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sexta-feira, 30 de junho de 2023

Indiana Jones e a Nova Última Cruzada


Indiana Jones e a Relíquia do Destino me lembrou de como é bom entrar numa sala de cinema sem a menor ideia do enredo. Nem ao menos me dei ao trabalho de memorizar o resto do título após o nome do herói – coisa que desencanei após Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, de 2008. Que, apesar dos pesares, deu ao espectador um senso de conclusão digno, porém esqueceu de combinar com o miolo. Na nova aventura, o clima de despedida é novamente reeditado, com a clara intenção de corrigir os problemas do filme anterior.

E consegue, com grande sensibilidade até. Isso graças ao roteiro de Jez Butterworth, John-Henry Butterworth, do veterano na franquia David Koepp e do também diretor James Mangold.

Curiosamente, Steven Spielberg compareceu apenas como produtor executivo – George Lucas, desta vez, está completamente fora – e chegou a declarar que a ideia era "oferecer uma nova perspectiva." No entanto, Mangold é um seguidor reverente e mesmo com a renovação de década característica da série, ele faz questão de manter os ganchos da fórmula Spielberguiana. Até os nazis voltaram a atacar, devidamente contextualizados para o final dos anos 1960. Sujeito esperto.

A trama... bem, trama, a esta altura do campeonato, é o que menos importa. Tem lá a relíquia cercada de charadas com mocinhos e bandidos se acotovelando atrás dela. De novidade, curti o recurso do falso MacGuffin sugerido de cara e descartado na 1ª oportunidade. Mesmo por que, é dos "objetos místicos" mais manjados deste território (não é mesmo Constantine?) e uma Arca e um Cálice já foram o suficiente. Boa sacada.

A arqueóloga trambiqueira Helena Shaw e seu sidekick Teddy, um Short Round marroquino, são os novos personagens da vez. Sempre tive dificuldade de assimilar novas adições à série. Um pouco pela irritabilidade que estes proporcionam para se afirmarem em tela tanto quanto o protagonista e um pouco por preferir o herói se virando sozinho. É complicado. Mas a partir de certo ponto, até que desceram de boa. Phoebe Waller-Bridge e o novato Ethann Isidore funcionam como dupla, embora o último estivesse sisudo demais para este tipo de filme, além de ter pouca ou nenhuma interação com Indy. Dá a impressão de que alguma coisa ficou para trás na sala de edição.

O espetacular Mads Mikkelsen faz uma abordagem cerebral com seu Jürgen Voller. No filme, o vilão é um dos cientistas alemães que trabalharam para os EUA durante o Pós-Guerra. Inclusive, foi um dos responsáveis por colocar o homem na Lua, mas que continua, em essência, um nazista.

Uma ótima surpresa foi ver o Toby Jones roubando a cena na sequência eletrizante que abre o filme. Bem que podiam ter seguido a partir dali. Já Antonio Banderas só aparece para fincar um Indiana Jones no currículo. Desperdício total.


Harrison Ford octogenário é um fenômeno. Claro que em algumas cenas mais físicas, nota-se que ele ainda é humano, graças a Deus. E está se divertindo muito. Talvez não tanto quanto John Rhys-Davies com seu simpático e bonachão Sallah quase de volta à ativa. É muito bom também rever a Marion de Karen Allen num momento terno e muito bonito em referência ao primeiro filme.

Gostei bastante dessa 3ª despedida. Mas ainda acho que aquele chapéu não está pronto para ser pendurado...

domingo, 27 de novembro de 2011

Os nativos atiraram primeiro


"Folheando" a edição #19 de Star Wars Tales, uma pequena história se destacou no meio do catadão colaborativo. Escrita por Haden Blackman (roteirista de longa data do universo Star Wars) e desenhada por Sean Murphy (de Joe, o Bárbaro), "Into the Great Unknown" marca o encontro de dois dos maiores ícones do cinema: Han Solo e Indiana Jones. Respectivamente, o maior anti-herói de todos e um dos maiores heróis desde sempre. E ainda traz um belo e triste epitáfio para um deles.

