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domingo, 29 de setembro de 2013

Movimento neopentecostal brasileiro – um estudo de caso


 “Neste livro, o autor mostra dados preliminares sobre o neopentecostalismo brasileiro e a Igreja universal do Reino de Deus – IURD. O texto vai discorrendo sobre o desenvolvimento do pentecostalismo brasileiro, desde o seu início até o atual movimento da terceira onda.”

O missionário David Allen Bledsoe, com larga passagem por igrejas brasileiras, constrói uma verdadeira tese sobre o que é a IURD, passando pela análise de seu fundador e líder principal, organização eclesiástica, vias de ministério, mensagem fundamental e expansão no Brasil e no exterior.

Daí passa para todos os valores que facilitaram o crescimento da IURD e sua integração na sociedade brasileira, indo num crescente até se ter condições a responder à pergunta: “A IURD, como uma das manifestações mais visíveis do movimento neopentecostal brasileiro, facilita ou inibe o sucesso da evangelização na sociedade brasileira?”.

Desta forma, líderes eclesiásticos e leitores em geral poderão entender a complexidade, ensinamentos, estratégias e práticas da IURD e de igrejas congêneres, bem como entender como isso se encaixa na história do movimento neopentecostal brasileiro.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Agora sim!

Depois de muito tempo fora das resenhas da Biblioteca, volto a comentar sobre a nova leva de aquisições deste ano. E começo desta vez com o livro “Agora sim - teologia na prática do começo ao fim”, de Luiz Sayão, pela Voxlitteris. 

 “Nesta obra, com muita ponderação e bom senso, Luiz Sayão discute temas importantes como ética, racismo, fatalismo, liberalismo, misticismo, teologia bíblica, teologia da família, teologia/ sociedade e história da igreja de maneira simples, objetiva, criativa e bem-humorada” 

De certa forma, o autor consegue fazer isto e algo mais, até como visto em programas onde é produtor e apresentador, como o “Rota 66”, programa de rádio desenvolvido pela Rádio TransMundial e que também está disponível na seção de CD´s e DVD´s de nossa biblioteca.

Enfim, vale a pena a leitura deste livro, principalmente numa época onde é apregoado que teologia é muito complicado.

Por Giuseppe Miceli Jr.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Um dia de cada vez: meus devocionais


Em seu livro devocional, Um dia de cada vez, Claudia Pinzón, compartilha experiências pessoais, triunfos, fracassos e lições apreendidas durante sua trajetória de vida. Segundo a autora, a jornada diária das pessoas está cheia de altos e baixos, lutas e perturbações. A solução para esses entraves está na confiança que é depositada em Deus.
 
Esta obra foi escrita para que as pessoas encontrem sua verdadeira identidade de filho ao se relacionar em liberdade com o Pai Celestial e desfrutar da vida abundante que Ele proporciona.
 
Cada leitura diária inclui um versículo da Bíblia, bem como um lugar para você escrever seus pensamentos a partir da leitura.
 
Dentre as reflexões diárias do mês de março, a que mais chama à atenção é: “Deixe que Deus seja o seu tudo”. Quando se dá a Deus a oportunidade de está no comando de tudo pode-se viver mais confiante e tranquilo. O homem deve render sua vida a Deus reconhecendo-o em todos os caminhos e permitindo que Ele seja o guia da sua vida.
 
É preciso estar alerta, pois vivemos em um tempo onde há cada vez mais guerras, terremotos, fome, desastres, pragas, falsos profetas, que vêm apenas para confundir, e tempos em que muitos são perseguidos por proclamar a palavra de Deus.
 
Estejam Alertas!
 
“Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” (João 12:24).

Por Priscila Rocha

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

"A Cabana", de William P. Young

Por Roberto Torres Hollanda

Um romance, escrito em 2005 por um vendedor profissional, William P. Young, e publicado em 1º. de maio de 2007 por dois ex-pastores, Wayne Jacobsen e Brad Cummings, no qual foram gastos 300 dólares para sua divulgação, que entrou em oitavo lugar na lista dos livros mais vendidos, organizada pelo “USA Today” (01 mai 2008), tem alvoroçado cristãos aficionados da literatura religiosa.

O propósito do autor de “The Shack” (A Cabana) era atingir as pessoas “espiritualmente interessadas”; no início, seus seis filhos. As editoras religiosas julgaram o tema do livro muito polêmico; as profanas, muito piegas. Por isso, Cummings e Jacobsen resolveram criar uma editora (“Windblown”, Califórnia, EUA) para publicar o livro. Em maio de 2008 já tinham sido impressos mais de 800 mil exemplares.

Um especialista do mercado editorial afirmou que o público não estava interessado na ortodoxia teológica, mas no impacto emocional causado pelo romance.

Apenas um ano depois de publicado, “A Cabana” era o no. 1 da lista do “The New York Times” (08 jun 08), com mais de um milhão de exemplares vendidos.

Alguns líderes cristãos acusaram “A Cabana” de ser um livro herético.

Mas Eugene Peterson, exageradamente, comparou “A Cabana” com “O Peregrino”, de John Bunyan.

Raras vezes aconteceu tanta celeuma a respeito de ficção religiosa; nas Igrejas, tamanho interesse por um livro profano. Incontestavelmente, o romance capturou a imaginação de muitos leitores, católicos, protestantes, evangélicos e ateus.

A revista “Christianity Today” (10 jul 08) considerou-o não provávelmente herético, mas certamente incomum ao tratar da doutrina da Santíssima Trindade, debatida desde o tempo de Tertuliano (155-222). Young retrata as Pessoas da Trindade assim: Deus é uma mulher afro-americana; Jesus é um carpinteiro do Oriente Médio; o Espírito Santo é uma mulher asiática. 

 “The Washington Times” (07 ago 08) preferiu dizer que “A Cabana” é um romance não-ortodoxo, dirigido a cristãos desencantados com as Igrejas. Já atingia dois milhões de exemplares vendidos. Young disse que o livro tinha tornado Deus “acessível às multidões” (sic). Na verdade, Deus passava a ser visível e parte da Criação, porque assumiu um corpo físico, que, aliás, tinha a aparência de mulher. Cummings achava que “o público quer textos espirituais e está cansado de pregações”. 

 Mark Driscoll, pastor de uma megaigreja em Seattle, considerou o livro (http://videos.gospelmais.com.br/ - http://pagels.teamexpansion.org/) herético em relação à Santíssima Trindade. 

Em agosto de 2008, o livro foi lançado no Brasil pela “Sextante”; já no dia 27 desse mês entrou na lista dos mais vendidos. O cronista literário da “VEJA” (08 out 08) assinalou o fato de que livros de ficção estavam oferecendo “até comunicação direta com Deus”, não se contentando “em distrair o leitor nas horas vagas”. Formalmente, é um romance, mas serve “para consolar o leitor”. Em “O Diário de um Mago”, de Paulo Coelho, o leitor tinha uma história de iniciação esotérica. Em “A Cabana”, o leitor pode prescindir das Igrejas, sejam quais forem, e dos teólogos. Na revista, Young, pelo menos desde a edição de 24 fev 2010, esteve no topo da lista; nela permanecia durante as últimas 80 semanas consecutivas! 

