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sexta-feira, 27 de setembro de 2019

A Coleção Definitiva do Homem-Aranha: saldo (quase) final


Entre mortos, feridos, formatinhos e uma lombada formando um The Thing

O Hulk e o Homem-Aranha sempre foram meus personagens de cabeceira. Comecei com eles e, suspeito, é com eles que vou terminar. Enquanto o catálogo BR do Verdão anda numa fase interessante, com a bem-sucedida Coleção Histórica Marvel e o revisionismo bacanudo de O Imortal Hulk, o Teioso já amarga alguns anos com uma atribulada grade de programações. Especialmente para os leitores que nunca saíram da velha escola, como este que vos rabisca.

Recentemente, a Edição Definitiva Vol. 1 reacendeu a velha faísca, mesmo prejudicada pelas polêmicas da 1ª tiragem mal editada. Tudo corrigido, resolvi apostar, sem garantia de continuidade e muito menos de ace$$ibilidade. Seja o que Tio Ben quiser.

O fato é que, há uns meses, tive uma epifania: preciso fazer uma coleção do Homem-Aranha antes de morrer. Ou morrer tentando. E quem me deu o primeiro estalo neste sentido foi a já descarrilhada A Coleção Definitiva do Homem-Aranha, da Salvat. Sem brincadeira.

Claro que essa coleção "definitiva" é dolorosamente irregular e nem em sonho (ou pesadelo) eu pegaria inteira. E ainda passei um punhado das edições legais: A Saga da Plaqueta Ancestral (vol. 30) tenho completa nas CHM's Homem-Aranha vols. 3 e 7, Homens sem Medo (vol. 39) tenho a aventura principal em Super-Heróis Premium Homem-Aranha #15, A Morte de Jean DeWolff (vol. 8) - nossa resenha da saga já completou 14 aninhos - junto com A Última Caçada de Kraven (vol. 35) tenho até em versão 4D com esguicho de água no rosto e cadeira sacudindo. Já o Gatuno Hobie Brown na capa de O Rapto de Mary Jane (vol. 24) apela aos meus sentimentos mais vermísticos, porém tenho problemas psicológicos com o traço do Todd McFarlane.

Em contrapartida, pude botar minhas patas em pérolas como Nada Pode Deter o Fanático! (vol. 26), A Saga Original do Clone (vol. 3, uma leve atualizada na coleção), o freakshow de A Marca do Tarântula (vol. 34), A Morte da Tia May (vol. 21 - ah, a arte do Keith Pollard!), a divertida A Vingança de Venom (vol. 40) e o icônico "erro estratégico" O Casamento (vol. 14). Tudo finalmente em formato americano, na íntegra e com papel gostoso.

Uma pequena-mas-charmosinha seleção. Contudo... ainda faltava um, Caça ao Aranha (vol. 22, mas o último lançado pela editora, vai entender). Então, por que comprá-lo, por que não comprá-lo, por que comprá-lo, por que não comprá-lo...

Revisitando meus formatinhos da Abril, lembrei que o arco Temporada de Caça traz uma narrativa decente para o bom e velho Spidey. E ainda aquele encontrão com o Tarântula Negra...



O Tarântula Negra - o argentino Carlos LaMuerto - é o Slade Wilson do Cabeça de Teia. Ou era pra ser. Sem mais.

Comprei-o-o.

segunda-feira, 31 de março de 2014

31 de março!


Quem ainda compra gibi em sebo sabe. Poucas sensações são tão prazeirosas (e de um déjà vu desconcertante) quanto reencontrar aquela história que você leu há tempos e que estava perdida na gaveta mais empoeirada da memória. É quase como entrar em contato direto com aquele guri de 8 anos uma vez mais - e considerando que nunca enterrei por aí uma caixinha com meus mais valiosos pertences da época, é o mais próximo que posso chegar disso. Nostalgia pura, que seja, mas a epifania é garantida.

Tenho lá minha montanha de gibis desenterrados nos sebos ao longo dos últimos 13 anos, quanto voltei a ler quadrinhos. Uma maioria de formatinhos da Abril, guardada em caixas e esperando pacientemente para serem lidas ou relidas, mas que acabam sendo apenas limpas e colocadas de volta no lugar. Faz parte. Mas é o momento em que eu geralmente folheio essas edições e revejo algumas relíquias de valor mais sentimental do que qualquer outra coisa.

Muitas delas eu nem sabia que já tinha nos arquivos, como um divertido conto protagonizado pelo Coisa que saiu na revista Homem-Aranha #31 (janeiro de 1986). Memória recorrente desde sei lá quando e que eu nem lembrava onde tinha lido. Uma revista que me traz muitas lembranças marcantes sobre a minha percepção acerca dos quadrinhos, mas que me cativou primeiro com essa história.


"Naquela Noite" foi escrita e desenhada pelo genial Barry Windsor-Smith, um cara que sempre imaginei que não tivesse um pingo de senso de humor. Afinal, era o ogro responsável por clássicos macho-pra-caralho como Wolverine: Arma X e várias sagas do Conan. Mas não seria diferente, já que era uma típica "história de 1º de abril", com o Tocha Humana armando uma pegadinha-monstro pra cima do sobrinho favorito da Tia Petúnia. No dia errado.

A história foi publicada originalmente na revista Marvel Fanfare #15 (1982) - um título bacana de histórias escapistas, fica a recomendação. Talvez tenha sido a primeira vez que ouvi falar em um Super-Skrull (que legal!) e a participação especial do H.E.R.B.I.E. plantou várias dúvidas na minha cabecinha de telespectador assíduo dos Quatro Fantásticos. E eu ainda achava que tudo ali iria desembocar num quebra-pau generalizado.

Acho que caí na pegadinha do Tocha tanto quanto o Coisa.


E não é que só agora, quase 30 anos depois, fui ver a punchline do Windsor-Smith no epílogo da historinha?

Ah, aquele charuto...

"Naquela Noite" pra baixar.

Um feliz 31 de março!

sexta-feira, 13 de julho de 2007

PIXEL NA COVA DOS LEÕES


Quem dera que Alan Moore fosse brasileiro e escrevesse textos sobre quadrinhos pra Folha ou pr'O Globo. Além de ser um pensador à altura, ele não tem papas na língua (ou no teclado) e com certeza não deixaria de analisar o renascimento comercial do selo Vertigo no Brasil.

Vamos fazer assim: a Pixel Media foi um assombro pela velocidade com que se fez acontecer e pelo tratamento desse material tão esculhambado por aqui - administrado através dos anos por pára-quedistas sem senso de cronologia e com preços ionosféricos. Ainda não dá pra afirmar que a Pixel é a Joana D'Arc do vertigueiro brazuca, mas o mix acachapante da sua publicação principal - aliado ao precinho supreendentemente justo - já é um milagre que a editora operou.