Legal o modo como Blackman brinca com as duas mitologias num curto espaço sem soar forçado. Méritos também para Murphy em sua perfeita cartunização facial do Harrison Ford.



São possibilidades como essa que me fazem agradecer ao Mestre Yoda pelo universo expandido. Será que existe algum crossover de Darth Vader com o Thulsa Doom por aí?

quinta-feira, 29 de maio de 2008

INDIANA JONES E O REINO DO ARQUIVO X


Já nos primeiros segundos, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, 2008) estabelece o primeiro contato entre o último grande herói fictício de Hollywood e o modo americano de fazer cinema atualmente. Olhei direto nos olhinhos virtuais daquela toupeira-ou-roedor-que-o-valha sem notar que o filme já havia começado, certo de que era mais um trailer da Pixar ou de algum concorrente da maratona do CGI. Mesmo que tal conexão tenha sido involuntária, é, sob qualquer ângulo, sintomática. Indiana Jones retorna após um auto-exílio de quase vinte anos. Em termos, é o que deu certo ontem se encontrando com o que está dando certo hoje. Indy e seu universo pertencem a uma era em que filmes de aventura eram bem-amarradas compilações de grandes sacadas e inteligência no emprego de ganchos clássicos, não pedaços do céu despencando com efeitos de som e fúria digital. Ao menos não ininterruptamente para disfarçar conteúdo ou falta de.

Então. Sabe o que falta hoje? Essência. Feeling. Espírito da coisa. Aquilo que, por exemplo, Piratas do Caribe fez bem em dois filmes e mandou direto pra descarga no terceiro. E em se tratando de Indy, tudo fica ainda mais emblemático - neste flagrante encontro do velho com o novo, já é lucro se uma lasquinha daquele passado memorável permanecer intacta na transição. Caso contrário, ainda que sob a gerência do tubarão Spielberg e do ewok Lucas, é porque as regras mudaram de vez, não tem mais volta e eu não passo de um velhote resmungão, carente e saudosista - porém limpinho.

Mas o legal é assistir ao filme e ver que ainda está lá. O que torna esse universo tão especial está lá, inoxidável, juntamente com relíquias astecas, maias, sumérias, hebraicas, Harrison Ford e Karen Allen - mais as saudáveis companhias de Cate Blanchett, John Hurt e Shia LeBeouf. Por outro lado, o que fez do cinemão de aventura essa coisa boboca e cara-de-mamão que é hoje tenta, a todo custo, sabotar este novo/velho filme, insistente tal qual um Dick Vigarista a serviço do mainstream corporativo.


Aforismos à parte, o primeiro ato é tão peculiar e refrescante quanto poderia ser. E já começa realizando um velho sonho: uma seqüência inteirinha passada no misterioso depósito que conclui Caçadores da Arca Perdida. Interessante ver que fica localizado numa espécie de Área 51 (ou talvez a própria) e que Indy sequer sabia de sua existência - a breve ponta da Arca da Aliança foi ironia da fina. Claro que o contexto da "visita" não permite detalhes, mas, em compensação, o clima, a dinâmica e o sexagenário ator parecem ter sido preservados em carbonita desde o último filme. Sem dúvida nenhuma, Indy is back! - mas a doce sensação esbarra na inacreditável cena do teste nuclear. A premissa rende uma situação até curiosa e engraçada, mas acho que, sei lá, um bunker para fugas de emergência não teria sido uma solução menos... menos? Esta foi a primeira sinuosidade em baixo relevo do filme, que não chega a ser uma montanha-russa, mas tem antagonistas russos. Ou melhor, soviéticos. Ou melhor ainda... comunistas!

