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Wednesday, September 28, 2011

MET's opening night with Anna Netrebko in Anna Bolena (Donizetti)


Without any comments yet, because I will be in Gulbenkian (Lisbon) for the performance of Anna Bolena in LIVE HD, here is a video with the final aria with Anna Netrebko, in the opening night of MET's opera season (September 26th).


Tuesday, June 14, 2011

Beverly Sills in Roberto Devereux

Soprano Beverly Sills made history in Elisabetta's role from the opera Roberto Devereux by Gaetano Donizetti.

Sills later recognized that her approach to this difficult bel canto role toke 10 years from her career.

For me she is one of the best "Elisabettas".

Just listen to her live from a performance in 1971 (NYC Opera).

Wednesday, June 01, 2011

The perfect voice

Volume, agility, beautiful tone and an amazing style! One singer, one voice: Joan Sutherland.


Friday, May 06, 2011

Mariella Devia will sing Roberto Devereux

I read somewhere sometime ago, that soprano Mariella Devia didn't have plans to sing the role of Elisabetta in Donizetti's opera Roberto Devereux.

When the soprano Beverly Sills sung the three Tudor Queens operas (Anna Bolena, Maria Stuarda and Roberto Devereux) she said that Roberto Devereux took 10 years off her carrer because the role of Elisabetta is so demanding for the voice.

Gruberova is today a reference in this role, and I had the pleasure to saw her in one performance in Munich.

Recently, thanks to my friend Adélia, I found out that Devia will sing the role for the first time in Marseille's opera in November (concert version). This are very good news for those who appreciate bel canto in the most beautiful and pure form.

More information here.

Wednesday, April 27, 2011

Rolando Villazón

Rollando Villazón is not one of my favorite singers. I don't like is tone (timbre) and, im my opinion,  his approach to some roles is completely inadequate.

After surgery to his vocal cords, the tenor came back to performances but with some vocal problems. Many people, included myself, thought that his carrer as a singer was seriously compromised, but after saw the following video from a concert in Liceu (Barcelona), I think now he is definitely back. The voice is in good shape, although I still think that is voice is not suitable for Donizetti.


Friday, April 08, 2011

Anna Bolena - Netrebko e Garanca


Para os interessados, a ópera Anna Bolena de Gaetano Donizetti com Anna Netrebko e Elina Garanca nos principais papeis está disponível, por enquanto, aqui.

Deixo-vos uns excertos.






Sunday, April 03, 2011

A Bolena de Netrebko


Como referi aqui no Outras Escritas, ontem consegui ouvir via Internet os segundo e terceiro actos da ópera Anna Bolena de Gaetano Donizetti, nova produção da Wiener Staatsoper (Ópera de Viena).

O facto de o papel de Anna Bolena ser pela primeira vez interpretado pelo soprano Anna Netrebko, fazia da estreia de ontem um ponto alto da temporada de Viena.

Como é sabido, não aprecio as interpretações deste soprano no repertório de belcanto. No entanto, pelo que ouvi ontem, Anna Netrebko não esteve nada mal. Com sua voz escura, a cantora esteve muito bem nas passagens mais graves e, conscientemente, evitou quase todas as notas sobre-agudas, excepção feita na ária Al dolce guidame que terminou com um agudo na dominante que não é nada comum. Esta ária será das mais difíceis de toda a ópera e Netrebko interpretou-a bastante bem, mas evidenciando alguma deficiência ao nível das respirações.

Garanca interpretou Giovanna Seymour tão bem como em Barcelona. O dueto com Netrebko foi um dos pontos altos da récita, tendo recebido o merecido aplauso do público. A aria do segundo acto foi magistralmente interpretada, mas sem repetição. Não percebi porquê, uma vez que a cantora não tem quaisquer problemas em fazê-lo como demonstrou em Barcelona.

Francesco Meli foi um Perci convincente embora se tenha esquivado a repetir a ária do terceiro acto e evitado o agudo final.

ldebrando D'Arcangelo foi razoável com Enrico VIII, embora nalgumas passagens tenha, aparentemente, alterado a partitura, fazendo uma abordagem mais grave (não tenho bem a certeza deste facto).

