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terça-feira, 30 de junho de 2020

😷 😷 😷 😷 😷 😷 Retrospec Junho/2020 😷 😷 😷 😷 😷 😷

Uma nova era está começando... aguardem! #conrad #conradeditora #quadrinhos #HQ #calvineharoldo #ConradNovaEra #conradVoltou #sobnovadireção #mangá
Publicado por Conrad Editora em Segunda-feira, 1 de junho de 2020

1/6¹ – A Conrad Editora anuncia uma volta dos mortos às atividades sob nova direção. Daqui onde estou, ouço foguetórios de celebração pelo passado de títulos incríveis e panelaços de indignação pelos preços colonoscópicos e pelas séries inacabadas. Mas darei um voto de confiança, assim que superar esse anúncio em fonte Comic Sans.

1/6² – Anota na agenda, Charlie Cox: daqui a seis meses os direitos do Demolidor retornam para a Marvel Studios.

1/6³O venerável Doug Bradley faz uma leitura do clássico Frankenstein, de Mary Shelley, para relaxar nesses tempos de quarentena. Pinhead é um demônio extradimensional do prazer e da dor, mas acima de tudo é um bom coração...

1/64Evan Peters, o melhor Mercúrio, estará na série WandaVision.

2/6¹ – Vários artistas e gravadoras se unem à campanha #blackouttuesday / #theshowmustbepaused em apoio aos protestos pelo assassinato de George Floyd.

2/6² – Não apenas a atriz Ruby Rose saiu de Batwoman, mas também sua personagem, Kate Kane. A nova protagonista da série será Ryan Wilder, que, literalmente, não tá no gibi.


3/6¹Se vai Maria Alice Vergueiro, aos 85. A atriz, pedagoga e professora paulista iniciou sua carreira na década de 1960. Foi proeminente no universo teatral, onde dividia os palcos com gigantes como Jandira Martini, Cacá Rosset e Paulo Autran. E também fez vários filmes, além de algumas novelas. No entanto, seu grande momento no mainstream foi com o clássico vídeo "Tapa na Pantera", um dos primeiros grandes hits viralizados da internet brasileira. Ainda hilário, diga-se...


Por um bom tempo achei que aquilo era verdade. Fui trollado profissionalmente (#orgulhodefine). Obrigado por tudo, Maria Alice!

3/6² – A nova edição americana de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1839-1908), via Penguin Classics, esgota nos Estados Unidos em um dia. E a resenha do The New Yorker é uma delícia – até complementar à do Better Than Food, diria. Sigo ansiosamente no aguardo pelos reacts gringos à ambiguidade da Capitu...

4/6¹ – E nessa volta "sob nova direção", a Conrad Editora anuncia a volta do editor Cassius Medauar (ex-Pixel, ex-JBC e ex-putz-Conrad). Suas passagens por títulos clássicos de mangás rendeu a adoração de muitos otakus. Em compensação, suas decisões "inusitadas" nos títulos Vertigo editados na Pixel deixou alguns traumas pelo caminho – mas isso foi frio, Luwig.


4/6²Se vai Steve Priest, aos 72. Baixista e vocalista da formação mais popular do grupo The Sweet, ele foi um dos precursores do glam e do hard rock. Entre seus maiores hits estão "Fox on the Run", "Little Willy", "Love Is Like Oxygen" e, lógico, a icônica "The Ballroom Blitz".

5/6 – Víamos isso chegando, mas não acreditávamos: a DC corta relações com a Diamond Comics Distributors! Negacionismo nerd é isso aí.

6/6 – Do alto de seus produtivos 99 anos, o legendário Al Jaffee, autor das famosas "Dobradinhas da MAD", resolve se aposentar. Grande Jaffee!


11/6¹ – Se vai Dennis O'Neil, aos 81. Entre a passagem pela Charlton e as idas e vindas pela Marvel e DC, sua carreira se confunde com a própria História dos comics pós-Era de Prata. Como roteirista e editor, revolucionou o conceito de quadrinho mainstream mais vezes do que qualquer um sonharia. Seus trabalhos nos títulos do Questão e do Batman se tornaram referências, sem contar o meu favorito: Lanterna Verde/Arqueiro Verde ao lado de Neal Adams – uma das maiores duplas dos quadrinhos em todos os tempos. O fim de uma era.

11/6²Morrison Hotel, clássico álbum do grupo The Doors, ganhará uma HQ. O roteiro é da Leah Moore, filha do Ômi, e conta com a colaboração de dois Doors: o guitarrista Robby Krieger e do baterista John Densmore. Boa sorte pra ela. As Portas remanescentes nunca foram um público fácil em se tratando de adaptações em quadrinhos – vide as críticas do tecladista Ray Manzarek à arte sensacional do gaúcho Henrique Kipper num projeto similar durante os anos 1990.

11/6³ – O New Order e o Pet Shop Boys remarcaram sua Unity Tour para 2021, com datas a partir de setembro (!). Olha que dá tempo de convidar o Depeche...


12/6¹ – A Marvel apresenta o design 2020 do Latinha. A caranga nova estreia em Iron Man #1 (set/2020) com roteiro de Christopher Cantwell e arte de... CAFU?! Caramba, sabia que o cara tava numa maré braba, mas fazer bico na Marvel já é demais.

12/6²Alejandro Jodorowsky: 4K Restoration Collection é o box que vai invadir seus sonhos como vikings sedentos por sangue, pilhagem e virgens. 400 e-daís (no câmbio de hoje) + shipping.

13/6 – A pedido da Associação de Oficiais Militares do Estado de São Paulo em Defesa da Polícia Militar (sério), a Justiça pede esclarecimentos à Folha e aos artistas João Montanaro, Alberto Benett e Laerte por uma série de charges abordando a violência policial no Brasil. Em suma, precisa desenhar. De novo.

14/6 – E... Bob Esponja é oficialmente um personagem LGBTQ+. Ah, esse tava fácil.

15/6 – Pode ser que os direitos cinematográficos de Hellraiser revertam para Clive Baker ano que vem. Será uma desfibrilada salvadora na surrada franquia. Mas a trama é mais complexa – e promissora – do que parece.

16/6¹ – Várias mulheres acusam o roteirista e desenhista Cameron Stewart (Batgirl) de má conduta sexual – sendo que uma delas ainda era adolescente na época. É, fiote...

