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03 setembro 2010

Extremos # 9 - Big Black – “Songs About Fucking” (1987 Touch & Go)

“Songs About Fucking” foi a destilação perfeita da filosofia do seu líder Steve Albini. Apesar de na altura Albini ter formado este trio “numa base informal”, já lá Um disco abrasivo, tenebroso, confrontacional, sem concessões ao “mainstream” e sem pretensões de possuir um valor socialmente redentor. Aqui a música surge na sua forma mais distorcida e perversa, sem tabus, uma vez que desafiou os ouvintes a aceitar ou rejeitar o seu agressivo som e desagradável conteúdo lírico.
A sonoridade do disco é avassaladora, como se fossemos atingidos por uma parede de som, e a chave para o duradouro apelo, encontra-se em grande parte na sua simplicidade, pois os Big Black destilaram a música “rock” através dos seus elementos mais básicos: guitarra, baixo e “drum machine”. E apesar desta abordagem minimalista, “Songs About Fucking” é dificilmente macio e torna-se verdadeiramente provocador – o que emerge é uma barragem de contundente e destripante “noise” que agride os tímpanos com uma mistura de desconcertantes rajadas de guitarra e pulsantes “beats” industriais. Tudo isto culminando com o demente e enlouquecido estilo vocal de Albini.
Os conceitos aqui lançados aqui são geralmente desagradáveis e niilistas, seja o sujo ruído de “The Power Of Independent Trucking”, as fracturadas “basslines” e a inumana programação de “Bad Penny” e “Columbian Necktie”, o “punk” agressivo de “L-Dopa”, a raiva do “proto” industrial “Precious Thing”, a sinistra “Kitty Empire”, ou o puro “feedback” e as empoladas, distorcidas vocalizações presentes em “The Model”, uma assombrosa versão do original dos Kraftwerk. E tudo isto através do que parece ser uma “incorrecta” mistura e engenharia das canções, pois as mesmas soam como se estivessem a sair através de um pequeno rádio portátil.
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01 abril 2010

Electronic # 15 - Kraftwerk - “Trans-Europe Express” (1977 Kling Klang/Capitol)

Os mecanizados Kraftwerk atingiram um pico criativo em 1977 aquando da edição deste disco. Depois do tecnologicamente pioneiro “Autobahn” e antes do sucesso comercial de “The Man Machine”, “Trans-Europe Express” será provavelmente o disco mais essencial e mais influente da sua carreira, e que ainda hoje impressiona pela inestimável inovação tecnológica proposta por Ralph Hutter e Florian Schneider.
Na edição original em vinil existia uma clara divisão entre os lados. No primeiro tínhamos uma reflexão sobre as disparidades entre a realidade e a imagística. Aqui estavam contidas as excêntricas melodias e os hipnóticos “beats” que estão presentes na brilhante beleza da ondulante “Europe Endless”, nas misteriosas e deslocadas vocalizações da glacial “The Hall Of Mirrors” e na sombriamente cómica “Showroom Dummies”.
O segundo lado era dedicado a uma possível recreação auricular duma viagem intercontinental de comboio através da Europa – começa com “Trans Europe Express”, que se desenvolve em direcção às colagens sonoras de “Metal On Metal” e na magnificente melodia de “Franz Schubert”, a mesma melodia de “Europe Endless”, mas transformada lentamente como uma pintura sonora em evolução.
A ausência de qualquer particularmente sólido conteúdo lírico, efectivamente serve para tornar a consistentemente memorável música mais aprazível e permite-a dominar todo o disco.
A sua combinação de ritmos mecanizados e minimalistas com melodias contagiantes, seria uma influência enorme e um estímulo para inúmeras bandas britânicas, como os The Human League ou os Cabaret Voltaire, entre outras, utilizarem mais os sintetizadores (convém relembrar que o disco saiu no mesmo verão de “Never Mind The Bollocks” dos Sex Pistols), e iriam ser um dos maiores fornecedores de “samples” para a comunidade afro-americana dos grandes centros urbanos dos Estados Unidos (não esquecer que Afrika Bambaataa “samplou” “Trans-Europe Express” para o seu seminal “Planet Rock”). E se poderíamos pensar que o disco soa datado presentemente, a música resiste ao passar dos tempos, e ainda permanece verdadeiramente atmosférica hoje.
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02 setembro 2009

Electronic # 12 - John Foxx – “Metamatic” (1980 Virgin)

