domingo, 29 de setembro de 2013
Movimento neopentecostal brasileiro – um estudo de caso
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Agora sim!
quarta-feira, 20 de março de 2013
Um dia de cada vez: meus devocionais
Por Priscila Rocha
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
"A Cabana", de William P. Young
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Em questão: Freud e C. S. Lewis
terça-feira, 10 de julho de 2012
A primeira resenha - "O homem eterno"
sexta-feira, 28 de maio de 2010
A Formação do Novo Testamento
Ao contrário do que se possa pensar, a Sagrada Escritura não existiu sempre na forma como existe hoje. Ela possui uma longa história de estudos lingüísticos, históricos e arqueológicos, tradição e discussão doutrinária. O livro A Formação do Novo Testamento é uma introdução à história do cânon neotestamentário. Seu autor, um dos maiores especialistas no assunto no século XX, explica como o texto que temos hoje foi compilado a partir de uma diversidade de manuscritos que datam do século III até o século XII, explica as principais características das diversas famílias de documentos e variantes redacionais que chegaram até nós, e dabate brevemente sobre a sua confiabilidade, atestando que se trata de um dos documentos mais bem conservados da antigüidade.
Em seguida, analisa os aspectos contextuais de cada um dos 27 documentos que formam o material neotestamentário, discutindo a sua autoria, datação, geografia e principais idéias teológicas. Para tanto, o autor levanta os argumentos que apóiam as várias teorias a respeito dos temas problemáticos do cânon, como o problema sinótico, a legitimidade do Evangelho de João, a autoria das Epístolas Pastorais e das Universais, etc.
Por fim, o autor conclui pela unidade teológica fundamental dos componentes do cânon, que seria expressa pela idéia da participação individual e coletiva na História da Salvação que se desenrola desde a criação do mundo até o seu ponto culminante na história, a vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, e adiante até consumação da história com a segunda vinda de Cristo.
Trata-se de um livro didático, sucinto e preciso, ideal para leitores leigos e iniciantes no estudo da Teologia a da História do Novo Testamento.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Introdução à Teologia Evangélica
Para Barth, a Teologia é a disciplina, comumente caracterizada como científica, que tem por objeto o conhecimento a respeito de Deus. Porém, o termo "Deus" está longe de ser inequívoco. De fato, ele afirma: "Não existe ser humano que, de maneira consciente, inconsciente ou subconsciente, não tenha seu Deus ou deuses como objeto de seu desejo e confiança mais elevados, como base de sua vinculação e compromisso mais profundos". Sendo assim, muitas das ideologias que se autoproclamam atéias, seriam, na verdade, diferentes formas de teologia. A teologia que Barth procura introduzir é a teologia evangélica, entendida como aquela que está ligada diretamente à revelação testificada nas Escrituras Sagradas e, em especial, nas páginas do Novo Testamento e também à sua redescoberta pelos Reformadores no século XVI.
Segundo Barth, a característica principal da teologia evagélica é a modéstia. A teologia só pode tratar de Deus na medida em que o próprio Deus se revela e se volta para a existência humana. Se alguma teologia pode ser feita, deriva suas condições de possibilidade do fato de que o próprio Deus toma a iniciativa de se manifestar. A razão e o engenho humanos não podem por suas próprias forças "aproximar-se" do objeto da ciência teológica.
Além disso, a teologia evangélica é livre, porque raciocina com base em três premissas básicas: na existência do homem confrontada com a revelação; na fé desses seres humanos, que foram dotados com a vontade e a capacidade de reconhecerem a revelação como favorável; e na razão, que permite a cognição teológica. Todas essas premissas se submetem ao fato que Deus é a medida do próprio conhecimento teológico e não o homem. Sendo assim, o assunto da teologia não está preso aos parâmetros humanos, mas age livremente.
Também, a teologia é uma ciência crítica, pois enfrenta continuamente à crise de estar exposta ao seu objeto e por ter de se reformular continuamente, em razão da experiência contínua e dinâmica da auto-revelação.