16/6²Flea adorou "By the Way", do Red Hot Chili Peppers, na versão do Júnior Bass Groovador. Não é pra menos: ficou muito melhor que a original. #prontofalei

16/6² – A WarnerMedia anuncia o mega-evento virtual DC FanDome, que trará novidades da DC para TV e cinema. Também terá concursos entre cosplayers e artistas do mundo inteiroexceto para o Brasil, Cuba, Irã, Coreia do Norte, Sudão, Síria e Crimeia. Depois a Warner tentou contextualizar o veto, mas o gostinho de 7 x 1 é inconfundível.

17/6 – Minha Santa Aquerupita... Warren Ellis é acusado por múltiplas mulheres de coerção sexual através de táticas predatórias bluebeard. Por décadas. Até tu, Ellis?

18/6¹ – E Cameron Stewart é retirado de um projeto da DC após a chuva de alegações sobre sua má conduta sexual.

18/6² – Diz James Gunn que John Cena vai tocar o terror no novo Esquadrão Suicida. Eu pago um dólar por isso!


19/6¹Warren Ellis responde às acusações de má conduta sexual com uma conversa mole que faria a Jakita lhe quebrar uns ossinhos com petelecos estratégicos.


19/6² – Se vai Sir Ian Holm Cuthbert, aos 88. O veterano e premiadíssimo ator britânico iniciou sua carreira no teatro em 1953 (!). Em meados da década de 1960, fez parte das primeiras produções na TV (BBC, claro), daí para o cinema e o resto é História. Entre vários papéis emblemáticos, ficou mais conhecido pelas novas gerações por seu Bilbo Baggins da trilogia O Senhor dos Anéis. E para mim, sempre será o "simpático" Ash...

19/6³A DC remove uma história de 2 páginas escrita por Warren Ellis para um spinoff da saga Death Metal – a pedido do próprio, segundo a editora. Pelo visto, esse agora só vai dar as caras na próxima pandemia.


22/6¹ – Se vai Joel Schumacher, aos 80. O cineasta iniciou sua carreira no cinema como designer de figurino em 1970 e debutou na direção apenas quatro anos depois. A maioria dos portais de notícias certamente se renderá aos clickbaits garantidos com sua malfadada incursão na franquia do Batman, mas, justiça seja feita, ao longo da carreira Schumacher construiu uma filmografia bastante decente. E por vezes, até mesmo atemporal.

22/6² – E falando em Batman, ninguém menos que Michael Keaton está negociando seu retorno ao capuz do Morcego no vindouro The Flash, de Andy Muschietti. Batman velhusco e rabugento de DK à vista?


22/6³ – Grandiosaço esse teaser da série Foundation, hm? E ainda tem o Jared Harris. Asimov ficaria orgulhoso...

23/6 – Em tempos tão sombrios para o mercado editorial (mesmo para as gigantes do varejo), o serviço Bookshop é a estrela que está guiando as pequenas livrarias de volta ao público perdido.

24/6¹David Lynch está felizão com seu conjunto da obra, com exceção de Duna. Mas não disse o porquê.

24/6² – Caíram na rede umas fotos do set de Matrix 4. Neil Patrick Harris estrelão como sempre e Keanu Reeves com um visual meio... Neo-Jesus?

24/6³Shawna Gore, editora da Oni Press, revela um período de inferno na época em que trabalhava na Dark Horse e era assediada pelo roteirista e editor Scott Allie – comportamento que chegou às vias de fato num relato difícil de ler. A Dark Horse se pronunciou sobre o desabafo de Shawna e terminou de afundar a já péssima reputação do sujeito.


25/6 – Se vai Joe Sinnott, aos 93. O "arte-finalista de Jack Kirby" foi essencial na gênese da indústria dos quadrinhos mainstream. Foram nada menos que 60 anos de Marvel – fora que já estava "por ali" desde 1951, na Timely/Atlas, a pré-história da editora. E desenhou até o fim, mesmo aposentado desde março do ano passado. Veterano é pouco.


26/6Se vai Milton Glaser, aos 91. O nova-iorquino é uma verdadeira referência no mundo do design gráfico. Ao longo da carreira não só revolucionou a estética gráfica publicitária como reestruturou o conceito visual de jornais e revistas do mundo inteiro. Sabia como ninguém fazer a ponte entre a simplicidade e a genialidade. Claro que todos irão se lembrar de um de seus maiores legados, o icônico I NY – mas pra mim, ele sempre será o criador do insuperável "logotipo balístico" da DC...


O melhor logo de todos! De todos!



29/6 – Se vai o gênio da comédia americana Carl Reiner, aos 98. O ator, diretor, roteirista e escritor iniciou na carreira dramática enquanto servia na 2ª Guerra, em uma unidade de entretenimento. E nunca mais parou – seu último trabalho foi em Toy Story 4, do ano passado. Mesmo entre tantos momentos antológicos na TV, nos teatros e no cinema, pra mim é difícil não destacar as parcerias com Steve Martin (O Panaca, Cliente Morto Não Paga) e o improvável e impagável Curso de Verão, um dos filmes que mais assisti na vida.

ZECK, DeMATTEIS' Classic CAPTAIN AMERICA to Get EPIC COLLECTION. DETAILS:
Publicado por 13th Dimension em Terça-feira, 30 de junho de 2020

30/6¹ – A aclamada fase de J.M. DeMatteis, Mike Zeck e John Beatty no Cap vai ganhar uma Epic Collection para chamar de sua. Ou minha, porque esperar pela Panini a esta altura é pedir pra levar. Sai lá fora no outono – entre 22 de setembro e 22 de dezembro.

Day of the Dead
Day of the Dead premiered June 30, 1985
Publicado por Hallowin em Terça-feira, 30 de junho de 2020

30/6² – Hoje Dia dos Mortos completa 35 primaveras! É o mais tosco, cru e gore da franquia de George A. Romero, mas atualmente é o que mais gosto de revisitar/estudar, por motivos perfeitamente elaborados por outra pessoa. Thank you, mister!

domingo, 16 de julho de 2017

Bravo, Romero!


