Tocou a campainha por duas, três vezes. Impaciente com a demora deu dois toques fortes na porta. Ouviu um “Já vai!”. E a doce voz, o encantou como sempre. Ela abriu a porta, sem tirar o pega-ladrão. Mas foi o suficiente para ver sua camisola transparente, e seu olhar penetrante.
- Está atrasado!” – disse ela.
- Trânsito! Posso entrar?” – respondeu afobado.
Ao entrar notou a cama bagunçada, e alguns preservativos espalhados na mesa. E isso lhe trouxe uma súbita fúria. Alguém esteve lá antes dele. Enquanto ela se distraía mexendo em sua bolsa, ele procurava traços do visitante indesejado.
- Algum problema? – ela perguntou num tom arrogante.
- Quem estava aqui com você?
- Não é dá sua conta, querido! – com o som abafado entre o gole de um uísque barato.
- Era um homem né? Um homem! Sua piranha!
Ela o fitava num tom desafiador. Com um sorriso no canto dos lábios que o deixava ainda mais nervoso.
- Ele comeu você? Você o chupou? Responde vagabunda!
- Vá se foder! – ela gritou atirando o copo em cima dele.
Foi a gota d’água. Puxou-a pelos cabelos com tanta força, que seus fios louros pareciam nylon sendo içados por um molinete. Ela se debateu quanto pode, nada que dois socos desferidos contra sua face não pudesse interromper. Ele a jogou na cama, rasgou sua pequena camisola e a invadiu com volúpia, enquanto suas mãos apertavam fortemente seu pescoço. Quanto mais forte as estocadas, mais o pescoço era envolvido. Seu êxtase fora rápido, talvez quatro, cinco minutos. O suficiente para deixá-la sem vida. Ele notará com algum espanto, o que tinha acontecido. Porem não havia ali nenhum arrependimento.
Fechou o zíper, arrumou o cabelo. E antes de partir lembrou o motivo de estar ali. Retirou da pequena sacola, duas caixinhas de Lexotan, e pegou da carteira da moça o exato valor dos remédios, mais a gorjeta. Que lhe era merecido.
Conto de Fernando Ferric
Mostrando postagens com marcador Ferric. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ferric. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 24 de março de 2011
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Wave of Mutilation
A postagem de hoje seria algo relacionado ao Natal, talvez colocasse um dos meus contos de natal sangrento ou sobrenatural. Mas apenas postarei uma homenagem ao cara que resolveu dois dias atrás tirar sua vida, se jogando do ultimo andar no centro da cidade. Passei talvez dois ou três minutos depois do ocorrido, onde as pessoas se aglomeravam nas sacadas e janelas e os transeuntes passavam tapando os olhos, ou riam do que acontecia.
Ouvi muita idiotice, vi como a vida alheia nada representa. Mas quem pode julgar aquele homem? Quem sabe as dores e angustias que o atormentavam? O salto de 40 metros ou mais, veio como um alívio, um analgésico eterno. Anos e anos de alegrias e tristezas, de amores e ódios, se esvaiam pelo concreto cinza da calçada.
Se ele quis assim, que bom que obteve sucesso.
Em sua homenagem deixo uma musica que aprecio, fala sobre suicidas japoneses.
Wave Of Mutilation - Pixies
Cease to resist, giving my goodbye
drive my car into the ocean
you'll think i'm dead, but i sail away
on a wave of mutilation
a wave
wave
i've kissed mermaids, rode the el nino
walked the sand with the crustaceans
could find my way to mariana
on a wave of mutilation,
wave of mutilation
wave of mutilation
wave
wave of mutilation
wave
Ouvi muita idiotice, vi como a vida alheia nada representa. Mas quem pode julgar aquele homem? Quem sabe as dores e angustias que o atormentavam? O salto de 40 metros ou mais, veio como um alívio, um analgésico eterno. Anos e anos de alegrias e tristezas, de amores e ódios, se esvaiam pelo concreto cinza da calçada.
Se ele quis assim, que bom que obteve sucesso.
Em sua homenagem deixo uma musica que aprecio, fala sobre suicidas japoneses.
Wave Of Mutilation - Pixies
Cease to resist, giving my goodbye
drive my car into the ocean
you'll think i'm dead, but i sail away
on a wave of mutilation
a wave
wave
i've kissed mermaids, rode the el nino
walked the sand with the crustaceans
could find my way to mariana
on a wave of mutilation,
wave of mutilation
wave of mutilation
wave
wave of mutilation
wave
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
45%
Ei! Escreva sobre mim. Descreva sobre como sou ruim.
Coloque em letras capitulares: MONSTRO, DEMONIO ou algo assim.
Quem sabe com isso, seja livre enfim?
Ei escritor! Conte quem sou, e relate todas penúrias que fiz.
Descreva também os que destruí. E aqueles que por vezes vieram contra mim.
Mas não se esqueça, EU sempre venci.
Ah! Antes de começar,ouça o sussurro que sibila em seus ouvidos.
Ele diz claramente:
Tome um pouquinho de mim. Só mais um pouco de mim. Tome um pouquinho de mim.
E essa será a ultima vez.
Talvez...
Fernando Ferric
Coloque em letras capitulares: MONSTRO, DEMONIO ou algo assim.
Quem sabe com isso, seja livre enfim?
Ei escritor! Conte quem sou, e relate todas penúrias que fiz.
Descreva também os que destruí. E aqueles que por vezes vieram contra mim.