Barth reconhece a importância das Escrituras Sagradas como testemunha da Palavra de Deus, que no vocabulário de Barth equivale à auto-revelação de Deus por meio de Jesus Cristo. Afirma que a Teologia está abaixo das Escrituras e não pode ignorar sua autoridade vinculante como fonte preferencial dos estudos. Porém, não deixa de reconhecer o papel central da comunidade (igreja) e especialmente do Espírito Santo na elaboração teórica e na compreensão existencial pessoal da Boa Nova.
O papel do teólogo concentra em si uma grande responsabilidade. Não é possível ao teólogo permanecer neutro ou imparcial ao seu assunto. Pelo contrário, o conhecimento de Deus gera um abalo que motiva o comprometimento.
Finalmente, o conselho de Barth a todos aqueles que foram chamados ao labor teológico é que cultivem continuamente a oração, o serviço o estudo e o amor.
sexta-feira, 7 de maio de 2010
O Fazendeiro de Deus: uma história de fé e disseminação da Palavra de Deus
sexta-feira, 5 de março de 2010
Uma Introdução à Espíritualidade Cristã
MacGrath define a espiritualidade como "a busca por uma vida religiosa autêntica e satisfatória, envolvendo a união de idéias específicas de determinada religião com toda a experiência de vida baseada em e dentro do âmbito dessa religião"(p. 20). "Espiritualidade é a prática na vida real da fé religiosa de uma pessoa - o que a pessoa faz com o que crê"(p. 20). A definição do professor britânico, portanto, admite a possibilidade de outras espiritualidades, que não a especificamente cristã. Nesse sentido, o autor define, com auxílio do conceito mais geral, a espiritualidade cristã como "a busca por uma existência cristã autêntica e satisfatória, envolvendo a união das idéias fundamentais do cristianismo com toda a experiência de vida baseada em e dentro do âmbito da fé cristã" (p.20). "No cristianismo, a espiritualidade significa viver o encontro com Jesus Cristo. A expressão 'espiritualidade cristã' refere-se a como a vida cristã é entendida e às práticas devocionais explícitas desenvolvidas com vistas a nutrir e sustentar esse relacionamento com Cristo. A espiritualidade cristã pode, então, ser compreendida como a maneira pela qual indivíduos ou grupos cristãos buscam aprofundar sua experiência com Deus ou 'praticar a presença de Deus', para usar uma frase associada particularmente ao Irmão Lourenço" (p. 21).
Assim, a espiritualidade cristã se relaciona intimamente com a teologia e assim como ela está sujeita a variações que dependem de uma grande quantidade de variáveis: pessoais, denominacionais, históricas e relativas a posições em relação ao mundo e à cultura, que determinam diferentes práticas e costumes devocionais. Algumas das variações mais discerníveis na espiritualidade cristã estão ligadas às tradições denominacionais. Católicos, Ortodoxos e Protestantes apresentam diversidade nas ênfases e nos costumes facilmente observável.
Geoffrey Wainwright, citado por MacGrath, afirma também que é possível identificar cinco tipos básicos de espiritualidade cristã baseados nas atitudes de certos grupos na história para com a cultura.
O primeiro tipo é caracterizado pela posição de "Cristo contra a cultura". Essa é a abordagem que afirma o mundo como um ambiente hostil à fé cristã. Essa foi a espiritualidade da Igreja dos primeiros séculos, que tendia a desconfiar, ainda que respeitosamente, das autoridades oficiais e a procurar um distanciamento do mundo. A culminação dessa visão resultou no monasticismo. Essa atitude existe até hoje e influencia várias práticas cristãs na atualidade.
O segundo tipo é o "Cristo da cultura", que tende a uma atitude positiva em relação à cultura, afirmando que é necessário imiscuir os elementos da religião e da cultura em geral. Segundo MacGrath, foi essa a atitude da Igreja nos tempos de religião oficial do Império Romano e no Protestantismo Liberal do século XIX.