“Metamatic”, surgiu após John Foxx abandonar os Ultravox - o grupo que fundou, e que desenvolveu o som e imagem, quando estes pretendiam abordar uma forma musical mais “pop” – e é um dos discos mais desprovidos de emoção na história da “pop”, permanentemente desolador e disruptivo, com letras que mergulham em sonhos, pensamentos, memórias, constantemente evocando atmosferas de ficção cientifica, e que é ainda mais sombrio e mais desligado do que os primeiros trabalhos de Gary Numan.
Ousado, inovador, imaginativo e inflexível, o que é mais surpreendente, neste diligente registo é o quanto obstinadamente minimalista as texturas musicais são. Robóticas, mecânicas, estéreis e assombrosas, quase exclusivamente baseadas em sintetizadores, caixas de ritmos e distorção sonora, visivelmente influenciadas pela música electrónica que provinha da Alemanha na ultima década, e que ainda hoje não soa nem um pouco datada.
Para além dos singles “Underpass” e “No-One Driving”, destacam-se o gelado e melancólico “Metal Beat” (que carrega similaridades com os Kraftwerk) e o áspero e sombrio “Touch And Go”.
Absolutamente subestimado e invulgar, utilizou um estilo musical que nunca mais foi imitado, nem pelo próprio Foxx.
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06 maio 2009

Electronic # 10 - Tarwater – “Dwellers On The Threshold” (2002 Kitty-Yo)

O título do disco é uma oblíqua referência à linha que demarca a fronteira entre os cantores/compositores dos criadores de electrónica. E os Tarwater bem personificam essa divisão, caminhando sobre essa linha, entre o analógico e o digital, o tradicional e o moderno.
O quarto disco do grupo de Berlim na editora alemã Kitty-Yo é o mais aventureiro que editaram, uma inversão de alguns dos seus trabalhos iniciais. Pois aqui a sonoridade sombriamente hipnótica fica curiosamente mais fria, ao hesitar perante outra divisória: entre a dissonância da electrónica e a concreta inflexibilidade do industrialismo. O rigor dos contornos da música torna-o menos abstracto do que discos anteriores, mas aqui domina uma austera economia que determina os seus pequenos e comprimidos temas, que na maioria consistem em altamente tratados “beats” e “samplers” vocais.
Eles abandonaram o desfavoravelmente delimitado “som europeu” que garantiu aos Tarwater e ao seu grupo gémeo To Rococo Rot a sua reputação de filhos dos Kraftwerk. No seu lugar surge uma encantadora e alargada “mix” geográfica. Em “Phin” transformam-se tambores africanos numa sensual corrente rítmica, enquanto “Be Late” é tão voluptuoso como um exuberante “gamelean” Indonésio.
A diferença entre os Tarwater de agora e antigamente é mais vividamente sublinhada num redentor humor que espreita debaixo da sua ascética imagem. Pequenos “samples” presumivelmente retirados de um comício político apimentam “Miracle Of Love” mas com ideias a correr em sentido contrário ao seu título. Enquanto, “Tesla” (inspirado nos “b-movies” dos anos 50) mitiga o desdenhoso objectivo dos Tarwater, ao insinuar que foram raptados por extraterrestres.
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11 fevereiro 2009

Electronic # 7 - The Human League – “Reproduction” (1979 Virgin) / “Travelogue” (1980 Virgin)

A formação inicial dos Human League - Phil Oakey, Martyn Ware, Ian Craig Marsh – foi responsável pela criação de dois excelentes discos que ajudaram a definir o futuro da música electrónica, antes da acrimoniosa separação e Oakey ter remarcado a sonoridade “pop” e Ware/Marsh fazerem razia nos BEF e Heaven 17.
Com uma sonoridade experimental, a sua música era minimal, gelada e organicamente desordenada muito mais próxima de uns Cabaret Voltaire, Suicide ou Throbbing Gristle (e não polida como viria a tornar-se em meados dos 80’s) e as letras tinham um carácter que os colocavam num território similar a uns Joy Division. E notavelmente conseguiram conciliar as pretensões artísticas, com a postura assumidamente “pop” - influências obvias de Kraftwerk, Tangerine Dream e David Bowie - essencialmente queriam fazer as coisas de uma forma diferente.
“Reproduction” remete-nos para um ambiente sinistro, com um sonoridade puramente electrónica (convém relembrar que nesta altura ainda não havia “pro-tools”) que ainda hoje parece vir do futuro e que em nada se relaciona com a ociosamente estabelecida nostalgia habitualmente associada aos anos 80 – de um lado estão as jóias “pop” como o resoluto single “Empire State Human”, o eufórico “Blind Youth” (uma resposta ao etos “no future” do movimento “punk”) e a brilhante versão (ou deconstrução) do clássico “You’ve Lost That Lovin’ Felling”, do outro estão, em contraste, os temas secos e mirrados como “Almost Medieval” e o single “Circus of Death”.
“Travelogue” possui uma sonoridade mais limpa e mais épica do que “Reproduction”, e inclui o ritmado “noise” de “The Black Hit Of Space”, a excelente versão de “Only After Dark” (original de Mick Ronson), o provocadoramente triste relato da escravidão do trabalho de “Life Kills”, a desesperação resultante da fuga da opressão de “Dreams Of Leaving”, o poderio enérgico da sobrecarregada reconstrução do single “Being Boiled” e as suas viciosas palmas electrónicas.
O disco termina (na versão original /vinil) com “WXJL Tonight”, onde Oakey é o ultimo DJ humano numa sociedade futura onde as rádios são totalmente automáticas e no final começa a gritar implorando aos ouvintes para não o abandonar. Arrepiante.
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29 abril 2008

