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segunda-feira, 29 de abril de 2024
Um minuto para os comerciais... e já voltamos com o diabo!
Crescer à base da televisão dos anos 1970 e 1980 foi louco. Aquele ambiente outrora 100% familiar e controlado, passou a flertar com o imprevisível e a necessidade de esticar os limites do espectador. Na guerra pela audiência, cada pontinho contava. Não demorou para descobrirem que o povão gostava de sentir medo.
No Brasil, a festa da imprensa marrom logo migrou para os sinais de TV. E dá-lhe Documento Especial, Linha Direta, Globo Repórter e segmentos inteiros do Fantástico, do Programa Flávio Cavalcanti e do Programa Silvio Santos dedicados ao choque e ao oculto, sempre precedidos pelo aterrorizante aviso "as imagens a seguir são fortes, por favor, tirem as crianças da sala."
Desnecessário dizer que sempre assistia a tudo com um sorriso trêmulo por fora e um trauma dilacerando minh'alma por dentro.
Late Night with the Devil traz todo esse zeitgeist e essa bagagem, vá lá, vintage que tem uma ressonância-monstro em quem já cruzou a marca dos 45. O filme foi escrito e dirigido pelos irmãos Colin e Cameron Cairnes, que certamente comeram, beberam e respiraram materiais de arquivo da época.
O resultado em tela é nada menos que impressionante.
No filme, o ótimo David Dastmalchian interpreta Jack Delroy, apresentador do programa Night Owls with Jack Delroy, mistura de programa de variedades e talk show. Para a sua infelicidade, Jack concorre com o icônico The Tonight Show Starring Johnny Carson e, logicamente, vai de mal a pior. Numa medida desesperada para levantar a audiência, Jack e seu produtor decidem fazer um programa especial de Halloween. Como convidados, um médium, um cético, uma parapsicóloga e uma adolescente supostamente possuída por um demônio.
É claro que, no decorrer do programa, o circo literalmente pega fogo. E ao vivo.
Mesmo curtinho (93 min.), Late Night with the Devil tem um pano de fundo complexo. Na abertura, a vida e a carreira de Jack Delroy são devassadas em uma espécie de documentário com a narração em off do veterano Michael Ironside. Daria material para uma minissérie, fácil. O filme em si é o próprio programa em tempo real – e sem cortes quando entram os comerciais. Com habilidade, os irmãos Cairnes conduzem as transições da exibição de TV para o formato found footage cobrindo as cenas de bastidores e vice-versa.
A cenografia e os figurinos são um espetáculo à parte. Jogam aquele espectador +45 de volta ao passado como se fosse a dupla Doug & Tony despencando pelo continuum em O Túnel do Tempo. Fora que é uma grande homenagem à cultura televisiva de massa (para o bem ou para o mal). Por vezes, lembra uma reedição do Isto É Incrível, adaptação do Silvio Santos para o original americano That's Incredible! – do qual o filme pega emprestado boa parte da estética.
Isso também se reflete nos trejeitos e inflexões de época adotados pelo elenco. Dastmalchian está no topo do seu jogo. Laura Gordon, que interpreta a parapsicóloga June, e a promissora Ingrid Torelli no papel da endemoniada Lilly D'Abo (a sutileza do sobrenome) também estão sensacionais.
Mas os meus favoritos em cena são os underdogs: Fayssal Bazzi como o psíquico Christou, Rhys Auteri como o assistente de palco Gus e Ian Bliss, genial como o ilusionista, cético e caçador de fenômenos sobrenaturais Carmichael Haig. Divertidíssimos de assistir.
Late Night with the Devil mostra o quão esses irmãos Cairnes são talentosos. Com a câmera atenta aos detalhes, eles montam um engenhoso mix de humor, suspense e terror, incluindo um inesperado toque folk horror. E sempre mantendo a atmosfera pra lá de tensa, na veia slow burn, como se cada intervalo fosse a última chance de fugir antes das câmeras voltarem a rodar e o pandemônio se instalar mais uma vez.
O roteiro, além de esperto nas referências (O Exorcista compels you!) e no subtexto ponderando as consequências do sucesso a qualquer preço, também guarda uma boa parcela de reviravoltas para alguns personagens. Mesmo o final que ensaia contornos Lynchianos – o que me fez tremer nas bases pelo risco inerente – acaba devidamente contextualizado. No fim, remete ao bom e velho e impiedoso Rod Serling mesmo.
