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quarta-feira, 27 de novembro de 2024

As muitas mortes de Lucy Chambers


The Devil's Hour chegou pra mim do jeito como tudo tem chegado ultimamente: através de um corte que os algoritmos julgaram que seria do meu agrado. O corte em si é bacana, mas não vende a série direito. As classificações "thriller, drama, sobrenatural" são um pouco mais específicas. E a sinopse é cuidadosamente superficial.

“Lucy Chambers é uma assistente social com uma família e um relacionamento problemáticos. Ela acorda todas as noites exatamente às 3:33 da manhã, depois de ter visões aterrorizantes durante a chamada hora do diabo. Seu filho de oito anos é retraído e não expressa emoções. Sua mãe fala com cadeiras vazias. Sua casa é assombrada pelos ecos de uma vida que não é a dela. O nome de Lucy está inexplicavelmente conectado a uma série de assassinatos brutais na área, e ela é atraída para a caça de um serial killer.”

O fator descoberta é a peça-chave no slow burn que o showrunner Tom Moran montou para a série (no Brasil, literalmente, A Hora do Diabo). Isso se reflete nas duas temporadas até aqui, com enxutos 6 episódios na primeira e 5 na segunda – não exatamente o padrão da Prime. O que torna um desafio tecer maiores comentários sem chafurdar em spoilers e estragar a experiência alheia. Mas os mais calejados, especialmente leitores de histórias em quadrinhos, têm uma boa chance de triangular a premissa básica logo no primeiro episódio.

Já volto aí.

A série britânica é uma cocriação de Moran e do produtor executivo Steven Moffat, de Doctor Who, e realizada através de sua companhia, a Hartswood Films. Ênfase em "série britânica". Destacar o nível de um elenco da terra do Rei Charles III é até redundância, mas vamos lá.

Jessica Raine foi um achado no papel da cativante, corajosa e sofridíssima Lucy Chambers, Peter Capaldi é a singularidade dramática de sempre, com seu Gideon Shepherd imerso em mistério e inteligência-flertando-com-a-insanidade. A química entre eles, remetendo ao clássico duo Clarice Starling-Hannibal Lecter, é qualquer coisa de espetacular.

Nikesh Patel como o obstinado detetive Ravi Dhillon experimenta uma interessante curva ascendente de dimensão no decorrer da série. O promissor Benjamin Chivers traz uma performance memorável, algo assustadora, como Isaac, o estranho filho de Lucy. Phil Dunster (o Jamie Tartt, de Ted Lasso) surpreende como Mike Stevens, o cruel pai de Isaac. E Meera Syal entrega um misto de racionalismo e ambiguidade como a psicóloga Ruby Bennett.

A narrativa tem sido chamada por aí de "monótona" e "maçante". Não achei, não acho e, tenho certeza, não acharei na vindoura (e última?) 3ª temporada. Mas certamente exige do espectador. Não porque é física quântica, embora tenha tudo a ver. É que ela se utiliza de recursos um tanto incomuns.

A trama requer (olha o palavrão, Gen Z-ers) atenção e muita paciência, porém jamais perde o foco e se desenvolve sem tergiversadas Lostianas. Os enigmas são desvendados lenta e metodicamente, não raro, abrindo novas questões pelo caminho. Todas bem difíceis de antever, mesmo que as respostas estejam em nossa cara o tempo todo. É tudo muito bem encoberto.

E, como dizem, o segredo é a alma do negócio.

The Devil's Hour in 33 seconds

“I wake up, I open my eyes, I look at the time and it is 03:33am.” 📺 The Devils Hour (28th October) 🎭 Jessica Raine, Peter Capaldi, Nikesh Patel

Publicado por Amazon Prime Video em Sábado, 22 de outubro de 2022

Até os teasers ficavam na defensiva.

Para maiores e, acho, melhores comentários, só com spoilers mesmo. Fiz uma seleçãozinha organizada por grau de risco.


⚠️ ⚠️ ⚠️ SPOILER CONSERVADOR ⚠️ ⚠️ ⚠️
Visão geral da premissa sem detalhes da trama

O título do post é revelador, admito. Não consegui resistir. Ao mesmo tempo em que é uma homenagem a uma HQ que gosto muito, tem tudo a ver com o conceito de vida, morte e renascimento de The Devil's Hour. E o precedente dos quadrinhos não para por aí.

É impossível não relacionar a jornada metafísica de Lucy à de Moira MacTaggert em House of X e Powers of X, de Jonathan Hickman. É o mesmo mecanismo de repetição da mesma vida ad eternum retendo as memórias das encarnações anteriores com todas as vantagens/desvantagens que isso traz.

Como notinha de rodapé, Hickman tampouco foi original. A ideia de alguém vivenciando um loop à Feitiço do Tempo de uma vida inteira surgiu primeiro no livro The First Fifteen Lives of Harry August, que a escritora inglesa Claire North publicou em 2014. Livro este que Hickman, em entrevista anterior a HOXPOX, disse que leu e achou "fantástico".

Logicamente que a North ficou, digamos, desnorteada com as coincidências. Minhas simpatias a ela.



☢️ ☢️ ☢️ SPOILER MODERADO ☢️ ☢️ ☢️
Visão geral do conceito sem detalhes da trama

"O tempo é simultâneo". O mundo (da cultura pop) nunca mais foi o mesmo desde que o Dr. Manhattan declamou essas palavras. Não deu pra conter o sorriso de satisfação quando Gideon usa um simples cadarço para explicar esse conceito para uma atônita Lucy.

Triângulo do Medo (Triangle, 2009) e Coerência (Coherence, 2013) são bons exemplos de abordagem deste conceito multiversal. Não porque são filmes mais do que divertidos, mas porque foram mais ousados do que a média.

Neste sentido, The Devil's Hour consegue ir ainda mais longe nas possibilidades. Praticamente um Fringe 2.0.



☠️ ☠️ ☠️ SPOILER ARROJADO ☠️ ☠️ ☠️
Detalhes da trama

Os "fantasmas" que assombram Lucy e outros personagens são ecos dessas linhas temporais simultâneas — ruídos de passados, presentes e futuros acontecendo naquele momento em realidades paralelas, coisa de louco. Esses ecos acontecem sempre que uma alteração anômala é feita na linha natural dos eventos. Quando Gideon, que se lembra dos fatos de suas vidas anteriores, passa a corrigir algo que julga errado, as pessoas diretamente afetadas por essas alterações acabam com os sentidos sensoriais amplificados. Daí elas captando ecos de outras vidas num primeiro momento (e possivelmente uma internação por esquizofrenia) e, com a orientação adequada, preservando sua memória de uma encarnação para a seguinte.

Isaac não consegue apenas ver os ecos em 8K, mas se teleportar para qualquer uma daquelas realidades simultâneas possíveis, em qualquer local ou ponto cronológico. Isso porque ele foi o mais afetado pelas ações de Gideon: Isaac não deveria nem existir. É 100% anomalia.

Uma excelente — e certamente incompreendida — sacada do roteiro foi a ordem dos fatores. A Lucy detetive e a Lucy assistente social se confundem o tempo todo. Mas ao contrário do que a montagem sugere, a Lucy assistente social é a sua 2ª encarnação. A Lucy detetive é a verdadeira Lucy "original", a primeira, a que perdeu a mãe quando criança. Mas só vamos ser apresentados a ela na 2ª temporada.

Gideon consegue alterar quase tudo, exceto algumas constantes. A principal delas é que, de um jeito ou de outro, ele sempre será capturado por Lucy. Sendo assim, a Lucy assistente social que vemos no início já é a Lucy alterada por Gideon para recrutamento futuro. Para tanto, ele salva a vida da mãe dela, mas altera mais coisas do que deveria no processo. Efeito Borboleta versão Mothra. Enquanto isso, o verdadeiro assassino continua à solta. Brincar de Deus não é mole.

Tudo isso é explicado por Gideon à Lucy assistente social e ao Ravi no interrogatório, no início da série. Mas naquele momento não temos a menor ideia do que ele está falando. Acredite, rever a série pelo menos mais uma vez é altamente recomendável. É outra história.

Na temporada 2, senti falta de mais Nick, o parceiro de Ravi. O simpático e bonachão Alex Ferns é um ladrão de cenas. Mas até entendo: a realidade em que Nick está morto é a única em que o assassino está perto de ser detido.

