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21 maio 2010

Do fundo da prateleira # 23 - The Nectarine No. 9 – “Received Transgressed & Transmitted” (2001 Beggars Banquet)

Davey Henderson pode nunca ter escrito uma canção “pop” ambiguamente simples – nem mesmo nos WIN, a sua ostensiva tentativa de seduzir o “mainstream”, ele se mostrou incompreensivelmente ambicioso para os gosto das massas - mas o ex-Fire Engines também não é um incorrigível vanguardista.
Este disco é uma imprecisa delícia, do eternamente desvalorizado colectivo formado pelo famoso erudito do “post-punk” de Edimburgo. Cada álbum dos Nectarine No.9 centra-se na capacidade alquímica que Henderson tem em encontrar beleza no caos, enquadrando no processo um bizarro círculo que agrupa Captain Beefheart, Marc Bolan e Charles Bukowski.
“Received Transgressed & Transmitted” evidencia que essa capacidade para encontrar a mais doce melodia através das colagens sonoras do seu grupo só tem melhorado com a idade.
Aqui a formação de três vertentes de guitarra dos Nectarine No.9 é aumentada com a presença do clarinete de Gareth Sager (ex-The Pop Group ) e camadas de desarticulações electrónicas. Considerando que todos exceptuando Henderson e o guitarrista Simon Smeeton vivem em diferentes partes do Reino Unido, a empatia que o grupo demonstra em “Pocket Rainbows” (uma excêntrica abordagem ao “reggae”), na relaxante melodia e no puro prazer de “Constellation of A Vanity” e na beatifica felicidade de “Lazy Crystal” é verdadeiramente notável.
Daqui por 20 anos provavelmente poderão ser tão legendários como os Velvet Underground. Mas é claro que podemos usufruir do prazer já hoje.
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18 dezembro 2009

Jon Spencer Blues Explosion - Discografia Selectiva

“Extra Width” (1993 Matador)
“Extra Width” é a analogia aural de um momento flamejante – uma mistura de “tequila”, “Budweiser” e “speed”- excepto a paranóia e náusea resultantes.
Unidos pelo desejo de “fazer algo realmente louco”, Jon Spencer, Judah Bauer e Russell Simins (ex-Honeymoon Killers) estão tão versados no papel de uns verdadeiros mestres do “blues”, como estão no de teóricos da deconstrução.
No seu mundo Son House “jams” com os Gang of Four, Thurston Moore toca com os Million Dollar Quartet, e uma desordem áudio é talhada. Em estúdio, Spencer e companhia tocam com as camadas visíveis, os níveis sonoros no máximo e com o bom senso de saberem que o “real blues” não é um produto rarefeito para os fãs de Robert Cray. Os The Blues Explosion começavam a deixar marcas indeléveis na música “rock”.

“Orange” (1994 Matador)
Um grande passo em frente em relação a “Extra Width” – um motim rítmico que confunde e perturba. A prontidão de misturar as coisas de Spencer – principalmente o Theremin, com as influências Stax e “P-Funk” - é inspirador.
Treze exuberantes e empolgantes canções de irresistível e vibrantemente ruidosa energia.
Existe mais do que uma forma de aproximação à música dos JSBX. Primeiro como uma jubilosa continuação do caminho de “blues’n’roll” de Captain Beefheart – tal como este fez com Howlin’ Wolf, Spencer faz o mesmo para Hound Dog Taylor (a fonte original da Blues Explosion – 2 guitarras, bateria e sem baixo). Segundo, como um alegre despojamento do niilismo da “No Wave” nova iorquina, da qual os Pussy Galore eram os enteados não desejados. Convém relembrar que os Pussy Galore fizeram uma bizarra versão integral de “Exile On Main Street” dos Rolling Stones.

“ACME” (1998 Matador)
Embora seja o resultado de mais de seis meses de gravações em colaboração com cerca de uma dúzia de produtores, o quinto disco da Jon Spencer Blues Explosion parece mais o resultado uma gravação ao vivo.
A restrição aqui é a chave, quando Spencer, o guitarrista Judah Bauer (que toca aqui muito mais baixo do que fazia no passado) e especialmente o baterista Russell Simins afinam o tipo de “soul” dos anos 60, que o “punk” era muito orgulhosamente indisciplinado para imitar.
“ACME” marca o regresso da JSBX aos ritmos uniformes – mais ao estilo de “Orange” (1994) do que do saltitante “Now I Got Worry” (1996) – mas agora, em vez de libertas, as batidas tribais de Simins estão em satisfeito conflito com o unicamente não refinado sentido melódico de Spencer e actuam perfeitamente.
Se canções como “Magical Colors” e “Do You Wanna Get Heavy?” mergulham em novos padrões rítmicos, já “Blue Green Olga” e “Torture” são suficientemente suaves, que a característica rudeza de Spencer, ao inicio parece ausente.

