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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Zombie de Ouro 2025


2025 foi paradoxal. Rápido como um raio e, ao mesmo tempo, agonizantemente interminável. Culpa, em parte, da tal information overload, ou melhor, internet overload. E só vai piorando. Desconectar é o novo ignorance is bliss, altamente necessário nestes dias. Também vimos a partida de muita gente boa, ícones até – e incessantemente, mesmo enquanto rascunho esse postulado. Faz parte, lógico. Mas saber quem foi e quem está ficando é digno de intimar a Dona Morte para uma sindicância. No mínimo, para uma repreenda ao estilo "larga essa foice, que tu é moleca! Moleca!". Enfim.

Desta vez, tive que cortar muita coisa bacana da lista, senão ia terminar só no próximo ZdO. Foi uma das triagens mais difíceis que já fiz. Ajudaria se tivesse dedicado uns posts à parte para diminuir essa sensação, mas o tempo urge. E olha que não sou tão ocupado assim. Evito a fadiga igual ao caraio porque, sinceramente...? A esta altura, não vale a pena. Ainda gosto de ver na tela as trasheiras que datilografo, só que, após 20 anos, o que vier é lucro. Mas vamo que vamo.

E parafraseando o Madman...


ALL ABOOOARD, HAHAHAHA!



Playlist do ano

* Não vale discos ao vivo ou discos regravados, salvo nas menções honrosas


O Mukeka di Rato chega à caráter ao seu trigésimo aniversário (¡¡puerra!!). Generais de Fralda dá uma prévia do esporro lírico já no título, mas é a boa e velha metralhadora giratória do grupo que faz a diferença: além das viúvas da ditadura, sobra paulada em políticos, racistas, feminicidas, crackudos normais, crackudos de farmácia, genocídio palestino, Evangelhistão, Bozonaristão e imbecilidades afins. Um tapaço na cara em formato de hardcore demencial com sotaque canela verde. Mukekão!





Acompanho o Big Thief com fidelidade canina desde o maravilhoso Two Hands, de 2019. Por que catzo o grupo de Brooklyn/NY nunca figurou aqui é algo que só a cachaça explica. A discografia inteira é uma joia. Mesmo com a saída do baixista e cofundador Max Oleartchik em 2024, o nível segue intacto no recente Double Infinity. É uma jam session revolvendo folk, americana, country, psicodelia e as belas e soturnas harmonias vocais de Adrianne Lenker. Trip melancólica, evocativa e irresistível.





Não deixa de ser curioso que a Sub Pop, ex-templo grunge, seja a casa do clipping., uma das formações hip-hop mais experimentais e criativas da paróquia. Se você curte hip-hop com superdosagens de industrial, noise e horrorcore na linha Death Grips, cai dentro dos primeiros discos (todos lançados pela gravadora de Seattle). Já este 5º álbum, Dead Channel Sky, é perfeito para iniciantes. Os raps fragmentados de Daveed Diggs estão no easy mode e as programações da dupla William Hutson/Jonathan Snipes estão quase dançantes – pero sem perder o niilismo. Uma espetacular droga de entrada.





Sempre curti o som do Ty Segall alternadamente: gosto de um disco, nem tanto do próximo, volto a gostar no seguinte e por aí vai. Mas já há uns três álbuns na sequência em que o multi-intrumentista californiano tem atropelado minha rabugice. E este Possession é um dos melhores discos do rapaz. Som de garagem curtido na psicodelia e no glam rock setentista em canções de altíssima assobiabilidade. Os arranjos e a produção são de um bom gosto absurdo e o baixo do Segall nunca soou tão John Paul Jones. Delícia de álbum. Vai que é tua, Ty!





A carreira do Deadguy é pra lá de errática: o grupo foi formado em 1994, lançou um disco em 95 e após várias mudanças de formação e 24 anos de inatividade, finalmente chega ao seu 2º álbum, o excelente Near-Death Travel Services. A banda de New Jersey é considerada uma das precursoras do gênero metalcore, mas o som tem raízes fincadas no punk, no noise rock e no pós-hardcore oitentista, especialmente o nova-iorquino (Unsane, Helmet). Trilha dissonante para moshs suicidas.





Jehnny Beth chega ao 2º álbum solo com You Heartbreaker, You cada vez mais distante de suas origens no grupo pós-punk Savages. Seu estado sonoro atual orbita entre o art pop e o rock industrial com escalas por aquele trip-hop mais orgânico e esquisitão, à Tricky. As letras são confessionais e absolutamente cortantes. Catarse com estilo.





Para Bellum estabelece o Testament como o grande bastião da 1ª onda do thrash metal. Com a proficiência assombrosa dos últimos álbuns, o gênero não teria representante melhor para as novas gerações. Até mesmo as discutidas influências death estão perfeitamente incorporadas à musicalidade do grupo. No quesito técnico, o nível segue estratosférico, com um trampo finíssimo das guitarras de Alex Skolnick e Eric Peterson (a dupla brilha na baladona épica "Mean to Be"), do baixista Steve Di Giorgio, do batera novato Chris Dovas e, claro, do lendário Chuck Billy, o melhor cantor de thrash metal desde que James Hetfield resolveu cortar os cabelos. O melhor álbum de thrash raiz de 2025.





O quarteto escocês Mogwai talvez seja a mais pura personificação do post-rock moderno. The Bad Fire é seu 11º álbum de estúdio (fora seus vários EPs e trilhas sonoras) e não deixa dúvidas disso. Progressivo e espacial, fluindo do atmosférico ao peso com uma naturalidade mágica. E desta vez até com alguns vocais colocados aqui e ali, como pequenas pérolas para os seguidores de longa data. Magnifíco, como sempre.





