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terça-feira, 31 de março de 2026

Man com H


No trailer de hoje, aprendemos que o diretor Travis Knight recebeu uma bomba em forma de roteiro escrito a 12 mãos e teve que se esforçar para fazer disso um filme. Alguns adultos chamam isso de "ganhar limões e fazer uma limonada". Outros chamam de "se virar nos 30". Se nada der certo, não se acanhe: bote a culpa nas intervenções do estúdio.

Sendo sincericida: nada no trailer do He-Man me irritou muito. As caracterizações e atualizações de figurino ficaram bacanas, Teela é um pitéu, Mentor é pura moral de rua e Mandíbula ficou fodão. As exceções são o cospobre da Maligna e, lógico, o CGI mediano pra ruim do Esqueleto, muito ruim no Pacato/Gato Guerreiro e péssimo nos rasantes por Etérnia e pelo Castelo de Grayskull. Parecem cutscenes de Playstation 1. Orçamento de 200 milhões de doletas não dá pra mais nada hoje em dia, né?

Apesar dos pesares, tenho uma tendência muito grande a me divertir com esse filme. Cada frame parece assumir com orgulho colorido o gênero espada, feitiçaria & tecnologia Kirbyesco e isso ganha pontos comigo. Mas, cê sabe, sou suspeito. Sou cracudo de Eternium desde menino.

Até a próxima, pessoal!

sexta-feira, 20 de março de 2026

A morte agora tem um novo nome...


Carlos Rey “Chuck” Norris
(1940 - 2026)

Chuck Norris era de uma linhagem de astros que pareciam invulneráveis à passagem do tempo. Mais ainda, que pareciam viver em seu próprio espaço, seu próprio tempo. Imunes a zeitgeists, quaisquer que fossem. Era o expoente máximo disso, junto com Charles Bronson, Lee Marvin, James Coburn e alguns outros. Muito disso pela vida discreta e familiar a qual se dedicou longe da badalação. E muito por ter plena consciência do tamanho que ocupava no cinema de gênero. Seu duelo icônico com Bruce Lee em O Voo do Dragão segue famoso e debatido como se tivesse acontecido ontem, não há mais de meio século.

Lembro quando o fenômeno Chuck Norris Facts viralizou – que dê o 1º roundhouse kick aquele que não embarcou na brincadeira – e havia uma certa tensão sobre o que o Homem estaria achando daquilo tudo. Felizmente, ele não só curtiu, como brincou também. E assim o planeta respirava aliviado por não ter sido destruído por uma voadora. E mais feliz pelo Chuck se mostrar, mais uma vez, um boa-praça.

Certamente, todas as bios e eulogias as quais o Texas Ranger tem direito estão abarrotando a web neste momento. Mais do que merecido. Da minha parte, fica a doce lembrança de crescer o vendo metralhando e partindo ossos de malfeitores em seus filmes. Que, do Big 4 do cinema de ação hollywoodiano, eram de longe os mais reprisados pela TV aberta nos anos 80.

Tenho um carinho especial por dois em particular.


Olho por Olho (An Eye for an Eye, 1981)


Fúria Silenciosa (Silent Rage, 1982)

Foram os primeiros filmes do Chuck Norris que assisti, ainda moleque. Não lembro em qual ordem.

Olho por Olho, mais tarde rebatizado Ajuste de Contas, passou 468 milhões de vezes na Sessão das Dez, do SBT. Sempre "Pela 1ª vez na televisão"®. Não conseguia largar até a luta de Norris contra o gigantesco Professor Toru Tanaka (primo do Oddjob, de 007). Ainda era o Norris raiz, sem el bigodón característico.

Fúria Silenciosa trazia o Chuck se aventurando no gênero slasher, em alta na época. Esse era hors-concours no Domingo Maior da Globo e me deixava absolutamente apavorado. Não era pra menos, o grande Brian Libby estava aterrorizante como o psicopata John Kirby. Tá aí o próprio Stephen King que não me deixa mentir. Só sossegava (mais ou menos) depois que o Chuck finalmente aplicava um corretivo no arremedo de Michael Myers. O problema é que depois ainda tinha aquele final...

São duas ótimas opções para uma sessão especial, junto com McQuade, Perigo Mortal (onde ele sai na porrada com um demonho!) e os dois primeiros Braddock. Serão minhas próximas paradas, depois que revisitar um ou dois Chucks raiz.


Thank you for everything, Chuck Norris.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

The End Continues


Robert Norman “Rob” Reiner
(1947 - 2025)

É muito difícil assimilar uma partida tão abrupta e tão trágica. Provavelmente impossível.

Só tenho a agradecer por tudo o que Rob Reiner deu ao cinema e ao mundo. Um legado inestimável e perene.

Thank you for everything, Rob Reiner.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

“There comes a time...”


Na recente edição do festival The Town, fui surpreendido por um Lionel Richie se apresentando em grande forma. Foi um show divertido, pesado e tecnicamente impecável que acionou alguns gatilhos que nem sabia que ainda estavam lá. Cresci praticamente respirando a obra do popstar. Era só passar perto de algum rádio ligado em qualquer estação – FM ou AM – e ser bombardeado por sua longa fileira de hits solo ou nos Commodores, de "Easy" e "Three Times a Lady" a "Hello", "All Night Long (All Night)", "Endless Love", "Say You, Say Me", etc, etc, ad-infinitum-e-além. Sem descanso.