A condução de Evelino Pidò e a Filarmónica de Viena foram excelentes.

Tuesday, March 29, 2011

Por falar em Gregory Kunde


(Publicado no Outras Escritas)

Há dias falei aqui de Gregory Kunde aquando do comentário à ópera Anna Bolena do Liceu de Barcelona em que interpretou um excelente Riccardo Percy.

Aqui ficam dois vídeos com várias interpretações do tenor que considero-o um exímio interprete de Bellini, Donizetti e Rossini. Chamo a atenção para primeiro vídeo em que interpreta a ária A tanto duol/Ascolta, o padre da ópera Bianca e Fernando de Bellini. O compositor escreveu a partitura de tenor desta ópera para o famoso Tenor Rubini que interpretava notas agudíssimas. Kunde não só interpreta o Fá sobre-agudo constante da partitura (5:55) como ainda interpola im Mi bemol quase no final (6:12).



Friday, March 25, 2011

Anna Bolena (Gaetano Donizetti) - Teatro del Liceu (Barcelona) 05/03/2011

(Publicado no Outras Escritas)


No passado dia 5 de Março voltei a Barcelona para assistir à última récita da ópera Anna Bolena de Gaetano Donizetti, incluida na actual temporada do Teatro del Liceu. Este teatro incluí na temporada algumas récitas com elencos alternativos a que chama "funciones populares" e em que são disponibilizados bilhetes a preços mais baixos. Isto não quer dizer que a qualidade dos espectáculos seja inferior.

Inicialmente estava previsto que fosse Marilla Devia a interpretar Anna Bolena e foi este facto que me levou a adquirir bilhete para o Liceu e passagem aérea para Barcelona há muitos meses. Por motivos pessoais, Mariella Devia cancelou e foi substituída por Maria Pia Piscitelli.

O elenco desta récita foi o seguinte:

Anna Bolena - Maria Pia Piscitelli
Giovanna Seymour - Sonia Ganassi
Enrico VIII - Simón Orfila
Lord Ricardo Percy - Gregory Kunde
Smenton - Maria Rodríguez-Cusí
Lord Rochefort - Marc Pujol
Sir Hervey - Jon Plazaola

Direcção musical  - Andry Yurkevych
Encenação - Rafael Duran
Coro e Orquestra do Gran Teatre del Liceu


Da encenação e direcção já falei aqui no Outras Escritas, pelo que este meu comentário vai cingir-se apenas às vozes dos cantores principais.

Maria Pia Piscitelli surpreendeu-me pela positiva. A voz é segura e o timbre agradável. Tem um excelente legatto mas a coloratura é um pouco lenta. A voz é bem suportada no registo grave e por esse facto, a cantora optou sempre por não interpolar notas mais agudas, prática usual nas óperas de bel canto (não houve sobre-agudos em nenhumas das árias).
Gostei particularmente da sua interpretação da ária Al dolce guidami que faz parte da última cena da ópera. 
Como actriz, Piscitelli foi bastante razoável.

Sonia Ganassi, como eu esperava, foi uma excelente Giovanna Seymour. A voz é potente, bela e sobretudo, muito emotiva. Gostei particularmente da sua prestação no dueto de Seymour com Bolena em que foi nitidamente superior a Piscitelli, quer em termos vocais quer cénicos. Na ária do 2º acto, a cantora voltou a destacar-se pela segurança vocal e emotividade cénica.

Gregory Kunde excedeu as minhas expectativas. Para além de uma voz de belo timbre e de agilidade considerável, a voz do tenor tem corpo e volume acima daquilo que eu previa. A sua interpretação da ária do 2º acto foi excelente, nomeadamente com a introdução de variações de muito bom gosto na repetição.

Simón Orfila foi repetente no papel de Enrico VIII. Mantenho a apreciação que lhe fiz na primeira récita a que assisti, mas senti que o cantor estava mais à vontade.

Maria Rodríguez-Cusí tem um bom timbre de contralto e fez um Smenton de qualidade. Notei-lhe, no entanto, algumas falhas nas passagens de coloratura.


