Mostrando postagens com marcador Justiceiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Justiceiro. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Bem-vindo de volta, Jon


A coisa mais interessante do MCU atualmente é observar como a Disney tenta lidar com o Justiceiro, esse enorme caveirão branco no meio da sala. É um personagem que o público neófito adorou, mas nem sempre (quase nunca) por motivos nobres. No meio do tiroteio ideológico que custou até o símbolo-logo do vigilante nos gibis, a Marvel tenta equilibrar a balança enquanto faz a reintegração de posse de seu anti-herói. Sob esta ótica, o especial O Justiceiro: Uma Última Morte é mezzo thriller de ação mezzo TCC de ciências sociais.

É sempre engraçado ver a Disney pulando de um pé para o outro na tentativa de amaciar o Frank Castle. Dar ao personagem uma motivação suficientemente digna e justificável para metralhar, estripar, empalar, esquartejar e explodir uma galera – e ainda divertir o público como um todo, não apenas o time do bandido-bom-é-bandido-morto. Há um problema óbvio aí que é humanizar um personagem desumanizado. Mesmo bom de narrativa, o diretor Reinaldo Marcus Green não consegue evitar a pieguice que sabota o bom andamento da matança sem piedade.

Na trama, o Justiceiro (Jon Bernthal) encara o que sobrou da Mama Gnucci (Judith Light), que busca uma vendetta pela chacina de sua famiglia após a série da Netflix. Ao mesmo tempo, ele tenta salvar inocentes em pleno caos urbano provocado pelo vácuo de poder. Aposto uma garrafa de Blue Label que não era nisso que Garth Ennis, Steve Dillon e Jimmy Palmiotti pensavam enquanto concebiam o arco original das HQs.

O Justiceiro é uma figura à Monstro de Frankenstein (não confundir com o Franken-Castle). Odiado por muitos e temido por todos, independente da inclinação moral. Castle é um outcast, uma sombra. Além da redenção. Aproximá-lo do cidadão comum é arrancar o que ele tem de mais legal e colocar coisas não tão legais no lugar.

Essa pegada do "Castle Amigão da Vizinhança" gera outro problema, que é a subversão da própria mensagem. Enquanto age como GCM hardcore, ganhando até abraço e lembrancinha de uma criança após trucidar 8 filhotes do capiroto numa lanchonete, Frank acaba remetendo ao Justiceiro original Paul Kersey, da série Desejo de Matar. Especificamente, ao Kersey de Desejo de Matar 3, objeto-mor de idolatria reaça e uma comédia involuntária insuperável para assistir com os amigos.

Quem não lembra do Kersey largando o aço no icônico Risadinha e recebendo uma salva de palmas dos moradores do bairro? Absolute cinema.

Em Uma Última Morte, Castle quase chega lá. E tem até um Risadinha para chamar de seu, mas com tratamento VVIP em comparação e cenas de um maniqueísmo raso e constrangedor (pobre doguinho). Desse modo, a Disney se vale de uma espécie de "candura" para alcançar o gatilho reaça que existe em cada um e assim conquistar a empatia do público médio da plataforma – também conhecido como Geração Z. Nos anos 80, esse malabarismo todo seria obliterado por saraivadas de balas de festim, explosões de verdade, milhares de squibs sanguinolentos e indefectíveis frases de efeito.

Admito, talvez esteja Žižekeando demais com o filme, mas é inevitável. Há muito acontecendo aqui e nem arranhei a lataria.

Voltemos ao basicão.

O roteiro foi co-escrito por Green e pelo próprio Bernthal e, na real, é ruim. Se o ultimato da matriarca Gnucci era compartilhar a localização do edifício de Castle para todos os criminosos da cidade, bastava ele se mudar de endereço. E aquele comerciante pode até ser dedicado, mas abrir as portas no meio de um The Purge é atestado de burrice. E ainda levar a filhinha para o trabalho naquele cenário apocalíptico é negligência parental. Justiceiro (dos quadrinhos!) nele.

A despeito disso e do excesso de sacarina que abre e fecha o média-metragem, Jon Bernthal tem um trunfo incontestável: ele mesmo. O recheio de Uma Última Morte é um rodízio espetacularmente coreografado de tiro, porrada e dinamite. Isso, o Jão entrega como poucos. Literalmente, salva o dia.

E, quem sabe, o futuro.

Nota final: três Risadinhas e meio (de 5).

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Meu assassino favorito


Gerard Francis “Gerry” Conway
(1952 - 2026)

Editor, autor, roteirista, produtor de TV, formador de caráter. Tivemos a honra e o prazer de desfrutar da carreira de Gerry Conway em vida. Somos privilegiados.

Difícil lembrar de qualquer material relevante dos comics das décadas de 1970 e 1980 que não levou a assinatura dele. Seja na Marvel ou na DC, o homem elevou o nível do jogo. Homem-Aranha, Esquadrão Atari, Justiceiro, Vingadores, Batman, Cinder e Ashe, Conan, Quarteto, Monstro do Pântano clássico, Legião dos Super-Heróis... pode escolher. Nada foi como antes. Ainda bem.

Ver essa lenda partir é lembrar daquela época de forma cada vez mais distante, etérea. Não é fácil, não dá pra negar. Mas também é ter sido testemunha de uma jornada plena, bem vivida e recheada de conquistas – e nem me refiro apenas aos quadrinhos.

Verdadeiramente uma inspiração.

