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15 março 2011

Pop # 17 - Pale Saints - “The Comforts of Madness” (1990 4AD)

No seu disco de estreia, os Pale Saints, conseguiram misturar o lado mais experimental e atonal do “indie rock” com uma pureza melódica, numa época onde a fusão entre o “dream pop” e um gentil “shoegaze” era bastante comum, mas que poucos o fizeram como eles e essa associação ainda continua única nos nossos dias.
Aqui estamos presente uma matéria-prima energética aliviada por uma pureza pacífica.
Com uma personalidade muito própria, ao invés de apenas criarem um som abafado e atropelado por cascatas de guitarras, deram-nos canções muito elaboradas na sua estrutura, extremamente aconchegantes e onde se nota é visível um verdadeiro esforço em serem algo mais do que apenas uma banda com uma sonoridade etérea. E se é verdade que no espectro do “shoegaze”, os Pale Saints (que sempre pareceram criminalmente sob considerados) estão mais próximos de uns Cocteau Twins - com excepção dos gloriosos sintetizadores que são substituídos por um formato sonoro mais “rock” - existe definitivamente uma sensação “4AD”, mas também há algo verdadeiramente único neste registo.
Assim desde a primeira faixa, “Way The World Is”, eles não parecem seguir uma fórmula, e cada faixa segue para a próxima sem lacunas, pois eles possuem um verdadeiro ouvido para uma musicalidade progressista, e preenchem os espaços muito bem, executando mudanças dentro das canções com uma magistral precisão.
Existe um absoluto equilíbrio entre a excentricidade e a formalidade da estrutura “pop” ao longo do álbum, e em canções como “Little Hammer”, aventuraram-se numa direcção onde provavelmente nenhum dos seus contemporâneos nunca tentaria.
A combinação entre voz incrivelmente doce, misteriosa e assustadora de Ian Masters com o harmonioso trabalho de guitarra produzido por Graeme Naysmith deixou-nos pequenas maravilhas como “Sea of Sound”, “Insubstantial”, “Language of Flowers” ou “Sight of You” que nos guiam numa belíssima e transcendental viagem.
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09 dezembro 2010

Deerhunter – “Halcyon Digest” (2010 4AD)

Bradford Cox, desde sempre se aventurou regularmente em direcções musicais completamente novas, mas sempre conseguiu ficar completamente consistente, sonoramente reconhecível e sempre demonstrou uma notável capacidade de criar fantásticas canções “pop”.
Divido entre as jornadas propulsoras dos Deerhunter e o docemente sonhador “rock” do seu projecto solo Atlas Sound, as suas ideias continuam a surpreender.
O último dos Deerhunter, será provavelmente menos imediato do que a anterior obra-prima, “Microcastle/Weird Era Cont”, mas “Halcyon Digest” é uma colecção de incrivelmente belas e contagiantes canções “pop”, onde Bradford Cox engloba o núcleo do seu som e todas as suas influências (o ameaçador “psicadelismo”, os “funky drones”, os sonoros congelamentos da mente, e elegante “pop-buzz”) através de sonoridades irregulares e atmosféricas de forma a atingir uma apoteose nesta oferta nebulosa, mas feliz.
Desde o simplista “Earthquake”, com o seu penoso andamento, que desperta o ouvinte para um unificado registo recheados de notáveis momentos estéticos, onde se incluem o saltitante “Don’t Cry, o encantador “Revival”, a florescente excelência de “Sailing”, o estridente “fuzz-pop” de “Memory Boy”, a espiral de linhas de guitarra do melado "Desire Lines", o emproado e surpreendente saxofone presente em "Coronado", o “noise-pop” crocante do mais experimental "Helicopter", até chegarmos aos longos arpejos de fascinantemente amargurada “He Would Have Laughed”, atingimos um universo mágico recheado de histórias honestas e singulares, e onde distintos sons animam estruturas “pop”, em outra obra brilhante na impressionante carreira Cox's. E eu só posso vê-los ficar melhor.
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27 agosto 2010

Covers # 14

Para encerrar o ciclo dos ultimos posts que estavam relacionadas com a editora 4AD, andei pela prateleira e encontrei estas versões:


Um das bandas mais bizarras que esteve na 4AD, recriou este tema que acabou por ser um inesperado sucesso no inicio da decada de 80:



Das poucas "covers" que os Pixies realizaram, esconderam uma no lado B do single "Velouria", para o pretenso "padrinho" do "grunge"


E em relação aos Pixies, a sua influência é enorme e não faltam "covers":





23 agosto 2010

Rock # 16 - Pixies – “Surfer Rosa” (1988 4AD)

Na sequência do surpreendente mini-LP “Come On Pilgrim”, este mortífero disco de estreia dos extraterrestres de Boston é tudo o que viria a ser futuramente afinado para o impecável “Doolittle” e novamente “rasgado” para “Trompe Le Monde”.
Brilhantemente desalinhado, explosivo, sujo e cru, para além das reflexões mais delirantes dos Sonic Youth, esta sonoridade era basicamente inédita na época. É uma soberba mistura da melhor capacidade de composição, de letras loucas e perturbadoras, de guitarras abrasivas e de uma melodia verdadeiramente impressionante.
Black Francis surge aqui mais psicótico do que nunca, as suas vocalizações alternam entre gritos e pensativas reflexões, Joey Santiago continua a provar que é um dos mais subestimados guitarristas de sempre, e o estrondoso rufar de David Lovering dá às músicas uma qualidade superlativa.
Tal como os Velvet Underground, os Pixies sempre tiveram os seus lados mais abrasivos e mais suaves, e foram capazes de os demonstrar num registo único, e muitas vezes dentro da mesma música.
Este é o mais resoluto, áspero e agudo disco, menos filtrado, as canções são editadas para eliminar qualquer nota que não seja absolutamente necessária – isto claro obra de Steve Albini – e assim elas surgem brutais, com guitarras altamente distorcidas e letras sobre incesto e injúrias, mas no entanto são bastante cativantes e melódicas.
Desde o soco inicial dado pelos clássicos por excelência, o enlouquecido e desafiante “Bone Machine” e o rápido e furioso “Break My Body”, passando pela deliciosa interpretação de Kim Deal em “Gigantic” (um assombroso e assustador hino sobre o voyeurismo infantil), pela excelentemente intensa “River Euphrates”, ou pela arrepiante beleza do inesquecível “Where Is My Mind?”, o clímax do álbum, e uma das melhoras músicas dos anos 80.
Um grande disco que provou ser massivamente influente em praticamente todas as futuras áreas do rock alternativo.
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13 agosto 2010

My Favorites # 21 - This Mortal Coil – “It’ll End In Tears” (1984 4AD)

Um projecto criado na mente de Ivo Watts-Russell, onde membros de vários grupos da 4AD como Cocteau Twins, Dead Can Dance, The Wolfganf Press ou Colourbox trabalharam conjuntamente para escreverem canções e para realizarem surpreendentes versões de temas popularizados por Tim Buckley, Roy Harper ou Alex Chilton dos Big Star. A perspectiva era intimadora mas funcionou incrivelmente bem e seria um epítome e uma óptima introdução para do som 4AD.
Com tanta gente a trabalhar num disco, é natural que as sonoridades sejam bastante diversificadas. É evidente a diferença entre Howard Devoto a cantar o devastador “Holocaust” (original Alex Chilton) com o seu piano e violoncelo, para a turbulenta guitarra “indie” de “Not Me”, original de Colin Newman dos Wire.
Destaca-se o grande momento mágico, dominado pelos Cocteau Twins, na surpreendente versão, verdadeiramente de cortar a respiração, pela calmante cadência espiritual propositada por Liz Frazer, para “Song To The Siren”, o hino a uma sereia de Tim Buckley. Mas ainda a dolorosamente sedutora “Kangaroo” (original de Alex Chilton) cantada por Gordon Sharp, que nunca conseguiu com a sua banda - CindyTalk – atingir a graça que obteve neste álbum, a assustadora voz hipnótica de Lisa Gerard em “Dreams Made Flesh”, ou o exótico “Barramundi”, obra de Simon Raymond (baixista dos Cocteau Twins) que com a sua natureza obscura cria uma sonoridade verdadeiramente gótica. No entanto, e apesar de todos esses contrastes, cada faixa tem uma ligação estreita. É quase como se estivesse-mos a seguir um caminho espiritual.
Poderá faltar a grandeza do posterior “Filigree and Shadow”, mas este hipnótico e surpreendentemente belo álbum é despojado até ao esqueleto de beleza e tristeza.
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05 agosto 2010