Globalmente a récita teve uma boa qualidade, destacando-se as vozes de Sonia Ganassi e Gregory Kunde.

Wednesday, March 16, 2011

Lucia di Lammermoor (Gaetano Donizetti) - Metropolitan Opera (Nova Iorque) 24/02/2010


(Publicado no Outras Escritas)

Lucia di Lammermoor é talvez a ópera mais conhecida de Gaetano Donizetti e um dos pilares do período do bel canto italiano. Esta foi uma das poucas ópera de Donizetti que se manteve sempre nas temporadas líricas um pouco por toda a parte, desde o ano em que estreou (1835 Nápoles).

Até aos anos 50 do século XX, a personagem Lucia era interpretada essencialmente por sopranos ligeiros de coloratura, ou seja, por cantoras com vozes pequenas mas muito ágeis e com um registo agudo brilhante e fácil. A ópera era então considerada pouco dramática e associada apenas aos malabarismos e pirotecnias vocais das cantoras. Foi Maria Callas que iniciou uma nova forma de cantar e representar Lucia no início dos anos 50 do século XX, imprimindo à personagem a carga dramática que lhe está subjacente no libretto de Salvadore Cammarano baseado no romance "A noiva de Lammermoor" de Sir Walter Scott. Em 1959, o soprano Joan Sutherland fez catapultar a sua carreira com uma extraordinária interpretação de Lucia no Covent Garden de Londres. Joan Sutherland é para mim a melhor Lucia de sempre.


Do ponto de vista musical, Lucia di Lammermoor será porventura o expoente máximo do bel canto de Donizetti. Destaca-se, obviamente, a cena de loucura do 3º acto em que Lucia, depois de obrigada a casar com Arturo, resolve num acesso de loucura, assassiná-lo na noite de núpcias. O assassinato ocorre fora de cena, mas de seguida Lucia regressa a palco e interpreta um conjunto de árias de exigência vocal extrema, onde expressa vários estados psíquicos, que vão desde a mais pura insanidade, até à mais suave e bela alucinação.
Como é característico nas óperas de bel canto, é através da voz que se exprimem todas estas formas de estar e sentir. Os estados de maior agitação através de passagens de coloratura e os estados mais serenos através de uma linha melódica aparentemente mais simples, mas que obriga a um domínio absoluto do legatto e da beleza tímbrica.

Actualmente Lucia di Lammermoor é posta em cena com alguma frequência e interpretada sopranos ligeiros de coloratura, líricos-ligeiros e mesmo alguns spintos.

A récita do passado dia 24 de Fevereiro no MET, marcou o regresso de Natalie Dessay como Lucia, numa produção que a cantora tinha já estreado em 2007, na altura com um estrondoso sucesso. Esta produção, com encenação de Mary Zimmerman, tem voltado ao MET regularmente e está disponível em DVD mas com Anna Netrebko (que é incomparavelmente inferior a Dessay neste tipo de repertório).

O elenco foi o seguinte:

Lucia: Natalie Dessay
Edgardo: Joseph Calleja
Lord Enrico Ashton: Ludovic Tézier
Raimondo: Kwangchul Youn
Alisa: Theodora Hanslowe
Arturo: Matthew Plenk

Direcção: Patrick Summers
Encenação: Mary Zimmerman

Coro e Orquestra da Metropolitan Opera


A encenação de Zimmerman, sobejamente conhecida pelo lançamento em DVD, pareceu-me simples e extremamente eficaz. Na cena de loucura foi usada a "tradicional" escadaria que Lucia desce depois de assassinar Arturo, que produz um efeito visual forte e ajuda as cantoras na interpretação (ficou famosa a interpretação de Joan Sutherland que no final da cena se atirava pela escadaria).