Mas não se esqueça, EU sempre venci.
Ah! Antes de começar,ouça o sussurro que sibila em seus ouvidos.
Ele diz claramente:
Tome um pouquinho de mim. Só mais um pouco de mim. Tome um pouquinho de mim.
E essa será a ultima vez.
Talvez...
Fernando Ferric
domingo, 24 de outubro de 2010
CRIMES PERFEITOS NÃO DEIXAM SUSPEITOS
Já eram quase duas da tarde quando terminei minha entrevista de emprego.
Apesar do nervosismo natural que uma oportunidade dessa
causa, tinha confiança que havia me saído bem. O sol estava a pino e
meu estômago ansiava por comida. Na correria para não me atrasar fiz
um rápido desjejum com um copo de leite gelado.
No centro há uma variedade de restaurantes, em poucos metros encontramos
desde a requintada comida francesa até a saudável
cozinha oriental. Sem contar nas diversas lanchonetes
com seus “fast food’s” cada vez mais criativos.
No corre-corre, a multidão se aglomerava em busca de comida.
Mesmo nos tempos modernos, nos quais não precisamos caçar para comer
(pelo menos nas áreas urbanas), acredito que o homem ainda mantém sua
agressividade, ainda somos os mesmos predadores à procura do mais saboroso
alimento, dependendo é claro, do bolso de cada um.
O meu estava bem precário, devo admitir. Há algum tempo desempregado,
economizava o máximo que podia uma pequena reserva que mal pagava as contas básicas.
Pouco a pouco minha esperança por uma boa refeição diminuía.
O jeito era apelar para os
vendedores ambulantes, onde também havia muitas opções de “fast”
(ou “trash food” se atentarmos para tamanha falta de preocupação com
higiene de alguns vendedores).
Não sou um daqueles maníacos por limpeza, longe disso!
Mas com comida sou bastante exigente.
Após caminhar pouco mais de duas quadras, gastando alguns minutos
e a sola do meu sapato, enfim achei um lugar para comer.
Havia satisfação nas pessoas que comiam ali.
Que pelos dizeres da placa encostada no carro personalizado
de “Hotdog-móvel” degustavam um delicioso cachorro quente, que
podia ser com milho, bacon, ervilhas, prensado ou especial com direito
ainda a um copo de um refrescante suco de laranja ou limão.
Era o que meu estomago precisava, tudo que minha consciência
permitia e também tudo que meu dinheiro podia pagar.
O vendedor usava avental, touca no cabelo e pasmem até LUVAS!
Um verdadeiro “oásis no deserto” metropolitano!
Ele era um sujeito muito simpático, desses que atraem a
clientela com bom humor, brincava com seus clientes
enquanto preparava os lanches. Eu, tentando distrair a fome,
abri meu jornal à procura de alguma oportunidade de emprego que
pudesse ter deixado passar despercebida nos classificados.
Distraído na busca, só dei conta que minha vez havia chegado quando
fui interrompido pelo vendedor, perguntando como eu queria
o meu cachorro quente. Brinquei com ele dizendo que na minha
infância cachorro quente era: pão, salsicha, maionese, “catchup” e mostarda.
Mas com a fome que estava podia ser o especial.
- Cheio de sangue!
- O que disse? – perguntei a ele.
- A foto... A foto da capa! Está cheia de sangue...
- Ah sim! A manchete...
Ele se referia à foto de um homem que fora encontrado
morto na madrugada. E que em sua opinião seria provavelmente
“mais um crime sem solução”.
Discordei dizendo não acreditar em crimes perfeitos.
Ele riu mostrando que sua higiene com a comida não se estendia aos dentes.
-Há muitos crimes perfeitos, meu rapaz.
Tem gente muito criativa, com planos mirabolantes, esses jamais serão pegos –filosofou enquanto cortava meu pão.
Voltei à minha busca nos anúncios, mas ele novamente me interrompeu.
- Eu sei de um caso assim. Um crime em que o culpado jamais
foi descoberto, aliás, não houve ao menos crime perante as autoridades –disse ele enquanto passava a maionese.
Notando que não haveria sequer possibilidade de continuar minha leitura,
já que restara apenas eu para o vendedor tagarela papear,
dei o empurrãozinho que faltava para o homem me contar o causo.
- É mesmo?
- Sim! Sim! – disse ele empolgado, enquanto recheava meu “hot dog”
com milho e ervilhas. Sabe aqueles casais de quem todo mundo sente inveja?
Pois bem, conheci um casal assim. Ele amava aquela mulher mais que a si mesmo.
Fazia o que podia e não podia por ela.
Quando estavam juntos parecia
não haver nada ao redor dos dois. Todos dizem que ela era uma
mulher de sorte por ter encontrado um homem tão amável.
Mas talvez ela não pensasse assim, ou pelo menos naquela
altura do relacionamento o amor já não era tão intenso.
Digo isso por parte dela, pois nele dava para notar facilmente a
embriaguez da paixão. Todo o dia antes de voltar para casa,
ele comprava as mais belas flores e a presenteava com um lindo buquê.
Ela o recebia sempre com uma de suas camisolas de seda,
a qual caía muito bem em seu corpo levemente torneado.
E assim o romance foi levado até uma típica tarde de verão.
Sua mercadoria naquele dia foi toda vendida, ele estava contente,
com o bolso cheio de dinheiro e resolveu lhe fazer uma surpresa.
Mal sabia que naquele trágico dia a surpresa estava reservada para ele.