Compilação # 1 “Artificial Intelligence” (1992 Warp)

Apesar de John Cale ter popularizado o termo “Artificial Intelligence” no seu álbum de 1985, seria esta compilação da editora Warp a responsável (pelo menos para mim) pelo ressurgimento da música electrónica como uma experiência musical audível, ou se preferirem música de dança para se “escutar”. Iriam rotula-la de IDM – Intelligent Dance Music).
Rob Mitchell e Steve Beckett, fundadores da Warp, andavam atentos e descobriram que existiam muitos projectos musicais de dimensão similares, e decidiram criar um espaço onde pudessem conviver.
É certo que já tinham existido as experiências anteriores dos KLF ou The Orb que criaram um primeiro género de “ambiente house”, e que os artistas aqui presentes foram sem dúvida influenciados pelos Tangerine Dream ou Kraftwerk, mas souberam pegar em todas essas influências e expandiram-nas para criar algo verdadeiramente único.
Apesar das contribuições de muitos dos projectos aqui presentes (maioritariamente sobre a forma de pseudónimos), não serem tão interessantes como os seus trabalhos posteriores, seria desta forma que muitas pessoas iriam contactar pela primeira vez com nomes como Aphex Twin (como Dice Man), B12 (como Musicology), Black Dog (como I.A.O.) ou Autechre. E felizmente todos rapidamente iriam aprender a explorar e potenciar este novo espaço musical através de álbuns notáveis para a Warp.
Independentemente disso, muita da música aqui contida ainda hoje soa moderna e inovadora, especialmente os temas dos Autechre (“Crystal” e “The Egg”), dos I.A.O. (“The Clan”), e o esquecido “Spiritual High” dos UP! (mais uma maravilha criado pelo génio de Richie Hawtin).
Um pedaço de história.

28 fevereiro 2008

Ebay # 1 - Vários - “After Dark” (2007 Italians Do It Better)

Foi uma das revelações do ano transacto, mas o que é certo é que este disco, numa primeira abordagem parecia não prometer muito. Pois o que no papel poderia soar como algo de verdadeiramente intragável acabaria por se tornar num disco que é equivalente a um magnífico DJ set, pois é extremamente coesivo.
Inicialmente, o disco seria uma amostra com o objectivo de promover a editora americana Italians Do It Better e que colectava faixas soltas, demos, “remixes” e “covers”.
Estes artistas pegaram no som retro do “Italo-disco”, com os seus sintetizadores analógicos e as mais básicas caixa de ritmos, e conseguiram transporta-lo para o futuro.
Estamos perante um tipo de “slow-techno”, seria “synth-pop” se os ritmos não parecessem “desinteressados” em acompanhar a música.
Dos originais destacam-se temas que agora são bem conhecidos como: Chromatics - “In the City”; Professor Genius - “Pegaso”; Farah - “Law of Life”, mas ouçam o que os Glass Candy fazem de “Computer Love” dos Kraftwerk, ou a florescente “remix” que Mirage faz ao clássico “Last Night a Dj Saved My Life” dos Indeep.
Música de dança voluptuosa bem ao gosto de Giorgio Moroder.
£1.99

01 fevereiro 2008

Inovadores # 7 - Yellow Magic Orchestra

“Yellow Magic Orchestra” (1978 Alfa)
“Solid State Survivor” (1979 Alfa)
“Technodelic” (1981 Alfa)