Natalie Dessay é sobejamente conhecida como uma Lucia de referência. A voz, ligeira, clara e de timbre agradável adapta-se perfeitamente à partitura de Donizetti e, para além disso, a cantora é uma actriz extraordinária. Este último facto não é propriamente um elogio da minha parte, uma vez que considero  que os movimentos em palco de Dessay, muitas vezes usados em excesso, prejudicam a emissão sonora.
Na noite de 24 de Fevereiro, penso que a cantora não esteve no seu melhor no que às condições vocais diz respeito. Ao contrário do que tenho visto em gravações, pareceu-me ter estado muitas vezes com uma atitude defensiva e, por isso, pouco à vontade. Não quero dizer com isto que a interpretação não tenha sido de um nível superior, de qualquer forma, ficou abaixo das minhas expectativas (tenho como referência a sua Lucia de 2007 que ouvi através da Antena 2).
No primeiro acto, a ária Regnava nel silenzio foi interpretada sem falhas, mas denotei uma certa dificuldade no registo agudo, que poderá ter-se devido ao facto de a voz estar ainda um pouco fria. No dueto com Edgardo houve melhorias significativas, tendo sido este um dos melhores momentos da noite. 
No famoso sexteto que encerra o segundo acto, e que é um dos pontos altos da ópera, Dessay não me impressionou. Isto pode dever-se ao facto de as "Lucias" que tenho como referência, terem vozes maiores que a sua e, por isso, estar habituado a que o sexteto seja em grande parte dominado pela voz de soprano. Houve partes em que deixei de ouvir a cantora e mesmo o sobre-agudo final foi abafado pelas outras vozes.
Finalmente a cena de loucura. Aqui Dessay esteve realmente bem, demonstrando todas as suas capacidades vocais e cénicas. Gostei particularmente da interpretação de Ardon gl' incesi à qual a cantora imprimiu um carga dramática brutal. Executou tal como em 2001 toda a cadência final sem qualquer suporte orquestral (o diálogo com a flauta, foi transformado num extraordinário monólogo vocal). Todos os pontos menos bons de Dessay durante a récita foram compensados em dobro nesta parte da ópera. Curiosamente o público do MET não aplaudiu a cantora nesta altura, talvez porque tenha sido omitido o habitual mi bemol sobre-agudo. Para mim, que até aprecio bastante notas sobre-agudas, Dessay merecia um aplauso de pé. A cena termina com Spargi d'amaro pianto, aria bastante mais agitada que a anterior, esta sim com mi bemol sobre-agudo no final a que se seguiu o merecido aplauso.

A surpresa da noite foi para mim, Joseph Calleja. O tenor, cuja carreira não tenho acompanhado, tem uma voz grande, com bastante corpo e de timbre belo (denoto-lhe apenas algum de vibrato em excesso). Encheu o MET! 
A partitura de Edgardo não está escrita propriamente para um tenor ligeiro, uma vez que quase não existem quase passagens de coloratura. Calleja provou que a sua voz de tenor lírico se adapta perfeitamente a esta personagem mantendo uma prestação uniforme e de nível superior durante toda a récita. Gostaria de destacar as suas prestações soberbas no dueto com Enrico que abre o terceiro acto, que é muitas vezes omitido da ópera, e em toda a cena final também do terceiro acto. Lucia di Lammermoor coloca ao tenor que interpreta Edgardo, o desafio de ter que interpretar uma cena inteira depois da cena de loucura do soprano. Calleja venceu este desafio com distinção e foi, na minha opinião, o melhor cantor da noite.

Ludovic Tézier fez um excelente Enrico, mantendo um timbre poderoso e escuro, mesmo nas passagens mais agudas em que por vezes os barítonos tendem a deixar a voz tornar-se demasiado clara ou brilhante. Gostei da sua prestação na primeira cena do primeiro acto, mas penso que atingiu o auge no duetto com Edgardo que inicia o terceiro acto.

Kwangchul Youn fez também um excelente Raimondo, o papel mais pequeno de entre as quatro personagens principais desta ópera. O baixo, de timbre escuro e potente destacou-se no dueto com Lucia no segundo acto. Durante o sexteto a sua voz foi sempre audível, o que muitas vezes não acontece nestes casos, visto que as vozes mais agudas e vibrantes tendem a sobressair.

O Maestro Patrick Summers fez um excelente trabalho á frente da Orquestra do MET. Gostei particularmente dos tempos utilizados e da interacção da orquestra com Dessay na cena de loucura.