Thank you for everything, Gerry Conway.

quinta-feira, 6 de março de 2025

DD volta ao trabalho


Demolidor: Renascido chega para assumir uma bronca de longa data da Disney+. Não é de hoje que o conteúdo Marvel da plataforma vem sendo hostilizado por uma legião insatisfeita de fanboys da editora – uns quatro ou cinco que gritam por 400 ou 500, em média. Entre as acusações, a de que a megacompanhia não teria cojones para lidar com o material urbano casca-grossa-macho-bagarai dos quadrinhos. Pois bem, só nos primeiros quinze minutos já tem mais porradaria e sangue do que em Pinguim inteiro. E no final das contas, só prova, pela enésima vez, que apenas isso não é garantia de nada.

É preciso louvar o esforço da Disney para agradar o público ao restaurar o Demolidor da Netflix enquanto sincroniza com os eventos do MCU. Charlie Cox e o Wilson Fisk de Vincent D'Onofrio já são habituées na nova casa e a produção reescalou a Vanessa da bela Ayelet Zurer e o sinistro Mercenário de Wilson Bethel. Tudo em nome dos bons tempos.

O resgate também incluiu, logicamente, a Karen Page de Deborah Ann Woll e o Foggy Nelson de Elden Henson. Eles voltaram. Mas não muito, só um pouco. Quase nada, pra ser franco.

O negócio é que recaiu sobre a dupla a decisão mais controversa deste início de temporada. Logo de cara. Quem conseguir passar por esta provação de última hora, será recompensado. De alguma forma.


Mesmo com inserções de CGI ruim, o tira-teima Oldboyesco entre Audacioso e Poindexter é eletrizante, visceral e sem freio. O tenso diálogo entre Fisk e Murdock num restaurante vem da excelente inspiração em De Niro e Pacino na cena clássica de Fogo Contra Fogo. A referência ao Justiceiro e aos desdobramentos daquele símbolo no mundo real não passou despercebida, tampouco. Cojones.

Outra boa sacada foi levar à trama o dilema legal do vigilantismo na figura do Tigre Branco Hector Ayala – papel póstumo do ator porto-riquenho Kamar de los Reyes, morto em 2023. Pra mim, pelo menos, foi uma grata surpresa: o Tigre Branco sempre foi um dos meus personagens B prediletos.

Problemas? Alguns de ritmo, sim. O Rei do Crime se candidatando/vencendo para prefeito nova-iorquino em velocidade de dobra, por exemplo. Da mesma safra do vilão dando entrada no xadrez e se tornando o rei do lugar em 30 segundos nos seus áureos tempos de Netflix. Deve ser algum superpoder de carisma setado no nível 11. Mas dá pra abstrair.

Principalmente quando o payoff são sequências como o cliffhanger do ep. 2. Uma catarse brutal e libertadora seguida da "Get Free" do The Vines na orelha. Puro exibicionismo.

Quero mais.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

O cliente ficou louco!


Fiz sexo com o meu cartão hoje. A maioria saiu por quase metade do preço na promocha da Panini acumulando com o cupom HQBARATA – até o momento, ainda tá valendo.

Deu pra enxugar um pouco daquela lista de candidatos à zona de rebaixamento (= reimpressão só na próxima era geológica). Mais uma nóia para o gibizeiro pós-moderno...

domingo, 26 de novembro de 2023

The Black Friday Journal


100 reais é o novo 50 reais, pelo visto. Peguei as 500 páginas do "Justiceiro do Jim Lee" da Panini com parcos 30% de alívio todo pimpão e com um sorriso besta na cara. Friday fraca. Ainda mais porque já tinha fechado uns carrinhos nos "Esquenta" da Mino e da Amazon ao longo do mês.

As primeiras 19 edições de The Punisher War Journal são provavelmente as melhores coisas que Jim Lee já fez na vida. A série pululou por aqui entre Superaventuras Marvel, Grandes Heróis Marvel e a breve revista solo do Justiceiro, onde seguiu até o #24 apenas com o roteiro e layouts do Carl Potts. Mas a sua parceria com o americoreano é o diamante (bruto) aqui.

Era o Jim Lee operário ultra-abnegado, talentoso, meio rústico, pré-Image, processando e regurgitando (eca!) tudo aquilo que assimilou dos estilos de John Byrne, Alan Davis e John Buscema. E mudou o curso dos quadrinhos.

Claro, o que veio depois é outro papo. Mas às vezes tenho que me lembrar que o Jim Lee é um grande artista.

sábado, 15 de julho de 2023

Retorno ao grande nada


E o novo movimento da Marvel em relação ao Justiceiro não é nada novo. A editora já subutilizou tanto o recurso de passada-de-manto, e com tantos personagens, que tudo parece só mais um dia sem ideias na Casa das Ideias. No entanto, malandra e com zero senso de autocrítica, jogou a isca num tuíte visando engajamento para a vindoura SDCC.

Mesmo que seja para falar mal. Aliás, de preferência, me parece.


É verdade que o Justiceiro se tornou uma grande enxaqueca para o editorial da Marvel. Era uma questão de tempo e de uma conjunção muito específica de fatores – providenciada em velocidade warp pela onda fascistoide e reacionária que varreu o planeta nos últimos anos. O caldo, evidentemente, entornou. Não havia muito o que fazer. Na corrida pelo controle de danos, a emenda foi pior do que o soneto. Mas muito pior mesmo.

Resultado, é a 1ª vez desde 2013 que não pego um TPzinho honesto do Francis Castiglione. Por hora, parei.

