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22 abril 2009

Seeland – “Tomorrow Today” (2009 Loaf)

Primeiro chamaram-me a atenção os nomes de Tim Felton e Billy Bainbridge, que estão associados às suas experiências anteriores nas bandas Broadcast e Plone, respectivamente, duas das melhores propostas musicais que surgiram da cidade de Birmingham nos últimos anos.
Regressaram agora com o projecto Seeland (presumivelmente inspirados no tema dos Neu!). E depois de dois singles editados na Duophonic dos Stereolab, e já como um trio com a entrada do baixista Neil McAuley, editam o seu primeiro álbum. E aqui apresentam-nos uma nova sonoridade que combina com aprumo elementos de “krautrock”, da subtil electrónica analógica reminiscente de uns White Noise e de electrónica “indie” anos 80 (mas também é evidente que foram muito influenciados pelos primeiros discos a solo de Brian Eno).
Através de arranjos complexos, melodias extremamente fortes e delicados padrões electrónicos, criam pequenos, mas concisos e melodiosamente vibrantes regalos “pop”, assentes na linear e voluntariamente impassível voz de Felton, que nos transmitem uma sensação de abstracção. E chegam a atingem um tipo de grandeza sonora que nos dá arrepios através de canções como a propulsiva “Burning Pages”, nos intensamente cortantes dedilhados de guitarra na brumosa “Library”, no efervescente acidulado “pop” de “Goodbye”, na superlativa “Call The Incredible”, ou na implacável batida mecânica e vibrante linha de baixo presente em “Static Object”.
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20 abril 2009

Tributo # 10 - Robert Wyatt

Um verdadeiro cavalheiro, um gracioso e sensato poeta lírico, um hábil instrumentista, mas será pela sua forma de cantar que Robert Wyatt será certamente melhor recordado.
Na sua estranha, coloquial voz, Wyatt, destilou a sua singular contribuição para a sitiante alma do rock. A sua voz deu sequência a inúmeras canções ao longo de sucessivas tapeçarias de rock psicadélico, rock experimental, pós-punk, agit-pop, jazz, electrónica, sem nunca afasta-lo do trajecto que ele definiu para si próprio à 40 anos atrás.
Foi Wyatt que introduziu a noção revolucionária de cantar tal como falávamos, numa época onde todos à sua volta estavam a imitar os vocalistas “r&b” americanos. Nos Soft Machine era baterista e vocalista no agridoce “pop” do movimento Canterbury, de onde surgiram os Caravan ou Kevin Ayers, e onde Wyatt ajudou a definir um tipo especial de psicadelismo britânico, com a sua voz elevada, penetrante e muitas vezes deliberadamente deprimida para elevar o cociente de melancolia.
Após a sua injusta saída dos Soft Machine, formou os Matching Mole (o mesmo significado em francês para brincar com os seus ex-colegas) e produziu dois álbuns com eles – um deles uma errática obra-prima – mas em Junho de 1973 iria cair de uma janela num quarto andar aquando de uma festa e partiu as costas. O incidente tornou-o paraplégico. Mas na sua estadia no hospital ele começou a elaborar “Rock Bottom”, o seu primeiro regresso.
Wyatt mais tarde, chegou a afirmar que “foi libertado” pela paraplegia, pois não teria mais que estar ligado a um grupo. Assim sentia-se mais confortável a fazer o que queria primeiro e depois procurava as pessoas mais indicadas para trabalharam nos temas que queria.
A dor, mas também o humor nunca estiveram afastados no trabalho de Wyatt. A sua música é tão profundamente comovedora, porque é uma muito directa expressão dos seus sentimentos no momento da gravação. “Rock Bottom” (1974) registra o choque da hospitalização, a enormidade da alteração da sua vida, em submersas e deslizantes melodias electrónica sobre ondulantes correntes de percussão. Pois sendo Wyatt um baterista, o acidente forçou-o a procurar formas musicais mais imaginativas. O disco seguinte “Ruth Is Stranger Than Richard” (1975) inclui a extraordinária versão de “Song For Che”, original de Charlie Haden.
O segundo regresso surge no início dos anos 80 a convite de Geoff Travis da Rough Trade, que editou uma colecção de “singles” que eram destinados a funcionar como boletins políticos sobre a liberdade (reunidos em ” Nothing Can Stop Us”), e que inclui superlativas versões de “At Last I’m Free” dos Chic ou de “Strange Fruit” popularizado por Billie Holiday. Iria inclui ainda “Shipbuilding” de Elvis Costello, que este ultimo compôs especialmente para Wyatt, e que resultaria num inesperado êxito.
O seu terceiro regresso surge em 1997 com o magnifico “Shleep”, gravado no estúdio de Phil Manzanera, e com a colaboração de Brian Eno, Evan Parker ou Annie Whitehead e também, surpreendentemente, de Paul Weller. Com o balanço entre invenção musical e jovialidade, estruturas sonoras e a liberdade para músicos como Parker de alargar as canções para além dos seus parâmetros, e as cáusticas reflexões e as disparatadas letras, “Shleep” inverte a espiral de desespero que caracterizavam os seus últimos discos. Ouçam a debilmente cómica, no entanto arrebatadoramente melancólica meditação psicológica denominada “Free Will And Testament”. Continuou a surpreender-nos com “Cuckooland” (2003) e “Comicopera” (2007), uma dissoluta espécie de ópera mas nitidamente ambiciosa, que inclui a atmosfera intranquila de “Out Of The Blue, e que são uma real celebração de amigos e músicos a tocarem juntos, a convite de um artista que nesta altura simplesmente não se interessa por géneros ou rótulos musicais.
Um penetrantemente inteligente músico que nunca devia ter parado de criar, pois a sua cativante obra fascina pela sua lírica sinceridade.
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19 fevereiro 2009