Devo notar que este regresso de Dessay ao MET com Lucia di Lammermoor não tem merecido as melhores críticas. Curiosamente é na parte cénica que Dessay é mais criticada, pelo facto de aparentemente estar mais "preocupada" com as câmaras de cinema (para projecção em HD noutros teatros) do que com o publico do MET. As câmaras são, a meu ver, um factor perturbador para um cantor (e encenador), uma vez que ele tem noção de que a há muitos pormenores na sua face e corpo que não são visíveis no teatro e que são acentuados numa tela cinematográfica.

Fico a aguardar com curiosidade os comentários à transmissão directa em HD que terá lugar na Gulbenkian no próximo Sábado. 

Sunday, March 13, 2011

Lawrence Brownlee

(Publicado no Outras Escritas)

No comentário que fiz à récita da ópera Armida de Rossini no MET de Nova Iorque, elogiei particularmente a voz do tenor ligeiro Lawrence Brownlee. O tenor, especialista em belcanto, tem um timbre belíssimo, uma boa técnica e uns agudos precisos e nada esforçados.

Aqui fica um vídeo do YouTube (coloraturafan) com uma selecção das suas melhores interpretações. Faço notar a inclusão do final do terceto da Armida, ponto alto da récita do MET.


Anna Bolena (Gaetano Donizetti) - Teatro del Liceu 18/02/2011

(Publicado no Outras Escritas)

Como noticiei por várias vezes aqui no Outras Escritas, no passado dia 18 de Fevereiro assisti em Barcelona a uma récita da ópera Anna Bolena de Gaetano Donizetti. Esta ópera estreou em Milão no ano de 1830 tendo como protagonista a famosa Giuditta Pasta, e foi a primeira de três ópera que o compositor dedicou às Rainhas Tudor de Inglaterra (seguiram-se Maria Stuarda 1835 e Roberto Devereux (Isabel I) 1837). O libretto é de Felice Romani e retrata a corte de Inglaterra no reinado de Henrique VIII, na altura em que a sua segunda mulher, Anna Bolena (Anne Boleyn), se vê envolvida numa série de intrigas e difamações que levam à sua condenação à morte e ao subsequente casamento do rei com Giovanna Seymour (Jane Seymour).

O elenco da récita no Liceu foi o seguinte:

Anna Bolena - Edita Gruberova
Giovanna Seymour - Elina Garanca
Enrico VIII - Simón Orfila (substituindo Carlo Colombara)
Lord Ricardo Percy - Josep Bros
Smenton - Sonia Prima
Lord Rochefort - Marc Pujol
Sir Hervey - Jon Plazaola

Direcção musical  - Andry Yurkevych
Encenação - Rafael Duran
Coro e Orquestra do Gran Teatre del Liceu

Antes de comentar os aspectos musicais, gostaria de referir que gostei da encenação do catalão Rafael Duran, que, como se vem tornando recorrente nos teatros de ópera europeus, faz uma transposição de cena para um período intemporal, mas mantém a sobriedade que o argumento exige e, muito importante, coloca os cantores em cena de forma correcta, não lhes exigindo malabarismos físicos excessivos nem os colocando em posições cénicas que prejudiquem a projecção vocal (os cantores tem que ser ouvidos pelo público, pelo que, na minha opinião, a encenação não deve prejudicar qualquer aspecto vocal). Uma escadaria dourada domina o palco e une vários patamares onde a acção decorre. A escada será palco de uma das cenas de ópera mais belas a que já assisti, como comentarei à frente.