Baixando um pouco a embriaguez orgástica que a Pixel anda me proporcionando, é certo que alguns poucos vacilos têm de ser limados em nome da sincronia. Errinhos de digitação e uma tradução literal que deixa os textos meio truncados são pequenos detalhes a serem lapidados com o passar das edições, espero. Também não sei até onde é produtivo "tentar consertar" as besteiras que fizeram com a cronologia da Vertigo nos últimos anos. Os resuminhos são uma mão na roda e bem escritos, mas ainda não consigo visualizar onde querem chegar, p.ex, com Planetary começando no #13.

Outro fator que considero como médio grau de risco é a presença de André Forastieri, comparecendo como diretor editorial nos créditos (e voltando à velha forma com o belo texto comparando a Vertigo ao movimento punk na edição de estréia). Ora, o velho Forasta foi a alma, o sangue e o múque da Bizz no final dos anos 80/início dos 90. De fato, foi a melhor coisa daquela safra, mesmo quando não se concordava com ele. Depois disso, teve uma rápida passagem pela General (a revista mais legal das que não deram certo) e foi um dos responsáveis diretos pela Conrad, uma das maiores salgadeiras do mercado de HQs. É disto que tenho medo e que ameaça a quase putesca farra mensal dos 9,90 (já aprovados no meu disputado orçamento). Temo que num belo dia a Pixel Magazine apareça com capa dura na banquinha do Seu Zé.

Ao que expus as minhas fobias com cara de Morte a R$ 60 para o Fivo (que está vivo e rende trocas de e-mails que um dia hei de publicar aqui), o cabra me disse pra ter fé porque ele pode ter encontrado um bom formato de business agora. Deus te ouça, meu filho.

Pixel Magazine é mulher gostosa. E nesta terceira edição ela continua rebolando irresistível. Tem Fábulas, a maravilhosa cria de Bill Willingham, mostrando o background do Garoto Azul na história/conto O Último Castelo. Referências visuais ao Senhor dos Anéis e uma Branca de Neve à Brandy (de Liberty Meadows), usados com timing e criatividade, deixam a paisagem ainda mais instigante. Também temos mais um balaço de John Constantine, desta vez extraído de Hellblazer #142. História tão curta quanto visceral, um absurdo de vigor narrativo.

Depois de um copinho de whisky pra relaxar, vem Planetary com a missão de dar um olé nos neurônios do leitor. Retirada da edição #15 original, a história Canções da Criação é Alice no País do Espelho encontra Asdrúbal Trouxe o Trombone. Entendeu? Nem eu. A arte sempre agradável de John Cassaday é o fundo falso ideal para um Warren Ellis abarrotado de cafeína e guaraná em pó. A sensação é a mesma de acordar domingo de manhã no meio da invasão à Normandia, mas quer saber? É genial. Você tenta se encontrar na bagaça e quando acha que vai conseguir, Ellis, com um bom filho da puta, mete as travas da chuteira na cara da linearidade. Troço tão sinistro que rendeu até um texto de apoio moral.

Por fim, The Cobweb, trip psicodélica concebida pelo casal Alan Moore & Melinda Gebbie após várias pitadas de nargilé e cházinho de Santo Daime, desta vez até mais comportada.

Tudo nos conformes, agora só quero saber quando vem a próxima dose de Freqüência Global.


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Estava mesmo interessado em que pé andava o bom e véio Swamp Thing. Segundo o editorial, conferido dinamicamente antes da negociação, a abordagem pretende seguir o padrão de horror instituído na fase clássica de Alan Moore (ele já foi citado por aqui hoje?). Amor em Vão é uma mini em duas partes escrita por Joshua Dysart e rabiscada por Enrique Breccia, e até consegue reeditar em parte o climão sorumbático daquela época.

Em parte, porque o que Moore fez lá foi poesia dark, cordel de encruzilhada da Louisiana. Não dá pra superar. No entanto, Dysart (bróderzão de Mike Mignola, com quem anda colaborando em uma série de projetos) é dedicado e mergulha fundo na podridão que é o universo do Monstrão Pantanoso, resgatando até um inimigo velhusco do herói. O que não deixa de surpreender, vindo do mesmo cara que criou Faça 5 Pedidos, aquele mini-mangá da Avril Lavigne.

A arte de Breccia lembra um Sam Kieth menos farsesco, mas ainda assim despirocado. Desenhar demônios e deformações diversas é com ele mesmo. Seu Monstro do Pântano pouco lembra algo vagamente humano. A interação com as idéias doentias de Dysart resulta numa química insana, especialmente nas cenas mais escatológicas.

E o momento romântico da revista é Fome Animal puro. Yeah!


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Como bom admirador do Doutor Alec Holland, sempre tive curiosidade acerca do material mais antigo do personagem, ainda sob a batuta dos criadores Len Wein e Bernie Wrightson. Falta corrigida agora, com a revista Estréia apresenta O Monstro do Pântano #9, lançada em maio de 1980 pela Editora Brasil-América, a famosa EBAL.

Muito antes da reinvenção definitiva do personagem nos anos 80, o leque de possibilidades temáticas era tão abrangente e nonsense quanto todo o resto da DC durante a Era da Prata, mas o tom notadamente mais sisudo antecipava o que estava por vir.

Na tentativa de reverter sua condição grotesca (sendo que hoje ele é praticamente um Shrek de tão desencanado), o Monstro do Pântano se depara com um alienígena e sua nave avariada. Obviamente rola aquela treta entre as criaturas e as coisas se complicam quando uma operação militar chega ao local para investigar o OVNI - vale destacar uma nota engraçadinha dos editores nesta parte. O nome da história é pra lá de sintomático: O Visitante do Espaço.

Monstro do Pântano da 1ª fase é Roger Corman em quadrinhos.

Esta edição também trouxe, há muito, muito tempo atrás, a segunda parte da origem do herói Nuclear, na época batizado Labareda (e "Tempestade" na dublagem nacional do desenho Superamigos). A história chama-se Abram Alas para um Novo Herói! Parte II e foi republicada tempos depois pela Abril. É uma brasa, mora!


(links down)

Estréia apresenta O Monstro do Pântano #9
Mirror



Na trilha: alguma do Notorious B.I.G. No Dia Mundial do Rock.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

O MELHOR DO TRIO TERNURA


Será que Mark Steven Johnson tinha idéia que o Coração Negro era deste jeito aí? > >

:-)

A história Corações Negros foi roteirizada por Howard Mackie, desenhada pelo abençoado John Romita Jr. e arte-finalizada por um colaborador de velha data, Klaus Janson. Publicada no Brasil em 94, trazia na premissa mais um esquema de Coração Negro para usurpar o trono infernal de seu pai, o mega-cramulhão-mor Mefisto. Para tanto, resolveu recrutar Motoqueiro Fantasma, Wolverine e Justiceiro, três badbad-guys da Marvel Comics que ninguém gostaria de topar num beco escuro. Claro que os três juntos formam uma química explosiva capaz de chamuscar o próprio capeta e a única coisa que Coração Negro arrumou ali foi encrenca.