Assassino, aliás, que parece antecipar tudo, até mesmo à frente de Gideon, veterano de milhares de vidas. Minhas fichas no Isaac.



🟢 🟢 🟢 RESGATE DO POST 🟢 🟢 🟢
Fim dos spoilers


Não tinha a menor intenção de escrever sobre The Devil's Hour. A recepção foi positiva nos agregadores de críticas e rendeu um divertido fandom no Reddit, mas como é "lenta e chata" para alguns, preferi me resguardar de futuros processos por propaganda enganosa e elogios indevidos. O problema é que a série cresceu em minha mente como se fosse um fungo de The Last of Us. Quando bateu em analogias aos quadrinhos, decidi botar uma imagem e rabiscar duas ou três linhas. Mas a empolgação com as possibilidades continuou fervilhando e terminei arrancando o cabo USB do teclado.

O próprio post parece ter sofrido misteriosas alterações do tipo que se vê na série. Isso pega. Então, que venha mais Lucy Chambers, Gideon Shepherd e cia. O "futuro" promete.

Acho que dá tempo para uma 3ª assistida antes da 3ª temporada...

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

O Princípio do Propósito Glorioso


Precisei rever a coisa toda para ter certeza. As duas temporadas – e foi um deleite.

Épico num escopo muito maior do que o UCM, porém cabendo numa telinha, emocionante, engenhoso, fora/dentro da curva Schrödingerescamente falando, repleto de coração sem ceder ao melô e acima de tudo: Tom Hiddleston. E também Sophia Di Martino. E Owen Wilson. E o ex-eterno Shorty Ke Huy Quan. E, com perdão da patrulha, Jonathan Majors. Lógico. Haja cerveja e papo de boteco para elaborar cada sacada do último episódio.

Por hora, dá para cravar tranquilo: Loki é brilhante.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

It's the end of the world as we know it...


The Lazarus Project pode ser descrita como uma mistura de 24 Horas com Feitiço do Tempo. Da série do Jack Bauer, herdou a agência secreta — na maior parte, uma unidade de contraterrorismo — e do clássico com Bill Murray, o loop temporal que permite remodelar o destino ao seu bel prazer. A série da Sky foi criada e roteirizada por Joe Barton e traz aquele tipo bem particular de ficção científica que transparece quase nada de ficção científica. Mais ou menos como na boa série Continuum, que também lidava com viagens no tempo.

Na trama, o jovem especialista em TI George (o premiado Paapa Essiedu, de Men) tem uma vida perfeita e um futuro ainda mais promissor ao lado da esposa Sarah (Charly Clive). Numa bela manhã, ele acorda no mesmo dia de alguns meses antes. Ele acha esquisito... mas a vida que segue. Após alguns meses, ele acorda mais uma vez naquela mesma manhã. E de novo. E de novo, de novo... O que era esquisito vira desesperador. Um dia, uma mulher de nome Archie (Anjli Mohindra) aparece e explica que o loop temporal que ele está vivenciando é obra de uma central de inteligência secreta — o Projeto Lazarus homônimo. O loop é acionado sempre que a humanidade se encontra em uma rota inevitável de extinção. A ideia é reiniciar o tempo e tentar impedir a catástrofe da vez. E George é uma das raras pessoas no mundo a desenvolver naturalmente a habilidade de manter suas memórias anteriores, desta forma percebendo o loop.

O que, em termos profissionais, significa admissão imediata. Querendo ou não.

A série tem um manual de regras muito bem explorado pelo roteiro. Por motivos de força maior, o loop é programado para um dia específico no ano, o chamado "checkpoint" — e só pode acontecer naquele dia, o que joga a tal da conveniência pela descarga e rende situações insólitas nos momentos das "viradas". Após o 1º aniversário do loop, é ponto sem retorno. Um novo loop é estabelecido e o que aconteceu naquele período, por pior que seja, não dá mais para ser desfeito. A única prioridade é a salvação da humanidade.

Outra boa sacada é que as variáveis estão sempre em movimento: nem tudo é igual após um loop e o Efeito Borboleta bate as asas com força nas vidas pessoais dos personagens. E o estrago, pode acreditar, é impressionante.

O ritmo narrativo é alucinante e, ao mesmo tempo, repleto de infos. Tudo muito bem montado e cadenciado, o que dá a sensação de ter visto num episódio bem mais do que os 40 minutos em média pareciam comportar. E os ganchos finais são impiedosos com o espectador.

Quem é cobra criada de thrillers de espionagem vai se estranhar com alguns detalhes, como o staff incerto e a segurança interna do Projeto — e uma conversa ao pé do ouvido sobre a proficiência e o caráter do protagonista se faz absolutamente necessária assim que possível. Mas nada que comprometa a entrega espetacular. Ainda mais com aquele season finale de arrombar as porteiras das possibilidades...


A 1ª temporada de The Lazarus Project fechou com oito episódios. Até aqui, não há notícias sobre uma 2ª temporada, mas o criador Joe Barton já está cheio de ideias.

quarta-feira, 6 de julho de 2022

De Vaughan para o Futuro


Boto fé. Porque não é um bicho de sete cabeças para realizar. Fórmula simples, testada e aprovada. E porque meu coração K. Vaughiano não aguenta mais tanta sofrência.

E esse trailer é uma belezura, vai.

29 de julho tamo aí na garupa.

domingo, 18 de agosto de 2019

Moira MacTaggert e o Feitiço do Tempo Hardcore



A esta altura do campeonato e com toda a bagagem adquirida (não é mesmo, Coerência e O Predestinado?) não é qualquer loopzinho temporal que me pega de surpresa. Mas essa cena de House of X #2 foi de entortar o córtex até formar um Möbius. E a sequência pisa ainda mais no acelerador.

O que Jonathan Hickman anda aprontando em House of X e Powers of X não se lê todo dia...

Moira MacTaggert finalmente deixa a zona do conforto coadjuvante da Ilha Muir e é agora minha personagem repescada favorita.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A borboleta do efeito


Quem nunca sonhou (acordado) em voltar no tempo até uma determinada época da vida sabendo o que sabe hoje? Seria maravilhoso, não? Não exatamente...

Em Paola-4 o cartunista francês Boulet desconstrói esse best case scenario não em apenas em uma situação específica, mas em várias, em diferentes períodos. Usando a mesma mecânica do filme O Efeito Borboleta, a história consegue triangular questões complexas com incrível simplicidade e beleza.

Clique na imagem para ler.


A amarrada do paradoxo no final é simplesmente brilhante.

Site oficial

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Gatos de destruição em massa


Nobel de Física em 1933, o austríaco Erwin Schrödinger foi autor de algumas das bases essenciais da Mecânica Quântica, notadamente na equação que leva seu sobrenome. E é também o grande arquiteto por trás da aguardada, adiada, quase mitológica, última edição de Planetary, a fantástica aventura de Warren Ellis e John Cassaday pelos espólios da história humana. Já vimos séries atrasarem, outras atrasarem mesmo e outras atrasarem pra valer, mas como Planetary não teve igual. Foram parcas vinte e sete edições em dez anos - começou bimestral em abril de 1999, foi suspensa no período 2001-2003, retornando esporadicamente sempre que as agendas de Ellis e Cassaday davam uma folga. E assim foi até a atual #27, lançada com um gap de três anos desde a última edição (outubro/2006).

Dessa forma, cada novo capítulo lançado era algo especial lá fora. E, para os leitores brasileiros, quase um evento (um evento fechado num clubinho ultrarrestrito, mas ainda assim um evento). Após uma pífia tentativa de periodicidade pela Pandora Books, a série foi compilada em dois encadernados pela Devir (Mundo Estranho e O Quarto Homem). Em seguida, a Pixel Media retomou o título do ponto onde a Devir parou, finalmente alinhando a série com a cronologia estática lá de fora. O que foi, provavelmente, a única incursão 100% bem sucedida da Pixel Magazine durante seu tempo de vida.

Com os títulos da WildStorm agora sob a tutela da Panini, Planetary se encontra atualmente nos planos a longo prazo da editora (que, nesse primeiro momento, publicará do selo apenas Frequência Global). Segundo o Oggh, Planetary será uma das séries que a Panini "dará sequência" - o que é ótimo, mas... só falta mais uma edição para ser lançada. Não seria melhor desancar isso logo de uma vez?