 O romancista metido a teólogo esteve no Brasil em outubro de 2008; o comentarista da “VEJA” disse que “a heresia compensou” ... Quando chegou a Curitiba (PR) Young soube que quatro milhões de exemplares estavam espalhados pelo mundo. A “Gazeta do Povo” (29 out 08) revelou que Young acredita na Santíssima Trindade, mas não tem religião; sua vida (ou a vida de “Mack”, o protagonista do romance) teve duas crises: quando passou a duvidar de tudo e quando encontrou, na cabana, Deus, Jesus e o Espírito Santo – e repensou tudo. 

 Compramos, em Brasília, no dia 08 de abril p. p., nosso exemplar do livro, cuja venda talvez tenha ultrapassado a marca dos 10 milhões, traduzido para mais de 30 idiomas. 

 No livro, Young tenta (a partir da página 70), a seu modo, responder a questões cruciais do relacionamento do homem com a Trindade. Suas conversas (a partir da p. 76) são muito irreverentes, esquisitas, heréticas e anti-bíblicas. Basta dizer que “Deus” e o “Espírito Santo” revelam a Young que tinham assumido, no passado, a forma humana (p. 89). Por sua vez, “Jesus” não tinha qualquer poder (p. 90) em Si mesmo, mas declara-se como “o melhor caminho”. “Deus” não quer punir os pecadores (p. 109), mas a Bíblia (II Timóteo 4: 8; Hebreus 12: 23; Tiago 5: 9) diz que Deus Pai é juiz. Para Young, existe absoluta igualdade na autoridade das Pessoas da Trindade e submissão dessas Pessoas ao ser humano; isto pode levar à idolatria (p. 114). O protagonista parece surpreso com o universalismo de Deus Pai, pronto a receber e reconciliar-se com todos os pecadores. Young reanima o Modalismo do século 4 e nega a hierarquia entre as Pessoas da Trindade. 

 A Igreja cristã, desde os seus primórdios, tem discutido sobre a Trindade; sua teologia é bem diferente das conversações dos personagens de Young. 

 Parece que, entre os 10 ou mais milhões de leitores de “A Cabana”, muitos são evangélicos. Pelo menos, acessando vários blogs, encontramos evangélicos postando mensagens simpáticas ao romance e à ideologia de Young. “A Cabana” não introduziu nas mentes dos evangélicos, mas, certamente, está popularizando essa ideologia. É, inegavelmente, um livro de leitura insinuante e sedutora. Leitor, cuidado! 

 Young e seus admiradores podem alegar que “A Cabana” é mera obra de ficção. Mas, na verdade, difunde argumentos de caráter pseudo-teológico. Isso, muitos crentes não percebem, e não conferem o texto profano com a Bíblia. 

 Um fato podemos constatar: a falta de conhecimento bíblico e teológico nas igrejas evangélicas da atualidade. Talvez esteja acontecendo com os alunos da Escola Bíblica Dominical o que aconteceu com “Mack”, o protagonista de “A Cabana” (p. 185): “Tinha as respostas certas algumas vezes, mas não conhecia vocês”.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Em questão: Freud e C. S. Lewis

De Gabriele Greggersen para Ultimato
 
O livro Deus em Questão, de Armand Nicholi, tem por objetivo apresentar os argumentos de um ateu e de um cristão sobre os mesmos assuntos: Deus, amor e sexo. O que a maioria dos leitores não sabia é que apesar da considerável diferença de idade (42 anos), eles tinham muito em comum:
 
As experiências de infância de Freud e Lewis revelam um paralelismo considerável. Tanto Freud quanto Lewis, quando meninos, tinham dons intelectuais que permitiam antever o profundo impacto que eles provocariam como adultos. Ambos sofreram perdas significativas nos primeiros anos de vida. Ambos tinham um relacionamento difícil, cheio de conflitos com os seus pais. Ambos foram instruídos desde cedo na fé da sua família e registraram uma aceitação nominal daquela fé. Ambos rejeitaram o sistema de fé anterior e se tornaram ateus na adolescência. Ambos leram autores que os persuadiram a rejeitar as crenças nominais da infância. Freud foi fortemente influenciado por Feuerbach e os muitos cientistas que ele estudou quando estudante de medicina e Lewis, pelos seus professores, que lhe davam a impressão de que “as ideias religiosas não passavam de ilusão... uma espécie de absurdo endêmico”. Lewis, entretanto, acabou rejeitando o ateísmo e abraçou a mesma visão que um dia havia considerado absurda. Como ele explicaria essa mudança drástica? O que levou Freud a continuar rejeitando a rica herança espiritual da sua família e permanecer ateu? (NICHOLI, 2005, p. 42-43)
 
Na primeira parte do livro, Nicholi analisa o percurso dos dois protagonistas, chamando a atenção sobre as suas experiências com a religião na infância, ambas negativas, mas com resultados contrastantes: uma adesão ao ateísmo materialista e uma conversão ao cristianismo após os 30 anos de idade. Lewis tendo sido influenciado fortemente na sua posição de ateu por Freud utiliza em parte os argumentos dele como base para apresentar as respostas alternativas do cristianismo. Os dois posicionamentos contrastam na prática principalmente face à morte de entes queridos e da própria morte. Enquanto Freud demonstra um medo e até pavor diante dela, Lewis demonstra uma serenidade sobrepujante ao período de “lamentações” da perda (conferir “Anatomia de uma Dor”).
 
Descobrimos ainda o celibato que Freud decidiu adotar nas últimas décadas de sua vida com sua esposa, que torna difícil entender como foi que ele se tornou o fetiche da liberalização sexual nas sociedades ocidentais; além de seu pedido ao seu médico, de que praticasse a eutanásia, quando ele ficou sabendo que seu câncer era terminal.
 
O primeiro ponto em que Lewis e Freud discordam teoricamente é a questão da criação do universo: se há ou não uma inteligência para além da natureza. Freud tinha uma visão naturalista, enquanto Lewis redefine o próprio conceito de “natureza”, inscrevendo-o no contexto maior da criação, visão essa que herda da leitura e estudo dos grandes clássicos cristãos da Idade Média. Nessa perspectiva criacionista, a natureza admite a possibilidade do sobrenatural, sem, com isso, necessariamente negar a ciência.
 
Outra questão muito importante é a moral: o que define as nossas atitudes, uma convenção social ou uma “lei” moral? Freud acreditava que as sociedades, para o bom convívio, tinham que se submeter a uma “ditadura da razão” (2005, p. 73), e confessou ao seu amigo, pastor Pfister, que não se preocupava muito com o certo e errado (FREUD, apud NICHOLI, 2005, p. 73). Já Lewis, depois de sua conversão, passou a crer que a moral segue leis parecidas com as leis da matemática: todos nós sabemos em linhas gerais o que é certo e errado, porque elas estão inscritas na nossa natureza. Um dos grandes dilemas da humanidade, que é um dos motivos para a nossa angústia, é que sabemos o que é certo fazer, mas não conseguimos praticar o certo o tempo todo.
 