Em termos técnicos, o Butler, Blake & Grant é um supergrupo: o ex-Suede Bernard Butler, Norman Blake, do Teenage Fanclub, e... ou melhor, & James Grant, do Love and Money (nunca ouvi falar). A impressão é de que os chapas se reuniram para uns pints num pub qualquer e saíram de lá com a firme ideia de montar um projeto com claras inspirações Crosby, Stills & Nasheanas, do nome ao som. O álbum autointitulado é uma pintura de folk rock rural acústico e não faria feio nem nas paradas de Laurel Canyon em seus áureos tempos. Mandaram bem até demais.





Difícil situar o Swans musicalmente para não-iniciados. O espectro de sua influência é incrivelmente vasto, cobrindo de industrial, noise e grunge até pós-punk, death metal e lá vai transgressão sonora. O grupo encabeçado por Michael Gira é influência confessa de gente como Tool, Nirvana, Melvins e Napalm Death, só pra citar alguns. Birthing é seu 17º disco de estúdio e vem da curva, digamos, melodicamente mais "acessível" e até PinkFlóydica dos últimos discos. E ainda assim é para poucos – a menos que jornadas drone de 20 minutos tenham se tornado populares nos últimos cinco segundos. A discografia da banda é uma grande obra em andamento e cada disco, um movimento da sinfonia. Dá trabalho, mas vale muito a pena explorar o caos controlado do Swans desde os primeiros álbuns.





Disco novo do finado Cathedral? Como pode uma porra dessa, Bátima? Está lá no site da Rise Above Records: "Society's Pact with Satan foi a última gravação feita pela banda, em 2012. Foi gravada no final das sessões para o seu álbum de despedida, The Last Spire, de 2013 (disco laureado no ZdO daquele ano). Mas, por algum motivo, a faixa de 30 minutos não foi mixada na época, sendo praticamente esquecida por todos os envolvidos, até muito recentemente." E uma vez mais o espírito pesado e trevoso deste patrimônio doom é invocado para assombrar o mundo. Caiu uma lágrima furtiva aqui.





Sharon Van Etten & the Attachment Theory é o 7º álbum de estúdio da Sharon Van Etten e sua primeira colaboração com o grupo The Attachment Theory. Se nos discos anteriores a artista seguia confortável no nicho indie singer-songwriter, agora ela mergulha fundo no pós-punk e no synthpop oitentista. As inspirações nítidas em Joy Division, Cure e Siouxsie são o pano de fundo para uma virada surpreendente de direcionamento. E para um discaço.





O Pentagram é uma instituição do heavy e do doom metal. Estão por aí desde 1971 – com alguns breves períodos de inatividade e uns 4 times de futebol na formação pelo caminho. São reconhecidos apenas por seu cult following vindo das masmorras mais obscuras. Nada disso, porém, antecipou a viralizada surpresa do frontman, o mítico Bobby Liebling. Não é pra menos, o veinho é uma figuraça. É o Marty Feldman do occult rock. Lightning in a Bottle é seu 9º disco (em mais de meio século!) e é um sonzão letárgico, lisérgico e pesado como o inferno. Para ouvir no volume 11.





Igorrr é o nome de guerra do compositor e multi-instrumentista francês Gautier Serre. Amen já é seu 5º disco e comprova que o rapaz é um fanfarrão, mas é talentoso: consegue lidar com death metal, breakcore, ópera, música clássica barroca, industrial, progressivo, ritmos regionais dos Balcãs e floreios acústicos sem perder o rumo – tudo isso apenas na faixa de abertura, "Daemoni". E no álbum tem mais onze, cada uma mais insana e divertida que a outra. Parece algo que sairia pela Ipecac seguido de turnê com o Mr. Bungle. Bravo!





Pode ser reflexo das polêmicas (e fantásticas) regravações dos primeiros LPs do Sepultura em 2023/2024, mas a sensação é de que Max Cavalera parece ter renovado sua fúria e sua fé para gravar Chama, o 13º disco do Soulfly. Além do Godfather Cavalera, a banda é atualmente composta por seu filho Zyon na bateria, pelo guitarrista Mike DeLeon e mais uma penca de convidados. Sempre associada a um certo groove/nu metal tribal, hoje já superado, IMHO. É simplesmente Max Cavalera/Soulfly, um gênero por si só. E isso não é pra qualquer um.





Truculence é o 6º disco do Facada, de Fortaleza/CE. O som do trio é uma desgraceira brutal de punk, crust e grindcore executado como se as vidas dos miseráveis dependessem disso. A bolachinha tem apenas 15 minutos, mas é suficiente para trincar as paredes da casa do vizinho. Revigorante.





Enfim, o aguardado retorno dos prog thrashers suíços. A volta do Coroner ao estúdio após 30 anos arrancou lágrimas dos admiradores sedentos, snif, tanto pelo longo gap quanto pela incerteza sobre a longevidade artística do trio. Em 2025, outros retornos de veteranos só mostraram o quanto alguns deles desaprenderam o ofício (a-a-a... Dark Angel... tchim!). O Coroner, pelo contrário, está no topo de seu jogo. O novo Dissonance Theory traça uma perfeita sequência evolutiva dos icônicos R.I.P. (1987), Punishment for Decadence (1988), No More Color (1989), Mental Vortex (1991), Grin (1993) e Coroner (1995). Antológico.