Esta foi uma das raras ocasiões em que Coração Negro recebeu uma atenção especial por estes cantos, visto que a cronologia (já ralinha) do demoníaco vilão foi bastante depredada durante a era Abril Jovem. O personagem foi bem aproveitado por aqui em seus primeiros dias - na fase Ann Nocenti/Romita Jr. do Demolidor, publicada na saudosa Superaventuras Marvel - e após isto, apenas em participações pra lá de esporádicas e especiais en passant como este.

Lá fora, ele teve uma longeva story-line, publicada na revista Ghost Rider, que nunca viu a luz do dia por aqui, e mesmo lá sofreu com um impedimento na grande área. No fim dos anos 90, a última edição de GR, a #94, foi simbólica neste sentido. Cancelada pela Marvel por motivos de déficit financeiro (pendura mesmo), deixou de concluir toda a fase de Danny Ketch nos ossos do Motoqueiro, iniciar um novo plot com o motoca anterior Johnny Blaze (agora pai de família), e até fazer algumas revelações, como a verdadeira identidade de Black Rose, a satânica consorte de Coração Negro (era a finada Roxanne Simpson, ex-esposa de Blaze).

Com o caixa da Marvel já recuperado via cinemão roliúdiâno, a edição acabou sendo publicada no final do ano passado, com direito à desculpa esfarrapada, bônus e tudo. Mas aí o timing já tinha ido pro saco. De qualquer modo, obrigado pelos peixes.

E vamos ser justos... por anos, a Marvel operou às portas da concordata, cancelando títulos sumária e impiedosamente, levando em conta apenas a projeção de vendas. Complicado editar uma cronologia que, de uma hora pra outra, vira um total dead end. Na verdade, não faz o menor sentido. Claro que isto não justifica todas as derrapadas da Abril, mas é algo a se colocar na balança. A Panini mesmo nunca teve de encarar um pepino destes e já toma algumas decisões bem polêmicas.

O scan da edição nacional de Corações Negros está disponível na rede há um bom tempo, mas o arquivo que mais se propagou foi aquele no tenebroso formato pdf. Não é por nada, mas Acrobat Reader, pra mim, só serve pra ler edital. Então resolvi escanear no padrão gringo, dar aquele acabamento básico no Photochopp e subir pra ver se espalha por aí.

A HQ está linkada na imagem abaixo. Sem tarjas, marcas d'água ou senhas. Totalmente open-source e freeware.



Mirrors:
FileFactory
Badongo
Links off


Corações Negros também ganhou uma continuação em 94, até onde sei, inédita no Brasil.

Em The Dark Design, o Trio Ternura se vê novamente às voltas com o bastardo dos infernos Coração Negro, ainda conspirando contra seu progenitor Mefisto. Roteiro do mesmo Howard Mackie (expert em enxofre) e "Images" por conta de Ron Garney.

A narrativa traz muito pouco do clima de suspense anterior e aposta num package de ação semi-standard. É muito funcional no que propõe, mas os pontos altos são, de longe, o senso esperto de continuidade (os personagens não ignoram os eventos da primeira aventura) e um final realmente inesperado, pra dizer o mínimo.


Esta história está disponível nos links a seguir [em inglês] >>

The Dark Design
Mirror: FileFactory
Links off


"I'm rolling thunder, pouring rain... I'm coming on like a hurricane..."

domingo, 28 de janeiro de 2007

DIABOLE VERTSES EN UN VESES

"Who, in their right mind, could possibly deny the 20th century was entirely mine?"
John Milton (Advogado do Diabo, 1997)

E pelo andar da carruagem, o coisa-ruim anda fazendo uma senhora campanha de publicidade também no século 21. É um tanto desesperador que esta frase tenha sido cunhada numa época pré-11/9, pré-Afeganistão, pré-Iraque, pré-tsunami, pré-mensalão, e por aí vai. Certa vez, li uma teoria sobre o livro/filme O Exorcista que explicava que aqueles eram tempos de crise moral e política nos EUA, somadas aos horrores de uma guerra perdida, à escalada da violência urbana e à ausência geral de valores espirituais. Ou seja... o ambiente perfeito pro demo fazer a festa (começando por garotinhas indefesas). Longe de ser um expert nos aspectos técnicos das manifestações cramulhísticas, imagino que, sendo uma entidade abstrata em nosso plano, a sugestionabilidade coletiva é uma poderosa arma em suas garras. Não que o tinhoso seja o causador da merdaiada em que o ser humano vive se metendo. Seu 'trabalho' é muito mais discreto. Afinal, como profanou humildemente John Milton... "não sou titereiro... apenas preparo o cenário. Você é quem puxa suas próprias cordas".

Na cultura pop convencionou-se tornar a figura do belzebu em algo mais concreto e, nessa, o conceito do anticristo foi prontamente adotado. No cinema, ele aparece mais freqüentemente como uma força invisível e irreprimível (vide o Bzão O Príncipe das Sombras) ou como moleques assustadores com um "666" tatuado em algum lugar do couro (A Profecia, O Bebê de Rosemary). Mas isso é só no caso da paternidade ser do próprio Satan-in-chief. O esquema todo é cheio de regras e estratégias porque o livre-arbítrio, graças a Deus, tá na área.

Nos quadrinhos, essa burocracia infernal, bem mais complicada que uma "simples" possessão (à Etrigan/Jason Blood, da DC), pode ser contornada quando o cão em questão pertence à uma classe inferior - 1/3 dos anjos originais já é um número que demanda alguma pesquisa censitária. Nota-se também que um objetivo de vida mais modesto e não tão ambicioso, tal como "conquistar/destruir o mundo", é um facilitador do processo. Foi assim com o sacana Violador (arquiinimigo do Spawn), da Image, que, se não me falha a memória, é filho de um demônio jurássico old school com uma humana (é isto mesmo, Fivo?).

Já o sinistro Coração Negro, da Marvel, é um caso à parte.


Wes Bentley recebendo o exú Coração Negro: a forma humana do vilão

Criado por Ann Nocenti e John Romita Jr. em 1989, ele debutou numa história do Demolidor (Daredevil vol.1, #270 - publicada no Brasil em Superaventuras Marvel #122). Coração Negro é filho do super-capeta Mefisto, que o concebeu sem envolver qualquer miscigenação - o pequeno Coraçãozinho, além de 100% Negro, é 100% Cramulhão - detalhe que acho interessante. Ensaiando uma versão blasfema do Deus cristão, Mefisto envia seu único filho para a Terra em busca de uma espécie de redenção invertida. E para isto, nada melhor que vilipendiar os valores e ideais de alguma alma justa, incorruptível e altruísta - é ou não é a descrição per se do Demolidor (a.k.a Demônio Audaz)?