É a presença deles que traça o perfil mais historicamente complexo do roteiro. Estão lá toda a histeria anticomunista da década de 1950 e a sombra de uma iminente guerra nuclear supermotivando a vilã Irina Spalko (Blanchett), espécie de "Ilsa, She-Wolf of the SS" versão KGB. Além disso, todos sabem que Spielberg tem um carinho especial pela época. Pela música, pela juventude, pela política e até pelos aliens da época. O racha que dá início ao filme e a ceninha genial (e hilária) da briga de playboys X motociclistas só poderiam ter sido dirigidas daquele jeito por um romântico da carteirinha.

Por fim, a composição do personagem Mutt (LaBeouf), quase um tributo ao Marlon Brando de O Selvagem, e as controvérsias de um suposto evento ocorrido dez anos antes (o filme se passa em 1957). Neste ponto, Caveira de Cristal - Lucas se superou com este título - inova de maneira até surpreendente para quem esperava outra caçada atrás de algum ícone místico/religioso/metafórico.

Há quem estranhe o fator 'Arquivo X' presente no filme, mas, como reza a Física Quântica, tudo depende do observador. Só posso dizer por mim: Planetary, eventuais sessões à base de Taken e do subestimado longa de Arquivo X me fazem enxergar a proposta com sincera naturalidade. Mas qualquer um que já tenha lido as presepadas de Eram Os Deuses Astronautas? (antes ou depois de Feliz Ano Velho, tanto faz) já está habilitado a considerar a idéia de maneira mais receptiva. Senão, tenta essa: boa parte da ufologia funciona como uma extensão vanguardista da arqueologia. Ou: a ufologia está para a arqueologia assim como a parapsicologia está para a psicologia.

No mais, o objeto em questão é um McGuffin tão fantástico quanto "uma arca que torna qualquer exército invencível" ou um "cálice que dá a vida eterna". E assim o notório ceticismo de Indy também ganha seu upgrade.


O filme não escapa incólume às turbulências do roteiro, principalmente na tradicional seqüência de Indy atacando o comboio dos vilões. Nem mesmo a melhor equipe de 2ª unidade do mundo - e não duvido que fosse o caso - conseguiria convencer com uma floresta amazônica cujo solo é um tapete de tão nivelado, nativos peruanos que parecem treinados pelo Clã da Lótus Branca e uma péssima referência ao Greystoke remanescente. Isso sem falar na boca-de-fumo de formigas botocudas (a siafu africana), me lembrando imediatamente o ataque dos besouros assassinos de A Múmia, inclusive com uma das mortes idêntica. Decepcionante lugar-comum.

Cate Blanchett, atriz que engrandece a profissão a cada papel, recebeu uma missão ingrata. A natureza de sua personagem é por demais unidimensional e acaba se revelando insuficiente em seu lado da balança - ainda mais se compararmos com o primeiro e terceiro filmes da franquia, que contavam com uma variedade generosa de vilões se revezando no comando. Já o venerável John Hurt é uma escola dramática, mas também um completo outsider na escolha de papéis (ele foi o Homem-Elefante, oras!). Portanto tudo OK se a sua participação aqui acontece em 1ª marcha. E sem maiores comentários sobre Ray Winstone, como o vira-folha Mac. É um coadjuvante cômico ganancioso com o destino dos coadjuvantes cômicos gananciosos.

Todos os problemas que senti em relação à Caveira de Cristal refletem exatamente um típico clima de reencontro de veteranos. É a ressaca da festa da classe de 81. A curtição dos caras - e Karen Allen - em estar ali, juntos novamente, está estampada em cada frame dos 124 minutos do filme. E aos moldes antigos, sem readaptações na narrativa, sem urgência. A química volta a acontecer, mesmo que seu resultado se atenha à mais deslavada diversão sem compromissos que a série poderia se permitir antes de arriscar sua qualidade.

Rever Harrison Ford na pele de Indiana Jones é como rever um velho amigo que nunca nos decepcionou. Merecia um filme melhor, mas nesta altura do campeonato, isso já é tão valioso quanto um Santo Graal.