O papel de Anna Bolena foi interpretado pelo soprano Edita Gruberova. A cantora conta com 64 anos de idade e interpreta actualmente as óperas do período do belcanto que são mais exigentes do ponto de vista vocal. Falo, entre outras, de Anna Bolena, Maria Stuarda,  Roberto Devereux e Lucrezia Borgia de Donizetti e Norma de Bellini. Qualquer umas destas óperas exige às personagens principais qualidades vocais de soprano dramático de coloratura, isto é, uma voz ágil mas com potência, amplitude e força para interpretar cenas longas e exigentes. Para além disso, não nos devemos esquecer que o Belcanto implica ainda que a voz seja bela e limpa, porque muitas vezes o suporte orquestral é diminuto e a voz fica totalmente exposta.
Edita Gruberova tem praticamente todas estas qualidades vocais (exceptua-se alguma falta de potência vocal no registo grave). Como o consegue aos 64 anos não sei, mas penso que a cantora deveria ser considerada como um caso de estudo para muitos dos novos cantores actuais que arruínam as suas vozes precocemente.


Na récita de Anna Bolena a que assisti, a cantora esteve no seu melhor. O público de Barcelona, onde se apresenta regularmente, tem por Gruberova uma dedicação especial e aplaudiu-a assim que apareceu em palco. Gruberova correspondeu e entrou de forma magnífica na primeira ária Come, innocente giovine, evidenciado todas as suas características vocais com uma técnica irrepreensível, uma coloratura soberba e uns pianíssimos que mais ninguém consegue. Depois da cabaletta Non v'ha sguardo, o teatro veio abaixo pela primeira vez com aplausos e gritos de brava. Devo notar, no entanto que o Mi bemol final, embora prolongado afinado e potente, não manteve um vibrato constante. Refiro isto apenas como pormenor, até porque penso que este facto não terá sido notado pela maioria do público presente.
Gruberova manteve um nível superior em toda a récita, mas devo confessar que esperava um pouco mais de empolgamento no dueto com Percy e no final do primeiro acto quando um julgamento é imposto por Enrico VIII a Anna Bolena. A frase Giudici... ad Anna for interpretada por Gruberova com uma carga dramática enorme, mas a parte final em que todos os cantores e coro estão em palco não me causou o impacto que eu esperava.
Um dos melhores momentos da récita ocorreu na 3ª cena do 2º acto, isto é, no dueto entre Anna e Giovanna. O dueto é longo mas com poucos momentos em que as duas personagens cantam simultaneamente, no entanto, transmite uma carga dramática enorme e tem uma linha melódica de extrema beleza quer para a voz de soprano quer para a voz de mezzo-soprano. Gruberova e Garanca (de quem falarei adiante) demonstraram uma envolvência fora do comum, e a nível vocal estiveram perfeitas. Gruberova é desafiada a interpretar notas demasiado graves para o seu registo, mas resolve muito bem a situação emitindo um som que embora possa não parecer agradável ao ouvido, aumenta a carga dramática da interpretação. O dueto termina com um Dó sobre-agudo magnificamente interpretado por ambas e que, mais uma vez levou a que o público aplaudisse efusivamente. Os aplausos foram tais, que Gruberova voltou a palco para agradecer (não vi Garanca voltar a palco, mas não tenho a certeza se a cantora o fez ou não, porque o meu lugar era lateral).
O ponto alto da récita foi, sem dúvida, a interpretação de Gruberova da ária Al dolce guidami que faz parte da enorme e difícil cena final da ópera. Gruberova, com 64 anos interpreta a ária deitada, leram bem, deitada na escadaria. A cantora fez-se aqui valer de toda a sua técnica interpretativa e brindou o público com um legatto perfeito, uns crescendos e diminuendos extraordinários, uns trilos quase tão bons como os da Sutherland (desculpem a comparação) e, sobretudo, com uns pianíssimos que parecem não ser deste mundo. Afastando-me um pouco da apreciação mais técnica e isenta que tento fazer nestes comentários, devo confessar que este foi um dos momentos mais emocionantes que já vivi numa casa de ópera e no longo aplauso que se lhe seguiu já não lhe gritei Brava, mas sim Assoluta...
Para terminar a ópera, Gruberova ainda nos brindou com a ária Coppia iniqua, mais uma vez interpretada de forma soberba e concluída com um Mi bemol sobre-agudo, afinado, prolongado, mas com um vibrato um pouco inconstante.