O tema da “realidade” é outro assunto importante do livro. Quando em “O Futuro de uma Ilusão” Freud fala com orgulho do filho que rejeita os contos de fada, Lewis diria que o filho estava adotando uma postura demasiadamente “adulta” para a sua idade e que muitos “adultos” podem aprender com o tipo de realismo que se encontra subjacente ao mundo das fadas. E nisso ele é completamente chestertoniano. Em uma de suas obras-primas, “Ortodoxia”, no capítulo dedicado aos contos de fada, Chesterton afirma: “O país das fadas nada mais é do que o país ensolarado do bom-senso”. (CHESTERTON, 2007, p. 82).1
 
Nicholi deixa clara a importância que Chesterton teve no processo de conversão de Lewis para o cristianismo, que Freud veria como fenômeno patológico e como cada vez mais profissionais da área reconhecem experiências espirituais como fenômenos não ligados a neuroses. Lewis também acreditava, ao contrário de Freud, que, se temos “desejos reprimidos”, isso aponta para a alguma realidade concreta. Não podemos simplesmente “inventar” anseios do nada, nem mesmo a partir de algum mito presente no inconsciente coletivo. Se temos desejo por coisas espirituais e por um Deus, ele deve existir concretamente. Toda a concepção de Lewis em relação à ilusão, à ficção e ao imaginário é diferente da de Freud em seus pressupostos e suas implicações. O pressuposto para Lewis é um mundo criado por um Ser Infinito que imprimiu a sua imagem no homem e essa impressão, essa imagem, faz com que ele sinta saudade ou um “longing”, um anseio, por seu Criador. Para Freud, não há essa figura do criador, o mundo veio do nada e o desejo pelo infinito e por coisas espirituais residem em um enorme ludibrio coletivo. Enquanto para um as coisas espirituais e de imaginação apontam para Deus, para outro elas apontam para uma doença crônica e coletiva. Em Lewis a imaginação, que assume uma dimensão tão positiva, quanto à própria ilusão e a culpa, que longe de ser uma neurose, como em Freud, apontam para a verdade da queda e limitação do homem.
 
Lewis afirma que crê em Deus, não como uma fantasia ou pura e simples imaginação, mas como “crê no sol, que não pode encarar diretamente, mas por meio do qual ele consegue ver e reconhecer todas as demais coisas”.
 
Ele também acreditava que “fazer de conta”, expressão usada por Freud para se referir à hipocrisia que muitas vezes envolve a religião, faz parte da natureza humana e que imitar é um dos comportamentos mais naturais do homem, precisamente porque ele foi criado como uma “imitação de Deus”. Acontece que no cristianismo o faz-de-conta acaba se tornando em realidade. Isso se mostra na história, citada em “Cristianismo Puro e Simples”, do rei que, por ser feio, passou a usar uma máscara para não assustar os seus súditos, e quando ele resolve retirá-la a assumir o seu rosto, qual não foi sua surpresa, quando viu que o rosto havia assumido a forma da máscara.
 
Nota:
1. Como foi bem observado por Nicholi, Lewis também deve a outro clássico de Chesterton, “O Homem Eterno”, suas convicções cristãs.
 
Referências:
CHESTERTON, G.K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2007.
FREUD, Sigmund. O Futuro de Uma Ilusão, O Mal-Estar na Civilização e Outros Trabalhos (1927-1931) Rio de Janeiro: Imago, 1974. (Edição Standard Brasileira de Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v XXI). Disponível aqui. Acesso 16 Ago. 2012.
NICHOLI Armand. Deus em Questão: C.S. Lewis e Sigmund Freud debatem Deus, amor, sexo e o sentido da vida. Trad. Gabriele Greggersen. Viçosa: Ultimato, 2005.

terça-feira, 10 de julho de 2012

A primeira resenha - "O homem eterno"


Bem, desde quando comecei a ser voluntário na Biblioteca há menos de um ano, tenho ficado empolgado com a quantidade de livros e filmes disponíveis. Foi me dado o desafio de se fazer uma resenha de um de seus livros. Espero que apreciem!


 

O homem eterno
Gilberth Keith CHESTERTON
Tradução de Almiro Pisetta
Editora: Mundo Cristão (2010)

 “Com sua prosa peculiar e seu humor britânico certeiro, Chesterton delicia o leitor com seu raciocínio envolvente e provocativo.” É desta forma, descrita em sua quarta capa, que Chesterton conduz o livro. Trata-se de uma viagem, sobretudo pela história do cristianismo, desde os primórdios, mas de forma tão sutil que o leitor não se dá conta disso.

O livro é assim dividido em duas partes. A primeira, chamada “Da criatura chamada homem”, o autor de certa forma analisa toda a história da civilização nos anos antes de Cristo, enfatizando a maneira de o homem buscar a Deus de forma errática, por meio de deuses pagãos, feiticeiros, demônios e criaturas variadas. Analisa especialmente as consequências deste relacionamento à história do homem e à queda de impérios.

A segunda parte, “Do homem chamado Cristo”, enfatiza como o nascimento de Jesus foi um momento único na história da humanidade em todos os pontos de vista. Enfatiza como o Verbo encarnado, o Príncipe da Paz é algo tão singular a ponto de não ter se igualado a qualquer outra divindade, a qualquer outro acontecimento no mundo. E principalmente enfatiza como sua morte e ressurreição foram tão maravilhosas a ponto de o mundo antigo de buscas erráticas do homem ter morrido e um novo mundo de reconciliação com Deus ter se iniciado.

“No terceiro dia, os amigos de Cristo vieram para o local ao romper da manhã e encontraram o túmulo vazio e a pedra removida. De várias formas eles perceberam a nova maravilha, mas até mesmo eles mal se deram conta de que o mundo havia morrido naquela noite. O que estavam contemplando era o primeiro dia de uma nova criação, com um novo céu e uma nova terra e sob as aparências do jardineiro Deus novamente caminhava pelo jardim, no frio não da noite e sim da madrugada”.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A Formação do Novo Testamento


"A alegria imensa e a paz profunda dos primeiros cristãos, testemunhadas pelo Novo Testamento, são inspiradas pela consciência comum a todos os autores de estar engajados nessa história particular e de participar de um mesmo acontecimento com todo o passado e todo o futuro. Fazendo parte dessa história, o tempo presente, intermediário entre a ressurreição de Cristo e seu retorno, ganha toda a sua importância como tempo do Espírito Santo, como tempo da Igreja, como tempo da pregação do evangelho. Pela fé, o ser humano do Novo Testamento integra sua existência individual nessa história, e precisamente no tempo e no lugar destinados a ele. Através de nosso nascimento natural fazemos parte da história de nossa família, de nosso povo e do mundo; 'crer' significa, no Novo Testamento, integrar-se, em virtude de uma decisão da fé, que é um 'novo nascimento', nessa história particular da salvação, cujo ponto culminante e significado é Cristo." (Cullmann, Oscar. A Formação do Novo Testamento. Tradução: Bertoldo Weber, 10ª ed. Revista, São Leopoldo: Sinodal, 2007, p. 95)


Ao contrário do que se possa pensar, a Sagrada Escritura não existiu sempre na forma como existe hoje. Ela possui uma longa história de estudos lingüísticos, históricos e arqueológicos, tradição e discussão doutrinária. O livro A Formação do Novo Testamento é uma introdução à história do cânon neotestamentário. Seu autor, um dos maiores especialistas no assunto no século XX, explica como o texto que temos hoje foi compilado a partir de uma diversidade de manuscritos que datam do século III até o século XII, explica as principais características das diversas famílias de documentos e variantes redacionais que chegaram até nós, e dabate brevemente sobre a sua confiabilidade, atestando que se trata de um dos documentos mais bem conservados da antigüidade.

Em seguida, analisa os aspectos contextuais de cada um dos 27 documentos que formam o material neotestamentário, discutindo a sua autoria, datação, geografia e principais idéias teológicas. Para tanto, o autor levanta os argumentos que apóiam as várias teorias a respeito dos temas problemáticos do cânon, como o problema sinótico, a legitimidade do Evangelho de João, a autoria das Epístolas Pastorais e das Universais, etc.

