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13 fevereiro 2008

Silje Nes - “Ames Room” (2007 Fat Cat)

A Fat Cat descobriu mais uma sublime e cativante artista.
Esta multi-instrumentista norueguesa decididamente vai buscar a sua inspiração criativa à dramática vastidão natural do seu país. As letras sugerem uma artista imersa no ambiente que a rodeia.
Ouçam as referências a lagos, sapos, e abelhas presentes no tema de abertura, “Over All”, que apesar de poderem sugerir um ambiente infantil, são complementadas por um instinto poético e um arrojado engenho musical.
A música de Silje combina um mundo de uma frágil beleza e intriga caleidoscópica. Existe uma apaixonante nostalgia presente neste “electro-folk”, que sustenta o espírito da experimentação.
Num momento ouvimos xilofones e guitarras acústicas, noutro temos resplandecente electrónica e manipulações de voz. Talvez pelo facto de ter demorado três anos a gravar este disco, seja evidente a presença de tantas influências diversas.
A esplêndida “Drown”, com uma guitarra assombrosa, desolada, o único acompanhamento de uma bela voz, melódica e dolorosamente frágil. “Bright Night Morning” é uma balada rústica, com Silje a aparentemente num estado de exaustão. “Ames Room” é uma canção de embalar “pop”, numa melodia delicadamente silenciosa (relembrou-me Stina Nordenstam), já “Giant Disguise” é um crescendo hipnótico.
Em “Ames Room”, Silje amplifica sons que são miniaturas, de uma forma que as canções parecem estoirar como meteoritos ao atingir o solo.

Silje Nes - Drown

06 fevereiro 2008

Bonnie “Prince” Billy - “Ask Forgiveness” (2007 Domino)

Quando não está empenhado em editar, sobre os seus vários pseudónimos, os magníficos álbuns que concebe, Will Oldham, ocupa os intervalos aventurando-se noutros projectos como o foram a colaboração com Matt Sweeney e o anterior disco de versões realizado a meias com os Tortoise.
Regressa agora com um mini-lp de versões, que poderá não ser tão diversificado como o realizado com os Tortoise, pois pode ser mais acessível, mas que não deixa de ter momentos sublimes, pois Oldham tem a habilidade de transformar praticamente tudo o que toca em pungentes canções “folk”, independentemente de as letras originais perderem toda a sua intenção inicial.
Com a ajuda de Meg Baird nas vozes e guitarra acústica, Greg Weeks na guitarra eléctrica (ambos são membros dos Espers) e ainda ocasionalmente por Maggie Wienk no violoncelo, cria uma cintilante combinação entre vozes e guitarras que circulam de um lado para o outro em perfeita harmonia, e que, no fim, fazem com que cada canção se torna sua.
Algumas interpretações são arrebatadoras, nomeadamente as menos improváveis e mais esperadas, como “World’s Greatest” de R. Kelly, ou “Am I Demon?” de Danzig, onde Oldham inverte a impudência ao fazer que a suposta “greatness” esteja ao alcance de qualquer um, na primeira, ou na forma como adopta o tom sombrio na segunda. Mas também o é a tocante e incrivelmente triste “I’ve Seen It All” de Björk, onde Oldham nunca tentar copiar ou imitar a mesma, sendo provavelmente por isso que esta e as restantes canções resultam tão bem. Ouçam como “My Life” de Phil Ochs ganha uma nova vida na melódica versão de Oldham.
Para além das versões inclui um grande original – “Loving The Street”.
São estes grandes momentos que tornam este disco merecedor de atenção.
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Ask Forgiveness

14 janeiro 2008

Mouthus – “Saw a Halo” (2007 Load)