Não falta vontade de comentar mais a respeito, mas longe de mim entregar o final do show...
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terça-feira, 19 de março de 2024
Entrevista com o Diabo
Nada como um programinha leve e descontraído antes de dormir...
Cabuloso.
Late Night with the Devil nem saiu em circuito comercial e vem sendo considerado uma das grandes apostas do gênero neste ano. Stephen King já assistiu e adorou. Mesmo com o hype, err, infernal, o trailer eletrizante mostra que o filme não vem pra brincar. Alta octanagem que chama?
O longa foi escrito e dirigido pelos manos aussies Colin e Cameron Cairnes – tudo indica que na Austrália agora é obrigatório que todo filme de terror seja dirigido por uma dupla de irmãos. Na premissa, situada em 1977, um show de variedades genérico escala uma menininha possuída entre as atrações. O problema é que a coisa é séria mesmo e logo o programa ao vivo vira um... pandemônio.
A convergência entre os temas é providencial, já que em meados daquela década parece ter havido mesmo um boom demoníaco nas mídias de massa. Programas de tevê, músicas, livros, artigos de revistas e jornais, todos pareciam interessados no que o cramulhão tinha a dizer. Talvez um efeito do pessimismo generalizado impulsionado pelas sucessivas crises econômicas – incluindo aí uma certa Crise do Petróleo de 1973 – aliado ao sentimento amargo pós-Vietnã e ainda o imenso impacto popular de O Exorcista.
Por sinal, uma sequência memorável da subestimada série de 2016 era justamente com a jovem protagonista figurando num desses talk shows dos 70's.
Também será a chance de ver o ótimo David Dastmalchian no papel principal, pra variar. Nos últimos anos, o ator esteve em vários hits do cinemão hollywoodiano, de Duna a Oppenheimer, sempre como coadjuvante. Ele é um exímio ladrão de cenas, como visto em Esquadrão Suicida e em sua estreia nas telonas, em Batman: O Cavaleiro das Trevas – ofuscando Christian Bale sem uma fala sequer.
De cara, dá pra ver que a direção de arte é sensacional, evocando a estética dos late shows clássicos dos anos 1970, tipo Dick Cavett e Johnny Carson. Esmero do Shudder que fica parecendo até produção do A24. Esse cuidado se estende ao pôster retrô, que parece saído da vitrine de algum cinema de rua das antigas.
Bons tempos.
Late Night with the Devil estreia nos cinemas lá fora no dia 22 próximo. E no Brasil, só no dia 22 de agosto (!!). Mas não tema, pois em 19 de abril já estará disponível no Shudder. 😈
E agora... Nossos comerciais, por favor! ®️
Dica do Sandro Sem Link 666.
Cabuloso.
Late Night with the Devil nem saiu em circuito comercial e vem sendo considerado uma das grandes apostas do gênero neste ano. Stephen King já assistiu e adorou. Mesmo com o hype, err, infernal, o trailer eletrizante mostra que o filme não vem pra brincar. Alta octanagem que chama?
O longa foi escrito e dirigido pelos manos aussies Colin e Cameron Cairnes – tudo indica que na Austrália agora é obrigatório que todo filme de terror seja dirigido por uma dupla de irmãos. Na premissa, situada em 1977, um show de variedades genérico escala uma menininha possuída entre as atrações. O problema é que a coisa é séria mesmo e logo o programa ao vivo vira um... pandemônio.
A convergência entre os temas é providencial, já que em meados daquela década parece ter havido mesmo um boom demoníaco nas mídias de massa. Programas de tevê, músicas, livros, artigos de revistas e jornais, todos pareciam interessados no que o cramulhão tinha a dizer. Talvez um efeito do pessimismo generalizado impulsionado pelas sucessivas crises econômicas – incluindo aí uma certa Crise do Petróleo de 1973 – aliado ao sentimento amargo pós-Vietnã e ainda o imenso impacto popular de O Exorcista.
Por sinal, uma sequência memorável da subestimada série de 2016 era justamente com a jovem protagonista figurando num desses talk shows dos 70's.