De todo modo, tenho tudo o que preciso do Caveirão (a bença, Ennis). Mas não reclamaria de uma reedição joiada de Retorno ao Grande Nada.

E o "novo Justiceiro"? Ah, só pode ser o Cable...

quarta-feira, 8 de março de 2023

Bem-vindo de volta, Jon


Jon Bernthal está de volta ao caveirão. O retorno do Justiceiro em sua melhor versão é a 1ª grande notícia do Marvel Studios/Disney+ desde as integrações de Charlie Cox e Vincent D'Onofrio.

Demolidor: Nascido de Novo — sugestivo título — terá 18 episódios com previsão de estreia para a "primavera de 2024" (entre março e junho). A produção traz uma certa aura de projeto prioritário do estúdio. Cox inclusive já comentou que as filmagens levarão praticamente o ano todo. Planejamento sem pressa. Bom indício até prova ao contrário.

Nem tudo são rosas: a dupla Deborah Ann Woll e Elden Henson (Karen Page & Foggy Nelson, respectivamente), também do DDflix, ainda não foram confirmados na série. As opções seriam a ausência dos personagens neste início de reboot e até um possível recast de atriz e ator.

O que, pra mim, seria uma tremenda bola fora. Veremos.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

A Lenda fica – e o Homem também



Richard Corben
(1940 - 2020)

Se vai Richard Corben, um gigante da ficção científica, do terror e da fantasia. Confesso que preferi esperar um pouco até uma confirmação mais, digamos, oficial. E ela veio, implacável, pela declaração de sua esposa, Dona.

Não é à toa que a notícia só veio alguns dias depois. Com uma vida reservada e de poucas fotos (com aparições em vídeo ainda mais raras), Corben poderia facilmente ter sido o Terrence Malick dos quadrinhos, não fosse uma diferença básica: a carreira tão prolífica quanto longeva. Desenhista, pintor, colorista, roteirista, animador, escultor, um artista completo que tinha entre seus admiradores gente como Alan Moore, Moebius, Robert Crumb, Neal Adams, Druillet e Will Eisner.

É de Corben a 1ª história da 1ª edição da Heavy Metal. Histórico é pouco. Não tenho nenhuma dúvida da sorte de estar aqui no tempo de vida desse mestre. Bem como o fato de que obras memoráveis como Hellblazer: Inferno na Prisão, Banner e Luke Cage MAX não seriam as mesmas sem ele.

E, claro, é sempre bom ter um vislumbre de humanidade em um gênio assim. Sejam nos preciosos momentos em família, sejam nas mesmas dúvidas que todo mundo tem em certo ponto da vida.

Segue um trecho de uma ótima entrevista para a Heavy Metal do Corben quarentão em 1981:
"A maior tragédia da vida é que você não tem sua sabedoria e sua juventude ao mesmo tempo. Quando passei dos trinta, não me incomodou muito, mas passando dos quarenta, estou pensando mais sobre isso. Chegou a hora de fazer uma lista de todas as coisas que você quer fazer da sua vida e depois começar a fazer, porque do contrário será tarde demais. Coisas que eu não consegui alcançar antes, eu me esforço ainda mais. Estou disposto a arriscar mais porque é agora ou nunca!"

Duvido que aquele moleque lá do início teria se decepcionado.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Departamento de promoções

O saldo final da Black Friday foi aquele já conhecido "bom-mas-podia-ser-melhor". O assombro das primeiras vezes já passou, de lá pra cá a Amazon dominou e é o que tem pra hoje. Ainda assim, consegui aproveitar e dar baixa em várias coisas de várias listas. No setor dos quadrinhos, resolvi o que tinha pra resolver com a Salvat, botei em dia algum material da Mythos, ri das promoções nonsense da Eaglemoss e recebi há pouco o pacote da Panini - não só o último da leva, como meu último pacote de gibis do ano.

Assim espero.



Justiceiro: Valley Forge é o 4º Deluxe do Caveirão. Um calhamaço de mais de 500 páginas que finaliza o espetacular run de Garth Ennis no título (depois assumido por Gregg Hurwitz) e trazendo complementos generosos: os one-shots The Cell (2005), The Tyger (2006) e The End (2004), além da mini solo completa do inesquecível vilão Barracuda - quem acompanha o blog, sabe que eu sou fã do rapaz. Um dos quadrinhos mais extremos, densos e complexos já feitos. Obrigatório é pouco.



Tinha adorado a capa de Mulher-Gato #1, mas ainda estava na dúvida. Há tempos não leio nada realmente empolgante da gatinha - desde Um Crime Perfeito, pra ser exato. E não conheço nada do trabalho prévio da desenhista e roteirista Joëlle Jones, mas uma googlada de reconhecimento me deu um belo cartão de visitas - além do fato da moça contabilizar três indicações ao Eisner. Em que pese também a parceria com a experiente Laura Allred, resolvi conferir o que essa Selina tem.



Já estava acompanhando a nova fase do Lanterna Verde por Grant Morrison, atualmente na edição #12 lá fora. Suas ideias e conceitos são, como sempre, lisergia pura - mas dessa vez, dando um barato do bom, sem bad trips. Porém, o que me fez sair do DC (++) e colaborar com a DC (Comics) foi o traço lindamente escalafobético do brit Liam Sharp, um dos melhores parceiros que o escocês voador já teve na vida. O homem está desenhando uma barbaridade. Pra daqui a 15 anos erguer essas edições e mandar a plenos pulmões (provavelmente pro espelho): "eu comprei isso na época!"