Desde a sua formação em 2002, este enérgico duo de Brooklyn já tinha editado dez registos em diversas editoras independentes, o que torna difícil o acompanhamento da sua carreira.
Este “Saw a Halo” é um registo diferente do seu característico som “noise-drone”, pois apesar dos sons eléctricos e abrasivos estarem bem presentes, o aparecimento de guitarras acústicas em três dos sete temas do disco, é uma interessante e imprevista surpresa.
É certo que mantém-se a experimentação sónica que os tornou tão inovadores, mas existiu uma mudança na forma definida que a torna nova e convincente.
Os Mouthus não disfarçam o espírito original da escola experimental nova-iorquina, ao misturar o “noise” com o psicadelismo ambiental (como tão bem fazem os Wolf Eyes). Mas sempre sem esquecer o elemento “rock”, nas longas excursões sonoras até ao infinito, baseadas em estruturadas experiências sónicas, com as suas alterações constantes de ritmo, criadas pela tribal e furiosa bateria, pela explosiva guitarra e pelas gementes vozes.

19 dezembro 2007

The Autumns - “Fake Noise From A Box Of Toys” (2007 Bella Union)

O quarto disco do quarteto americano, mostra-nos uma banda que amadureceu em termos de ambição e na capacidade de produzir brilhantes e detalhadas canções.
É verdade que as influências do “Shoegazer” ainda estão lá (mas já não são tão evidentes), que a voz de Matt Kelly é comparável com o “falsetto” de Jeff Buckley ou Thom Yorke, que o disco pode ser mais acessível que os trabalhos anteriores, e que ao longo do mesmo denotam-se variadas influências, mas que os The Autumns assimilam e transportam para peças musicais originais, alternando constantemente entre momentos mais fortes e rápidos, e outros mais lentos e de delicada beleza, sempre com a secção rítmica a comandar e a conduzir os destinos.
Dos momentos altos do disco destacam-se a triologia: “Night Music” que é um momento verdadeiramente mágico, com uma fantástica prestação vocal de Kelly; “Killer in Drag” e o seu contagiante refrão, e “Only Young” com uma melodia antífona.
Mas ainda temos “Boys”, acessível, mas com uma fantástica melodia, apoiada nas magistrais guitarras, o rock vicioso de “Adelaide”, e as inesperadas alternâncias rítmicas de “Glass Jaw”.
Quando chegamos a fim, estamos emaranhados na música.
A edição/distribuição perto do fim do ano, poderá fazer com que o disco passe despercebido, o que é lamentável, pois estamos perante um grande e resoluto disco.

29 novembro 2007

Passos para o Futuro

Burial - “Untrue” (2007 Hyperdub)

Pinch - “Underwater Dancehall” (2007 Tectonic)

Em 2007, o “dubstep” é provavelmente um dos géneros que mais destaque está a merecer pela imprensa musical mundial, e em especial a britânica, de onde é originário.
E se nesta fase poderíamos ter atingido um limite criativo, eis que surgem dois registos que os permitem olhar para o futuro com esperança.

De Bristol, chega-nos um disco que enriquece a definição de “dubstep”, ao conseguir conjugar o som mais pesado proveniente de Londres, com o som mais emotivo da escola clássica de Bristol (Wild Bunch/Massive Attack).
É um disco ambicioso, ao introduzir vocalizações num género reconhecivelmente instrumental, mas mantendo a pureza do mesmo. Assim temos dois discos por onde se dividem os temas – um é vocalizado, o outro instrumental.
Desde o tema de abertura, “Brighter Day, que mistura elegantes batidas com vocalizações de base “dancehall”, passando pelas estruturas minimais de “Airlock”, as influências “reggae” em “One Blood, One Source”, até ao futuro clássico que certamente será “Get Up”, com uma maravilhosa voz sobre os difusos ritmos. O disco termina em grande com os complexos ritmos atmosféricos de “Lazarus”.
O disco de Pinch é único e excepcional, sendo um dos melhores álbuns de música electrónica que tive oportunidade de ouvir este ano.

Sobre “Untrue”, o segundo registo de Burial, que está a ser considerado como um dos melhores discos do ano, já muito foi dito. Apenas posso acrescentar que o poder deste disco reside em si mesmo.
E se o disco de estreia foi uma revelação, este é uma confirmação. E parece que existe, em relação a esse primeiro disco, uma regressão controlada que contrasta com uma progressão desorientada.
A influência do “soul” é evidente nas canções, mas o som corrosivo mantém-se, sendo arcaico e decrépito nalguns casos, alienado e sombrio noutros. O resultado final é magnífico. A simetria e a distinção sonora sobressaem num disco que marcará uma época.