George Andrew Romero
(1940 - 2017)

Comentar mais o quê do Grande A. Romero? Não satisfeito em resgatar, modernizar, globalizar e eternizar toda uma estranha subcultura, o cineasta ainda era influência perene em filmes, música, literatura, quadrinhos, artes visuais e o que mais houvesse dentro da cultura pop.

Além de ser o criador do clássico com o título mais legal de toda a história do cinema.

Romero foi a razão direta para muitas trilhas que fui tomando em minha vida - filmes, livros, gibis, discos, visão crítica do mundo, este blog. Nunca me arrependi de nenhuma delas.

Só por isso, meu muito obrigado, velho mestre.


Ps: uma nova maratona da hexalogia ...of the Dead na agulha? Com certeza. Com um Martin e um The Crazies para rebater.

Pps!: Como se não bastasse, Martin Landau também. E a fileira dos grandes diminui a passos largos. 

R.I.P.

domingo, 10 de março de 2013

HQs of the Dead


A premissa de Marvel of the Dead, a nova incursão zumbi da Casa das Ideias, permanece guardada a sete chaves. O que é até impensável com o tráfego de informações insano de hoje. A única coisa revelada oficialmente até agora foi o misterioso teaser poster. Mas mesmo o título não está bem claro - é Marvel of the Dead ou simplesmente ...of the Dead? E na página do projeto impera um silêncio sepulcral.

Porém, a coisa toda já vem rolando desde outubro do ano passado, quando ninguém menos que George A. Romero, o pai da definição moderna de zumbis, mencionou em entrevista ao Twitch (provavelmente num lapso) que estava escrevendo um roteiro para a Marvel. 

Segue o trecho em tradução spaghetti western-jagunço:

ROMERO – Também estou roteirizando uma HQ para a Marvel. Estou escrevendo agora, mas o plot é segredo.
TWITCH – AaaaAAaaaa, qual é, George, apenas uma pista? Um pedacinho?
ROMERO – Bom, posso dizer que não envolve nenhum dos personagens habituais, não haverá super-heróis. Mas envolverá zumbis!

É bem verdade que nos últimos tempos este setor da Casa das Ideias andava às moscas (sem trocadilhos). Mas publicar um título concebido pelo mestre dos mortos em pessoa é certamente uma grande jogada da Marvel. Até mesmo para estabelecer uma distinção atrativa sobre o que foi feito pela editora no passado - um espectro que vai desde o clássico Simon Garth, de Stan Lee e Bill Everett, a sangrenta mini Zumbi, de Mike Raicht e Kyle Hotz, e até a divertida e memorável Zumbis Marvel, de Robert Kirkman.

Kirkman, aliás, eternizado como o criador de The Walking Dead, a HQ. E também como o consultor da mega-estourada série da AMC, que deu uma renovada na onda desmorta na grande mídia, batendo um recorde de audiência atrás do outro e além.

Alguma dúvida que foi aí que a Marvel se in$pirou pra reativar seu Living Deadpartment?


Bônus pós-vida:


Pânico em Riverdale! Segundo o MTV Geek! o lugar será o cenário de uma invasão zumbi na nova série Afterlife with Archie. O roteiro está a cargo de Roberto Aguirre-Sacasa, co-produtor e escritor regular de Glee (!). A descrição do ômi é simplória, mas vende bem o peixe:

"O que aconteceria se os personagens de Archie estivessem em um livro de Stephen King como The Stand ou num filme de Sam Raimi como A Morte do Demônio?"

Soa bem ameaçador. E o título de um dos arcos é um sugestivo "Betty R.I.P." (uma das eternas namoradinhas do Archie). Pode ser o indício de que vão pegar pesado. O quanto for possível, pelo menos.

O curioso é que o promo com o Jughead zumbi - ou Jugdead, como está sendo apelidado - foi extraído da capa variante de uma edição normal do ano passado. Lançar edições com capas variantes em versões zumbificadas é uma prática muito utilizada nos últimos anos, principalmente pela Marvel. Geralmente é apenas uma isca para colecionadores ou leitores incautos, sem qualquer relação com o enredo da edição. Nesse caso específico, a regra foi invertida.

À primeira vista o crossover pode parecer esdrúxulo, mas se levar em consideração o encontro de Archie com o Justiceiro de uns anos atrás, uma horda de zumbis deve ser como um dia no parque. Logicamente, no esquema "pague para entrar, reze para sair"...

Afterlife with Archie está programada para o final de 2013.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"They're coming to get you, Barbra..."



Bill Hinzman(1936-2012)

Em mais de quatro décadas como profissional de cinema, foi ator, diretor, produtor, roteirista, câmera, diretor de fotografia, editor, técnico... mas entrou pra história mesmo como o Cemetery Zombie, o primeiro zumbi a aparecer em cena no clássico A Noite dos Mortos-Vivos, de George A. Romero, em 1968.

E por que não dizer, o primeiro zumbi da era moderna.


Ele tinha só 32 anos quando participou do filme. E eu sempre achei que era um coroa randômico qualquer. Ser zumbi envelhece as pessoas.


Slow zombie, my dick.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Keep walking


Chegamos à meia-temporada de The Walking Dead e não foi nenhuma evisceração, nem algum zumbi carcomido que me deixou mais aterrorizado. Foi o artigo do Hollywood Reporter sobre a saída misteriosa de Frank Darabont da série e as desastrosas intervenções da AMC para esticar a margem de lucro. Algo polemizador, mas com análises e especulações bastante pertinentes, o texto pinça um cenário de horror nos bastidores. Elenco atônito com a dispensa do showrunner, cortes radicais no orçamento e polêmicas em torno da equipe criativa. Nem parece que a série é o maior hit da casa, superando até os números mais otimistas - os outros dois grandes da AMC, Mad Men e Breaking Bad, nem arranharam a lataria. Ao que tudo indica, a raiz do problema parece ser os imbróglios financeiros da própria network que entraram em conflito com Darabont e resultaram na saída do mesmo. E nesse ponto, a malversação de verbas no final da primeira temporada não contribuiu em nada.