Ou que tal fazer um esforço em nome do bom gosto e relançar tudo desde o início naqueles TPB's Deluxe que ficam lindos meio tombados na estante? Eu compraria.


Planetary #27 fecha com chave de ouro a saga dos arqueólogos do impossível. Funcionando mais como um epílogo do clímax que foi a edição anterior (com a vitória/vingança definitiva de Elijah Snow sobre Randall Dowling, dos Quatro), a conclusão pode não ser tão espirituosa e evocativa quanto foi a de Y: The Last Man, mas, sem dúvida, é tão emocionante quanto.

De fato, essa é sua maior característica: emocionar mesmo naquele oceano de retórica e racionalidade impostas pela presença gigante de Snow. Até a durona Jakita aparece bastante fragilizada em determinado momento. Contudo, a edição pertence mesmo ao Baterista. Ele é o condutor da trama, despejando compulsivamente toneladas daquela fringe science que se tornou a especialidade de Ellis após todos esses anos. Só que o McGuffin da vez é virtualmente inalcançável, reluzindo num terreno extremamente arriscado, até para os padrões do Planetary.

É nessa hora que eles mergulham de cabeça em mais um dia no escritório, imbuídos pela velha dedicação suicida e o foco obsessivo, supermotivados pela única crença de Snow: "Esse é um mundo estranho. Vamos mantê-lo assim."


Schrödinger é quem dita as regras nessa reta final. Por ironia, o bom doutor tem seu experimento mais pop e surrealista - o Gato de Schrödinger - convertido por Ellis numa espécie de força da natureza destruidora de multiversos. O certo é que a teoria, em princípio até lúdica, nunca foi visualizada nesse ângulo tão hardcore. E isso garante um longo solo do Baterista.


Spoilers
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Nada mais justo do que encerrar (em definitivo?) a trajetória do Planetary resgatando um antigo membro. Ambrose Chase nunca saiu dos planos de Elijah Snow, se tornando uma citação recorrente ao longo das edições. Ellis já vinha rascunhando esse timing há tempos, sem sombra de dúvida. Por isso a cena-referência em Planetary #24 soa tão genial agora.


Recapitulando, Chase foi aparentemente morto em missão (Planetary #9), numa sequência altamente sugestiva.


Isso foi em abril de 2000. O que impressiona - além da pegada cinematográfica de Cassaday - é a criação consciente do "plot Ambrose", deixado em aberto para ser revisitado apenas na edição final. Coisa linda de ler.

O gancho relacionando a natureza dos poderes de Chase com o dilema temporal foi muito bem sacado. De uma libertinagem criativa meio trekkie, até.

O uso do Gato como recurso dramático é avassalador (bem como o fato de, após 1 ano, só terem mapeado 20% do banco de dados de Dowling). Uma viagem temporal que pode sugar e colidir todos os futuros possíveis de volta ao segundo em que a máquina do tempo foi acionada é o pesadelo de H.G. Wells. Você viaja até o futuro ou os futuros possíveis infinitesimais viajarão até você? Levando em conta que as partículas subatômicas - a matéria-prima da Mecânica Quântica - são afetadas pela observação, parafraseio o Baterista: qual a razão de tudo acontecer se já aconteceu? O colapso total seria inevitável.

O que tornaria injustificado o De Volta para o Futuro 2 (heresia!), mas que também coincide com a lógica do filme. Segundo o Batera, uma máquina do tempo só pode deslocar alguém até o ponto onde uma máquina do tempo foi ligada pela primeira vez (princípio da causalidade, discorrido quase didaticamente no ótimo thriller espanhol Los Cronocrímenes). Então, esse limite não se aplicaria ao DeLorean mais famoso do cinema - não importa onde no passado, ele sempre será a máquina do tempo ligada pela primeira vez.

A história também pode ser encarada como mais uma referência de Ellis aos comics americanos. Dessa vez, não a algum personagem, mas a um lugar-comum (Chase, o herói "ressuscitado"). Obviamente, com a inteligência e a classe que faltaram aos universos - e aos escritores - tradicionais.




Essa capa merece um quadro... assim que eu tiver uma parede grande o suficiente

A publicação errática ao extremo se tornou uma tradição de Planetary com o passar do tempo. Acabei me acostumando. E imagino que quem chegou até aqui também. A revista mudou bastante desde aqueles primeiros números, como que traçando uma grande analogia à nossa própria vida nesses últimos dez anos. Muitas coisas aconteceram desde então. Entre uma e outra, uma nova edição aparecia de repente e sempre encontrava seu lugar.

A viagem chegou ao fim e a ficha ainda não caiu - nem sei se vai. Planetary é fora do comum até pra fazer falta.

Obrigado Ellis, obrigado Cassaday.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

APOCALIPSE AFTER


Dia desses, numa roda virtual de amigos, comentei que David S. Goyer "é tão diretor quanto o Maradona é técnico". Pesou na equação sua desenvoltura na direção perigosa de Blade Trinity e Alma Perdida, que deveria se chamar "Hora Perdida" (mesmo com um pôster subornando simpatia). Também opinei que, como roteirista, ele tem a qualidade de tornar eventuais furos irrelevantes diante do objetivo principal. Se não tããão irrelevantes, pelo menos uma coisinha assim, digamos, mais perdoável se a farra for boa no saldo final. Obviamente que, quem execrou Dark Knight inteiro porque não recebeu um relatório detalhando tudo que o Coringa fez depois da invasão à festa, não vai concordar. Mas numa análise simplista, porém limpinha, é mais ou menos isso aí: o cara supervaloriza a relação dos personagens com a premissa e isso é quase tudo o que importa. Os detalhes discutíveis ele deixa para os fóruns de discussão.

O que me faz imaginar se ele não seria o escritor perfeito para algo como Heroes. No mínimo, a salvaria do tédio total. E antes que me esqueça, ao inferno com Heroes. Essa eu abandonei faz tempo - embora considere seriamente um comeback depois que a Mia, de Californication, abriu os horizontes da Clair-bear. Cruzamentos interséries são o que há!

Sempre achei que uma boa edição e uma equipe competente de revisores resolveriam as deficiências de Goyer. E a teoria se confirmou há pouco: FlashForward busca essa mão-de-obra especializada na melhor fonte da atualidade, a indústria americana de telesséries. Os dois primeiros episódios são as melhores coisas que já vi com ele na direção, fácil. Narrativa fluída, promissora, climão de apocalipse-na-hora-do-rush, personagens e plots bem conduzidos e triangulados com facilidade notável.

Goyer, que, ao lado de Brannon Braga, adaptou o roteiro baseado no livro de Robert J. Sawyer (nunca fui apresentado), realmente fez um trabalho muito bom... para o que se espera dele. O terceiro episódio, dirigido por Michael Rymer, é ainda melhor no que diz respeito à cadeira do chefe. Mas vamos dar um desconto. Não dá pra exigir que ele encarne um Orson Welles de uma hora pra outra.


A premissa de FlashForward reafirma o apelo comercial do sci-fi dos dias atuais. O gênero está mais em alta do que nunca, à frente de temas místicos/sobrenaturais e até dos policiais, que até pouco tempo eram os hors concours da audiência. Muito disso se deve ao sucesso Lost, da mesma ABC que adquiriu a opção de FlashForward da HBO. As duas séries não dividem apenas a network, mas também o conceito básico: distorções no tempo servindo como pano de fundo para dramas pessoais. Adicione à fórmula uma boa dose de suspense e ação policial e temos aí um case pop funcional e impecável. Até agora, pelo menos.

No plot central, todas as pessoas do planeta sofrem, ao mesmo tempo, um apagão que dura pouco mais de dois minutos. É mais do que o suficiente para uma tragédia generalizada. Aviões caem aos milhares, hospitais se transformam num caos, o trânsito vira uma Death Race 2000. Nas ruas, o cenário é de horror. Corpos amontoados, carros destruídos, prédios em chamas. Após o susto inicial, descobrimos que o apagão não foi um simples lapso de tempo. Em comum, todos tiveram uma premonição: uma visão de si mesmos, seis meses no futuro. Ou seja, um flash forward (duh!). Enquanto o mundo vai se recuperando, o FBI inicia uma investigação, encabeçada pelo agente Mark Benford (Joseph Fiennes), que, na sua visão, estará muito próximo de desvendar o fenômeno. A trama ganha ares de conspiração quando a câmera de segurança de um estádio registra uma figura misteriosa caminhando tranquilamente durante o apagão.

