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8.11.09

Força bruta

O festival Planeta Terra possibilitou a exposição de duas formas opostas de performance musical: de um lado, Iggy Pop & the Stooges e, do outro, o Sonic Youth. Os dois grupos possuem, a seu favor, um inegável histórico de contribuições para o rock, carregando nas costas vários álbuns influentes.
O Sonic Youth, que tocou após uma enérgica apresentação do Primal Scream, optou por divulgar seu último álbum. De hits apenas a espetacular Hey Joni, de Daydream Nation, e Death Valley 69, do início da carreira da banda, gravada com a participação da "musa" No-Wave Lydia Lunch. O resto do show foi focado no som experimental da banda que, apesar de interessante, não combina com um festival do porte do Planeta Terra. O resultado visível: quem não era fã da banda ficou entediado.
Iggy Pop & the Stooges seguiu o caminho oposto: ciente que estava lá para animar milhares de pessoas, o grupo optou por escolhas certeiras de repertório: do início com Raw Power, até o final com Lust for Life, passando por Fun House, Gimme Danger, 1970 e The Passenger, o setlist foi irrepreensível. Mas não é só isso: Iggy Pop, como era de se esperar, deu um show a parte: dançou, correu, chamou o publico para o palco, se enfiou no meio da platéia e tocou boa parte do tempo com a bunda de fora. Mesmo quem não era fã de carteirinha da banda se impressinou com a atuação do frontman.
E esta aí a diferença: Sonic Youth pareceu ignorar as característica do Planeta Terra, do público, de sua história e a mediocridade do último álbum. Já Iggy Pop sabia para que estava lá para divertir o público, seja ele composto ou não de fãs fanáticos.

* * *

Além de Iggy Pop e Sonic Youth, assisti aos seguintes shows:
Primal Scream: a banda teve sérios problemas como som no começo, que estava baixo e abafado. Mas assim que o problema foi resolvido a coisa engatou e canções como Movin' On Up, Accelerator, Rocks e Swastika Eyes garantiram a diversão. Detalhe, ainda, para o Bobby Gillespie andando calmamente pelo público não-VIP durante o show do Iggy Pop.
Maxïmo Park: chato. Ponto final.
Copacabana Club: um Cansei de Ser Sexy capitaneado por uma cantora que, definitivamente, não cansa de ser sexy. Tirando a vocalista, é apenas um sub-CSS.
Ting Tings: quem trocou o Iggy Pop pelas Ting Tings garantiu seu lugar no inferno do rock.

5.6.09

Preliminares

Iggy Pop é conhecido por ser o sujeito selvagem que, à frente dos Stooges, deu o pontapé inicial do que viria a se tornar o punk rock. Todavia, dois de seus melhores discos, The Idiot e Lust for Life, feitos em colaboração com um inspiradíssimo David Bowie, são bem diferentes dos discos iniciais de sua carreira: ao invés de urrar sobre guitarras pesadas e batidas tribais, Iggy Pop se tornou uma espécie de crooner decadente acompanhado por camadas de teclados e batidas mais dançantes. Nesta fase foram produzidas belas canções como Nightclubbing, China Girl, Lust for Live e, claro, The Passenger.
E foi justamente nestes discos que Iggy Pop conseguiu equilibrar seu lado selvagem (ou dionísico, como gosta de dizer) com todo o background intelectual que possui. Sim, Iggy é um cara letrado: uma pequena prova disso é o título do disco de 1977, inspirado na obra O Idiota, de Dostoiévski.
Contudo, após esses ótimos discos, Iggy Pop não produziu praticamente nada de muito interessante. Adotou a persona de porra-louca que fez sua fama e tocou a vida cambaleando pelos anos 80 e 90. A única coisa relevante que fez nessa fase, Candy, se distanciava muito da selvageria. E o ápice do fracasso foi o disco lançado com os Stooges, The Wilderness, absolutamente desinteressante.
Felizmente, Iggy é um cara inteligente e conseguiu dar a volta por cima esse ano com um belo lançamento neste ano: Preliminaires. O disco abre com a canção Les Feullies Morts, balada em francês acompanhada por um órgão soturno. O clima pouco roqueiro continua pelo disco todo, com destaque para Spanish Coast, Party Time, o belo dueto Je Sais que Tu Sais e uma versão da bossa nova How Insensitive. Mas esqueçam o banquinho e o violão: como o resto do disco, a canção é sinistra, sombria e melancólica.
O que dizer do álbum, portanto? Para mim, é a típica obra de um roqueiro velho, que se cansou de urrar, saltar no palco e se auto-mutilar. E, artisticamente falando, essa tomada de consciência foi a melhor coisa que aconteceu para Iggy Pop nos últimos anos...




