Mostrando postagens com marcador DCEU. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador DCEU. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 27 de junho de 2023
O Homem e a Mulher do Amanhã
Deadline anunciou e lá vamos nós: David Corenswet é o novo Superman e Rachel Brosnahan é a nova Lois Lane do DCEU. Na minha canina percepção, surpreendentes escolhas de James Gunn. E muito bem-vindas. Mais uma vez.
Brosnahan protagonizou a deliciosa série The Marvelous Mrs. Maisel e se já era cogitado o próximo grande passo da atriz, não ficaram dúvidas. Essa foi certeira e atualíssima. Só podia ser escalação de quem almoça e janta cultura pop.
Já Corenswet tem uma certa aura de incógnita – como sempre em se tratando do Clark. Meu contato com ele se restringe ao seu trabalho no ótimo Pearl, prequel do eficiente X, ambos de 2022. Bom ator. E de timing afiado. Provavelmente deve estar enfurnado nos DC Archives a esta altura. Espero.
Me parece que Gunn começa com o pé direito. Que Rao os proteja e guarde.
Superman: Legacy está previsto para 11 de julho de 2025.
segunda-feira, 19 de junho de 2023
The Flash
Não deixa de ser irônico como The Flash lida com o colapso de um multiverso ao mesmo tempo em que representa o fim do Snyderverso. Certo, o próximo filme do Aquamomoa vem aí, mas com uma fita de retardatário amarrada no tridente. Definitivamente, é The Flash quem apaga a luz. Amargando a ressaca, a Warner tira algumas lições desse grande e ambicioso projeto fracassado. O DCEU sob direção de James Gunn é a maior prova disso, além de ser um obelisco de esperança com jeitinho de ilustração do Alex Ross — a menos que Parademônios engravatados baguncem o meio de campo, mas aí já é papo para os próximos anos.
Antes de tudo, é preciso reconhecer: o filme de Andy Muschietti é um sobrevivente como poucas vezes se viu na história do cinema. Com pré-produção datando de 2020, os atrasos, já turbinados pela falta de planejamento após a saída de Zack Snyder, quase se converteram em geladeira com o derretimento da imagem pública do Garoto Enxaqueca Ezra Miller, que tentou gabaritar o código penal mais rápido que a velocidade da luz (hã, hã?). Ao menos uns dois crimes sérios da lista já teriam implodido sua carreira/vida e abortado o filme em definitivo, não fossem o zeitgeist confuso desses tempos millennialescos e o orçamento de 220 mi + publicidade aterrorizando os acionistas.
Orçamento bastante inchado numa conta que, ao que tudo indica, não vai fechar. Mas quer saber? The Flash até que merecia um afago das bilheterias.
O filme é divertido. Mas só se você for bem versado na arte de baixar a expectativa (num nível equivalente ao de parar os próprios batimentos cardíacos com a força do pensamento). E, principalmente, se abstrair da profusão acima da média de furos óbvios de roteiro, de furos não tão óbvios de roteiro, de furos dentro da lógica interna, do enxame de piadinhas constrangedoras, da incoerência no uso dos superpoderes, dos excessos do Miller, da corrida do Miller, da presença do Miller e, claro, do CGI tão ruim quanto o da série da Mulher-Hulk. E isso é uma ofensa à mãe de todos os funcionários do departamento de F/X da Warner.
Venham pra cima se tiverem coragem, bundões!
Fiuu. Essa coisa de filme de hominho escala rápido.
The Flash adapta a premissa da saga Flashpoint, escrita por Geoff Johns com arte de Andy Kubert e publicada em 2011. Fazer isso em terra arrasada pós-Snyder e pós-Henry Cavill logo no 1º filme solo do Cruzado Escarlate denota culhões. Ou pura falta de noção mesmo.
Na trama, o Flash Barry Allen volta no tempo para impedir o assassinato de sua mãe. No retorno da viagem, ele encontra uma realidade muito diferente. A pior mudança é uma Terra sem o Superman e na iminência da invasão do General Zod, conforme visto em O Homem de Aço. Para ajudá-lo contra o exército de kryptonianos, o Grão-Vizir da Velocidade conta com a ajuda da sua versão aborrescente daquela realidade, do Batman do Tim Burton e da Supergirl Kara Zor-El.
Difícil acreditar, mas essa concepção de Liguinha improvisada se desenrola de maneira mais orgânica e funcional que a Liga do Joss Whedon e a Liga do Snyder Cut. Quem diria, não era preciso muito. Só coração.
Vale mencionar que a mesma premissa foi executada de forma muito superior na então ótima série do Flash na CW, com direito a Flash Reverso e tudo mais. Fora que Ezra Miller não lustra nem as botas amarelas do Grant Gustin. E aguentar uma versão ainda mais histriônica dele por dois terços do filme foi dose pra Gorila Grodd. Mesmo assim, ele encontra o tom do papel duplo lá pela metade, me lembrando por que achava esse moleque talentoso em primeiro lugar. Foi antes de abarrotarem sua conta bancária com os dólares-DC. Confira Depois da Escola (2008), Jornal dos Predadores (2010) e Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011) e me diga se estou mentindo. Podia ter sido tão melhor...
O Batman redivivo de Michael Keaton, em contrapartida, opera à margem de toda essa bagunça de cronologias, realidades e abordagens. É um dos maiores e melhores fanservices já cometidos por um filme de super-herói. Entrega o que todos querem ver e aumenta as apostas sem desviar um átomo daquilo que ele propôs lá em 1989. É o melhor Batman de todos os tempos? Nunca foi. Está rolando uma distorção revivalista por aí aliada a uma generalizada falta de memória (e reprises) que acho interessante. Mas foi como rever um velho amigo que salvou o dia em sua época e que acaba de salvar mais uma vez. É a grande razão para assistir The Flash. E deixa uma vontade irresistível de ter mais daquilo. Para um fanservice, não há elogio maior.
Só para não passar batido: Sasha Calle está ótima como a sofrida & sexy Supergirl, apesar do zero desenvolvimento. Merecia um lugarzinho ao sol no Gunnverso. E é triste ver Antje Traue e o grande Michael Shannon — respectivamente Faora e Zod — voltando só para bater cartão. Sem falar nos cameos protocolares da Maravilha Gal Gadot, a esta altura alçada a um abajur no DCEU, e do Batman Ben Affleck, usando uma máscara medonha que deve encher a bandidagem gothamita de terror.
O clímax chafurda no anticlímax. Infelizmente, o que era para ser uma grande celebração ao Universo DC no Cinema, se apoiou numa concepção artística feiosa — a tal Cronosfera parece arte de IA debochada — e em bonecos de massinha digital sem a menor vontade de convencer como humanos. Mais uma boa ideia indo pelo ralo. No final, do filme e da cena pós-créditos, fica claro que Muschietti resolveu incendiar a casa antes de apagar a luz. Sentido passa longe. Outra coisa para abstrair, creio.
Mas o que me espanta mesmo é a inépcia do Flash para lapidar seus loops temporais. Tom Cruise em No Limite do Amanhã e Bill Murray em Feitiço do Tempo resolveriam a parada em umas 14 ou 15 campanhas. Passeio no parque...
Tags:
Andy Muschietti,
Batman,
Ben Affleck,
DC,
DCEU,
Ezra Miller,
filmes,
Flash,
Gal Gadot,
Geoff Johns,
Michael Keaton,
Mulher-Maravilha,
Sasha Calle,
Supergirl,
Superman
quarta-feira, 3 de maio de 2023
Os Marvels
Gosto do Shazam de Os Novos 52. Pronto, digitei.
Acho a reformulação de Geoff Johns uma atualizada bem-vinda e auspiciosa para o superguri octogenário de Bill Parker e C.C. Beck. Na busca por uma ponte com a nova geração, algumas mudanças foram até radicais, caso do próprio Billy Batson. Mas, mesmo nelas, a HQ manteve boa parte daquele charme incipiente da Fawcett na Era de Ouro. É um comic na mais pura acepção da palavra (mágica). Então, foi uma boa surpresa ver essa fase servindo de blueprint em Shazam!, de 2019, e também neste Shazam! Fúria dos Deuses. Foi a saída pop para o Capitão Marvel.
A direção é do mesmo David F. Sandberg com roteiro do mesmo Henry Gayden, agora em companhia de Chris Morgan, da franquia Velozes & Furiosos. Em outras palavras, quem não gostou do 1º filme vai gostar menos ainda do 2º. A nova produção tem os mesmos vícios, forçadas de barra e infrações graves às leis da Física. Mas a química do núcleo principal, as referências e a dinâmica de aventurona oitentista valem o ingresso.
Ou o play em sua fonte de preferência, já que Fúria dos Deuses foi um dos maiores fiascos de bilheteria do Universo Estendido DC.
Não merecia. Cheguei a rascunhar uma lista de filmes da DC que são flagrantemente inferiores, como os dois da Mulher-Maravilha, Esquadrão Suicida de 2016, Liga da Justiça, o agregado Adão Negro... mas a lista já estava enorme e alçando o Capitão Fraldinha a um Cidadão Kane de capa e é bem longe disso. O filme é só uma bobagem divertida e pueril para quem precisa de bobagens divertidas e pueris. E o mais importante: se assume como tal.
Note que usei aí minha melhor lábia de Zeca Urubu vendedor de carros usados.
A história segue a deixa do 1º filme, em que Billy repassa aos irmãos adotivos a senha do Wi-Fi para os poderes do Mago Shazam — tecnicamente, os poderes de um panteão de divindades greco-romanas e de uma suposta figura histórica hebraica, canalizados pelo Mago através de seu cajado, o MacGuffin de Fúria dos Deuses. Logo no início, os garotos e garotas aparecem atuando como uma "Shazamília" (ou seria "Família Marvel"?) e sofrendo com a falta de experiência e de espírito de equipe. A opinião pública, claro, não perdoa.
A estrutura é bem Marvel: vida secreta de super-herói, dificuldades de manter o grupo unido, problemas financeiros do lar adotivo, bullying na escola e, no caso de Billy, a iminência da maioridade o obrigando a seguir seu próprio caminho. Em meio a tudo, a chegada das Filhas de Atlas reivindicando os poderes divinos de seu pai que, por acaso, estão com os Marvels... ops, Shazams.
A premissa é um pires, porém o cânone era minimalista por natureza. Em contrapartida, o filme tem nada menos que dez co-protagonistas. Impossível montar algo nivelado e com uma distribuição razoável de diálogos. Zachary Levi, que embolsou 3 milhões e meio de doletas nesta sequência, obviamente monopoliza o tempo de tela. Já Asher Angel, como Billy Batson, teve uma participação ridícula em relação ao 1º. Trabalhou de bandido, o jovem. Neste sentido, o carismático Jack Dylan Grazer, reprisando o papel de Freddy Freeman, é o principal Júnior do filme. Sobra bem pouco para dividir entre os demais.
