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22 junho 2010

Extremos # 8 - Gastr Del Sol – “Upgrade & Afterlife” (1996 Drag City)

Os Gastr Del Sol começaram como um projecto paralelo do vocalista/guitarrista dos Bastro, David Grubbs, e ao longo dos seis anos em que existiram como banda, sempre desenvolveram inúmero conteúdos musicais, sem nunca se tornarem previsíveis.
No elegante “Upgrade & Afterlife”, o segundo disco onde predominou a parceria entre Grubbs e Jim O’Rourke, o talentoso duo trabalhou com o percussionista dos Tortoise, John McEntire e o violinista Tony Conrad, entre outros convidados para compor “rock”, música electro-acústica, poesia, dedilhações de guitarra acústica (incluindo uma versão de “Dry Bones In The Valley”, original de John Fahey) e composições minimalistas em algo espaço e hipnótico, que, de acordo com o que Grubbs na altura disse de forma sarcástica, serviu como uma “janela” para os interesses colectivos que tinham no momento. Superficial, talvez, mas certamente que muito mais se estava a passar, e assim tornou as possíveis interpretações infinitas.
O posterior “Camofleur” é amplamente considerado, pela comunidade “indie”, como sendo o melhor disco deles, essencialmente pelo facto de possuir composições mais estruturadas e ter menos experimentação, mas pessoalmente considero o absolutamente formoso e extremamente comovente “Upgrade & Afterlife” como um notável e evocativo trabalho de génio e que mostra realmente Grubbs e O’Rourke no seu auge.
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04 novembro 2009

Inovadores # 14 - Tortoise - “Tortoise” (1994 Thrill Jockey)

A história da música alternativa americana foi involuntariamente alterada em 1993 quando um conjunto de membros de bandas como Bastro, Tar Babies, Gastr Del Sol e Eleventh Dream Day (apenas para numerar alguns) entraram no estúdio Idful Music Corporation em Chicago. As sessões daí resultantes produziram um elegante trabalho. Simultaneamente rico e esquelético, era uma brilhante e totalmente instrumental exploração de ritmo e fidelidade (uma verdadeira exploração sonora, reflectiva e cerebral), que busca inspiração – sem directamente referenciar - no “dub”, no “jazz”, no “krautrock”, no “funk”, na música electrónica e no pós-punk, que criava ilimitadas possibilidades.
Jubiloso, austero e cáustico, está recheado de ritmos tensos e tremeluzentes, e distintivas dinâmicas, onde a música nunca varia de velocidade, e que é em iguais partes dócil quietude rítmica e um muito particular e refinado som cerebral.
O próprio Steve Albini interminavelmente divulgou o disco, e chegou mesmo a declarar que este era o melhor disco alguma vez feito em Chicago. Dan Bitney, John Herdon, Douglas McCombs, Bundy K. Brown e John McEntire deram-nos um disco que se assimila com simplicidade e como os vários admiradores provaram, é também um disco fácil de prestar homenagem.
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Tortoise - Onions Wrapped In Rubber

27 junho 2008

Bonnie “Prince” Billy - “Lie Down in The Light” (2008 Drag City/Domino)

Este senhor anda a estragar-me o orçamento. Will Oldham sempre foi muito prolífero, mas ultimamente tem sido demais. Depois das colaborações (menos conseguidas) com Tortoise ou Matt Sweeney, este ano já tivemos o disco de versões e a colaboração com Dawn McCarthy dos Faun Fables. E se pensássemos que toda esta actividade o fizesse distrair, enganamo-nos, pois aqui temos mais um disco magnificente, o melhor desde “I See A Darkness”.
Existe um regresso ao som mais tradicional de “Master & Everyone” (não será estranho a presença em ambos do produtor Mark Nevers dos Lambchop), e um afastamento do som mais polido de “The Letting Go”. Mas Oldham introduziu algumas peculiaridades, como a sonoridade “jazzy” presente em “For Every Field There’s a Mole”. Os temas são os habituais: a futilidade humana, amores perdidos e hinos a Deus, as canções, simples na estrutura, mas nunca monótonas, são luxuriantes, vigorosas, e os meticulosos arranjos são do melhor que já produziu na sua carreira. Ouçam a forma como se diverte ruidosamente no comicamente sério “Easy Does It”, ou a simpática e sensível melodia acústica de “(Keep An Eye On) Other’s Gain”.
Mas a maior transformação é a voz de Oldham, mais potente na forma emocionada de articular tão alegremente as superiormente esculpidas melodias. E que é reforçada nas canções que contam com a presença de Ashley Webber dos Black Mountain, com a sua voz enrouquecida, mas muito feminina. Oiçam o contraste no originalmente seco, mas romântico “So Everyone”.
Neste conjunto de canções, Oldham demonstra confiança, ousadia e franqueza, e não uma exagerada inflexibilidade, ao mostrar-se muito menos introspectivo (excepções são a notável “Missing One”e “Lie Down in The Light”), neste disco afectuosamente concebido e maravilhosamente recompensador.