Em seus primeiros dias, Coração Negro é instinto puro. Através dos recordatórios, Ann Nocenti (mulher sensacional... ainda vou escrever muito, mas muito sobre ela) detalha minuciosamente cada sensação e etapa do aprendizado da infante criatura das trevas. O resultado lembra o texto de algum documentário estilo Desafios da Vida, com predadores famintos cercando filhotinhos desgarrados. A prosa de Nocenti é ágil e muito bem-sacada, o que impede o roteiro de se tornar pretensioso e enfadonho. Mesmo assim, ela aposta no seguro e suaviza ainda mais a atmosfera com uma participação especial do Homem-Aranha - outro herói sempre às voltas com dilemas éticos e ideológicos.

E Romita Jr., atravessando a primeira e definitiva re(/volu)formulação em seu estilo, insere em sua concepção visual o mesmo clima descomplicado das palavras de Nocenti. Fora que seu design para Mefisto, além de radical, é bem mais aterrorizante que o Conde Drácula cover habitual.


Provavelmente... nunca havia pensado nisso e nem sei se confere de fato... Romita Jr. tenha se reinventado de maneira tão efetiva visando a interação ideal com a narrativa de Nocenti. Acredito mesmo que ele tenha empreendido uma busca pela química perfeita entre suas imagens e o texto dela - deixando pra trás a influência paterna inicial (wow) para descobrir sua verdadeira ID artística, o que resultou numa das melhores parcerias dos quadrinhos, merecedora de TPB's, sketch-books e edições especiais ad nauseum (alô Panini!).

Segue abaixo a história da treta de Murdock e Parker versus o vilão de coração negro. Scans by me.


Peter Fisto: Easy Rider from hell
Sinceramente, tento não esperar muito da adaptação de Motoqueiro Fantasma - onde também estrearão na telona o papai Mefisto (ou Mefistófeles) e Coração Negro (Jr). Apesar dos ótimos previews, teasers e trailers, o figura Mark Steven Johnson sempre será o diretor do decepcionante Demolidor. Mas, olhando pelo lado positivo, grande parte das deficiências que deram as caras em Demolidor (sem trocadilho) serão contornadas pela natureza e poderes sobrenaturais do personagem-título. E o cast é bastante animador. Além de Nicolas "droga-eu-queria-mesmo-era-o-Superman" Cage, também tem o meu tio Sam Elliott, o sempre promissor Wes Bentley, a instituição harley-davidsoniana Peter Fonda e a explosively hot Eva Mendes.

E não sei até que ponto se pode confiar nas declarações do diretor, mas que elas são instigantes, isso são: "Coração Negro é mostrado no que eu considero sua 'forma humana' na maior parte do filme. Mas ao longo da história nós recebemos dicas do que existe debaixo desse disfarce. No clímax descobrimos seu eu verdadeiro - e ele é horroroso. Haverá um pouco do visual clássico da HQ adicionado de alguns elementos de horror".

Mefisto te abençoe, meu filho. Motoqueiro Fantasma estréia nos EUA em 16 de fevereiro. No Brasil, dizem que será em 02 de março.

Na trilha: Paradise Lost, One Second Live.

segunda-feira, 1 de maio de 2006

Operação Resgate

Na Antártida ninguém vai ouvir você gritar.






Já tem um bom tempo desde... o último O.R. foi o quê? ...caramba, foi aquele do Danzig, há 1 ano atrás. Se bem que o Fivo, meio que inadvertidamente, manteve a adoração por estas velharias em textos como este, este e este (justamente a trinca de estréia do Lost boy por estas bandas!). De qualquer forma, este é o primeiro de uma série sobre filmes de terror que pretendo iniciar aqui. Embora esses filmes tenham conservado aquele charme irresistível que os tornaram memoráveis, muitos deles envelheceram bastante. Já outros, passaram ilesos pelo teste do tempo. Então, nada melhor do que iniciar essa seqüência gore com o assustador O Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982), dirigido por um John Carpenter em grande forma e, com certeza, um daqueles momentos atemporais.


Spoilers assembled!


O filme é uma adaptação do conto Who Goes There?, de John W. Campbell Jr. (leia aqui, na íntegra, em inglês), que narrava as mazelas de uma equipe científica na Antártida após a descoberta de uma nave espacial cravada no gelo há cerca de 100.000 anos. Foi a 2ª adaptação, para ser exato, sendo a primeira o sci-fi O Monstro do Ártico, de 1951, um legítimo exemplar da "Era McCarthy" do cinema de ficção (neste mesmo ano estrearam O Homem do Planeta X e o mega-absurdamente-clássico O Dia em que a Terra Parou, ambos com temáticas referenciais bastante próximas). De cara, nota-se que o filme relegou a densa atmosfera psicológica do conto em favor de uma analogia à situação geopolítica da época, notadamente à Guerra Fria e à paranóia anticomunista. Com o segmento da ficção-científica em alta no final dos anos 70/início dos anos 80 (via Alien e Blade Runner), a proposta para uma nova adaptação - que circulava há alguns anos pelos bastidores - começou a ganhar força.

A Universal não teve dúvidas: John Carpenter era a escolha natural para assumir a direção. Egresso de uma ótima e rentável fase (Halloween, Fuga de Nova Iorque), ele despontava como o próximo grande nome do cinema mainstream. Carpenter era dono de um estilo carismático, revezando intensas seqüências de ação com uma forte pegada de horror old shcool. O belíssimo trabalho de adaptação de Bill Lancaster deixou o roteiro sob medida para Carpenter desfiar suas influências de suspense clássico (O Enigma de Outro Mundo tem os climas mais hitchcockianos que Brian De Palma jamais sonhou conceber).

O staff era de primeira, parecia uma conjunção de astros do ramo. A fotografia claustrofóbica e incômoda ficou a cargo de Dean Cundey (que já havia trabalhado com Carpenter, em Fuga de Nova Iorque). A arrepiante trilha incidental era do mestre Ennio Morricone (numa das raras ocasiões em que Carpenter não compôs a trilha do seu próprio filme). Já os efeitos especiais ficaram nas mãos de um dos maiores especialistas de todos os tempos: Rob Bottin, a fera responsável pelos monstrengos do filme Grito de Horror (lançado 1 ano antes e que contém a 2ª melhor transformação de lobisomem da História - assunto pra um outro O.R. desses) e, anos mais tarde, pelo make-up insano do primeiro Robocop (sente o drama).


O filme começava num ritmo pra lá de intrigante, em pleno inverno antártico, sem muitas explicações para os personagens (e muito menos para o espectador!). Em um helicóptero, dois homens armados caçavam implacavelmente um cão da raça husky siberiano, que fugia pela planície congelada. Logo, eles chegam à uma estação de pesquisas norte-americana, a Outpost #31, e o safári termina da pior maneira. O helicóptero explode em um acidente, matando um dos homens. E o outro morre logo em seguida: após acertar um tiro em um integrante da estação, ele é baleado pelo administrador do lugar. Único sobrevivente: o cachorro sortudo.