Para maquiar um pouco as deficiências, Sandberg usa elementos do gênero coming of age. A inspiração são produções como Deu a Louca nos Monstros, Uma Noite de Aventuras, Conta Comigo e até a série Anos Incríveis. O tempo todo Billy usa uma camiseta dos Goonies. O que funciona até certo ponto, já que o assunto principal da trama é outro e, bem, não estamos mais nos anos 1980. Infelizmente.
Pior é o fato dos meninos não serem nem de longe parecidos com suas contrapartes superadultas. Nem na fisionomia, nem no tom das interpretações — incluindo aí o "Capitão Marvel Jr."/Freddy Freeman adulto do Adam Brody (que fazia o nerdão Seth Cohen na novelinha The O.C. há 5 mil anos A.C.). Isso ocorre, literalmente, com os meninos, porque as meninas brilham.
Meagan Good está em sintonia perfeita com a atuação da figurinha Faithe Herman no papel da simpática Darla. E a Mary Bromfield de Grace Caroline Currey (de A Queda) simplesmente veste o traje de super-heroína, me deixando com uma certeza: Grace é uma graça.
Com isso, ela também gera um rombo na parte do roteiro sobre "identidades secretas". Quer saber? Tô nem aí. Quero um filme solo da Mary Marvel.
Um pecado foi submeter Lucy Liu e a maravilhosa Helen Mirren — as vilãs Kalypso e Hespera, respectivamente — a um figurino que parece sobra de produção dos Power Rangers. Mesmo assim, Dame Mirren parece à vontade e entrega 0.000½ de seu talento, o que, comparada ao resto do elenco, equivale a uma supernova dramática. Já Lucy Liu só bate ponto e está absolutamente canastrona, atuando como se estivesse tentando lembrar se deixou a torneira aberta em casa.
A presença de ambas só reforça a nova realidade do mainstream hollywoodiano. Cedo ou tarde, todos trabalharão numa adaptação de quadrinhos. O que deve tirar o sono do Martin Scorsese.
Um ponto bastante positivo foi o retorno de Djimon Hounsou como o Mago. Os bate-bolas dele com o Freddy são espirituosos e algo atrapalhados, no bom sentido. E, em dado momento, o Shazam Sênior praticamente repete o visual do Papa Meia-Noite, personagem de Hounsou em Constantine. Pagaria para ver esse crossover.
Na boa sequência em que a cidade é atacada por Ciclopes, Minotauros, Manticoras e Harpias (que tanto queria ter visto nos longas da Maravilha) é impossível não lembrar dos deliciosos clássicos com a mão de Ray Harryhausen, como Fúria de Titãs, Jasão e os Argonautas e a série de filmes do Simbad. E também evidenciou algo que já acontecia desde os primeiros minutos — morre gente para um caralho nesse filme. Inclusive como resultado direto das ações dos heróis. É algo no nível "precisamos de um recordatório do Mark Millar aqui!"
Parece que alguém na Warner mandou largar mão do PG-13 que depois ele resolvia com os censores. Geoff Johns, foi tu, meu filho?
No final, apesar dos tropeços, a experiência foi deveras satisfatória. Certo que assistirei outras vezes. Talvez n'alguma Temperatura Máxima com aquela moqueca, muita pimenta, cerveja trincando no bucho e um joguinho do Galo ou da Lusa na sequência.
Quanto ao nome do herói e as opções à pegadinha óbvia com a sua transformação, para mim, não há dúvidas...
O Billy Batson dos anos 70 é que sabe das coisas.
Ps: quando moleque, queria muito dar uma surra nesse cara.
Pps: tem duas cenas pós-créditos, bobas, esquecíveis e caras de mamão. Mas eu ri.
Tags:
Adam Brody,
Capitão Marvel,
David F. Sandberg,
DC,
DCEU,
Djimon Hounsou,
filmes,
Geoff Johns,
Grace Caroline Currey,
Helen Mirren,
Lucy Liu,
Mary Marvel,
Meagan Good,
Os Novos 52,
quadrinhos,
Shazam,
Zachary Levi
sábado, 4 de março de 2023
"I've seen the future and it will be Batman..."
Não assisti ao Batman de Tim Burton no cinema. Na época, só estudava. A grana pingava (até hoje). Consegui ir ver apenas Batman: O Retorno, três anos depois. Mesmo caso de RoboCop 2, O Exterminador do Futuro 2 e As Tartarugas Ninja II - O Segredo do Ooze. Mas o hype gigantesco do filme original foi incomparável. Aliás, hype não: zeitgeist.
Começava ali um novo modo de enxergar o gênero dos super-heróis e de levar isso até o público neófito. Aquele, que responde pela maioria esmagadora da espécie humana. Foi um longo processo que começou com Dennis O'Neil, Frank Miller e Alan Moore, lá nas HQs mesmo — tudo isso foi destrinchado com mais propriedade no blog do Sadovski.
O fato é que sempre achei milhões de vezes mais interessante observar o impacto disso no público não iniciado do que em fanboys como o rapaz na miniatura do vídeo. E como objeto de estudo, Batman dificilmente será equiparado. Ninguém nunca havia visto nada sequer parecido antes. A excitação geral era evidente em cada olhar, até mesmo em estrelas e veteranos de cinema, acostumados com o deslumbre massivo da indústria. Foi um legítimo fenômeno pop cultural.
Sábias palavras do Prince. 1989 ainda não acabou...
Tags:
80's,
Batman,
cinema,
Coringa,
DC,
DCEU,
Jack Nicholson,
Kim Basinger,
Michael Keaton,
Prince,
quadrinhos,
Tim Burton,
TV
domingo, 12 de fevereiro de 2023
The Trailer
Certeza de um mero Ezra-trailer? Não tão rápido...
É seguro afirmar que o restolho do Snyderverse está aí. A raspa da raspa da raspa do tacho. E não há razão nenhuma que justifique uma continuidade daquilo. Removido o elefante Do-you-bleed da sala, e aí sim veio a surpresa, o trailer me fez esquecer em tempo recorde as merdas que o Ezra Miller tem aprontado nos últimos anos.
A prévia é sensacional. E empolgante. E, Grande Júpiter, visionária ao mostrar numa curta janela o quão grandioso, diverso e fascinante o Universo Cinematográfico da DC poderia ter sido se desenvolvido com bom senso.
Até mesmo as inserções de cenas de produções tão díspares quanto as de O Homem de Aço e do Batman de Christopher Nolan soam promissoras em tela — seguindo, claro, a fórmula Vingadores: Ultimato de autorrevisionismo. O mesmo para estreia da Supergirl Sasha Calle, tão criticada antes mesmo de estrear em tela.
Mas, acima de tudo, o grande trunfo é Michael Keaton envergando o manto do Batman uma vez mais. A frase clássica nunca soou tão bacana...
É seguro afirmar que o restolho do Snyderverse está aí. A raspa da raspa da raspa do tacho. E não há razão nenhuma que justifique uma continuidade daquilo. Removido o elefante Do-you-bleed da sala, e aí sim veio a surpresa, o trailer me fez esquecer em tempo recorde as merdas que o Ezra Miller tem aprontado nos últimos anos.
A prévia é sensacional. E empolgante. E, Grande Júpiter, visionária ao mostrar numa curta janela o quão grandioso, diverso e fascinante o Universo Cinematográfico da DC poderia ter sido se desenvolvido com bom senso.
Até mesmo as inserções de cenas de produções tão díspares quanto as de O Homem de Aço e do Batman de Christopher Nolan soam promissoras em tela — seguindo, claro, a fórmula Vingadores: Ultimato de autorrevisionismo. O mesmo para estreia da Supergirl Sasha Calle, tão criticada antes mesmo de estrear em tela.
Mas, acima de tudo, o grande trunfo é Michael Keaton envergando o manto do Batman uma vez mais. A frase clássica nunca soou tão bacana...
Tags:
Batman,
Christopher Nolan,
cinema,
DC,
DCEU,
Ezra Miller,
Flash,
General Zod,
Michael Keaton,
Sasha Calle,
Supergirl,
Superman,
trailers,
Zack Snyder
segunda-feira, 19 de dezembro de 2022
S de Sacanagemquefizeramcomigo
O Snyderverso não vale um copo de cachaça, mas é inegável que haviam elementos certeiros no meio da tralha. Henry Cavill, cansei de falar pra ninguém, é o Superman perfeito que nunca foi — e que, agora sabemos, nunca será. A bolada nas costas que a Warner deu no rapaz (que dropou série de cult following garantido) foi um dos maiores exemplos de como as coisas funcionam nos meios corporativos de Hollywood.
Como ironia final, os três segundos de Cavill na cena pós-créditos de Adão Negro me pareceu "apenas" o melhor Super desde o Christopher Reeve. Dava pra ver que a atitude estava lá. Inclusive atitude-JLU, se me permite o exagero.
Ao menos, é ponto pacífico que o James Gunn conhece do riscado. Aliás, é um dos únicos caras na indústria hoje aptos a encabeçar a reestruturação do DCEU — que já perdeu seguidas oportunidades de protagonismo durante a apagadíssima Fase 4 do Marvel Studios.
Em sua coluna no UOL, o Roberto Sadovski destrinchou com propriedade esse cenário de terra arrasada. Ou de crise infinita...
Tags:
Adão Negro,
Aquaman,
Batman,
Ben Affleck,
cinema,
DC,
DCEU,
Dwayne Johnson,
Flash,
Gal Gadot,
Henry Cavill,
James Gunn,
Jason Momoa,
Mulher-Maravilha,
quadrinhos,
Roberto Sadovski,
Shazam,
Superman,
Zack Snyder
sábado, 16 de outubro de 2021
Bat(man) Out of Hell
Sem dúvida, um trailer que fala por si só. Valeu a DC Fandome de hoje.
Há doze anos não fico tão empolgado com o Morcego nas telonas.
Há doze anos não fico tão empolgado com o Morcego nas telonas.
terça-feira, 10 de agosto de 2021
Esquadrão Classe S
Alguns destes personagens irão morrer até o final da história. Não se apegue!
Na época do 1º filme do Capitão América, pensei como seria bacana um longa com as missões do Comando Selvagem na 2ª Guerra —cheguei até a divagar algo assim no texto. A inspiração imediata seriam os velhos clássicos de aventura de guerra como Os Doze Condenados, Os Canhões de Navarone e Desafio das Águias. Ou seja, um bando de dead men walking atirado no olho do furacão para defender o mundo livre. Por aí se vê que o conceito básico por trás do Esquadrão Suicida não é original, tampouco recente. A própria gênese do grupo criado por Robert Kanigher e Ross Andru e depois "remasterizado" por John Ostrander já remonta aos marcos deste subgênero.
Parecia simples, mas em 2016 veio Esquadrão Suicida de David Ayer, que se embolou todo e foi um flop maior que o do Flamengo na última rodada. Já com O Esquadrão Suicida de James Gunn a história é bem diferente. Ainda que seja a mesma história.