Por fim, o autor conclui pela unidade teológica fundamental dos componentes do cânon, que seria expressa pela idéia da participação individual e coletiva na História da Salvação que se desenrola desde a criação do mundo até o seu ponto culminante na história, a vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, e adiante até consumação da história com a segunda vinda de Cristo.

Trata-se de um livro didático, sucinto e preciso, ideal para leitores leigos e iniciantes no estudo da Teologia a da História do Novo Testamento.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Introdução à Teologia Evangélica


Não há dúvida a respeito da grandiosa influência da teologia de Karl Barth. Aplaudido e criticado, Barth traçou uma carreira brilhante como pastor, pensador e, sobretudo, como professor universitário. A obra Introdução à Teologia Evangélica é o resultado da última preleção do teólogo suíço como professor na Basiléia. Ao mesmo tempo em que a obra resume e esclarece vários pontos da doutrina barthiana, aconselha os neófitos a respeito dos desafios, dificuldades e vantagens da vocação.


Para Barth, a Teologia é a disciplina, comumente caracterizada como científica, que tem por objeto o conhecimento a respeito de Deus. Porém, o termo "Deus" está longe de ser inequívoco. De fato, ele afirma: "Não existe ser humano que, de maneira consciente, inconsciente ou subconsciente, não tenha seu Deus ou deuses como objeto de seu desejo e confiança mais elevados, como base de sua vinculação e compromisso mais profundos". Sendo assim, muitas das ideologias que se autoproclamam atéias, seriam, na verdade, diferentes formas de teologia. A teologia que Barth procura introduzir é a teologia evangélica, entendida como aquela que está ligada diretamente à revelação testificada nas Escrituras Sagradas e, em especial, nas páginas do Novo Testamento e também à sua redescoberta pelos Reformadores no século XVI.

Segundo Barth, a característica principal da teologia evagélica é a modéstia. A teologia só pode tratar de Deus na medida em que o próprio Deus se revela e se volta para a existência humana. Se alguma teologia pode ser feita, deriva suas condições de possibilidade do fato de que o próprio Deus toma a iniciativa de se manifestar. A razão e o engenho humanos não podem por suas próprias forças "aproximar-se" do objeto da ciência teológica.

Além disso, a teologia evangélica é livre, porque raciocina com base em três premissas básicas: na existência do homem confrontada com a revelação; na fé desses seres humanos, que foram dotados com a vontade e a capacidade de reconhecerem a revelação como favorável; e na razão, que permite a cognição teológica. Todas essas premissas se submetem ao fato que Deus é a medida do próprio conhecimento teológico e não o homem. Sendo assim, o assunto da teologia não está preso aos parâmetros humanos, mas age livremente.

Também, a teologia é uma ciência crítica, pois enfrenta continuamente à crise de estar exposta ao seu objeto e por ter de se reformular continuamente, em razão da experiência contínua e dinâmica da auto-revelação.

E, por último, a teologia evangélica é uma ciência alegre, já que reconhece que Deus age continuamente em favor do homem e deseja relacionar-se amorosamente com ele.

Barth reconhece a importância das Escrituras Sagradas como testemunha da Palavra de Deus, que no vocabulário de Barth equivale à auto-revelação de Deus por meio de Jesus Cristo. Afirma que a Teologia está abaixo das Escrituras e não pode ignorar sua autoridade vinculante como fonte preferencial dos estudos. Porém, não deixa de reconhecer o papel central da comunidade (igreja) e especialmente do Espírito Santo na elaboração teórica e na compreensão existencial pessoal da Boa Nova.

O papel do teólogo concentra em si uma grande responsabilidade. Não é possível ao teólogo permanecer neutro ou imparcial ao seu assunto. Pelo contrário, o conhecimento de Deus gera um abalo que motiva o comprometimento.

Finalmente, o conselho de Barth a todos aqueles que foram chamados ao labor teológico é que cultivem continuamente a oração, o serviço o estudo e o amor.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O Fazendeiro de Deus: uma história de fé e disseminação da Palavra de Deus


Confiança e crença no poder da fé. Essas são as principais características demonstradas em “O Fazendeiro de Deus”. O filme conta a história de Angus Buchan, um fazendeiro de origem escocesa, muito trabalhador, dedicado à mulher e aos filhos que se muda para à África do Sul para crescer e fazer riquezas, mas acaba enfrentando muitas dificuldades, sofre uma série de perdas. Apesar de todos os sofrimentos que passa, descobre o verdadeiro propósito da sua vida, o de servir e confiar no poder de Deus. Como consequência, em vez de riqueza, o fazendeiro passa a buscar ao Senhor e a disseminar a sua Palavra e encontra a felicidade, a paz e o sucesso. É uma história muito comovente e espetacular.

O gênero da produção é drama. Sua classificação etária é de 16 anos. Possui um elenco incrível entre eles Frank Rautenbach e Jeanne Nielson. Esse filme é baseado em fatos reais. Um dos fatos que mais chama a atenção é sua forma rústica, original e a maneira que ele prega a fé em Cristo.

Fazenda
Sua fazenda acabou tornando-se um ministério onde emprega trabalhadores locais, também criou um orfanato que acolhe crianças órfãs e vítimas da Aids. Vale a pena assistir o filme!

Por Priscila Rocha


sexta-feira, 5 de março de 2010

Uma Introdução à Espíritualidade Cristã


Uma Introdução à Espiritualidade Cristã de Alister McGrath é um livro de linguagem simples e didático a respeito de "um dos assuntos mais fascinantes que alguém pode estudar"(p.15). Sua leitura não pressupõe nenhum conhecimento prévio especial sobre o assunto, cumprindo assim sua função como texto introdutório.

MacGrath define a espiritualidade como "a busca por uma vida religiosa autêntica e satisfatória, envolvendo a união de idéias específicas de determinada religião com toda a experiência de vida baseada em e dentro do âmbito dessa religião"(p. 20). "Espiritualidade é a prática na vida real da fé religiosa de uma pessoa - o que a pessoa faz com o que crê"(p. 20). A definição do professor britânico, portanto, admite a possibilidade de outras espiritualidades, que não a especificamente cristã. Nesse sentido, o autor define, com auxílio do conceito mais geral, a espiritualidade cristã como "a busca por uma existência cristã autêntica e satisfatória, envolvendo a união das idéias fundamentais do cristianismo com toda a experiência de vida baseada em e dentro do âmbito da fé cristã" (p.20). "No cristianismo, a espiritualidade significa viver o encontro com Jesus Cristo. A expressão 'espiritualidade cristã' refere-se a como a vida cristã é entendida e às práticas devocionais explícitas desenvolvidas com vistas a nutrir e sustentar esse relacionamento com Cristo. A espiritualidade cristã pode, então, ser compreendida como a maneira pela qual indivíduos ou grupos cristãos buscam aprofundar sua experiência com Deus ou 'praticar a presença de Deus', para usar uma frase associada particularmente ao Irmão Lourenço" (p. 21).

Assim, a espiritualidade cristã se relaciona intimamente com a teologia e assim como ela está sujeita a variações que dependem de uma grande quantidade de variáveis: pessoais, denominacionais, históricas e relativas a posições em relação ao mundo e à cultura, que determinam diferentes práticas e costumes devocionais. Algumas das variações mais discerníveis na espiritualidade cristã estão ligadas às tradições denominacionais. Católicos, Ortodoxos e Protestantes apresentam diversidade nas ênfases e nos costumes facilmente observável.