O que me leva a concluir que a adaptação teve que se adequar ao modelo enxuto de produção imposto pela AMC. A primeira medida foi cortar direto na carne necrosada: menos zumbis povoando os episódios, mais drama e tensão entre os humanos. Pular o arrepiante arco no condomínio Wiltshire States e antecipar a estadia dos sobreviventes na fazenda de Hershel Greene foi o passo seguinte para diminuir custos. Sem mais aquele grupo de desesperados pegando a estrada enfurnados num trailer fedorento, passando fome e sede, sem dormir, sempre fugindo de hordas de mortos-vivos e ainda penando num inverno de lascar - que aliás, seria um detalhe importante (e caro) na trama do condomínio.

Ainda que esse arco não seja essencial para a saga, é importante sob o aspecto psicológico. É um intensivão de tudo aquilo que The Walking Dead trata e do que os protagonistas tanto temem: sobreviver em condições subumanas e zumbis doidos por um naco de carne. Eles deviam passar por isso antes de chegarem à fazenda. Tornaria sua angústia em permanecerem lá mais palpável, tridimensional. Ou, no mínimo, colocaria nosso amigo Shane mais próximo de seu fatídico ponto de ebulição. Fora que evitaria a barrigada narrativa que eventualmente se formou ao longo desse primeiros 7 episódios.

Mas deixando de lado a panfletagem e o radicalismo fanboy, rapaz... a temporada estreou em alto nível.


Pelo visto, colocar o protagonista se esgueirando embaixo de algum veículo abandonado é uma constante promissora na série. Dessa vez foi o elenco principal inteiro ralando o peito no asfalto enquanto uma manada de zumbis fazia sua marcha pela fome. A sequência é de jogar o miocárdio num barril de Red Bull e desde já uma das mais nervosas e divertidas já produzidas por uma série de TV. Mesmo que você me pergunte "mas peraí, de onde vieram todos aqueles zumbis?", eu daria ao menos umas três alternativas bem satisfatórias e seguiria para o próximo tópico.

O episódio segue criando cenas de forte apelo, novamente superando o material original com o cliffhanger trágico do Carl e definindo o perfil de alguns personagens dali em diante - mais notadamente o presunto ambulante T-Dog (se machucando sozinho e sangrando em bicas) e o senhor de todas as fodezas, mr. Badass-Redneck-with-a-Fucking-Crossbow Daryl.

O segundo capítulo é quase todo calcado no drama da família Grimes e a taxa de zumbis/m² despenca. Só aumenta no clímax eletrizante com Shane e Otis encurralados na escola por uma turba putrefacta. Para os leitores da HQ, o episódio também reservou uma redenção em especial: Hershel e Maggie, em carne e osso. E aí bate novamente aquela sensação meio onírica e surrealista, provavelmente a mesma de ver justas personificações de Yorick, 355, agente Graves, Jesse Custer, Leo Patterson. Jessica Jones. É um espetáculo à parte ver personagens marcantes transpondo as dimensões ficcionais. Quase dá pra ver as rachaduras na 4th wall. E isso não tem nada a ver com atuações dignas da Palma de Ouro. É a empatia que conta.

Os episódios seguintes se dividem entre a recuperação de Carl, o início do relacionamento de Glenn e Maggie, o segredo de Lori, o clima desconfortável entre Hershel e o grupo de sobreviventes, a crescente desestabilização de Shane e, claro, as incessantes buscas por Sophia. Muito do clima de terror agregado ao tema da série é colocado em 2º ou até 3º plano, dando lugar à extensos build ups dramáticos e alívios cômicos ou emocionais. Todos relevantes e bem conduzidos, mas com uma consequência imediata que remete à sangria orçamentária explicitada lá no início: a escassez de zombie action.

A economia ficou evidente no episódio 4, "Cherokee Rose", com o surgimento das criaturas se dando de forma singular e, digamos, concentrada, numa espécie de compensação em moeda splatter.


O que é um deleite para os olhos durante uma lauta refeição em algum boteco pé-sujo - porém não o suficiente para espantar a sensação de que a fazenda por vezes se torna um improvável oásis para os personagens.

Só pra ficar num exemplo recente, uma das (várias) coisas negativas da série Falling Skies - ambientada no mesmo formato pós-apocalíptico com ameaças monstruosas à espreita - é justamente ver os protagonistas convivendo, brincando e fazendo planos num território neutro (no caso, uma escola), tranquilos, à luz do dia. É uma zona de conforto que destoa das circunstâncias e que se repete em The Walking Dead.

Talvez a narrativa do arco simplesmente não deslanche na TV tão bem como na HQ, onde tudo é minimalista por natureza. Ou talvez eu esteja mal-acostumado com os humanos vivendo como ratos (e comendo ratos) na franquia do Terminator.


Se na 1ª "temporada" as impressões já haviam sido positivas, nessa 2ª, Daryl está sendo a grande revelação. Interpretado à perfeição pelo ator Norman Reedus (o Scud, de Blade II, é mole?), o personagem, além de ser o mais esperto no trato com mortos-vivos, tem ganhado uma bem-vinda complexidade. Não por acaso, o episódio "Chupacabra" foi um dos melhores até aqui. Com um cameo especialíssimo de Michael Rooker, Daryl mergulha numa autêntica bad trip hillbilly pontuada pela aparição de seu irmão, o Governad... aham, Merle Dixon. Um excelente e intenso momento-solo. Ou, nas palavras do próprio Reedus, "Amargo Pesadelo encontra Motörhead".

Alternando um pouco o ângulo sobre o personagem, cabem algumas considerações. Daryl é um caçador e rastreador, um sobrevivente nato. Come esquilos crus como se fossem doritos. Obviamente é o tipo de pessoa que qualquer um iria querer ao seu lado numa situação daquela. Também é um personagem criado especialmente para a série, ao passo que um elemento muito importante nos quadrinhos ainda não deu qualquer sinal de vida na telinha: Tyreese.

Aos que acompanham a HQ, desnecessário dizer o quão Tyreese é um dos personagens mais queridos e carismáticos criados por Robert Kirkman. A despeito da boa probabilidade que o autor havia dado para sua inclusão ainda nessa temporada, nada é muito certo desde que as coisas andaram tumultuadas na coxia. No cast publicado no IMDb para esta temporada, por enquanto, nada feito.

Responsável por várias sequências de cair o queixo, Tyreese faz o tipo badass motherfucker na mesma escala de Daryl. Caso ele apareça, certamente irá arrancar elogios dos espectadores incautos. Caso nunca apareça por uma união de fatores (redundância + corte de orçamento), Daryl poderia naturalmente assumir os seus passos na série, como vem fazendo, aliás. Quem sabe até concluir a sua saga de maneira ainda mais perturbadora que o próprio Tyreese na HQ.