Glenn Hughes dispensa apresentações, mas nunca é demais repetir sua alcunha de The Voice of Rock 🔥. Chosen é o quê, seu milionésimo álbum (entre grupos, supergrupos e carreira solo)? Impressionante como a voz e a musicalidade deste gentleman de 74 anos seguem envelhecendo como os melhores vinhos. Sua matéria-prima de blues, soul e hard rock exige nada menos que um tratamento de excelência. E ele ainda não precisou recorrer à adaptações vocais, afinações mais baixas, efeitinhos, nem nada. Um masterclass de boa música.





Disco novo do mclusky após 20 anos de seca. E via Ipecac, o manicômio perfeito para acomodar seu 4º álbum, the world is still here and so are we. O noise pós-hardcore do trio é repleto de humor negro e tem uma precisão matemática, mas sem o menor compromisso com linearidade. O disco é autoproduzido e tem uma pegada totalmente Albiniana, com a guitarra cortante e a cozinha mixada bem na cara. Do caralho.





O LP de estreia do Die Spitz pegou todo mundo de surpresa. Após os EPs Revenge of Evangeline (2022) e Teeth (2023) despejarem uma trauletada garage punk curta e grossa, neste Something to Consume as meninas entraram em campo com um esquema tático bem diferente. Agora zigue-zagueiam entre o grunge, o som alternativo das college bands dos anos 90 e, pasme, um psych/doom metal fantasmagórico à Electric Wizard. Felizmente, o quarteto do Texas tem cancha e talento de sobra. Mesmo com o susto, um grande debut do Die Sputz!, digo, Spitz.




Menções honorabilíssimas

Audience with the Queen, do Galactic com Irma Thomas – o grupo funk Galactic unindo forças com a "Rainha do Soul de New Orleans" Irma Thomas para salvar almas num álbum sublime.
Magia, do Budang – beatdown hardcore de Floripa com ótima produção e vocais num português absolutamente incompreensível.
Addicted to the Violence, de Daron Malakian and Scars on Broadway – a filial do SOAD é tão divertida quanto a matriz e é mais rocker.
Lonely People with Power, do Deafheaven – black metal + shoegaze = blackgaze. E é bão.
I Only Trust Rock n Roll, do The Living End – veteranos do garage punk australiano com punch, senso pop e cardio em dia.
Silver Shade, de Peter Murphy – o ícone gótico do Bauhaus num momento dançante e new wave. Rola até dueto com o Boy George.
LUX, de Rosalía – fado foda.
Here We Go Crazy, do Bob Mould – o power pop com guitarra cabra-macho do Mould nunca falha.
Goldstar, do Imperial Triumphant – death/black tão vanguarda que mete até uns jazz fusion.
Revival, do Coffin Break – pioneiros do grunge de Seattle retornando inteirões após um pequeno hiato de 33 anos.
The Archer, do Masters of Reality – Chris Goss menos hard/stoner e mais folk/americana. Good trip do mesmo jeito.
Ascension, do Paradise Lost – os mestres do doom e do metal gótico em estado de graça.
A Crash Course in Catastrophe, do Sevendials – supergrupo com Chris Connelly (Ministry, Revolting Cocks), Mark Gemini Thwaite (Peter Murphy, The Mission), "Big" Paul Ferguson (Killing Joke) num álbum em homenagem ao lendário guitarrista Geordie Walker, do KJ, falecido em 2023. Pós-punk porrada, bacanudo e altamente Bowiesco.
Hawalat, de Charif Megarbane – saboroso funk libanês temperado em psicodelia com 1 pitada de Henry Mancini + 1 de Ennio Morricone.
The Spin, do Messa – o doom/pós-metal do grupo italiano agora incorporando também o pós-punk.
Was I Good Enough?, do Intensive Care com The Body – pesadelo industrial experimental da pá virada.
Phantom Island, do King Gizzard & the Lizard Wizard – o KG&LW fazendo uma festinha de pop rock setentista. Hello, Wisconsiiiiin!
Death Hilarious, do Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs – o doom do Pigs x7 em versão rapid fire.
Instruments, do Water Damage – coletivo de post-rock/drone/progressivo conjurando uma dimensão de bolso minimalista e intrigante.
Rivers of Nihil, do Rivers of Nihil – a musicalidade do grupo continua de cair o queixo e também os death brabão com sax à Kenny G.
Evil Plan, do Ukandanz – quarteto da Etiópia centrifugando metal, jazz, funk, desert blues e uma versão de "War Pigs" cheia de groove tuareg.
Black Samson, the Bastard Swordsman, do Wu-Tang Clan com Mathematics – trilha pra curtir num Opalão '74. Só me falta o Opalão '74.



Gibis do ano

* Só material inédito. Ou parte. E acabei com a regra do "apenas séries iniciadas este ano" por motivos de foda-se.


Uma hora ia. Thorgal - Série Clássica Vol. 1: 1977 a 1984 (Pipoca & Nanquim) compila as oito primeiras edições da saga do bárbaro criado por Jean Van Hamme e Grzegorz Rosinski. Um clássico dos quadrinhos franco-belgas que, pessoalmente, já havia devorado em antigas edições, arrem, "importadas" das portuguesas Bertrand/Futura/ASA. Metade desse material também já havia saído aqui pela VHD Diffusion, no início da década de 80. E agora finalmente o Thorgal clássico volta a ver a luz do dia em seu melhor projeto editorial. A justiça foi feita. Já não era sem tempo.