Também será a chance de ver o ótimo David Dastmalchian no papel principal, pra variar. Nos últimos anos, o ator esteve em vários hits do cinemão hollywoodiano, de Duna a Oppenheimer, sempre como coadjuvante. Ele é um exímio ladrão de cenas, como visto em Esquadrão Suicida e em sua estreia nas telonas, em Batman: O Cavaleiro das Trevas – ofuscando Christian Bale sem uma fala sequer.
De cara, dá pra ver que a direção de arte é sensacional, evocando a estética dos late shows clássicos dos anos 1970, tipo Dick Cavett e Johnny Carson. Esmero do Shudder que fica parecendo até produção do A24. Esse cuidado se estende ao pôster retrô, que parece saído da vitrine de algum cinema de rua das antigas.
Bons tempos.
Late Night with the Devil estreia nos cinemas lá fora no dia 22 próximo. E no Brasil, só no dia 22 de agosto (!!). Mas não tema, pois em 19 de abril já estará disponível no Shudder. 😈
E agora... Nossos comerciais, por favor! ®️
Dica do Sandro Sem Link 666.
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quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Eu sou a Lenda
Exists (EUA, 2014) me trouxe algumas daquelas reflexões que dificilmente temos oportunidade de externar por aí numa terça-feira. Exemplo: existe algum subgênero de terror mais esculhambado que o dos lobisomens? Existe. O do Pé-Grande. Também conhecido como Sasquatch, Yeti, Wendigo e derivados regionalmente corretos, todos enjaulados em produções trash ou terrivelmente datadas/envelhecidas. Talvez impulsionado pelo status folclórico que a criatura tem no país do cinemão pop, o tema manteve uma sobrevida modesta em filmes, ainda que exclusiva do circuito independente. Mas a cada longa temporada, uma dessas gemas Z escapa de sua reserva florestal com objetivos um pouco mais ambiciosos.
Da 1ª vez foi um estrondo: The Legend of Boggy Creek, de 1972. Custou uma mixaria e abarrotou as contas bancárias dos realizadores - provavelmente um reflexo da polêmica "filmagem Patterson", de apenas cinco anos antes. Nada mais natural então que um novo ciclo fosse inaugurado por outra sumidade do custo-benefício: Eduardo Sánchez, co-diretor de A Bruxa de Blair, como todos sabem, um dos filmes mais bem-sucedidos de todos os tempos.
Sánchez não hesitou em combinar sua expertise found footage com os elementos clássicos da filmografia Pé-Grandense. O arsenal varia de câmeras hand-held com visão noturna, GoPro's e smartphones sem a menor cerimônia. Hoje, a vida é um found footage. E funciona perfeitamente no contexto, descartando inclusive a carochinha inicial do "um filme foi encontrado e editado, etc" por motivos bem esclarecidos até a cena final.
Não que o roteirista e habitual colaborador Jamie Nash seja o Mario Puzo da criptozoologia. Na trama, cinco jovens - dois casais e um douchebag - estão na estrada em busca do Graal da diversão segundo Hollywood: uma velha cabana esquecida no meio de uma floresta remota. Isso, num ambiente povoado por sequestradores alienígenas, assassinos mascarados imortais, livros em latim escritos com sangue humano e, pior, cajuns tocando banjos, é mato.
Um incidente estranho no caminho é o primeiro sinal de que a viagem será peculiar. Mas a turma não se deixa abater, apesar da evidência empírica e peluda filmada por um dos aventureiros. Apenas um personagem fica intrigado com o fato; os demais, inertes num confortável ceticismo, preferem ignorar o registro. São bons detalhes de um roteiro requentado. Ao mesmo tempo em que nunca tivemos tantas infos à disposição, nunca tivemos tão pouco discernimento em relação a elas.
Essa impressão de torpor e passividade fica ainda mais latente conforme o filme vai trazendo novas revelações.
A bem da verdade, a grande reviravolta de Exists - sim, ela existe - é previsível. Porém... e aí credito inteiramente à habilidade de Sánchez... seu impacto consegue sobreviver quase ileso à clicherama slasher que o precede. Isso graças à narrativa concisa até a raiz, à direção eficiente de atores de várzea e, principalmente, ao climão macambúzio que impera após o terço inicial. Ao exemplo da nova safra de filmes de horror norte-americanos, como Invocação do Mal, A Entidade e Os Escolhidos, Exists também é filme-atmosfera, privilegiando mais o perigo iminente do que os sustos em si.