Brian Eno – Discografia Selectiva

Como complemento a “Another Green World” e “My Life In The Bush Of Ghosts”.

Pop
“Here Come The Warm Jets” (1973)
“Taking Tiger Mountain” (1974)
“Before And After Science” (1977)
O primeiro disco a solo de Eno, “Here Come The Warm Jets” foi editado à trinta e seis anos e ainda hoje soa moderno e surpreendente, com a sua descarada combinação de “glamour”, “pop” clássico e do dramatismo dos Velvet Underground. São pequenas e singulares canções iluminadas por relâmpagos de demência.
“Taking Tiger Mountain” inspirado pela revolucionária opera Chinesa do mesmo nome, vai ainda mais longe e mais misteriosamente na mesma linha.
Em “Before And After Science”, o fértil sentido de fluidez na música de Eno, criou um disco clássico, onde um resplandecente e excepcionalmente invulgar “pop” (“Backwater”, “Kings Lead Hat”) aparece lado a lado com a imponente melancolia de “Julie With…” e “Spider and I”.

Ambient
“Music For Airports” (1978)
“On Land” (1982)
“Thursday Afternoon” (1985)
Tenho a percepção de que “Music For Airports” é um dos mais influentes discos dos últimos 30 anos, se não de sempre. Eno teve a distinta intenção de criar um novo tipo de música, que procuraria produzir atmosferas e texturas, ou se preferirmos “ambientes”, em vez de canções que se podiam assobiar. Ainda hoje soa comoventemente excêntrico.
“On Land” confia ainda menos em ferramentas convencionais, conjura sensações específicas aplicadas numa variedade de texturas sonoras que inclui “samplers” de sapos!
“Thursday Afternoon” foi especialmente desenvolvido para CD e Vídeo, (um peça de 61 minutos para uma instalação de Christine Alcino), e é espantoso.

Experiências instrumentais
“Discreet Music” (1975)
“Music For Films” (1978)
“Apollo: Atmospheres And Soundtracks” (1983)
Deitado na cama, após ter sido atropelado por um táxi, Eno descobriu que um dos canais da sua aparelhagem estava tapado, retribuindo a musica que escutava pouco audível por cima da chuva que cai-a. A semente da música ambiental foi disseminada com “Discreet Music”, uma longa peça título e três variações inspiradas no conhecido “Canon” de Pachelbel.
“Music For Films” é um atractivo pacote de pequenos fragmentos instrumentais que explora toda a extensão musical desde leves camadas ambientais até “funk” oblíquo.
“Apollo” foi produzido para o filme de Al Reinert sobre aterragens na lua e é uma brilhante invocação dessa grandeza que utiliza técnicas tão diversas como ruídos de tractores e reluzentes guitarras dobro.

Colaborações
“No Pussyfooting” (1973) com Robert Fripp
“Evening Star” (1975) com Robert Fripp
As colaborações de Eno são lendárias e aqui estão duas que são mais que pertinentes hoje. Os dois discos com Fripp eram bastantes avançados para o seu tempo – longas explorações instrumentais que eram distintas do rock progressivo da época pelo seu senso de risco e pela existência das fronteiras do conhecimento. Também nunca tivemos títulos como “Swastika Girls” pelos Yes.