Não sei se Friday (QS) é um Ed Brubaker fora de sua caixinha ou se é ali que mora o verdadeiro menino Ed. A HQ é uma delícia de narrativa coming of age com thriller sobrenatural. E que calhou de chegar ao final da minha fila de leitura pouco antes das festas de fim de ano. Um pormenor que tem tudo a ver com a saga de Friday Fitzhugh & Lance Jones. O traço sugestivo e engenhoso do espanhol Marcos Martín (de Doutor Estranho: o Juramento) completa uma das parcerias mais inusitadas e espirituosas dos últimos tempos.



Segundo Tom King, a graphic Helen de Wyndhorn (Cia. das Letras) é "apenas um começo". Vai saber se é o ex-CIA jogando verde, mas o fato é que o universo de Helen Cole e Lilith Appleton é repleto de camadas e possibilidades. Além de ser uma história emocionante sobre família e legado. A arte cuidadosa e cheia de vida da Bilquis Evely é o coração da HQ. É uma das maiores artistas de sua geração – e Seu Thomas sabe disso. Ah, e o Matheus Lopes dá um show nas cores também. No aguardo pelo recomeço.



Em meio aos títulos do redivivo Ultiverso, tive um carinho especial pelo trabalho da Peach Momoko em Ultimate X-Men (Panini). Adoro o modo como ela precipita a carga mutante para dentro do cotidiano da adolescente Hisako Ichiki. E adoro mais ainda como ela faz isso à margem do "Método Marvel", tanto no aspecto narrativo quanto na arte – que é maravilhosa. Este 1º volume compila as edições 1 a 6 do título e o volume 2 acaba de sair.



Carniça e a Blindagem Mística, Parte Quatro: A Filha da Mulher Morta - O Fim (independente), do paraibano Shiko, conclui a maior subversão do sertão já escrita, desenhada, colorida, impressa, empacotada e vendida. Que jornada. Isso precisa ser filmado em película por alguém possuído pelo espírito vingativo do Glauber Rocha. É o Gore Sertão Veredas!



Não foi por falta de tentativa, mas eis que finalmente Cerebus dá as caras no Brasil. As Espadas de Cerebus 1 (Futuro) traz as 4 primeiras edições da cria do cartunista Dave Sim. Bem antes dos cultuados TPBs "listas telefônicas" e do autor ter pirado na batatinha machista. Tecnicamente, esse quadrinho foi lançado em dezembro de 2024, via Catarse, mas o material só chegou em minhas mãos colaborativas em maio de 2025. De qualquer modo, este é realmente um gibi divertido. Tipo, muito divertido. Sua sátira ao gênero espada & feitiçaria não faz prisioneiros e sobram zoeiras pra cima do Conan, da Sonja, do Elric e até do "Mago" Frank Thorne. É anárquico, impagável e, claro, também uma grande homenagem ao mythos do barbarismo. E que venham mais edições! E que se dane!



RASL (Todavia) é o Jeff Smith explorando novos caminhos após o sucesso de Bone. E buscando corajosamente, diga-se, ao se afastar do gênero da fantasia para montar um quebra-cabeças envolvendo ficção científica, thriller neo-noir, ação e referências pop. A narrativa é vertiginosa e não cansa em momento algum – e olha que é um calhamaço de quase 500 páginas. Gibizaço.



Sou fã do Goon, como você bem sabe, ó fiel leitor. Inclusive, o Eric Powell é meu amiguinho no Fêice. Então, Goon: Um Monte de Velharia - Omnibus Volume 1 (Mythos) foi deveras providencial – o público brasileiro não via nada do casca-grossa desde, bem, Goon, O Casca-Grossa, de 2006. O busão de 468 páginas traz o material das antigas (dãã), compreendendo todo o conteúdo do 1º encadernado. Incluindo o crossover do Goon com Hellboy. Preciso escrever mais?



Marshal Blueberry: Edição Definitiva (Pipoca & Nanquim) não é apenas para quem ficou se contorcendo em abstinência com a conclusão da leva anterior de encadernados. Também é uma perfeita introdução para o western hero de Jean-Michel Charlier e Jean Giraud, o Moebius – que aqui só assina os roteiros e delega a arte ao mestre William Vance (de XIII). O fino do bangue-bangue.



Em Febre Noturna (Mino), a entidade Ed Brubaker-Sean Phillips faz o que sabe melhor: se embrenhar no submundo urbano sujo e impregnado de álcool, cigarros e perfume barato como se estivesse explorando as entranhas da própria consciência humana. O clima ideal para a versão noir e delirante de O Clube da Luta que a dupla propõe aqui. Há que se elogiar o trabalho excelente do colorista Jacob Phillips, injustamente não creditado na capa. Sua palheta ousada faz toda a diferença no clima de cada página. Um Bruba-Phillips curto e eficiente para desopilar.


Gibi-bônus:


A HQ já foi lançada aqui pela Devir em 2003. Desde então, nem sei quantas vezes reli esse crássico da incorreção política/super-heróica. Agora, com a inesperada republicação A Prô. (Tábula), os malandrinhos Garth Ennis, Amanda Conner, Jimmy Palmiotti e Paul Mounts garantiram seu lugar no portentoso ZdO 2025. Além da aventura original, esta edição inclui uma historinha inédita, com o singelo título "A Pu". Fofo demais.



Livro também é cultura


A Guerra dos Gibis - Edição Ampliada e Revisada (Conrad), de Gonçalo Junior, é uma daquelas Bíblias para qualquer um com o mínimo interesse pelo mercado editorial brasileiro. E nem precisa ser só de quadrinhos. Os Srs. Adolfo Aizen e Roberto Marinho levaram consigo inúmeras histórias e o autor consegue resgatar e contar muitas delas. Informativo, fascinante e por vezes surrealmente engraçado, além de uma grande fonte de consultas para manter por perto. Essencial.



