Em 30 de abril de 1993, a World Wide Web entrava em
domínio público. Três meses antes, o
Jesus Jones já antecipava em
Perverse o admirável cybermundo novo que surgia no horizonte. Trinta anos mais tarde, temos que convir que não é exatamente
admirável, mas tanto a WWW quanto o disco foram divisores de águas.
Perverse é o mais ousado e ambicioso registro do grupo britânico. Caso tivesse dado continuidade às trips revisionistas de
1991 e
1992, ele seria presença certa na leva seguinte.
Aliás, fico admirado em saber que a
banda também curte.
Perverse está numa lista dos
“10 álbuns matadores de carreira” não é à toa. O Jesus Jones vinha de sensação alternativa no Reino Unido com o debut
Liquidizer, de 1989, ao sucesso mainstream com
Doubt, de 1991, puxado pelo hit
“Right Here, Right Now”. Até ali, seu techno-rock (ou
rocktrônica) era associado às cenas rave e indie dance, mas também tinha ressonância com o público das rádios e da MTV.
Com
Perverse, a história foi diferente. O tom do álbum era denso e sombrio, com muita influência de industrial e trance. A capa, estranhíssima, trazia um luchador sob um filtro psicodélico e uma saturação vermelha estoura-retina.
O figura
Mike Edwards (vocalista, letrista, guitarrista, tecladista, faz-tudo) experimentou uma imersão tecnológica completa. Escreveu tudo em casa usando um sampler Roland W-30. Foi o 1º álbum gravado inteiramente
por computador, com exceção dos vocais. As faixas foram registradas em jurássicos disquetes de 3½ polegadas (
lembra disso?). A produção ficou a cargo de
Warne Livesey, que trabalhou em discos do The The e vários do Midnight Oil, entre eles o clássico multiplatinado
Diesel and Dust. Ele certamente encontrou ali o material mais esquisito de sua carreira.
A obsessão de Edwards por ciberespaço e pela revolução digital imprimiu em
Perverse contornos de álbum conceitual.
De cara, em
“Zeroes and Ones”, ele prevê, com notável precisão, os impactos positivos e negativos da internet na vida das pessoas.
“The Devil You Know” tem camadas trance, climas orientais e recortes de guitarra onde se percebe nitidamente a influência da banda suíça The Young Gods. As animadas
“Get a Good Thing”,
“Magazine” e
“Don't Believe It” atualizam a velha sonoridade, as soturnas
“From Love to War” e
“Yellow Brown” navegam em ondas synth DepecheModescas,
“The Right Decision” traz um groove electro infeccioso,
“Your Crusade” é uma paulada pop/rave'n'roll, o tribalismo industrial de
“Tongue Tied” emenda na raivosa techno com Ø BPM de
“Spiral” e no grand finale com o épico progressive house
“Idiot Stare”. Um álbum espetacular.
E complicado de tocar ao vivo. Do
setlist atual, apenas três faixas comparecem. Como o
próprio Edwards comentou, foi uma abordagem fascista:
“'essa é a canção, nada mais importa'. Havia músicas no álbum que os membros da banda não tocaram." E mesmo nas exceções, a execução ainda é cabulosa.
É o caso de
“The Devil You Know”, a música de
Perverse mais próxima de um hit.
Em várias aparições na TV e mesmo no DVD
Live at The Marquee, de 2005, o riff – na verdade, uma saraivada de guitarras sampleadas à
“Skinflowers”, do TYG – soa precário ao vivo. A menção honrosa vai para a
esforçada apresentação no programa The Word, na ocasião em que promoviam o single.
Mesmo inevitavelmente ultrapassado pelo futuro,
Perverse ainda soa refrescante e intenso. Uma experiência memorável de ousadia eletrônica de uma banda de rock em plena era grunge.
E, ao contrário de todo aquele futurismo e tecnologia de ponta, tive a K7 original. Comprada na Mesbla.
Bons tempos, ainda que low tech.