O terceiro tipo é o "Cristo acima da cultura" que reconhece a bondade imperfeita do mundo e da cultura, mas que acredita que, por meio da fé cristã, eles podem ser elevados e aperfeiçoados. Essa é a visão promovida por Tomás de Aquino na dualidade entre natureza e graça.
O quarto tipo é "Cristo e a cultura em paradoxo". Nesse tipo, afirma-se que, embora a cultura não seja essêncialmente má, é necessário que o cristão esteja preparado para as tensões e lutas que certamente ocorrerão. Segundo Niebuhr, Lutero era o perfeito representante dessa tendência. Wainwright também incluía Dietrich Bonhoeffer entre os integrantes dessa corrente.
O quinto tipo, "Cristo tranformador da cultura", se assemelha bastante ao "Cristo acima da cultura" e também enfatiza a necessidade de transformar a cultura, porém como uma esperança escatológica: o futuro redimirá a cultura. Wainwright inclui os irmãos Wesley nessa corrente pela sua ênfase constante na conversão e no aperfeiçoamento pessoal.
MacGrath aborda também a importância das principais doutrinas cristãs no desenvolvimento da espiritualidade, bem como das figuras da espiritualidade bíblica: festas, peregrinações, exílio, trevas e luz, purificação, deserto e silêncio. O erudito inglês fala sobre a importância do tempo de do espaço na espiritualidade: a prática de reservar certas datas comemorativas, a divisão em semanas, o dia monástico, a posição do templo, sua decoração e arquitetura, etc. É tratado também o problema do uso de imagens e símbolos como auxílio para a espiritualidade e os desafios da idolatria.
Por fim, o autor parte para a análise de textos tradicionais da espiritualidade cristã na história e aponta para a contribuição da leitura e meditação nesses textos para o aperfeiçoamento da vida cristã prática.
Trata-se de um excelente livro, que concilia erudição e simplicidade. Embora possua a estrutura de livro texto de um curso, pode ser lido sem enfado e continuamente como um livro comum.
Todas as citações foram extraídas de: McGrath, Alister. Uma introdução à espiritualidade cristã. São Paulo: Vida, 2009.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Se Deus existe, por que há pobreza?
O autor mostra que antes de se tentar resolver o paradoxo sofrimento/injustiça e existência de Divindade, é preciso estabelecer outra premissa para compreender Deus. A premissa da Bíblia é que Deus é amor. E como Deus deseja estabelecer relacionamentos verdadeiros, sendo onipotente, ele precisa se valer de outro poder. O poder mais digno, o único que possibilita relacionamento sem que seres humanos sejam esmagados pela onipotência, Deus, é o amor.
Para Jung Mo Sung se existe miséria, certamente a culpa não é Deus. Os seres humanos concebem sistemas perversos com exclusão social e marginalização econômica, que gera miséria absoluta. Tal sistema conspira contra a vida e é pecado, portanto, precisa ser denunciado para não continuar produzindo mortes desnecessárias.
Segundo o teólogo, a solução dos problemas sociais não se dá somente nos níveis pessoal ou comunitário. Nesses níveis podemos realizar ações locais e mais imediatas que ajudam algumas pessoas ou pequenos grupos. Mas, a grandeza e a complexidade dos problemas sociais no Brasil e no mundo exigem, além das nossas ações locais, uma solução também na esfera da estrutura socioeconômico e a política com ações sociais e política com ações sociais e políticas de médio e longo alcance.
“Lutar pela dignidade humana dos que estão sendo marginalizados (não somente em casos extremos, como o citado, mas também em outros do nosso cotidiano), significa ir contra as leis e valores morais da sociedade, contra a nossa própria situação de bem-estar. Significa não ganhar nada ou ganhar pouco em troca do esforço que pode nos trazer mais problemas. Diante de um dilema assim, podemos cair facilmente numa visão idolátrica de Deus e justificar a marginalização e a nossa indiferença, frente aos sofrimentos dos outros, em nome de alguma “providência divina” tranqüilizadora das nossas consciências”.