09 novembro 2007

White Williams – “Smoke” (2007 Tigerbeat 6)

Quando ouvi o single “New Violence”, apaixonei-me pelo violentamente irresistível baixo “motorik” que caracteriza a canção.
Descobrir tratar-se de um projecto de Joe Williams, que apesar de apenas só ter 23 anos, já é um veterano da música underground de Cleveland.
“Smoke” é o seu primeiro álbum, e o resultado é um disco ambíguo e incómodo de “synth pop” (grande influência dos anos 80), curiosamente editado na Tigerbeat 6, uma editora mais conhecida pelos seus projectos mais hiper-enérgicos, como Kid 606 ou DJ/Rupture.
Estamos perante canções brilhantemente contagiantes, com uma rica e delicada índole, baseadas essencialmente nos sintetizadores retro e na voz graciosa de Williams.
Para além de “New Violence”, destacam-se os refrescantes “Smoke” e “Going Down” (poderosas guitarras), o adorável “Fleetwood Crack!” ou a incoerente versão de “I Want Candy” dos Bow Wow Wow (lembram-se deles…)
Só existe um requisito inicial, ignorem a capa que é horrível, e de seguida deixem-se levar pelos irresistíveis ritmos aos quais não conseguimos ficar indiferentes.

22 outubro 2007

Band of Horses – “Cease to Begin” (2007 Sub Pop)

O segundo álbum do grupo de Seattle é mais um grande conjunto de canções que reforça a qualidade de compositor de Ben Bridwell, que agora está sozinho, depois da partida de Matt Brooke.
E com uma mudança geográfica ocorrida para a gravação deste disco, o som também sofreu alterações, denotando-se que o tentaram expandir. Tudo parece mais grandioso. As guitarras, a bateria, as vozes.
Apesar disso, o tema que abre o disco, o grande “Is There a Ghost”, demonstra que o som típico dos BOH está presente, ao evoluir dentro da canção, do estilo acústico de Neil Young, para a explosão de distorção bem ao estilo “rock” de uns My Morning Jacket. E no meio desses ruídos sonoros, aquela magnífica voz continua presente, sempre em destaque, elevando a canção ao nível do sublime.
A parir daqui, e apesar de “Cease To Begin” ser um disco de raiz Americana, canções de base “country” como a enérgica “The General Specific” ficam com um ar solene, e outras tipicamente rock como “Lamb on the Lam (In the City)”, “Cigarettes, Wedding Blues” (uma das melhoras aqui presentes) ou “Marry Song”, mexem com o disco.
E fecha de uma forma perfeita com o “country-blues” redentores de “Window Blues”.
O disco fala-nos de amor, morte, pequenas cidades, vizinhos, e também de um ex-jogador da NBA. “Detlef Schrempf”, dedicado ao ex-jogador oriundo da Alemanha, apesar de estranha, é emocionalmente gentil.
Um álbum arriscado, musicalmente, mas que verá o seu esforço recompensado ao figurar nos mais interessantes discos de rock do ano.

11 outubro 2007

Yesterdays New Quintet – “Yesterdays Universe” (2007 Stones Throw)

Possivelmente este será o melhor disco dos YNQ, onde Otis Jackson Jr., ou melhor, Madlib, prova que é um dos mais imaginativos músicos/produtores da actualidade, pela forma brilhante como ao assimilar o imenso leque de conhecimentos/influências cria verdadeiras obras-primas.
Este último disco é uma “pseudo-compilação” criada pelos vários membros da banda, que aparecem disfarçados em curiosos alter-egos.
Uma salutar colisão entre o passado e o futuro, onde teclados Rhodes e “turntablism”, “vibes” e “beats”, fazem mais do que recriar um estilo de música. É a passagem de testemunho do som “mellow jazz funk” praticado nos anos 70 por editoras como a CTI, para o século XXI, o nível seguinte.
Madlib cria um “cocktail” musical completamente distinto, ao fundir electro-jazz, funk, swing, e até hip-hop, na forma como aborda clássicos como “Bitches Brew” de Miles Davis, ou os vários originais presentes.
O resultado é um disco sem comparação, que agrupa neste registo vários capítulos da história da música afro-americana.
Só o futuro dirá se estamos na presença de um visionário do nível de John Coltrane, Miles Davis ou Herbie Hancock.