Daryl, de joelhos em frente à prisão... será?


Jeffrey DeMunn e Jon Bernthal renderam um dos embates mais bacanas da série como Dale e Shane, respectivamente. O veterano DeMunn, presença assídua na filmografia de Darabont, não só consegue capturar todas as nuances do sensato Dale, como o sintoniza ao seu próprio método de atuação. Literalmente roubou o personagem. Do outro lado da balança, o ótimo Bernthal faz um destilado de puro instinto e reação. É notável a degradação moral de Shane indo sistematicamente de encontro a Dale, sua antítese imediata. É algo que nunca ocorreu nos quadrinhos e que certamente deve ter sido um dos grandes arrependimentos de Kirkman - que, na função de produtor executivo, está ganhando a chance inacreditável de lapidar a sua obra enquanto bate recordes de audiência. Sem brincadeira, o sujeito deve achar que está num sonho.

Andrea, por sua vez muito bem representada por Laurie Holden, chegou a protagonizar uma cena de sexo com Shane num lance inexistente nos quadrinhos, mas ao meu ver muito bem sacado (afinal, foi a gota d'água para Dale). A forma como a atriz transita por sentimentos diametralmente opostos, como fragilidade/frieza, é impressionante. Preciosismo cênico de encher o olhos, embora não seja surpresa pra quem se lembra dela como a inesquecível Marita Covarrubias, dos bons tempos de Arquivo X, e como a agente Olivia Murray, em The Shield.

Sobre o sul-coreano Steven Yeun há pouco a se comentar. O cara é o próprio Glenn esculpido em cerâmica oriental. Parece até que Kirkman se baseou nele para o personagem da HQ. E é o ator mais sortudo da série, visto que Maggie é interpretada pela delícia cremosa Lauren Cohan (a mercenária Bela, de Sobrenatural). A química dos dois ainda é apenas razoável, já que seus personagens têm perfis muito diferentes. Bela... ou melhor, Maggie tem um gênio bem mais forte que nos quadrinhos, enquanto ele mantém o mesmo tom passivo do original.

Apesar disso, a dupla tem se afinado nas cenas mais recentes e alguma evolução já desponta no horizonte, com direito a Glenn no zombie massacre mode.


Ah, o amor pós-apocalipse zumbi é lindo.

A atriz Sarah Wayne Callies, em contrapartida, carrega um enorme fardo nessa série. Lori Grimes é a típica personagem sofrida de drama pesado, enrolada numa teia infinda de segredos, conflitos maritais e maternais e outros dilemas sem qualquer solução razoável. Era exatamente assim na HQ e no entanto foi dela o momento mais chocante de toda a saga. Nos créditos finais de cada episódio deveria haver uma menção especial abaixo do nome da atriz: "há um build up em andamento aqui, fellas. E o payoff vai te deixar com as pernas bambas".

Na mesma tocada, Melissa McBride também lida com sentimentos pra lá de tortuosos como Carol, a mãe de Sophia. É um papel difícil, visceral, não tão fácil de assistir, mas que ela conduz com perícia ímpar. Como ela mesma disse, interpretar Carol "é como presenciar uma batida de carro". No mínimo.

IronE Singleton tem poucas ferramentas à disposição. Seu Theodore "T-Dog" Douglas é um personagem irrelevante que precisa morrer violentamente o quanto antes. O mesmo vale para os coadjuvantes da família Hershel, praticamente invisíveis.

Quanto ao garotinho Chandler Riggs, o Carl, parafraseio um amigo: "não dá pra esperar muito de um ator criança assim, mas pra mim tá ótimo". Leia num tom menos rabugento e é isso aí.


Já expressei minha admiração pelo trabalho do britânico Andrew Lincoln antes, mas não dá pra não repetir a babação. Muito magro neste mid-season, o ator está imerso no protagonista Rick Grimes. Mesmo descontando os suportes de make-up, efeitos, luzes e o escambau, é visível o estado precário de Rick. Especialmente após ele doar 99% do sangue para salvar a vida do filho. Parecia que o homem ia desmontar a qualquer momento em cena. Performance entregue e impressionante, na escola punk rock de De Niro e Christian Bale. Narrativamente, porém, acabou sendo apagado pelo pró-ativo Shane. Rick continua sendo um líder?

E Hershel Greene. É quase certo que o experiente Scott Wilson nunca nem passou na frente da revista (estou no aguardo pela entrevista no blog da série), portanto é fabuloso como um ator com esse perfil tradicionalesco tenha comprado a premissa com tanto fervor. Soa um tanto menos rústico e austero que na HQ, mas a elegância e sobriedade que ele empresta ao personagem justificam qualquer coisa. Quem não se emocionou com o seu semblante arrasado no clímax do episódio 7 é porque teve o coração devorado por um zumbi há muito tempo.

A fazenda de Hershel também foi palco de uma das grandes questões de The Walking Dead: a real condição dos zumbis. Estariam mortos de fato ou gravemente enfermos? Há cura? Kirkman assimilou esse item da mitologia comum em torno das criaturas, que remonta ao folclore haitiano original. Homens sendo envenenados com extrato de datura, declarados clinicamente mortos, enterrados vivos, desenterrados e, induzidos a um estado de transe, escravizados por algum mestre bokor - Wes Craven fez um filme ótimo sobre isso, A Maldição dos Mortos-Vivos.

Da mesma forma que na HQ, a discussão é apenas superficial. Compreensível, já que sobrevivência é a ordem do dia. Mas recapitulando o polêmico arco do CDC, algumas das críticas apontavam que aquela explicação científica acabaria com a ambiguidade da questão, que seria abordada mais tarde no plot do celeiro de Hershel.


Bobagem. Se a ideia inteira do CDC foi ruim, não foi por isso. Nenhuma das informações divulgadas pelo cientista representou uma reviravolta na mitologia dos mortos-vivos.

Na verdade, foi apenas uma versão moderna daquilo que George A. Romero já havia exposto (literalmente) numa cena didática do filme Dia dos Mortos, seu clássico de 1985.