One-Punch Man é uma das coisas mais divertidas que já li na vida, mas aí vai uma pequena mea culpa: estacionei lá pelo vol. 12 ou 13 já há um bom tempo. O roteiro miniminimalista de ONE e os traços vertiginosos de Yusuke Murata mantiveram o nível tão alto e ainda tão refrescante que cultivei uma retranquinha antes de alguma (inevitável) queda de qualidade. Mas segui pegando e vou me atualizar assim que abrir uma brecha. O que, no caso do Saitama, é trabalho pra 10-15 minutos, no máximo. One-Punch read.



Surreal receber em mãos uma nova edição da Biblioteca Don Rosa pela Panini, no mesmo formato dos volumes da Abril e do ponto onde a coleção parou. Ainda tenho lá, "O Solvente Universal" cancelado na lista de desejos da Amazon. Virou o meu "Wilson". E hoje nós dois vamos tomar todas pra comemorar. Louco é a mãe.



E seguem mais dois volumes de A Espada Selvagem de Conan - A Coleção, as aquisições que mais me dão alegria atualmente. Parece até vingança pelas ESC da Abril nunca adquiridas em tenra idade ou um acerto de contas após décadas de quadrinhos com storytelling de videoclipe e personagens sem culhões (excetuando, claro, os sacudos da Bonelli). E até é, mas também dá uma olhada nas contribuições constantes nas capas. É Roy Thomas, John Buscema, Alfredo Alcala, Dick Giordano, Tony DeZuñiga e toda a sorte de demônios picto-filipinos com o fogo do inferno ebulindo a tinta de seus nanquins. Até o Necronomicon morre de inveja dessa coleção. Puta que o pariu.


Por enquanto é só, pessoal. E antes que eu me esqueça...

Senhor, agradeço por esse material que irei devorar assim que tirar do plástico. Em nome do Stan, do Kirby, do Steve Ditko, amém.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Dia de gibi novo

_
Agitar uma seção nova: review de gibi novo! Eu sei, eu sei, não precisa me indicar ao Eisner de ideia do ano. O que não falta por aí é blog e fórum comendo HQ com farinha tão logo elas saem da gráfica. E não sou lá um privilegiado quando se trata de timing. Nas publicações da Panini, por exemplo, o canela verde aqui pena de 10 a 15 dias de delay em relação à São Paulo, mesmo nos títulos mensais mais carne de vaca. Mesmo assim, demanda há. Volta e meia eu fico na mão com a falta de análises críticas para algumas revistas. Uma opinião terceira nunca é demais pra ajudar na decisão de desembolsar uns suados merréis.

Toda referência é valiosa, até quando não se concorda com nada do que o sujeito escreve - a velha regra do "se ele não gostou, então vou achar legal... é cofre". Faço isso frequentemente (menos o uso do termo "é cofre"). Quase sempre fico satisfeito.

Outra coisa que acho importante (e não recebi um centavo pra isso, tsc) é tirar um pouco da pecha negativa que colocam sobre as revistas mix. Algum fanboy desvairado gritou lá do fundo "revistas mix são uma merda!", e todas as outras codornas fanboys saíram ecoando a sentença tresloucadamente por aí. O boca-a-boca em tempos de internet tem proporções godzíllicas e tsunâmicas. Só que o mercado nacional não é forte ao ponto de individualizar tantos títulos ou evitar o mix dos mesmos. E recorrendo ao chavão, "é um mal necessário".

Num mercado saudável, ainda teríamos as revistas próprias do Hulk e do Demolidor figurando tranquilas ao lado do Homem-Aranha e Wolverine. Não veríamos arcos consagrados lá fora desembocando por aqui em escalações levanta-vendas (Legião dos 3 Mundos em Superman/Batman?), nem cancelamentos sumários até de mixes teoricamente pop, como foi o caso da Marvel Action.

Com o atual êxodo de leitores para a terra prometida dos encadernados e one-shots (e para a terra encantada dos scans), fica mais fácil compreender algumas ações "obscuras e malévolas" das editoras - que são comércio, afinal. Muitos dos que abandonaram as linhas mensais reclamam da qualidade, mas não é bem assim. Tem muita coisa bacana sendo lançada, ainda que ao lado de algumas toscas. Essa má publicidade faz outros potenciais leitores virarem as costas e perderem excelentes momentos dos quadrinhos regulares. E pode acreditar, eles ainda existem.

Tudo bem que dói a retina ver o excelente Superman de Geoff Johns impresso ao lado das péssimas histórias da Supergirl (que tipo de gente consome isso nos EUA?), mas as últimas fases do Azulão são tão boas que se sobressaem de qualquer jeito. É assim também com o visceral O Velho Logan, de Mark Millar e Steve McNiven. O estiloso Demolidor de Ed Brubacker. O impagável Hércules de Greg Pak e Fred Van Lente. O frenético Motoqueiro Fantasma de Jason Aaron. E por aí vai.

Mas posso estar equivocado sobre tudo o que escrevi aqui (e ali) e as HQs mensais no Brasil já estão mesmo condenadas, bem como a impressão em papel de um modo geral. Futurólogos e early adopters queimam seus sutiãs todos os dias em praça pública e o Kindle já está aí, falta só melhorar.

Enfim, questões para serem discutidas numa roda de amigos com uma cerva gelando no bucho - de preferência, num mix de assuntos.