Formados em 1978 pelo talentoso Ryuichi Sakamoto, pelo veterano Haruomi Hosono, e pelo percussionista Yukihiro Takahashi produziram onze discos, até ao seu término em 1984. Para mim, estes três são aqueles que melhor os representam.
Surgiram na altura da ascensão do Japão como inovador tecnológico, utilizaram sequenciadores, sintetizadores, samplers e caixas de ritmos, quando ainda eram regularmente a excepção
São frequentemente esquecidos quando se faz referência aos artistas que desbravaram caminho na evolução da música electrónica.
Criavam um divertido “techno-pop”, ou “twisted pop”, se preferirmos, mas onde nunca esconderam a sua paixão pelos Beatles (daí as versões).
Estes músicos já tinham assimilado todas as experiências primárias realizadas anteriormente com música electrónica, e deram um salto qualitativo para uma fase mais avançada, só que ainda não tinha sido inventado um tipo música para classifica-los. Pois ao contrário de uns frios Kraftwerk ou dos seus aprendizes britânicos como Gary Numan ou John Foxx, que tendiam perseverantemente para a ficção científica, os YMO ofereciam divertidas delicias “pop” totalmente descaradas.
Quando surgiu o disco homónimo de estreia, foram ignorados pela imprensa ocidental, que não se conseguir afastar da cacofonia criada pelos fortuitos ruídos electrónicos que abrem o disco. E assim não descobriu as esquadrilhas melódicas do psicadélico “Simoon” ou do irreflectido “disco-feel” de “La Femme Chinoise”.
Com “Solid State Survivor”, tentaram fugir do ecletismo presente no disco de estreia, e abordaram um som mais “mainstream”, mas nem por isso menos arrebatador. Desde o balouçante instrumental “Technopolis”, passando pelo belíssimo “Absolute Ego Dance”, ou pela sinuosa e pungente melodia de “Insomnia”, este disco está repleto de excelentes momentos.
Em “Technodelic” acontece mais uma reviravolta, criam um disco mais negro, cheio de vozes sinistras, ritmos incomodativos, percussões industriais destruidoras. “Epilogue” de Sakamoto, dá o mote, com uma melodia dilacerante.

16 fevereiro 2007

New Rave – A cultura rave de regresso – Don’t Believe the Hype?

1. Segundo vários jornalistas ingleses, a cultura rave está de regresso.
Como é normal nestes tempos de nostalgia, as tendências culturas tem um ciclo de 20 anos, senão vejamos: o psicadelismo nos anos 80, o grunge nos anos 90, o electroclash e o pós-punk já nesta década. A cultura rave está de regresso, mesmo na altura em que se prepara a comemoração dos 20 anos do “Second Summer of Love”, que decorreu em Inglaterra no ano de 1988.
Tudo terá começado no último trimestre do ano passado, com o aparecimento dos Klaxons, que auto-intitularam a sua música de “new rave”. O facto de efectuarem uma versão de um clássico rave hardcore (“The Bouncer”dos Kick like a Mule) desse período reforçou essa ideia, e ao juntarem sintetizadores e caixa de ritmos, ao tradicional som rock’n’roll (guitarra, bateria, gritaria, muita gritaria) ajudaram a imprensa a catalogar esta nova tendência. Os singles que editaram, “Atlantis to Interzone”, “Gravity’s Rainbow”, e “Magick”, foram todos sucessos.
O “indie-rock” nunca se deixou ir em modas, a pureza do conceito “indie” é a principal razão para o conceito ainda se manter. Mas o facto é que muitos “indies”, nestes últimos meses, estão a ouvir cada vez mais música de dança, devido a bandas “electro-rockers” como os Justice, Soulwax, MSTRKRFT, Digitalism ou Errol Alkan, principalmente pelas remisturas efectuadas para bandas “indie”, mais do que pelas suas próprias composições.
Se a “new rave” é mais uma reincarnação da chamada “indie-dance”, teremos que aguardar. Mas a mudança visual já acontece, como é norma, basta observar os Klaxons como porta-estandartes.
Mas para mim, como sempre nas modas, o mais interessante será sempre a maneira como, neste caso, a cultura rave será reexaminada, por uma geração muito nova para a ter vivido da primeira vez.

2. Também na Alemanha, a cultura rave está novamente na mó de cima, como consequência nostálgica da relação do país com a música “techno”, “trance”, e as famosas festas “raves” que marcaram a viragem dos anos 80 para os 90.
Mas ao contrário de Inglaterra, o fenómeno é diferente e curioso. Os alemães nunca afastaram definitivamente a cultura “rave”, pois sempre esteve omnipresente. Como exemplo temos o que está a acontecer com o colectivo “Rave Strikes Back”, que inclui DJ´s como Michael Mayer ou Miss Kittin, que ao elaborar o seu Top de temas “rave”, inclui os nomes clássicos como Prodigy, Joey Beltram, Speedy J, Energy 52, entre outros. Mas não deixa de ser curioso e fascinante constatar que também estão incluídos temas dos Kraftwerk, The Human League, Grace Jones, Depeche Mode, Joy Division e até os Sonic Youth. Isto vem constatar a máxima de que para uma festa correr bem, o que o público quer ouvir é que interessa. Um objectivo idealístico deste colectivo é redistribuir a atenção desde o DJ para a festa.
http://www.rave-strikes-back.de/