estilização da realidade, transformam-na em um elemento muito artístico, cujo efeito estético é notável tanto nos espectadores que gostam quanto nos que não gostam de toda aquela cantoria e toda aquela dança em vez de um desenvolvimento “convencional” do roteiro. Mas eu insisto: a distorção da realidade é para o filme musical o que a escuridão é para os filmes de terror. Até porque, sejamos sinceros, ninguém vive na escuridão impositiva que os filmes de terror nos mostram. Aí me deparo com quem adora personagens que acordam e, assustados, andam no escuro absoluto pela casa, mas criticam ferozmente os personagens que, sentados à mesa de um restaurante, simplesmente cantam. Desculpem-me, para mim isso é incoerente!

Conheço uma pessoa, não citarei nomes, ela talvez nunca leia esse texto. Essa pessoa adora espetáculos de balé; entretém-se ao ver aquelas lindas bailarinas numa sequência ininterrupta de piruetes fuetés, admira quando os rapazes jogam seus corpos ao ar, criando um perfeito tour em l’air. Essa pessoa principalmente compreende a finalidade do balé: representar através de movimentos corporais toda a história daqueles personagens e captar a emoção deles, trazendo-a para os seus atos. O balé, então, é uma representação artística de uma realidade. Curiosamente, essa pessoa não gosta – detesta, na verdade – os filmes musicais. E eu honestamente não entendo, haja vista que os números de canto e dança em filmes como Rent e A Noviça Rebelde são apenas formas alternativas de representar as realidades desses filmes – tal como o balé faz.

Além disso, eu gosto de gênero de filme porque ele é capaz de me mostrar outro lado da vida, um lado mais bonito. Eu honestamente gostaria de abrir o portão de casa, sair à rua e ser acompanhado numa canção por um grupo alegre de vizinhos gentis. E devemos admitir que é facílimo ser acompanhado nesses filmes: todos sabem a canção, todos conhecem o refrão da música, todos dançam tango – o que pode haver de mais bonito? E os personagens – protagonistas ou figurantes – transformam-se numa massa dançante, da qual sai um som vibrante e contagioso; assim, alego que os filmes musicais são também bastante democráticos. Enfim, não vou me estender mais, mas quero que fique claro: ver Satine cantando Elton John, presenciar Velma no Cell Block Tango e acompanhar a marcha pela desigualdade de Hairspray são momentos incomparáveis. Ouso ainda mais: invejáveis. Só pra constar: também sou simpático à causa das comédias românticas, mas sobre essas eu falo numa próxima vez.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Reflexão sobre a Vida

Esses dias, eu resolvi fazer algo que vinha prometendo a mim há anos: li A Hora da Estrela. Durante toda a minha graduação – isso há muito tempo –, eu ouvia comentários sobre o jeito que a autora escrevia e também sobre como era bom esse livro. Na época, não fiquei interessado, mas prometi pra mim que um dia leria. E foi o que eu fiz semana passada.

Não sei como dizer, mas ler esse livro fez com que eu repensasse a vida e viajasse no tempo, lembrando da época da faculdade. Conheci tantas Macabéas na vida e nunca tinha me dado conta disso antes. Mas me lembrei bem de uma, um rosto que me marcou muito. Curioso, né? Justamente o rosto de uma garota sem rosto. Todo dia ao entrar na sala, eu via a garota sentada, esperando a aula começar. No rosto dela, nem ansiedade nem tédio – um rosto vazio, que não demonstrava nada. Do começo ao fim da aula, aquela mesma expressão, ou melhor, não-expressão. Todos tinham um grupo de colegas, todo mundo encontrava compatibilidade com outra pessoa. Menos ela. Sempre sozinha. Chegava antes de todos e ia embora por último, nunca ouvi a voz dela.

Até poderia descrever essa menina, mas não tem um porquê de fazer isso. Ela pode ser qualquer pessoa que passa por aí na rua, olhando pro nada, físico igual ao de todas as outras garotas que também não têm uma personalidade destacada. Assim como Macabéa, ela não fazia diferença pro mundo. Eu imaginava como era a relação dela com os pais – eles a amavam, lhe davam carinho? Imaginei o que fazia na sua casa – ouvia música, via filmes? Não, eu tinha certeza que não. A arte a sufocaria, ela talvez nem fosse inteligente para compreendê-la. Ela devia escrever poesia, uma letra torta e rimas pobres, devia escrever sobre como se sentia sozinha e como isso um dia mudaria.