In The Beginning # 5 - Cocteau Twins – “Garlands” (1982 4AD)

O disco de estreia dos Cocteau Twins é uma experiência auditiva bem mais áspera do que as suas futuras produções majestosas e etéreas, “Garlands” está desprovido de qualquer tipo de bom humor. A primeira de muitas obras-primas, revela um lado diferente na música dos Cocteau Twins, pois sonoramente são mais directamente decalcáveis de uns The Cure ou Siouxsie And The Banshees pelas penetrantes e góticas guitarras. Liz Frazer e Robin Guthrie (mais o baixista Will Heggie) costuram uma incrível combinação de impedimento e mistério.
O excelente “Garlands” soa cru, minimal, nocturno e sombrio. Muito mais baseado nas guitarras do que a maioria dos outros álbuns dos Cocteau Twins, são as ferozes e estrondosas linhas de guitarra de Guthrie que quase justapostas ao lado do baixo taciturno de Heggie que dominam a paisagem sonora (acompanhados pelo crepitando da “drum machine”) mas sem deslocar o surpreendentemente sobrenatural estilo vocal de Liz Frazer, e assim constituem um todo perfeito e homogéneo. As vocalizações aqui não são leves e celestiais como em álbuns posteriores, nomeadamente “Treasure” e “Victorialand”, pelo contrário elas soam assustadoras e assombrosas e possuem uma certa estética de identificação.
“Garlands” é o resultado final da junção de três excepcionalmente brilhantes músicos, que têm um entendimento mútuo e conseguiram criar neste resultado sinérgico, um grande disco.
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30 julho 2010

Classic # 27 - Bauhaus - “In The Flat Field” (1980 4AD)

Sempre odiei o rótulo “gótico”, esse mesmo não fez outra coisa senão prejudicar os Bauhaus, pois para mim eles são tão “rockers” como Elvis Presley.
O seu disco de estreia, “In The Flat Field”, é uma grande obra do melhor “art rock” expressionista.
Provavelmente a banda foi responsável pela criação de um género musical e de um estilo de vida cultural, mas em primeiro lugar, os Bauhaus eram um colectivo de génios criativos. Podem questionar se bandas como The Sisters of Mercy ou mesmo Alien Sex Fiend foram superiores quando se tratava do “rock gótico”, mas nenhuma delas conseguiu executar os inúmeros estilos que os Bauhaus abordaram com perfeição.
“In The Flat Field” contém uma série de pedras angulares do dicionário “rock gótico”, mas simultaneamente oferece um punhado de faixas que mostram como os Bauhaus estavam definitivamente dispostos e aptos para assumir riscos. Hinos fúnebres como “Double Dare” e “Stigmata Martyr” basicamente definiram o modelo de como deveria soar a música gótica, no entanto em faixas como “God In An Alcove” a banda parece dizer “fuck off” ao suposto “público alvo” e a verdadeira capacidade artística é demonstrada em peças experimentais como “Nerves”.
O álbum é muito intenso, não sendo depressivo, é paranóico e recheado de uma negra vida cinética, muito mais do que em qualquer dos outros registos dos Bauhaus. Mas a instrumentação austera e a bela, vacilante e profunda voz de Peter Murphy são o que realmente define o som Bauhaus.
A negra e muscular beleza dos Bauhaus mais do que criar um género, é responsável pelo nascimento de uma subcultura “rock n' roll” obcecada pela morte, que poderia ser simultaneamente assustadora, ritmada e experimental mas sem perder o “focus” na sua visão única.
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27 julho 2010