13 setembro 2007

Nina Nastasia & Jim White – “You Follow Me” (2007 Fat Cat)

Desde “The Blackened Air” (2002), passando pelo meu favorito - “Run to Ruin” (2003), até “On Leaving” (2006), a carreira de Nina Nastasia tem sido impressionante.
Agora, e apesar de Jim White já colaborar com ela há vários anos, Nina resolveu gravou um disco admirável a meias com o baterista dos Dirty Three.
A magnificamente suave, mas resoluta voz de Nina, é mais um instrumento a juntar à guitarra e bateria, conseguindo através das várias canções, todos os tons que procura emocionalmente.
Mas a surpresa é o notável trabalho realizado por White na bateria, com mudanças bruscas de compasso e explosões sonoras (realçadas na forma magistral como Steve Albini captura os sons criados), que conferem a cada canção um carácter único.
E esse trabalho serve de base para Nina explorar novos territórios, que tornam as suas canções ainda mais originais. E funciona tão bem que perguntamos porque é ninguém tentou anteriormente uma abordagem semelhante.
As canções abordam o desejo pela pessoa amada. Desencontros e desilusões afectivas.
Ouçam o assombroso “I’ve Been Out Walking”, o doce e hipnotizante “Our Discussion”, o revoltado “Late Night”, e “The Day Would Bury You” uma das mais emocionantes canções do disco.
Um disco incrivelmente reconfortante, que glorifica a vontade de experimentar.

05 setembro 2007

Liars – “Liars” (2007 Mute)

Após o conceptual “Drum’s Not Dead” e ao quarto disco, os Liars tiveram uma aproximação mais tradicional aos formatos típicos de canção.
As combinações rítmicas são menos complexas, no entanto estes ainda são os Liars cujas credenciais conhecemos, e de quem aprendemos a esperar o inesperado.
Se as experimentações de “Drum’s Not Dead” continuam presentes, a estrutura está mais próxima da canção pop-rock, mas com uma criatividade e variedade incomparáveis.
Senão vejamos: “Plaster Casts of Everything” parte de um único “riff” e cresce em intensidade de uma forma “drone-rock”. O minimalismo synth- funk de “Houseclouds”, transforma-a numa das melhores canções que ouvi este ano. O sónico “Leather Prowler” relembra os Sonic Youth, com muito “echo” e “delay”. “Freak Out” é bubblegum pop. “Cycle Time” é uma canção perdida de “Psychocandy”. Em “Clear Island” evocam o glam-rock e em “Pure Unevil” o “shoegazing”. E em “Protection”, uma balada sobre a infância, temos um órgão eclesiástico que realça o tema em questão.
Continua a ser um disco difícil de catalogar, que ao longo de cada passagem vamos descobrindo algo que não detectamos previamente, permitindo que cada audição seja tão excitante como a primeira.
Um disco mais acessível do que os anteriores, no entanto é corajoso e ousado numa época em que arriscar pode ser um risco, mas como Angus Andrews canta no sedativo “Sailing to Byzantium”: “It’s time to wake these dumb fucks up”.