14.12.05

Melhores de 2005

A música pop, desde antes de Nick Hornby e as listas de "Alta Fidelidade", vive de ciclos anuais. E todos os fins de ano chovem listinhas com os melhores lançamentos, revelações e afins. Como sou um amante dessas listas, cá está a minha. Este ano, inclusive, pude me dar o luxo de elencar os melhores shows. Então, lá vão minhas escolhas:

1. The Secret Migration (Mercury Rev): produto de uma banda madura, empenhada simplesmente em fazer boas canções. Ótimas melodias, harmonias que vão da psicodelia de bandas como Love até o folk-country de Neil Young, além de uma infinidade de imagens e metáforas geniais infestando as boas letras do grupo.

2. Funeral (Arcade Fire): tá, o disco é do ano passado, mas só no começo desse ano que ele caiu na minha mão e eu ouvi direitinho. Esquivando-se das modas desse começo de século, como a revisita à New Wave ou o rock garageiro, esse octeto canadense usa uma infinidade de influências e instrumentos para criar uma massa sonora impecável, cortada por melodias e riffs grudentos. E eles ainda tocaram no Brasil!

3. Black Sheep Boy (Okkervil River): Will Sheff, líder dessa banda norte-americana, inspirou-se na história do compositor Tim Hardin para criar um álbum com ares country, mas permeado de instrumentos diferentes, como acordeões e trompetes, e guitarras saturadas na medida certa. Destaque para as letras do álbum, como os seguintes versos da canção "For Real": "Some nights I thirst for real blood, for real knives, for real cries. And then the flash of steel from real guns in real life really fills my mind."

4. You Could Have It So Much Better (Franz Ferdinand): ao invés de seguir a fórmula do genial disco anterior, o grupo de Alex Kapranos optou por investir em outros sons. O primeiro single, "Do You Want To" trocou os riffs insanos de "Take Me Out" por ótimas batidas dançamtes. Já em "Walk Away" há a invocação dos Smiths em uma balada cheia de melancolia e ironia: "And I'm not cold, I am old/At least as old as you are".

5. Clap Your Hands Say Yeah (Clap Your Hands Say Yeah): guiada pela voz desafinadíssima de Alec Ounsworth (algo entre Bob Dylan e Gene Ween), esse grupo de Nova York faz um indie-rock cheio de qualidade e originalidade. Além do mais, esta é mais uma daquelas bandas que soube usar muito bem o boca a boca virtual e a distribuição maciça de MP3 para garantir um lugar ao Sol.

Menções honrosas: Antony & The Johnsons (baladas tristes, com ecos da fase Berlin de Lou Reed), Kaiser Chiefs (dance, motherfucker, dance), Bloc Party (mais rock dançante), Raveonettes (Buddy Holly encontrando o Jesus and Mary Chain), Ryan Adams (voltou a calçar suas botinas e lançou um monte de discos novos), José Gonzales (folk-singer que coloca o queridinho Willy Manson no chinelo), Sufjan Stevens (baladas folk dedicadas ao estado de Illinois).