Há uma cena emblemática, em que o único "falso susto" do filme é atropelado pelo verdadeiro terror que se anuncia, como se isso representasse um racha com as antigas convenções. Dali pra frente é só ladeira abaixo. Mensagem mais direta que essa, só se Sánchez explicasse numa narração em off.
E já que estou enchendo a bola do hermano como se não existisse amanhã, vou continuar por aí. As ótimas locações, além de terem o mesmo bioma dos supostos avistamentos reais e provocarem um mix de déjà vu com calafrio, também são utilizadas sem moderação à luz do dia. E funcionam ainda melhor. A criatura realmente parece ter o usucapião eterno do lugar, se confundindo facilmente com o cenário e destoando furiosamente dele quando bem entende.
É neste ponto que o formato found (big)footage faz toda a diferença e samba bonito na avenida.
Ao vender o Pé à prestação em enquadramentos parciais ou fora de foco, o diretor assume um risco considerável, mas a estratégia se mostra certeira. Vemos o suficiente para nos situar ao nível dos personagens, realçando o efeito de sugestão e o desespero respingante na tela. Além de manter a curiosidade, claro.
O bichão foi "interpretado" pelo veterano Brian Steele - que traz no currículo uma galeria impressionante de criaturas - e filmado com visível paixão pelo personagem e seu mythos. Estão lá os movimentos pesados e angulares do tal Sasquatch de Roger Patterson e também a postura mais animalesca do Sasquatch de Rick Jacobs. Só o fino do hoax.
Eventualmente, nos deparamos com a criatura por inteiro, ou quase, pontuando o belíssimo clímax do longa. Carregada de inesperado subtexto, sua figura vira o jogo sobre o espectador e transforma toda a história até ali numa experiência ainda mais perturbadora.
Sem exagero: é uma cena que vale o filme.
Em tempos idos, Exists seria aquela VHS relegada ao canto mais empoeirado da locadora. Apenas para um dia ser redescoberta e, na base do boca-a-boca, ganhar uma merecida moralzinha cult. Na atual conjuntura, já fico feliz em ter um filme decente de Pé-Grande pra rever de vez em quando.
quarta-feira, 5 de março de 2014
Superpoderes em 1ª pessoa
Foda-se a Ellen DeGeneres.
A produção independente Afflicted (Canadá, 2013) arrepiou no último Fantastic Fest - uma das mecas do horror e do sci-fi - encaçapando os prêmios de melhor roteiro, direção e filme. Seria pra tanto?
Eis o trailer.
O filme foi dirigido, escrito e protagonizado pela dupla Derek Lee e Clif Prowse. À primeira vista, impressiona bastante, mais ou menos na escala do que foi Poder Sem Limites há alguns anos atrás.
Segue a premissa:
E viva o torrent!
A produção independente Afflicted (Canadá, 2013) arrepiou no último Fantastic Fest - uma das mecas do horror e do sci-fi - encaçapando os prêmios de melhor roteiro, direção e filme. Seria pra tanto?
Eis o trailer.
O filme foi dirigido, escrito e protagonizado pela dupla Derek Lee e Clif Prowse. À primeira vista, impressiona bastante, mais ou menos na escala do que foi Poder Sem Limites há alguns anos atrás.
Segue a premissa:
"This terrifying horror thriller follows two best friends who set out on the trip of a lifetime around the world. Their journey, documented every step of the way, soon takes a dark and unexpected turn after an encounter with a beautiful woman in Paris leaves one of them mysteriously afflicted. Winner: Best Picture (Horror), Best Screenplay (Horror), Best Director (Horror) at Fantastic Fest, and recipient of awards of recognition from the Toronto International Film Festival and the Sitges International Fantastic Film Festival. AFFLICTED is one of the most suspenseful and original action horror debuts in a generation."Certamente é algo a conferir, apesar das escassas opções de distribuição - estreou ontem on demand e em circuito limitado nos EUA e ainda não tem previsão de lançamento em outros lugares.
E viva o torrent!
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Kaiju nórdico
Lembra de The Troll Hunter, agitado aqui há uns posts atrás? Após aquela ótima imagem promocional, a produção norueguesa agora liberou dois clips tão curtos quanto embasbacantes.
O primeiro é um rápido vislumbre em um troll. De três cabeças.
O segundo e mais impressionante, não é outra coisa senão a resposta escandinava a Cloverfield:
Épico. Queria um folclore adaptável desses pra mim.