Editoras # 7 - 4AD

A história começa em 1972 quando o jovem de 17 anos, Ivo Watts-Russell deixou Northampton para descobrir Londres, e encontrar refugio atrás do balcão da loja de disco Beggars Banquet.
No final dessa década, as consequências do “punk” deixaram muitos excitados com as possibilidades criadas pelo movimento. Ivo foi um deles e ficou tão excitado com as inúmeras “demos” que infestavam a loja (proprietária da editora Beggars Banquet) que solicitou os responsáveis da mesma para criarem uma nova editora. Cansados de tanta insistência, deram-lhe £2000 para começar a sua própria editora, com a premissa de que podiam ficar com os potenciais futuros sucessos. Foi assim que surgiram em 1979, os Shox, Bearz, The Fast Set e Bauhaus, os responsáveis pelos quatro primeiros “singles” da recém formada Axis. Mas um telefonema de outra Axis Records, obrigou-o a renomear o seu projecto para 4AD. Os Bauhaus foram os únicos que se enquadraram no plano original da Beggars Banquet e posteriormente deixariam a editora. Mas entretanto chegaram os Rema-Rema, os Modern English, os Dif Juz, e um bando de australianos chamados The Birthday Party, que permitiram a uma pequena editora dar um grande passo em frente. Estes grupos iriam criar um tipo de padrão sonoro, sombrio e melancólico, que discos subsequentes não iriam eliminar. Mas o que faltava era continuidade, pois os seus artistas eram errantes ou descontentes. Os Bauhaus abandonaram, os Modern English foram despedidos, os Birthday Party acabaram.
Mas as peças começaram a juntar-se novamente a partir de 1982, quando três excêntricos escoceses decidiram reinventar a “pop” com uma surpreendente sonoridade vocal, e assim surgiu “Garlands” pelos Cocteau Twins. Surgem também os The Wolfgang Press, o mutante “disco-noise” dos Colourbox e Vaughan Oliver é recrutado como designer das capas dos discos.
Agora a 4AD tem a possibilidade de longevidade do seu lado, com uma deliciosamente abstracta imagem a unir um conjunto de bandas que iria moldar uma fachada uniforme. Isso seria cimentado pelo colectivo This Mortal Coil, um desejo de Ivo se envolver musicalmente e que virtualmente criou um manisfesto estético para toda a etiqueta. Assim quando os Dead Can Dance e os Xymox surgiram em 1984/85 já o termo “disco 4AD” era um factor diferenciador.
No meio dos anos 80, indiferentes ao movimento das “fuzzy” guitarras indie “C86”, aventuraram-se nas torturas apocalípticas dos A.R.Kane e nas expansões mentais das Le Mystère Des Voix Bulgares. E não podemos esquecer essa bizarra colaboração entre os A.R. Kane e os Colourbox, que resultou em “Pump Up The Volume” dos M/A/R/R/S o primeiro disco que fez os obsessivos questionar: “o que é que isso faz na 4AD?”. Mas o disco seria líder nas tabelas, vendendo dois milhões e meio de cópias por todo o mundo, naturalmente Ivo teve o seu momento corrupto.
Mas o seu consolo estava perto, se bem que do outro lado do Atlântico, ao localizar o caldeirão borbulhante de angústia e raiva das “Throwing Muses e um grupo de Boston notável pelas suas furiosas mudança de tempo, chamado Pixies. Esta dupla iria ter enorme sucesso, e para além de serem as bases futuras das The Breeders e das Belly, e seria responsável pelo despertar de grupos como as Lush e os Pale Saints.
A editora tinha afastado o rótulo etéreo e foi propositadamente procurando “bandas de guitarra”, na busca de uns novos Pixies, facto que se tornou urgente, após o fim da banda, e que se tornaria uma constante nos anos seguintes.
Seriam também bandas americanas a atingir maior sucesso na década de 90, como os Red House Painters, Unrest e His Name is Alive, mas a exploração de novos territórios continuou com a assinatura dos Gus Gus.
Coincidente com os fortes sentimentos da atribulada partida dos Cocteau Twins, praticamente após uma década a trabalharem em conjunto, em 1999 Ivo vende a editora ao Beggars Group, onde ainda hoje se encontra incorporada, mas a editora continuou a manter a sua identidade e selecção de artistas ao manter a ex-Throwing Muses, Kristin Hersh ou as The Breeders, e recrutando novos actos como Blonde Redhead, ScottWalker ou St. Vincent.
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Cocteau Twins - Crushed
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Throwing Muses - Colder