Algumas, confesso, reouvi pela 1ª vez após décadas de molho. E foi um reencontro muito bom. Tanto pela performance energética e bem-humorada de Richie, quanto por ver essas joias pop gabaritando no teste do tempo. Mas uma canção em particular se tornou a grande surpresa do setlist: a emblemática "We Are the World", defendida heroicamente no piano e no gogó abençoados do compositor.

Com essas boas vibrações, resolvi tirar do porão este fenômeno que, em 1985, ajudou a combater a fome na Etiópia, mas que megassaturou rádios e tevês por metade da década de 1980. Que foi um momento histórico, isso nem se discute. E já era tempo de revisitar e estudar a música e seu antológico videoclipe com olhos e ouvidos mais calejados.

Bom, fui atrás – hoje é fácil.

Aproveitei e estendi a estadia sonora com o sensacional documentário A Noite que Mudou o Pop (The Greatest Night in Pop, 2024), disponível na Netflix. O filme foi dirigido pelo americano-vietnamita Bao Nguyen, do igualmente sensacional Be Water, doc de 2020 sobre Bruce Lee. E a experiência foi fascinante, pra dizer o mínimo.

O documentário é revelador e até desmistificador sob muitos aspectos. Espertamente, Nguyen imprimiu à empreitada uma narrativa tensa, com um clima de Missão Impossível (a série sessentista, por favor). E foi exatamente isso, uma missão impossível com uma deadline ridícula entregue nas mãos dos multitalentosos Richie, Quincy Jones e Michael Jackson. Ficou famoso o aviso "check your ego at the door""deixe seu ego na porta" – pregado na entrada do estúdio, mas é lógico que algum percentual daquilo acabou passando de penetra.

O que não sabia era de todo o resto: a operação top secret para convocar os convidados (o que rende a memorável sequência com cada artista chegando ao estúdio da A&M sem saber quem estaria por lá), a logística é-tudo-ou-nada para gravar a coisa toda em uma só noite, Bob Geldof (Live Aid, Live 8) explicando aos astros a importância humanitária do projeto, Quincy Jones regendo e amansando a manada pop enquanto Lionel Richie se encarregava de apagar os pequenos incêndios, a complexidade de harmonizar vozes com estilos tão diferentes, o apoio essencial (e engraçado e brilhante) de Stevie Wonder ao deslocado Bob Dylan, a furada histórica de Prince, a insólita "dificuldade técnica" da Cyndi Lauper, a fofura suprema de Diana Ross, Bruce Springsteen só o pó da rabiola, saído da maior turnê de sua carreira direto para a gravação e por aí vai. Uma delícia de caos.

Para quem curte música, história da música, saber mais sobre a indústria e os bastidores, o documentário é um masterclass.

As interações espirituosas de Springsteen e Ray Charles mais os depoimentos impagáveis de Richie e de Huey Lewis são ouro puro. Podia ter rolado entrevistas com Paul Simon, Willie Nelson, Steve Perry e com os atores Dan Aykroyd (a tirada com os Caça-Fantasmas foi ótima) e Bette Midler, que também bateram ponto no coral gospel. A meu ver, dariam perspectivas atuais bem relevantes.


Como título, A Noite que Mudou o Pop não é acurado. Mas A Maior Noite do Pop, como reza o original, não ouso discordar.

Foi mesmo uma noite daquelas.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Kilmer Eternamente


Val Edward Kilmer
(1959 - 2025)

Se foi o Val Kilmer. Não sou muito fã da expressão "descansou", mas no caso dele, que a justiça seja feita. Os últimos dez anos da sua jornada foram um daqueles exemplos lapidares de coragem e resiliência – muito maiores do que qualquer herói que ele tenha personificado.

Na 1ª vez que vi o Kilmer não teve nada de épico ou dramático. Pelo contrário. Foi rolando de rir com o impagável Top Secret! (1984), do trio ZAZ. Não perdia uma reprise. E nos dias seguintes, ficava comentando as melhores cenas com os colegas da escola.

Logo veio uma sequência matadora com Top Gun (1986), o 1º apavoro dramático com The Doors (1991) e o sensacional faroeste Tombstone (1993). Em 1995, já absorvido pelo estrelato, vieram Batman Eternamente e o clássico drama policial Fogo Contra Fogo. Em 1996, experimentou um caos maior que o de Jim Morrison nas gravações desastrosas de A Ilha do Dr. Moreau e emendando como pôde em A Sombra e a Escuridão, com o Michael Douglas. E por aí foi. Sua filmografia é tão extensa quanto variada.

Kilmer tinha fama. Não era um sujeito fácil. Também era obviamente talentoso. E, de fato, colaborava com os direitos dos nativos americanos e com causas ambientais. Fora que doou milhões para a caridade.

Vai fazer falta pra muita gente. E não apenas pelos filmes. Isso que é legado.

terça-feira, 9 de abril de 2024

Mad MaXXXine

A trilogia X do cineasta Ti West e sua musa Mia Goth chega ao fim (?) nos loucos anos 80. Lógico.