Trolljegeren (vulgo The Troll Hunter) tem direção de André Øvredal e estreia em 29 de outubro em terras pagãs.
sábado, 16 de fevereiro de 2008
YouMovie
Cloverfield - Monstro (Cloverfield, EUA, 2008) coleciona façanhas em seus 85 minutos de trincheira, sendo a principal, talvez, a humanização de um subgênero em agonia. Seja pelo eterno comércio informal da Toho/Daiei ou pelas tentativas obtusas de upgrade (Godzilla, 1998), o kaiju há tempos destrói prédios de papelão em cidades fantasmas, mesmo pertencendo a um nicho pop por excelência. Desde sempre, filme de monstro é filme-evento. É espetáculo quimicamente manipulado para as massas. Objetivo que Cloverfield agarra com som e fúria: o monstro aqui é incomensurável, indescritível, lovecraftiano, mal dá pra saber onde começa e onde termina. Uma força da natureza que mal conseguimos entrever antes de sermos tragados pelos efeitos devastadores da sua presença. Para tal, nada foi mais efetivo do que o formato adotado.
Em tempos de banda larga, iPhones, uploads e handycams, o filme não poderia soar mais familiar. Baseado numa suposta filmagem salva em cartão SD (o que não foi bem o caso), Cloverfield, se não reinventa, anaboliza o estilo mockumentary. Com notável habilidade, inverte pontos de vista, entrelaça cenas de puro baque físico com bucólicas imagens de um vídeo gravado por baixo e recicla as motivações que impulsionam sua filmagem contínua, mesmo em condições radicais de trabalho para o "camera man". Interação e entendimento invejáveis do diretor Matt Reeves com o roteiro de Drew Goddard, ambos graduados em séries de TV.
Entre outras coisas, Reeves foi co-criador e diretor de vários episódios de Felicity. Já Goddard roteirizou Buffy, Angel, Alias e Lost. Os dois são velhos colaboradores de J.J. Abrams (M:I 3), que produz e preenche cada frame com sua recém-aflorada personalidade cinemática. A influência de Lost é evidente, uma vez que Cloverfield reescreve os melhores elementos da série - e que, justiça seja feita, são narrativamente arrebatadores.
A primeira meia-hora do filme é projetada para instigar a identificação do espectador. Começa com momentos íntimos entre Rob Hawkins (Michael Stahl-David) e sua melhor amiga/quase namorada Beth (Odette Yustman), documentando o que seria o início de um relacionamento amoroso. Corta pra quase um mês depois. O irmão de Rob, Jason (Mike Vogel), e sua namorada Lily (Jessica Lucas) preparam uma festa de despedida pra ele, que assumirá um cargo de chefia no escritório de sua empresa, no Japão. A cena flui com grande articulação e mantém a afinidade com alguns subterfúgios, como os amigos deixando mensagens de boa viagem e uma trilha pop casual. É nesta seqüência que somos apresentados ao nosso avatar dentro do filme.
Hud (T.J. Miller) se torna o mapa, a bússola e a âncora do espectador, a partir do momento em que assume a câmera. Inicialmente à contra-gosto, ele acaba se revelando uma espécie de paparazzi video-maker. Sua absurda indiscrição nos permite saber o que aconteceu do romance inicial até o exílio voluntário de Rob. Suas incursões sempre inconvenientes revelam os traços mais peculiares de cada personagem, começando por ele mesmo e sua paixonite aguda pela reservada Marlena (Lizzy Caplan).
E mais importante, sua fragilidade diante do inesperado é o combustível do filme. A dinâmica e os impactos pontuais são equalizados conforme sua percepção dos acontecimentos - que é, invariavelmente, embasbacada.
Espertamente, o filme não entrega o jogo tão fácil. A seqüência do primeiro ataque prima pela incerteza. À primeira vista, o que parece o Godzilla fazendo um tour por Manhattan, também poderia ser uma nova investida da Al Qaeda. Viés atualíssimo, se estendendo pelos celulares e handheld cameras que filmam, em primeira mão, um "souvenir" atirado no meio da rua (com sorte, o vídeo amador poderia ir parar na CNN, quem sabe). E novamente citando o filme de Roland Emmerich, Cloverfield mastiga e cospe a cena correspondente daquela produção. É ridiculamente superior em composição, timing, tensão e até em escalas, mesmo custando muito menos. O curioso é que a fórmula é exatamente a inversa, num exercício nada sutil de sugestão. Quando os personagens se abrigam numa loja, algo dantesco acontece lá fora, mas a proporção se torna muito mais aterradora pela sua natureza desconhecida. Um velho recurso de suspense clássico, criado por Hitchcock e traduzido para o cinemão blockbuster por Spielberg (Encurralado, 1971), assumido aqui com um tesão pelo idiossincrático poucas vezes visto numa produção de ponta.