O autor diz que, para a cultura dominante no mundo atual, as pessoas valem de acordo com sua capacidade econômica a ou seu sucesso alcançado. Por isso não conseguem ver dignidade humana nas pessoas pobres ou em outras que não satisfazem suas exigências de status. “Quando nos convertemos, temos a experiência de Deus e vivemos de acordo com a fé na revelação de Deus, passamos a ver mais as pessoas como elas realmente são”.
O livro nos deixa a mensagem de que os pobres do mundo, os excluídos das sociedade, não tem fome somente de pão, mas também da humanidade que lhe é negada. Fome do Deus que não exclui ninguém e que está no meio do seres humanos. Por fim, Jung Mo Sung, observa que anunciar o Deus da vida é propor, em primeiro lugar, uma economia que “escute os clamores dos pobres” e coloque como um dos principais objetivos, se não o principal, o atendimento das necessidades dos mais fracos.
Por Priscila Rocha
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Clássicos Devocionais
Os textos estão organizados em uma parte preparatória seguida por seis partes: "Preparação para a vida espiritual", "A vida de oração", "A vida íntegra", "A vida no poder do Espírito", "A vida compassiva", "A vida centrada na Palavra" e "A vida sacramental". Cada uma delas enfatizando uma das dimensões da vida espiritual cristã que precisam ser desenvolvidas pelo crente.
Foster afirma que os cristãos de hoje não estão acostumados, como os antigos, à idéia de que é necessário se exercitar diariamente e disciplinadamente a fim de desenvolver experiências e relacionamento com Deus. Pelo contrário, verifica-se uma acomodação à simples afirmação da crença sem mais conseqüências. A iniciativa de Foster destina-se a enfatizar a necessidade do cultivo da disciplina espiritual para o fortalecimento da fé.
A fé, assim como a virtude, precisa ser exercitada para se aperfeiçoar. Isso não significa, porém, que exista uma técnica ou método para a espiritualidade. A própria diversidade nas experiências dos autores aponta para esse fato. Contudo, é possível extrair de cada um deles, lições valiosas a respeito da atitude de quem deseja conhecer melhor a Deus e fazer Sua vontade.
O livro traz também, após os textos, citações das Escrituras relacionadas, perguntas para a meditação e sugestões de exercícios que podem ser feitos em pequenos grupos ou individualmente, bem como sugestões de leitura para aprofundamento. A obra é interessante para a leitura e reflexão diárias e para o uso em pequenos grupos de discipulado.
"O custo do descomprometimento é a paz permanente, uma vida repleta de amor, fé que vê tudo na perspectiva do domínio supremo de Deus para sempre, esperança que sobrevive aos momentos mais aflitivos, força para fazer o que é certo e resistir ao poder do mal. Em resumo custa exatamente aquela abundância de vida que Jesus prometeu (João 10.10). O jugo de Cristo na forma de cruz é, afinal, um instrumento de libertação e poder para quem divide o jugo com Cristo e aprende a humildade e a singeleza de coração, que trazem descanso à alma. A perspectiva correta é ver o seguir a Cristo não apenas como necessidade, mas como cumprimento das possibilidades humanas mais nobres e como vida de alto nível." (trecho de "O Custo do Descompromentimento" de Dallas Willard, citado de Foster, Richard; Smith. James Bryan (org). Clássicos Devocionais. São Paulo: Vida, 2009, p. 35-36)
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Feridos em nome de Deus
“Quando a fé se deixa manipular, pessoas viram presas fáceis de toda sorte de abuso”
“Feridos em nome de Deus” da jornalista Marília de Camargo César aborda o “abuso espiritual”, definido como “o encontro de uma pessoa forte com uma fraca, em que a forte usa o nome de Deus para influenciar a fraca e levá-la a tomar decisões que acabam por diminuí-las física, material ou emocionalmente”. O livro mostra a manipulação da fé feita por pastores e líderes dentro das igrejas evangélicas. A autora relata histórias reais de pessoas que foram machucadas emocionalmente.