O The Esquadrão é muito mais divertido e empolgante que seu predecessor (o que não é difícil). Esperto, Gunn teve a sacada de que negar o direito do Esquadrão Suicida ser suicida é abrir mão da argamassa que segura o conjunto, com todo o gore, putarias e insanidades que o compõe. E que, provavelmente, foi a não sacada disso que levou a Warner a cometer a pasmaceira do anterior. E que, provavelmente², Ayer tem mesmo uma carta na manga quando acusa o estúdio de ter metido o bedelho na produção e que há um Ayer Cut vingador à espera de uma versão de 4 horas em formato IMAX. Começa abrindo uma conta no Vero, Ayer.
Esse abraço apaixonado na essência do Esquadrão também se estende à parte ridícula dos quadrinhos de super-heróis —se você acha que Wolverine de cinema tem que ter chifres e colante amarelo, tem boas chances de ficar feliz com o filme. O Esquadrão Suicida traz alguns dos maiores fanservices visuais já cometidos em adaptações de gibis. Dos uniformes aos poderes, tudo é explosivamente colorido, extravagante e heterodoxo, sem medo assumir o carnaval quadrinhístico e de ser feliz bizarro. A mesma sensação mesmerizante que tive na época da Liga da Justiça Sem Limites quando a retina fritava com os zilhões de cores dos novos super-heróis e supervilões.
E aqui finalmente chegamos à Terra
Na traminha, a Força-Tarefa X é enviada até a ilha de Corto Maltese (Hugo Pratt's rights reserved?) para destruir uma base científica comprometedora para os EUA. E pronto. O que importa é a jornada e, no caso, também a companhia.
Mesmo sendo de conhecimento geral que, neste ponto da História da Humanidade, a Arlequina da deusa crocante Margot Robbie é imorrível e imatável, é complicado comentar sobre os integrantes do Esquadrão sem incorrer num spoiler cara-de-mamão. Mas dá pra traçar umas considerações vagas de boteco.
Rick Flag não era um problema no 1º e continua bem representado pelo Joel Kinnaman como o cara que comanda seguindo o manual, mas com algum senso de justiça pessoal. Idris Elba é capaz de qualquer coisa neste mundo e encarnar o Sanguinário é algo como pedir pra ele respirar. O alardeado Pacificador do wrestler good boy John Cena tem algumas boas tiradas reservadas pelo roteiro, mas sempre esbarrando no curto alcance interpretativo do maromba. De todo modo, o molde do soldado americano ultrapatriótico/cuzão (tenho a revistinha) está lá e a canastrice Cênica até joga um tempero em cima. Dessa forma, Gunn enfileira nada menos que três peões machos-alfa na linha de frente —um dia no escritório para a geração que cresceu assistindo Predador, mas uma horrível morte por overdose de testosterona para os millennials (devidamente zoados no filme). E claro que isso também rende diálogos/disputas ótimas entre os brucutus.
E eis que aqui temos a mais bem escrita Arlequina da filmografia DC (a Quinzel da Mia Sara não conta: Mia Sara é entidade). Divertida, doida e cativante em partes iguais. E com ótimas cenas —me deu um puta susto na hora daquele tiro. Mesmo com a sequência-de-pancadaria-solo/obrigação-contratual, finalmente acertaram o tom. A Robbie merece. E louvável o fato dela ter uma cena de sexo num filme que já conta com tórridas cenas de nudez.
O que me leva à Caça-Ratos 2... que codinome maravilhoso. Mais maravilhoso ainda é o fato de manterem assim. Ainda que a vibe mellow yellow e introspectiva da portuguesinha Daniela Melchior destoe dos demais, ela serve como um contraponto de humanização em meio a tanta casca-grossice. Também foi espirituoso o cameo de Taika Waititi como seu pai, o Caça-Ratos original, numa belíssima cena que me lembrou A Cidade das Crianças Perdidas, do Jeunet. Mas nada que roube o brilho do "momento fraterno" entre o Sanguinário e sua filha Tyla, quando esta o visita na prisão. Sinceramente, depois daquele diálogo-trocação inacreditável entre Elba e a guria Storm Reid, a parada já estava ganha. E já torço por um filme só com esses dois.
Já David Dastmalchian passeia como o simplório Bolinha (pai e mãe do Speedball, da Marvel), surpreendentemente funcional em ação e com momentos impagáveis. E claro que não se pode esperar grandes arroubos dramáticos de um personagem como Nanaue, o Tubarão-Rei, além da ironia-mor que é a escalação de Sylvester Stallone para a voz. Valeu pela sanguinolência em profusão.
Alice Braga, nossa brasileira titular em Hollywood, também comparece como a líder de um grupo revolucionário de Corto Maltese. E, como sempre, atua demais em um filme onde isso não é tão necessário e nem recomendável. Deve ser mal de família.
Gostei da maioria das piadas —a do figurante Milton foi uma das melhores, já que me perguntava mesmo de onde tinha saído aquele sujeito. E o ato final, com Starro, o Conquistador fecha com chave de ouro. Impossível não lembrar da icônica cena do Stay Puft. Ao meu ver, foi homenagem até.
De ruim, são as partes que remetem ao primeiro: o momento-melô em que os integrantes do Esquadrão se veem como família (mas já?) e a trilha sonora metida a cool o tempo inteiro. Há tempos o Gunn anda precisando segurar a periquita nesse sentido. Também esperava mais do Pensador do Peter Capaldi, engessado como MacGuffin na maior parte do filme. E a Amanda Waller da espetacular Viola Davis precisa urgentemente de um filme solo. Nos arquivos DC existem premissas às baciadas para isso, todas com potencial para filmaços.
O Esquadrão Suicida é uma daquelas raras retomadas que cumprem seu objetivo como filme autocontido, como filme-franquia e como filme-pipoca. E nessa altura do acidentado DCEU, isso é como transformar o Mar Vermelho em Heineken.
Além disso, onde mais teríamos a chance de ver O Cara Desacoplável em ação?
Ps: atenção para as ceninhas pré e pós-créditos.
Tags:
Amanda Waller,
Arlequina,
Daniela Melchior,
David Dastmalchian,
DC,
DCEU,
Esquadrão Suicida,
filmes,
Idris Elba,
James Gunn,
John Cena,
Margot Robbie,
Pacificador,
Peter Capaldi,
quadrinhos,
Viola Davis
Na época da National Allied e da Timely é que era bom
O nó nas tripas do 5&20 não deve desatar tão cedo. Afinal, esse é o modus operandi das duas grandes desde sempre. Que o digam as famílias Siegel, Finger e Kirby. Até o caso Scarlett Johansson, ainda que orbitando outra esfera, ilustra à perfeição as constatações do ótimo artigo do Guardian.
Esse trecho é lapidar:
"Starlin negociou um pagamento maior depois de argumentar que a Marvel o pagou mal por usar Thanos como o grande vilão do MCU. O prolífico escritor da Marvel, Roy Thomas, teve seu nome adicionado aos créditos da série Loki da Disney + depois que seu agente fez barulho. Mas esses são os criadores que a Marvel precisa manter felizes; as coisas podem ser muito diferentes se ninguém liga quando você reclama."
Movimentar bilhões de dólares e fazer vista grossa para os criadores usando a velha malandragem do "vai que cola." Tive chefes que faziam isso com troco de padaria e já achava o cúmulo da avareza.
Dizer o quê? "'Nuff said"?
Tags:
Bill Finger,
Bill Sienkiewicz,
cinema,
DC,
DCEU,
Disney+,
Jack Kirby,
Jerry Siegel,
Jim Starlin,
Marvel,
quadrinhos,
Roy Thomas,
Scarlett Johansson
sexta-feira, 26 de março de 2021
...And Justice League for All
Todo cuidado é pouco com o que é dito hoje em dia. As ideias mais absurdas podem escapar do picadeiro e virar realidade numa escalada atordoante. Tem nego virando presidente desse jeito. E foi assim com Zack Snyder's Justice League, o outrora mítico Snyder Cut. O ponto zero foi quando os fãs de sua filmografia à frente das produções DC, inconformados com o Josstice League, viralizaram a famosa hashtag. Em seguida, o diretor começou a jogar verde em sua conta no Vero. O "Team Snyder" ganhou corpo quando Jason Momoa, Gal Gadot e até Ben Affleck retuitaram em coro. Da noite pro dia, o Snyder Cut ganhou contornos de Snyder Cult. Mas foi com Ray Fisher desancando Joss Whedon em praça pública que o processo deu aquela turbinada. O filme virou algo a ser visto (assim como alguns bocós a serem eleitos) para finalmente esfregar na cara desse mundo ingrato o que ele perdeu.
Claro que a Warner já havia endossado a recauchutagem da produção há mais tempo que isso. Afinal, rolou ali uma aditivada de 70 milhões de doletas e, até onde sei, o Coringa do Heath Ledger não inspirou nenhum acionista da empresa a queimar montanhas de grana. Pode crer que antes de qualquer anúncio muitas horas de PowerPoint rolaram no financeiro.
Findos os trâmites burocráticos e conferido o resultado, arram, originado na HBO Max, o novo Liga da Justiça atropela a 1ª versão (o que convenhamos, não é mérito algum). É, fácil, o melhor filme do Zack Snyder no DCEU - considerando que Watchmen não pertence ao segmento.
Mas, de novo, é filme de autor. E esse autor é Zack Snyder.
(Pensando bem, até o cinema do Michael Bay é "cinema de autor". E nem precisamos do nome dele estourando retinas no título para reconhecer o istáile)
Sob sua administração, o termo "Snyderverse" é bem mais acurado que "DCEU". É o extremo oposto do padrão de adaptações proposto pelo Guillermo del Toro de tempos idos e que deveria ter sido canonizado e tombado como patrimônio pop cultural obrigatório.
Talento nunca foi o problema: ainda acho bacanudos o Dawn of the Dead hardcore, a rinha de corujas de A Lenda dos Guardiões, o capa & espada YMCA de 300, o citado Watchmen sem lula alien fake e, provavelmente sua mais elegante e visionária obra que um dia uma raça superior descobrirá e dará o devido reconhecimento, o videoclipe de quase duas horas Sucker Punch.
Sem contar os superpunchs do caótico Homem de Aço, provando que o negócio do Zeca é a (troc)ação.
A dorsal da história, co-escrita por Snyder, Chris Terrível... opa, Terrio e Will Beall, permanece intocada: é a mesma disputa dos heróis pela posse das Caixas Maternas contra as investidas do representante Lobo das Estepes, louco para limpar sua barra com o gerente Darkseid lá na matriz Apokolips. Se o conteúdo segue sem alterações em relação à Liga 2017, a forma é bem diferente.
Apesar da resolução em 4:3 para assistir na Admiral da sua vó (vai dizer que acreditou que era pro IMAX) e da divisão das 4 horas do filme em 6 capítulos revelarem a fina habilidade do diretor de lamber sua própria caceta em rede mundial, é verdade que ao menos 40% dessa pretensão é convertida em relevância na tela. Todos os personagens ganharam mais fluidez, desenvolvimento e contextualização, para mais (Cyborg) ou para menos (Aquaman). De fato, Vic Stone é quem mais se aproxima de algum protagonismo, mas não chega a guiar o espectador pela trama, como qualquer roteiro mais malandro faria. Ajudaria uma grandeza se Ray Fisher fosse melhor ator.