Após as devidas averiguações, descobre-se que os dois homens pertenciam à uma equipe norueguesa instalada em uma estação próxima. Eles decidem ir à tal estação na tentativa de apurar os fatos. Chegando lá, eles se deparam com um cenário aterrador: vários cadáveres mutilados evidenciavam que o local foi palco de um verdadeiro massacre. Não sobrou ninguém para contar história. Entre documentos e vídeos com registro de atividades, eles também encontram uma criaturinha difícil de descrever. Após uma cena vomitoresca de autópsia capaz de embrulhar o estômago do legista mais calejado, eles chegam à conclusão de que "a coisa" era humana e "com todos os órgãos vitais no lugar". A partir daí, tudo segue, ou tenta seguir, na mais perfeita monotonia de um isolamento sub-zero, quando um incidente ocorre no canil da base. O husky-sobrevivente-siberiano é pego no flagra se revirando pelo avesso e tentando absorver e assimilar os outros cães, quando é sabido que huskies siberianos não têm este mal-hábito. Tudo é resolvido à base do lança-chamas e, com uma análise nos restos mortais, eles começam a decifrar os bizarros acontecimentos.

O organismo não-identificado era capaz de neutralizar e copiar a estrutura celular de qualquer ser vivo à perfeição, com relativa rapidez. Cálculos revelam que a taxa de propagação per capita é extremamente alta, e que o bicho faria um estrago daqueles em um lugar mais pop. Como a Lei de Murphy também tem serviço de entrega na Antártida, a pesquisa nos vídeos da estação norueguesa revela que a equipe de lá encontrou o ser original em um imenso ovni enterrado no gelo - o que eleva a ameaça biológica para ameaça-biológica-com-intelecto-superior-e-conquistadora-de-mundos (um senhor DEFCON 1!). Em hipótese alguma a criatura deveria chegar até uma área povoada (na China então, nem pensar). E outro problema, desta vez iminente: pelos cálculos baseados na rapidez de assimilação, e tempo de exposição ao "cachorro" e à criatura disforme da autópsia, ao menos 1 dos 12 integrantes da equipe já estaria assimilado.

E é aí que O Enigma de Outro Mundo vira futebol-arte, futebol-moleque, maroto e sapeca.


Talvez a maior sacada do filme tenha sido a cuidadosa construção de cada personagem, desde os mais ativos até os mais secundários. A virada sensacional que o roteiro empreende - saindo de um açougue splatter profissional para um horror psicológico tenso até a medula - é capaz de emocionar até o Papa Bento XVI. O filme vira um jogo de gatos e ratos com complexo de perseguição. Todos se acham suspeitos e ninguém quer ficar sozinho com ninguém. Sumiços e sabotagens estratégicas pipocam aqui e acolá, criando uma atmosfera tão surreal de paranóia que só podemos esboçar um sorriso petrificado na tentativa de aliviar a tensão (em vão, é claro).

A força motriz do filme era inegavelmente o carisma do personagens, que encontrava na excelente escalação dos atores um feedback mais que apropriado. Esse é um dos pontos em que a produção lembra bastante Alien, de Ridley Scott. O time era tão carismático quanto o pessoal enclausurado na Nostromo, num ambiente inóspito (em pleno espaço) e também com um alienígena serial-killer à solta. E daquela mesma forma, não existiam protagonistas em uma primeira instância, apenas os que se destacavam com um maior espírito de sobrevivência diante de uma situação de risco em potencial. Mas de uma maneira natural, todos estavam lá em pé de igualdade.

Eis os "doze condenados": o piloto de helicóptero MacReady (um paranóico Kurt Russell, na 2ª de suas quatro parcerias com Carpenter), o chefe de estação Garry (Donald Moffat), o cozinheiro Nauls (o sumido T.K. Carter), o geofísico Norris (Charles Hallahan), o enfezado mecânico Childs (o excelente Keith David, que, anos mais tarde, voltou a enfrentar aliens sob a batuta de Carpenter, no maneiríssimo Eles Vivem), o biólogo-sênior Blair (Wilford Brimley), o mecânico-assistente Palmer (David Clennon), o físico Cooper (Richard A. Dysart), o biólogo-assistente Fuchs (Joel Polis, veterano ator de séries americanas), o meteorologista Bennings (Peter Maloney), o cara-que-cuida-dos-cachorros Clark (Richard Masur, que já atuou em mais filmes do que se imagina) e o rádio-operador Windows (Thomas G. Waites) - nenhum deles exatamente "do mesmo lado".

Muito menos insuspeitos. Norris, por exemplo, protagoniza uma seqüência que é uma baforada criogênica na espinha. Após uma briga, ele perde os sentidos e a equipe tenta reanimá-lo, sem imaginar que ele já estava pra lá de "animado": confira aqui essa singeleza, junto com o story-board (seguido à risca, pelo visto). Esta mesma cena desemboca em um dos momentos mais singulares do cinema fantástico (até hoje inacreditável) - a famosa cena da cabeça se separando do corpo e criando pernas. Rob Bottin é deus! Tudo isso numa época em que o máximo de tecnologia empregada na área não chegava nem perto do que hoje é o famigerado CG.

Esta cena repugnante também revela outras similaridades com Alien. Quando o torso de Norris se abre, lembra bastante os ovos coriáceos do clássico de 79. E afinal, o que é aquela spider-head senão algum "primo" do asqueroso face-hugger? E não pára por aí. As primeiras concepções da arte conceitual revelavam uma criatura quase idêntica, incluindo a relação simbiótica com o hospedeiro. Ainda bem que o bom senso falou mais alto e optou-se por um design não-uniforme (a cria máxima de H.R. Giger ainda hoje é tão influente que chega a representar um bloqueio criativo) - o que modificou até o conceito do filme original, onde a criatura era um praticamente clone do Monstro de Frankenstein.


A saída (genial, diga-se) foi ocultar o monstro até o gran finale, reservando apenas algumas participações esporádicas (e putrefactas), nas quais ele se encarrega de acabar com o apetite de qualquer cidadão. O resultado era uma cruza demoníaca de tudo que o monstro já assimilou em sua extensa carreira (confira na imagem acima e nos story-boards, bem bacanas por sinal).

No final das contas, o que mais prevalece no espectador é a sensação de ter participado de um acampamento de férias no inferno ao lado dos remanescentes da Outpost #31. A intrigante conclusão primava pela incerteza. Com a base em frangalhos, Childs e MacReady, totalmente exaustos e sem nenhum meio de transporte e comunicação, não têm o menor motivo para confiar um no outro. MacReady foi o único que viu a criatura original e sobreviveu, enquanto Childs simplesmente sumiu, só reaparecendo após as explosões que destruíram a estação. Mas, por incrível que pareça, este era o menor dos problemas, afinal o inverno antártico chegava ao seu pico mais rigoroso. Para a criatura (será?) bastava esperar o congelamento iminente e a posterior chegada de uma equipe de resgate. E para o(s?) humano(s?), apenas o fim de uma garrafa de whisky.