O maior gancho da série é o impacto psicológico do evento na vida de cada um. As reações são tão variadas quanto fascinantes - desde o flash forward do personagem Aaron Stark, onde a sua filha aparece viva, quando ele acreditava que ela havia morrido no Afeganistão, passando pelo Dr. Bryce Varley, que estava prestes a cometer suicídio quando viu que tudo iria melhorar no futuro, até a agente Janis, que estará grávida mesmo que no presente não tenha nenhuma expectativa disso acontecer. Mais complicado é o flash da esposa de Benford, a Dra. Olivia (Sonya Walger, a Penny, de Lost), que se viu corneando o marido dali a seis meses - mesmo o amando tanto quanto, sei lá, a Penny ama o Desmond.

Mas em termos de "dead line" (literalmente), ninguém bate o drama do agente Demetri, parceiro de Benford, que não vê nada em seu flash.


Na ficção, distúrbios temporais sempre dão boas deixas para zoar com a percepção do espectador. Pequenos detalhes que vão se concretizando como uma versão Godzilla do déjà vu mais forte que você já teve. Em FlashForward, os detalhes das previsões vão dando as caras mesmo quando o personagem em questão os evita - ou seriam eles desencadeados justo porque o personagem tenta evitá-los? Esse tipo de discussão não tem fim. Se continuar sendo bem desenvolvida, a ideia pode render mais que os seis meses regulamentares.

Também existem várias convergências com Fringe, especialmente no terceiro episódio. Quando Benford viaja até um presídio alemão para negociar informações cruciais com um prisioneiro (um velho nazi escaldado), a lembrança de Olivia Dunham confrontando o assustador David Robert Jones, na mesma situação, é quase imediata.

A abordagem "distorção temporal vs. prazo limite" já rendeu ótimas séries no passado, como Seven Days e a saudosa Early Edition, embora seja em Lost que FlashForward encontre sua maior referência - bem mais no estilo narrativo irresistível do que em easter-eggs largamente viralizados.

Certamente, há muitas possibilidades a serem exploradas naquele universo. Afinal, só agora tivemos o primeiro flashback em FlashForward...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

EXTERMINADOR, PARTE 3: O LEGADO


No começo de O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas, de 2003, John Connor mostra o quanto pode ser pesado o fardo de um predestinado. Ali, sabemos que ninguém viveu feliz para sempre desde o final de T2, pelo contrário. Num tom amargo e monocórdico, Connor, agora adulto, narra em detalhes o impacto que aqueles eventos tiveram em sua vida. O estrago foi profundo e irreparável. Mesmo anos depois, supostamente "livre" da responsabilidade de juntar os estilhaços que sobrarão da raça humana. Repetindo um lugar-comum na trajetória de vários líderes e messias ao longo da História, John Connor mergulhou no vazio e na obscuridade por um período. Tornou-se pária por opção, ou por falta de. Nada heróico, mas muito humano. É um dos momentos mais realistas e tristes da trilogia.

Confesso que esse início, bem mais dramático e intimista que o padrão da série, me desarmou em relação ao Nick Stahl. Não o conhecia, ainda não tinha assistido Carnivàle e era algo irregular a substituição de Edward Furlong. Em contrapartida, Furlong cresceu e seu estilo de vida junkie estava estampado bem na cara. Embora John Connor ainda não fosse um personagem de intensidade física, tínhamos de ver alguma raiva ardendo por trás daquela melancolia solitária. Stahl convence, adicionando ao contexto um tanto de relutância, perplexidade e inconformismo pelo inevitável.

Não era lá um papel muito fácil. Não havia catarse e era uma história de transição. Connor tinha que aceitar e abraçar o seu próprio legado - o filme é sobre o processo que o leva a isso. Apesar das sequências retumbantes de ação (a perseguição inicial é pra levantar e fazer uma ola), na maior parte do tempo A Rebelião das Máquinas trafega ao largo das convenções do gênero e, por extensão, das convenções estabelecidas pelo próprio James Cameron para a franquia. Há poucas tomadas noturnas, a fotografia gélida dos filmes anteriores agora dá lugar a um visual sóbrio à luz do dia. A dinâmica e o crescimento moral dos personagens têm mais importância do que o ritmo frenético, o que não é uma proposta muito comercial vindo de um blockbuster.

Mas há algumas verdades incontestáveis a respeito deste filme: é, em essência, um caça-níqueis, tramado pelos produtores Mario Kassar e Andrew Vajna desde a falência da Carolco em 1995; e não se compara aos dois anteriores por simples inferioridade cinemática, por mais que eventualmente tenha acertado.

E acertou. Não o tempo todo, mas o suficiente - pra mim e até para o Cameron, maníaco perfeccionista e detrator do filme durante sua produção.


Desta vez, o único link com o futuro pós-apocalíptico de Salvação (pauta/objetivo dos últimos posts, só pra esclarecer) se dá na forma de um pesadelo de Connor. A cena soa mais como obediência a uma tradição da série do que qualquer outra coisa, mas é de encher os olhos. Começa acompanhando o voo de alguns hunter killers aéreos até uma unidade de exterminadores avançando em uma zona de combate. Embora os modelos reais de Stan Winston ainda sejam imbatíveis, foi uma das raras vezes em que um emprego de CGI me soou convincente - e, de certa forma, até inevitável. Por mais que seja entusiasta dos animatronics e dos efeitos rústicos da velha escola, não há outra maneira disso ser feito nessa escala.

Também em T3 as distorções temporais têm suas variações mais significativas. O "the future is not set" de John Connor entra em rota de colisão com o "Judgment Day is inevitable" do T-850. Ainda que sutis, houveram sim alterações na linha do tempo. Por conta dos eventos de T2, o exterminador não se identifica mais como um modelo Cyberdyne Systems, citada até por Kyle Reese como parte da sua realidade no futuro. A Skynet não é mais uma linha de superprocessadores criada por Miles Dyson baseada no CPU do primeiro exterminador (olha o loop aí de novo). Com a destruição de seu centro de pesquisas, a Cyberdyne quebrou e seus projetos foram adquiridos pela Força Aérea dos EUA e desenvolvidos por seu setor de tecnologia, a CRS (Cyber Research Systems Division) - incluindo o da Skynet, que "reencarnou" como um software de defesa estratégica.

O destino deu seu jeito, mas como se vê, não é totalmente imutável. Como diria o Farraday, de Lost, é preciso um número considerável de variáveis para alterar uma constante.

Os modelos robóticos que aparecem em T3, ainda primários, dão uma noção melhor da evolução dos exterminadores. Curioso ver HKs aéreos em dimensões bem menores, alguns exterminadores T-1 fazendo as primeiras vítimas humanas da Skynet e até o que parece ser um protótipo humanóide dos robôs (no canto à esquerda). Infelizmente, não foi dessa vez que vimos um HK Centurion em ação no front de batalha.

E, claro, a T-X, exterminadora de exterminadores que é uma evolução do T-1000 com endoesqueleto metálico, arsenal generoso e altíssima capacidade de infiltração. De longe, é a que parece mais humana entre os exterminadores - e com direito a reação orgástica quando na iminência de atingir seu alvo primário. E eu morreria feliz. Ah, Kristanna Loken...


Mas não dá pra comentar sobre o filme sem mencionar o que ele teve de mais surpreendente. Os cinco minutos finais de T3 me pegaram no contrapé. Não esperava mesmo e a partir dali o que perigava ser apenas uma aventura eficiente e derivativa, ganhou peso e substância. E refletiu em tudo o que eu havia visto até ali, expandindo seu significado bem diante dos meus olhos - alterando até, como uma boa viagem no tempo. Sequência final bela, aterradora e emocionante, de longe a mais recompensadora da série.

T3 forneceu a base perfeita para Salvação. E tão importante quanto John Connor finalmente acreditar em si mesmo naquela conclusão, é o fato de me fazer acreditar também.