Arcade Fire


Shows:

1. Mercury Rev (Curitiba Rock Festival): amparando-se no repertório do último disco, "The Secret Migration", e nos hits dos álbuns anteriores, o grupo evocou a atmosfera folk-psicodélica de estúdio de forma primorosa. Vale ainda lembrar da performance teatral de Jonathan Donahue e das imagens projetadas ao fundo da banda, que se integravam perfeitamente às canções.

2. Flaming Lips (Claro que é Rock): mesmo quem nunca tinha ouvido a banda adorou o show. Teve tudo: bolha espacial, confetes, serpentinas, ursinhos de pelúcia, bexigas e demais esquisitices providenciadas por Wayne Coyne e sua mente fritada pelos anos de consumo de drogas. E não faltaram os hits da banda, como "Do You Realize?" e "She Don’t Use Jelly", os quais foram devidamente acompanhados dos covers de uma versão karaokê de "Bohemian Rapsody" e da bélica "War Pigs", do Black Sabbath.

3. Arcade Fire (Tim Festival): a perfeita vingança dos nerds. Um bando de canadenses esquisitos que conseguiram fazer violinos e acordeões soarem mais pesados que as guitarras dos Kings of Leon. Somente Iggy Pop conseguiu rivalizar a energia e presença de palco do grupo em sua apresentação carioca.

4. Wilco (Tim Festival): solos longos à la Neil Young, baladas certeiras e uma ou outra dose de experimentalismo distribuídas em duas horas de show. Com mais de uma década de estrada, Jeff Tweedy contou com sua experiência e o amplo repertório da banda para fazer uma das melhores apresentações do ano.

5. Iggy Pop (Claro que é Rock): ele é o Iggy Pop. Ele tocou sem camisa e com o cofrinho a mostra. Ele se enfiou no meio do público, arrumou encrenca com os seguranças e com a "fuckin’ MTV". E tocou "I Wanna Be Your Dog" duas vezes. Precisa mais?

17.8.05

Brothers and sisters, are you ready?

Acredito que quase todas as pessoas que compareceram na noite de sábado do Campari Rock esperavam ver no DKT/MC5 um simples tributo ao passado de uma das mais influentes bandas de rock da história, já que shows de “lendas vivas” costumam ser cercados mais pela importância histórica e pelos hits do que pela esperança de uma apresentação memorável.
Contudo, o DKT/MC5 frustrou todos que foram à Fábrica da Lapa com essa expectativa. Apesar do palco ter sido dominado por quatro senhores (os três membros remanescentes do MC5, mais o guitarrista convidado Marshall Crenshaw), os primeiros segundos de “Ramblin’ Rose” mostraram que o grupo não ia se limitar a um simples tributo àquele MC5 que terminou no início dos anos 70.


Wayne Kramer em apresentação com o DKT/MC5


Durante todo o espetáculo, Wayne Kramer não parou de disparar riff seguido de riff sobre o público, empunhando sua guitarra como uma das armas que ele devia usar para assaltar casas durante os anos 70. Apesar de seu comportado traje branco, do fato de ter puxado um corinho com o público durante “Rama Lama Fa Fa Fa”, ou de ter ensaiado uma esdrúxula dancinha digna do grupo “É o Tcham”, Kramer manteve uma postura rocker que poucos, mas muito poucos mesmo, conseguem ter.
E o outro protagonista da noite foi o grande Mark Arm, cuja performance ensandecida lembrava a dos tempos áureos de Iggy Pop, também contemporâneo do MC5. Faltou somente andar sobre o público durante a última música do show, quando era arrastado de um lado pelo outro – sem soltar o microfone nem parar de cantar – pelo público.
No fim do espetáculo, o mais longo do Campari Rock, ficou a nítida impressão que aqueles quatro senhores – Mark Arm ainda não está tão velho para receber esse título – agarraram-se com muita dignidade e vontade ao que talvez seja uma das últimas oportunidades deles animarem alguns filhos da mãe e lembrarem que, apesar da ferrugem, o rock não morre tão cedo.