O Enigma de Outro Mundo é uma homenagem de John Carpenter à toda a cultura de sci-fi e horror B, e que acabou se tornando um cult absoluto com o passar dos anos. Cult? Sim... quando foi lançado, o filme teve uma péssima recepção do público e principalmente da crítica, que o acusou de ser "exageradamente violento", com efeitos especiais "perturbadores", "imorais" (?) e até mesmo "pornográficos" (!!). Curiosamente, neste mesmo ano, estreava E.T. - O Extra-Terrestre, recebido como uma elogiadíssima diversão para toda a família...


MAS O ENIGMA CONTINUA...


...a começar pelos games! Em 2002, a Computer Artworks lançou um jogo homônimo baseado no filme, para PC, PS-2 e X-Box. A sinopse começava alguns dias após os acontecimentos do filme e a linha básica não poderia ser outra:

"Após misteriosas mortes em uma estação da Antártida, uma equipe de resgate foi enviada para investigar o ocorrido. Naquele ambiente inóspito, eles se deparam com uma estranha forma de vida que assume a aparência das pessoas que mata"... e por aí vai.

Apesar de não ser nenhuma super-produção digital, pessoalmente, muito me agradou. No jogo você comanda o soldado Blake e a missão é descobrir o que aconteceu nas estações norte-americana e norueguesa. Durante o jogo, você vai passando pelos cenários do filme e chega até a encontrar aquele tape que MacReady gravou num momento de desespero. Antes da missão, você escolhe o seu time, dividido entre soldados, engenheiros e médicos. O bacana é que, à medida que o jogo avança e descobre-se a natureza do alien, você tem de manter a confiança dos seus companheiros na sua liderança (tem uma espécie de "confiômetro" que você pode acessar). Caso contrário, eles começam a adotar todo tipo de insubordinação, desde não obedecer ordens diretas e fugirem até tentarem te matar. Nos momentos mais lúgubres e tensos, o jogo lembra a atmosfera horror survivor de Resident Evil/Silent Hill, e na hora do pega-pra-capar a referência imediata é o velho estilão Doom/Quake.




Game bem simples, ótima jogabilidade, gráficos decentes e um climão de terror bem legal. Se quiser experimentar, está disponível nos links a seguir (no Rdsh, sem senha): The Thing - From Another - World (links, obviamente, down).

Requerimentos:

Processor, 4x+ CD-ROM drive, DX8 Compatible Card, 8Mb Video memory, DirectSound8 Compatible Card
Recommended PC System Requirements: 64 MB RAM, 600 Mb HD space, 600Mhz PIII Processor, 4x+ CD-ROM drive, DX8 Compatible Card, 8Mb Video memory, DirectSound8 Compatible Card


Já testei e recomendo!


QUADRINHOS
(como não poderia deixar de ser)


Em 1991, a Dark Horse Comics lançou uma minissérie em duas partes chamada The Thing from Another World (mesmo nome do filme de 1951). A história começa exatamente onde o filme parou, e mostra o que de fato aconteceu com MacReady e Childs após os eventos trágicos da Outpost #31. Quase moribundos diante de uma violenta tempestade, os dois milagrosamente avistam um baleeiro japonês. MacReady apaga e acorda horas depois, na enfermaria do navio. Só então ele fica sabendo que Childs o deixou lá e retornou à estação "para buscar os outros sobreviventes"... Mas não vá tirando conclusões precipitadas, pois a história reserva surpresas pra lá de inesperadas. O ótimo roteiro de Chuck Pfarrer e a belíssima arte pintada de John Higgins garantem a diversão.

No ano seguinte, a Dark Horse voltou a explorar o universo da "Coisa" e publicou uma nova mini, em 4 partes, chamada Climate of Fear. Era uma continuação direta da revista anterior e expandia ainda mais o conceito original. Como é um material que teve pouca repercussão, não vou me ater à muitos detalhes spoilerosos, visto que estes estragariam a experiência de quem não leu a sensacional minissérie de 91. O roteiro de John Arcudi e o traço "McFarlaneano" de Jim Somerville acabam sendo eficientes num contexto geral, mas comparativamente inferior à primeira mini.

Em 1993, mais uma incursão da Dark Horse: Eternal Vows, outra mini em 4 partes, colocou o alien copião pra assombrar uma cidade portuária da Nova Zelândia. O engraçado é que o alien não poderia nem sonhar em chegar à civilização e, no entanto, ele praticamente fixa residência em uma femme-fatale deliciosa, o que deixa a HQ com cara de adaptação do filme A Experiência (aquele com a Natasha Henstridge). Além disso, o suspense/horror de outrora é reduzido ao zero, dando lugar à altas seqüências de ação. Incrivelmente, não é ruim. Mas também não é do mesmo alien que estamos falando aqui. Roteiro de David de Vries e desenhos do furibundo Paul Gulacy.

As minis estão disponíveis para download nos links abaixo (em inglês):

The Thing from Another World
Climate of Fear
Eternal Vows


Sites dedicados:







Na trilha: 10,000 Days, o novo do Tool.

sexta-feira, 5 de agosto de 2005

"METLLICA"

O cinegrafista Bob Richman e James Hetfield na concentração

Eu era um garoto que amava Metallica e Faith No More. Obviamente, isso pouco interessa a você, fã de Franz Ferdinand, do novo hit do Gorillaz ou mesmo da sua velha radiola que só pega AM. Também não adianta vir com muita grosseria na matéria (tem gente que acha que qualquer coisa mais leve que o Krisiun já é pop). Até piora. É essa nesga de público restante que pode ter uma bela surpresa com Metallica: Some Kind of Monster (2004), documentário que cobre o período 2001-2003 da carreira do grupo.

Dirigido heroicamente por Joe Berlinger (de A Bruxa de Blair 2) e Bruce Sinofsky, essa foi justamente a fase mais turbulenta da história do Metallica. É catarse filmada com todas as situações-limite e/ou constrangedoras que possam sair de uma relação desgastada. Três caras criativamente exaustos, sentindo o peso do tempo chegando junto (mais de 20 anos de estrada), a desmistificação de seus antigos ideais no future (hoje eles são milionários e a banda, um ícone do estabilishment), a saída traumática do baixista Jason Newsted, o caco de relação que sobrou entre o vocalista e guitarrista James Hetfield e o baterista Lars Ulrich, e os bastidores da gravação de St. Anger, disparado o seu pior álbum. E é aí que está a questão.