Já o Superman é o verdadeiro MacGuffin dos 5/6 iniciais do filme (vixe). Teve mais tempo para reviver, fazer um amistoso do time do sem-camisa contra o time dos superamigos, curar a ressaca-monstro e juntar os cacos de memória nos bucólicos cafundós do Kansas com uma terapia intensiva de cafunés de Lois Lane e de sua mãe Salve Martha. Insípido toda vida no papel, Henry Cavill encarna aqui o Azulão (ou seria Escurão?) em sua melhor versão do que é, sem nunca ter sido.
A Mulher-Maravilha, por sua vez, teve poucas e pontuais alterações. Foram para a lixeira o infame papai-e-mamãe com o Flash e os seguidos closes na bunda da Gadot presentes no Gross Joss Cut. Mesma coisa com o Batman - não o bundalelê, infelizmente. Não sei se foi pelo bate-bola extra com o Alfred do genial Jeremy Irons, mas parece que Affleck está genuinamente à vontade e se divertindo com o personagem, pela 1ª vez. E desejar isso pra alguém vestido de Batman é pedir o mínimo, pela sua própria sanidade mental.
Difícil mesmo é fazer algo que salve o Flash do Ezra Miller, que, quando não está esganando moçoilas islandesas, mostra como não se corre em frente a uma câmera. Tem duas boas tentativas: o salvamento de sua futura namorada Iris de um acidente de trânsito, numa sequência melosa, esquisita (ah, aquela salsicha) e interminável; e mais ao final, num momento que remete brevemente à icônica cena de sacrifício do Barry Allen em Crise nas Infinitas Terras. Melhora um pouquinho a impressão geral. É só não lembrar da tranqueira que é aquele uniforme. Ih, é mesmo. Tsc, aaah...
Preciso confessar que curto o Aquaman Czarniano e achei acertada a manutenção dos diálogos-ponte com seu filme solo. Até dá pra fazer vista grossa para o skysurfing usando um parademônio como prancha. O que não dá pra passar batido é o visual do Cyborg, que continua um Megatron(bolho) altamente distrativo no pior sentido. Tanto que o personagem fica muito mais interessante e cativante quando é autoprojetado de corpo inteiro em ambientes virtuais, numa boa sacada conceitual do diretor.
E realmente não precisava da ceninha "olha o Homem de Ferro aprendendo a voar em 2008". Toma vergonha, Snyder.
Se a edição mandou todas as bobagens do Whedon pra ponte que caiu, muita coisa do próprio Snyder podia ter ido também. A estreia de J'onn J'onnz, o "Martian Manhunter" (hmm...), esculhamba completamente o único momento em que Snyder consegue ser emocional sem ser brega. Surreal. A sequência inteira do resgate dos cientistas nos subterrâneos de Gotham é bem fraca, especialmente a cena em ultramegapowerslow motion do Flash ajudando Diana a alcançar sua espada durante uma queda (para... literalmente... nada!), a parte em que os heróis correm um sério risco de morrer afogados e o pavoroso batveículo Nightcrawler (prefiro o Kurt Wagner), tão viável e eficiente quanto os veículos do desenho do He-Man. Desculpa aí, Tanque de Ataque, tu era gente boa.
Claro que não podia deixar de mencionar outro TOC Snyderiano: as músicas. Tem que ter, claro, mas não precisa ser uma jukebox. A escolha dos temas sincronizada com as cenas soa tão expositiva quanto um recordatório do Chris Claremont – mais ainda, porque os caras estão literalmente falando o que está acontecendo... Nick Cave cantando "há um reino, há um rei" enquanto Aquaman caminha num píer é o cúmulo da obviedade. E, numa menção desonrosa, enche o saco a voz feminina cantando ao fundo toda vez que a Mulher-Maravilha resolve partir pra porrada.
Mas também tem coisas legais, como as mulheres do vilarejo cantando enquanto Aquaman retorna ao mar, demonstrando o nível da reverência e da adoração daquele povoado pela figura do relutante monarca. Boa.
Por fim, as cenas com a família russa foram sabiamente limadas e o ato final foi reformulado como um bloco mais coeso e focado. A luta decisiva contra Lobo das Estepes (que ganhou um tapinha no CGI) não chega a ser ruim, mas fica a dever. Ainda mais em comparação com sua eletrizante campanha em Themyscira. E a introdução de Darkseid – com visual quase OK e tronco emborcado – ficou surpreendentemente climática e bem elaborada, arrematando com a cena arrepiante do vilão e os heróis se encarando em silêncio através do portal. É a vitória do "menos é mais" sob condições adversas.
Porém, como uma espécie de assinatura artística do diretor, ele mesmo decide contrabalancear a boa impressão com os epílogos mais prolixos do universo conhecido. Dá pra entender a piscadela para uma incerta continuidade no encontro entre LeLex Luthor e Exterminador. O que não dá pra entender é a fixação no Coringa faz-de-conta do Jared Leto chegando a tal ponto que rende a cena mais constrangedora do ano (sim, eu sei que ainda estamos em março). Quer Coringa, Batman, Liga e o Superman boladão num cenário pós-apocalíptico, reveja o cinemático do DC Universe Online. E desapega de vez.
O que realmente impressiona nesse Liga da Justiça é a rara (raríssima) oportunidade de correção histórica dentro do cinema blockbuster. Mesmo com os vários problemas e idiossincrasias, Zack Snyder entrega um bom filme da superequipe mais emblemática dos quadrinhos – também, só me faltava passar uma tarde inteira assistindo um filme meia-boca ou, pior, um novo Batman v Superman. Mais legal ainda é ele ter tido essa chance, por todas as dificuldades pessoais e públicas inimagináveis que atravessou nos últimos anos.
Um pouco de justiça poética, pra variar.
Tags:
Batman,
Ben Affleck,
ciborgues,
Cyborg,
Darkseid,
DC,
DCEU,
Ezra Miller,
filmes,
Flash,
Gal Gadot,
Henry Cavill,
J'onn J'onzz,
Liga da Justiça,
Lobo das Estepes,
Mulher-Maravilha,
quadrinhos,
Superman,
Zack Snyder
domingo, 14 de fevereiro de 2021
Vocês sangram?
Vão sangrar.
Então está aí a realidade do Justice League's Snyder Cut. Ao menos o cabra não é de deixar assuntos pendentes. E só precisou levantar 70 milhões de doletas na moralzinha.
Kneel before Zack, Michael Bay.
Então está aí a realidade do Justice League's Snyder Cut. Ao menos o cabra não é de deixar assuntos pendentes. E só precisou levantar 70 milhões de doletas na moralzinha.
Kneel before Zack, Michael Bay.
Tags:
Batman,
Ben Affleck,
cinema,
Darkseid,
DC,
DCEU,
Flash,
ha ha!,
Henry Cavill,
Liga da Justiça,
Mulher-Maravilha,
quadrinhos,
Superman,
trailers,
Zack Snyder
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
Vem aí o Capitão Fraldinha!
Sempre curti o Universo Fawcett e a pegada nonsense e anacrônica de suas aventuras. Já até contei que um dos meus primeiros gibis foi justamente um do Capitão Marvel (que Shazam o quê, pô). Inclusive perdi as contas dos daydreamings à base de Batson versus Clark live-action em filas e engarrafamentos que já não mereciam minha presença física, quanto mais sensorial.
Mas para mim, a imagem vazada ontem, mesmo em ângulo ruim, fala por si só. Existem coisas que realmente não deveriam sair do papel.
O ponto a favor é o diretor David F. Sandberg. O mesmo do Lights Out curta e do Lights Out longa, que me divertiram horrores, até porquê eram histórias de horror. E mesmo assim o pessoal já andou puxando a orelha do sueco.
Seja como for, e mesmo com cor de tomate e framboesa no uniforme, o resultado disso só sai em abril de 2019.
Que o Mago Shazam nos proteja.
Atualização 9/3:
Parece que minha opinião disse "Shazam!" e ficou tão bombada quanto o Chuck.
sábado, 25 de março de 2017
Trailer Clube dos Cinco
O pen drive do Lex foi descompactado. Seja como for ou como vier, um 1º blockbuster da Liga da Justiça é um evento histórico. Ponto.
E toma trailer.
Esse é talvez o último grande bastião a ser derrubado. Lembra como há uns vinte anos (logo ali) qualquer coisa envolvendo super-poderes parecia impossível na telona? Pelo menos não sem soar camp e datado. E acho mesmo que os créditos de criação de toda a estética e cinematografia que tornaram isso possível deveriam ir para Alex Proyas e Stephen Norrington, respectivamente. Mas esse assunto fica pra próxima.
Sinto uma obrigação cívica de prestigiar a estreia da Liga no cinema, mesmo que os rumos do universo cinematográfico da DC pelas mãos de Zack Snyder sejam pra mim um desastre de proporções apokolípticas. E desconfio que estou sendo mais cerimonioso em relação à importância histórica desse longa do que a própria Warner, mas vamos lá...
Rápido e rasteiro:
Trailer é igual displayzinho de McLanche - uma peça publicitária que dificilmente vende o produto de maneira fiel. Mas esse, por priorizar o aspecto diversão da experiência, se sai bem. E dessa forma deixa a espera pelo relaunch do UDC nos cinemas um pouco mais suportável.
E toma trailer.
Esse é talvez o último grande bastião a ser derrubado. Lembra como há uns vinte anos (logo ali) qualquer coisa envolvendo super-poderes parecia impossível na telona? Pelo menos não sem soar camp e datado. E acho mesmo que os créditos de criação de toda a estética e cinematografia que tornaram isso possível deveriam ir para Alex Proyas e Stephen Norrington, respectivamente. Mas esse assunto fica pra próxima.
Sinto uma obrigação cívica de prestigiar a estreia da Liga no cinema, mesmo que os rumos do universo cinematográfico da DC pelas mãos de Zack Snyder sejam pra mim um desastre de proporções apokolípticas. E desconfio que estou sendo mais cerimonioso em relação à importância histórica desse longa do que a própria Warner, mas vamos lá...