Até segunda ordem, pelo menos.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

EXTERMINADOR, PARTE 2: A INDÚSTRIA


O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final, de 1991, foi contido nas cenas da guerra contra as máquinas. Desta vez, não havia nenhum humano vindo do futuro com lembranças a serem vislumbradas em ocasionais flashbacks (ou seriam flashforwards?). Talvez pra não deixar todo mundo no vácuo, James Cameron optou por abrir o filme com uma sequência massiva de uma grande batalha no futuro. No fundo, ele apenas atualizou aqueles flashes do primeiro filme (até a cena da pick-up em fuga sendo atingida e capotando está lá), numa versão ainda mais poderosa, acelerada e grandiosa. Criou assim uma introdução absolutamente eletrizante, mesmo que apenas ilustrativa e sem ligação direta com o plot central.

Sempre achei curioso o fato de Cameron, quebrador de convenções que é, apenas reprisar o ponto de partida anterior. Nada de soldados invadindo uma base da Skynet, provavelmente em missão suicida, e enviando o T-800 hackeado momentos depois da partida do T-1000. Ah, essas sequências imaginárias...

Também especulei outras coisas de lá pra cá. Uma delas tem ligação direta com o promo teaser de T2. Esse explodiu bem na minha cara, numa desavisada tarde de sábado, durante o saudoso Cinemania, da Rede Manchete. Uma pequena obra-prima dirigida pelo mago Stan Winston - e a única vez onde foi mostrado o processo de construção dos exterminadores. Simples e antenado com a mitologia e com o clima de expectativa.




Sabe o que foi assistir esse teaser em 1989?



Cara, depois disso não sosseguei enquanto esse filme não estreou no cinema. Cinema lotado. Aliás, lotado não... super, hiperlotado. Fila quilométrica e não tinha lugar nem no chão. Bons tempos.

Desde essa época, fiquei chapado com o conceito de linhas de montagem de exterminadores e outras máquinas genocidas. Imensas áreas industriais criadas pela Skynet com tecnologia livre de questões humanas, evoluindo em horas o que levaríamos décadas para começar a compreender. Mas longe daquele visual dark biomecânico de 01, a capital das máquinas de Matrix, e sim algo mais próximo de uma central mecanizada clean, eficiente e produtiva. Projetada e construída do zero com high-tech brand new.

O que vai contra a info dada pela exterminadora Cameron, na série Terminator: The Sarah Connor Chronicles. Segundo ela, após os bombardeios nucleares, a Skynet reaproveita as bases militares humanas para adaptar suas fábricas. O que seria um belo retrocesso vindo de uma IA com aversão à espécie humana.

T2 ainda traz um bônus no final de sua acachapante abertura. Pela primeira vez, somos apresentados ao grande John Connor.


Não lembra em nada a jovialidade delinquente de Edward Furlong no mesmo filme, mas Michael Edwards tem uma puta expressão badass nessa cena. É o próprio líder de uma revolução armada (ainda mais com essa cicatriz à Tom Berenger, em Platoon). Foi o John Connor escolhido por James Cameron, portanto o que ficou eternizado no imaginário popular. Nunca saberemos se vingaria mesmo, já que Edwards evaporou em meados dos anos 90.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

EXTERMINADOR, PARTE 1: FUTURO EM CHAMAS


O Exterminador do Futuro: A Salvação é o filme mais importante da série. O maior clímax da saga desde a sua criação e toda a sua razão de ser. Em tese. Narrativamente, é ao redor de Salvação que os eventos dos capítulos anteriores foram estruturados. Todos os conceitos criados por James Cameron, junto com Gale Anne Hurd: o cenário de pesadelo apocalíptico, exterminadores e hunter killers esterilizando o planeta, a raça humana à beira da extinção e o último foco de resistência encontrando na figura de John Connor o seu messias. É a Caixa de Pandora da série, enfim escancarada.

Além disso, é o período onde todos os deslocamentos temporais convergem na forma de pontos de origem - com todas as motivações e situações tão citadas e nunca mostradas atreladas a cada viagem. Mas, o mais importante, é onde o loop/anomalia se inicia. Se John e Sarah Connor tivessem realmente salvo o mundo de uma guerra em T2, eles estariam condenando a existência de John, visto que seu pai veio daquele futuro caótico. Estava na cara o tempo todo: enquanto John Connor existisse, haveria guerra*.

* pra manter a conversa num nível são, vou pular o Gato de Schrödinger, altamente aplicável neste caso. Mas as pirações estão liberadas nos comentários.

Em geral, o ponto zero desses loops temporais é muito difícil de detectar, já que inverte todos os princípios da causalidade. Eu bem que já tentei, mas nem arranhei a lataria. A última temporada de Lost bate pesado nessa tecla. O excelente Los Cronocrímenes é todo sobre isso. Para esta situação hipotética pode até não haver alguma explicação lógica - ou filosófica, que seja -, mas ao menos em Salvação, ou a partir dele, há a chance de testemunharmos cada momento onde os filmes anteriores nasceram. Isso, mais uma vez, em tese.

Igualzinho ao resto da humanidade, não espero muito de um filme com McG na direção. Tenho evitado spoilers com destreza notável, dada a lista peçonhenta dos meus favoritos, mas 33% no Rotten Tomatoes se faz ouvir até no continuum espaço-temporal.

Pelas prévias, nota-se que o roteiro virtual desenhado nos três filmes anteriores foi ignorado em detrimento ao aspecto bélico do terminatorverse. O que não é nada mal também.


Esquecendo por um momento o vil metal que move tudo isso (e não estou me referindo ao exterminador). Basicamente, quem é fã da série, sempre quis ver aquela guerra. Lembro bem da primeira vez que assisti ao filme original e fiquei fascinado com os flashes daquele futuro aterrador. De repente, o plot principal search and destroy parecia apenas a ponta do iceberg. Os campos de extermínio citados por Reese, caveirões HK gigantescos e as unidades aéreas varrendo os escombros e explodindo guerrilheiros da resistência com raios laser púrpuras. Se você não fosse soldado, seria um moribundo agonizando em um bunker, devorando ratos como se fosse um banquete.

Isso sem falar da aterrorizante possibilidade de, a qualquer momento, alguém na multidão se revelar um exterminador, puxar um canhão de plasma e sair atirando em todo mundo - como o nosso amigo fantasmagórico aí em cima.

Às vezes, uma parte supera o todo. Eu simplesmente queria mais daquilo, muito mais. E o sentimento ficou em stand-by. Até hoje.

[trilha do Brad Fiedel aqui]


Nos extras do DVD do primeiro filme, há uma extensa galeria onde James Cameron mostra que, além de tudo, é um grande ilustrador. Os designs e concepções foram meticulosamente criados e desenhados por ele. Impensável nos dias atuais, onde existem equipes pra tudo (e talento inversamente proporcional). O material é de cair o queixo e bota muito desenhista famoso aí no chinelo. Três amostras:


Vamos descontar o terminator tentando pegar a Sarah com uma faca de cozinha. Todo mundo tem sua fase Stephen King.

terça-feira, 28 de junho de 2005

TODO MUNDO MORRE SOZINHO


Sabe quando a gente vê algumas coisas por aí onde a pessoa tenta sempre fazer com que seu trabalho seja reconhecido, mas nunca consegue, só para depois um gaiato qualquer aparecer e alcançar aquela meta sem nunca ter tentado? Pois então, Donnie Darko (idem, 2001) é mais ou menos isto. Nasceu cult e pronto. Não que seu idealizador não quisesse que fosse ou não tenha se esforçado, mas não sei se um diretor novato almeja que um filme seja cult, ao invés de simplesmente um filme de sucesso. Big Fish por exemplo, tem história cult, fotografia cult, personagens cult, diretor cult, mas não é cult. Talvez porque a única coisa que a maioria dos filmes cult não tem e Big Fish esbanja é orçamento. Filosofia do quanto menos custa, melhor é.