07 abril 2010

My Favorites # 19 - Lisa Germano – “Geek the Girl” (1994 4AD)

O segundo disco da multi-instrumentista Lisa Germano (que esta noite toca na Casa da Música) é um trabalho coerente e focalizado, sincero e sombrio. Não é um disco musicalmente assustador ou sequer aventuroso, mas o absolutamente puro e emocional poder que transmite, esse assusta.
Aqui a música acompanha o profundamente reflectivo auto lirismo, relatando tragédias num tom sombrio e assustador, recheado de paranóia, estados depressivos e prisões espirituais, que pode ser verdadeiramente venenoso e deprimente. Através de uma atmosfera calma, mas exuberante, as dolorosas vocalizações de Germano são entregues num arrepiante silêncio, e os instrumentos (principalmente piano e violino) soam lúgubres. Assim estão apropriados às sinistras e analíticas letras que através de uma íntima abordagem extremamente feminista, relatam temas proibidos do nosso quotidiano - seres proscritos, violações, assaltos e infância - até estes atingirem um clímax de emoção e desespero, num impressionante equilíbrio entre o sonho e a realidade, entre o terror e a diversão, entre a resignação e a raiva.
Mas Germano consegue capturar algo genuíno, sem soar constrangedoramente emocional, como é evidente no desolado “My Reason Secret”, no devastador “Cry Wolf”, na assustadora ”Sexy Little Princess” ou no doloroso “Cancer of Everything”.
Pode relembrar Nico ou uma ferida Liz Phair, poderia ainda ser uma Tom Waits no feminino, mas certamente falta-lhe a variedade vocal. Agora o desespero presente na sua voz e a forma como nos faz sentir quentes e estridentes de uma vez só é bastante impressionante. A capacidade de soar triste e miserável, e cínica ao mesmo tempo, é um talento ímpar que faz este álbum verdadeiramente único.
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16 novembro 2008

Stereolab - “Chemical Chords” (2008 4AD)

Em quase duas décadas, a discografia da banda de Tim Gane e Laetitia Sadier sempre foi uma íntima exploração de ideias. Apareceram no início da década de 90 desafiando o dominante “shoegazing”, oferecendo uma mistura de “krautrock”, electrónica, e vozes despidas. E ao longo dos anos tiveram desvios pelo universo de Martin Denny, da Tropicália, da “french chanson” ou do cinema italiano, “Chemical Chords” não foge à regra, mas é um excelente exemplo de exploração e um novo propósito para a banda.
A música aqui presente encontra-se na forma mais elaborada, mas fluida e natural, descarada no efeito desejado – uma massiva reacção emocional. Tal como muitos dos anteriores discos, contém uma simplicidade do princípio ao fim que pode-nos abstrair do seu encanto. Temos de insistir gradualmente, pois neste disco, está presente uma urgência que já não ouvíamos à muito nos Stereolab, tudo parece inteligentemente compacto e agrupado magnificamente como num organismo vivo. O regresso de Sean O’Hagan (High Llamas) é uma mais valia pelos seus dominantes e delicadamente cuidados arranjos presentes em todo o disco.
Destacam-se o requintado “pop”, aqui presente no mais puro dos encantos e esplendor em “The Ecstatic Static”, “Valley Hi!” e “Self Portrait With Electric Brain”, a circulatória energia e intrigante melodia de “Neon Beanbag”, a furtivamente “sexy” linha sonora e os arranjos de sopros de “One Note Symphony”, ou o agitante e incandescente baixo de “Three Women”.
Muitos poderão ouvir “Chemical Chords” e afirmar que ainda soa aos velhos Stereolab, mas como uns Sonic Youth, as pequenas mutações vão existindo, no entanto mantêm-se sempre fieis ao seu projecto sonoro
Não será tão épico como eles já provaram ser capazes, mas é extremamente satisfatório, e após algumas audições ficará alojado no nosso cérebro.