08 janeiro 2009

Classic # 17 - Brian Eno – “Another Green World” (1975 Island)

Se “Taking Tiger Mountain” (o seu disco anterior), era largamente um maior desdobramento dos temas de maior sucesso encontrados no seu primeiro disco a solo (“Here Come The Warm Jets”), “Another Green World” é uma declaração de independência artística, que nada deve aos seus antecessores. Eno extraiu muita energia e confiança das suas bem sucedidas colaborações com músicos como John Cale, Phil Manzanera e particularmente Robert Wyatt. A aparentemente fragmentária construção de “Another Green World” recordava o último de Wyatt, “Ruth Is Stranger Than Richard”. Os dois discos têm uma qualidade aventureira, e um sentimento de espontaneidade e imprevisivilidade.
A intenção de Eno para este disco era dispensar a disciplina tradicional de gravação e de criar em estúdio um ambiente que iria precipitar, através de ideias e propostas acidentais, a concepção e captura de estratégias oblíquas num processo que não tivesse um objectivo específico ou predeterminado. A música resultante é o resultado da interacção entre várias combinações de oito músicos totalmente complacentes com a experimentação. E se o imprevisível sempre foi adoptado por Eno como uma fonte viável de informação e inspiração, aqui a proeza, é a sua habilidade de orquestrar os diferentes estados e atmosferas produzidas ao longo da construção do disco de forma a submeter os estilos e as texturas sonoras numa única dimensão.
A maior parte do disco possui uma extraordinária e incandescente beleza que ocasionalmente dá lugar a uma mais sombria e sobrenatural tranquilidade. “St.Elmo’s Fire” é uma brilhante ilustração da primeira qualidade: abre com uma complexa matriz rítmica dispersa através dos altifalantes seguida pela voz de Eno à deriva pelo meio de um bruma de subtis enfeites de teclados. A guitarra de Robert Fripp subitamente surge numa brilhante cascata de som, delicadamente realçando o tom predominante da canção com enorme destreza. Este tema está em directo contraste, com a compulsiva cadência rítmica de “Sky Saw” e “Over Fire Island”, que também contêm a claridade glacial que caracteriza “Becalmed” e a excepcional sequência final, “Spirits Drifting” - a brilhante perfeição desta composição é arrepiante. “Golden Hours”, “Zawinul/Lava” e “Everything Merges With The Night” confiam no inegável efeito da pouca complexidade. E assim, o disco, como um todo, é marcado por uma surpreendente frugalidade e uma refrescante ausência da dispensável decoração auricular.
Altamente recomendado.
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11 agosto 2008

Electronic # 4 - Bola – “Soup” (1998 Skam)

Fui completamente arrasado com a beleza deste álbum, que na altura se revelou uma experiência musical totalmente reconfortante.
Darrell Fitton esconde-se neste projecto que habita o mesmo universo musical de Boards Of Canada, Autechre, Gescom ou Plaid, entre outros. Mas aqui, e ao contrário da química digital de uns Autechre, ou das fantasias caricaturistas dos Plaid, “Soup” toma uma abordagem mais subtil e delicada.
É um disco liberto de muita da ornamentação e processamento tão popular na música electrónica, confiando antes nos formosos arranjos e em puros e calorosos sons.
Notável é a sua capacidade de combinar elementos da música ambiental com as formas mais elementares da música de dança. Ao pegar em modelos da música ambiental como os tradicionais sons de sintetizadores e arranjos de cordas e assentá-los em sólidos blocos estruturais recheados de caixas de ritmos e um vastamente intenso, esplêndido e absolutamente crucial baixo, que cobre tudo o resto como um manto, e assim ricos, dóceis, suavemente melódicos sons servem de base a belas, hipnóticas e futuristas harmonias.
Desde o tremendo e alienado tema de abertura “Glink”, passando pelas soberbas melodias de “Forcassa 3”, e pela desconcertante beleza do épico “Aguilla”, o grande momento do disco.
Um clássico do género, que deverá ser colocado ao lado de “76:14” dos Global Communication, “Music Has The Right To Children” dos Boards Of Canada ou “Music For Airports” de Brian Eno. _

Bola - Aguilla

22 julho 2008

Tributo # 6 - Hugo Largo

“Drum” (1988 Opal)
“Mettle” (1989 Opal)