Antes de retornar para casa passou numa joalheria, onde sua amada
namorava há meses um lindo anel de prata recheado com
pequenas pedras ametistas. Ele, em segredo, guardou todos os dias
uma parte dos seus ganhos, conquistados com muito trabalho.
Fez isso durante semanas, e finalmente podia presenteá-la.
Pagou a jóia à vista. E pediu para a vendedora
o porta-anel mais bonito que houvesse na loja.
Era um lindo presente, não mais belo que os olhos de sua amada.
Não via a hora de lhe colocar a jóia no dedo, e ver seus olhos
reluzirem o brilho prateado do anel.
Ao chegar em casa, abriu a porta com cuidado
para surpreende-la, estava tudo silencioso. Tirou os sapatos e foi até a suíte.
No corredor pode ouvir o chuveiro, ela estava no
banho preparando-se para ele, pensou.
Abriu a porta do quarto devagar e se deparou com a cama desarrumada,
lá pôde ouvir melhor o som da água caindo no piso,
misturado com pequenas risadas e gemidos. No chão, espalhadas
pelo carpete azul, as roupas que para sua surpresa e desgraça
não eram apenas de sua mulher.
Suas mãos trêmulas eram quase impossíveis de coordenar,
mas o seu ódio o conduzia. A porta do banheiro estava apenas
encostada e ele com um toque sutil abriu apenas o suficiente para ver com seus
próprios olhos, através do box de vidro transparente, sua mulher, de joelhos.
A razão da sua vida, usando todo prazer que sua carícia oral oferecia
em outro homem.
A vontade do homem traído era arrebentar os dois naquele momento.
Mas não o fez.
- Não o fez? – perguntei nessa altura já com a boca cheia de pão e salsicha.
- Não! Ele se conteve, jogou o anel no chão, saiu do quarto
com a mesma discrição que entrou e foi até o quartinho de ferramentas.
Ao abrir, imaginou o estrago que cada uma daquelas ferramentas
poderia produzir nos amantes. E preferiu o machado.
Sua escolha não poderia ter sido melhor, pois afiado como estava,
depois de cortar lenhas durante todo o inverno, seria como cortar manteiga
com faca quente.
Os gemidos e gritos de prazer invadiam todo o corredor, eles se amavam mais
e mais sem ao menos imaginar o terrível destino que os esperava.
Ele voltou ao quarto com o machado em punho, nessa hora sem a preocupação
de ser notado. Abriu a porta do banheiro, e se aproximou do box.
Sua companheira e o amante nessa altura nem
poderia nota-lo devido à posição em que se encontravam.
Com toda sua força, o homem traído desferiu um golpe contra o box,
o som do vidro estilhaçado pelo machado envolto
ao grito de dor do amante,
que sofrera com toda a carga da lamina do machado em suas costas,
transformou o ambiente.
Ele sentiu prazer ao ver sua mulher desesperada partir em cima dele,
e com um soco violento em seu rosto atirou-a no chão.
O amante, caído, tentava se arrastar, cortando sua pele nos estilhaços.
Em vão. O algoz se aproximou e prensando as costas da vitima contra o piso,
retirou o machado com fúria maior que a usada
para cravar-lhe anteriormente. Então com o poder de um carrasco encostou
a lamina manchada pelo sangue no pescoço do desventurado.
Ele queria que o sujeito sentisse todo o pavor, queria que o sussurro da morte
iminente lhe soprasse os ouvidos naquele instante para então desferir o golpe fatal.
A cabeça, arrancada do corpo parecia banhar-se no sangue.
Então voltou sua atenção para ela, o amor da sua vida, que tentava se levantar.
Estava branca como leite, com o lado esquerdo da face inchado pelo
golpe que sofrera. E mesmo assim ainda era atraente, sua beleza hipnotizava
o pobre homem, e ela sabia disso. Suplicando para que ele poupasse sua vida,
ficou de joelhos.
Ele não conseguia odiá-la, por mais que quisesse, e como queria...
Mas não conseguia. Aproximou-se chorando e deu lhe um beijo suave na testa.
Mas fora traído novamente. E sentiu a sua fronte ser cortada por um
pedaço pontiagudo de vidro que ela sorrateiramente apanhou do chão.
Ele caiu e ela na tentativa da fuga escorregou no piso molhado de água e sangue.
Então ele a pegou novamente, mas dessa vez sem piedade alguma
socou sua cabeça no chão, uma, duas, dez vezes, quanto mais batia,
mais queria bater, e assim o fez. Até que o barulho das batidas foi
ficando cada vezmais abafado pela massa encefálica que recheava o piso,
os longos fios louros da amada e seus dedos.
Então ele sentou-se embaixo do chuveiro e ali permaneceu por horas.
Quando voltou a si, sentiu-se bem por tudo aquilo, tinha lavado sua honra e
precisava limpar tudo aquilo. Pensou por um tempo numa maneira de
ocultar todo aquele lixo, aqueles dois imensos pedaços de escória
que sujavam seu banheiro.
E arrumou uma maneira, digamos... Criativa! Um plano perfeito para que
nunca fosse descoberto. E assim o fez. Até hoje ela e o amante, um vendedor
de livros, são dados como desaparecidos. E o homem pode assim ter
novamente sua vida, com dignidade e honra. Um crime perfeito viu só?