"Obsession", do Animotion, a versão do clássico das boates "Self Control", da Laura Branigan... só na trilha já deu pra perceber que o filme foi embebido na década dos excessos. A cenografia é estonteante e a sinopse é digna de qualquer contracapa de VHS da CIC Video, Top Tape ou Look Vídeo:
“Na Hollywood dos anos 1980, a estrela de filmes adultos e aspirante a atriz Maxine Minx finalmente tem a sua grande chance. Mas enquanto um misterioso assassino persegue as estrelas de Hollywood, um rastro de sangue ameaça revelar seu passado sinistro.”
Recapitulando, X, de 2022, é um divertido slasher mezzo paródico mezzo fora da curva. Mia Goth – neta da veterana global Maria Gladys – brilha em papel duplo. O prequel Pearl, do mesmo ano, é ainda melhor. Direção, atmosfera, texto e Goth em seu auge performático. Um filmaço.

Se MaXXXine simplesmente seguir no piloto automático, já está no lucro. Mas a gringa brasileira vende bem o peixe:

“É o melhor roteiro dos três, de longe. Será o melhor filme dos três.”

Curiosamente, a trilogia não tem causado muito burburinho no Brasil. Talvez porque muitos miguxos resenhistas têm um ranço enorme das produções do estúdio A24. Don't believe the hate. Ao menos neste caso.

MaXXXine estreia 5 de julho nos EUA. Por aqui, nem sinal ainda. Seja como for, a maratona já me aguarda...

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

A insustentável complexidade do simples

Comentando sobre o Rick Beato outro dia, comecei a rever alguns vídeos antigos dele e me diverti demais. Produtor, engenheiro de som, compositor, multi-instrumentista e educador universitário, o músico nova-iorquino usa sua incrível articulação – e seu ainda mais incrível ouvido absoluto – para levar aos neófitos os rigores da teoria musical de maneira prática, espirituosa e mastigadinha. O que rende muito em suas entrevistas, causos de bastidores e análises de sucessos pop.

Foi nessa última que ele descobriu "a música pop mais complexa de todos os tempos". Que foi lançada por um brasileiro®...


Ok, artisticamente, "Never Gonna Let You Go" é tão brasileira quando "Sweet Home Alabama". Sérgio Mendes, ou Sergio Mendes, a incluiu em seu álbum homônimo de 1983 apenas porque precisava de uma balada para dar uma quebra no clima festivo e carnavalesco do disco. E saiu dali com um hit mundial nas mãos. Talvez o seu maior, o que é notável.

Mendes, radicado nos EUA desde 1964, foi um gigante pop nas décadas de 1960-1970. Contabilizou alguns sucessos, como "The Look of Love", "Scarborough Fair", a versão de "The Fool on the Hill", dos Beatles, e, lógico, o clássico "Mas que Nada", do Jorge Ben. Foi indicado várias vezes ao Grammy (levou alguns) e até ao Oscar. Tocou com Deus, na figura de Stevie Wonder, e o mundo. Tocou na Casa Branca para dois presidentes – não que isso valide alguma coisa, mas é a moralzinha agregada. Sacumé.

Lembro de crescer ouvindo "Never Gonna Let You Go" tocando sem parar em tudo que canto, em rádios, novelas, na casa vizinha, na rua. Por décadas. É daqueles standards do gênero adulto contemporâneo que não saem nunca das 50+. Mas sempre notei que havia algo muito estranho naquelas progressões de guitarra e vocais. E por "sempre", leia-se "sempre". Mesmo.

Iria para o túmulo com essa, mas graças aos céus pelo Rick Beato. E só levou 40 anos.

Ps: às vezes as canções pop mais simples são mais difíceis do que se imagina...

sexta-feira, 7 de julho de 2023

80 são, 20 buscar


Parece um daqueles pôsteres fan made vindo das ideias de algum quarentão com Photoshop (culpado!). Mas o festival Darker Waves é bem autêntico. E um impressionante intensivão da década de 1980. Tem pra todo mundo, do sujão 45 Grave ao limpinho Tears for Tears. E todos no mesmo dia!

A fórmula é idêntica à do festival Cruel World (lembra dele?), que segue firme e forte. O revivalismo oitentista sempre esteve por aí, mas tomou um fôlego notável neste primeiro ano pós-pandemia, por motivos óbvios.

Inclusive, os ingressos para esta edição de novembro já estão esgotados. Para quem ainda quiser ir, resta preparar a carteira e recorrer a um tipo de profissional muito requisitado nos anos 80...

sábado, 17 de junho de 2023

Eles Vivem


Que (re)encontro!


Será que o Carpenter finalmente admitiu para o David que Childs era A Coisa?

sábado, 4 de março de 2023

"I've seen the future and it will be Batman..."


Não assisti ao Batman de Tim Burton no cinema. Na época, só estudava. A grana pingava (até hoje). Consegui ir ver apenas Batman: O Retorno, três anos depois. Mesmo caso de RoboCop 2, O Exterminador do Futuro 2 e As Tartarugas Ninja II - O Segredo do Ooze. Mas o hype gigantesco do filme original foi incomparável. Aliás, hype não: zeitgeist.

Começava ali um novo modo de enxergar o gênero dos super-heróis e de levar isso até o público neófito. Aquele, que responde pela maioria esmagadora da espécie humana. Foi um longo processo que começou com Dennis O'Neil, Frank Miller e Alan Moore, lá nas HQs mesmo — tudo isso foi destrinchado com mais propriedade no blog do Sadovski.

O fato é que sempre achei milhões de vezes mais interessante observar o impacto disso no público não iniciado do que em fanboys como o rapaz na miniatura do vídeo. E como objeto de estudo, Batman dificilmente será equiparado. Ninguém nunca havia visto nada sequer parecido antes. A excitação geral era evidente em cada olhar, até mesmo em estrelas e veteranos de cinema, acostumados com o deslumbre massivo da indústria. Foi um legítimo fenômeno pop cultural.