Geoffrey Wainwright, citado por MacGrath, afirma também que é possível identificar cinco tipos básicos de espiritualidade cristã baseados nas atitudes de certos grupos na história para com a cultura.

O primeiro tipo é caracterizado pela posição de "Cristo contra a cultura". Essa é a abordagem que afirma o mundo como um ambiente hostil à fé cristã. Essa foi a espiritualidade da Igreja dos primeiros séculos, que tendia a desconfiar, ainda que respeitosamente, das autoridades oficiais e a procurar um distanciamento do mundo. A culminação dessa visão resultou no monasticismo. Essa atitude existe até hoje e influencia várias práticas cristãs na atualidade.

O segundo tipo é o "Cristo da cultura", que tende a uma atitude positiva em relação à cultura, afirmando que é necessário imiscuir os elementos da religião e da cultura em geral. Segundo MacGrath, foi essa a atitude da Igreja nos tempos de religião oficial do Império Romano e no Protestantismo Liberal do século XIX.

O terceiro tipo é o "Cristo acima da cultura" que reconhece a bondade imperfeita do mundo e da cultura, mas que acredita que, por meio da fé cristã, eles podem ser elevados e aperfeiçoados. Essa é a visão promovida por Tomás de Aquino na dualidade entre natureza e graça.

O quarto tipo é "Cristo e a cultura em paradoxo". Nesse tipo, afirma-se que, embora a cultura não seja essêncialmente má, é necessário que o cristão esteja preparado para as tensões e lutas que certamente ocorrerão. Segundo Niebuhr, Lutero era o perfeito representante dessa tendência. Wainwright também incluía Dietrich Bonhoeffer entre os integrantes dessa corrente.

O quinto tipo, "Cristo tranformador da cultura", se assemelha bastante ao "Cristo acima da cultura" e também enfatiza a necessidade de transformar a cultura, porém como uma esperança escatológica: o futuro redimirá a cultura. Wainwright inclui os irmãos Wesley nessa corrente pela sua ênfase constante na conversão e no aperfeiçoamento pessoal.

MacGrath aborda também a importância das principais doutrinas cristãs no desenvolvimento da espiritualidade, bem como das figuras da espiritualidade bíblica: festas, peregrinações, exílio, trevas e luz, purificação, deserto e silêncio. O erudito inglês fala sobre a importância do tempo de do espaço na espiritualidade: a prática de reservar certas datas comemorativas, a divisão em semanas, o dia monástico, a posição do templo, sua decoração e arquitetura, etc. É tratado também o problema do uso de imagens e símbolos como auxílio para a espiritualidade e os desafios da idolatria.

Por fim, o autor parte para a análise de textos tradicionais da espiritualidade cristã na história e aponta para a contribuição da leitura e meditação nesses textos para o aperfeiçoamento da vida cristã prática.

Trata-se de um excelente livro, que concilia erudição e simplicidade. Embora possua a estrutura de livro texto de um curso, pode ser lido sem enfado e continuamente como um livro comum.

Todas as citações foram extraídas de: McGrath, Alister. Uma introdução à espiritualidade cristã. São Paulo: Vida, 2009.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Se Deus existe, por que há pobreza?


O livro Se Deus existe, por que há pobreza? do respeitado teólogo cristão, Jung Mo Sung, conduz-nos a compreender a relação de Deus com a pobreza. O tema da obra é apresentada de forma desmistificada, mediante a análise das causas e dos contextos sócio-econômicos, demonstrando que a miséria dos excluídos é apenas uma das mazelas dos seres humanos que produzem ou aceitam sistemas sociais e políticos excludentes. Diante dessa realidade, o autor apresenta a fé em Deus como o caminho para vivermos valores mais solidários e humanos na atual sociedade individualista.

O autor mostra que antes de se tentar resolver o paradoxo sofrimento/injustiça e existência de Divindade, é preciso estabelecer outra premissa para compreender Deus. A premissa da Bíblia é que Deus é amor. E como Deus deseja estabelecer relacionamentos verdadeiros, sendo onipotente, ele precisa se valer de outro poder. O poder mais digno, o único que possibilita relacionamento sem que seres humanos sejam esmagados pela onipotência, Deus, é o amor.

Para Jung Mo Sung se existe miséria, certamente a culpa não é Deus. Os seres humanos concebem sistemas perversos com exclusão social e marginalização econômica, que gera miséria absoluta. Tal sistema conspira contra a vida e é pecado, portanto, precisa ser denunciado para não continuar produzindo mortes desnecessárias.

Segundo o teólogo, a solução dos problemas sociais não se dá somente nos níveis pessoal ou comunitário. Nesses níveis podemos realizar ações locais e mais imediatas que ajudam algumas pessoas ou pequenos grupos. Mas, a grandeza e a complexidade dos problemas sociais no Brasil e no mundo exigem, além das nossas ações locais, uma solução também na esfera da estrutura socioeconômico e a política com ações sociais e política com ações sociais e políticas de médio e longo alcance.

“Lutar pela dignidade humana dos que estão sendo marginalizados (não somente em casos extremos, como o citado, mas também em outros do nosso cotidiano), significa ir contra as leis e valores morais da sociedade, contra a nossa própria situação de bem-estar. Significa não ganhar nada ou ganhar pouco em troca do esforço que pode nos trazer mais problemas. Diante de um dilema assim, podemos cair facilmente numa visão idolátrica de Deus e justificar a marginalização e a nossa indiferença, frente aos sofrimentos dos outros, em nome de alguma “providência divina” tranqüilizadora das nossas consciências”.

O autor diz que, para a cultura dominante no mundo atual, as pessoas valem de acordo com sua capacidade econômica a ou seu sucesso alcançado. Por isso não conseguem ver dignidade humana nas pessoas pobres ou em outras que não satisfazem suas exigências de status. “Quando nos convertemos, temos a experiência de Deus e vivemos de acordo com a fé na revelação de Deus, passamos a ver mais as pessoas como elas realmente são”.

O livro nos deixa a mensagem de que os pobres do mundo, os excluídos das sociedade, não tem fome somente de pão, mas também da humanidade que lhe é negada. Fome do Deus que não exclui ninguém e que está no meio do seres humanos. Por fim, Jung Mo Sung, observa que anunciar o Deus da vida é propor, em primeiro lugar, uma economia que “escute os clamores dos pobres” e coloque como um dos principais objetivos, se não o principal, o atendimento das necessidades dos mais fracos.

Por Priscila Rocha

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Clássicos Devocionais


Clássicos Devocionais, editado por Richard Foster e James Bryan Smith, é uma coletânea de textos devocionais extraídos de obras clássicas sobre espiritualidade e vida cristã. Os autores cujos textos compõem o livro são oriundos de diversas tradições cristãs e de diversos períodos da história da Igreja, desde Atanásio até Kathleen Norris, passando por Bernardo de Claraval, Francisco de Assis, Martinho Lutero, John Wesley e C. S. Lewis. Sobretudo, são autores cujas idéias e exemplos de vida resistiram ao tempo e são admiráveis e úteis até hoje.

Os textos estão organizados em uma parte preparatória seguida por seis partes: "Preparação para a vida espiritual", "A vida de oração", "A vida íntegra", "A vida no poder do Espírito", "A vida compassiva", "A vida centrada na Palavra" e "A vida sacramental". Cada uma delas enfatizando uma das dimensões da vida espiritual cristã que precisam ser desenvolvidas pelo crente.