Não é só questão de dinheiro. Filmes cult atingem platéia definida. Não são que nem Titanic, por exemplo, que desperta amor e ódio por aí em tudo quanto é tipo de nicho de mercado; o primeiro muito mais que o segundo, sendo que tem muita gente dizendo que odeia só para ser do contra, como vem acontecendo com Gladiador. O cult-movie é dominado por características específicas: os temas não variam muito e sempre são chocantes de alguma forma, a narrativa é bastante peculiar, a trilha sonora não se atém ao lugar-comum - ou é alternativa até o osso ou pega pesado no pop-rock nostálgico, os atores estão surgindo ou no ocaso da carreira (ou são cult... dãã) e sempre traz símbolos marcantes.


Donnie Darko tem tudo isto. Atinge de forma acachapante o povo que se amarra em ficção científica, viagem no tempo e complexos da juventude. A edição final do filme original deixa uma série de lacunas que tornam o filme ainda mais intrigante, aguçando uma das qualidade/defeitos mais marcantes do ser humano: a curiosidade. Entretanto, a simples escolha do tema certo não funciona se o elenco não entrar na dança e as personagens não derem o clima adequado. Neste ponto o filme mostra-se mais do que competente, pois a postura e as personalidades de cada um conseguem quase alcançar a complexidade e profundidade das personagens de Magnólia: Donnie nos apresenta os produtos de uma adolescência cheia de conflitos internos, sua namorada, também à parte do mainstream social, é peça fundamental e serve de escada definição da psique do protagonista, a professora cool e amargurada com os métodos de um colégio de ensino tapado e atávico, o hipócrita soterrado em pecado que prega uma definição de vida maniqueísta de cunho quase religioso, os pais cegos e teleguiados, os pervertidos niilistas do colégio, a garota atacada sem dó pela crueldade adolescente e que é representante de todo um conjunto de minorias possível... tudo isto reproduz um cenário sufocante, que sugere a iminência de uma desgraça.


Para juntar personagens, roteiro e tema e transformar isto em um filme, o diretor usa uma narrativa toda entrelaçada onde nada é desperdiçado ou é usado como tempo de tela. Tudo tem relevância e mais parece um jogo de tabuleiro à moda antiga: Jogue um dado. Se tirar seis, vá para a casa X, mas se tirar 4 terá que voltar Y casas. Difícil não se sentir envolvido onde tudo tem algum tipo de referência à frente ou para trás, numa lógica nonsense, de modo que a compreensão consciente do que está acontecendo torna-se extremamente difícil. Entretanto, mesmo que a tentativa de usar a razão só contribua para nublar o entendimento, quem se identifica com o personagem sente que há coerência naquilo tudo, mesmo que não consiga explicar. É sensibilidade pura com clima de história da Vertigo.

E o diretor joga baixo com o espectador. Não bastassem todos estes elementos, o filme é ambientado nos anos 80, o que nos dá uma trilha fenomenal recheada de clássicos de Joy Division, Tears For Fears, Duran Duran, Oingo Boingo etc. Cada música é usada com propriedade, como que fazendo parte do filme assumindo um papel coadjuvante. Os momentos em que somos brindados com The Killing Moon (Echo & The Bunnymen), praticamente inteira logo no início, e uma versão de "Mad World" no final, interpretada (muito bem) por Gary Jules servem para nos "encaixotar" junto com o filme, suas letras servindo quase como sinopse, casando perfeitamente com o que ocorre na tela. Se não soubesse que as músicas têm 20 anos e que o filme é de 2001, juraria que foram escritas especialmente para a trilha sonora. Que diga o Bunnyman que estrela as fotos deste post, o coelho apocalíptico que a todo tempo adverte Donnie quanto ao futuro.


Richard Kelly havia dirigido dois filmes antes deste, mas é como se só debutasse a partir daí. Durante toda a versão do filme no DVD onde temos comentários do diretor é possível ouví-lo mencionar referências a comic books, justificando o clima Vertigo no ar.

Quanto aos atores, não vi Céu de Outubro (October Sky, 1999), mas a mídia diz que foi DD que trouxe Jake Gyllenhaal para as luzes, tornando-se cotado para o papel de Peter Parker e alcançando status imediato de rising star. Pode-se ainda ver o decadente, mas competente, Patrick Swayze e ainda Drew Barrymore, fazendo-me pensar sobre a sonoridade da expressão Cellar Door e ajudando sua produtora ao topar o papel da professora cool.


Mesmo sendo um filme reverenciado, é curioso como não tenha alcançado sucesso na telona. Nos EUA sua passagem foi extremamente tímida, enquanto no Brasil foi lançado direto em vídeo. O sucesso fez com que voltasse aos cinemas ano passado com uma versão do diretor de quase duas horas e quarenta minutos onde várias cenas que foram cortadas na primeira versão ajudam a compreender o filme sem precisar de outras fontes de consulta.

Da primeira vez que vi, fiz algumas suposições sobre o que teria acontecido na tela e, no debate em uma lista de emails sobre cinema, vi que não estava de todo errado. Um colega da lista resolveu pesquisar o site do filme e teve acesso ao livro de Roberta Sparrow, a Vovó Morte. Com isto, tudo ficou mais claro e coloco a explicação do que acontece na mensagem abaixo, no mesmo esquema já conhecido. Selecionem o texto para ler.

Ahh... eu não gosto de Titanic.


Donnie Darko Explicado



Existem vários universos paralelos. Nós vivemos no universo 'real' por assim dizer. Raramente pode acontecer de uma anomalia do universo ocorrer e acabar por criar um 'efeito dominó' que pode levar ao fim do universo.

O que acontece é que quando a turbina cai na casa do Donnie Darko, ela é um artefato vindo do futuro. Isso causa um rompimento na barreira entre os universos, e a partir daquele momento, o universo real passa a se tornar o universo TANGENTE. Universos tangentes tem uma duração curta, que no filme, virá a durar 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos e depois acabar.





Quando esse universo terminar, ele irá consumir tudo ao seu redor, inclusive o universo real, dando fim à toda existência.

Existe uma teoria que fala sobre o rompimento de barreiras no espaço tempo no filme, chama-se 'A Filosofia da Viagem no Tempo' escrito por Roberta Sparrow. No livro ela explica que pode acontecer de um artefato do futuro cair no mundo real através de um 'wormhole' da teoria de Einstein (que pode acontece em qualquer hora e qualquer lugar, segundo o filme), e criar um universo tangente paralelo.





Quem estiver perto do artefato quando ele cai, torna-se o receptor, e é a função dele fazer com que o artefato volte ao seu local de origem, fechando o círculo. Ou seja, o receptor deve fazer com que todo o ambiente seja favorável para que o artefato viaje no tempo mais uma vez, fechando o 'wormhole' criado pela primeira vez, e assim salvar o universo. (as partes do livro que explicam isso dá pra achar no site oficial)

Todas as pessoas ao redor do Receptor (o Donnie) passam a se tornar os Manipulados, pois eles serão manipulados por donnie para que ele possa fazer o que for necessários. Além dos manipulados vivos (seus pais, amigos, prof, etc...) há também os manipulados Mortos, que são pessoas mortas no universo tangente que detêm o poder de voltar no tempo e ajudar Donnie em seu caminho.





O manipulado morto do filme é o coelho Frank. Ele tem a função de fazer com que Donnie faça tudo funcionar, para tal ele manda Donnie cometer atos que virão a ter uma consequencia importante para o fluxo do universo!

O livro também explica que o receptor passa a ter poderes sobre água e fogo, entretanto o manipulado morto terá mais poderes, pois ele servirá de guia. (isso eu achei muita viagem)

No filme:

- Frank salva a vida de Donnie pela primeira vez, para que ele possa fazer com que a turbina volte no tempo mais uma vez e feche o círculo
- Frank manda Donnie inundar o colégio para que ele possa conhecer Gretchen, que terá um importante papel, pois ela será a garantia de que Donnie faça seu trabalho, e também fará com que ele acredite que não irá morrer sozinho (seu maior medo)
- Frank faz com que Donnie incendeie a casa do guru para assim eles encontrarem o calabouço pornô, e fazer com que a mãe de Donnie tome o avião de onde o artefato será extraído (outra garantia)
- Donnie, ainda confuso, mas certo do que vai fazer, vai atrás de Roberta Sparrow pra lhe dizer que ele é um receptor
- Neste momento, quando Gretchen é atropelada e morta por Frank, Donnie percebe que este é um artíficio que faça com que ele cumpra sua missão, caso contrário sua mãe e amor serão mortos
- Quando Frank faz com que Donnie encontre a arma no armário de seu pai, Donnie percebe depois que ele deve matar Frank, para que naquele ponto (quando ele morre) ele retorne ao passado e ajude Donnie a cumprir a missão.