'tallica jammeando e lá no canto, Robert Trujillo, o novo candidato a bass hero

Até então, eu só sabia que St. Anger era uma decepção multi-facetada. Em primeiro lugar, veio a produção propositalmente ruim - contraste flagrante com a mesma banda que gravou o Black Album (1991), um marco da engenharia de som, com o mesmo produtor Bob Rock. Em segundo, já se podia esperar por um material no mínimo conturbado, dados o break interminável no processo de composição e a saída ríspida de Newsted, que, sem dúvida, abalou a banda - e principalmente Hetfield, de quem se tornou um grande amigo. Embora isso não tenha livrado Newsted de um belo flagra, quando um dos roadies mostra um recadinho mal-criado que ele deixou gravado em uma secretária eletrônica (nos extras do disco 2).

De resto, sabíamos por alto que as coisas já não andavam lá muito bem dentro do grupo. Vez ou outra chegava a notícia de um eventual arranca-rabo entre James Hetfield, o deus do metal (pense nesse adjetivo de forma bem pejorativa e psicologicamente prejudicial a longo prazo), e o explosivo Lars Ulrich, herói que virou vilão mega-capitalista e que acabou com a farra-do-boi do Napster, iniciando uma caça às bruxas que dura até hoje. As cenas em que os dois discutem chegam a ser engraçadas de tão nervosas.

No meio disso tudo, o guitarrista Kirk Hammett, sempre passivo e concluindo que os bons tempos foram mesmo pro saco, Bob Rock (que já trabalha com a banda a 15 anos), demonstrando um jogo de cintura invejável quando escapa de algum fogo cruzado, e um conceituado psiquiatra... isso mesmo, um psiquiatra... que tenta somatizar toda a zona que anda acontecendo com a banda. O mesmo profissional acaba sendo vítima de um "motim" por parte dos rockeiros.

Mustaine, o recalcadoAlguns velhos elementos recorrentes na "metallogia" do grupo acabam dando as caras e quando menos se espera... voilá: Dave Mustaine entra em cena e de repente faz dessa locação um daqueles investimentos superfaturados. Ah, sim. Pra você, que gosta de The Killers, Keane, Altemar Dutra, etc, eu explico.

Mustaine estava lá, nos primórdios do Metallica, junto com Hetfield, Ulrich e Ron McGovney. Foi chutado da banda em 1983, porque conseguia chapar mais álcool e drogas que todos os outros juntos. Reza a lenda que eles colocaram o cara doidaraço dentro de um ônibus que ia de LA para San Francisco. Mustaine, puto, montou o Megadeth e também vendeu seus milhões de álbuns, mas sem nunca sair da sombra perseguidora do Metallica.

Então essa lavagem de cueca suja adiada por 20 anos finalmente acontece, e com juros - embora a banda tenha sacaneado Mustaine pra valer nessa mesma seqüência, com a opção "Comentários da banda" ativada. Mas que foi engraçado, foi.

Metallica ao vivo... até 1989 eles eram os melhores nesse negócio

Essas são as peças no tabuleiro. Claro que você quer saber é se Some Kind of Monster pode ser palatável ao gosto de quem não é fã do Metallica. Sim, com certeza. Mas como o próprio título já diz, esse monstro aqui não se encaixa em nenhuma categoria pré-definida. Não é bem um "rockumentário", não é nem um pouco redentor e pinta os integrantes do grupo com cores pra lá de cinzentas. Estar no Metallica Inc. é quase como estar no elenco de O Aprendiz (o original americano com o Donald Trump, muito mais hardcore). Reuniões, campanhas de promoção, contratos com gravadoras e distribuidoras, investimentos e conflito de interesses. Isso tudo e ainda um novo disco a ser gravado, enquanto os músicos penam com um teimoso bloqueio criativo. A coisa fica bem mais séria quando se tem dinheiro envolvido. Aliás, muito dinheiro - o Metallica já vendeu mais de noventa milhões de discos desde 83.

Não deixa de ser curioso o modo como cada integrante lida com isso. Hetfield acompanhando sua filhinha na aula de balé e passando uma temporada numa clínica de reabilitação, Lars levando seu pai (que figura) ao estúdio e investindo alto em leilões, e Hammett, cansado do "deixa-disso" habitual e se isolando em sua fazenda idílica. E para fãs (agora sim!), chega a ser tocante quando imagens de várias fases da banda são colocadas em seqüência, deixando claro o quanto isso tudo já foi especial um dia.

Talvez esteja aí a força de Some Kind of Monster e o que faz dele uma experiência tão peculiar. A pressão do profissionalismo, a deslocada condição humana e a fragilidade de relações desgastadas por longos anos de convivência. Onde foi que você já viu isso mesmo?



COMEÇOU EM PIZZA


Literalmente. Durante uma esticada turística na Terra, o Senhor do Fogo, ex-arauto de Galactus e chato de plantão, é confundido com um portador de gene X no auge da febre anti-mutante. Confusão armada e logo o Amigão da Vizinhança tem de salvar alguns pescoços. O problema é que a treta é tão desigual que poderia ser tranqüilamente adicionada ao cartel de pepinos do Aranha (Rino, Hulk, Fanático, Mr. Hyde, etc). Como sempre, só resta ao nosso esforçado herói lançar mão de muito improviso, corre-corre e do providencial Sentido de Aranha. Não faltam situações inusitadas (como o Senhor do Fogo na pizzaria), prédios destruídos, explosões a rodo, aquelas infames piadas do Aracnídeo, J.J.Jameson numa seqüência hilária, e, claro, a indefectível cena em um metrô. :)

Por incrível que pareça, esse tipo de história minimalista sempre rendeu horrores com o personagem. Provavelmente seja porque o Aranha se garante em personalidade e é de fato o super-herói mais complexamente humano dos quadrinhos. A seqüência (genial) em que ele fica tentado a sumir na multidão é um ótimo exemplo. Méritos do roteiro esperto de Tom DeFalco e do traço limpo e eficiente de Ron Frenz (por que não existem mais desenhistas assim?).


Outro detalhe digno de nota é a edição nacional pra lá de capenga, como de praxe. Dia desses mesmo eu estava tirando sarro com as pernadas de editoração da Ebal, mas atrocidades como essa também eram habituais durante a era Abril Jovem. Fazer o quê, né. Eu cresci achando que o uniforme do Fantasma era vermelho...


Clique na capa pra baixar a HQ
(link já off, é claro, mas é fácil de achar por aí!)


"You will do, what I say, when I say... BACK TO THE FRONT!"

terça-feira, 19 de abril de 2005

DOMINGO NO PARQUE



"Toda a vez que o fardo da guerra começa a pesar demais, eu opto por atividades mais relaxantes. Por isso, estou iniciando uma espécie de safári... no Central Park" - Frank Castle.

Deve ser legal escrever o Justiceiro. É um pensamento quase imediato quando se lê as histórias dele roteirizadas pelo Chuck Dixon. Mesmo sem descambar pro arrastão gráfico do Garth Ennis, Dixon dava conta do recado numa boa, num estilão meio "Justiceiro censura 12 anos, com acompanhamento dos pais". Lá pelos idos de 1992 ele comandou uma série do anti-herói chamada War Zone, publicada por aqui na saudosa - e olhando hoje, esquizofrênica - Superaventuras Marvel.