Giovanna Seymour foi interpretada por Elina Garanca. Confesso que ia com uma certa curiosidade  em ouvir a cantora, uma vez que as críticas que lhe são feitas nesta e noutras óperas, são sempre excelentes. Possuo apenas uma gravação em CD onde Garanca interpreta várias árias de belcanto e não acho as interpretações nada extraordinárias, principalmente no registo agudo onde a voz parece perder potência.
Esta minha avaliação tendo como base apenas um registo em CD não poderia estar mais longe da realidade.
Donizetti escreveu a partitura de Giovanna Seymour para mezzo-soprano, mas numa tessitura mais aguda que o usual para este tipo de voz. Interpretar Giovanna não está, por esta razão ao alcance de todos os mezzos, a não ser que tenham um registo agudo bem suportado. Garanca tem todas as qualidades vocais exigidas pela partitura. A voz é limpa e potente, e o timbre é belíssimo. Para além disso, a cantora não demonstrou qualquer esforço durante toda a ópera o que demonstra que possui uma técnica sólida. As qualidades vocais de elevado calibre são complementadas por uma presença física poderosa, uma vez que a cantora tem uma altura considerável e é particularmente bela.
Pontos altos da interpretação, o dueto com Gruberova que já referi atrás e que a cantora termina com o Dó sobre-agudo e a ária do segundo acto Ah! pensate che rivolti que fez realçar todas as suas qualidades vocais e cénicas. O público aplaudiu insistentemente fazendo a cantora voltar a palco para agradecer.
Garanca foi sem dúvida uma excepcional "segunda Rainha" e penso que terá muito sucesso nas suas interpretações de Viena e de Nova Iorque.



Sonia Prina, contralto, interpretou a personagem masculina de Smenton. A sua presença em palco, muito masculina e com irreverência jovial, foi perfeita. A voz tem um timbre interessante e uma qualidade que considero muito importante, não perde a cor escura no registo agudo. O problema de muitas vozes que interpretam papéis de contralto é que se tornam muito brilhantes e perdem a cor escura no registo agudo ficando a parecer mezzos (falo especificamente de contraltos de coloratura, tendo sempre como referencia Ewa Podles). Gostei particularmente das variações que Prina usou na ária do primeiro acto ah! parea che per incanto.



Simón Orfila interpretou Enrico VIII em substituição de Carlo Colombara. Confesso que me senti desapontado, uma vez que Colombara obteve boas críticas nas récitas anteriores e Orfila fará parte do segundo elenco, ou seja, acabarei por assistir a duas récitas com o mesmo baixo.
Já conheço Orfila de récitas anteriores no Liceu e no S. Carlos. A voz é potente e afinada e o timbre é razoável. No entanto, acho-o um pouco trémulo (demasiado para a sua idade) e fraco actor.
Como Enrico VIII, não esteve mal, mas senti-lhe alguma insegurança que talvez se tenha devido ao facto de estrear antes de tempo. Aguardo a récita do dia 5 de Março.



Finalmente Josep Bros. Conheço a voz do tenor catalão das récitas da Lucia e da Borgia no Liceu onde também contracenou com Gruberova. Como já referi aqui no Outras Escritas, reconheço em Bros uma certa dignidade para interpretação de repertório de belcanto, no entanto, não lhe aprecio o timbre demasiado nasal. No papel de Percy o tenor não esteve bem. Pareceu sempre nervoso e a nível cénico, muito fraco e pouco emotivo. Teve, no entanto, a coragem de interpretar a ária do segundo acto Nel veder la tua costanza, que não é nada fácil e é muitas vezes é cortada da ópera. Os agudos saíram-lhe afinados mas demasiadamente trémulos. O tenor foi aplaudido comedidamente pela maioria e vaiado insistentemente por duas ou três pessoas. Pessoalmente sou contra as vaias, se não gosto pura e simplesmente não aplaudo. Neste caso específico, acho que o cantor merece um aplauso comedido mas nunca uma vaia.


O maestro Andry Yurkevych, a Orquestra e o Coro do Liceu estiveram à altura do elenco principal.