Pra mim parece mais um dos tributos de Darabont ao Godfather of all Zombies. Não sei quantos mais destes serão presenciados até seus derradeiros trabalhos frente à série, mas tomara que Glen Mazzara, o novo showrunner, mantenha a tradição. E o respeito.


E que conclusão surpreendente. Nem me importa que tenha se afastado, e muito, do que aconteceu nos quadrinhos. Aquele clímax foi The Walking Fucking Dead até a medula. Minha maldita ficha só caiu mesmo quando a trama assim o quis. E isso é mais do que posso dizer da maioria dos roteiros que pululam por aí. Sem redenção às portas do inferno, deixai toda a esperança vós que entrais, quando não houver mais lugar no inferno os mortos vagarão pela Terra, dance with the dead in my dreams listen to their hallowed screams e tudo o mais. Compensou? Pra caralho.

A série retorna no episódio "Nebraska", no dia 12 de fevereiro, em pleno carnaval, a festa da carne. As apostas estão estratosféricas. O caldo que tinha que entornar na fazenda já entornou. Shane já está "no ponto". E alguns ajustes não fariam nada mal. Minha sugestão: mais Rick Grimes, mais zumbis, mais urgência, mais baixas.

E se não for pedir muito, uma pequena escala num certo condomínio antes do provável cliffhanger final dessa temporada...

quarta-feira, 27 de abril de 2011

É hora da festa!


Antes de recolher as minhas bolas que caíram no chão, deixo a questão: será que jogar com o Romero seria uma espécie de God-mode?

Ps: "Do you wanna paaaartteee..." Não ouço nada tão grudento desde "America Fuck Yeah"...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Zombie Lab


A notícia chegou como um zumbi se esgueirando nas sombras pronto pra dar o bote. Segundo o Bloody Disgusting, a MTV está planejando uma série de TV baseada no universo de Despertar dos Mortos - o Dawn of the Dead, de George A. Romero. Aquele do shopping. Clássico que transcendia o gênero com uma visão ácida sobre os vícios e maneirismos da sociedade e que ainda é mais atual do que nunca. O que imediatamente deixa qualquer associação com a MTV com jeito de hoax piadista. O post que reporta a história foi misteriosamente apagado, porém ainda consta no cache do Google.

É possível que seja apenas um rumor infundado, mas geralmente o site não dá bola fora. E como a network ainda está em supostas negociações pelos direitos do filme, o "efeito mordaça" é bastante comum nestes casos.

Dawn of the Dead foi coverizado por Zack Snyder em 2004, numa versão polêmica entre os cultuadores do original. Um dos motivos foram os novos zumbis velocistas, ao contrário da letargia massiva de outrora (reflexo da crítica social contida no roteiro). De um lado, tecidos e músculos em franca decomposição e articulações quase travadas com a rigidez cadavérica; de outro, um arranque de deixar o Usain Bolt comendo poeira. Muitos acharam um contrasenso. Mas isso deve chegar ao fim se a notícia sobre o projeto da MTV se confirmar. A nota destaca que a série terá tanto zumbis rápidos (os recém-infectados, ainda com alguma integridade física) quanto os zumbis lentos vintage (à medida que forem apodrecendo), o que faz muito mais sentido do que o tradicionalismo xiita dos fãs. Uma ótima ideia de fato.

Contudo, mesmo sendo otimista, dificilmente a MTV - que não produz nada decente desde os anos 90 - faria alguma diferença substancial no gênero. Nem mesmo algo próximo da excelente Dead Set, no mesmo formato. Atualmente, tudo na emissora é voltado para uma fatia específica do público - e fica impensável uma série sobre cadáveres canibais com uma introdução ao estilo dos reality shows que entopem sua programação: "quatro amigos (jovens e riquinhos) presos num shopping em Orange County, dividindo dramas, zumbis, amores & confissões".

Claro que tudo mudaria de figura se trocassem o M-T-V por H-B-O. Mas por enquanto, nada que tire a primeira ordem do dia até agora: a adaptação de The Walking Dead por Frank Darabont via AMC, com estreia prevista pra esse ano.

domingo, 11 de outubro de 2009

ARKHAM TOWN


Era pra ser só mais um trailer ao acaso, mas a sensação foi de um cruzado no queixo. Dois motivos: é instigante e é mais uma refilmagem de um filme de Romero - um, aliás, que eu não assistia há muito tempo. The Crazies resgata a produção homônima de 1973, agora com direção de Breck Eisner (Sahara) e roteiro adaptado por Scott Kosar (O Operário) e Ray Wright (Pulse). No elenco estão Timothy Olyphant, Danielle Panabaker (do Sexta-Feira 13 2009) e a Radha Mitchell, cuja presença, pra mim, é quase um selo de garantia.

A atriz é pé-quente e já salvou de adaptação de game a filme de crocodilo, que são trasheiras (quase sempre) assumidas. Tomara que a bola da vez não seja a exceção da regra.

O filme original é uma pérola pouco conhecida do mestre Romero, perdida ali, entre os clássicos A Noite dos Mortos-Vivos e Despertar dos Mortos. Virou cult. No Brasil, foi batizado O Exército do Extermínio, título que coincide com uma curiosidade pra quem enxergar na nova versão um mero clone de Extermínio: o filme não tinha zumbis e sim infectados raivosos barbarizando uma cidadezinha. Mas ao contrário do petardo de Danny Boyle, os infectados mantêm a inteligência (mas não a sanidade).

Certamente merece uma reprise, tão logo eu termine de... hã, adquiri-lo.




Espero que não seja um daqueles casos de trailers incrivelmente eficientes. The Crazies estréia nos EUA em 26 de fevereiro de 2010. No Brasil, do jeito que a coisa anda, talvez depois da Copa.

E vamos peneirando por uma versão R5 de Zombieland...

sábado, 3 de outubro de 2009

UM ZUMBI NO CAMPO DE CENTEIO


Criador de uma verdadeira mitologia moderna, George A. Romero resgatou os zumbis do regionalismo arcaico que os envolviam. Desde 1968, ele vem universalizando as criaturas, num avanço através de fronteiras culturais e midiáticas que ganhou contornos de cruzada pessoal. Diferente de outras figuras míticas e folclóricas, os conceitos dos zumbis não ecoaram por séculos ou milênios de superstições populares. Ao retirar o morto-vivo das aldeias haitianas, Romero repaginou tudo, das regrinhas mais básicas ao contexto social, há somente quatro décadas atrás. Porém, ele também foi deixando uma trilha de questões não resolvidas pelo caminho. Fora o ciclo de contaminação e o ponto fraco dos zumbis, pouco foi descoberto daí em diante. Perguntas do tipo quem são/de onde vieram/pra onde vão, ainda persistem.