Ao lidar com feridas não cicatrizadas, Marília revela a urgência de um novo tipo de liderança, não autocrática, e de um novo membro, mais confiante em Deus e menos dependente do pastor local, a fim de que o espaço da igreja seja saudável, criativo e curador.
A obra traz, ainda, a análise do pastor Ed René Kivitz, da Igreja Batista da Água Branca, em São Paulo. A atmosfera mística dos cultos, com pregações contundentes e orações em línguas estranhas estimula essa percepção, analisa Kivitz.
Para o pastor batista, o pentecostalismo e depois o neopentecostalismo “abrasileiraram” o protestantismo histórico. O pentecostalismo recuperou o profetismo, que animou movimentos religiosos no Brasil, e o neopentecostalismo se apropriou de forças mágicas das religiões afro-brasileiras.
Marília justifica a escolha de seu tema: "Eu parti de uma experiência pessoal, de uma igreja que freqüentei durante dez anos. Eu não fui ferida por nenhum pastor, e esse livro não é nenhuma tentativa de um ato heróico, de denúncia. É um alerta, porque eu vi o estado em que ficaram meus amigos que conviviam com certa liderança. Isso me incomodou muito e eu queria entender o que havia dado errado. Não quero que haja generalizações, porque há bons pastores e boas igrejas. Mas as pessoas que se envolvem em experiências de abusos religiosos ficam marcadas profundamente".
Feridos em nome de Deus é leitura obrigatória para quem anseia por um cristianismo saudável e libertador. Uma denúncia do falso evangelho pregado por falsos cristãos; um sopro dos bons ventos da graça de Deus, que definitivamente precisa triunfar entre nós.
Por Priscila Rocha
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
O papel das emoções na genuína experiência espiritual
Alguns dizem que todo amor resulta do amor de si mesmo. É impossível, dizem, para qualquer pessoa amar a Deus sem que o amor por si mesmo esteja à raiz de tudo. De acordo com essas pessoas, quem quer que ame a Deus e deseje comunhão com Ele e deseje a sua glória, deseja essas coisas somente a propósito de sua felicidade. Assim um desejo pela própria felicidade (amor a si próprio) está na base do amor por Deus. Entretanto, aqueles que dizem isso deveriam perguntar-se porque uma pessoa colocaria sua felicidade em dependência da comunhão com Deus e Sua glória. Certamente isso é o efeito do amor a Deus. Uma pessoa tem de amar a Deus antes de perceber a comunhão com Ele e Sua glória como sua própria felicidade.(...)A causa mais profunda do verdadeiro amor a Deus é a suprema beleza da natureza divina. É a única coisa razoável a se acreditar. O que faz, principalmente, um homem ou qualquer criatura belo é sua excelência. Certamente a mesma coisa é verdadeira no que diz respeito a Deus. A natureza de Deus é infinitamente excelente; é beleza, fulgência e glória infinitas em si mesmas.(p.73) (*)
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Cartas a Malcolm
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
A Pergunta sobre Deus
Como fazer a pergunta sobre Deus em nosso tempo? "O discurso sobre o Deus vivo, criador do mundo, está ameaçado a converter-se hoje, até na boca dos cristãos, em um vocabulário vazio. Pelo fato de que a compreensão acerca da realidade do mundo no qual existimos, determinado como está pela ciência e pela técnica, faz o vocabulário Deus parecer supérfluo, senão até tolhedor. Uma determinada forma de viver e pensar sem Deus define atualmente o comportamento cotidiano de cada pessoa, incluindo, também, o cristão. Esse ateísmo vivido é hoje o ponto de partida evidente de toda a reflexão pensante. Já a mera pergunta acerca de se Deus existe e quem é Deus, não precisa hoje de uma justificação particular, quando se apresenta com a necessidade de ser levada a sério por todos, ao menos enquanto pergunta" (p. 5-6)
É assim que Wolfhart Pannenberg apresenta a problemática tratada no livro A pergunta sobre Deus, derivado de uma conferência proferida no Instituto de Teologia e Göttingen em Julho de 1964. De lá para cá, algumas coisas mudaram - há sinais de um reavivamento da teologia natural, as previsões de secularização irreversível com a final extinção da religião nos países ocidentais, feita pelos sociólogos, não se cumpriram, o renascimento de uma filosofia cristã, especialmente nas universidades americanas, está em marcha -, mas pode-se dizer que, em linhas gerais, o panorama desenhado pelo teólogo alemão ainda vale para o princípio do século XXI.