Marvel MAX #76


Formato americano, 100 páginas, papel Pisa-brite, R$ 7,50

Um dos poucos títulos que ainda compro todo mês desde a 1ª edição. Até hoje não teve um único número com 0% de aproveitamento, mesmo nas fases modorrentas do Wisdom e do Daimon Hellstrom. Chegamos então ao número 76 sem quedas aparentes de ritmo e quase sem sentir a longevidade do título. Elogio maior, impossível. Marvel MAX é festa punk.

Apesar da longa ausência de Tim Bradstreet nas capas da revista, das quatro publicadas nesta edição, a escolhida é realmente a melhor. Greg Land zumbificando o cartaz de Extermínio ao melhor estilo Arthur Suydam. Danny Boyle e Alex Garland aprovariam.

Aliás, essa edição em particular lembra certos jornais cariocas, como O Povo e Notícias Populares. Se torcer, jorra sangue. Às cotações:

Keith Richards - ♠ ♠ ♠ ♠ ♠
Lemmy - ♠ ♠ ♠ ♠
Angus Young - ♠ ♠ ♠
Slash - ♠ ♠
Chimbinha -


Marvel Zombies 3 #2

Ninguém esperava muito da terceira parte da saga dos Zumbis Marvel (nem eu!). Sem a sensacional dupla Robert Kirkman/Sean Phillips, surpreende que ela tenha chegado à sua 2ª edição (creditada erroneamente como "Marvel Zombies 3 - 1") mantendo um nível bem interessante. Sem poder contar com personagens de peso, o roteirista Fred Van Lente teve mais liberdade para injetar gore no universo 616, o Universo Marvel normal - afinal, ninguém iria sentir falta dos buchas aqui desmembrados e devorados sem dó.

Na premissa, alguns Zumbis Marvel conseguem chegar à Terra 616 para "espalhar o evangelho". Logo em seguida, uma missão é organizada pela A.R.M.A.D.U.R.A. (Agência para Rastreio e Monitoração Ampla e Duradoura de Urgências em Realidades Alternativas - os caras da Panini estão ficando bons nisso!). O objetivo é ir ao universo zumbi e buscar amostras essenciais para a cura da praga. Para diminuir os riscos, a agência recruta dois seres artificiais para o serviço: Aaron Stack, o Homem-Máquina, e seu antigo interesse robótico, Jocasta. Chegando lá, eles se deparam com uma grande organização de supervilões zumbis liderada por um Wilson Fisk desmorto.

Além do humor doentio de praxe, o roteiro de Van Lente rende algumas boas sacadas, como a cultura de clones e a xenofobia crônica de Aaron em relação aos "carniformes". Ele beira a ultraviolência, especialmente quando se vê livre para matar à vontade ("isto não é o universo zumbi... é o paraíso dos robôs"). E respeitando a cronologia, Van Lente manteve o background dos zumbis referenciando um momento do crossover Zumbis Marvel: Uma Noite Alucinante, quando o Rei foi fuzilado pelo Justiceiro.

O traço solto e sem firulas de Kev Walker lembra bastante o de Sean Phillips. Propositalmente, com certeza. E a tosqueira splatter está toda lá, cheirando a produção B da Troma Films - vide a cena escrotíssima envolvendo as entranhas do Abutre (imagina o John Malkovich ali). Nesse quesito, Walker já era especialista de longa data, visto que entre seus trabalhos antigos estão duas capas do podrão Autopsy (Severed Survival e Mental Funeral).

Até agora, um bom trabalho da dupla, que dribla a falta de hype com talento e desencanação. E uma carnificina das boas.

♠ ♠ ♠



Foolkiller: White Angels #1

Foolkiller foi criado em 1974 e ao longo dos anos ganhou várias versões e alter-egos. A repaginada mais relevante, no entanto, foi a última, pelo roteirista Gregg Hurwitz. A princípio, ele virou só mais um copycat do Justiceiro da versão MAX. Rendeu um razoável arco de estréia e segue agora de maneira estupidamente instigante. Nem imagino o que Hurwitz andou lendo ou assistindo nesse meio-tempo, mas a sua evolução na construção de climas e cenários é escandalosa.

No início da trama acompanhamos um ex-detento recém-saído da prisão e as dificuldades que enfrenta para se reintegrar à sociedade. A narrativa é tão eficiente em cativar o leitor, que fica difícil não torcer pelo personagem quando ele finalmente começa a dar a volta por cima. O clímax é fora-de-série. Hurwitz ainda introduz um grupo neo-KKK chamado Anjos Brancos, fornecendo o gancho necessário para o Matador de Idiotas intervir com som e fúria.

Os desenhos agora estão por conta do ótimo Paul Azaceta (B.P.R.D.: 1946), que se revela muito mais adequado àquele universo do que Lan Medina, o artista anterior. Com um estilo rotoscópico que lembra o de Michael Gaydos (Alias), ele também conta com um bom repertório de recursos sequenciais. Dá um show já nas duas primeiras páginas, com cinco quadros retangulares cada, ilustrando cenas do mortificante cotidiano da penitenciária.

Um excelente (re)começo. Tomara que a dupla mantenha o nível - e saiba tirar um bom proveito da participação especial do Justiceiro, mais pra frente.