Sábias palavras do Prince. 1989 ainda não acabou...

quarta-feira, 6 de julho de 2022

De Vaughan para o Futuro


Boto fé. Porque não é um bicho de sete cabeças para realizar. Fórmula simples, testada e aprovada. E porque meu coração K. Vaughiano não aguenta mais tanta sofrência.

E esse trailer é uma belezura, vai.

29 de julho tamo aí na garupa.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Fenda no Tempo


Primeira vez que comento algo sobre Stranger Things. E por um motivo bem simples: passei liso e leso por aquele tsunami hypezístico de 2016. Então, a divisão desta 4ª temporada em dois "volumes" — a manjadíssima midseason — pode ter recebido críticas até do alto escalão, mas abriu um janelona para que a massa de desantenados maratonasse o jogador #1 da Netflix. O que fiz em qualquer coisa como uma semana. É muito fácil, uma vez superados alguns percalços pelo caminho. Tenho um problema crônico com qualquer filme (alô, Tarantas!) ou série que nade em referências. É uma linha fina entre a homenagem, a sátira e a cópia pura e simples. E isso os criadores The Duffer Brothers fazem como se não houvesse amanhã.

Realizar um Amblin Movie é o Graal deles em Stranger Things. Deve ser irresistível ignorar o apelo estético e nostálgico das bicicletas e das delícias de uma trilha sonora oitentista. É o revival iniciado por Spielberg & J.J. Abrams em Super 8? Que nada. É tudo culpa de Donnie Darko. Ainda.

Os aguardados dois últimos episódios da temporada não arrefecem 1 frame no quesito "maratona". São quatro horas. Quatro desnecessárias e prolixas horas que fragilizam as subtramas e evidenciam as barrigadas que acometem a série desde a metade da segunda temporada. Decididamente, não precisamos disso — e nada me tira da cabeça de que é uma decisão estratégica e unilateral da gigante do streaming. O que é uma pena, já que boa parte dos problemas se resolveria com uma bela farra na sala de edição.

O núcleo de protagonistas é um achado de química e carisma. Só que os meninos e meninas mereciam bem mais do que lutar constantemente contra as deficiências de roteiro (fragmentar a turma foi a pior delas) e entoar alguns diálogos vexatórios que os Duffer escreveram na reta final. Deviam rever o quadro de roteiristas titulares, ao menos para a próxima (e, dizem, última) temporada. O Paul Dichter escreveu só um episódio desta safra e olha só que diferença.

No fim, foi preciso muita vista grossa e passadas de pano pra curtir Stranger Things. Mas valeu a pena. Abaixo de toda a pretensão e dos maneirismos épicos vazios, existe um coração enorme batendo em algum lugar do Mundo Invertido.

domingo, 15 de maio de 2022

A Espada Selvagem de Amleth


A forja


Os ensinamentos


O massacre


O sobrevivente


Os algozes


O escravo


O guerreiro


A espada ancestral


A bruxa


O lobo entre os cordeiros


O condenado e suas companhias aladas


A vingança


A decapitação

Só Heimdall para desatar o emaranhado que as Nornes teceram caprichosamente neste trecho do destino. Ontem foi o quadragésimo outono de Conan, o Bárbaro, exatamente o dia em que o antecipadíssimo O Homem do Norte (The Northman, 2022) chegou ao alcance de uma maioria de desonrosos que não tombaram em batalha. Os paralelos entre os filmes são visíveis até das paragens mais longínquas da Bifrost. No decorrer de O Homem do Norte, assisti atônito a reedição não apenas da premissa, mas também dos aspectos estruturais eternizados pelo clássico bastardo de John Milius.

"Arquétipos", sei. Ou reflexo da lenda escandinava original.

Não é nada disso: é o timing desses arquétipos, da narrativa, do pacing. Mediocridade cinemática não é. Todos sabemos (sabemos?) do talento de Robert Eggers, um dos cineastas mais interessantes dos últimos tempos. E O Homem do Norte é um espetáculo assim mesmo. Mas por esse pequeno detalhe, o cinturão viking permanece com Nicolas Winding Refn. Odin seja louvado.

Melhor filme do ano?²³²³²³. Se acabar sendo, ótimo. Mas tomara que não.

Ps: cara, como amo a Björk. Ela já nasceu pronta, hm?

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Louco como um guerreiro da Luz que luta contra as Trevas


Em meados de 1989, Leandro Luigi Del Manto, então editor de quadrinhos na Abril, foi convidado para uma conversa no escritório de Eduardo Macedo, na época, diretor comercial na editora Globo. Não houve muito rodeio — "estamos abrindo uma nova redação de quadrinhos aqui na Globo e precisamos de alguém que cuide do material não infantil. Você tem interesse?". E veio a pergunta de 1 milhão: "o que vocês estão pretendendo?"

Após um incisivo "olha, vou abrir o jogo, mas não pode sair daqui", Macedo tira de uma gaveta pilhas e mais pilhas de HQs. Os olhos de Del Manto quase saltaram das órbitas: estavam ali Akira, Sandman, V de Vingança, Orquídea Negra, Demônio da Mão de Vidro, Marada: A Mulher-Lobo, a minissérie do Pantera Negra e vários outros títulos. A negociação conclui com um "quanto vou ganhar e onde é que eu assino?"