É certo que o elemento desconhecido conferiu um charme único às criaturas. Com o tempo, virou parte integrante do cenário, tão importante quanto a análise do comportamento humano em situações de crise e o sangue jorrando com nacos de carne mastigada (slurp). Romero brincou com a curiosidade do público e instigou mais ainda. Já em seu clássico inicial, A Noite dos Mortos-Vivos, ele colocava sobreviventes se afogando num oceano de informações desencontradas - desde radiação trazida por um satélite retornando de Vênus e um vírus transmitido pelo ar até a clássica punição divina: "quando o inferno estiver cheio..."

E assim caminham os mortos-vivos, felizes da vida (ou da morte) com sua origem à francesa. Isso, pelo menos até julho do ano que vem.


"The Living Dead" será o debut de Romero na literatura e vem sendo saudado como o Corão zumbi. Segundo a editora britânica Headline, o livro "contará a história completa dos mortos-vivos: como eles foram criados, o que podem e o que não podem fazer". Tudo começa em San Diego, quando um cadáver levanta durante uma autópsia e começa a andar, enquanto um repórter de Atlanta transmite flashes do caos tomando conta do globo. O editor Vicki Mellor prevê para o próximo ano uma onda de livros com zumbis (em contraponto aos incontáveis livros com vampiros publicados em 2009) e que certamente será encabeçada pelo mestre Romero. Faz sentido, afinal, seria algo como um CliffsNotes para o Necronomicon escrito pelo próprio capeta.

Romero finalmente - ou infelizmente - vai esclarecer a tão misteriosa origem de seus zumbis. Após tantos anos, o mestre vai vender o ouro pelo vil metal ($300.000 só de adiantamento pelo livro e mais uma sequência) e provavelmente não irá superar a expectativa, esse monstro obscuro que ele mesmo alimentou por décadas a fio.

Meu sentimento a respeito é meio dúbio. Lerei, obviamente. Até porquê, já faz algum tempo que minha imaginação implora por algo mais que o (ótimo) Guia de Sobrevivência a Zumbis. Contudo, não estou, nem nunca estarei preparado para tal desmistificação. Não se pode ter tudo, mesmo quando se tem.

Info: The Guardian

terça-feira, 10 de maio de 2005

LAND OF THE ROMERO


Tempos atrás eu achava que George A. Romero seria mais um a figurar naquela longa lista de cineastas visionários, de apelo populista e quase totalmente esquecidos - como Mario Bava, Lucio Fulci, Dario Argento, José Mojica Marins, Abel Ferrara e tantos outros. Seu estilo antevia em algumas décadas vários elementos que viriam a ser reutilizados incansavelmente em produções posteriores, e que transcendiam o mero conceito de horror movie: o reencontro do ser humano com a sua própria natureza selvagem e sendo levado pelas circunstâncias de uma situação-limite, o caos iminente e sempre inesperado que derruba facilmente padrões de civilização milenares tão sólidos quanto um isopor, e eventos extraordinários violentando nosso mundinho seguro com conseqüências dolorosamente realistas. Tudo sob o olhar de uma terceira pessoa, tão atordoada quanto os personagens, o que nos coloca em um estado intrínseco de desespero, incredulidade e desamparo emocional. O equivalente psicológico à um soco na boca do estômago.

Uma das coisas mais legais sobre Romero é que o entendimento da sua arte tem uma fonte inequívoca e definitiva. Talvez seja essa a forma mais simplista de resumir a sua clássica "trilogia living-dead": A Noite dos Mortos-Vivos (1968),O Despertar dos Mortos (1978) e O Dia dos Mortos (1985). Não sei até onde eles foram prejudiciais em sua carreira (e provavelmente foram), mas esses filmes se tornaram referências imediatas não só no gênero terror, mas também de vários aspectos da narrativa cinematográfica. Estão lá a trágica condição humana, a Essência do Mal, ressequida, irreprimível e de origem desconhecida (e algumas centenas de analogias embutidas aí), e o clima de desordem urbana. Romero fazia horror sociológico.

Lembro da primeira vez que assisti A Noite dos Mortos-Vivos... deliciosamente em p&b, o ataque das criaturas lembrava muito um violento conflito de rua, com policiais de um lado e protestantes do outro. Anarquia geral. O clima de perturbação social - caótico por si só - se tornava congelante quando se percebia que um dos lados não era, ou não era mais, humano. A sensação era de que algo deu muito errado e que agora estamos pagando na forma de uma extinção lenta e simbolicamente fúnebre.

Acidente químico, biológico, nuclear? ...Juízo Final? Nunca se soube o motivo, pois Romero nunca revelou. Que continue assim.


Uma das partes mais interessantes do trailer de Land Of The Dead - o novo filme de Romero e que dará seqüência à mitologia estabelecida - é justamente no início, com a breve referência aos filmes anteriores. Totalmente sem redenções (marca registrada e meio cruel de Romero), o "universo living-dead" mostrava a podridão das criaturas se espalhando rapidamente, como se fosse uma pestilência desconhecida e fora de controle. No fim, os monstros tomaram a Terra e os poucos sobreviventes se espremiam em bunkers subterrâneos, tentando entender o caos, tentando encontrar alguma "cura" ou simplesmente tentando salvar a pele - obviamente que só adiavam o inevitável...

Pra quem assistiu aos filmes, ficou subentendido que a Humanidade foi reduzida à uma merreca de leitões prontos pro abate. Pela sinopse divulgada, em Land Of The Dead a situação parece bem mais "confortável". Os sobreviventes saíram dos claustrofóbicos bunkers para se abrigarem em fortalezas e edifícios quase impenetráveis. Entre os novos problemas está o capitalismo selvagem: os abrigos são dominados com mão-de-ferro por empresários ricos e inescrupulosos, enquanto a anarquia reina nas ruas. E a parte mais intrigante: as criaturas estão evoluindo de zumbis em slow-motion para uma "raça mais avançada".