Rápido e rasteiro:
- Ao exemplo das campanhas do filme do Esquadrão Suicida, a prévia vende um pacotão de 2 horas e pouco de aventura/ação modernosa, frenética e com doses de humor mais generosas que o padrão até aqui;
- O uniforme do Flash é uma tralha, mas o efeito do arranque é ótimo e diferente até da versão televisiva;
- Cyborg... meu São Steve Austin, que geringonça... CGI pavoroso (isso tem que melhorar) e uma concepção lamentável baseada nos Novos 52 e, sei lá, nos Bayformers?.. e ainda voando (!) igual ao Homem de Ferro;
- Há algo muito mal-resolvido no Bat-Affleck, como se ele ainda estivesse bastante desconfortável no personagem... não soa como se estivesse satisfeito com seu próprio Bruce Wayne ou que tenha se acertado com a armadura de dezessete toneladas - mas, veterano, não compromete tampouco;
- A Mulher-Maravilha da ex-incógnita Gal Gadot brilha a cada aparição e periga valer o ingresso sozinha...;
- ...tal qual o Arthur Curry/Aquaman do Jason Momoa, entre o fanfarrão e o ameaçador num timing bacana;
- Ao malocarem o vilão principal ou o Superman fica óbvio que esses elementos serão importantes, quiçá os MacGuffins da trama... quer me enganar, me dá bala.
Trailer é igual displayzinho de McLanche - uma peça publicitária que dificilmente vende o produto de maneira fiel. Mas esse, por priorizar o aspecto diversão da experiência, se sai bem. E dessa forma deixa a espera pelo relaunch do UDC nos cinemas um pouco mais suportável.
quarta-feira, 18 de março de 2015
Supergirl next door
E chegamos à Melissa Benoist como a nova Supergirl. Minha 1ª impressão, igual à de todo mundo. Bonitinha, mas... de uma certa inadequação. Não sei bem por que, mas soa algo paródico. Parece atriz de sitcom sem claque fazendo cosplay de Supergirl para algum episódio nerd. Fosse Alison Brie, Tina Fey ou Anna Chlumsky provavelmente eu teria a mesma sensação. Laura Vandervoort, com trajes mínimos e umbiguinho de fora, transmitia mais seriedade, mais intensidade no olhar.
Mas se a adaptação for alternativa e a proposta for uma Supergirl leve e jovial, de uma ingenuidade Pollyanna, à Mary Marvel... é exatamente isso que as imagens me transmitem. Golaço. Como casar isso com um bg sci-fi trágico e wagneriano são outros quinhentos...
Da atriz propriamente dita, não tenho do que reclamar. Em Whiplash: Em Busca da Perfeição, ela mostrou que manda bem no drama. E na 1ª temporada de Homeland mostrou que manda bem também em outros departamentos. Além do jeitinho de vizinha adorável que todo mundo gostaria de ter.
Nos quadrinhos, sempre que vejo a Supergirl, vejo uma oportunidade perdida. Com exceção dos formatinhos pré-Crise publicados pela EBAL e pela Abril, onde ela agia como uma irmã mais velha e superprotetora do Azulão e, claro, da nossa essencial Supergirl da Terra-2, o maior contato que tive com a personagem foi relativamente recente, na revista do Superman pré-Novos 52. O gibi da Panini funcionava como um point kryptoniano e as histórias da Supergirl vinham no mix como um brinde ruim.
Eu lia aqueles roteiros pavorosos e não conseguia parar de pensar no desperdício. Quer dizer, o sujeito tem nas mãos uma personagem com a origem e os poderes do Superman e nem 1/10 das amarras editoriais. O céu seria o limite. Nessas horas é que costumam surgir os novos Ellis, Millars e Morrisons. Mas a cada ideia tosca que aparecia, um fantasma doppelgänger do Alan Moore sussurrava no meu ouvido a velha máxima do "não existe personagem ruim".
Os recursos narrativos são infindos. Os mais batidos: sua adaptação à Terra - eterna enquanto for divertida - e o fato de ser um raro personagem (arram, descontando a população da cidade de Kandor e o contingente-jumbo da Zona Fantasma) que realmente viveu em Krypton e guarda memórias ainda vívidas dele. E o trauma de tê-lo perdido, junto com toda a sua vida lá.
Esse drama, pesadão aliás, rendeu bem em Smallville. Ora, se a Laura Vandinha, que não é nenhuma Bette Davis, soube aproveitar, então a Melissa tem obrigação de sambar em cima dessa premissa. Só resta mesmo saber o que disso tudo vai pra tela. Ou se nada.
Bônus de cima pra baixo:
* Helen Slater como a mãe adotiva é uma bela supresa pra quem babava por ela quando guri e não perdia as reprises de Supergirl e A Lenda de Billie Jean (presente!);
* Dean Cain, o Super-Hombre latino, fazendo o pai adotivo parece interessante e não mais - preferia se a Slater fizesse casal com a Teri Hatcher;
* Jimmy Olsen negão, sinto muito, defensores de cotas, mas não é assim que se faz. E afro-americanamente falando, é um tiro pela culatra;
* Série da Supergirl sem Superman é apenas um sintoma da imensa trapalhada que a Warner insiste em sustentar. A presença do produtor-executivo Greg Berlanti (de Arrow e The Flash) até facilitaria um crossover heróico em algum nível, mas como a Warner está produzindo a série para a CBS, melhor não contar com isso. Acho que só uma Crise nas Infinitas Salas de Reunião resolveria a bizarra lógica interna da Warner.
Rumo ao recorde de impressões preliminares de um mínimo de material? Tamo junto.
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
Felicidade gótica
Mas que coisinha catita era a Felicity na fase dark, hm? Smoaking hot.
Além de referenciar uma encantadora mocinha que ninguém quer ver nem morto...
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
The Dark Affleck Returns
O anúncio foi feito, não adianta espernear. E vai se acostumando, pois a coisa deve ir longe.

"Sim, Comissário. É o Batman."
Grandes estúdios não têm o hábito de plantar trollagens em escala global sobre seus projetos mais aguardados. Sendo assim, vamos destrinchar um pouco melhor essa porrada que você tomou quando abriu seu browser naquela manhã de sexta-feira (que não era 13, mas era 23).
O projeto do crossover cinematográfico do Batman com o Superman não é novo. Há pelo menos 10 anos vem sendo ruminado pela Warner, mesmo antes do boom super-heróico via Marvel Studios. Mas sempre retornava à gaveta, talvez pela falta de precedentes de um universo integrado dos quadrinhos no cinema. O mais perto que chegaram foi em 2002, num projeto que seria dirigido por Wolfgang Petersen (Mar em Fúria) e que acabou não saindo do papel - felizmente, visto que o script era uma trasheira de grosso calibre.
Mesmo o enorme sucesso da trilogia do Batman de Christopher Nolan não parecia animar os executivos a apostarem numa série de franquias interligadas. Mas os filmes da Marvel chegaram e mudaram as regras. Foi um sinal verde para a Warner e até para a Fox, que já quer os X-Men coexistindo com o Quarteto Fantástico no cinema.
Parafraseando Marcelo Rezende, corta pra 2013: Ben Affleck como o novo Batman já é o maior meme ligado à adaptações de HQs dos últimos anos. Fazia tempo que um filme em pré-produção não gerava tanto feedback - a esmagadora maioria negativa (71% dos tweets, desde a última medição), num consenso que reconhece a trajetória ascendente de Affleck como cineasta, mas que ainda não o livra da condicional por ter protagonizado Demolidor - O Homem Sem Medo em 2003.
É injusto dizer que foi culpa exclusiva dele o fato dessa adaptação ter sido decepcionante. Mas teve a sua parcela...
Em geral, as vozes a favor defendem sua evolução como ator e/ou condenam veementemente a expressão de opiniões sobre algo que ainda nem saiu do papel. Mas dedução e especulação são habilidades desenvolvidas pelo ser humano ao longo de milhares de anos de evolução. Não vamos reprimi-las agora, não é?
Primeiro os contras.
A contratação de Affleck representa não apenas um enorme retrocesso no programa de adaptações cinematográficas da DC, mas principalmente, revela que os executivos da Warner ainda não compreenderam o fenômeno. Herói com um rosto conhecido do grande público? Não há necessidade disso e talvez nunca houve. O público que irá lotar as primeiras sessões será o mesmo que compra os quadrinhos religiosamente há anos e o mesmo que espalhará a palavra aos 4 cantos da internet. Simples assim. Essa estratégia de "rostos familiares" como chamariz de público leigo deve ser relegada ao núcleo coadjuvante, como foi feito em O Homem de Aço - e penso agora que a escolha de Henry Cavill deveu-se mais à influência de Christopher Nolan que qualquer outra coisa.
Talvez a ideia seja fabricar um novo Robert Downey Jr. que conduzirá a DC à terra prometida de Hollywood. Mas parece que esqueceram que Downey Jr. foi cozinhado em fogo brando nos dois longas que precederam Os Vingadores e, principalmente, esqueceram quem ele era antes de vestir a armadura do Homem de Ferro. Uma dica: não era um mega-star.
O fim da trilogia "realista" do Batman também marca o início do grandioso UDC nas telonas. Isso não é pouco. Estamos num daqueles momentos-chave, onde novos conceitos e abordagens têm que ser explorados. E o morcego, com perdão do trocadilho, precisa de sangue novo. Não de um déjà vu.
Há uma sensação muito forte de que Ben Affleck não é Bruce Wayne. Nunca imaginei o sr. Wayne com a cara do Christian Bale também, mas, além de ser um ator diferenciado, Bale emergia de um background sombrio, perturbador e visceral, construído com performances memoráveis em filmes como Psicopata Americano e O Operário. Em outras palavras, não deu certo por acidente. Bale já estava com um pé no velho poço abandonado.
Também foi escrito por aí, ad nauseum:
"A escolha de Heath Ledger para o papel do Coringa também foi duramente criticada na época e antes ele era o cara de '10 Coisas que eu Odeio em Você'".
Primeiro, as reações nem chegaram ao calcanhar do Bat-Affleck. Segundo, o Coringa é um passe livre para a anarquia, do tipo do-or-die/tá-com-medo-pra-quê-veio, sem meio-termo, um presente pra qualquer ator com sede de improvisação. Já o Batman é outra viagem, completamente oposta em tom, atitude e racionalização.
Quanto à 10 Coisas, uma comédia inofensiva, foi o pior argumento usado até agora. Afinal, até James Cameron carregou piano.
Também tem a variação piorada: "...antes ele era o cowboy boiola de 'Brokeback Mountain'".
O que, ao meu ver, é um grande elogio. Ledger, que já tinha impressionado em Os Reis de Dogtown, demonstrou ali o reflexo de um ator comprometido com a arte, ciente do papel e da dimensão de sua profissão e sem medo de desafios. Ou seja, a escolha só revoltou neófitos mesmo. Definitivamente, o Ledger-Coringa não é o parâmetro para essa comparação. Pelo menos não numa conversa séria.
Mas o maior problema é que Ben Affleck (ainda) parece um garotão boa-praça. Não vejo amargura, obsessão, rancor ou austeridade no seu olhar. Não consigo vê-lo dando esporro no "Clark" e enfiando lições de vigilantismo cinza-fascistóide naquela mentalidade pacata do Kansas.
Os prós?
Affleck de fato evoluiu como ator na última década. Nada estratosférico, apenas o suficiente para transitar pela tela discretamente e não cimentar os personagens em seus próprios maneirismos. Inclusive aprendeu até a dissimular tensão e seriedade de forma natural e convincente.

"Sr. Wayne, seu projeto de pesquisas está pronto." - "Obrigado, Lucius."