- É isso? E a polícia? Nada descobriu? – perguntei
- Nada! Bom, meu rapaz, vejo que terminou seu lanche, e já está
na minha hora – respondeu-me o vendedor tirando suas luvas e o avental.
- Mas o que ele fez com os corpos?
- Desfez-se deles. Ora, use sua imaginação...
- Não, espera! Se fosse um crime perfeito você não saberia.
Ao menos que...
Foi então que notei, ao vê-lo sem touca,
uma enorme cicatriz em sua face.
Isso me gelou a espinha, e me paralisou de tal forma que
não consegui dizer mais nada. O homem terminou de guardar
suas coisas, entrou no carro e partiu.
Pasmo com tudo aquilo, senti um pequeno incomodo, como se houvesse
chupado uma manga e um fiapo tivesse preso entre os dentes, cutuquei
com o dedo e retirei um pequeno fio de cabelo louro. E aquilo me trouxe
a última coisa que o vendedor me disse quando o questionei sobre os corpos...
“Use sua imaginação...”
Conto de Fernando Ferric - Col. Impossível
Apesar do nervosismo natural que uma oportunidade dessa
causa, tinha confiança que havia me saído bem. O sol estava a pino e
meu estômago ansiava por comida. Na correria para não me atrasar fiz
um rápido desjejum com um copo de leite gelado.
No centro há uma variedade de restaurantes, em poucos metros encontramos
desde a requintada comida francesa até a saudável
cozinha oriental. Sem contar nas diversas lanchonetes
com seus “fast food’s” cada vez mais criativos.
No corre-corre, a multidão se aglomerava em busca de comida.
Mesmo nos tempos modernos, nos quais não precisamos caçar para comer
(pelo menos nas áreas urbanas), acredito que o homem ainda mantém sua
agressividade, ainda somos os mesmos predadores à procura do mais saboroso
alimento, dependendo é claro, do bolso de cada um.
O meu estava bem precário, devo admitir. Há algum tempo desempregado,
economizava o máximo que podia uma pequena reserva que mal pagava as contas básicas.
Pouco a pouco minha esperança por uma boa refeição diminuía.
O jeito era apelar para os
vendedores ambulantes, onde também havia muitas opções de “fast”
(ou “trash food” se atentarmos para tamanha falta de preocupação com
higiene de alguns vendedores).
Não sou um daqueles maníacos por limpeza, longe disso!
Mas com comida sou bastante exigente.
Após caminhar pouco mais de duas quadras, gastando alguns minutos
e a sola do meu sapato, enfim achei um lugar para comer.
Havia satisfação nas pessoas que comiam ali.
Que pelos dizeres da placa encostada no carro personalizado
de “Hotdog-móvel” degustavam um delicioso cachorro quente, que
podia ser com milho, bacon, ervilhas, prensado ou especial com direito
ainda a um copo de um refrescante suco de laranja ou limão.
Era o que meu estomago precisava, tudo que minha consciência
permitia e também tudo que meu dinheiro podia pagar.
O vendedor usava avental, touca no cabelo e pasmem até LUVAS!
Um verdadeiro “oásis no deserto” metropolitano!
Ele era um sujeito muito simpático, desses que atraem a
clientela com bom humor, brincava com seus clientes
enquanto preparava os lanches. Eu, tentando distrair a fome,
abri meu jornal à procura de alguma oportunidade de emprego que
pudesse ter deixado passar despercebida nos classificados.
Distraído na busca, só dei conta que minha vez havia chegado quando
fui interrompido pelo vendedor, perguntando como eu queria
o meu cachorro quente. Brinquei com ele dizendo que na minha
infância cachorro quente era: pão, salsicha, maionese, “catchup” e mostarda.
Mas com a fome que estava podia ser o especial.
- Cheio de sangue!
- O que disse? – perguntei a ele.
- A foto... A foto da capa! Está cheia de sangue...
- Ah sim! A manchete...
Ele se referia à foto de um homem que fora encontrado
morto na madrugada. E que em sua opinião seria provavelmente
“mais um crime sem solução”.
Discordei dizendo não acreditar em crimes perfeitos.
Ele riu mostrando que sua higiene com a comida não se estendia aos dentes.
-Há muitos crimes perfeitos, meu rapaz.
Tem gente muito criativa, com planos mirabolantes, esses jamais serão pegos –filosofou enquanto cortava meu pão.
Voltei à minha busca nos anúncios, mas ele novamente me interrompeu.
- Eu sei de um caso assim. Um crime em que o culpado jamais
foi descoberto, aliás, não houve ao menos crime perante as autoridades –disse ele enquanto passava a maionese.
Notando que não haveria sequer possibilidade de continuar minha leitura,
já que restara apenas eu para o vendedor tagarela papear,
dei o empurrãozinho que faltava para o homem me contar o causo.
- É mesmo?
- Sim! Sim! – disse ele empolgado, enquanto recheava meu “hot dog”
com milho e ervilhas. Sabe aqueles casais de quem todo mundo sente inveja?
Pois bem, conheci um casal assim. Ele amava aquela mulher mais que a si mesmo.
Fazia o que podia e não podia por ela.
Quando estavam juntos parecia
não haver nada ao redor dos dois. Todos dizem que ela era uma
mulher de sorte por ter encontrado um homem tão amável.
Mas talvez ela não pensasse assim, ou pelo menos naquela
altura do relacionamento o amor já não era tão intenso.
Digo isso por parte dela, pois nele dava para notar facilmente a
embriaguez da paixão. Todo o dia antes de voltar para casa,
ele comprava as mais belas flores e a presenteava com um lindo buquê.