É uma das minhas histórias favoritas dos bastidores do mercado nacional de quadrinhos.

Essa investida da Globo reformulada foi, de certa forma, um divisor de águas. Não foi a gênese do quadrinho adulto no Brasil, mas, sem dúvida, modernizou e expandiu o conceito para um modelo editorial que perdura até hoje.

Logo foram chegando títulos como Dreadstar, Moonshadow e O Último Americano. Todos da Epic Comics, subdivisão da Marvel lançada pelo editor Jim Shooter e que operou entre 1982 e 1996. Filhote da memorável Epic Illustrated, o selo se destacava por oferecer aos quadrinistas liberdade total nas histórias, além da almejada propriedade sobre suas criações — um tremendo arrojo em se tratando da Casa das Ideias.

E o 1º título Epic publicado pela Globo foi A Guerra de Luz e Trevas, estreia da parceria do escritor Tom Veitch com o desenhista Cam Kennedy.


A história — uma saga aventuresca nos moldes clássicos — é uma jornada pelos gêneros da guerra, da fantasia e da ficção científica sob a ótica bastante peculiar de Veitch. A HQ já abre com duas linhas temporais simultâneas, com o veterano Lazarus Jones visitando um memorial de guerra enquanto relembra sua última e trágica missão no Vietnã, quando uma emboscada vitimou sua unidade e ainda lhe arrancou as duas pernas. Tomado pelo transtorno do estresse pós-traumático com ênfase na síndrome do sobrevivente, Laz é incapaz de viver o tal sonho americano pelo qual viu tantos serem sacrificados.

As coisas mudam após um grave acidente de carro. Mais uma vez ele sobrevive, porém em coma profundo num leito de hospital. Preso em um estado espiritual intermediário, Laz é confrontado por um ser sobrenatural que o apresenta ao Portal Negro, um mundo localizado no sistema estelar Abraxas. Lá, é travada uma guerra milenar entre as forças da Luz e das Trevas. Uma guerra para onde são cooptadas todas as almas dos soldados mortos em combate — justamente onde estão seus saudosos irmãos de armas Slaw, Huff e Capitão Engle desde que desencarnaram naquele fatídico dia no Vietnã.

O Portal Negro é um posto avançado da Galáxia da Luz, sendo o território de maior disputa entre as duas forças. Do lado da Luz, está Urumm, também chamado de A Fonte. Do lado das Trevas, está o Senhor Oculto. Suas forças militares são lideradas pelo tirânico Lorde Na, cujos poderes de conversão deram origem aos Deadsiders, um gigantesco exército de guerreiros demoníacos espalhado por quase toda a galáxia.

É neste contexto básico — mas com desdobramentos bastante intrincados — que Laz e a autointitulada Gangue da Luz buscam a diferença que significará a vitória (ou a derrota) decisiva. Se é que aquilo tudo é mesmo real, no final das contas...


Sobre os desdobramentos intrincados, não é força de expressão. Veitch criou um universo vasto e riquíssimo, com várias soluções inusitadas para evitar o lugar-comum.

Um exemplo é no início, quando Laz chega ao Portal Negro e vê seus velhos amigos combatendo Deadsiders com indumentárias e armamentos remetendo aos séculos 16 e 17. As circunstâncias naquela galáxia eram ainda mais primitivas, quando houve um salto tecnológico a partir do ano 1519 terrestre. Não por acaso, o ano do falecimento de ninguém menos que Leonardo da Vinci. Tendo trabalhado como arquiteto e engenheiro militar para os Bórgia, Leonardo também projetou várias fortalezas e instrumentos bélicos, o que lhe rendeu uma passagem só de ida para aquela guerra.

O polímata italiano foi o primeiro a explorar o potencial dos Menteps, criaturas azuladas ligadas diretamente à Fonte. Além de um grande alcance telepático, esses seres têm o poder de levitar e acelerar qualquer objeto à velocidade da luz. Assim, eles passam a usar essa capacidade nas imensas belonaves de pedra utilizadas pelos soldados da Galáxia da Luz.

Contudo, mesmo sendo um pioneiro e visionário, Leonardo ainda era limitado à perspectiva de seu tempo.

Dessa forma, naquele continuum (ou, como Cam Kennedy gosta de dizer, naquele "plano temporal alternativo"), toda a evolução tecnológica e cultural estagnou por volta do ano 1700 em padrões de tempo terrestres.


O Grande Encontro: Leonardo da Vinci e Nikola Tesla esquadrinhando os rumos da guerra

Outro gênio a aportar na Galáxia da Luz foi o revolucionário inventor e engenheiro Nikola Tesla, falecido em 1943. Em Abraxas, o controverso cientista enfrenta o protecionismo quase dogmático ao redor das criações defasadas de Leonardo. Pressionado pelo Conselho da Conferência Galáctica, ele passa a trabalhar numa "Máquina de Destruição" (vulgo seu-2º-Raio-da-Morte). Enquanto isso, Nicholas Tesla, seu neto (ficcional), inadvertidamente desenvolve na Terra um dispositivo capaz de abrir um portal para aquela dimensão. E essa é só a ponta de Taa II.

A Guerra de Luz e Trevas é uma convergência das influências literárias com as experiências pessoais de Tom Veitch. Antes de se tornar escritor e quadrinista, ele viveu na clausura como monge beneditino por alguns anos. Suas convicções espirituais sempre estiveram presentes em suas obras e ressoaram ainda mais intensamente nesta HQ. Além dos generosos apêndices entre os capítulos e das referências espertas, Veitch inseriu versículos de uma "Bíblia Mentep", fornecendo mais pistas sobre as origens daquele universo.