Aí que está: Donnie prepara tudo, o 'wormhole' se abre, criando algum tipo de furacão ou fenômeno, que destroça o avião e suga a turbina para dentro dele (como um buraco negro). Da primeira vez que isso acontece, o buraco fica aberto pondo em risco o universo, então deve ocorrer de novo para se fechar. Ou seja, Donnie NÃO volta no passado, apenas a turbina faz a viagem no tempo.




Wormhole


No livro de Roberta Sparrow ela explica que uma vez que o círculo se fecha, todas as pessoas envolvidas têm a sensação de deja vú ou como se tivessem sonhado com tudo aquilo (por isso que tem aquela cena que todo mundo acorda). Quando acontece o fechamento do buraco, não há mais Frank para acordar Donnie e tirá-lo da casa, e por isso ele morre. Um sacrifício que ele deve fazer para salvar os que ama, com isso ele evita que sua mãe morra no avião e que gretchen e frank morram, e também que o universo deixe de existir, claro.

O gordinho de vermelho é um enviado da FAA para investigar a família Darko, já que o departamento de aviação norte americano achou estranho demais a queda da turbina.

E é isso o filme! Espero que tenha dado para entender! O site oficial dá toda a explicação, e ainda dá um extra de coisas que acontecem.

sábado, 8 de janeiro de 2005

Antes de tudo isso aí embaixo, clique no sempre sorridente Venom e confira o novo texto do 'Zombieblog' lá no MdM. É uma pequena lista de fases que eu relançaria em edições encadernadas... se eu tivesse uma editora.


E não esqueça... o Monstro do Pântano é da DC... :P


Nós vimos!!



...o saldão de DVDs das Lojas Americanas. Três por sessenta reais. Em meio à turbulência etílica de final de ano, eu fiz questão de ir lá só pra adquirir essas três pérolas da carnificina hollywoodiana (que eu não tinha, é mole?). O fato de serem edições especiais também ajudou. O pior é que nesse lance de escolher apenas três, tive de sacrificar o clássico Era Uma Vez no Oeste (tsc) e a super-edição especial de A Identidade Bourne (tsc!!). Esses aí agora só no mês que vem (tsc!!!). Claro, se ainda estiverem lá (...).

Ah sim, eu já havia assistido essas versões especiais.



O Exterminador do Futuro traz um Schwarza até hoje impressionante. O mais legal é que a sua face jamais expressa qualquer emoção, mesmo quando está fazendo algum esforço físico. E isso não é tão fácil quanto parece (tenta socar alguém sem fazer aquela cara de mau). A sensação de frieza mecânica e ausência de alma fica ainda mais forte quando... ele torra as sombrancelhas (sério!).

James Cameron sempre teve fama de tough guy. Reza a lenda que ele é um verdadeiro sociopata workaholic dentro do set. Dizem até que ele fez o Ed Harris chorar, durante as filmagens de O Segredo do Abismo, de tanta pressão psicológica. Doido pra deixar pra trás o passado de Piranhas 2 (aquele, das assassinas voadoras), Cameron cometeu um filmão. E agora, com os extras reveladores, dá pra ver claramente que, já na época, ele tinha grandes planos para carreira do andróide assassino.

Todas as cenas inéditas são ótimas e me fizeram pensar em certos pormenores. Numa delas, a relutante Sarah Connor discute a lógica temporal com Kyle Reese, e lhe propõe explodir a sede da Cyberdyne (empresa que desenvolveu a tecnologia da Skynet) no intuito de impedir o apocalipse iminente. Reese responde dizendo que aquela não era a missão que ele havia recebido e portanto não poderia interferir nesta linha de acontecimentos. Será que os superiores de Reese sabiam da inevitabilidade da guerra (como sentenciou Jonathan Mostow em T3), ou apenas não queriam arriscar a existência de John Connor (afinal, Reese será o seu pai)? Vale lembrar que Cameron reaproveitou a idéia do atentado à Cyberdyne, no segundo filme.

Em outra cena, o logo da Cyberdyne aparece na entrada da fábrica em que o exterminador foi destruído. Logo em seguida, dois técnicos encontram um chip que fazia parte do CPU do exterminador e comentam que nunca haviam visto uma engenharia tão avançada. Ora, no segundo filme, ficamos sabendo que a Cyberdyne baseou todo o sistema da Skynet na tecnologia do chip e do braço intacto do exterminador - sendo que ambos vieram do futuro. Há um estranho loop temporal aí. Será que a Cyberdyne conseguiria criar Skynet se os restos do exterminador não tivessem sido encontrados? Será que a guerra só existiu em conseqüência da viagem temporal do exterminador e de Reese (se eles não tivessem voltado, chip não teria sido encontrado, a Cyberdyne não teria... etc)? E, o mais intrigante, se todas as repostas forem "sim", então o motivo original da guerra teria sido mesmo o visto em T3. Destruir a Cyberdyne jamais impediria a guerra (apenas adiá-la, como bem disse o exterminador), visto que o projeto foi readaptado pelo exército em seu sistema de defesa.

Agora, outra pergunta que não quer calar. No finalzinho de De Volta Para o Futuro, Marty McFly fica desesperado pra voltar para o presente a tempo de impedir a morte do Doutor. Aí ele lembra que tem uma máquina do tempo à sua disposição, e decide voltar alguns minutos mais cedo. Por quê, nas seqüências de Terminator, Skynet não decide enviar o T-1000 e a T-X para a mesma época do primeiro exterminador? Reese e Sarah não teriam chance contra eles. Por outro lado, a lógica de Skynet pode ter contabilizado o fracasso do primeiro exterminador como uma probabilidade (mesmo que ínfima) de fracasso para os novos exterminadores.

O filme ainda tem uma ponta de Bill Paxton, molecão. Ele é um dos punks posers que o exterminador detonou, logo no começo. Um lado ruim foi a constituição do DVD. As cenas excluídas não foram incorporadas ao filme e a entrevista com o Cameron não tem legenda em português, só em spanish. Não, não... eu até saco inglês coloquial sim. O problema é que Cameron fala muito, muito rápido, parece até um cigano repentista. Mas isso não tira o brilho de sua participação, principalmente no divertido bate-bola entre ele e Schwarza (cujo inglês é tão ruim quanto o meu!). Ah, e têm umas artes do filme feitas por Cameron, no disco de extras. O cara manda muito bem no traço!



O famoso Aliens, O Resgate. Acho que essa é a melhor continuação de todos os tempos (calma, eu também pensei em outras quatro antes de terminar a frase). Se não for, pelo menos é a primeira que me vem à mente sempre que eu penso nisso. Cameron estava inspirado na época e ainda resgatou (sem trocadilhos) vários elementos de Terminator. Michael "Reese" Biehn (o melhor ator de ação que não deu certo em todos os tempos), Bill Paxton (o mariner reclamão), uma protagonista forte, obcecada e líder nata (Sigourney Weaver, em paralelo com a futura Sarah Connor), e máquinas mirabolantes, como a empilhadeira/robô-gigante-de-seriado-japonês. Tudo aqui é maior, mais rápido e mais poderoso que no primeiro filme. Claro que, em termos de suspense, Alien - O 8º Passageiro (que na verdade, era o 9º) leva a taça Jules Rimet com folgas. Aliens, O Resgate é uma aula de como se faz um filme de ação emocionante. Hoje, o conceito de Hollywood sobre "filme de ação emocionante" tem algo a ver com CGI e trilha sonora rap. Muuuuito emocionante.

Os extras são nada menos que excelentes (e até melhores e mais importantes do que os de Terminator). Geralmente, quando se fala em "cenas excluídas", logo imaginamos seqüências mais toscas ou que destoam da regularidade do filme como um todo. Não é o que acontece aqui. As cenas são tão bem tramadas e produzidas quanto o resto do filme, e são tão absurdamente necessárias, que nem sei como pude viver até hoje sem elas. A edição da época foi bem sem-noção mesmo.