Uma das mais ignoradas e enigmáticas bandas dos anos 80, apareceram numa altura em que o "guitar-noise" imperava nos Estados Unidos, e em Inglaterra acontecia a revolução da “acid-house”.
A banda era um quarteto composto por dois baixos (impecavelmente tocados por Tim Sommer e Adam Peacock), o violino de Hahn Rowe (que actualmente edita sobre o nome Somatic), e a voz incomparável e evocativa de Mimi Goese. Tiveram uma carreira meteórica com apenas dois álbuns editados na editora Opal de Brian Eno (um dos possíveis pontos de referência sonora a par dos Cocteau Twins). “Drum” e “Mettle”, são obras de arte que desafiam géneros ou categorizações, pois os Hugo Largo criaram uma música encantadora, de ambientes acústicos, com arranjos simples e orquestrações delicadas. Com uma ausência de ritmo, os violinos circulares abriam espaços para a voz poderosa, que investia através das simples melodias dos baixos em câmara lenta, provocando no ouvinte uma espécie de suspensão dos sentidos.
Ao rodearem o silêncio, esculpindo-o com rigor e compondo verdadeiras tapeçarias sonoras, era como se criassem radicais quadros impressionistas que variam desde uma delicada fragilidade até um glacial clímax, muitas vezes no espaço de uma única frase, nas letras celestiais recitadas pela etérea voz de Goese.
A participação de Michael Stipe dos R.E.M. em “Drum”, não lhe proporcionou nenhuma atenção especial, mas ainda hoje canções como “4 Brothers”, “Ohio”, “Turtle Song”, “Martha” mantém uma frescura e intemporalidade notável. E até parece que tinham um belo sentido de humor, já que “Drum” tem um título irónico, pois não existe nenhuma bateria presente no disco, exceptuando a penúltima e melhor faixa – “Second Skin”.
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14 julho 2008

Minilogue – “Animals” (2008 Cocoon)

Um surpresa que chega de Malmo na Suécia. Marcus Henriksson e Sebastian Mullaert apresentam-nos um duplo CD (belíssimo “digipack”) – 26 faixas, 154 minutos de música. E apesar de que o título ou a duração do disco, me fizessem pensar nos Pink Floyd ou no rock progressivo dos anos 70, felizmente estamos muito longe.
O disco divide-se em duas partes deliberadamente diferentes, a primeira repleta de vacilantes “bleeps” e “beats”, é uma viagem pelos caminhos do “minimal techno”, reminiscente da segunda geração de Detroit, mas apimentada com temas que desobedecem a esse padrão musical, de uma forma ameaçadoramente inventiva e que fazem com que o disco circule por outros caminhos. Assim temos ecos de “jazz” e “funky-house” em “Loud”, vibrantes ritmos “dub techno” em “Hitchhiker’s Choice” e “electro” em “Giant, Hairy Spiders”. E que chegam a atingir a perfeição no brilhante “33.000 Honeybees” e os seus vigorosos padrões rítmicos.
O segundo disco deveria funcionar como uma suposta peça de música ambiental contínua, que deambula livremente, pois cada estrutura sonora cuidadosamente construída encaixa na próxima, mas que poderiam ter sido realizadas cada por uma diferente banda. Mas aqui o titulo “ambiente” é enganador pois quem esperar “ambient pop” ao estilo de Brian Eno ficará desapontado, pois para todas as longas espirais de sintetizadores ou delicados dedilhados de guitarra acústica, existem complexas melodias que se misturam intimamente com oscilantes “beats” reminiscentes dos Boards of Canada ou dos Global Communication.
Um disco corajoso e aventureiro, sem medo em avançar para novos terrenos, e que será difícil de esquecer.
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04 julho 2008

Classic # 15 - Talking Heads - “Remain In Light” (1980 Sire)