Foster afirma que os cristãos de hoje não estão acostumados, como os antigos, à idéia de que é necessário se exercitar diariamente e disciplinadamente a fim de desenvolver experiências e relacionamento com Deus. Pelo contrário, verifica-se uma acomodação à simples afirmação da crença sem mais conseqüências. A iniciativa de Foster destina-se a enfatizar a necessidade do cultivo da disciplina espiritual para o fortalecimento da fé.

A fé, assim como a virtude, precisa ser exercitada para se aperfeiçoar. Isso não significa, porém, que exista uma técnica ou método para a espiritualidade. A própria diversidade nas experiências dos autores aponta para esse fato. Contudo, é possível extrair de cada um deles, lições valiosas a respeito da atitude de quem deseja conhecer melhor a Deus e fazer Sua vontade.

O livro traz também, após os textos, citações das Escrituras relacionadas, perguntas para a meditação e sugestões de exercícios que podem ser feitos em pequenos grupos ou individualmente, bem como sugestões de leitura para aprofundamento. A obra é interessante para a leitura e reflexão diárias e para o uso em pequenos grupos de discipulado.

"O custo do descomprometimento é a paz permanente, uma vida repleta de amor, fé que vê tudo na perspectiva do domínio supremo de Deus para sempre, esperança que sobrevive aos momentos mais aflitivos, força para fazer o que é certo e resistir ao poder do mal. Em resumo custa exatamente aquela abundância de vida que Jesus prometeu (João 10.10). O jugo de Cristo na forma de cruz é, afinal, um instrumento de libertação e poder para quem divide o jugo com Cristo e aprende a humildade e a singeleza de coração, que trazem descanso à alma. A perspectiva correta é ver o seguir a Cristo não apenas como necessidade, mas como cumprimento das possibilidades humanas mais nobres e como vida de alto nível." (trecho de "O Custo do Descompromentimento" de Dallas Willard, citado de Foster, Richard; Smith. James Bryan (org). Clássicos Devocionais. São Paulo: Vida, 2009, p. 35-36)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Feridos em nome de Deus


“Quando a fé se deixa manipular, pessoas viram presas fáceis de toda sorte de abuso”


“Feridos em nome de Deus” da jornalista Marília de Camargo César aborda o “abuso espiritual”, definido como “o encontro de uma pessoa forte com uma fraca, em que a forte usa o nome de Deus para influenciar a fraca e levá-la a tomar decisões que acabam por diminuí-las física, material ou emocionalmente”. O livro mostra a manipulação da fé feita por pastores e líderes dentro das igrejas evangélicas. A autora relata histórias reais de pessoas que foram machucadas emocionalmente.


Ao lidar com feridas não cicatrizadas, Marília revela a urgência de um novo tipo de liderança, não autocrática, e de um novo membro, mais confiante em Deus e menos dependente do pastor local, a fim de que o espaço da igreja seja saudável, criativo e curador.


A obra traz, ainda, a análise do pastor Ed René Kivitz, da Igreja Batista da Água Branca, em São Paulo. A atmosfera mística dos cultos, com pregações contundentes e orações em línguas estranhas estimula essa percepção, analisa Kivitz.


Para o pastor batista, o pentecostalismo e depois o neopentecostalismo “abrasileiraram” o protestantismo histórico. O pentecostalismo recuperou o profetismo, que animou movimentos religiosos no Brasil, e o neopentecostalismo se apropriou de forças mágicas das religiões afro-brasileiras.


Marília justifica a escolha de seu tema: "Eu parti de uma experiência pessoal, de uma igreja que freqüentei durante dez anos. Eu não fui ferida por nenhum pastor, e esse livro não é nenhuma tentativa de um ato heróico, de denúncia. É um alerta, porque eu vi o estado em que ficaram meus amigos que conviviam com certa liderança. Isso me incomodou muito e eu queria entender o que havia dado errado. Não quero que haja generalizações, porque há bons pastores e boas igrejas. Mas as pessoas que se envolvem em experiências de abusos religiosos ficam marcadas profundamente".


Feridos em nome de Deus é leitura obrigatória para quem anseia por um cristianismo saudável e libertador. Uma denúncia do falso evangelho pregado por falsos cristãos; um sopro dos bons ventos da graça de Deus, que definitivamente precisa triunfar entre nós.


Por Priscila Rocha

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O papel das emoções na genuína experiência espiritual


A Genuína Experiência Espiritual, editada pela PES, é uma versão condensada e adaptada aos leitores modernos do Tratado sobre as Emoções Religiosas (1746) (A treatise concerning religious afections) de Jonathan Edwards (1703-1758), assim como o nosso campeão de leituras de 2009, Uma fé mais forte que as emoções, portanto pode-se dizer que a presente resenha também vale em relação a ele, muito embora a primeira obra tenha sido sua matéria-prima direta.

Seu autor, Jonathan Edwards, considerado por muitos até hoje o maior teólogo norte-americano, teve participação central no chamado Grande Despertamento do século XVIII. Edwards teve uma formação teológica e filosófica solida, sofrendo influência principal das obras de John Locke e de João Calvino. Seus escritos refletem suas influências ao prezar igualmente pela clareza lógica das idéias e pela busca constante pela fundamentação bíblica de suas posições.

O Tratado sobre a Emoções Religiosas surgiu da dupla necessidade de afirmar as emoções como demonstrações legítimas de uma religiosidade saudável e de desencorajar sua supervalorização, o emocionalismo religioso. Edwards afirma inicialmente que a religião verdadeira, o verdadeiro cristianismo, consiste principalmente em emoções santas. Sendo que, para o teólogo americano, emoções devem ser entendidas como "as ações mais vivas e intensas da inclinação da alma e da vontade" (p. 20). Para fundamentar sua posição inicial, o autor cita várias passagens bíblicas que exortam ou mesmo ordenam o crente a ter certas emoções como medo, esperança, amor, desejo, alegria, pesar, gratidão e misericórdia: I Cor. 13.13, Heb 6.19, I Tess. 5.8, Sal. 33.18, Prov. 8.13, Sal 97.10, Is 26.8, Sal. 63.1, Mat. 5.6, Fil. 4.4, Gal. 5.22, Mat.5.4, Col. 3.12, entre outras. O número de passagens é tão grande que Edwards recomenda que "se alguém quiser contestar isto, deve jogar fora a Bíblia e encontrar outro padrão pelo qual julgue a natureza da verdadeira religião" (p.25). Apesar da agressiva reação do teólogo contra os contestadores, é de se convir que Edwards constrói bem o seu argumento. Mais tarde cita também personagens bíblicas que se notabilizaram pela expressão de emoções santas como Davi, Paulo, João e o próprio Cristo, que os evangelhos afirmam ter chorado, se alegrado, se irado, se afligido, tudo isso de forma santa, pelos motivos certos e na proporção correta. Afirma também o teólogo outra evidência que aponta para a importância das emoções que são as constantes advertências bíblicas contra a dureza de coração presentes em Mar. 3.5, Sal. 95.7-10, Is. 63.17, II Cron. 36.13 e Ez. 11.19 e 36.26. A idéia de dureza de coração em todas essas passagens estaria ligada à frieza e à insensibilidade diante das emoções religiosas. Portanto, o correto entendimento do papel das emoções na espiritualidade deveria levar a não rejeitá-las como se fossem sinais de fraqueza, a cultivá-las de maneira santa e a não sentir vergonha delas.

