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18 junho 2010

Rock # 14 - Elastica – “Elastica” (1995 Deceptive)

Ao abrir uma porta através da qual inúmeras bandas alternativas lideradas por mulheres não hesitaram em transpor, o disco homónimo de estreia das Elastica, também surgiu de um vácuo auto-imposto que as próprias seriam tolas em não quebrar. O disco apresentava canções curtas, afiadas e chocantes que eram tão breves como as melhores dos Ramones, e notoriamente instáveis como as primeiras dos Wire. E se essa última homenagem especial foi perdida quer nos advogados (os Wire queixaram-se da apropriação rítmica de “I Am The Fly” para “Line Up”), quer nos críticos, bandas como as Sleeper e as Echobelly (somente citando as que mais se destacaram), teriam sido muito mais puras sem a influência de canções como “Connection”, “Stutter”, “Line Up”, “Waking Up”, “Hold Me Now”, “Annie”, “Car Song”, “Vaseline” ou “2:1”.
“We’re crap at writing middle eights, and i get really bored when songs are longer than three minutes”, esta foi a única defesa a seu favor por parte da vocalista/guitarrista Justine Frischmann. As suas canções eram tão acentuadas e tão resolutas que rapidamente as Elastica foram absorvidas indiferentemente pelo “mainstream”. O seu segundo álbum não conseguiu acompanhar as expectativas que se criaram com a admirável estreia. Mas na sua rota para o esquecimento, elas ressuscitaram e reinventaram o minimalismo para uma geração sinfónica.
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05 agosto 2009

Singles # 16 - Ramones – “Blitzkrieg Bop” (1976 Sire)

Em 1976, a faixa principal do disco homónimo de estreia representava a música mais rápida e mais simples que já se tinha ouvido.
Os Ramones criaram uma forma musical que agradava aos jovens, pois qualquer um podia repetir a dose em dois alegres minutos.
Ao longo dos anos fui encontrando muitas interpretações para o título da canção e para o seu conteúdo. Desde logo pelo facto de “Blitzkrieg” ser uma expressão alemã de uma táctica de guerra relâmpago utilizada pelo nazismo, e que podia funcionar como uma referência para toda a energia que dominava as dinâmicas dos Ramones. Também se constou que seria a resposta dos Ramones ao enorme êxito de “Saturday Night” dos Bay City Rollers (também queria uma canção com um refrão contagiante), que seria sobre lutas de gangs ou que era apenas uma referência a passarmos bons bocados nos concertos dos próprios.
Independentemente de tudo isso, “Blitzkrieg Bop” é uma obra-prima de simplicidade que produziu eco nas profundezas do “punk”. “Hey, Ho, Let’s Go!”
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13 novembro 2008

DVD # 4 - Vários - “1991: The Year Punk Broke” (1992 Tara Films)

Quando o movimento “grunge” explodiu, a música categorizada como “underground” tornou-se no “mainstream”, com a atenção dada pela imprensa e apoiada por todo o marketing forjado que dai resultou.
E muito do que de negativo chegou com essa mini revolução social, faz com que muitas vezes se esqueça tudo o que de bom existia antes de “Nevemind”. Estamos na presença de um grande DVD - cujo nome é uma astuta resposta ao fenómeno, através da comparação com o que aconteceu em 1976 na Inglaterra com os Sex Pistols, Buzzcocks e The Clash, pois o movimento “punk” americano (Black Flag, The Germs, X) nunca extraiu os benefícios da fama - que nos relembra desses bons momentos, recheado de brilhantes performances da tournée pela Europa realizada em 1991 pelos Sonic Youth, e por isso é essencialmente focado nestes.
O nosso “guia” Thurston Moore, simultaneamente arrogante e encantador, é excelente nas suas hilariantes deambulações, especialmente no episódio com os jornalistas alemãs. E o ponto alto do DVD é mesmo o registo das actuações dos SY, sendo que “Dirty Boots” é verdadeiramente excepcional, recheada de premência, assim como o são “Schizophrenia” (soa melhor ao vivo), “Mote” ou “TeenAge Riot”. Outras boas performances incluídas são os Dinosaur Jr., que tocam de uma forma ciclónica “The Wagon”, os Nirvana com “Negative Creep” e “Smells Like Teen Spirit”, e as Babes In Toyland em “Dustcake Boy”. Para além destes temos a contribuição musical dos Gumball e Ramones, pequenos momentos passados nos bastidores que retratam a excitação vivida no período e ainda a presença esporádica de gente ilustre como os Mudhoney ou Bob Mould (a comer um cachorro quente).
Um excelente momento de nostalgia, mas também uma visão antropológica da música alternativa em 1991, com a presença de algumas das bandas mais influentes do movimento.

04 julho 2008

Classic # 15 - Talking Heads - “Remain In Light” (1980 Sire)