♠ ♠ ♠ ♠



Terror Inc. #4

A história de um vândalo em pleno ano de 455 que, entre mortes, estupros e pilhagens, mata uma besta-fera demoníaca e acaba amaldiçoado a apodrecer em vida eterna. Uma espécie de Highlander sem problemas com decapitações, mas com o prazo de validade pra lá de vencido. Com o tempo, ele aprende alguns macetes sobre sua nova condição, como o estranho poder de incorporar órgãos e membros "extraídos" de outros seres. E até mesmo possuir novos corpos para assim descartar o anterior, deteriorado. Dois milênios depois, ele continua no ramo do assassinato - agora por contrato e sob a alcunha de Sr. Terror.

A primeira edição de Terror Ltda. foi bem curiosa e intrigante. Apesar de parecer um carnaval de vísceras e fluídos, o roteiro lovecraftiano de David Lapham consegue tecer um bizarro conto de origem para o personagem (certamente inspirado no abominável Dr. Phibes). Em particular, na fase passada em 1164, nas gloriosas batalhas contra os Cavaleiros das Sombras. Décadence avec élégance pra chuchu.

Mas verdade seja escrita... ainda que divertidas, as demais edições são grafismo puro e desmedido. Tem mais sangue e toucinho exposto aqui do que numa versão director's cut estendida de A História de Ricky! E mesmo a reviravolta preparada por Lapham (ganhador de um Eisner) soa bastante previsível.

Nada que a desqualifique, porém. O personagem é carismático e tem nuances interessantes, bem como a sua agente, a cool e gostosa Sra. Primo. Os bons traços de Patrick Zircher (Thor: A Era do Trovão) fecham a conta e garantem a perversão.

♠ ♠ ♠



Punisher MAX #54

Tem algo esquisito no ar quando um vilão como o Barracuda ganha a simpatia irrestrita do leitor. O cara não é como o Dr. Destino, o Darth Vader ou qualquer desses arquétipos icônicos. É vilão nível humano mesmo. Genocida canibal estuprador matador de criancinhas - sempre com um largo sorriso no rosto e uma piada pronta. Desconcertante. Mas não se engane, é só a diversão de Garth Ennis entre uma e outra incursão mais séria do Justiceiro.

Por isso que, mesmo sob um contexto tão barra-pesada, os dois arcos com participação do Barracuda, mais a sua minissérie solo, têm sabor inequívoco de entretenimento fácil. A walk on the wild side. E absolutamente imperdíveis.

Esta conclusão do arco A Longa e Fria Escuridão não nega sua vocação. São dois homens de ferro determinados a fazer o que for preciso para quebrar um ao outro, física, estratégica e psicologicamente. Quando o barraco explode de vez na reta final, são necessárias as duas últimas edições inteiras para estirpar na porrada a tensão absurda que foi construída. Uma pequena obra-prima demencial do reverendo. Amém.

Claro que sem o traço estilizado do croata Goran Parlov, o Barracuda não seria metade do que é - a primeira edição desse arco, desenhada pelo veterano Howard Chaykin (American Flagg) soou como uma introdução de luxo, mas na verdade teve pouco a ver com o personagem. A arte de Parlov está mais refinada do que nunca e se supera nas páginas 81-84 com os quadros em flashback destrinchando a vida caótica do vilão.

Vendo as cenas criadas pela dupla, sempre imagino como se fossem de algum longa animado hardcore. Sonhar não custa nada, afinal.

♠ ♠ ♠ ♠ ♠

quinta-feira, 5 de março de 2009

...E JUSTICEIRO PARA TODOS


Há alguns quadrinhos atrás, o Justiceiro mantinha um diário/obituário de guerra onde registrava todas as suas "aventuras". Se o que acontece no filme Justiceiro: Em Zona de Guerra (Punisher: War Zone, EUA, 2008) estivesse descrito ali, seria quase um novo volume do Necronomicon. Mas que fique claro: o pacote é B. A produção é irregular e o roteiro tem mais buracos que uma rodovia federal brasileira, mas simplesmente não dá pra encanar com isso. Não enquanto somos subornados com galões de diversão cruel e doentia - experiência maximizada por uma trilha de rock absurdamente pesado e umas cervas acondicionadas ao alcance das garras. O nome do quadro é: "o que seria da vida se não fossem os guilty pleasures".

Mas confirmando minha pelegada punidora, a cineasta Lexi Alexander cometeu o melhor e mais fudêncio filme do Frank Castiglione. Matou a pau, a garota.

O resultado final é ainda mais notável quando lembramos da "zona de guerra" que rolou nos bastidores. Após sucessivos adiamentos, pressão da Lions Gate para diminuir a censura via sala de edição e até rumores sobre a demissão da diretora, pode se dizer que Lexi Alexander encarnou o próprio Frank Castle em defesa de seu filme. Paixão rara de se ver no esquemático cinemão americano. Porém, Justiceiro: Em Zona de Guerra parece estar pagando o preço da ousadia, com um circuito de exibições ultra-restrito e o sempre desmerecedor direct-to-DVD em alguns países - incluindo essezão aqui.

No frigir do Watchmovie, isso mata uma velha questão que assombra adaptações cinematográficas de personagens outsiders/anti-heróicos. Eles são mesmo comercialmente inviáveis. Exceções aos casos envolvendo marketagem massiva ou algum grande chamariz hollywoodiano, como foi o primeiro Blade com Wesley Snipes e Constantine com Keanu & cia.