Porém, o que diferencia as emoções que provêm de uma vida de conversão e arrependimento das emoções espúrias, pretensamente religiosas ou fingidas? Para responder a essa questão, Edwards começa dizendo o que não diferencia essas emoções:

1) Não é a intensidade o critério definidor, tanto cristãos como gentios são capazes de demonstrar sentimentos no mais alto grau.

2) Não são os efeitos das emoções no corpo o critério definidor. Apesar de serem aceitas por alguns como sinais últimos de uma espiritualidade profunda, reações como desmaios, arrepios, choros, calores em certas áreas do corpo, essas reações podem ser ou não provocadas pela ação do Espírito Santo. Não é incomum esse tipo de demonstração física em outras religiões ou mesmo em casos de histeria.

3) O fato das emoções produzirem um ímpeto para falar sobre Deus, ou louvá-lo, ou trazerem à lembrança versículos bíblicos, ou criarem um zelo pelos deveres externos do culto, ou gerarem uma sensação de segurança quanto à salvação não são índices de santidade emocional.(Agrupei esses pseudo-critérios, pois eles têm em comum a tentativa de justificar a emoção unicamente pelo seu efeito naquele que a experimenta). Todos esses efeitos podem ser produzidos por emoções "naturais", quando, por exemplo, elas trazem à memória versiculos ou hinos aprendidos na infância e tidos como boas lembranças ou quando o prazer de senti-las leva ao desejo de repetir a dose, criando a prática de cultuar com a finalidade de criar em si certas emoções.

4) O fato de serem produzidas pelo esforço também não é um bom critério para a distinção, pois a Bíblia descreve momentos em que os crentes são simplesmente tomados por emoções ao passo em que, em outros momentos, exorta seu cultivo. Edwards enfatiza que espíritos maus também podem ser responsáveis por inspirar certas emoções.

5) Finalmente, é impossível conhecer a natureza das emoções dos outros pela experiência ou através de relatos. Cada um deve sondar o seu próprio coração.

Existem, contudo, algumas características peculiares de emoções espirituais verdadeiras:

1) Elas são produzidas por experiências sobrenaturais e, portanto, são diferentes de qualquer sentimento que possa ser produzido naturalmente, por qualquer obra ou prática humana, ou, ainda, pela simples contemplação da natureza.

2) Seu propósito e sua causa são a beleza das coisas espirituais e não o nosso interesse pessoal. Nesse sentido, vale citar:

Alguns dizem que todo amor resulta do amor de si mesmo. É impossível, dizem, para qualquer pessoa amar a Deus sem que o amor por si mesmo esteja à raiz de tudo. De acordo com essas pessoas, quem quer que ame a Deus e deseje comunhão com Ele e deseje a sua glória, deseja essas coisas somente a propósito de sua felicidade. Assim um desejo pela própria felicidade (amor a si próprio) está na base do amor por Deus. Entretanto, aqueles que dizem isso deveriam perguntar-se porque uma pessoa colocaria sua felicidade em dependência da comunhão com Deus e Sua glória. Certamente isso é o efeito do amor a Deus. Uma pessoa tem de amar a Deus antes de perceber a comunhão com Ele e Sua glória como sua própria felicidade.

(...)

A causa mais profunda do verdadeiro amor a Deus é a suprema beleza da natureza divina. É a única coisa razoável a se acreditar. O que faz, principalmente, um homem ou qualquer criatura belo é sua excelência. Certamente a mesma coisa é verdadeira no que diz respeito a Deus. A natureza de Deus é infinitamente excelente; é beleza, fulgência e glória infinitas em si mesmas.(p.73) (*)

3) São baseadas na excelência moral das coisas divinas. Isso significa que as emoções cristãs nascem da contemplação da SANTIDADE de Deus. Santidade que torna mais claros os nossos próprios pecados e desperta a vontade de sermos santos. Por isso, transformam nossas naturezas e geram humildade e frutos de uma vida santa, ao invés de orgulho e vaidade. "Podemos testar nossos desejos pelo céu por essa regra. Queremos estar lá pela santa beleza de Deus que ali brilha? Ou nosso desejo pelo céu é baseado numa simples ansiedade pela felicidade egoísta?" (p. 79)

4)Surgem de e geram uma compreensão qualitativamente superior das realidades espirituais. Um teólogo espiritualmente emocionado é um melhor teólogo.

5) São simétricas e equilibradas.

A obra de Edwards apresenta uma posição sóbria, equilibrada, racional e biblicamente fundamentada (elementos que sempre deveriam estar presentes na reflexão teológica, mas que são frequentemente deixados de lado) a respeito do problema das emoções religiosas, um tópico que até hoje merece maior abordagem teológica. Alguns pontos negativos, porém, são a falta precisão na conceituação de emoção (ou afection, no original) e a tendência a considerá-la o único motor da ação humana, o que levaria a um determinismo emocionalista - segundo Edwards: "Não tomamos decisões ou agimos, exceto se o amor, o ódio, o desejo, o medo, ou alguma outra emoção nos influenciar" (p. 23) - que gera o seguinte problema: como poderíamos agir contra nossas emoções espúrias se são elas que determinam nosso agir?

Vale a pena conferir o livro A Genuína Esperiência Espiritual, disponível em nossa biblioteca.

* Apesar de apontado como um dos inspiradores do "hedonismo cristão" de John Piper, esse trecho mostra que algumas idéias (incapacidade de agir sem interesse próprio, satisfação como objetivo principal e não como produto do amor a Deus) dessa corrente teológica não seriam facilmente aceitas por Edwards (cf. Piper, John. Teologia da Alegria. São Paulo: Shedd)

** Todas as citações foram extraídas de: Edwards, Jonathan. A Genuína Experiência Espiritual. São Paulo: PES, 1993)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Cartas a Malcolm


C. S. Lewis não gostava de escrever cartas. Sua falta de inclinação para escrevê-las era conhecida de todos aqueles que conviviam com ele. Porém, raramente deixava de responder aos que procuravam contato epistolar. Várias de suas cartas, reservadas inicialmente para a intimidade dos interlocutores originais, foram postumamente publicadas e se tornaram célebres. Há um livro composto integralmente pelas cartas de Lewis a uma senhora americana (Cartas a uma senhora americana, editado pela Vida, disponível em nossa biblioteca) escritas ao longo de anos de correspondência. Também, recentemente, foram publicados os diálogos epistolares entre Lewis e Tolkien.

Parece que o exercício contínuo de corresponder-se, se não mudou sua opinião sobre o ofício, certamente aperfeiçoou sua capacidade de utilizar esse meio de comunicação como forma literária. Prova disso é que uma de suas mais conhecidas obras é um conjunto de cartas fictícias entre um demônio experiente e seu sobrinho com instruções sobre a arte de afastar as pessoas de Deus (Cartas de um Diabo ao seu Aprendiz, também disponível em nossa biblioteca).

Recentemente, a Editora Vida publicou mais uma obra epistolar do conhecido pensador Irlandês: Oração: Cartas a Malcolm. Trata-se, desta feita, de uma coleção de cartas a um amigo fictício chamado Malcolm. Nesse diálogo, são abordados vários assuntos, desde liturgia até doutrinas altamente complexas e abstratas como a impassibilidade de Deus e a natureza dos sacramentos. Todavia, o assunto principal, em torno do qual se desenvolvem esses temas marginais, é a oração.