Bonnie "Prince Billy - Easy Does It

06 fevereiro 2008

Bonnie “Prince” Billy - “Ask Forgiveness” (2007 Domino)

Quando não está empenhado em editar, sobre os seus vários pseudónimos, os magníficos álbuns que concebe, Will Oldham, ocupa os intervalos aventurando-se noutros projectos como o foram a colaboração com Matt Sweeney e o anterior disco de versões realizado a meias com os Tortoise.
Regressa agora com um mini-lp de versões, que poderá não ser tão diversificado como o realizado com os Tortoise, pois pode ser mais acessível, mas que não deixa de ter momentos sublimes, pois Oldham tem a habilidade de transformar praticamente tudo o que toca em pungentes canções “folk”, independentemente de as letras originais perderem toda a sua intenção inicial.
Com a ajuda de Meg Baird nas vozes e guitarra acústica, Greg Weeks na guitarra eléctrica (ambos são membros dos Espers) e ainda ocasionalmente por Maggie Wienk no violoncelo, cria uma cintilante combinação entre vozes e guitarras que circulam de um lado para o outro em perfeita harmonia, e que, no fim, fazem com que cada canção se torna sua.
Algumas interpretações são arrebatadoras, nomeadamente as menos improváveis e mais esperadas, como “World’s Greatest” de R. Kelly, ou “Am I Demon?” de Danzig, onde Oldham inverte a impudência ao fazer que a suposta “greatness” esteja ao alcance de qualquer um, na primeira, ou na forma como adopta o tom sombrio na segunda. Mas também o é a tocante e incrivelmente triste “I’ve Seen It All” de Björk, onde Oldham nunca tentar copiar ou imitar a mesma, sendo provavelmente por isso que esta e as restantes canções resultam tão bem. Ouçam como “My Life” de Phil Ochs ganha uma nova vida na melódica versão de Oldham.
Para além das versões inclui um grande original – “Loving The Street”.
São estes grandes momentos que tornam este disco merecedor de atenção.
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Ask Forgiveness

03 agosto 2007

Classic # 7 - Slint – “Spiderland” (1991 Touch and Go)

Dezasseis anos após a sua primeira edição, “Spiderland”, não perdeu nenhum do seu encanto.
É difícil explicar o impacto que este disco teve, porque paradoxalmente, não soa como nada que surgiu antes ou depois da sua edição.
Para mim o parente mais próximo será o trabalho desenvolvido pelos Tortoise e outras bandas “post-rock” onde estiveram envolvidos os antigos membros dos Slint, nomeadamente o projecto posteriormente desenvolvido por Brian McMahan, os The For Carnation. No entanto ”Spiderland” é no essencial música “rock”, mas com um sentido de mistério que escapa totalmente à maioria das “bandas rock”.
Renunciando completamente a tradicional estrutura da canção:”versos-refrão-versos”, os Slint (Brian McMahan, David Pajo, Britt Walford e Todd Brashear) criaram e estratificaram composições densas e atmosféricas, com dinâmicas diversificadas, mas acessíveis ao mesmo tempo.
O seu encanto reside no facto da sua brutalidade ser “brutalmente” subtil.
Uma música poderosamente enérgica e dramática, notória na intensidade das épicas canções.
E reza a história que as gravações foram tão intensas que vários membros da banda tiveram de receber apoio psiquiátrico.
Como exemplo e destaque óbvio, “Good Morning Captain”, a melhor canção do disco, sete minutos e meio estranhamente “assustadores”, que através dos suspiros de Brian McMahan, complementadas pelas guitarras incendiarias em fundo e o ritmo tribal da bateria, evolui até atingir o seu êxtase, quando a canção explode e liberta aquele grito arrepiante “I Miss You”. Aquele momento é um dos mais emotivos pedaços de música que alguma vez ouvi.
É um final extraordinário para um disco extraordinário.