Numa das cenas, ficamos sabendo que Ellen Ripley deixou uma filha na Terra. Após 57 primaveras à deriva no espaço, ela descobre que sua filha faleceu há muito tempo. E assim fica explicado o apego imediato e a empatia quase materna que Ripley sentiu pela menina Newt. É uma cena de alto valor dramático e uma peça importante no argumento do filme. Dizem que esse corte deixou Sigourney Weaver muito puta com Cameron.

Desde a primeira vez que assisti à esse filme, ainda moleque, eu já sentia falta de alguma coisa entre a cena que Ripley fica sabendo do processo de terra-formação em LV-426 e a cena que Burke lhe conta que perderam o contato com a colônia humana. Sempre achei muito abrupto. Agora já posso dormir sossegado. A cena mostra um pouco do cotidiano da colônia humana (finalmente), e em seguida mostra Newt e sua família dentro de um veículo avistando a nave do primeiro filme. Seus pais saem para explorar e logo retornam com o pai de Newt desacordado, com um nojento face-hugger grudado na cara. Ótima seqüência.

Após ver essa cena, acabei chegando à uma conclusão (eu sou cheio das conclusões) em relação à Rainha. Recapitulando, os face-huggers saem de ovos (que também parecem ser organismos ativos independentes, visto que chocam apenas em momentos oportunos) e carregam um embrião alien para gestação em hospedeiros vivos. Esses embriões têm uma natureza simbiótica, pois absorvem traços da genética de seu hospedeiro (vide o alien-labrador de Alien³). Baseado nesse ciclo reprodutor complicadinho, concluo que o embrião que infectou o pai de Newt só pode ser de uma rainha. Se fosse um "zangão", ele jamais conseguiria subjulgar sozinho todos os humanos e levá-los à nave (que ficava a quilômetros da colônia) para serem infectados pelos face-huggers. Mesmo por quê, no filme, a Rainha e o ninho se encontravam na usina de terra-formação, dentro da colônia. E o quê eu quero dizer com isso? Que foi muito azar o pai de Newt ser infectado logo por uma rainha. Existe ainda uma outra possibilidade. Logo que Newt e seus pais voltaram com o face-hugger, os colonos resolveram averigüar a nave e, claro, também foram contaminados um a um - o que teria sido de uma burrice sem precedentes.

Por último, foi mesmo uma "pena" aquela explosão nuclear do final. O raio de destruição foi acima dos 30km, o que deve ter pulverizado a nave alienígena. Seria interessante saber mais sobre ela, seus tripulantes (alguma raça inteligente), e o quê diabos ela fazia com tantos ovos de alien estocados. Pode ser que haja mais sobre a raça dos aliens do que soubemos até agora.

Esse DVD recebeu uma montagem maravilhosa. Todas as cenas excluídas foram incorporadas ao filme e entre o material extra, estão os sensacionais designs de arte concebidos por H.R. Giger. Infelizmente, o ramo de legendagem em português deve estar passando por uma grave falta de mão-de-obra. Os extras estão lá, lindos e maravilhosos, mas apenas no idioma do Capitão América. The book is on the table.



Sempre quis saber mais sobre os bastidores da produção de Robocop, que é um filme tecnicamente bem intrincado. Descobrir como foram criadas as concepções e qual o tipo de abordagem. Era mesmo aquilo que eu já suspeitava e que havia lido por aí. O Tira-Robô é um mix tecno de Batman, guerreiro samurai e navy-seal. Um super-herói no sentido mais puro e trágico da palavra. A diferença é que ali não houve adaptação de nada, o que é incomum. O Robocop já nasceu do modo mais difícil, que é na telona (e em grande forma, o que é mais difícil ainda). O filme é talvez o maior símbolo do cinema de ação americano dos anos 80. Violência pesada e caricatural, clima de quadrinhos, críticas sociais profundas como um cuspe (mas bem sarcásticas) e bastante simbolismo maniqueísta.

E Robocop funciona bem até hoje, com ou sem trocadilho. Peter Weller até que fez alguns filmes bem legais após esse (como Loucuras de um Divórcio e Poderosa Afrodite), mas com certeza o ciborgue foi o papel de sua carreira. Esquisito saber que o "papel de sua carreira" exigiu dramaticidade zero, mas fazer o quê né. Mais esquisito ainda é vê-lo hoje, bem envelhecido, no recente Devorador de Pecados (com Heath Ledger). Já Nancy Allen sempre teve uma carreira discreta, mas não se engane. Tendo outras atividades, ela nunca priorizou a profissão de atriz, mas sempre fez ótimos filmes extra-Robocop (como Vestida para Matar e, mais recentemente, Irresistível Paixão, aonde ela mostra que ainda pode desfilar de baby-doll sem fazer feio). Eu sempre achei que jamais veria Kurtwood Smith (o malvadão Clarence Boddicker) com outros olhos. Me enganei feio, pois ele é simplesmente impagável no seriado That's 70's Show (ainda existe?). Quanto aos chefões da poderosa Omni, eles ainda hoje continuam relevantes. Miguel Ferrer (o Bob Morton), Ronny Cox (o Dick Jones) e Daniel O'Herlihy (o velhão presidente-sênior) são, respectivamente, Boninho, Irineu Marinho e o cérebro de Roberto Marinho conservado em nitrogênio, decidindo o futuro da humanidade.

Robocop é filme-gol olímpico. E quem bateu o escanteio foi o diretor holandês Paul Verhoeven. Seu estilo único tem uma dinâmica seca e direta, repleto de violência cinética e um humor negro ultra-corrosivo (pelamordeDeus, pára de ler isso e vai logo assistir Conquista Sangrenta, filme que ele dirigiu em 85, com um Rutger Hauer no auge). Verhoeven foi elogiado por gente muito boa, como Martin Scorcese - uma de suas influências confessas. Teve lá os seus tropeços, e agora, com o atual estado babaca-infantilóide do cinemão pop, o espaço para a sua arte gráfica e refinada será cada vez menor. Pena.

As cenas excluídas não tiveram sua produção finalizada, e apesar de interessantes, não fazem lá muita falta (uns comerciais caóticos na TV, uma entrevista com Bob Morton e Robocop, e uns diálogos pueris). O legal mesmo são o making of (sem legendas em português, mas cheio daquelas maquetes que eu queria ter pra mim), os story-boards e a concepção dos designs.


O BEIJO TIFÓIDE



Sabe, um filme assim não pode ser ruim. Mas deixando a admiração pela natureza de lado, Elektra terá alguns pontos ao seu favor. O diretor Rob Bowman é confiável, já fez dois filmes de ação bons e sem muita frescura (Arquivo X e Reino de Fogo), e o melhor... ele não é nenhum estreante clipeiro, como as dezenas que andaram destruindo filmes promissores por aí. O filme também traz o bem-vindo advento de misticismo e poderes ocultos, o que muito me agrada. Os efeitos especiais estão bonitos (sim, bonitos) e funcionais - ao menos os que constaram no trailer. Além do mais, o venerável Terence Stamp (o eterno General Zod) está lá, como um perfeito Stick. E tem a Jennifer Garner... ela não se parece com a ninja grega, mas é boa atriz, e já no filme do Demolidor deu pra ver que ela pegou o espírito da personagem.

E tem o beijo né... :)


A MALANDRAGEM DE DARTH ZOMBIE



Há. Ontem (7/1), o site thepsychotic.com liberou um lote de imagens promocionais de Star Wars: Episode III - Revenge Of The Sith, mas pouco depois elas foram interceptadas pelos cruzadores imperiais (George Lucas deve ter um Olho de Mordor à sua disposição). O legal é que apenas os links foram quebrados e abrindo o código-fonte, vi que os arquivos ainda não foram deletados do endereço. Até quando vão durar lá eu não sei, portanto...

Algumas das imagens já são bem conhecidas, como essas do General Grievous (sensacionais!). Também tem o primeiro vislumbre dos planetas Kashyyyk, Alderaan, Mustafar e Utapau (putz... depois do Count Dooku, agora isso... o português tem sido inglório com a nova fase de Star Wars). Pra saber qual é qual é só ler o nome do arquivo (dãã).

É sempre bom usufruir dessas coisas sem precisar pagar. Clique nas imagens para ampliá-las e conheça o Lado Malandro da Força. :)
































dogg, esperando o telefonema dos advogados da LucasFilm, ao som de Highway To Hell... yêê!