Ela o recebia sempre com uma de suas camisolas de seda,
a qual caía muito bem em seu corpo levemente torneado.
E assim o romance foi levado até uma típica tarde de verão.
Sua mercadoria naquele dia foi toda vendida, ele estava contente,
com o bolso cheio de dinheiro e resolveu lhe fazer uma surpresa.
Mal sabia que naquele trágico dia a surpresa estava reservada para ele.
Antes de retornar para casa passou numa joalheria, onde sua amada
namorava há meses um lindo anel de prata recheado com
pequenas pedras ametistas. Ele, em segredo, guardou todos os dias
uma parte dos seus ganhos, conquistados com muito trabalho.
Fez isso durante semanas, e finalmente podia presenteá-la.
Pagou a jóia à vista. E pediu para a vendedora
o porta-anel mais bonito que houvesse na loja.
Era um lindo presente, não mais belo que os olhos de sua amada.
Não via a hora de lhe colocar a jóia no dedo, e ver seus olhos
reluzirem o brilho prateado do anel.
Ao chegar em casa, abriu a porta com cuidado
para surpreende-la, estava tudo silencioso. Tirou os sapatos e foi até a suíte.
No corredor pode ouvir o chuveiro, ela estava no
banho preparando-se para ele, pensou.
Abriu a porta do quarto devagar e se deparou com a cama desarrumada,
lá pôde ouvir melhor o som da água caindo no piso,
misturado com pequenas risadas e gemidos. No chão, espalhadas
pelo carpete azul, as roupas que para sua surpresa e desgraça
não eram apenas de sua mulher.
Suas mãos trêmulas eram quase impossíveis de coordenar,
mas o seu ódio o conduzia. A porta do banheiro estava apenas
encostada e ele com um toque sutil abriu apenas o suficiente para ver com seus
próprios olhos, através do box de vidro transparente, sua mulher, de joelhos.
A razão da sua vida, usando todo prazer que sua carícia oral oferecia
em outro homem.
A vontade do homem traído era arrebentar os dois naquele momento.
Mas não o fez.
- Não o fez? – perguntei nessa altura já com a boca cheia de pão e salsicha.
- Não! Ele se conteve, jogou o anel no chão, saiu do quarto
com a mesma discrição que entrou e foi até o quartinho de ferramentas.
Ao abrir, imaginou o estrago que cada uma daquelas ferramentas
poderia produzir nos amantes. E preferiu o machado.
Sua escolha não poderia ter sido melhor, pois afiado como estava,
depois de cortar lenhas durante todo o inverno, seria como cortar manteiga
com faca quente.
Os gemidos e gritos de prazer invadiam todo o corredor, eles se amavam mais
e mais sem ao menos imaginar o terrível destino que os esperava.
Ele voltou ao quarto com o machado em punho, nessa hora sem a preocupação
de ser notado. Abriu a porta do banheiro, e se aproximou do box.
Sua companheira e o amante nessa altura nem
poderia nota-lo devido à posição em que se encontravam.
Com toda sua força, o homem traído desferiu um golpe contra o box,
o som do vidro estilhaçado pelo machado envolto
ao grito de dor do amante,
que sofrera com toda a carga da lamina do machado em suas costas,
transformou o ambiente.
Ele sentiu prazer ao ver sua mulher desesperada partir em cima dele,
e com um soco violento em seu rosto atirou-a no chão.
O amante, caído, tentava se arrastar, cortando sua pele nos estilhaços.
Em vão. O algoz se aproximou e prensando as costas da vitima contra o piso,
retirou o machado com fúria maior que a usada
para cravar-lhe anteriormente. Então com o poder de um carrasco encostou
a lamina manchada pelo sangue no pescoço do desventurado.
Ele queria que o sujeito sentisse todo o pavor, queria que o sussurro da morte
iminente lhe soprasse os ouvidos naquele instante para então desferir o golpe fatal.
A cabeça, arrancada do corpo parecia banhar-se no sangue.
Então voltou sua atenção para ela, o amor da sua vida, que tentava se levantar.
Estava branca como leite, com o lado esquerdo da face inchado pelo
golpe que sofrera. E mesmo assim ainda era atraente, sua beleza hipnotizava
o pobre homem, e ela sabia disso. Suplicando para que ele poupasse sua vida,
ficou de joelhos.
Ele não conseguia odiá-la, por mais que quisesse, e como queria...
Mas não conseguia. Aproximou-se chorando e deu lhe um beijo suave na testa.
Mas fora traído novamente. E sentiu a sua fronte ser cortada por um
pedaço pontiagudo de vidro que ela sorrateiramente apanhou do chão.
Ele caiu e ela na tentativa da fuga escorregou no piso molhado de água e sangue.
Então ele a pegou novamente, mas dessa vez sem piedade alguma
socou sua cabeça no chão, uma, duas, dez vezes, quanto mais batia,
mais queria bater, e assim o fez. Até que o barulho das batidas foi
ficando cada vezmais abafado pela massa encefálica que recheava o piso,
os longos fios louros da amada e seus dedos.
Então ele sentou-se embaixo do chuveiro e ali permaneceu por horas.
Quando voltou a si, sentiu-se bem por tudo aquilo, tinha lavado sua honra e
precisava limpar tudo aquilo. Pensou por um tempo numa maneira de
ocultar todo aquele lixo, aqueles dois imensos pedaços de escória
que sujavam seu banheiro.