A maioria das críticas lembra de sua atuação como o Demolidor, pela semelhança óbvia de ser outro vigilante noturno dos gibis. Mas esquecem seu eficiente desempenho na pele do agente Jack Ryan, no thriller A Soma de Todos os Medos (2002), sucedendo ninguém menos que Alec Baldwin e Harrison Ford. Foi um dos melhores laboratórios que um ator poderia ter feito para o papel de Bruce Wayne/Batman. Espionagem, conspirações nos altos escalões do governo e deadlines dramáticas dividindo espaço com intensas sequências de ação - parece mesmo um dia no escritório do cruzado encapuzado.
Mas o mais importante é que Affleck transmitia credibilidade no papel. Sim, ainda soava como um novato, porém, um talentoso, confiável e obstinado. E com segurança o suficiente para duelar com gigantes do porte de Morgan Freeman, James Cromwell e Ciarán Hinds. A longeva aura de californian boy foi quase totalmente apagada.
Isso foi há onze anos - curiosamente, um ano antes de Demolidor. Se o Batman de Affleck for mais Jack Ryan e menos Matt Murdock, já é um começo.
Talvez o melhor aspecto dessa improvável parceria seja as ramificações do misterioso contrato. Os burburinhos dos sites de cinema dizem que o acordo é multifranqueado. Affleck se tornaria assim o responsável pelos próximos longas do Batman no cinema. Um acordão.
É inegável que Affleck se tornou um cineasta muito interessante. E não é de hoje: já em sua estréia na direção, no bom Medo da Verdade (2007), ele impressionou com uma construção sólida e um storytelling seco, sem perfumarias. Aliás, o crescendo atmosférico é das suas melhores características. Ele não tem pressa e valoriza o build up, ao contrário do estilo recortadinho de Nolan. Outro destaque é a sua estratégia de deixar os atores bem à vontade e com bastante espaço para trabalhar, mostrando que ele viu com atenção os filmes dirigidos pelo Clint Eastwood.
Sem dúvida, é um diretor cuja visão do Batman eu gostaria muito de conferir. Mas, pesando os prós e os contras do que sei sobre o dossiê Affleck, não diria que foi uma boa escolha como o ator que envergará o manto. Ainda mais com tantos candidatos em que a carapuça (ou a capa) cairia mais naturalmente. Aquele lance da afinidade com o lado negro, saca.
Enfim, coisas da Warner, como sempre. E tome o vídeo do Kevin Smith de novo.
Aliás...
...fico só imaginando o que Holden acharia disso.
Ps: Ok, ok, Bryan Cranston como Lex Luthor foi bola dentro...
"Sim, Comissário. É o Batman."
Grandes estúdios não têm o hábito de plantar trollagens em escala global sobre seus projetos mais aguardados. Sendo assim, vamos destrinchar um pouco melhor essa porrada que você tomou quando abriu seu browser naquela manhã de sexta-feira (que não era 13, mas era 23).
O projeto do crossover cinematográfico do Batman com o Superman não é novo. Há pelo menos 10 anos vem sendo ruminado pela Warner, mesmo antes do boom super-heróico via Marvel Studios. Mas sempre retornava à gaveta, talvez pela falta de precedentes de um universo integrado dos quadrinhos no cinema. O mais perto que chegaram foi em 2002, num projeto que seria dirigido por Wolfgang Petersen (Mar em Fúria) e que acabou não saindo do papel - felizmente, visto que o script era uma trasheira de grosso calibre.
Mesmo o enorme sucesso da trilogia do Batman de Christopher Nolan não parecia animar os executivos a apostarem numa série de franquias interligadas. Mas os filmes da Marvel chegaram e mudaram as regras. Foi um sinal verde para a Warner e até para a Fox, que já quer os X-Men coexistindo com o Quarteto Fantástico no cinema.
Parafraseando Marcelo Rezende, corta pra 2013: Ben Affleck como o novo Batman já é o maior meme ligado à adaptações de HQs dos últimos anos. Fazia tempo que um filme em pré-produção não gerava tanto feedback - a esmagadora maioria negativa (71% dos tweets, desde a última medição), num consenso que reconhece a trajetória ascendente de Affleck como cineasta, mas que ainda não o livra da condicional por ter protagonizado Demolidor - O Homem Sem Medo em 2003.
É injusto dizer que foi culpa exclusiva dele o fato dessa adaptação ter sido decepcionante. Mas teve a sua parcela...
Em geral, as vozes a favor defendem sua evolução como ator e/ou condenam veementemente a expressão de opiniões sobre algo que ainda nem saiu do papel. Mas dedução e especulação são habilidades desenvolvidas pelo ser humano ao longo de milhares de anos de evolução. Não vamos reprimi-las agora, não é?
Primeiro os contras.
A contratação de Affleck representa não apenas um enorme retrocesso no programa de adaptações cinematográficas da DC, mas principalmente, revela que os executivos da Warner ainda não compreenderam o fenômeno. Herói com um rosto conhecido do grande público? Não há necessidade disso e talvez nunca houve. O público que irá lotar as primeiras sessões será o mesmo que compra os quadrinhos religiosamente há anos e o mesmo que espalhará a palavra aos 4 cantos da internet. Simples assim. Essa estratégia de "rostos familiares" como chamariz de público leigo deve ser relegada ao núcleo coadjuvante, como foi feito em O Homem de Aço - e penso agora que a escolha de Henry Cavill deveu-se mais à influência de Christopher Nolan que qualquer outra coisa.
Talvez a ideia seja fabricar um novo Robert Downey Jr. que conduzirá a DC à terra prometida de Hollywood. Mas parece que esqueceram que Downey Jr. foi cozinhado em fogo brando nos dois longas que precederam Os Vingadores e, principalmente, esqueceram quem ele era antes de vestir a armadura do Homem de Ferro. Uma dica: não era um mega-star.
O fim da trilogia "realista" do Batman também marca o início do grandioso UDC nas telonas. Isso não é pouco. Estamos num daqueles momentos-chave, onde novos conceitos e abordagens têm que ser explorados. E o morcego, com perdão do trocadilho, precisa de sangue novo. Não de um déjà vu.
Há uma sensação muito forte de que Ben Affleck não é Bruce Wayne. Nunca imaginei o sr. Wayne com a cara do Christian Bale também, mas, além de ser um ator diferenciado, Bale emergia de um background sombrio, perturbador e visceral, construído com performances memoráveis em filmes como Psicopata Americano e O Operário. Em outras palavras, não deu certo por acidente. Bale já estava com um pé no velho poço abandonado.
Também foi escrito por aí, ad nauseum:
"A escolha de Heath Ledger para o papel do Coringa também foi duramente criticada na época e antes ele era o cara de '10 Coisas que eu Odeio em Você'".
Primeiro, as reações nem chegaram ao calcanhar do Bat-Affleck. Segundo, o Coringa é um passe livre para a anarquia, do tipo do-or-die/tá-com-medo-pra-quê-veio, sem meio-termo, um presente pra qualquer ator com sede de improvisação. Já o Batman é outra viagem, completamente oposta em tom, atitude e racionalização.
Quanto à 10 Coisas, uma comédia inofensiva, foi o pior argumento usado até agora. Afinal, até James Cameron carregou piano.
Também tem a variação piorada: "...antes ele era o cowboy boiola de 'Brokeback Mountain'".
O que, ao meu ver, é um grande elogio. Ledger, que já tinha impressionado em Os Reis de Dogtown, demonstrou ali o reflexo de um ator comprometido com a arte, ciente do papel e da dimensão de sua profissão e sem medo de desafios. Ou seja, a escolha só revoltou neófitos mesmo. Definitivamente, o Ledger-Coringa não é o parâmetro para essa comparação. Pelo menos não numa conversa séria.
Mas o maior problema é que Ben Affleck (ainda) parece um garotão boa-praça. Não vejo amargura, obsessão, rancor ou austeridade no seu olhar. Não consigo vê-lo dando esporro no "Clark" e enfiando lições de vigilantismo cinza-fascistóide naquela mentalidade pacata do Kansas.
Os prós?
Affleck de fato evoluiu como ator na última década. Nada estratosférico, apenas o suficiente para transitar pela tela discretamente e não cimentar os personagens em seus próprios maneirismos. Inclusive aprendeu até a dissimular tensão e seriedade de forma natural e convincente.
"Sr. Wayne, seu projeto de pesquisas está pronto." - "Obrigado, Lucius."
A maioria das críticas lembra de sua atuação como o Demolidor, pela semelhança óbvia de ser outro vigilante noturno dos gibis. Mas esquecem seu eficiente desempenho na pele do agente Jack Ryan, no thriller A Soma de Todos os Medos (2002), sucedendo ninguém menos que Alec Baldwin e Harrison Ford. Foi um dos melhores laboratórios que um ator poderia ter feito para o papel de Bruce Wayne/Batman. Espionagem, conspirações nos altos escalões do governo e deadlines dramáticas dividindo espaço com intensas sequências de ação - parece mesmo um dia no escritório do cruzado encapuzado.
Mas o mais importante é que Affleck transmitia credibilidade no papel. Sim, ainda soava como um novato, porém, um talentoso, confiável e obstinado. E com segurança o suficiente para duelar com gigantes do porte de Morgan Freeman, James Cromwell e Ciarán Hinds. A longeva aura de californian boy foi quase totalmente apagada.
Isso foi há onze anos - curiosamente, um ano antes de Demolidor. Se o Batman de Affleck for mais Jack Ryan e menos Matt Murdock, já é um começo.
Talvez o melhor aspecto dessa improvável parceria seja as ramificações do misterioso contrato. Os burburinhos dos sites de cinema dizem que o acordo é multifranqueado. Affleck se tornaria assim o responsável pelos próximos longas do Batman no cinema. Um acordão.
É inegável que Affleck se tornou um cineasta muito interessante. E não é de hoje: já em sua estréia na direção, no bom Medo da Verdade (2007), ele impressionou com uma construção sólida e um storytelling seco, sem perfumarias. Aliás, o crescendo atmosférico é das suas melhores características. Ele não tem pressa e valoriza o build up, ao contrário do estilo recortadinho de Nolan. Outro destaque é a sua estratégia de deixar os atores bem à vontade e com bastante espaço para trabalhar, mostrando que ele viu com atenção os filmes dirigidos pelo Clint Eastwood.
Sem dúvida, é um diretor cuja visão do Batman eu gostaria muito de conferir. Mas, pesando os prós e os contras do que sei sobre o dossiê Affleck, não diria que foi uma boa escolha como o ator que envergará o manto. Ainda mais com tantos candidatos em que a carapuça (ou a capa) cairia mais naturalmente. Aquele lance da afinidade com o lado negro, saca.
Enfim, coisas da Warner, como sempre. E tome o vídeo do Kevin Smith de novo.
Aliás...
...fico só imaginando o que Holden acharia disso.
Ps: Ok, ok, Bryan Cranston como Lex Luthor foi bola dentro...