04 setembro 2007

Mudd – “Claremont 56” (2007 Rong)

O verão merece discos assim. E este disco (que é tão criativo que se torna difícil de catalogar), acompanhou-me no último mês em diversas viagens, e devido à sua refrescante beleza rítmica, ajudou-me a esquecer o pouco sol que temos tido.
Trata-se de um projecto de Paul N. Murphy (este dos Akwaaba e não o dos Soul Drummers), onde a diversidade de influências são evidentes (soul, funk, disco e house), e acabam por enriquecer o disco.
E ao contrário de muita música que actualmente surge em compilações “ambient”/“chill-out”, esta é música electrónica quente e melódica, tratam-se de canções com alma (ouçam “Mount Pleasant Lane”).
Como destaques, ouçam ainda o ambiente refrescante de “C40”, o ritmo funky disco de “Drop Lane”, e o magnífico e irresistível exercício que é “54B”.
Reminiscente do som “nu-disco” que caracterizou o disco de estreia de Lindstrom & Prins Thomas, também podemos classificar as sonoridades de “balearic”, e talvez sejam mesmo essas sonoridades ambientais que me atraem neste disco, ideal para uma “late-night-session” até amanhecer.

08 agosto 2007

Patrick Cleandenim – “Baby Comes Home” (2007 Ba Da Bing!)

Após o sucesso obtido no ano transacto com o disco de estreia dos Beirut, esta pequena editora parece ter encontrado outro potencial sucessor para o ano corrente, com o disco de estreia do nova-iorquino Cleandenim.
O disco contém uma enorme quantidade de influências, evidentes nos trabalhados arranjos que são um testemunho das suas capacidades de criador de clássicos pop, baseados nos seus conhecimentos enciclopédicos que incluem desde o trabalho inicial de Scott Walker, até às “big bands orchestras” e o swing dos anos 50, passando pelo 60’s beat, pela Motown, e a grandiosidade cinemática que percorre permanentemente o disco.
E se estas influências podem funcionar como homenagens, o disco não está preso ao passado, e tem a capacidade de o recriar. Ouçam “Whispers Only Hurt Them”, com a dualidade entre o piano e o órgão Rhodes e a voz ligeiramente distorcida, que refrega de outro modo uma serena canção.
Com um retro “vibes”, onde “Days Without Rain”, é um perfeito exemplo, com o omnipresente piano suportado pelas maravilhosas investidas da secção de cordas, que a transforma numa canção brilhante ao ponto de poder desafiar Rufus Wainwright.
E como podemos resistir a canções com títulos como “Caviar & Cognac”(outro destaque patetamente elegante).
É um disco ambicioso, a música é super-melódica, com sofisticados arranjos de cordas, e um sofisticado trabalho vocal. Uma das grandes surpresas de 2007.
Um episódio da era dourada do pop revitalizado no século 21.

26 julho 2007

The Detroit Cobras – “Tied & True” (2007 Bloodshot)

O regresso desta banda de “covers” é sempre de saudar, pois desde que os descobri em 2001, e numa carreira de 13 anos, só editaram 4 álbuns.
Criam versões de músicas soul, r&b e rock’n’roll dos anos 50 e 60 (pois são de Detroit), misturando os habituais clássicos com tesouros perdidos, mas transformando-as em exercícios garage-rock/ garage-soul.
“Life, Love & Leaving” (2001 Sympathy for the Record Industry) era esplêndido, quer ao nível conceptual, quer ao nível musical.
Este “Tied & True” (que conta com a contribuição de Greg Cartwright dos Reigning Sound) talvez não seja tão conseguido, no entanto destaques como as versões de “Nothing but a Heartache” (The Flirtations) e “I Wanna Know What’s Going On” (Art Neville), são do melhor que já fizeram.
Em canções como “You’ll Never Change” (Betty Lavett) ou “Puppet On a String” (Gino Washington) aventuram-se em territórios mais sombrios do que a banda alguma vez explorou.
A distinta voz, frágil “femme fatale” de Rachel Nagy é uma mais-valia. Como exemplo, a forma como transformam a versão de “Leave My Kitten Alone” de Little Willie John, que adquire um significado totalmente novo na voz “nicotinada”de Nagy. Em vez do típico cenário do homem que defende a sua dama, esta versão reforma os sexos e as sexualidades, sugerindo uma nova e mais volátil interpretação.
No catálogo da banda, “Tied & True” é outro capítulo na arte de “Be Cool”.