Já que nenhuma editora se animou em lançar o ótimo gibi oitentista do Ralph Macchio, o jeito foi ir à fonte com Solomon Kane (Pipoca & Nanquim), de Robert E. Howard. Os contos são empolgantes e bem fluídos, mostrando o perfil complexo e por vezes contraditório do herói puritano. Fora que dá para mapear exatamente de onde saíram vários dos conceitos de fantasia sombria exploradas ad nauseum em games, cinemas e streamings. Como um extra de luxo, as lindas ilustrações de Gary Gianni na capa e ao longo do livro tornam a experiência ainda mais imersiva.



O Almanaque das Curiosidades Marvel Brasil (Hyperion Comics), de Alexandre Morgado com um fantástico projeto gráfico do chapa VAM!, é um compêndio monumental da trajetória da Casa das Ideias no Brasil. O trabalho de pesquisa é abrangente, minucioso e todo organizado por décadas – cobrindo do início dos anos 1940 até... algumas horas atrás, mais ou menos. É um tomo daqueles pra ler, reler e consultar de vez em sempre. E já fico na torcida por um Almanaque das Curiosidades DC Brasil...



Filme do ano


Assisti Uma Batalha Após a Outra há um mês e até agora estou procurando o rumo de casa. A narrativa metralhada pelo Paul Thomas Anderson é exatamente o que o título promete. Sem tempo pra respirar, irmão. E ainda traz o conteúdo, a profundidade, a dimensão. Leonardo DiCaprio, Sean Penn e Teyana Taylor estão excepcionais, mas vamos combinar que o personagem Sergio, do Benicio del Toro, precisa de um spin-off urgente. Puta madre, que filme.


Vale a pena ver de novo:

A Hora do Mal (Weapons), de Zach Cregger.
Pecadores (Sinners), de Ryan Coogler.
A Longa Marcha (The Long Walk), de Francis Lawrence.
Extermínio: A Evolução (28 Years Later), de Danny Boyle.



Série do ano


Pluribus é sucesso de público e crítica não é pra menos. O storytelling da série de Vince Gilligan e a performance estupenda de Rhea Seehorn como a improvável protagonista Carol Sturka são muito envolventes. A sutileza sci fi, o drama e o humor negro são cuidadosamente dosados. Não é uma temporada perfeita, mas com a Seehorn não tem frame perdido. Foi uma bela diversão enquanto minhas séries do coração não retornam do Éter.



Desenho do ano


Pantheon é a série animada mais indutora de reflexões cyber-apocalípticas que já assisti. Negócio nível hard, na pegada Black Mirror. Justamente porque, diferente dos robôs assassinos de Blade Runner e O Exterminador do Futuro, a distopia digital já está aqui, com as novas gerações sendo criadas à base de smartphones e a verba trilionária que a I.A. recebe dos grandes players. A série de Craig Silverstein engloba todo este cenário com direito a um vilão assustador à imagem e semelhança do Steve Jobs. E vai muito além – chega a ser "chata" em alguns momentos, por uma boa causa. Leitores de HQs certamente terão epifanias no final da 2ª (e derradeira?) temporada. Quem lembra do segmento futurista do Phalanx em Powers of X, de Jonathan Hickman, corre sério risco de ver seus miolos espalhados pelo chão, como este que vos rabisca. Topo da Escala Kardashev on crack.

* Esse foi dica do Sandro, que não me parecia um sujeito que curte essas viagens. Valeu, velhinho!


Gostei também:

Dandadan S1–S2



Guilty pleasure do ano


O Cavaleiro do Espaço na pose clássica do Ultra Magnus em versão não-bucha

Já escrevi e repito: nunca se é velho demais para ter um hominho do ROM!




Já conhece o esquema: me lembre se esqueci alguma coisa, me informe se minhas opiniões são uma merda e encaminhe suas colaborações, correções e revelações divisoras de águas para a caixinha de comentários abaixo.

Por hoje é só, p-p-pessoal. Muita saúde e bom senso em 2026!

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Zombie de Ouro 2024


Tá todo mundo puto!

2024, o ano das tretas milimetricamente calculadas para alimentar as redes sociais. Quase nem dá pra explicar o que justifica um viral atualmente porque na maioria das vezes não faz o menor sentido. E me pergunto se é isso que sobrou da tal "atitude rock & roll". Saudades do Lobão mandando todo mundo pra onde o sol não bate num estádio lotado. Ao invés disso, o que recebemos foram coisas como um filhinho da mamãe talentoso mais uma vez despejando chorume verbal e um monumento canarinho vandalizado por gringos ignorantes.

Paralelo a isso, toda essa onda reacionária, já em estado avançado de decomposição, ainda incita aparelhos atirados na parede após cinco minutos de navegação pela mediocridade generalizada. Tá foda.

Lá fora, pelo contrário, a paz e o amor reinam numa celebração fraternal com irmãos se reconciliando para shows e discos. Lindo i$$o.

Acho que temos muito o que aprender com os alemão.


Ou talvez não.

QUEBRA TUDO, ALEXA!


Playlist do ano

* Nada de discos ao vivo ou regravados, salvo nas menções honrosas



Então a menos que o King Gizzard & the Lizard Wizard lance mais um álbum até as 23:59 do dia 31, Flight b741 será o único disco do grupo lançado em 2024. Raridade. A ironia é que o gênero-alvo da vez é o hard rock dos anos 1970 – época em que era comum bandas lançando de 2 a 3 álbuns por ano. De todo modo, Flight b741 é um intensivão do hard blues rockeiro daquela era: é Free, é Aero, é Lynyrd, é Mountain, é Eagles, é Kansas, é Kiss. E muito cowbell!