O Justiceiro 2008 é o exemplo máximo dessa linha de raciocínio. É fiel aos quadrinhos até a medula oblonga, motivo de rusgas sem fim entre Alexander e o estúdio. E se na linha normal, o material que compõe o personagem já não ajuda muito no quesito PG-13, tenha em mente que a diretora adotou a versão MAX do personagem - muito mais extremista, séria e anti-comercial. Concebida pelo genial Garth Ennis, o Castle-MAX lida menos com vilões estilizados e mais com temas densos como tráfico de mulheres, conflitos regionais e abuso de menores. De fato, a diretora havia desistido do filme num primeiro contato, ainda com o script antigo, mas mudou de idéia após ler a versão MAX e ter a garantia de que poderia recomeçar tudo do zero.

O roteiro escrito por ela, Art Marcum, Matt Holloway e Nick Santora (do ótimo Prison Break), costura muito bem a atmosfera MAX com as bases da cronologia normal. A maior novidade foi a participação ativa da polícia na história, incluindo até uma subtrama paralela ao Justiceiro - o que é o oposto imediato (e a maior falha) do filme de 2004. Neste ponto, é de emocionar os fãs do caveirão.

Finalmente a origem do Justiceiro bate com as hqs - mesmo que em turvos flashbacks - e não há qualquer viés humanizador que facilite um personagem com mais de 150 homicídios (e contando) nas costas. Quer dizer, o único momento do filme em que isto acontece, muito en passant, está ligado diretamente ao trauma que o move. Então o efeito é o mesmo de um combustível reabastecendo uma máquina assassina. Numa caracterização consciente, o Frank Castle de Ray Stevenson (o Pullo, de Roma) é o Justiceiro MAX esculpido em C-4: inexorável, lacônico e objetivista. Não há volta, meio-termo ou tons de cinza. E não pára nem pelo inferno.

É o "bem" ultra-direitista diametralmente proporcional ao "mal" anarquista que enfrenta - vilões que são rated R da cara às atitudes.


Já li por aí (no caso, em detrimento ao Heath Ledger), que o Coringa é muito mais um presente do que um papel. É verdade. Com ele, o ator entra "armado" em cena. É um personagem biônico, cuja expressividade é potencializada por uma máscara parcial e com liberdade e devaneios que só a loucura proporciona. O Retalho é um filhote direto disso aí. Só que o ator Dominic West entra de sola e chega a arranhar o camp (versão gore, mas ainda camp). Especialmente após a transição Billy "The Beaut" Russoti-Retalho. Resta então ao ator Doug Hutchison, o eterno Eugene Tooms, a missão de personificar um antagonista equiparável ao Justiceiro. Loony Bin Jim, irmão doidão do Retalho, tem seus atributos (é canibal, briga bem e não está nem aí para auto-preservação), mas ainda falta muito pra representar uma real ameaça para a figura intimidante de Ray Stevenson - sensação que fica ainda mais acentuada com os dois capangas de terceira que os acompanham.

Se os vilões dão algum trabalho é só porque envolvem inocentes, como a personagem de Julie Benz (de Dexter) e sua filhinha. O cenário seria outro se a inspiração MAX fosse mais fundo e arregimentasse um inimigo do calibre do Barracuda, bandidão casca-grossa que eclipsa o próprio Justiceiro. Mas do jeito que está, a tradição dos filmes do personagem permanece: faltou vilão à altura pro velho Frank.

O que não quer dizer que a violência seja arrefecida. Não mesmo. Rapaz, o negócio aqui é punk.





A técnica do sangue digital, bastante aprimorada desde Zatoichi, confere uma estética bem quadrinhos à plástica das cenas. Aqui, um simples tiro na cabeça vira uma explosão coagulante, incrementa cenas antológicas como a da cadeira e efetiva o senso de justiça implacável do protagonista. Bons detaques também para os enquadramentos inspirados na arte sequencial, com ótimos resultados. A fotografia é bem menos sombria do que se espera de um projeto desse e se mostra bem versátil, em especial nos tons saturados da cidade à noite.

Contudo, o filme deixa claro até onde o orçamento vai - o que é um contrasenso, já que custou 22 milhões, o mais caro dos Punisher-movies -, gerando momentos meio esquisitos como os do Justiceiro cruzando New York a pé, entre uma justiçada e outra. Igualmente decepcionante é ver o Microchip, tão bem defendido pelo gorducho Wayne Knight, sem fazer jus ao codinome em nenhum momento.

Por fim, falta a Justiceiro: Zona de Guerra um aspecto que não faltou em nenhum dos dois anteriores (nem naquele com o Ivan Drago): peso cinematográfico. Tenha em mente Michael Mann. Um pouco mais de dimensão e grandiosidade até que não faria mal.


Mas essas bobagens são só pra acalmar o detrator casual. O filme relembra pontualmente o que ele se propõe a fazer de melhor. Cenas de um meliante explodindo no ar no meio de um exercício de parkour, um punho varando a fuça de um bandido e atrocidades quetais ao som de Slayer e Rob Zombie não deixam dúvidas. É o filme badass que o Justiceiro merecia desde a primeira vez.

Agora é torcer. Que venham os Escravistas, o Barracuda, o "Homem de Pedra" Alexandrovich Zakharov.

E, claro, Ray Stevenson e Lexi Alexander.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

MATANDO CON EFICACIA Y DIGNIDAD


Produção besta-mole, clicherama anos oitenta no talo, erosão avançada do roteiro, continuístas míopes e o canastrox Dolph Lundgren versão tuberculose. Numa adaptação em que nem a caveira dá as caras (afe) exigir um pouco de laboratório seria um luxo. O Frank Castle de Lundgren é um fanfarrão: faz rapel com flechas no meio de um tiroteio, recusa coletes à prova de balas, desconhece a utilidade da mira de suas armas, invade o território inimigo que nem um moleque (segundo a matadologia do Capitão Nascimento) e larga pelo caminho um arsenal maior que o estoque virtual de Matrix.