E arrumou uma maneira, digamos... Criativa! Um plano perfeito para que
nunca fosse descoberto. E assim o fez. Até hoje ela e o amante, um vendedor
de livros, são dados como desaparecidos. E o homem pode assim ter
novamente sua vida, com dignidade e honra. Um crime perfeito viu só?
- É isso? E a polícia? Nada descobriu? – perguntei
- Nada! Bom, meu rapaz, vejo que terminou seu lanche, e já está
na minha hora – respondeu-me o vendedor tirando suas luvas e o avental.
- Mas o que ele fez com os corpos?
- Desfez-se deles. Ora, use sua imaginação...
- Não, espera! Se fosse um crime perfeito você não saberia.
Ao menos que...
Foi então que notei, ao vê-lo sem touca,
uma enorme cicatriz em sua face.
Isso me gelou a espinha, e me paralisou de tal forma que
não consegui dizer mais nada. O homem terminou de guardar
suas coisas, entrou no carro e partiu.
Pasmo com tudo aquilo, senti um pequeno incomodo, como se houvesse
chupado uma manga e um fiapo tivesse preso entre os dentes, cutuquei
com o dedo e retirei um pequeno fio de cabelo louro. E aquilo me trouxe
a última coisa que o vendedor me disse quando o questionei sobre os corpos...
“Use sua imaginação...”
Conto de Fernando Ferric - Col. Impossível
terça-feira, 24 de agosto de 2010
SEIS
Sei que muitos me acharão louco, ao ler o que vou contar nas próximas linhas, mas o mal que me acometera obriga-me a narrar os últimos acontecimentos. Como não quero ter os holofotes sobre mim e os que me cercam, vou com sua licença ocultar meu nome e dos demais envolvidos.
Sempre tive uma vida tranqüila morando numa pacata cidade do interior, nunca fui de muitos amigos, tenho poucos (conto nos dedos!). Cidade pequena é engraçada, sua vida e seus hábitos acabam sendo de conhecimento de todos, querendo ou não. Mas sempre zelei pela privacidade. Trabalho em casa, porque, graças à internet, posso mandar por e-mail meus artigos e crônicas diariamente para o jornal em que atuo. Conquistei essa “mordomia” após anos de muita labuta, cobrindo de passeatas a rebeliões. Há alguns anos escrevo apenas sobre o cenário político da região. No interior poucos têm peito para cutucar os barões! Não preciso dizer que colecionei inimigos. Muitos! Mas, deixemos isso de lado no momento. Não é o motivo por que estou contando essa história. Talvez até seja... Não sei! Desconheço o motivo de quem me desgraçou, se por aflição ou vingança.
Atenta-te aos fatos:
No fim da tarde voltando do mercado, (uma das poucas tarefas em que preciso realmente sair de casa) notei embaixo da porta um envelope, de papel pardo, sem selo e remetente, tinha apenas meu nome. Tirando as cobranças e santinhos de políticos em época de eleição, não lembro de receber correspondências de ninguém.
Abri a porta e depois de alguns afagos no gato, sentei-me confortavelmente na poltrona e abri o envelope, nele havia uma carta, escrita a mão, com uma caligrafia feia, desajeitada. Não imaginei que a desgraça seria parte da minha vida naquele momento. Ah! Se pudesse voltar atrás... Li, sem entender o que era aquilo, porque alguém me enviaria algo do tipo? Tentavam pregar-me uma peça talvez? Decerto que, aquela mensagem, aquelas minúsculas letras malignas, havia me tirado a fome, a tranqüilidade e o sono. O frio chegou de repente, sem aviso! Coloquei uma blusa e acendi a lareira, estranhei, pois ainda estávamos no verão. Fiquei por longas horas tentando descobrir a origem daquela carta. Maldita carta! Atormentava-me, causava em mim delírios, alucinações, tremores. Já era duas, talvez três da madrugada quando desisti e fui me deitar. De repente uma batida forte na porta me fez saltar da cama, levantei e pensei se devia abrir ou fingir dormir. Fui lentamente até a porta, devo admitir, estava com medo, aquela simples carta me causava pavor nunca antes provado. O movimento de girar a chave durou a eternidade. Abri lentamente, numa tentativa ridícula de defesa, piorando a situação com um estridente ranger de porta. Não havia ninguém, tomei coragem e sai até a entrada da casa, e nada! Ah imaginação! Meu medo era matreiro, estava me fazendo ouvir coisas. Ri da minha própria miséria.
Voltei para casa, fechei a porta, e antes que pudesse voltar ao meu repouso, o que vi quase arrancou meus olhos da órbita, sei que não serei capaz de descrever com precisão a face horrenda que se apresentara, e o pavor que senti gravou na minha memória o essencial, não que isso fosse necessário agora. Não sei explicar como, (sem usar o imponderável poder das trevas) adentrou em meus aposentos. Era sombrio, misterioso, suas vestes pretas realçavam a brancura de sua pele, que parecia lisa como porcelana. Seu cabelo era escorregadio, e bem escuro. O homem ou seja lá o que for, fitava-me de uma maneira tão abusiva que sentia minhas entranhas contorcerem. Pensei ser meu algoz. Meu carrasco! Mas ele nada fez... E isso fora minha tortura. A ausência de qualquer gesto ou ameaça... Apenas o olhar. Oh, funesto e devastador olhar. Com dificuldade proferi algumas palavras, desconexas pelo medo. Sem reação. Tentei! Ah! Como tentei livrar-me! Abri a porta, e com o braço apontado para a rua, exigi que se retirasse. Em vão! E no ápice da minha ira sobre o visitante indesejado, parti com fúria em sua direção, e antes de sequer lhe encostar um dedo, fui arremessado bruscamente ao chão. Para meu espanto, e creio agora que assim ficará também meu caro leitor, atirou-me sem mover um músculo. Veludo, meu azulado persa gordo, numa atitude cínica se enroscou nas pernas do homem. E ali ficou. Judas felino! Gritei, chorei, implorei para que partisse, mas piedade era algo que não havia em sua feição.