Apesar de pertencerem ao contingente originário do CBGB, os Talking Heads nunca fizeram realmente parte do movimento “punk” ou “new wave”. As ambições de David Byrne eram superiores ao género em que os quiseram enquadrar. Enquanto bandas como os Ramones trituravam humorísticos hinos de três acordes, os TH exploraram a sua própria mescla de “art-rock” dançante. E se todos os discos desde “77” até “Speaking In Tongues” são de uma categoria superior, se tivesse de escolher o melhor, esse seria “Remain In Light”. Aqui uma das mais interessantes bandas de todos os tempos, criou o seu mais exótico e formoso álbum, numa fase da sua inspirada e natural evolução criativa. É certo que a presença de Brian Eno está em todo o lado, no entanto este nunca desvia a banda do seu rumo e limita-se a adicionar mais-valias.
As canções eriçam-se, sempre a transbordarem de ritmos africanos, através de melodias e estruturas invulgares, melódicas decorações “pop”, “loops” e efeitos, e acompanhadas por letras incoerentes proferidas por Byrne, que soando agitado, exulta inquietação e desconforto. Como complemento extra, um conjunto de ilustres convidados, adiciona excelência, na forma inventiva de tocar guitarra, Adrian Belew ou trompete, Jon Hassell.
A primeira metade do disco é altamente excêntrica, uma mutação de “punk", musica tradicional africana e “funk”, e é impressionante pela sua coerente energia. As galopantes polirritmias de “Born Under Punches (The Heat Goes On)” é a melhor maneira de começar um disco. Segue-se a substimada “Crosseyed and Painless”, a complexa “The Great Curve” (que possui um dos melhores harmonizadores de refrão), e a profética “Once In A Lifetime”, que com as suas referências ao materialismo que a década bem definiu, acabou por ser um êxito inesperado. A segunda metade tem um carácter mais misterioso e é mais melancólica, chegando a fascinar e a exasperar simultaneamente pela dissonante dispersão sonora. Começa com a intrincada cadência rítmica de “Houses In Motion”, mas as duas últimas composições fecham o álbum com uma tonalidade sombria e volátil. “Listening Wind” é um verdadeiro assombro, enquanto “The Overload” é como se estivéssemos a andar completamente desorientados pelo meio de umas ruínas resultante de alguma catástrofe.
Musicalmente antecipou muita da actual globalização musical ao influenciar músicos de diversos quadrantes.
Um disco que ultrapassa a excelência.
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03 julho 2008

Inovadores # 9 - Brian Eno / David Byrne - “My Life In The Bush Of Ghosts” (1981 EG)

Quando Brian Eno, conhecido pelo seu envolvimento com Roxy Music, Cluster e David Bowie, para além de ter criado o conceito de “ambient music”, colidiu com David Byrne, o excêntrico líder dos Talking Heads, era previsível que algo de extraordinário estaria para acontecer. Eno produziu o segundo disco dos TH, o subestimado “More Songs About Buildings”, e esteve ainda mais envolvido nas brilhantes obras-primas “Fear of Music” e “Remain In Light”. Assim tornou-se natural que os dois realizassem um disco em conjunto, e “My Life In The Bush Of Ghosts” é o resultado dessa colaboração.
Inspirações podem ser encontradas em “Movies” de Holger Czukay, nas colaborações de Eno com Jon Hassell (“Fourth World Vol.1”), e até no lado B de “Low”. Musicalmente, é um impetuoso desvio para territórios bizarros, até para os seus padrões, mas ambos se encontravam num máximo criativo, e a forma como misturam “samples” vocais de rituais de exorcismo, sermões evangélicos e “world music” com ritmos tribais, insidiosas guitarras minimalistas, subtis texturas de sintetizador, e a sensibilidade “funk” de Byrne, permitiu a criação de um disco verdadeiramente único.
O irregular e desvirtuado “America Is Waiting”, o ameaçador “Mea Culpa”, o assombroso “Regiment”, (excelente trabalho de guitarra e com a participação da cantora Libanesa Dunya Yusin), o admirável “Help Me Somebody” (“sampla” os sons de um aviário acompanhados pelo exaltado apelo de um pregador), a desagradável intensidade de “Jezebel Spirit” (“sampla” vozes de rituais de exorcismo, acompanhada por uma batida imparável), ficam gravadas na nossa mente. Não é de audição fácil, provavelmente soando mais como um moderno disco de electrónica experimental, sendo difícil de conceber que foi produzido à mais de 25 anos, e claro, muito do que se seguiu musicalmente, tem aqui as suas raízes.
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Brian Eno & David Byrne - America Is Waiting