Lewis enfatiza que não existe uma forma pré-definida para a realização da oração. Seja de joelhos, seja sentado, seja num quarto vazio, seja num trem cheio de pessoas e barulhos, a oração pode ser feita eficientemente. Importante na oração é a postura daquele que ora, no sentido de aproximar-se de Deus de forma sincera, sem máscaras, sem religiosidade hipócrita. E como isso é difícil!

O autor revela que não costuma usar e nem recomenda a oração por meio de fórmulas pré-prontas, pois essa prática tende a suprimir a espontaneidade; mas adverte que não é suficiente a abstenção daquela para preservar esta. Muitas vezes oramos com nossas palavras, mas de forma meramente automática. Pode ser, então, que aquele que repete sinceramente uma fórmula, aplicando-a a seu coração durante as orações, seja mais autêntico do que o que forja suas frases autonomamente, mas com frieza.

Lewis trata especialmente dos problemas a respeito da oração de súplica: qual a utilidade da oração em que pedimos algo a Deus se Seu plano é perfeito e imutável? Se o plano de Deus é imutável, como pode haver algo como a resposta a uma oração? Porque se a vontade de Deus já está estabelecida desde a eternidade, mesmo que não orássemos seríamos já, de antemão, respondidos, negativa ou afirmativamente. Então, nossas orações não fazem realmente nenhuma diferença.

Em resposta a essas questões, o autor das Crónicas de Nárnia rejeita a idéia de Deus como uma espécie de legislador universal das generalidades. Muito de nossas noções a respeito da onipotência e da forma como Deus governa o mundo, defende Lewis, são humanas demais. Só os governantes humanos governam massas com leis meramente gerais e abstratas. Deus, porém, governa o mundo nas especificidades, levando em conta as individualidades. Se Deus em seu eterno propósito levou em conta nossos erros, antes de os cometermos, porque não as nossas preces?

O pensador irlandês também adverte para o perigo da utilização de imagens, mesmo que sejam estritamente mentais, na oração. Ao criar essa imagens , podemos até nos concentrar melhor em nossa prece, porém corremos o risco muito maior de falsificarmos o nosso Divino Interlocutor. Não é incomum fazermos representações de Deus como um homem velho de expressão severa ou como um borrão de luz, ambas figuras enganadoras que nos podem desviar da relação efetiva com Ele.

Numa conversa elegante, ao mesmo tempo íntima e erudita, Lewis trata de vários outros assuntos pertinentes à disciplina da oração e à relação com Deus. Para saber mais sobre esses assuntos, basta ler esse excelente livro disponível em nossa biblioteca.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A Pergunta sobre Deus


Como fazer a pergunta sobre Deus em nosso tempo? "O discurso sobre o Deus vivo, criador do mundo, está ameaçado a converter-se hoje, até na boca dos cristãos, em um vocabulário vazio. Pelo fato de que a compreensão acerca da realidade do mundo no qual existimos, determinado como está pela ciência e pela técnica, faz o vocabulário Deus parecer supérfluo, senão até tolhedor. Uma determinada forma de viver e pensar sem Deus define atualmente o comportamento cotidiano de cada pessoa, incluindo, também, o cristão. Esse ateísmo vivido é hoje o ponto de partida evidente de toda a reflexão pensante. Já a mera pergunta acerca de se Deus existe e quem é Deus, não precisa hoje de uma justificação particular, quando se apresenta com a necessidade de ser levada a sério por todos, ao menos enquanto pergunta" (p. 5-6)


É assim que Wolfhart Pannenberg apresenta a problemática tratada no livro A pergunta sobre Deus, derivado de uma conferência proferida no Instituto de Teologia e Göttingen em Julho de 1964. De lá para cá, algumas coisas mudaram - há sinais de um reavivamento da teologia natural, as previsões de secularização irreversível com a final extinção da religião nos países ocidentais, feita pelos sociólogos, não se cumpriram, o renascimento de uma filosofia cristã, especialmente nas universidades americanas, está em marcha -, mas pode-se dizer que, em linhas gerais, o panorama desenhado pelo teólogo alemão ainda vale para o princípio do século XXI.


Desde meados do século XIX, afirma Pannenberg, a pergunta sobre Deus foi confinada a um contexto muito limitado. O desafio de Fichte à ideia de um Deus pessoal e, mais tarde, a tese de Feuerbach sobre uma antropologia religiosa tiveram grande repercussão sobre o entendimento filosófico acerca de Deus. A idéia de Deus passou a ser utilizada como uma forma de compreender melhor o homem, valendo a hipótese de Feuerbach de que o homem criou Deus à sua imagem, ou melhor, à imagem da perfeição das virtudes humanas e de que, portanto, a religião é uma antropologia alienada em que o discurso sobre o homem é projetado para um outro ser. Foi, com isso, deixada de lado a questão a respeito da efetividade de Deus ou de seu governo sobre o mundo.


Contudo, a questão continua a ser colocada. Karl Barth entendeu que o próprio ser humano consiste nessa interrogabilidade e que, de alguma forma, isso demonstra a referibilidade do homem à Deus, uma vez que não existe pergunta sem a prefiguração de uma resposta. Essa idéia de Barth, inspirada já pelo pensar de Kierkegaard, especialmente as reflexões feitas em O desespero humano, fez eco em toda a teologia posterior. Bultmann concorda com Barth "que a pergunta que o homem é, só pode ser corretamente compreendida a partir de Deus, o qual é a resposta ao interrogar do homem sobre sua autenticidade" (p. 20), mas discorda de que qualquer tipo de resposta possa ser derivada da interrogabilidade, senão a própria pergunta. Portanto, a interrogabilidade não levaria a qualquer conhecimento positivo sobre Deus. A própria razão natural, argumentou Bultmann, foi capaz de identificar a interrogabilidade, provalmente se referindo à filosofia existencialista.


Entretanto, a pergunta sobre Deus, que é também a pergunta sobre o homem (isso sem nenhuma recaída na "antropologia alienada", muito pelo contrário, com base em uma antropologia teocêntrica), continua a se colocar e devemos enfrentá-la. Não é possível estar-lhe indiferente, apesar do ocultamento promovido pela técnica. Pannenberg afirma que a resposta à pergunta remete ao futuro, mas já está presente: "A resposta definitiva à pergunta existencial do homem é, portanto, o próprio Deus no futuro de sua soberania, a qual consistirá na definitiva revelação de sua divindade, já que esta coloca a história do mundo à luz do fim e, dessa forma, decide e desvela o significado, a essência, de cada um de seus elementos particulares e de cada uma de suas figuras e acontecimentos, manifestando assim o Deus vindouro como Senhor de todas as coisas. A partir do momento em que Jesus aparece, este futuro de Deus já começa a determinar o presente. A partir da aparição e destino de Jesus, torna-se possível viver cada situação atual em sua constelação concreta, segundo a forma como dita situação aparece à luz do futuro de Deus e segundo, portanto, a forma de sua verdade definitiva" (p. 57-58).


Para conhecer melhor essa pergunta e sua posição no pensamento teológico contemporâneo, recomenda-se a leitura do pequeno, mas rico livro desse que é considerado por muitos o maior teólogo acadêmico da atualidade.


Todas as citações foram extraídas de: Pannenberg, Wolfhart. A pergunta sobre Deus. Tradução de Daniel Costa, São Paulo: Novo Século, 2002.