Quando a loucura queimava meu corpo como febre. Ele apontou a carta. Li, e percebi do que se tratava. Então obstinado, assim estava eu, em salvar-me da agonia, coloquei-me a pensar sobre aquilo. A maldade paquerou-me. Nomes, sobrenomes, motivos! Aquilo havia me transformado. Era eu agora um juiz. Impiedoso! Tudo aos olhares do indigesto visitante. Não é que em algumas olhadelas, ele até parecia-me sorrir? Oh! Criatura demoníaca levastes minha decência...
O prefeito corrupto encabeçou minha lista com aquele sobrenome nojento. Não agüentou tamanha agonia. Morreu pendurado, em seu próprio gabinete. No aconchego do lar, sonhei com aquele porco como um pêndulo, enforcado em sua própria gravata. O segundo me trouxe tanto prazer como o primeiro. Notei os olhos em chamas daquele ao meu lado, ao ver que era um padre, tão impiedoso e desonesto com seus fieis... Abusando da ignorância daquelas pobres almas, conduzindo-os aos interesses dos poderosos. Esse findou louco, ouvi dizer que em um sanatório católico. A loucura também abraçou Anna (vamos assim chamá-la), essa senhora, matou a própria filha num castigo insano. Graças aos tramites da Lei estava solta, perambulando com peculiar empáfia, até (é claro!) receber minha carta. Como também recebeu o senhor que abusava de crianças, mesmo preso, achei que, as grades e aquele cubículo gelado em que vivia ainda era pena muito suave. De uma hora para outra parou de ingerir, entrando em um estado anêmico sem volta, que culminou na sua morte. Dizia haver vermes em suas refeições. E não duvido que realmente o miserável tivesse certo. Para não deixar Anna como única fêmea nessa lista mortal, enviei um envelope para minha outrora amada, que me trocara sem dó. Nesse, fiz questão de por meu nome no remetente, e numa forma de sarcasmo comecei a carta com os dizeres – Minha querida – seguindo assim a mensagem:
Quando a porta atravessar,
Estarei a esperar;
Ao olhares pela janela,
Estarei a observar;
Na luz do dia ou no crepúsculo,
Estarei a te acompanhar;
Como em seus sonhos e pesadelos,
Ainda me encontrará!
Torna-te minha propriedade,
E não há como escapar;
Sem em barganha da sua,
Seis almas apresentar!
E assim, livro-me de minha peste. Já o vejo, de pronto na porta. Vai-te demônio! Agora tu predestinado leitor, conhece a composição demoníaca que havia naquela carta. Aos outros, tive por vingança retirar por conta o ultimo verso. Mas nesse caso não vejo motivo qualquer para tamanha crueldade. Como talvez não tivera quem me praguejara com tamanha maldição. Por fim, não precisa esforçar-te muito com cálculos matemáticos para saber que, para salvar-me da agonia me carecia apenas um...
Conto de Fernando Ferric - Col. Impossível
Sempre tive uma vida tranqüila morando numa pacata cidade do interior, nunca fui de muitos amigos, tenho poucos (conto nos dedos!). Cidade pequena é engraçada, sua vida e seus hábitos acabam sendo de conhecimento de todos, querendo ou não. Mas sempre zelei pela privacidade. Trabalho em casa, porque, graças à internet, posso mandar por e-mail meus artigos e crônicas diariamente para o jornal em que atuo. Conquistei essa “mordomia” após anos de muita labuta, cobrindo de passeatas a rebeliões. Há alguns anos escrevo apenas sobre o cenário político da região. No interior poucos têm peito para cutucar os barões! Não preciso dizer que colecionei inimigos. Muitos! Mas, deixemos isso de lado no momento. Não é o motivo por que estou contando essa história. Talvez até seja... Não sei! Desconheço o motivo de quem me desgraçou, se por aflição ou vingança.
Atenta-te aos fatos:
No fim da tarde voltando do mercado, (uma das poucas tarefas em que preciso realmente sair de casa) notei embaixo da porta um envelope, de papel pardo, sem selo e remetente, tinha apenas meu nome. Tirando as cobranças e santinhos de políticos em época de eleição, não lembro de receber correspondências de ninguém.