26 junho 2008

Tributo # 5 - Devo

São certamente uma das bandas mais incompreendidas da história da “pop”. Originários de Akron, e constituídos por dois pares de irmãos - Gerald Casalde e Bob Casale, Mark Mothersbaugh e Bob Mothersbaugh – criaram um projecto musical para revolucionarem a sociedade americana.
O seu curioso nome resulta da concepção de “de-evolution” – a ideia defendida pelo antropólogo Óscar K. Maerth, de que em vez de evoluir o homem estaria a regredir.
O objectivo da sua música era de servir como uma rebelião contra a conservadora e reprimida sociedade americana, através de sarcásticos comentários sociais e apoiados no estética minimalista, com ênfase em altamente estilizados e bizarros visuais - chapéus que pareciam vasos para plantas, cabelos preparados artificialmente, uniformes industriais idênticos. Musicalmente criaram uma simples, mas sinistra electrónica experimental - corrosiva, abrupta, assustadora, desprovida de emoções, com vocalizações destoantes. Foram dos primeiros grupos a abusar da utilização de sintetizadores, quer verdadeiros e costumizados pelos próprios, para além de incorporaram brinquedos eléctricos, esquentadores, torradeiras e outros objectos pouco usuais no seu reportório.
Em 1978, com “Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!” produzido por Brian Eno, e que incluía a agora famosa versão de “(I Can’t Get No) Satisfaction” dos Rolling Stones, estabeleceu o grupo como os mais cruéis satíricos sociais da “new wave” (ao desumanizar a sociedade com o objectivo de a assaltar), e como uma banda que compreendia perfeitamente o conceito “Warholiano” do produto “pop”.
Seguiu-se em 1979, “Duty Now for The Future”, mas seria com “Freedom of Choice”(1980), que iriam explodir. E em nada surpreendeu para um grupo instantaneamente reconhecível pela sua imagem, que eles cedo aproveitassem as potencialidades do formato vídeo. “Whip It” – apesar do baixo orçamento disponível – que com a sua imagem futuristica, e os contrastes entre o grotesco “sadomasoquismo” e um saudável rancho americano dos anos 50, foi um dos primeiros clássicos da MTV.
No entanto, o seu sucesso durou pouco tempo, pois o sombrio e mais sério “New Traditionalists” (1981), não era o que o público esperava desta banda invulgar.
No entanto no início dos anos 80 eram um verdadeiro objecto de culto, essencialmente pelas suas elaboradas performances em palco, mas os seus discos dessa fase - “Oh, No! It’s Devo” (1982) e “Shout” (1984) - são dispensáveis. Como foram os Devo pela sua editora, o que fez com que a banda decidisse parar.
Apesar de reuniões posteriores, os resultados nunca foram satisfatórios, e os vários membros partiram para novos projectos. Mark Mothersbaugh virou-se para a produção de bandas-sonoras quer para o cinema quer para a televisão, e Jerry Casale para a realização de vídeo-clips.
Existem imensas compilações, com destaque para “Pionners Who Got Scalped” na sempre excelente Rhino, que reúnem os principais êxitos como “Jocko Homo”, “Be Stiff”, “Girl U Want”, “Whip It” ou “Out of Sync”, mas para perceber a sua verdadeira importância e influência na música “pop” (são várias as bandas dos finais dos anos 80, princípios anos 90, que reconhecem essa influência e muitas delas o demonstraram, ao realizaram versões como os Nirvana, os Soundgarden ou os Superchunk), quer “Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!”, quer “Freedom of Choice” são essenciais.

Devo - Mechanical Man

Devo - Out Of Sync

24 janeiro 2008

Inovadores # 6 - Steve Hillage - “Rainbow Dome Musick” (1979 Virgin)

Esqueçam todos os discos de rock progressivo que Steve Hillage editou ao longo da sua carreira, e foquem-se neste “Rainbow Dome Musick”, que é actualmente considerado como um percursor (juntamente com o trabalho de Brian Eno) no que seria denominado de “ambient music”.
Originalmente concebido para um festival intitulado “Mind, Body and Spirit”, o objectivo de Hillage era criar um oásis de harmonia atmosférica.
Juntamente com a sua mulher Miquette Giraudy, Hillage (que nos anos 90 teve algum êxito com o seu projecto System 7), criou um disco onde abundam texturas e cores ambientais, e que é simultaneamente suave e intenso.
Constituem o disco dois belíssimos temas, o primeiro, o relaxante “Garden of Paradise” é baseado em matrizes ressonantes de sequenciadores e umas crescentes texturas sonoras de piano e guitarra eléctrica.
O segundo, o hipnótico “Four Ever Rainbow” começa com o som de um órgão que se desloca ao encontro de ondas deslizantes de guitarra e sintetizador.
Na data da sua edição, em 1979, numa altura em que “punk”, “disco” e “new wave” preenchiam os “tops”, estavam aqui definidas as raízes do que iriam posteriormente denominar como “trance” e “chill-out”.