O primeiro filme do Justiceiro é indefensável, mas não serviu só pra queimar o filme de Louis Gossett Jr. O longa também teve seus atrativos, deveras trash é verdade, mas substanciais! Castle ameaçando uma criança, uma vilã com cara e perfil psicológico do Coringa de Feira da Fruta e diálogos malaquíssimos ("What the fuck do you call 125 murders in 5 years?" - Punisheiro: "Work in progress!") são diversão garantida para os fãs da comédia involuntária.

Por tudo isso, esta (sub)versão faz por merecer um review todinho dela, logo que possível.


Justiceiro 2004. Desta vez encarnado por um Christopher Lambert afogado em testosterona, o Punidor demonstrou maior perícia nas táticas de combate. Ex-operativo Delta Force (não sei o peso real disto, mas vi o filme com Chuck Norris em suas fileiras e já é mais que suficiente!!) e agente do FBI disfarçado, o Newcastle ainda fez uso das flechas, mas com profissionalismo ímpar. Ao melhor estilo Commando, Castle se arma até as obturações, veste o bendito colete e invade o QG dos vilões, com cara de mau mesmo, fatiando cada curva e matando com eficiência e dignidade (e pode acreditar, isso é possível).

Thomas Jane foi um aspira esforçado: fez seis meses de treinamento militar hardcore, ganhou três toneladas de massa muscular e devorou as revistas do personagem (virou fã obcecado). Um pouco obstruído pelos joguinhos psicológicos e decisões equivocadas do roteiro, mas definitivamente um sujeito que trouxe a morte no olhar.


Do Justiceiro calibre .08 ainda não se sabe muito, mas pela imagem divulgada nota-se que o cara não vem pra perder viagem. Parece um berserker no Devastation Mode indo direto pra faxina. Postura de Navy SEAL, cotovelo de apoio em cima, olhos cerrados na mira e um baita hardware - especialmente o belo toque do silenciador e o que parece ser uma Jericho semi-automática prontinha pra ser descarregada. Isto fora a já confirmada presença do canhão Smith & Wesson calibre 50 (!!! - veja uma comparação com a celebridade Magnum 44, entre outras), só pra ficar nas mais pedidas do DJ Frank.

É praticamente um oficial do BOPE, não fosse a caveira sem a faca (e acertadamente apagada, na minha no-humble opinião) e a semelhança quase univitelina com um dos caras mais durões do universo, o difícil de matar em terreno selvagem Steven Seagal.


Especialmente o Seagal do filme Momento Crítico (Executive Decision, EUA, 1996), onde o indestrutível ator é surpreendentemente destruído, num ato de proporções universais que um dia se voltará contra nós, mas isto não vem ao caso agora.

Só me sinto na obrigação de resgatar este momento mais que histórico.


Especialistas em Seagalogia afirmam que ele caiu de pé e que o local do impacto hoje é visitado por turistas do mundo inteiro. Especulações à parte, o filme realmente foi uma grata surpresa também em outras modalidades. Elenco descolado, roteiro mais sério do que aparentava, além de mais verossímil, mais melhor e muito mais maior (134 min). Uma coincidência positiva que pode até significar algo promissor, se você for supersticioso.

Até porque, El Castigador 2008 não se parece realmente com o Nico Acima da Lei. O ator Ray Stevenson (o Pullo, de Roma) está mais pra Tommy Vercetti, de GTA Vice City, descontados os pixels e após uma temporada em Bora Bora.

Do título do novo filme até as declarações da diretora Lexi Alexander, Punisher: War Zone parece remontar ao espírito do personagem nos quadrinhos. Bom, ninguém sai pronunciando adjetivos como "linha MAX", "Garth Ennis", "Retalho" e "censura alta" em entrevistas à toa. Como se não bastasse, a gaja não hesita em atirar na cara e estragar o velório dos dois filmes anteriores ("não foram relevantes"), mandando às favas a tal da ética profissional. Se for marketeira, é das boas. Mas ainda prefiro ceder um crédito, já que a cineasta alemã tem no currículo o bom Hooligans (idem, EUA/Ing, 2005).

O mais provável mesmo é que a tradicional competência e sensatez femininas prevaleçam onde o desleixo e ineficiência macholinas deixaram a desejar. Tá ok... confesso: o website da moça, apesar de miudinho, me cativou. Olha só a preocupação dela até com a semelhança física dos personagens... e ainda rolou uma foto com o Frank Miller lá nos arquivos...

Lexi também tem alguma "experiência de campo": ela foi campeã mundial de karatê e kickboxing, aos 19 anos. Aposto cenzinho que ela quebraria a fuça do Uwe Boll.

O resultado disso, só dia 12 de setembro. Longe demais.


Pra finalizar, nada melhor que prestar a devida homenagem ao Justiceiro do grande Tim Bradstreet, um cara muito bacana por sinal (até responde e-mail). O personagem das ilustrações do capista é a imagem de um manhunter. Dark, frio e ameaçador, mesmo sem a fisionomia abrutalhada do original.

Méritos para o artista - que, junto com Ennis, se despede da linha MAX no nº 60 - e também para o colaborador Tom O'Brien, que serviu de modelo para as capas.


Se nada der certo no cinema, sempre haverá a possibilidade de mais um fanfilm. Será que o Sandy Collora já voltou do Havaí?