Tags:
Batman,
Ben Affleck,
cinema,
DC,
DCEU,
quadrinhos,
Superman,
Zack Snyder
sábado, 17 de agosto de 2013
O homem que não tinha tudo
Sempre achei meio complicado comentar qualquer filme do Superman. Sou da 2ª geração de guris arrebatados pelo saudoso Christopher Reeve em sua personificação do herói. Meu caso, por sinal, é perdido: até hoje sou fascinado pela quadrilogia inteira, mesmo com a metade dela sendo muito ruim e toda ela muito envelhecida. O que nunca foi problema pra mim. Revejo aqueles filmes como alguém que relê um bom gibi da Era de Prata. Fora isso, tenho a forte sensação, não apenas nostálgica, de que aquela (ingênua) mensagem de respeito, caráter, esperança e altruísmo jamais será igualada. Ou mesmo almejada. Os tempos são outros. Mas pelo próprio bem do personagem, a necessidade de se aventurar nesse mundo atual cinzento com matiz verde-blockbuster é prioridade.
Em 2004, quando a Warner contratou Bryan Singer para dirigir o novo filme do Superman, houve uma celeuma natural entre os fanboys, ávidos por um herói atualizado em discurso, estética e, principalmente, ação, ah, a ação. Poucos pareciam tão aptos para a tarefa quanto o sujeito que viabilizou os X-Men nas telonas. Para desespero do público, Singer se deixou seduzir novamente pela magia temporã de Richard Donner e fez da produção um tributo aos dois superfilmes que, de um jeito ou de outro, levaram a sua assinatura. Apesar de alguns poucos terem se reconectado uma vez mais àquele espírito e secretamente agradecido ao Singer por isso (arram), todos concordaram que foi uma chance desperdiçada de repaginar o herói para uma dinâmica moderna e assim seguir em frente com a mitologia.
A possibilidade de ver o Superman do cinema enfrentando ameaças da sua ordem de grandeza - entre as numerosas opções de sua galeria de vilões - voltou a ser longínqua e onírica, quase improvável. Parecíamos fadados a reprises de Neo vs. Agente Smith e devaneios à base de Dragonball Z. Porém, com a ajudinha indireta de um colega de capa, uma nova chance não tardou.
O Homem de Aço (Man of Steel, 2013) veio para assumir essa responsabilidade e, com a direção nada sutil de Zack Snyder, fez o que parecia impossível, possível. Felizmente, meus temores se revelaram infundados. O filme não só apresenta o personagem para o século 21, como responde sem firulas velhas trivias nerd sobre sua contraparte cinematográfica. Por exemplo, qual o estrago que um ser como ele poderia fazer numa metrópole - ou Metrópolis - retratada da forma mais realista possível para uma superprodução hollywoodiana. Nada muito reflexivo ou existencialista, mas a pegada principal não era essa.
Ainda que David S. Goyer tenha acumulado pontos via Batman, seu roteiro, baseado na premissa concebida com o normalmente cerebral Christopher Nolan, se rende com frequência ao fan service. O que, em teoria, não é diferente do praticado no cinemão pop estadunidense pelos Bays e Emmerichs da vida, não fosse por um detalhe primordial: é um filme do Superman, a.k.a Clark Kent, rapaz do Kansas criado por pais adotivos com um grande senso moral e uma visão humanista do mundo. Eventualmente, isso entra em conflito com o perfil blockbuster da história e também mostra que O Homem de Aço herdou mais da trilogia quiróptera de Nolan do que um mercado comercialmente favorável.
O começo do filme é punk puro. Vemos os turbulentos dias finais de Krypton, outrora uma grandiosa civilização interplanetária, agora decadente e varrida por uma tentativa de golpe liderada pelo renegado General Zod (Michael Shannon). Completando o worst case scenario, o núcleo do planeta entrou em colapso e está na iminência de explodir, impossibilitando assim qualquer chance de sobrevida, exceto uma: o codex genético no qual estão armazenadas as linhagens de toda a raça kryptoniana. Não por acaso, é o objeto de desejo máximo de Zod, que planeja erguer uma nova Krypton sob seu comando, aplicando seus próprios parâmetros de eugenia.
Como uma última grande conquista do Krypton way of life, Zod e seus seguidores - entre eles a formidável operativa Faora-Ul (Antje Traue) - são derrotados, presos e enviados à Zona Fantasma. Tudo graças à intervenção do líder cientista Jor-El (Russell Crowe), que frustra os planos do militar ao mesmo tempo em que envia seu famoso filho recém-nascido à Terra para escapar do destino de Krypton. Adotado pelo casal Jonathan (Kevin Costner) e Martha Kent (Diane Lane), Clark, a.k.a Kal-El (Henry Cavill), atravessa a vida escolar deslocado e solitário, até que um dia sai pelo mundo em busca de suas raízes. Pelo menos, até ser rastreado pela repórter investigativa Lois Lane (Amy Adams). Assim, nasce uma mitologia moderna - que logo é posta à prova quando Zod e seus camaradas aportam na Terra com intenções nada diplomáticas.
Snyder deixa claro que o objetivo é reformar o universo do Superman desde as bases mais profundas. Krypton nunca foi visto assim fora dos quadrinhos. O que era um planeta asséptico e estéril em sua concepção prévia, virou uma esfera terrígena cheia de vida, não fazendo feio nem perto de Pandora, embora nitidamente debilitada pela falência de seus recursos naturais. O estilo da arquitetura traz a impressão de estarmos vendo alguma splash page do saudoso Moebius ganhando vida. Sendo apenas uma introdução, pouco é revelado sobre a cultura e o contexto social. Percebe-se o contraste de uma sociedade avançada para os padrões humanos, mas não tanto a ponto de abrir mão de trabalho animal ou de superar dogmas arcaicos. Um toque bastante mundano por parte do roteiro. E sobretudo, eficiente: ao mesmo tempo explica por que Krypton abandonou a expansão para outros planetas e suas respectivas terraformações (ou seriam kryptoformações?) e por que não iniciou um êxodo pelo espaço para salvar seu povo da extinção.
Esse aspecto também ajuda a compor a inesperada tridimensionalidade do personagem Zod.
Diferente do oficial aristocrata eternizado por Terence Stamp, o Zod de Michael Shannon é um nacionalista, um soldado comprometido com a missão da sua vida. Portanto, nada de "kneel before Zod". Do levante antigovernista em seu planeta natal até suas ações genocidas na Terra, seu intento é um só: a salvação da sua raça, não importa o custo. E pensando bem... importaria? Se qualquer um faria o mesmo em seu lugar ou se Krypton já teve sua chance é uma questão ética que sustenta uma boa discussão. O fato é que resumí-lo como vilão com uma raison d'être tão autêntica já não fica tão simples assim. A cena em que Zod, desesperado, apela para que a esposa de Jor-El, Lara (Ayelet Zurer), não lance a nave com o codex (e seu filho) destaca ainda mais a ambiguidade da situação.
Mais pra frente, o filme acaba cedendo ao tomar partido na cena da bad trip do Superman, onde ele descobre os planos de Zod para os nativos da Terra, mas até ali o saldo conceitual era muito positivo. É mais do que se poderia esperar de um filme-pipoca. E não para por aí.
A cinebiografia do Clark pré-Superman ainda é escassa em detalhes, mas ganhou no filme uma profundidade inédita até então. Cair na estrada como um benfeitor anônimo, ao velho estilo "David Banner", se revelou um recurso ainda eficiente. Foi uma boa estratégia pra ficar fora do radar e, ao mesmo tempo, antenado com o mundo à sua volta, atrás de qualquer sinal de anormalidade que possa ter alguma conexão com a sua origem - com direito a uma certeira inserção de "Seasons", do Chris Cornell. Cavill convence como bom-moço mezzo decidido mezzo inexperiente. Conseguiu não apenas caracterizar o Superman em formação, como também guiar o espectador pela trama.
A única ressalva vai para a quantidade pífia de linhas à sua disposição. Mesmo transmitindo serenidade no papel, Cavill foi um tanto amordaçado pelo script, sugerindo um certo pé atrás do diretor com seu ator - quase reeditando a tática de Bryan Singer com o então novato Brandon Routh, no Super 2006.
Bobagem. É fácil ver a competência dele, especialmente na cena breve, mas marcante, que dividiu com Kevin Costner. Que, por sinal, foi uma excelente escolha para o pai adotivo do escoteirão. Com sua bagagem de veterano e de ex-#1 de Hollywood, Costner passa toda a confiabilidade e afetuosidade que se espera do papel. Mas, ironicamente, veio do personagem dele o primeiro sinal de que havia algo de errado no ar.
Na verdade, "sinal" é pouco... eu diria mais um direto de direta, onde Jonathan mostra que não é um caipira do Kansas e sim dos Ozarks:
"Clark, you have keep this side of yourself a secret."
- "What was I supposed to do, just let them die?"
"Maybe."
E conclui:
"There's more at stake here than just our lives and the lives of those around us."
Grande Júpiter.
Ou ele projetava um Clark sociopata e tirânico para o futuro ou foi substituído por um Jonathan Bizarro com as melhores (ou "piores") intenções. Logo ele, recém-saído da boa caracterização de John Schneider na série Smallville. Aconselhar Clark a não salvar a vida de inocentes - crianças ainda - para esconder o que fosse nunca fez parte de seu perfil, seja em qual versão ou mídia. Jonathan seria expulso do Hall dos Mentores das HQs na hora, pelo Ben Parker em pessoa, que entoaria sua mais célebre frase com a voz de James Earl Jones pra ele nunca mais esquecer.
Desnecessário chafurdar a fundo nesse absurdo, mas vamos considerar que essa é sua natureza no filme, de alguém preocupado e temeroso pelo futuro do filho, como qualquer pai seria. Dadas as circunstâncias, faltou um "pouquinho" mais de fé no garoto ali. Especialmente num garoto invencível e invulnerável que literalmente foi um presente dos céus. Ou seria tudo uma alusão ao homem comum de hoje, mais amargo, pragmático e menos afeito à solidariedade e amor ao próximo, valores esses massacrados diariamente nas manchetes policiais? Se foi, faltou combinar.
De quebra, Jonathan ainda sai de cena vitimado pela própria lógica, de forma ainda mais melancólica, mesmo que pontuada pela soberba atuação de Costner. Nem todos os memes disponíveis na web fariam jus a esse tremendo fail do roteiro de Goyer, mas, como consolo, foi fichinha perto do que estaria por vir.
Verdade seja dita, nenhum filme baseado em quadrinhos de super-heróis teve sequências de ação como O Homem de Aço. É o mais próximo de um vale-tudo entre superseres que o cinema produziu até hoje. Não deixa de impressionar a evolução na área desde X-Men, há exatos 13 anos atrás - e que agora fica parecendo até um filme do Roger Corman. Isso graças à mão pesada e vertiginosa de Zack Snyder, muito bem captada pela equipe de 2ª unidade, que, segundo me disseram, são os criativos e os operários por trás do espetáculo. E por incrível que pareça, sem uso compulsivo de câmera lenta, o crack de Snyder desde muito tempo.