29 junho 2007

Jimi Tenor & Kabu Kabu – “Joystone” (2007 Sahko)

Ao longo dos anos Jimi Tenor foi um dos músicos mais aventureiros na área da música electrónica no seu desejo de experimentação, ao criar um som caracteristicamente único em editoras como a Warp, a Kitty-Yo, e na sua Sahko.
Ao reunir-se com o colectivo africano Kabu Kabu (que inclui nas suas fileiras Nicholas Addo Nettey, ex-percussionista de Fela Kuti), Jimi Tenor conseguiu a liberdade de realmente explorar-se e expandir-se, e assim regressa com um dos seus melhores discos.
Com “Joystone” Jimi Tenor simultaneamente consolida o seu som electrónico particularmente “kitsch”, ao mesmo tempo que o expande ao incorporar os ritmos terrenos dos Kabu Kabu. O resultado é uma experiência musical imaginativa e calorosa.
Existe uma mudança de rumo, e assistimos a um regresso aos anos 70, que servem de inspiração na forma brilhante como é efectuada a interligação ente a música electrónica, o afro-beat, o soul-jazz, o funk e a pop.
Os teclados e os sintetizadores de Tenor mantém-se como o ponto central das composições, no entanto as percussões africanas dão uma contribuição notável conduzindo-as numa direcção única. É um cocktail funk, com temas extremamente alegres, que nos relembram o verão.
Excepcionalmente contagiante e único.

12 junho 2007

Lanu – “This Is My Home” (2007 Tru Thoughts)

O disco de estreia a solo de Lance Ferguson dos The Bamboos, é uma maravilhosa surpresa, que vem revelar mais um talento que surge da Nova Zelândia, a juntar aos fantásticos Fat Freddy’s Drop ou a Mark Clive-Lowe.
Nota-se um distinto afastamento do som mais “deep-funk” do Bamboos, e uma produção mais intuitiva e sensível.
Assimilando e incorporando diversas influências globais, criou uma notável mistura de “neo-soul”, “nu-jazz”, electrónica, hip-hop e “funk”, que proporcionam uma fascinante viagem, com ritmos e texturas complexas, que relembram o trabalho de outros pioneiros como Roy Ayers, 4 Hero ou Fela Kuti.
Os teclados “electro-funk” Rhodes/Moog em “Dis-Information”, as influências afro-beat de “Mother Earth” (com a colaboração de Quantic), ou o “swing” brasileiro de “Shine” são um excelente exemplo.
Um disco versátil e profundo, com qualidade do início ao fim do disco, que se distingue de tantos projectos de fusão medianos que aparecem hoje em dia.

04 junho 2007

Junior Boys - “Dead Horse EP” (2007 Domino)

A qualidade deste disco começa na excelente selecção de artistas de diversas áreas musicais que tornam este ecléctico disco de remisturas diferente da maioria do género. São cinco remisturas no CD (os 12” não tem a mix de Marsen Jules).
Os Hot Chip subvertem “In The Morning” polvilhando-o com sons organicos de sintetizadores e órgãos “Moog”.
A remistura dos Ten Snake é a surpresa do disco, ao transformarem o sereno “FM” numa maravilhosa obra de house minimal.
O mágico Carl Craig pega em “Like A Child” e cria um épico ao chocar sons polidos com interferências industriais.
Kode 9 cria uma viagem futuristica de “deep-dub”em “Double Shadow” despindo-o dos seus traços iniciais e tornando-o irreconhecível.
Marsen Jules aplica a “FM” uma mix fantasmagórica reminiscente de Fennesz.
Estas “remixes” permitem aos temas expandirem-se para destinos não previstos, mas no fim parece mais que natural que assim fosse.