O Escuela Grind chega ao 3º disco mais coeso do que nunca. Dreams on Algorithms é seu melhor álbum, tanto em composição quanto em produção. O som segue o esquema de sempre: de grind mesmo, não tem quase nada. O forte do quarteto é seu deathão turbinado com grooves levantando a bola perfeita para os guturais cavernosos da 'fessorinha Katerina Economou, uma das melhores gritadoras da sua geração. De apavorar qualquer reunião de pais e mestres.





Confesso que nunca digeri bem a carreira de Jack White pós-The White Stripes. Sempre me pareceu reverente demais aos primórdios do rock ao custo da sua própria identidade. No Name, pelo contrário, é o disco que mais lembra seus tempos de Stripes. Blues rock de garagem tocado alto, pesado e sem polimento. Resultado, nunca reouvi tanto um disco do Jack na vida. Bolachinha viciante.





O Judas Priest tem me deixando mais feliz e satisfeito a cada disco. Aleluia. Com uma produção impecável de Andy Sneap, Invincible Shield resgata aquela pegada oitentista clássica, desta vez até com as tinturas synthrock do delicioso e por muito tempo mal-compreendido álbum Turbo, de 1986. Um acerto de contas com o passado. E com o futuro.





Um dos dois melhores discos de 2024, na minha opinião. Confesso que não tinha grandes expectativas, mas a diva alternativa Kim Gordon me calou os pensamentos. The Collective é um disco de hip-hop? Sim. E trip-hop, trap, industrial, shoegaze, kraut, dub. E noise, ah, o noise. Um registro de arregaçar os sensórios.





Um dos dois melhores discos de 2024, na minha opinião. Tecnicamente, Lives Outgrown é o debut solo da indefectível Beth GibbonsOut of Season, de 2002, é uma colaboração com o músico Rustin Man e Henryk Górecki, de 2019, é uma incursão ao lado da Sinfônica Nacional Polonesa. Lives Outgrown trafega por climas sombrios e intimistas, lógico, mas com melodias e vocalizações mais vívidas e esperançosas... apesar do disco ser, nas palavras dela, sobre morte e desesperança. Amo muito.





Songs of a Lost World não é apenas uma surpreendente volta do The Cure ao estúdio após 16 anos (!), como periga ser o melhor álbum da discografia irrepreensível da banda. Mas isso só o tempo irá confirmar. O que sei até o momento é que a assimilação tem sido gradual e extasiante. O mundo precisava de mais um disco do The Cure? Pelo visto, precisava. In Robert Smith, we trust.





O álbum de despedida do veterano X saiu melhor que a encomenda. Smoke & Fiction traz a formação original – a frontwoman Exene Cervenka, o baixista e vocalista John Doe, o guitarrista Billy Zoom e o batera DJ Bonebrake – num dos mixes mais energéticos de punk, surf music e garage rock já produzidos. É irresistível. Será que ainda mudam de ideia...?





Coisas do destino. To All Trains é o sexto álbum do Shellac e foi gravado homeopaticamente ao longo de 7 anos – e exatos dez dias antes do lançamento, seu líder, o ícone alternativo Steve Albini, fez sua inesperada passagem. Se serve como testamento de fé, que seja. O som continuou o esporro math rock/pós-hardcore de sempre. Thank you and Rest in Noise, Albini!





Quando vi o enorme contingente de rappers convidados no novo álbum/mixtape de Denzel Curry, fiquei com o pé atrás. Felizmente, em King of the Mischievous South Vol. 2 o South Coast hip hop do cara segue engenhoso e furioso. Não é a reinvenção da roda (aro 20), mas nem precisa. Pancadão de primeira.





Humble as the Sun é o disco mais hip hop do duo punk Bob Vylan. Sem cerimônia, os garotos batem no liquidicador grime rap, rock, reggae, dub, dancehall e drum 'n' bass. O resultado é efetivo, refrescante e deveras metanfetamínico, se é que você me entende.





Freedom, Sweet Freedom é o 3º disco do Regional Justice Center e não tem esse título à toa. Assim como o próprio nome da banda, ele foi inspirado pelas idas e vindas dos integrantes e seus familiares do xadrez – em especial, pela soltura recente do vocalista Max Hellesto (irmão do líder, Ian Shelton) de uma cana de seis anos por agressão. Motivos para um álbum puto da cara não faltam, portanto. Esse é o combustível infinito para o HC powerviolence do grupo de Seattle. Ouça naqueles dias particularmente irritantes e evite você mesmo uma temporada no sistema penitenciário.





Milton + esperanza não é apenas o álbum mais bonito de 2024, é uma genuína carta de amor da multi-instrumentista, cantora, compositora e produtora Esperanza Spalding pela música do gênio Milton Nascimento. Ao lado do próprio, Esperanza – que já até figurou aqui no ZdO, que bom pra ela – conduziu um registro sublime, perfeito de ponta a ponta. Ou de esquina a esquina...





O Zeal & Ardor andou irritando sua parcela de fãs black metal from hell die hard com o novo álbum, GREIF. Isso porque o grupo suíço reduziu suas nuances de metal extremo significativamente (mas não totalmente) em favor das tradicionais influências soul, spiritual e r&b. E deixou a sonoridade ainda mais contagiante e diversificada. Se vamos pra o inferno, então que seja com classe. Discaço. Mais um.