Pelo contrário...
Ao ilustrar a supervelocidade dos kryptonianos em tempo (sur)real, o diretor dá a dimensão exata do poder e da ameaça que eles representam - aspecto conduzido com perfeição pela assustadora Faora. Que não é a misândrica radical dos quadrinhos, mas também é objetivista, sem remorsos e, aparentemente, ainda mestra em Horu-Kanu (o Krav Maga de Krypton). São dela as melhores brigas do filme, que passa como um rolo compressor por cima do exército e do azulão. Antje Traue, do bacanudo Pandorum, funciona tão bem no papel que quase chega a apagar da tela um gorila kryptoniano de 4 metros que comparece no campo de batalha.
Seu visual também é um deleite: a beleza e o olhar gélido da atriz alemã caíram como uma luva na indumentária futurista e meio dark - pessoalmente, um déjà vu e tanto. Entra tranquila no clube de coadjuvantes sinistros que roubam a cena com cotação recorde: 5 Darth Mauls de 5.
Paradoxalmente, é em meio a esses acertos que surge a pior faceta de O Homem de Aço. Dando plena e furiosa vazão aos subtextos proferidos pelo cajun Jonathan no 1º ato do filme, o que se vê na reta final é uma sinfonia da destruição executada no último volume. Até aí tudo bem, a Metrópolis dos quadrinhos é varrida do mapa quase toda quinzena e finalmente temos a tecnologia para simular isso num filme; o problema é quando cruza a fronteira da negligência, atropelando nada menos que a índole do escoteirão. Sua luta contra Faora em Smallville já era um prenúncio do megadeath iminente: além de salvar um ou outro militar (por fins práticos, buscando gerar confiança?), o herói pouco faz em relação aos civis residentes e trabalhadores no local.
No máximo, aconselha um grupelho de coitados a se trancarem nos estabelecimentos - os mesmos que ele e Faora moem durante o quebra, sem preocupação aparente com quem está lá, sejam mulheres, idosos, crianças, pandas, coalas, o que for. Mas a coisa desanda mesmo quando Superman e Zod fazem Metrópolis de octógono.
A tensa sequência em que Perry White (Laurence Fishburne) e mais um sujeito tentam retirar uma colega dos escombros é, talvez, a mais reveladora de O Homem de Aço. Na hora, lembrei de uma cena similar e a mais emblemática de Superman - O Retorno: Lois, seu filho e seu marido contemplando a morte certa presos num barco afundando. Singer estica a virada sadicamente até o limite, arrematando com um gancho que sintetiza, sem que nenhuma palavra seja dita, a essência do Superman. Ou, pelo menos, daquele o qual estávamos acostumados. No novo filme, a coisa é bem diferente. Com uma máquina do Juízo Final bombando a poucos metros dali e com seus esforços se mostrando em vão, em dado momento White decide entregar os pontos e permanecer ao lado da amiga até o fim inevitável. Naquele momento, eles só tem um ao outro e nenhuma esperança. Ninguém veio. Ninguém virá. Você tem um homem de aço na sua cidade, mas está por sua conta. Sem essa de superamigo.
Agora imagine quantas dessas microssituações dramáticas se deram entre os escombros de Metrópolis enquanto dois deuses trovejavam no céu e derrubavam mais prédios? Dante Alighieri manda lembranças.
Longe de querer um caos ordenado que se auto-justifica a cada 5 segundos. É óbvio que um evento dessa magnitude faria cadáveres brotarem do chão. Acontece todo tempo nas histórias do herói, ainda que implicitamente, mas sempre administrado por uma atitude protecionista em relação aos frágeis e mortais terrestres. Não de forma que interrompa o fluxo da ação ou da narrativa, mas em breves cenas sugerindo que ele fez o que pôde antes de se dedicar à pancadaria em definitivo - é o padrão desde sempre, nas HQs, nos longas animados e, adivinha, nos filmes com o Reeve. Haviam opções para mover o confronto para outro lugar, como no espaço, onde ele até tentou (só que, infelizmente, sempre caíam nos mesmos lugares... magia do Caos, for sure). O oceano era logo ali. Desertos, cânions e o pólo ártico não eram nem na esquina pra eles.
Se foi inexperiência, compro até certo ponto. Mas fica complicado quando o único civil que Superman se digna a salvar é exatamente a Lois - três vezes durante o filme, sendo a última delas um deus ex machina que faria corar até o T. Rex do final de Jurassic Park. Se isso tudo fosse uma análise comportamental sobre ele, como eu deveria interpretar?
E por incrível que pareça, nem menção posterior há aos prejuízos astronômicos e às prováveis milhares de vítimas das ações dos kryptonianos (todos eles). Algo que poderia muito bem ser resolvido de uma forma sutil, emocionante e respeitosa sem gastar tanto tempo ou baixar uma nuvem deprê no contexto PG-13.
O Homem de Aço se compromete com o aspecto humanista e sociológico da situação, mas não segura o rojão. E olha que não sou de nenhum Comitê dos Direitos Humanos dos Seres Vivos Fictícios. Sou fã de cinema-destruição. Rio muito sempre que o Lobo lembra como destruiu seu planeta natal. Darth Vader explodiu Alderaan e tenho um Vaderzinho de chumbo na minha mesa. Meu personagem favorito dos quadrinhos é Galactus. Nenhum deles tenta ser o que não é - ou mais do que é.
Diante disso, ficaria feliz em não ter mais nada a questionar, porém, a vida não é fácil pra quem detesta fazer coro com rebanho moralista. E calhou disso acontecer justamente na cena mais polêmica do filme.
Spoiler?
De um lado, uma linda família caucasiana recém-saída das filmagens de um comercial de margarina. De outro, Superman aplicando um mata leão em Zod, que diz em alto e bom som que vai flambar todo mundo porque Kal-El não tem cojones de aço pra impedi-lo. Além de recorrer a uma imagética vexaminosa de tão apelativa e maniqueísta, a edificante solução encontrada pelo roteiro de Goyer não poderia ser mais populista em sua visão mais primária e obtusa da Justiça, eliminando qualquer fagulha de inspiração e idealização que poderia advir do Superman. Ufa. Como bem disse Brainiac em saga recente, é uma decepção ver um filho de Krypton reduzido a um bruto.
Sério que ele não conseguiu pensar em nada, mesmo com Zod dominado numa super-gravata? O Super mesmo foi nocauteado por Faora e o gigante em dado momento, então isso era possível na lógica do filme. Ele poderia ter apertado mais até o vilão perder os sentidos. Ou, sei lá, socado sua cabeça até conseguir. Depois poderia tê-lo levado até a nave exploradora e buscado intel para contê-lo (radiação do sol vermelho, simulação de atmosfera kryptoniana, etc). Provavelmente até acharia por lá um daqueles pen-drives kryptonianos com o Jor-El backupeado, pronto para auxiliá-lo a despachar novamente o general para a Zona Fantasma. Ou qualquer coisa.
Mas preferiram colocar o Superman matando no primeiro filme da sua muito aguardada reabilitação cinematográfica. Pior, se submetendo ao joguinho de manipulação do vilão, descendo assim ao seu nível. Em algum lugar de uma galáxia distante, Luke Skywalker dá um facepalm.
Ironicamente, soou como um upgrade da infame cena "América para os americanos" do Superman II original. Isso, mais o fato do mundo fora dos EUA ser retratado no filme como uma terra de ninguém terceiro-mundista, constitui uma clara mensagem pra quem se atrever a pisar no quintal gringo. Slavoj Žižek aproveitaria até a raspa desse tacho. Sem medo de soar purista, filme de Super-Homem não é lugar para pregações reacionárias. Não dá pra corroborar com um Superman que age como alguém sem superpoderes, sem perspicácia e sem opções, rendido pela máxima popular do "bandido bom é bandido morto" - com certeza existe mais de um equivalente republicano-redneck disso aí.
O desenlace do final foi igualmente atordoante, no mau sentido, com Clark indo trabalhar no Planeta Diário. É exigir demais da suspensão da descrença. Dá a impressão que Goyer já havia perdido completamente o controle e apressou a conclusão o mais rápido possível para evitar mais danos, tal qual um piloto de airbus que descarta o combustível em pleno ar, certo de que o pouso será de nariz.
O lado positivo disso tudo é que Henry Cavill se sobressai ileso aos carrinhos criminosos do roteiro com uma atuação digna e segura, até mesmo em sua reação após o "inevitável". O que, sem dúvida, foi essencial para a boa química de Clark e sua mãe adotiva, Martha - uma ótima Diane Lane com maquiagem envelhecedora pra chocar os trintões. E eu ainda nem terminei de suspirar por ela em Ruas de Fogo...
| "Knock, knock" - "Who's there?" - "It's your lucky day..." |
Foi bem sacada a escalação de Richard Schiff para o papel do Prof. Emil Hamilton, personagem pouco conhecido do público em geral, mas frequente colaborador do herói nas HQs e nas séries animadas. Igualmente para a participação do grande Christopher Meloni como o coronel extrassacudo que chama Faora na chincha não uma, mas duas vezes. Já Russell Crowe apenas não compromete, embora tenha ficado um tanto galhofeiro e fanfarrão nas cenas do Jor-El holográfico. E desceu quadrado o cacete que ele, um cientista, deu em Zod e mais uns capangas no início do filme, mas deixa baixo.
A edição meio truncada e corrida, à Nolan, também não funcionou a contento. Apesar de turbinar a dinâmica, suprime momentos potencialmente emocionais como a cena em que Jonathan revela a cápsula para Clark - numa notável atuação do garoto Dylan Sprayberry, por sinal. E a tão alardeada estreia do "universo compartilhado" da DC nos cinemas foi tímida: limitou-se a um logo-Lex aqui e um satélite Wayne acolá. Pouco pra quem tem a pretensão de reeditar a campanha bem-sucedida da Marvel Studios, ainda mais considerando que o UDC sempre foi mais integrado que a concorrência. Em contrapartida, a justa homenagem ao Christopher Reeve foi arrepiante.
A cena que fecha o filme é evocativa e belíssima. Clark bem menino, brincando no quintal de casa com seu cachorro, em meio aos varais e roupas estendidas. É universal. E ao mesmo tempo, não podia ser mais íntimo. Talvez seja aí que resida a verdadeira força de O Homem de Aço, perdida entre o filme que há muito queríamos ver, o filme que nos foi dado e o espírito e o coração do velho Superman.
Ps: o Luwig fez um fantástico texto sobre o filme com referências e especulações a granel.
Tags:
Amy Adams,
Bryan Singer,
Christopher Meloni,
Christopher Reeve,
DC,
DCEU,
Faora,
filmes,
General Zod,
Henry Cavill,
Michael Shannon,
quadrinhos,
Richard Donner,
Superman,
Terence Stamp,
Zack Snyder
Assinar:
Postagens (Atom)