Não há "overdoses de monstro", mas doses esporádicas com tarja preta, intensas e traumáticas o suficiente pra manter a adrenalina sempre em ebulição e os olhos dilatados até o flerte definitivo, quase ao final. Fora que elimina qualquer possibilidade de assimilação (ou até simpatia) pela imagem da criatura, que do início ao fim se mostra como deveria: um nêmesis estrangeiro e obscuro, algo entre um pesadelo vivo e uma aberração inumana. O mesmo vale para seus acompanhantes, repugnantes pulgões-carrapatos-aracnídeos-face huggers, que protagonizam um trecho realmente incômodo num túnel de metrô. Ri de nervoso ali.
O crossover estilístico desenvolvido pelo filme resultou no longa-metragem mais pop e acessível já filmado em 1ª pessoa. Gênerozinho anti-comercial e ranhento, aqui anos-luz da cria mais notória e influente de Ruggero Deodato. Ao contrário do que os cartazes de aviso dos cinemas americanos indicavam, o sensório é (quase) preservado em momentos de enquadramento estável, nitidez, contraste e um conveniente foco automático - tecnologia, enfim. Faz uma diferença crucial na empreitada. E que empreitada.
O filme não mede esforços para colocar a vida dos personagens na ponta da faca. Nada é tão simples, seja atravessar uma rua, conversar com a mãe pelo celular, voltar para resgatar um amigo ou, o mais difícil, se conformar com uma situação insustentável e ainda saber o que fazer com aquele último e precioso instante - justo onde Cloverfield transcende categorizações e se revela maior do qualquer monstro.
SPOILERS ahead, punk.
Com uma massiva campanha marketeira viral, o filme cultivou dúvidas bem antes de seu lançamento lá fora, a começar pelo título. Durante a produção, o projeto foi rebatizado várias vezes, com nomes variando entre Slusho, Cheese (?!), Clover, Monstrous e até 1-18-08, que foi a data da estréia oficial. Acabou ganhando Cloverfield mesmo, nome de um boulevard próximo ao escritório de J.J. Abrams em Santa Monica, Califórnia.
O target mais freqüente dos virais foi o visual do monstro. Um sem-número de imagens, fan-arts em sua maioria, rodaram a internet ad nauseum. A mais divulgada foi uma espécie de baleia mutante, que, embora tenha errado no shape, foi uma das primeiras fontes a mencionar a existência dos parasitas super-desenvolvidos. Uma outra imagem bem conhecida chegou mais perto do aspecto real - que no fim das contas, foi o quê... uma cruza escrota entre Rancor e Gyodai? :-)
Conforme atestou o tenebroso sussuro pós-créditos, já sabemos que a criatura é ultra-resistente. Os demais pontos de discussão giram em torno de suas proporções, o que é, de onde vem, pra onde vai, qual seu papel no universo, etc.
Um dos misteriosos previews gerou várias especulações, sugerindo que o monstro tem uma predileção megalodôntica por baleias no breakfast. O que explicaria a foto ao lado, mostrando o mar vermelho de sangue. Ou será que não? Pouco tempo depois, foi liberada uma foto com visão noturna flagrando uma ofensiva marítima contra um alvo não-identificado. Alguma chance da criatura ter tombado no ataque?
O tempo e a ordem dos acontecimentos parece ser a chave para se entender melhor o universo expandido de Cloverfield. O site 1-18-08 traz algumas fotos de cenas constantes no filme e outras tantas inéditas, com hora e data aproximadas dos eventos (abaixe o volume pra não enfartar com o ruidoso "rooooaaaarr" que a página carrega). Uma das fotos traz a loira Jamie Lascano, que esteve na despedida de Rob e protagonizou uma série de vídeos caseiros. Todos compilados junto com reportagens (algumas de arrepiar) sobre um violento ataque na plataforma Chuai - estranhamente creditado ao grupo ecoterrorista T.I.D.O. - e vários comerciais de TV no canal do YouTube do Cloverfield Clues. Alguma dúvida sobre o termo "universo expandido"?