Não sei bem em que essa série de arcos diferia do habitual, já que o velho Frank continuava passando que nem um rolo compressor em cima da bandidagem new yorker. Talvez tivesse uma abordagem mais rotineira, do tipo "hoje iremos mostrar o Frank indo ao cinema e matando 4 pungistas no caminho". Mais estiloso do que de costume, tinha lá a sua quantidade generosa de sangue e violência, e o personagem exibia muito bem aquela persona ambígüa, entremeando uma aura de anjo vingador com momentos de pura vileza distorcida. É difícil não admirar o sujeito quando ele salva um bebê das mãos de um junkie mal-intencionado, mas chega a ser nauseante quando ele mata o mesmo à sangue frio, impiedosamente.


Da edição #7 até a #11 de Punisher War Zone (publicadas na SAM #172, 173 e 174), Chuck Dixon começa com o divertido safári no parque, mas logo vira o jogo pra cima do Frank, quando ele passa a ser a presa. Sabe esse pessoalzinho aí em cima? São caçadores de recompensa atrás de cinco milhões de doletas, o câmbio da cabeça de Castle nesse arco. Nessas edições fica claro que o Justiceiro é o tipo do personagem que não tem problema nenhum em arranjar antagonistas de tudo quanto é tipo. Há pouquíssima repetição. Esse cast de inimigos aí, por exemplo, é bastante interessante.

E destaque para a arte como sempre magnífica de John Romita Jr., aqui ainda mais "quadradão e sujão". Eu adoro. Na reta final, Mike Harris assume o nanquim, mas não tem problema não. O traço dele até parece um pouco com o do Romitinha. :P

Clique na capa para downloadear a HQ.

Aliás, você sabe o esquema do Rapid Share, né? Escolha o Download FREE (óbvio!), espere a contagem regressiva na página seguinte e clique no arquivo pra baixar... qualquer dúvida, desista. :)


LINK EXPIRADO - mas é capaz de achar outro fácil

Essa foi a primeira vez que eu fiz uso ostensivo do Photoshop, que é de fato um softzinho bom pra diabo. Favor me informar se ficou do seu agrado (ó mestre) ou não, pois pretendo escanear as próximas nesse mesmo estilo, rrrái?

Estranho... o post já acabou. Não ficou uma sensação de que faltou alguma coisa? :D


dogg...?

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005

A PRIMEIRA IMPRESSÃO É A QUE FICA, POR ISSO SANDY COLLORA SÓ FAZ TRAILERS


Antigamente aí nesse espaço à esquerda tinha uma micro-seção chamada "bombas se aproximando". O objetivo básico era apontar as próximas besteiras de Hollywood, através de uma primeira impressão baseada em sinopses do roteiro, trailers, fotos ou qualquer outro tipo de preview da produção. Acertei umas (Thunderbirds) e outras (Casseta & Planeta - A Taça É Nossa), sem contar as óbvias (Mulher-Gato), mas desisti após deixar passar incólume uma bomba nuclear de 1000 teratons (Van Helsing, que, inocentemente, fui ao cinema assistir). E certas produções me deixavam realmente na dúvida, como esse O Guia do Mochileiro das Galáxias, adaptação do livro homônimo de Douglas Adams. Eu achava que a transposição do livro para o filme faria a história perder todo o charme original. Bom, ainda não dá pra saber, mas pelo instigante trailer divulgado parece que o pessoal envolvido está fazendo o melhor possível. Os efeitos especiais estão de primeira e Martin Freedman está ótimo como Arthur Dent, um cara absurdamente normal numa situação surreal (e andando com o mesmo roupão durante toda a história). Tudo bem, tem algumas cenas que lembram muito ID-4 (as gigantescas naves pairando sobre as cidades) e um humor negro e uns aliens bem à MIB (até a trilha sonora do trailer é a mesma).

Enfim, o livro é ótimo, o trailer é bacana e o filme pode ser ótimo também. Ou não.

Trailer:
480x360 (26,4 Mb)
320x240 (11,7 Mb)


Esse aqui me interessa muito. Impressionante o trailer de A Scanner Darkly! Dirigido por Richard Linklater, o filme é baseado num livro (de novo!) do guru cyberpunk Philip K. Dick - o homem de Blade Runner, mas você já sabe disso. Devido a enorme influência do autor nas últimas décadas, a história já não soa tão inovadora para a atual percepção pop: no futuro, vemos um policial combatendo o tráfico de drogas. O problema é que ele tem dupla personalidade e a sua "outra face" é a de um dependente químico. Meio Estranhos Prazeres (Strange Days, com Ralph Fiennes), mas beleza. Além do elenco interessante (Keanu Reeves, Woody Harrelson, Winona Ryder, Robert Downey Jr. e Rory Cochrane), o filme traz a mesma técnica de animação empregada por Linklater em Walking Life.

Devo dizer que o trailer me animou bastante, e que se dane o trocadilho. A última vez que fiquei tão empolgado com os efeitos de um filme foi no injustiçado Amor Além da Vida (When Dreams May Come, 1998). Logo abaixo, Winona Ryder, Woody Harrelson, Robert Downey Jr. e Keanu Reeves, devidamente 'animatizados'.








Trailer:
320x240 (5 Mb)
480x360 (10,7 Mb)

Em tempo... alguém aí lembra do genial clip Brazil Banana Samba, da banda brazuca Yo-Ho-Delic?


EU ERA UMA PESSOA REALMENTE INTOLERANTE



Clique nas figuras para ampliá-las. Senão você não conseguirá ler o que está escrito nos balões.

Esse é o Frank Castle em seus primeiros dias (mais precisamente em Homem-Aranha #54 - dez/1987). Ele conseguia ser ainda mais paranóico e psicopático do que o personagem que conhecemos hoje. Castle era um foot in the eggs. O cara punia cuspida em via pública com uma rajada de Uzi. Dava tiro à revelia. Hoje ele pelo menos esquematiza alguma coisa, corre atrás dos verdadeiros chefões, ajuda alguns super-heróis e até poupa alguns meliantes. Acho que esse "amaciamento" se deve ao tratamento recebido por ele através de anos de bom trabalho roteirístico. Imagina se o Justiceiro continuasse um personagem obscuro dos anos 70, e sendo resgatado por um asshole do porte de Rob Liefeld? Só ia dar tiro e tripas voando. Seria um retorno às HQs sem balões.

Lembrei desse Castle-Lampião quando li o excelente artigo do Alcofa no MdM. Recomendo, muito foda. Ou melhor... megafodônico®.


Postaram esse post: dogg, algumas várias latinhas de Skol e o hino I Am The Law, do Anthrax (show no domingo!)