Apesar de pertencerem ao contingente originário do CBGB, os Talking Heads nunca fizeram realmente parte do movimento “punk” ou “new wave”. As ambições de David Byrne eram superiores ao género em que os quiseram enquadrar. Enquanto bandas como os Ramones trituravam humorísticos hinos de três acordes, os TH exploraram a sua própria mescla de “art-rock” dançante. E se todos os discos desde “77” até “Speaking In Tongues” são de uma categoria superior, se tivesse de escolher o melhor, esse seria “Remain In Light”. Aqui uma das mais interessantes bandas de todos os tempos, criou o seu mais exótico e formoso álbum, numa fase da sua inspirada e natural evolução criativa. É certo que a presença de Brian Eno está em todo o lado, no entanto este nunca desvia a banda do seu rumo e limita-se a adicionar mais-valias.
As canções eriçam-se, sempre a transbordarem de ritmos africanos, através de melodias e estruturas invulgares, melódicas decorações “pop”, “loops” e efeitos, e acompanhadas por letras incoerentes proferidas por Byrne, que soando agitado, exulta inquietação e desconforto. Como complemento extra, um conjunto de ilustres convidados, adiciona excelência, na forma inventiva de tocar guitarra, Adrian Belew ou trompete, Jon Hassell.
A primeira metade do disco é altamente excêntrica, uma mutação de “punk", musica tradicional africana e “funk”, e é impressionante pela sua coerente energia. As galopantes polirritmias de “Born Under Punches (The Heat Goes On)” é a melhor maneira de começar um disco. Segue-se a substimada “Crosseyed and Painless”, a complexa “The Great Curve” (que possui um dos melhores harmonizadores de refrão), e a profética “Once In A Lifetime”, que com as suas referências ao materialismo que a década bem definiu, acabou por ser um êxito inesperado. A segunda metade tem um carácter mais misterioso e é mais melancólica, chegando a fascinar e a exasperar simultaneamente pela dissonante dispersão sonora. Começa com a intrincada cadência rítmica de “Houses In Motion”, mas as duas últimas composições fecham o álbum com uma tonalidade sombria e volátil. “Listening Wind” é um verdadeiro assombro, enquanto “The Overload” é como se estivéssemos a andar completamente desorientados pelo meio de umas ruínas resultante de alguma catástrofe.
Musicalmente antecipou muita da actual globalização musical ao influenciar músicos de diversos quadrantes.
Um disco que ultrapassa a excelência.
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15 outubro 2007

Classic # 9 - Television – “Marquee Moon” (1977 Elektra)

Companheiros de Patti Smith, e posteriormente dos Ramones, Talking Heads e Blondie no lendário clube nova-iorquino CBGB, os Television foram um dos grupos mais importantes da pré-história do punk-rock e pós-punk. (e de toda a história do “rock” propriamente dito).
A formação original incluía o baixista Richard Hell, que patenteou o “look” punk, muito antes dos Sex Pistols, e o líder Tom Miller, assumiu como novo “apelido” o do poeta simbolista francês. Assim as credenciais eram perfeitas, o problema era que os Television não tocavam punk-rock. Seria mais um “psychedelic jazz punk”? O que quer que fosse, era diferente e original.
Seriam, na minha opinião, o primeiro grupo identificado com o movimento “punk” que realmente criaria algo novo e original, quer ao nível técnico quer ao nível estético.
O disco inicia com o hipnotizante “See No Evil”, passa pelo dramático “Elevation”, com as suas constantes paragens e arranques, e fecha com um longo lamento, que sugere futuras direcções na sinistra, mas profética “Torn Curtain”.
O som do grupo está perfeitamente registado no tema que dá título ao álbum, o épico “Marquee Moon”, com o “staccato” penetrante, sinistro, complexo e labiríntico, cria um super-sofisticado poema sonoro, apoiado na frágil voz de Verlaine. Musica para o corpo e mente.
O virtuosismo instrumental do grupo é evidente na forma perfeita como contrastam as guitarras gémeas – Verlaine, (temperamental e improvisador), Richard Lloyd, (controlado, preciso & denso) – encaixam completamente, enquanto as influências jazz e a sensibilidade melódica iluminam a forma sincopada de tocar do baterista Billy Ficca e do baixista Fred Smith.
Introspectivo, “Marquee Moon”, é um marco de criatividade, de coerência, e de consistência.

24 maio 2007

DVD # 1 – “Kill Your Idols” (2004 Palm)

Não estamos perante um documentário típico. “A documentary on thirty years of alternative NYC rock 'n roll” era o objectivo.
Scott Crary compila entrevistas com os pioneiros do movimento no-wave e post-punk, e tenta efectuar a ligação do movimento com bandas contemporâneas. A ponte é efectuada pelo grupo que provavelmente uniu os movimentos – os Sonic Youth.
Gravado nas ruas e em apartamentos de Nova Iorque (para além de incluir filmagens originais de actuações em pequenos clubes), em vez de utilizar os tradicionais estúdios de gravação, leva-nos a meditar/reflectir sobre as noções de nostalgia, tempo, tendências e a história da música.
A primeira parte retrata os fins dos anos 70/ princípios dos 80, com elementos de bandas como Suicide, DNA, Theoretical Girls, Teenage Jesus & The Jerks, Swans, a contarem-nos a forma caótica como levaram o punk até aos extremos, ao contrario de outras bandas nova-iorquinas mais “populares” como os Ramones ou os Dead Boys.
Era “anti-music”, atonal e extrema, mas muito mais de acordo com a ética punk de quebrar a barreira entre o artista e a audiência.
Por várias razões, o post-punk/no-wave está novamente na moda, e na segunda parte, saltamos até ao presente, onde encontramos uma selecção de artistas (Yeah Yeah Yeahs, Liars, Black Dice, Gogol Bordello) que se relacionam com essa estética, mas também com todo o contexto musical e cultural do fim dos anos 70/princípios dos anos 80. Eles falam sobre essas influências e sobre as tendências actuais em Nova Iorque.
Interessantes são os comentários dos veteranos sobre os mais novos. Em particular Lydia Lunch, que afirma que estes últimos nada acrescentam e apenas se aproveitam do “hype” em redor do revivalismo criado. Mas, felizmente, o documentário não incide na perspectiva “nova cena versus velha cena”.
As duas gerações estão em contraste; na primeira, a alienação, os riscos, a originalidade e o zero em reconhecimento. Muito diferente da actual que consegue elevar os Strokes para estatuto de superestrelas mesmo antes de ouvirmos a sua música.
Este documentário não diz o que devemos pensar, mas obriga-nos a pensar.