Stereolab - Three Women

28 julho 2008

Editoras # 2 - Sub Pop

Bruce Pavitt foi para Seattle estudar história da arte, mas o seu maior estudo seria o “rock”. Primeiro lança a revista que documentava a cena independente americana, Subterranean Pop” (mais tarde Sub Pop). Depois continua a escrever para mais um par de revistas, a fazer programas de rádio e a editar cassetes com material inédito de grupos desconhecidos. Até que conheceu Jonathan Poneman, que também fazia rádio e que era a pessoa responsável pelo agenciamento dos grupos que tocavam na sala de espectáculos mais aventureira de Seattle, a Fabulous Rainbow Tavern. Conversas sobre música criaram uma admiração mútua, e o passo seguinte para a formação de uma editora estava dado.
A primeira edição da Sub Pop, foi em Julho de 1986, a compilação “Sub Pop 100”, com a participação dos Sonic Youth, Big Black ou Scratch Acid, entre outros. Os representantes de Seattle eram The U-Men e Steve Fisk (que se tornaria um dos mais famosos produtores da cidade). E na capa do disco aparecia a seguinte inscrição: “The new thing, the big thing, the good thing: a multinational conglomerate based in the Pacific Northwest”.
Uma das principais características da editora foi a sua preocupação em ter um identidade e que as pessoas procurassem os discos por estes terem o seu carimbo, simultaneamente encorajando a individualidade de cada grupo. Os seus modelos de inspiração eram a 4AD, a SST, a Stax, e até a Motown. Nem será estranho o facto de passaram a trabalhar quase permanentemente com o produtor Jack Endino (que iria produzir os álbuns de estreia de Nirvana e Mudhoney).
O “marketing” foi sempre um dos pontos fortes utilizados por Pavitt e Poneman. Criaram um clube de singles, disponível apenas por subscrição, através de edições mensais (limitadas e em vinil colorido), e sempre com temas inéditos. Aqui incluíram grupos não só de todos os estados americanos como também europeus. Por outro lado, nas suas edições “normais”, o destaque era dado a grupos locais, aproveitando a política regionalista para melhorar a promoção. As capas dos discos eram semelhantes, assim como os anúncios, uniformizando uma ideia visual e sonora para melhor promover os novos grupos.
Se os Soundgarden foram o primeiro grande sucesso da Sub Pop, editando dois EP’s, “Screaming Life” e “Fopp”, antes de assinarem pela SST e posteriormente pela A&M, já os Mudhoney foram os que mais resistiram à chamada das multinacionais, e só com “Piece of Cake” de 1992 é que assinaram pela WEA (isto, para além de serem o único grupo de Seattle que manteve a sua formação inalterável por muitos anos).
Com o sucesso dos Nirvana, a história mudou, e hoje, a mesma já deve ser conhecida por todos, mas para reforçar a importância histórica da editora, que deixou de ser uma referência local, para ser uma global, refira-se que também por lá passaram grupos com a L7 (de Los Angeles), os Afghan Whigs (de Cincinatti), os Supersuckers, os Come (de Boston), os Pond (do Alaska), os Sunny Day Real Estate, e mais recentemente The Shins, Iron and Wine, ou os criadores de um dos meus discos favoritos do ano, The Ruby Suns.
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Modest Mouse - Never Ending Math Equation

30 junho 2008

Do fundo da prateleira # 10 - Unrest - “Imperial F.F.R.R.” (1992 Teen Beat/Guernica)

Antes de “Imperial F.F.R.R.”, o fanático pela Factory Records e genuíno suburbano Mark Robinson tinha um “fetish” pelas bandas sonoras “blaxploitation” e criou álbuns que misturavam “hardcore”, “noise” e versões de temas de Sammy Davis Jr. Por isso mesmo nunca deixaram antever a feliz fantasia que foi ““Imperial F.F.R.R.” (uma abreviatura de Full Frequency Range Recordings).
Destaques desta frágil e diversificada colecção de minimalista “indie-pop” incluem canções contagiantes como as poderosas “Suki”, “Cherry Cream On”, ou “Isabel” (um tributo a pintora Isabel Bishop). Momentos mais calmos como essa pérola que é “June” (uma dedicatória da baixista Bridget Cross para o falecido pai), a bela ”I Do Believe You Are Blushing” (o legado dos The Smiths bem presente), e a exuberante “Imperial” (a peça central do disco). E ainda belos instrumentais como “Sugarshack” ou “Champion Nines”.
Ainda produziram o contundente “guitar-pop” de “Perfect Teeth, em 1993, antes de se separarem. Mas este clássico ignorado, o primeiro disco editado na Europa pela Guernica, a intrigante subsidiária da 4AD, permanece como o momento mais glorioso da banda de Washington D.C.
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24 abril 2008