“Damage” (2004 Mute)
Podemos bem dizer: “If ain’t broke, why fix it?”, os The Blues Explosion parecem melhorar com o passar dos anos. E o facto de abandonarem o Jon Spencer do nome da banda parece o único sério desvio do descarnado e irregular “blues-punk”, mas bem característico, que vêem a produzir ao longo dos últimos anos.
Desta vez são ajudados por convidados como DJ Shadow ou David Holmes, que fundem as arrogantes, mas seguras guitarras com o carácter do “hip hop” e ainda captam o frenético e louco gorgolhar de Jon Spencer.
Desde o lento e taciturno “Spoiled”, com a presença de Martina Topley-Bird, passando pelo discurso politico de ” Hot Gossip” (com a presença de Chuck D dos Public Enemy) , pelo impetuoso “pop” de “Crunchy”, pelo “space-rock” de “You Been My Baby”, até à paranóica “Rattling”, é só fúria, com os ritmos triturantes a impelirem este besta através do “rock’n’roll”, “white soul”, “southern rock”, e muito mais “natural blues” do que qualquer disco de Moby.
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05 junho 2009

Extremos # 5 - U.S. Maple – “Long Hair In Three Stages” (1995 Skin Graft)

No actual “rock moderno” não existe muito que desafie Jim O’Rourke, o músico, produtor e editor cujo interesse na “música sem precedentes” (ex: Bernhard Günter, Nuno Canavarro) é bem conhecido.
Mas em relação aos U.S. Maple, cujos dois primeiros discos produziu, O’Rourke simplesmente afirmou: “eu gosto dos U.S. Maple, porque quando os ouço, eles desafiam-me e isso é bom”.
Este quarteto de Chicago teve as suas sementes em minúsculas bandas de rock abrupto – Snailboy, Shorty, Diaper – e debutou como algo em que as raízes não se ligam a nenhum género.
Em “Long Hair In Three Stages”, a clivagem das guitarras gémeas (aqui não existe baixo), um sentimento acidental e a livre reciprocidade instrumental, conjugam uma sonoridade que junta o primitivo com o complexo e que remete para um Captain Beefheart em “Trout Mask Replica”. Mas o disco foi completamente escrito noutra linguagem, recheado de humor e níveis absurdos de ironia (verifiquem o gozo com as vedetas musicais), penetrante e confrontante, com explosivos andamentos temporais, onde tudo é misturado e é esta perplexidade musical que o torna tão agradavelmente provocador.
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23 janeiro 2009

Inovadores # 11 - Pere Ubu - “The Modern Dance” (1978 Blank) / “Dub Housing” (1978 Chrysalis)

Um dos grupos mais importantes dos últimos 30 anos, os Pere Ubu, formaram-se em Cleveland, uma cidade industrial orgulhosamente decadente, que fomentou o sentimento de reclusão e a simpatia pelas ruínas da industrialização que serviriam de inspiração para a formação dos mesmos.
Liderados pelo seu ideólogo e arauto, David Thomas, descrevem um mundo onde os propósitos foram modificados e servem a banda-sonora desse mesmo mundo em mutação.
Embora afastados de Nova Iorque, de onde eclodiu o “punk”/ “new wave” americano – Patti Smith, Television, Talking Heads – os Pere Ubu estavam próximos em temperamento, eram o lado sombrio dessa geração. Tiveram poucos antecedentes e poucos seguidores (só se referenciar-mos o projecto embrião Rocket From The Tombs), nesta sonoridade muito própria, que decididamente não será “punk” (nem sei se eles próprios o sabiam), mas que resulta na singular mistura do “art-rock” de Captain Beefheart, com as indolentes texturas “avant-garde” – os ritmos opostos, as guitarras dementes, a temerosa electrónica, o abstracto “noise”, as vibrantes psicóticas vocalizações de Thomas – gerando um importuno mas vigoroso “rock”.
Os seus dois primeiros discos são realmente especiais, fenomenalmente inventivos e proféticos, onde temos que reconsiderar todas as ideias preconcebidas do que é harmonia, melodia e ritmo.
Em “Modern Dance” (1978) (com a sua exótica capa - um trabalhador operário do antigo regime soviético com sapatos de “ballet”) Thomas canta sobre a sua incapacidade de comunicar, sobre a sua confiança na namorada para protege-lo contra o mal, ou sobre o pânico resultante da possibilidade de relações íntimas, e divide-se entre um gorjeador melodioso ou um relinchar explosivo. Destacam-se obviamente a pós-traumatica “Non-Alignment Pact” e “Life Stinks” que ainda hoje soam agressivas e niilistas, e ainda a psíquica “Sentimental Journey”, “Street Waves”, “Real World” e “Humor Me”.
Em “Dub Housing” a mescla é fantástica, desde as contagiantemente “funky” “Navvy” ou “On The Surface”, passando pelas experimentações “noise” de “Thriller” ou “Blow Daddy-o”, pela levemente oscilante “Drinking Wine Spodyody”, pelo “psico-pop” de “Ubu Dance Party”, ou a brilhante “Caligari’s Mirror”, que captura magnificamente a tensão entre paranóia e hilaridade, sempre presente na gelada tonalidade que percorre este disco, com Thomas completamente psicótico, a derramar torrentes de conscientes divagações que obviamente influenciaram Black Francis e os seus Pixies.
Uma experiência nada fácil.
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Pere Ubu - Non-Alignment Pact
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Pere Ubu - Navvy