Agora, uma luz no fim do túnel e tomara que não seja um trem: a Chuai Station pertence à Tagruato Corporation, uma companhia de perfuração. Rob iria assumir a vice-presidência da Slusho! (por sinal, um dos títulos fake do filme), fabricante japonesa de soda e subsidiária da Tagruato. Agora a parte mais surreal. Visitando o site miguxíssimo da Slusho!, na seção flavors (sabores) há uma linha afirmando que todos os produtos têm como base um ingrediente extraído do fundo do mar. Daí pode-se especular muita coisa. E vai de encontro com a teoria mais comentada, a do OVNI caindo no oceano.
Isto acontece na última cena do filme, no canto direito, com Rob e Beth na roda gigante em Coney Island. Pode muito bem ser a arrebentação, pois basicamente só se vê espuma (infelizmente, os videocaps disponíveis no YouTube estão em qualidade sofrível). Muitos afirmam que o "OVNI" seria um satélite japonês e estaria ligado diretamente ao ragnarök perpretado pelo monstro. Na minha opinião, filmar acidentalmente algo tão insólito, com mesma câmera, cartão de memória e protagonistas, seria uma coincidência, digamos, monstruosa. Mas nunca se sabe.
O logo d'A Pérola, a estação 5 da Iniciativa Dharma, aparece logo no início. E teria Beth, sobrenome McIntyre, algum parentesco com Hugh McIntyre, Diretor de Comunicação da Hanso Foundation? Os tentáculos de Lost parecem se entrelaçar em Cloverfield. Talvez esses caras tenham acertado em algo, afinal.
Próximo item: alguém mais teve a impressão de que o monstro nunca se afastava? Que às vezes parecia se desdobrar em dois, ou três (invadindo o coração da Big Apple à mil por hora, mas voltando atrás logo em seguida, tipo "oh shit, esqueci de derrubar a ponte")? Ou que o monstro que vitimou Hud não parecia alto o suficiente para decapitar a Estátua da Liberdade e se apoiar em arranha-céus pra não cair? Que os militares não fazem referências quantitativas, mesmo pra designar a criatura no singular (e de bônus, um "a ilha está cercada" dúbio até não poder mais)? E porque considerar a Operação Martelo na ilha inteira? Foram duas explosões?
A pergunta que não quer calar: Cloverfield tinha mais de 1 monstro?
Marlena. Mordida por um dos parasitas, ela sofre uma hemorragia brutal. Alguém grita que ela está infectada e alguns soldados a isolam numa tenda. Segundos depois, ela incha e explode da cintura pra cima. Daí em diante, nada se sabe. Seriam embriões parasitas eclodindo, Alien's style, ou algum tipo de reação química venenosa? P.s.: coitadinha da Marlena.
A confirmar:
Todos morreram? Até ontem, eu tinha certeza que não, visto que o helicóptero que levou Lily saiu segundos antes do helicóptero de Hud, Rob & Beth.
Então, a seqüência já cogitada não deverá se basear nas experiências posteriores de algum sobrevivente. Se for o caso, bate com o que Matt Reeves andou entregando:
"Há um momento na Ponte do Brooklyn em que um cara filma algo ao lado da ponte e Hud o vê filmando, e depois o navio que está sendo virado e a Estátua da Liberdade sem a cabeça. Então ele olha de novo e vê esse cara o filmando. Na minha cabeça, foram dois filmes interagindo por um breve momento e pensei que seria interessante a idéia deste incidente ocorrendo com diferentes pontos de vista, e vários filmes onde poderíamos observar trechos uns dos outros."
À despeito da inspiração midiática nas mesmas circunstâncias que cercaram o 9/11, Reeves acabou criando um filão quase inesgotável. Além de renovar a mítica do evento principal e desenvolver sagas paralelas igualmente instigantes, tem a possibilidade de agregar novos dados ao contexto. E desta forma, talvez conferir uma outra dimensão às perguntas que contribuíram tanto para o charme deste primeiro filme - mas que se forem respondidas num futuro próximo também será de bom grado...
Créditos não-remunerados para os sobreviventes Fivo, Guimba e Sandro.
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