Editoras # 1 – Warp Records

Na ressaca da explosão da música electrónica, nos fins dos anos 80, proliferavam pequenas editoras, que proporcionavam a divulgação de inúmeros tecnocratas “caseiros”.
As tabelas de vendas “indie”, no final dos anos 80/ princípios dos anos 90, eram regularmente animadas por discos de música electrónica, editados em obscuras editoras, que muitas vezes nem se aguentavam o suficiente para editar os seguintes.
Em Londres muitas pequenas editoras sobreviveram como servientes dos DJ’s da moda. Mas seria em Sheffield que iria acontecer uma verdadeira lição de sucesso na história das editoras britânicas independentes.
Steve Beckett e Rob Mitchell, já se conheciam e quando a loja de discos onde Beckett trabalhava fechou, decidiram abrir no mesmo espaço, uma distribuidora de música electrónica e música “indie” baptizada Warp Records.
Ao serem inundados com inúmeras cassetes e “white labels” de músicos locais, decidiram juntar algum dinheiro e criar uma editora com o mesmo nome.
A estreia aconteceu com “Track With No Name” dos The Forgemasters, numa edição de 500 exemplares. Esse disco, uma aventura do produtor Rob Gordon, e a segunda edição da Warp, Nightmares on Wax – “Dextrous”, tiveram algum sucesso. Como iriam ter LFO – “LFO”, Tricky Disco – “Tricky Disco” e Nightmares on Wax – “Aftermath”, que entraram no Top 20.
Nessa altura, a música da Warp diferenciava-se de tendências da altura como o “Balearic” ou a “Italian House”, e excepto caso se tivessem acesso aos intrujantes trabalhos do mestre Derrick May, os primeiros discos da Warp soavam como se estivéssemos a digitar um telefone por cima de um disco “dub”. No entanto esses sons puros e o aterrorizador baixo acabaram por ser um grande sucesso.
O facto de terem aparecido tantos músicos influenciados pela música electrónica em Sheffield, não foi nenhuma feliz coincidência. Pois precursores como os Cabaret Voltaire (cujo membro Richard H. Kirk era metade dos Sweet Exorcist) e os The Human League, eram ambos originários de Sheffield.
Provavelmente o fracasso do primeiro álbum, o conceptual “Clonk’s Coming” dos Sweet Exorcist, fez com que se afastassem dos caprichos da pista de dança, para abordarem projectos mais propícios aos discos de longa-duração.
Assim surgiram o magnífico e assustador “Frequencies” dos LFO vendeu muito bem quer em Inglaterra quer nos Estados Unidos. Os Nightmares on Wax editaram o alucinatório e futurista som “funk-rap” no disco de estreia “A Word Of Science”. E ainda editaram compilações de qualidade como “Pioneers Of The Hypnotic Groove” e “Artificial Intelligence”, esta última tornando-se num disco importantíssimo. Porque aparte o seu valor como um conjunto de delicadíssimas e relaxantes paisagens sonoras, “AI” foi um daqueles discos que sinalizou para onde penderia o futuro da musica electrónica.
O caminho seguiu com o que se designou de IDM – Intelligent Dance Music, ou “electronic listening music”, como prefiro, com os trabalhos de Polygon Window (ou Richard James/Aphex Twin), Black Dog, B12, FUSE (de Richie Hawtin), Wild Planet entre outros.
Como forma de evitar problemas com a indolente imprensa musical, decidiram fundar uma editora “indie guitar” ao criar a Gift, cujos primeiros artistas seriam os Newspeak, Various Vegetables, e como porta-estandartes, os gloriosos Pulp.
Passadas quase duas décadas, conseguiram provar, como a 4AD ou a Creation nos seus respectivos campos de acção, que ganharam a luta pela busca de música inventiva e de qualidade.
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Nightmares on Wax - Aftermath

08 outubro 2007

Singles # 6 - M/A/R/R/S – “Pump Up The Volume” (1987 4AD)