Abri a porta e depois de alguns afagos no gato, sentei-me confortavelmente na poltrona e abri o envelope, nele havia uma carta, escrita a mão, com uma caligrafia feia, desajeitada. Não imaginei que a desgraça seria parte da minha vida naquele momento. Ah! Se pudesse voltar atrás... Li, sem entender o que era aquilo, porque alguém me enviaria algo do tipo? Tentavam pregar-me uma peça talvez? Decerto que, aquela mensagem, aquelas minúsculas letras malignas, havia me tirado a fome, a tranqüilidade e o sono. O frio chegou de repente, sem aviso! Coloquei uma blusa e acendi a lareira, estranhei, pois ainda estávamos no verão. Fiquei por longas horas tentando descobrir a origem daquela carta. Maldita carta! Atormentava-me, causava em mim delírios, alucinações, tremores. Já era duas, talvez três da madrugada quando desisti e fui me deitar. De repente uma batida forte na porta me fez saltar da cama, levantei e pensei se devia abrir ou fingir dormir. Fui lentamente até a porta, devo admitir, estava com medo, aquela simples carta me causava pavor nunca antes provado. O movimento de girar a chave durou a eternidade. Abri lentamente, numa tentativa ridícula de defesa, piorando a situação com um estridente ranger de porta. Não havia ninguém, tomei coragem e sai até a entrada da casa, e nada! Ah imaginação! Meu medo era matreiro, estava me fazendo ouvir coisas. Ri da minha própria miséria.
Voltei para casa, fechei a porta, e antes que pudesse voltar ao meu repouso, o que vi quase arrancou meus olhos da órbita, sei que não serei capaz de descrever com precisão a face horrenda que se apresentara, e o pavor que senti gravou na minha memória o essencial, não que isso fosse necessário agora. Não sei explicar como, (sem usar o imponderável poder das trevas) adentrou em meus aposentos. Era sombrio, misterioso, suas vestes pretas realçavam a brancura de sua pele, que parecia lisa como porcelana. Seu cabelo era escorregadio, e bem escuro. O homem ou seja lá o que for, fitava-me de uma maneira tão abusiva que sentia minhas entranhas contorcerem. Pensei ser meu algoz. Meu carrasco! Mas ele nada fez... E isso fora minha tortura. A ausência de qualquer gesto ou ameaça... Apenas o olhar. Oh, funesto e devastador olhar. Com dificuldade proferi algumas palavras, desconexas pelo medo. Sem reação. Tentei! Ah! Como tentei livrar-me! Abri a porta, e com o braço apontado para a rua, exigi que se retirasse. Em vão! E no ápice da minha ira sobre o visitante indesejado, parti com fúria em sua direção, e antes de sequer lhe encostar um dedo, fui arremessado bruscamente ao chão. Para meu espanto, e creio agora que assim ficará também meu caro leitor, atirou-me sem mover um músculo. Veludo, meu azulado persa gordo, numa atitude cínica se enroscou nas pernas do homem. E ali ficou. Judas felino! Gritei, chorei, implorei para que partisse, mas piedade era algo que não havia em sua feição.
Quando a loucura queimava meu corpo como febre. Ele apontou a carta. Li, e percebi do que se tratava. Então obstinado, assim estava eu, em salvar-me da agonia, coloquei-me a pensar sobre aquilo. A maldade paquerou-me. Nomes, sobrenomes, motivos! Aquilo havia me transformado. Era eu agora um juiz. Impiedoso! Tudo aos olhares do indigesto visitante. Não é que em algumas olhadelas, ele até parecia-me sorrir? Oh! Criatura demoníaca levastes minha decência...
O prefeito corrupto encabeçou minha lista com aquele sobrenome nojento. Não agüentou tamanha agonia. Morreu pendurado, em seu próprio gabinete. No aconchego do lar, sonhei com aquele porco como um pêndulo, enforcado em sua própria gravata. O segundo me trouxe tanto prazer como o primeiro. Notei os olhos em chamas daquele ao meu lado, ao ver que era um padre, tão impiedoso e desonesto com seus fieis... Abusando da ignorância daquelas pobres almas, conduzindo-os aos interesses dos poderosos. Esse findou louco, ouvi dizer que em um sanatório católico. A loucura também abraçou Anna (vamos assim chamá-la), essa senhora, matou a própria filha num castigo insano. Graças aos tramites da Lei estava solta, perambulando com peculiar empáfia, até (é claro!) receber minha carta. Como também recebeu o senhor que abusava de crianças, mesmo preso, achei que, as grades e aquele cubículo gelado em que vivia ainda era pena muito suave. De uma hora para outra parou de ingerir, entrando em um estado anêmico sem volta, que culminou na sua morte. Dizia haver vermes em suas refeições. E não duvido que realmente o miserável tivesse certo. Para não deixar Anna como única fêmea nessa lista mortal, enviei um envelope para minha outrora amada, que me trocara sem dó. Nesse, fiz questão de por meu nome no remetente, e numa forma de sarcasmo comecei a carta com os dizeres – Minha querida – seguindo assim a mensagem:
Quando a porta atravessar,
Estarei a esperar;
Ao olhares pela janela,
Estarei a observar;
Na luz do dia ou no crepúsculo,
Estarei a te acompanhar;
Como em seus sonhos e pesadelos,
Ainda me encontrará!
Torna-te minha propriedade,
E não há como escapar;
Sem em barganha da sua,
Seis almas apresentar!
E assim, livro-me de minha peste. Já o vejo, de pronto na porta. Vai-te demônio! Agora tu predestinado leitor, conhece a composição demoníaca que havia naquela carta. Aos outros, tive por vingança retirar por conta o ultimo verso. Mas nesse caso não vejo motivo qualquer para tamanha crueldade. Como talvez não tivera quem me praguejara com tamanha maldição. Por fim, não precisa esforçar-te muito com cálculos matemáticos para saber que, para salvar-me da agonia me carecia apenas um...
Conto de Fernando Ferric - Col. Impossível
Assinar:
Postagens (Atom)