28 maio 2007

Battles – “Mirrored” (2007 Warp)

Finalmente chegou “fisicamente” este primeiro disco para a Warp deste grupo de Nova Iorque, que inclui ex-membros dos Don Caballero, Helmet, Tomahawk e Lynx.
Excitante, deslumbrante, imprevisível, e carregado de ideias novas, “Mirrored” é um disco único. O grupo não tem receio de forçar os limites sonoros independentemente do risco de alienar alguns dos seus antigos fãs.
Com “Mirrored”, criaram um grande disco. E em relação aos trabalhos anteriores, ainda expandiram mais a sua música ao adicionar vozes e refrãos mais “pop”. O tema de abertura “Race:In” é o exemplo perfeito desta mudança no som dos Battles, onde as vocalizações assumem o destaque. Não são as letras, são as vozes, muitas vezes tão desenquadradas que não se percebe o que se pretende dizer.
O grupo pode ser facilmente comparável com os géneros de “math rock” e electrónica, no entanto não se prendem a estas referências, e são capazes de surpreender com canções dançáveis como “Leyendecker”, ou dragar aquele “beat” contínuo e poderoso baixo, nada previsível, como no single “Atlas”.
O futuro do rock passará por aqui.

22 maio 2007

Antibalas - “Security” (2007 Anti)

Após dois discos na Ninja Tune, que eram puros exercícios de tributo a Fela Kuti, o regresso em grande com “Security”, que é um passo em frente para este grupo de Brooklyn.
O grupo começa a querer sair da sombra do mestre do Afro-Beat e a explorar o seu próprio som, com resultados surpreendentes. E se nas canções mais longas como “Fillibuster X” ou “Sanctuary” a influência do som de Fela ainda está fortemente presente, em canções mais pequenas como “Beaten Metal” ou “I.C.E.” é evidente o esforço em expandir a música para sons mais próximos do jazz.
Não será alheia a presença de John McEntire na produção, pois o homem dos Tortoise colocou em relevo a densidade harmónica do som, criando uma preciosa textura melódica que relembra tanto Charles Mingus, Sun Ra ou os Can, como Fela Kuti.
A partir da base rítmica do Afro-Beat, os membros do grupo, introduzem jazz, funk, dub, soul e música latina, misturados num “groove” que é simultaneamente hipnótico e infeccioso.

15 maio 2007

Mary Timony Band - “The Shapes We Make” (2007 Kill Rock Stars)

Este disco representa uma evolução qualitativa na música desta veterana do movimento “riot-grrrl”, que sempre se manteve de fora das tendências mais “hypes” do indie-rock.
Com uma mistura de clarividência e virtuosidade, a multi-instrumentista Timony e a sua banda, desenham diversas paisagens sonoras das mais variadas texturas.
A utilização de teclados, banjos, sintetizadores analógicos, “mellotrons”, viola de arco, e muitos instrumentos “vintage” como os Casios, tornam a música complexa, mas ao mesmo tempo dão-lhes uma sensibilidade “pop”.
”Pause/Off” com os seus arranjos soltos é post-rock, “já “Rockman” exibe traços do prog-rock” que caracterizou as suas experiências anteriores, em oposição “Sharpshooter” é baseado em secos riffs de guitarra.
A determinação que emprega em cada disco faz com que a ex-Helium seja uma das vozes mais reconhecidas e respeitadas do “underground” americano.

10 maio 2007

Stars of the Lid - “And Their Refinement of the Decline” (2007 Kranky)

Após 5 anos de ausência, o regresso deste eclético e atípico duo.
Editado na sempre credível Kranky, este duplo CD (ou triplo LP), é possivelmente ainda mais elaborado musicalmente do que o disco anterior. Com a integração de novas texturas ambientais e a expansão sonora dos temas, o resultado é uma transformação estrutural do som “ambient-drone” que caracterizava o disco anterior, e que torna este trabalho ainda mais calmo e subtil.
O disco abre com “Dungtitled (In A Major)” onde a secção de sopros, se dissolve na panorâmica secção de cordas, imagem de marca do duo. Violinos, violoncelos, harpas, trompetes, substituem cada vez mais a guitarra. Os instrumentos acústicos que anteriormente serviam como apoio, aparecem aqui como o elemento principal.
As alternâncias de “Articulate Silences”(Pt.1 and 2) e os dez minutos de “The Daughters Of Quiet Minds” são inovadores e refrescantes, mas ao mesmo tempo parecem tão familiares, que a sua audição dá-nos conforto.Este duo conseguiu criar outro conjunto sólido de canções, diferentes da maioria dos restantes artistas que exploram um som similar.