Globalmente considero que a récita foi de qualidade elevadíssima, principalmente no que aos papéis femininos diz respeito. Garanca foi muito aplaudida no final e Gruberova foi "obrigada" a regressar a palco inúmeras vezes com uma boa parte do público a manter-se no teatro e a gritar "Edita, Edita". Num dos balcões um grupo de jovens exibiu uma tela enorme com um coração vermelho onde se podia ler "Edita, la regina solo sei tu", demonstrando o apreço que o público jovem de Barcelona tem pela cantora. Quanto a mim, Edita Gruberova foi mesmo a "Regina Assoluta" daquela noite.

Nota 1: o que se passou a seguir contarei noutro "post" com cariz mais pessoal. 
Nota 2: as fotografias dos cantores são de minha autoria.

Monday, November 03, 2008

Edita Gruberovà - Lucrezia Borgia

Finalmente, apareceu um vídeo no youtube com o final de uma das récitas da Ópera Lucrezia Borgia de Donizetti ocoridas no final de Fevereiro no Liceu de Barcelona.

Tive oportunidade de assistir à estreia e devo dizer que Gruberovà esteve soberba.

Aqui fica o vídeo...



Tuesday, July 08, 2008

La Favorita - G. Donizetti - Cossotto; Kraus, Bruscantini, Raimondi; NHK Italian Opera Chorus, NHK Symphony Orchestra, de Fabritiis

Na Opera News deste mês de Julho, é dado destaque a uma gravação histórica reeditada em vídeo pela VAI em Novembro de 2007 da Ópera de Donizetti - La Favorita.

A gravação ocorreu em Tóquio em 1971 e conta com a participação de Fiorenza Cossotto (Leonora) e e de Alfredo Kraus (Fernando) nos principais papeis.

Curiosa a critica de Robert Baxter (Opera News) que começa por dizer que em 1971 o mundo da ópera era dominado pelos cantores e não por encenadores.

Transcrevo de seguida o texto de Robert Baxter na Opera News.

This Tokyo Favorita suffers from some serious blemishes, but anyone who can look past the dim video image and the dated staging will find much to admire.

The year is 1971. Singers — not the stage director — are the driving force in this production. And what singers! Fiorenza Cossotto (Leonora) and Alfredo Kraus (Fernando) are in their vocal prime. Together, they justify the purchase of this historic performance, taped in the Tokyo Bunka Kaikan. Sesto Bruscantini (Alfonso) and Ruggero Raimondi (Baldassare) add to the star power, enhanced by Oliviero de Fabritiis's seasoned conducting.

Visually, we're back in the operatic Dark Age. Stage director Bruno Nofri does little more than line up the chorus and shove the principals to the front of the stage, where they express dismay with hand on forehead or convey deep emotion by clutching their breast. Salvatore Russo's gorgeous costumes, delicately colored pastel, look lovely but suggest no specific time or place. When they can be seen, Enzo Dehò's dimly lit sets look imposing in a vaguely Spanish style.

The singers dominate this Favorita. The prolonged ovation — almost ten minutes of cheers and lusty applause — reflects the heat generated by these artists. Cossotto's brass-toned singing has scale and impact even when she lunges for high notes or plunges into chest voice. She offers a master class in the art of sustaining applause: after winning an ovation by banging out Leonora's "O mio Fernando" in brazen tones, she lowers her head and bats her eyes before placing hand on heart. Then, clasping her hands and smiling, she advances toward the audience.

Kraus, like the diva, provides a textbook performance — in vocal technique, not in milking applause. His tautly strung voice rises without effort to top C-sharp and flows with keen control through Donizetti's cantilena. He manages to suggest Fernando's transition from ardent lover to shamed hero and, joined by Cossotto in torrential voice, he rises to the testing demands of the long duet that crowns the opera. Urged on by de Fabritiis's incisive baton, the tenor and mezzo-soprano attack the music with fierce resolve and fill out the vocal lines with vibrant tone.

Bruscantini and Raimondi provide strong support but fail to reach this exalted level. Bruscantini almost compensates for his throaty tone with his solid musicianship and acting skills. Seizing center stage with his commanding presence, Raimondi sustains the music admirably even when his lightweight bass-baritone thins out in the lower reaches.