Na trama, essa característica é explorada até ao ponto em que os mundos físico e espiritual passam a interagir nos dois sentidos. Fora todo o processo cármico dos espíritos de soldados humanos servindo como reforços de guerra num mundo espiritual, em dado momento, as forças da Luz e das Trevas são atualizadas com o arsenal bélico da Terra dos dias atuais. Nada mais natural: se há algo em que somos muito bons é em espalhar sofrimento e destruição em larga escala.

Uma premissa que parece ter servido de base para o filme Anjos Rebeldes (The Prophecy, 1995), em que anjos disputam a alma de um recém-falecido coronel veterano da Guerra da Coreia. Uma alma tão vil e cruel que é considerada pelos seres celestiais como a "alma mais sombria da Terra" e que pode decidir os rumos de uma guerra civil no Paraíso.

Além da espiritualidade, outra grande influência de Veitch era Tolkien. Enquanto Urumm/A Fonte é uma entidade ou força análoga ao Deus cristão, Lorde Na e o Senhor Oculto são análogos a Saruman e Sauron, de O Senhor dos Anéis — e os Deadsiders, swipes fáceis dos Uruk-Hai.

Mas Veitch não ficava apenas no plano abstrato e construía metáforas tristemente atuais ao mundo real. Mesmo com todo o poderio bélico à disposição, Lorde Na e seus minions excursionam pelas províncias sitiadas proferindo um discurso de ódio, violência e morte. Tudo isso enquanto "converte" populações vulneráveis em apoiadores-zumbis, exarcebando as táticas fascistas de controle como um típico autocrata das trevas.

É uma aula o modo como Veitch consegue abordar as questões mais espinhudas da discussão política sem sair do campo da alegoria.


A arte de Campbell "Cam" Kennedy é estonteante. O escocês passou a década de 1980 imerso nas linhas de produção da 2000 AD, especialmente nos títulos Judge Dredd e Rogue Trooper. Em A Guerra de Luz e Trevas, seu traço bebia na fonte de mestres como Gil Kane (na pegada detalhista), Sergio Toppi (vestimentas, expressões culturais multiétnicas) e Walt Simonson (construtos diversos, como naves, edificações, armas). Dinamismo, páginas duplas e takes panorâmicos das batalhas de tirar o fôlego.

A palheta de cores curtida em tons oitentistas se intermediava com um naipe de técnicas, belíssimas passagens de pinturas a óleo e aquareladas — reflexo da aversão do artista pelas colorizações digitais, prática que já se popularizava na época. Kennedy, que sempre detestou ser arte-finalizado por terceiros, fez tudo. O homem não era brincadeira.

Veitch e Kennedy sabiam o que tinham em mãos. E, mais importante, souberam vender o projeto. O próprio Archie Goodwin ficou tão fascinado pelo conceito que ele próprio se encarregou da edição da série ao invés de delegar para outro.

George Lucas gostava tanto de A Guerra de Luz e Trevas que entregou nas mãos de Tom Veitch a nova fase do Universo Expandido de Star Wars. O escritor, que não era bobo, tratou de convocar o amigo Cam Kennedy para repetir a parceria na nova empreitada — e seu grande fruto até hoje é bastante celebrado e discutido entre os fãs: a trilogia Império Negro.


Uma das duplas mais memoráveis das HQs

A conclusão sugestiva confirma uma sensação presente durante toda a leitura: as ideias de Veitch para aquele universo eram grandiosas demais para uma simples minissérie. Ele definitivamente não tinha terminado com o universo de A Guerra de Luz e Trevas.

Mas isso é algo que nunca mais saberemos.

Referências:
Entrevista com Tom Veitch
Entrevista com Cam Kennedy
Artigo na Amazing Heroes

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Universo Marvel 171

Jim Shooter nunca foi de medir palavras. Adoro a máxima de Bruce Jones resumindo como era trabalhar com o ex-editor-chefe-e-carne-de-pescoço da Marvel: "I was just in there dodging shots from Shooter." Trocadalho do carilho. Então, nada melhor para animar um evento ou um churrasco da firma que a presença desse ilustre controverso. Sempre rende —e rendeu bastante no Q&A da MegaCon Orlando, que rolou no início deste mês.

Neste trecho, ele conta sobre um telefonema muito suspeito que recebeu da Marvel a respeito de Guerras Secretas. Quase 40 anos depois da saga...


Em tradução livre, leve e solta:

"Esse palhaço me ligou da Marvel, não era editor nem nada. Ele era um executivo da administração de propriedades, o que é um pouco estranho. Ele me perguntou se eu queria escrever uma novelização de Guerras Secretas. E eu disse, bem, que pensaria a respeito. Então ele me mandou uma oferta e a oferta veio com um contrato e o contrato era grosso assim. E quase tudo daquilo era um contrato retroativo de prestação de serviços. E era legalmente coberto de todas as maneiras possíveis, se o tribunal não aceitasse aquilo, até seus filhos iriam pra cadeia. Isso é terrível e era tão somente um enorme e draconiano negócio de prestação de serviços. E haviam duas páginas sobre o quê o acordo realmente era e o acordo era inaceitável de todo jeito. Eu estava, tipo, 'não, não vou fazer isso, não é nem mesmo uma oferta real.' Acho que talvez ele pensava que eu estivesse desesperado ou algo assim. Então, eu recusei e aí recebo uma ligação de seu chefe, David Bogart, e ele é vice-presidente executivo de alguma coisa relacionada às propriedades. E ele pediu desculpas por esse cara subalterno que estava tentando me convencer a assinar o contrato antes... Ele disse, 'bem, eu realmente não posso falar sobre isso, mas gostaríamos que você assinasse um contrato de prestação de serviços' e, eu disse, 'tudo bem, envie para mim, eu trabalho por encomenda. É seu, apenas me envie a papelada.' E ele disse, 'não, estamos preparados para lhe pagar dez mil dólares para assinar o seu nome.' Eu disse, 'você não tem que me pagar nada, eu sei que foi um trabalho por encomenda, o que eu vou fazer, mentir?' Mas eles não tinham um único pedaço de papel que dissesse que eram os donos do Beyonder, Titânia, Vulcana e de quaisquer outros personagens que colocamos lá, incluindo a nova Mulher-Aranha e toda a coisa do Uniforme Negro, nada, e nenhum pedaço de papel para dizer que eram seus donos. Eu disse, 'você não tem que me pagar, mande o maldito papel, eu assino.' Ele disse, 'pegue o dinheiro, idiota.' Eu disse, 'tudo bem, eu pego.' Então, assinei o contrato e perguntei a ele, 'isso significa que você vai fazer um filme, certo?' Ele respondeu, 'não tenho autorização para falar sobre isso'. E eu disse, 'acho que você acaba de falar.'"

No fim, ele faz breves reflexões sobre a indústria hollywoodiana e o jeitinho à Odorico Paraguaçu de conduzir negócios por lá. Não nestes termos, evidentemente.

Primeiro: hábitos antigos não se perdem fácil. O "palhaço" que o diga. Devia ser um purgatório trabalhar com/pro Atirador. Segundo, muito provavelmente ele acaba de escancarar em praça pública qual será a direção do UCM pós-Kang. E isso é inconcebivelmente grande em escopo. Planejamento a longo prazo, é o que digo. Por último, é um testemunho inconteste do chapéu-seguido-de-bolada-nas-costas que a Marvel acabou de aplicar. Mais um.

Dez mil doletas não é nem 0,01% do bilhão fácil que o estúdio irá faturar com a bilheteria disso —pra não falar nos direitos de co-criação dos personagens citados (e mais um complicado: Venom) e o respectivo merchandising/pé de meia vitalício. Kevin Feige deve estar rolando de rir até agora.

E assim se encerra mais um capítulo de Cambalacho Marvel da Semana.®™

Se estivesse lá, teria dito a Shooter para perguntar antes e atirar assinar depois. E principalmente: "não pegue o dinheiro, idiota."

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

"Você viu o nascer do sol esta manhã?"


Com essas palavras, levei minha primeira porrada com uma série de tevê. E, quem diria, foi num episódio de Magnum.

Pra situar: na primeira metade dos anos 1980, os seriados americanos – chamados carinhosamente de "enlatados" – eram uma alternativa salvadora ao bandejão de novelas e filmes das décadas de 1950/60/70 reprisados ad nauseum. Em sua maioria, elas tinham uma pegada bem-humorada, sem grafismos ou nada parecido, mas ao menos eram relativamente atuais. E estamos falando de um gap de 1 ano entre o lançamento nos EUA e aqui. O que era inacreditável para aquela época. E inacreditável para esta.

Então, tinhamos lá a nossa cota de Carro Comando, CHiPs, A Super Máquina, Esquadrão Classe A, Duro na Queda, etc... E Magnum. Em comum, todas protagonizadas por heróis no sentido mais clássico da palavra. O Magnum de Tom Selleck era o exemplar perfeito. Detetive particular, festeiro, malandro, mulherengo, um bon vivant com sua coleção de camisas havaianas estoura-retina e eventuais arranhadinhas na quarta parede. Mas também dono de uma extensa ficha militar com seus anos servindo nos Navy SEALs. O cara era durão, mas sem perder a ternura.

Em suma, um genuíno all-american hero, com um inabalável código ético e moral como só os marketeiros yankees sabiam vender. E eles sabiam. Ah, sabiam.

Apesar da linha de trabalho, Thomas Sullivan Magnum III era a quintessência do sujeito boa praça que não media esforços para ajudar um amigo. E que jamais, jamais, daria o primeiro tiro. Aliás, isso era o versículo 0 da Bíblia dos enlatados: leve a justiça, não a execute.

E assim, Magnum seguiu +/- familiar até o episódio duplo que abre a 3ª temporada, "Did You See the Sunrise?". Escrita por Donald P. Bellisario, produtor e co-criador da série, a história traz Magnum e seu velho amigo T.C. (Roger E. Mosley) às voltas com o ardiloso Ivan (o ótimo Bo Svenson), um coronel soviético que fez a dupla comer o pão que o diabo amassou durante a Guerra do Vietnã. Ao final de uma turbulenta trama ao melhor estilo The Manchurian Candidate, Magnum parecia pronto para conduzir Ivan até a mão firme da justiça.

Ou assim pensava aquele molequinho em frente à TV.


Uma cena excepcional até hoje.

Não que Ivan não merecesse – fora tudo o que aprontou, ele ainda foi o responsável pela morte brutal do simpático Mac (Jeff MacKay), que estava na série desde o início. Mas lembro vividamente como foi caótico processar isso que foi uma subversão de tudo que era feito no segmento até então. Era como o primeiro tiro de uma guerra.