Logo abaixo, em sentido horário: o morto-vivo que parece estar declamando "to be or not to be" tem pinta de ser o líder e já apareceu carregando uma metranca, o que é inusitado em se tratando de Romero; Tom Savini também é zumbi em Land Of The Dead. Veteranaço, ele foi o responsável pelos efeitos especiais e pela maquiagem do clássico O Despertar dos Mortos, além de ter dirigido um remake sensacional de A Noite dos Mortos-Vivos. Mas a nova geração deve conhecê-lo mais pelo seu papel em Um Drink no Inferno, de Robert Rodriguez; a musa dark Asia Argento (filha do Dario Argento, the man) quase servindo de lanche; Asia (olho nessa menina!), Simon Baker e um transeunte lá atrás, se preparando para explodir crânios apodrecidos.



O elenco principal também conta com John Leguizamo, Robert Joy e Dennis Hopper. E para os antenados... Simon Pegg e Edgar Wright fazem uma pequena participação! Eles são, respectivamente, o protagonista e o diretor do excelente Shaun Of The Dead - que Romero adorou, por sinal. Isso cria um curioso link entre influência e influenciados...

Recentemente também foi divulgado o primeiro pôster do filme (o da direita, logo abaixo). Eu achava que o pôster era esse da esquerda, mas pelo visto era só um teaser à Guerra dos Mundos. De qualquer forma, os dois são ótimos. Clique nas imagens para ampliá-las.


Land Of The Dead estréia em 24 de junho, nos EUA. Vou logo avisando: se demorar muito pra chegar aqui, vou fazer download ilegal do filme, roubar celular, carro e bolsa de madame.

Trailer 480x360 (15,5 Mb)


Na trilha: Decade Of Aggression (Live), Slayer

domingo, 2 de maio de 2004

MADRUGADA DOS MORTOS


Zebra post-mortem!! E não é que Madrugada dos Mortos é um puta filmaço de ação/terror? E olha que essa combinação não é lá muito fácil de digerir não. Geralmente resulta em filmes como Resident Evil e Freddy Vs. Jason, que, dadas às devidas peculiaridades, não passam de "tsc, poderia ser melhor". Felizmente, esse sentimento passa longe dos 97 minutos de sangria desatada e bem-sacada.


Uma providencial montagem warp nos situa na história com poucos instantes de projeção. Ana (Sarah Polley, mandando muito bem) é uma enfermeira saindo de seu plantão no hospital, quando "as coisas" começam a ficar esquisitas no pronto-socorro. A garota, cansada, racha fora pra casa, faz uma média com o marido e vai dormir. No meio da madrugada, sua vizinha, já zumbificada, invade seu quarto e dá aquele trato no maridão, que logo acorda cheio de fome também. Ana escapa por pouco, e sai rasgando com seu carro no meio de uma cidade que já se tornou um puro caos.

Rola tudo isso em alguns minutos, e o que vem a seguir é uma melhores seqüências de abertura que já vi. A câmera vai se afastando do carro de Ana, e revela uma cidade completamente tomada pela loucura. A cena é recortada com flashes de noticiário relatando a barbárie que está tomando conta do mundo inteiro. Ao fundo, um Johnny Cash arrepiante, com "The Man Comes Around" anunciando o Apocalipse iminente. Pelo caminho, Ana se junta à alguns poucos sobreviventes, como um policial durão (o durão Ving Rhames). Logo, eles se abrigam em um shopping (quase) abandonado. Daí por diante, é aquele famoso "um por todos e todos por um" se transformando lentamente em "cada um por si e Deus por todos".


Um detalhe interessante do filme, é que os monstros são focados de longe, na maior parte do tempo. Apenas quando eles se aproximam, é que você consegue distinguí-los de humanos normais. Isso dá uma sensação de falsa segurança muito legal. Outra boa novidade é a adição do Sistema Morto-Vivo GTI 2.0 Turbo. Os bicharocos fazem inveja à qualquer triatleta, de tão rápidos. Aqui, a concepção dos monstros é similar aos raivosos de Extermínio: a "epidemia" se espalha através de qualquer ferida que os não-vivos causam nos vivos. Daí, a vítima adoece rapidamente, morre e vira monstro canibal em pouco mais de um minuto. O processo todo é um pouco mais lento que em Extermínio, que era praticamente instantâneo. Ah, e uma convenção instituída por George A. Romero (o criador do filme original) continua lá: um morto-vivo sem cabeça é um morto-vivo morto.


Pra finalizar, os (muitos) méritos da produção têm de ser devidamente repartidos. Sarah Polley (do ótimo Vamos Nessa!) segura o filme todo, mesmo sem precisar, como a frágil e corajosa Ana. Ving Rhames, excelente como sempre, está em casa, explodindo dezenas de cabeças apodrecidas com uma 12 cano serrado. O resto do elenco também está ótimo, mas não dá pra ficar falando, senão eu conto o final.

Outro destaque são as pontas de bambas do terror, como o Tom Savini no papel de xerife-colecionador-de-cabeças-de-mortos-vivos, e Ken Foree (ator do filme original), como um pastor televisivo declamando o clássico "quando o inferno ficar cheio, os mortos caminharão sobre a Terra".

O roteiro de James Gunn é todo muito bem sacado, com algumas poucas falhas e o dobro de acertos, como a amizade (através de cartazes) entre o policial de Rhames e Andy, dono de uma loja de armas, "ilhado" em sua cobertura. Ele também foi esperto ao não tentar explicar o fenômeno. Então, nada de conspirações, produtos químicos ou magia negra por aqui. Melhor assim. O desconhecido sempre foi mais aterrador do que qualquer explicação.


Agora, o diretor Zack Snyder está de parabéns, e não é só pelo nome legal dele não. Mesmo sendo 100% estreante (é ex-clipeiro), ele conseguiu tirar do filme aquela aura de "refilmagem de um clássico", que sempre rola nessas situações. Mesmo com a edição modernosa, cheia de cortes rápidos, ele criou um clima tétrico o suficiente para rechear o terror presente na telona. Chamar esse filme de "refilmagem" seria até diminuí-lo. Não supera o original, mas é divertido bagarai.