Desde meados do século XIX, afirma Pannenberg, a pergunta sobre Deus foi confinada a um contexto muito limitado. O desafio de Fichte à ideia de um Deus pessoal e, mais tarde, a tese de Feuerbach sobre uma antropologia religiosa tiveram grande repercussão sobre o entendimento filosófico acerca de Deus. A idéia de Deus passou a ser utilizada como uma forma de compreender melhor o homem, valendo a hipótese de Feuerbach de que o homem criou Deus à sua imagem, ou melhor, à imagem da perfeição das virtudes humanas e de que, portanto, a religião é uma antropologia alienada em que o discurso sobre o homem é projetado para um outro ser. Foi, com isso, deixada de lado a questão a respeito da efetividade de Deus ou de seu governo sobre o mundo.
Contudo, a questão continua a ser colocada. Karl Barth entendeu que o próprio ser humano consiste nessa interrogabilidade e que, de alguma forma, isso demonstra a referibilidade do homem à Deus, uma vez que não existe pergunta sem a prefiguração de uma resposta. Essa idéia de Barth, inspirada já pelo pensar de Kierkegaard, especialmente as reflexões feitas em O desespero humano, fez eco em toda a teologia posterior. Bultmann concorda com Barth "que a pergunta que o homem é, só pode ser corretamente compreendida a partir de Deus, o qual é a resposta ao interrogar do homem sobre sua autenticidade" (p. 20), mas discorda de que qualquer tipo de resposta possa ser derivada da interrogabilidade, senão a própria pergunta. Portanto, a interrogabilidade não levaria a qualquer conhecimento positivo sobre Deus. A própria razão natural, argumentou Bultmann, foi capaz de identificar a interrogabilidade, provalmente se referindo à filosofia existencialista.
Entretanto, a pergunta sobre Deus, que é também a pergunta sobre o homem (isso sem nenhuma recaída na "antropologia alienada", muito pelo contrário, com base em uma antropologia teocêntrica), continua a se colocar e devemos enfrentá-la. Não é possível estar-lhe indiferente, apesar do ocultamento promovido pela técnica. Pannenberg afirma que a resposta à pergunta remete ao futuro, mas já está presente: "A resposta definitiva à pergunta existencial do homem é, portanto, o próprio Deus no futuro de sua soberania, a qual consistirá na definitiva revelação de sua divindade, já que esta coloca a história do mundo à luz do fim e, dessa forma, decide e desvela o significado, a essência, de cada um de seus elementos particulares e de cada uma de suas figuras e acontecimentos, manifestando assim o Deus vindouro como Senhor de todas as coisas. A partir do momento em que Jesus aparece, este futuro de Deus já começa a determinar o presente. A partir da aparição e destino de Jesus, torna-se possível viver cada situação atual em sua constelação concreta, segundo a forma como dita situação aparece à luz do futuro de Deus e segundo, portanto, a forma de sua verdade definitiva" (p. 57-58).
Para conhecer melhor essa pergunta e sua posição no pensamento teológico contemporâneo, recomenda-se a leitura do pequeno, mas rico livro desse que é considerado por muitos o maior teólogo acadêmico da atualidade.
Todas as citações foram extraídas de: Pannenberg, Wolfhart. A pergunta sobre Deus. Tradução de Daniel Costa, São Paulo: Novo Século, 2002.