Não pude deixar de pensar: será que mudou? Como disse, faz tempo que me graduei, desde então eu nunca mais a vi. Mas ela devia estar por aí, andando com a sua blusa rosa no braço, segurando os seus livros, olhando sempre sem levantar a cabeça. Aí, também tive que me perguntar: será que ter vivido fez diferença pra ela? E também me perguntei: será que fez diferença pra mim? Por que então eu me lembrei dessa garota? Eu até acharia que é porque foi dela que lembrei, mas acho que no fundo tem um motivo mais egoísta. Saber que ela era assim e que é assim até hoje provavelmente me afirma como alguém melhor do que ela – tive amigos, vivi bem, experimentei muitas coisas novas, amei alguém. Nunca fui a pessoa sem sal que ela foi nem deixei de me fazer notar. Hoje tô repensando a vida, buscando validade nas coisas que fiz – e tenho dó dela, que provavelmente nunca poderá repensar a vida que nunca teve.

(Vale esclarecer que, para esse texto, é preciso diferenciar autor do narrador. Tal como Machado de Assis ao compor Dom Casmurro - ele, autor; Bentinho, narrador -, o mesmo processo se aplica aqui)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

E agora, José?

Um dia, a festa acaba, a luz apaga, o povo some, a noite esfria. José sabe muito bem disso, mas está inerte numa situação delicada que não lhe permite impedir esses acontecimentos

José é uma boa pessoa, quem o conhece afirma com segurança que ele é decerto um dos companheiros mais divertidos. Quem o conhece, porém, também afirma com segurança que Clóvis, alter ego de José, é totalmente desestimulante. Há inúmeras diferenças entre um e outro e todos são capazes de reconhecê-las facilmente. Saber quando José é José e não Clóvis também é fácil – o motivo pela existência do outro eu de José é bem visível: o namoro.

José, um dia, se apaixonou e foi correspondido. Conforme o sentimento aumentava, envolveu-se num romance. Eis que Clóvis surgiu. Este veio para suprir a necessidade daquele de agradar em todos os aspectos a namorada. Se José é liberal, engraçado, confidente e próximo, Clóvis caminha no sentido oposto: ele é contido, sério, distante e intimidador. Quem vê José, rapidamente deseja lhe dar um abraço e conversar com ele sobre os acontecimentos da vida. Quem vê Clóvis logo deduz que não haverá espaço para uma boa conversa.


A namorada de José o adora – afinal, com ela, ele é ele mesmo e também o outro, fazendo-a, portanto, muito feliz. Os amigos de José, no entanto, não sabem como se portar diante disso. Ora o vêem como aquele que conheceram, três anos antes; ora o vêem como o homem sisudo que veio em decorrência de uma sutil incompatibilidade entre as personalidades de José e de sua namorada. Os eventos em conjunto tendem à tensão: nunca se sabe se quem vem é José ou se é Clóvis - ou ainda se José se tornará Clóvis ao longo da noite. Uns preferem a presença de Clóvis à ausência de José, outros preferem sua total ausência à possibilidade da vinda de Clóvis. Não há consenso, nem todos concordam com a alternância de personalidade e nem todos discordam dela.

A namorada de José, todos deduzem, garante a ele: você não ficará sem mulher, não ficará sem discurso, não ficará sem carinho. Os amigos, inseguros em relação ao que devem e ao que não devem falar, pensam: o dia não virá, o bonde não virá, o riso não virá e nem virá a utopia, e tudo acabará, tudo mofará. Receiam, contudo, esse pensamento e optam pelo otimismo – até porque, quando saem junto com Clóvis, notam que suas personalidades são intercambiáveis e às vezes percebem que estão a falar com José por alguns minutos, antes de ele voltar a ser Clóvis. Vale ressaltar que José convive bem com Clóvis. José é consciente da existência do seu alterego, parece não ligar em sê-lo às vezes, e, na maioria das vezes, opta por ser o outro a ser ele mesmo.

Ninguém diz, mas todo mundo pensa: um dia, José poderá acabar sozinho no escuro, tal qual bicho-do-mato. E querem todos que ele não se iluda com falsas liberdades, com palavras gentis que confundam o seu discernimento. Querem apenas que ele dose bem os seus momentos como José e seus momentos como o outro, a fim de que sua festa não acabe, a luz não apague, o povo não suma, sua noite não esfrie e, por fim, ele tenha que perguntar a si mesmo: e agora, José?.