E o famoso tema da série, quebrando a crueza da conclusão com seu clima upbeat ensolarado, dava o toque surreal...

Hoje, anos depois de Jack Bauer normatizar esse tipo de coisa umas 35 vezes/episódio, soa até trivial, a despeito do Selleck no modo sangue-nos-olhos. Mortes causadas por um herói a sangue frio-subzero simplesmente não existiam nesse formato. Não ainda. Miami Vice só estrearia dois anos depois. O Homem da Máfia, cinco. E nenhum destes tinha um good guy.

O episódio ganhou uma espécie de cult following ao longo dos anos. Bellisario ainda se diverte ao comentar o impacto da cena.

Magnum podia ser uma das séries mais assistidas, mas não das mais comentadas. Naquela semana, tudo mudou. Pra sempre.

sábado, 31 de outubro de 2020

This Bud's for Michael

Em algum ponto de 1980, o jovem John Carpenter começava a esboçar – a contragosto – o roteiro da aguardada sequência do clássico Halloween. Em sua companhia, apenas sua máquina de escrever, vários packs de cerveja e um persistente bloqueio criativo.

Cenário improvável para um comercial da Budweiser, mas o suficiente para a agência paulista Africa reproduzir a atmosfera opressora e angustiante daqueles dias.


Sensacional.

E agora quero uma cinebio completa do João Carpinteiro... tsc.

sábado, 18 de julho de 2020

Amanhã, apesar de hoje, será a estrada que surge pra se trilhar

David A. Weiner é o cara. Ano passado, o jornalista e cineasta esteve envolvido em dois excelentes docs: In Search of the Last Action Heroes e o divertidíssimo In Search of Darkness. Ambos essenciais pra quem curtiu in loco todo o esplendor do cinema de ação e terror da década de 1980. Agora ele volta seus esforços – ou seus raios tratores – ao crème de la crème da ficção científica oitentista. Behold the trailer!


In Search of Tomorrow chegou a abrir um KS no fim de maio e a meta foi superada em mais de quinze vezes – certamente reflexo da competência do moço e seu time nos docs anteriores. Além disso, o projeto é irresistível.

O cast parcial conta com medalhões tipo Sean Young, Ernie Hudson, John Carpenter, Paul Verhoeven, Joe Dante, Keith David e outros, mas também trará surpresas fora da curva como Jenette Goldstein, Catherine Mary Stewart, Vernon Wells, Charles Band e meu guia espiritual Steve De Jarnatt. Melhor que isso, só os filmes mesmo.

Estreia (estimada) para julho de 2021. Já é um motivo para o amanhã continuar existindo por pelo menos mais um ano.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Os milhões do Brewster!

Hoje a Sessão da Tarde exibe o filme Tô Ryca (Pedro Antônio, 2016), adaptação do livro Brewster's Millions, que o digníssimo - e por mim, desconhecido - George Barr McCutcheon publicou em 1902. Gostinho de sinal dos tempos com ficha caindo em loop.

Na Sessão da Tarde da minha época, uma reprise que eu nunca perdia era justamente uma adaptação homônima do mesmo livro, batizada aqui Chuva de Milhões (Walter Hill, 1985), com John Candy e o genial Richard Pryor. Tecnicamente, já era a adaptação cinematográfica da obra, fora musicais e peças.

A premissa é a fantasia besuntada em óleo de 99% da humanidade: sujeito falido e sem perspectivas descobre que herdou uma gigantesca fortuna (que varia de filme para filme, atualizada pela inflação), mas para receber a bolada, precisa torrar uma pequena fortuna num curto espaço de tempo. O que é (muito) mais difícil do que parece.

A sensacional cena com Pryor e o grande Hume Cronyn (o Joe, de Cocoon, e marido de Jessica Tandy) é autoexplicativa.


Revendo hoje, Chuva de Milhões é um tanto irregular. O próprio Walter Hill, que nunca foi um cara de comédias, desanca a obra de sua filmografia e admite que ele e Pryor só fizeram o filme por, duh, dinheiro.

O ritmo descompassado engessa John Candy e aproveita mal o carisma singular de Pryor e o terço final é algo caótico. Mesmo assim, o roteiro adaptado de Timothy Harris e Herschel Weingrod (do ótimo Trocando as Bolas) tem seus momentos e uma boa amarração. E com certeza, é bem mais divertido que o padrão das comédias atuais.

Seria uma Sessão da Tarde certa, fosse hoje um dia qualquer há 30 anos.

Minha nossa...

domingo, 17 de novembro de 2019

A Vingança de Darth Vader Jr.

E o fan made teaser metal hero (ou villain) do mês vai para... MacGaren, do paulista Rafael Segnini, designer digital e supervisor CG da Vetor Zero.


MacGaren é a 3ª parte do projeto Jaspion 3D  uma genuína trip àqueles saudosos finais de tarde no final da década de 1980 com a tevê fincada no canal 6 da TV Manchete. Visualmente, boa parte foi sintetizada aí: o design minimalista e elegante da armadura, a verborragia e os maneirismos pomposos e o estrobo de leds e raios coloridos, mesmo sob o tema dark característico do vilão pseudo-escocês. Um barato total.

Toei, Netflix, Amazon, Disney+... Alguém despeje alguns milhões de doletas na conta do rapaz para umas duas temporadas completas.