Com Hell, Fire and Damnation, o Saxon chega à surreal marca de 24 discos de estúdio (!). Pra mim, é o melhor álbum de heavy tradicional do ano, pau a pau com o Judas novo. E também foi produzido pelo figura Andy Sneap, que aparentemente sabe como extrair um pré-sal de energia de poços aparentemente exauridos. Curto os velhinhos da NWOBHM há tempos e sinceramente não esperava maiores erupções desse vulcão. Feliz engano.




+ Plays memoráveis:

Cavalera Conspiracy - Schizophrenia (Max e Iggor, pelo amor do Marley, parem essas regravações por aí! Não encostem no Beneath the Remains!!)
Khruangbin - A La Sala
Ben Katzman's DeGreaser - Tears on the Beach
Willie Nelson - The Border
Willie Nelson - Last Leaf on the Tree
Etran de L'Aïr - 100% Sahara Guitar
Mdou Moctar - Funeral for Justice
Manu Chao - Viva Tu
Jerry Cantrell - I Want Blood
Godspeed You! Black Emperor - ''NO TITLE AS OF 13 FEBRUARY 2024 28,340 DEAD''
Marilyn Manson - One Assassination Under God - Chapter 1
Ty Segall - Three Bells
The Troops of Doom - A Mass to the Grotesque
Chelsea Wolfe - She Reaches Out to She Reaches Out to She
The Jesus Lizard - Rack
St. Vincent - All Born Screaming
Childish Gambino - Bando Stone & the New World
The Lunar Effect - Sounds of Green and Blue
Body Count - Merciless
Pet Shop Boys - Nonetheless
Suki Waterhouse - Memoir of a Sparklemuffin
Cancer Christ - God Is Violence
Hail Darkness - Death Divine
Seasick Steve - A Trip a Stumble a Fall Down on Your Knees
Slash - Orgy of the Damned
The Angels - Ninety Nine
Rosalie Cunningham - To Shoot Another Day
Los Bitchos - Talkie Talkie
God Is an Astronaut - Embers
Black Country Communion - V
The Lostines - Meet the Lostines
Blackberry Smoke - Be Right Here
High on Fire - Cometh the Storm
Sarah Shook & the Disarmers - Revelations
Scarlet Rebels - Where the Colours Meet
Slower - Slower e Rage and Ruin
The Jesus and Mary Chain - Glasgow Eyes
Exhorder - Defectum Omnium
Deicide - Banished by Sin
Fleshgod Apocalypse - Opera
Oceanator - Everything Is Love and Death


Gibis do ano

* Como de praxe, só material inédito e séries iniciadas este ano


Hombre (Figura), da sacrossanta dupla Antonio Segura/José Ortiz, foi uma obsessão realizada. Conheci o quadrinho escavando velhas edições da Cimoc em hubs empoeirados do DC++. Nunca sequer me ocorreu que um dia isso sairia aqui. O tomo compila a coisa toda – 42 histórias em 544 páginas – e finalmente pude conferir na íntegra aquela cruel e visceral realidade pós-apocalíptica – cujos desdobramentos soam mais prováveis nos dias atuais do que na época! Um clássico.



Adastra na África (Trem Fantasma) foi lançado em outubro de 2023, exclusivo para o clube de assinantes da editora, mas só este ano foi disponibilizado para o público em geral, via Catarse. Práticas meio bostas à parte, esta pequena obra-prima do mestre Barry Windsor-Smith traz o que seria a conclusão de seu belíssimo arco “Morte em Vida”, protagonizado pela Tempestade e republicado recentemente em A Saga dos X-Men vols. 4 e 9. Foi uma jornada difícil, mas assim como a vida, Adastra encontrou um caminho.



Quem diria que um maneta beberrão e dono de um saloon vagabundo protagonizaria uma das primeiras tretas do ano no mercado nacional de quadrinhos. Bouncer: Primeiras Histórias (QS) compila na íntegra a fase inicial do gibi quando ainda era publicado pela Les Humanoides Associés de 2001 a 2009. Já Bouncer: To Hell and Back (Comix Zone) traz as desventuras do anti-herói publicadas pela Glénat em 2012. A fricçãozinha entre as editoras (uia) foi inevitável – e a ironia do destino, considerando os plêierrs. O fato é que o gibi é espetacular. O texto mordaz da entidade Alejandro Jodorowsky e a arte mesmerizante de François Boucq estão níveis acima de tais questões mundanas. Paz acima de tudo. Literalmente: o tradutor Fernando Paz fez um grande trabalho nas duas edições. A ironia não para...



No quesito visual, Os Exércitos do Conquistador (Pipoca & Nanquim) é um dos quadrinhos mais deslumbrantes que já vi na vida. A arte primorosa de Jean-Claude Gal é um meio termo celestial entre John Bolton e Brian Bolland. Pode dar um Google aí, se não conhecia. De nada. O texto e os diálogos de Jean-Pierre Dionnet não ficam atrás e cobrem o cenário arquetípico da fantasia heróica com tons violentos e raramente redentores, se aproximando das histórias mais sombrias de Bran Mak Morn. Quadrinhaço.



A passos largos, Daniel Warren Johnson vem sedimentando uma carreira autoral promissora, ao mesmo tempo em que lida com as majors. Talvez seja o Adam Warren que os Gen Z-ers precisavam. O recente Powerbomb! Faça uma Superbomba (Devir) é uma extrapolação divertidíssima do universo do wrestling profissional, com direito a um rasante pela dura realidade dos bastidores – nesse ponto, chegou a me lembrar Whoa, Nellie!, de Jaime Hernandez. Elogio maior, impossível.