Uma colaboração proposta por Ivo Watts-Russell, líder da 4AD, iria criar um dos discos mais importante da história da música de dança, e do “sampling” em particular. Acabou por ser um êxito global, tendo sido re-editada por mais de dez vezes, e proporcionou à 4AD um sucesso inesperado.
Consistiu na junção de duas bandas que na altura faziam parte do catálogo da casa: A.R. Kane e Colourbox (o nome é composição das iniciais dos nomes dos envolvidos), com os DJ’s Dave Dorrell e C.J. Macintosh (responsáveis pela selecção dos “samplers”, pelos “scratchs” e efeitos sonoros).
Importante seria o trabalho destes últimos ao realizarem a mistura principal, utilizando cerca de 250 samples para o efeito, com a base principal de “Pump Up The Volume” a ser retirada de "I Know You Got Soul" de Eric B & Rakim. Incluía ainda outros extractos de faixas como “Say Kids, What Time Is It?” dos Coldcut, “Im Nin'Alu" de Ofra Haza, ou “Funky Drummer” de James Brown. Mas também incluía 3 segundos “samplados” de “Roadblock” dos Stock Aitken & Waterman, que não foram “legalizados” para uso, e que criou problemas na edição do disco, e nos consequentes “royalties”.
Na altura foi fundamental ao providenciar a ligação entre o som “retro” do “rare groove” com a nova corrente de música baseada em “samplers” oriunda dos Estudos Unidos.

07 maio 2007

Tributo # 3 - Mark Kozelek – Red House Painters

Os Red House Painters eram basicamente um projecto de Mark Kozelek, um compositor que via o mundo de uma forma trágica, melodramática, e cujas canções autobiográficas, eram relatos de dor, desespero e perda. Através de metáforas e alegorias, ele enfrentava os seus demónios na primeira pessoa, tendo criado alguns discos singulares e sem paralelo na sua vulnerabilidade e honestidade.
Kozelek tornou-se dependente de drogas ainda na adolescência, e numa das suas fases de reabilitação, tomou contacto com a música, e começou a tocar com bandas.
Após a sua mudança para Atlanta, na Geórgia, conheceu o baterista Anthony Koutsos, e formou a primeira incarnação dos Red House Painters. Em São Francisco iria completar a banda com o guitarrista Gorden Mack e o baixista Jerry Vessel. Numa actuação, chamaram a atenção de Mark Eitzel dos American Music Club, que enviou gravações do período 1990/91 para a 4AD, que as iria lançar como o primeiro disco dos Red House Painters: “Down Colorful Hill”. Este Mini-LP, era uma colecção que combinava magníficas melodias “folk-rock”, com a voz fantasmagórica de Kozelek. O ano de 1993, com a edição de dois discos homónimos, viria a ser o da consagração de Kozelek como um compositor único, capaz de conceber em canções como “Grace Cathedral Park”, Katy Song”, “Evil” e “Uncle Joe” a palete de emoções, que evidenciam e detalham o seu errático e perturbador passado. É uma “folk” desolada, triste, mas simultaneamente é tão belo. Mais uma vez, a imprensa tinha de rotular o estilo, que ficou conhecido como “slowcore” ou “sadcore”. No ano seguinte edita o EP “Shock Me”, uma versão surreal de um original dos Kiss. Após dois anos de intervalo, regressa aos álbuns com “Ocean Beach”, uma colecção de canções mais coloridas, com belos dedilhados delicados de guitarra, que o mostram mais confidente. Será o último disco para a 4AD, e o último dentro do estilo que caracterizou os três primeiros. “Songs for a Blue Guitar”, aparece em 1996 na Supreme, e apesar de Kozelek ser o único membro presente, o disco é lançado sobre o nome Red House Painters, no entanto este trabalho é de orientação mais “rock”, sinalizando o caminho que iria prosseguir.
Os projectos seguintes, a solo, incluem um disco de tributo a John Denver e o disco de versões radicais de canções dos AC/DC.
Em 2003 lançou sobre a designação Sun Kil Moon, o disco “Ghosts of The Great Highway”, um bom regresso, recheado de histórias com referências a “boxeurs”!