Fatale (Mino) é a experiência místico-lisérgica de Ed Brubaker e Sean Phillips. Uma alquimia fina unindo thriller pulp/neo noir com terror cósmico lovecraftiano. É o quadrinho mais estranho e fora da curva da dupla. E mesmo após dois volumões generosos, ainda foi pouco. A deusa fatale Josephine e meu coração apaixonado por ela mereciam novos capítulos.



Em O Papa Terrível: A História de Júlio II (Conrad), Alejandro Jodorowsky e ThéoTheoCaneschi fazem uma continuação virtual da graphic Bórgia, que Jodora fez ao lado de Sua Santidade Milo Manara. E tal qual a saga blasfema de Rodrigo Bórgia, a história do Cardeal Giuliano Della Rovere, o Papa Júlio II, é de estremecer os alicerces do Vaticano. Ainda hoje.



E falando em continuações virtuais, esse também foi o caso da fabulosa Graphic Disney O Destino de Patinhas (Panini), do artista e roteirista italiano Fabio Celoni (Dylan Dog). Os desenhos de sobrecarregar as retinas, a narrativa frenética e o texto sagaz do quadrinista já garantem a diversão, mas é algo imprescindível a leitura da história clássica “As Lentilhas da Babilônia”, publicada aqui no gibi O País dos Metralhas – que está fora de catálogo há tempos, mas que é facilmente encontrada por aí após digitar as palavras mágicas... morou?



A impressão é de que se Sean Phillips desenhasse um bonequinho de palito num guardanapo e Ed Brubaker rabiscasse uns garranchos por cima, ainda assim iriam pras cabeças do ano. É desumano o volume de produção vezes o padrão de qualidade da dupla. Onde o Corpo Estava (Mino) é uma temporada true crime brilhantemente fragmentada em múltiplas perspectivas. Em estrutura, lembra o plot do filme Ponto de Vista (Vantage Point, 2008), mas é infinitamente melhor resolvido. Até aqui, 100% de aproveitamento e hors concours ad eternum.


Livros mui apreciados


Tudo Passará: A Vida de Nelson Ned, o Pequeno Gigante da Canção (Companhia das Letras), de André Barcinski, foi uma das experiências mais densas e fascinantes do ano. Escrevi um texto sobre o livro, mas a trajetória caótica do Pequeno Gigante ainda roda vertiginosamente em minha mente. Se existe justiça nesse mundo, um dia essa história vai parar nas telonas. Ou nas melhores telinhas de streaming.



Lee Falk, a Lenda dos Quadrinhos (Noir) é um necessário tributo do escritor, pesquisador e jornalista Gonçalo Junior ao criador do Fantasma e do Mandrake (e do Lothar!). O Brasil tem tudo a ver com essa história, visto que o Espírito-que-Anda encontrou aqui um de seus maiores públicos no mundo – Falk, inclusive, esteve por estas bandas em 1970. Mas o autor também foi um incrível personagem da vida real, atuando como espião durante a 2ª Guerra e como ativista pelos direitos civis dos negros. Leitura essencial.



Todas as Aventuras Marvel (Conrad) e a incrível história de como Douglas Wolk zerou TODA a cronologia da Casa das Ideias. Escrevi sobre a façanha e até agora estou com o meu queixo batendo na canela. Dica altamente prolífica d'O Escapista Luwig.


Filme(s) do ano


Não vi tudo o que queria em 2024. Mas acho difícil assistir uma cena mais aterrorizante do que a protagonizada por Jesse Plemons em Guerra Civil. Com um ator desconhecido num papel quase-extra creditado simplesmente como "soldado", Alex Garland mostrou como a coisa pode ficar (muito) feia no jogo político dos próximos 5 anos. O filme inteiro segue nessa pegada pré-apocalíptica com atuações estelares de Kirsten Dunst, Wagner Moura e Cailee Spaeny. Já em Herege, de Scott Beck e Bryan Woods, Hugh Grant destila carisma, inteligência e perversidade como o assustador Mr. Reed. E as performances excepcionais das jovens Sophie Thatcher e Chloe East só elevam a escalada da tensão. Empate inevitável.


Valem a pena ver de novo:

Alien: Romulus (Fede Álvarez)
Entrevista com o Demônio (Late Night with the Devil, Colin & Cameron Cairnes)
A Primeira Profecia (The First Omen, Arkasha Stevenson)
LongLegs: Vínculo Mortal (LongLegs, Oz Perkins)
A Substância (The Substance, Coralie Fargeat)


Série do ano


Melhor série – no caso, minissérie – iniciada e concluída no ano, não teve pra ninguém: Pinguim, da showrunner Lauren LeFranc, leva com as asas amarradas nas costas. Mais do que um thriller policial ou um derivado do subgênero super-heróis, é um verdadeiro tratado sobre amoralidade. Colin Farrell devia usar aqueles 120 kg de látex e enchimento o tempo inteiro daqui pra frente. Aliás, Farrell, Cristin Milioti, Rhenzy Feliz, Deirdre OConnell, Clancy Brown e Carmen Ejogo... Brincadeira o que esse elenco faz em cena. Antológico.


Desenho do ano


X-Men '97 não foi uma temporada perfeita, mas chegou perto. Mesmo sem uma ligação nostálgica com a animação dos anos 90 (que poxa), pude perceber toda a reverência àquele zeitgeist. Foi uma atualização competente e, por que não, emocionante, divertida e absurda, como só um novelão mutante poderia ser. É a melhor série animada da Marvel desde... sempre? Apostaria minha X-Men Gigante #1 nisso.




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Excelente 2025 e além! Até a próxima, pessoal!