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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Acalanto para Syrta.

Compus esta peça em 2002, por ocasião da morte de minha amiga pessoal, a produtora Syrta da Silveira. Continua inédita, mas acabo de publicar uma versão digital, produzida com soundfonts não profissionais, mas cujo som sugere – ainda que de longe –  o do quarteto de flautas doces. Só para lembrar.


Acalanto para Syrta
(Borges de Garuva, 2002)




sábado, 27 de abril de 2013

Impressões sobre o cante alentejano

[Texto ainda em construção. Será apresentado num evento literário em Alcáçovas, na semana que vem.]


De passagem pelo Alentejo, vivi em Évora, nas comemorações da Revolução dos Cravos, uma emoção memorável: shows, fogos de artifício à meia-noite, banda, a enorme praça lotadíssima e a multidão toda muita gente portando cravos vermelhos entoando "Grândola, vila morena", o hino que o povo cantou na noite de 24 para 25 de abril de 1974, quando a ditadura de Salazar foi derrubada sem necessidade de disparar um tiro.
 
O próprio hino parece um cante alentejano. Depois que o evento terminou, já após a uma da manhã, muita gente permanecia na praça em animados círculos de conversa e... do meio daquela gente toda, ergueu-se a voz de um coro entoando cantes, vários, lindos, emocionados. O cante lembra um certo tipo de música brasileira tradicional que já traz na melodia uma espécie de tristeza que nos deixa enternecidos... a velha moda de viola, por exemplo, mas entoada em coro, com um solo puxando a melodia.
Eu trazia, de leituras e de vídeos capturados na internet, uma ideia vaga do cante e de sua prática como uma tradição alentejana, mas isso estava muito distante da viva emoção que senti ouvindo os cantes ao vivo e espontaneamente entoados nessa madrugada na praça do Giraldo. A cada nova toada, mais crescia o número de participantes e mais poderoso ficava o cante.
Por isso, decidi estender por mais uns dias minha passagem pelo Alentejo e na tarde do dia 25 vim a Alcáçovas assistir ao Cante da Terra, oportunidade em que pude ouvir quatro dos grupos tradicionais de Alcáçovas e de Viana do Alentejo. O Cante da Terra aconteceu ao fim da tarde do 25 de abril no Jardim Público, simultâneo a evento semelhante e paralelo em Viana. Aqui e lá, da mesma forma, com os convidados se apresentando por último , cantaram dois corais tradicionais de Alcáçovas e dois de Viana.
Infelizmente, como vejo ocorrer no Brasil e, por notícias, em outros locais do mundo, parece haver uma cisão no cultivo das tradições entre as gerações mais jovens e as veteranas, o que se refletiu no público que compareceu ao evento: os próprios cantadores e alguns dos mais velhos do lugar. Mesmo assim, era bastante gente para uma população tão pequena como a desta freguesia do distrito de Évora.

A tarde era apetecível: sol, brisa tranquila, pássaros alegres (há por ali uma velha palmeira sobre a qual uma cegonha construiu seu ninho); todos pareciam felizes afinal era feriado e a temperatura estava gostosamente amena em relação ao frio pesado que faz no inverno e ao tórrido calor do verão alentejano. (Soube hoje que o verde e a pujância dos campos floridos são efêmeros: duram menos de um mês, normalmente, período que vem sendo ampliado após a construção, a 50km daqui, do segundo maior lago artificial da Europa a barragem de Alqueva, no rio Guadiana).

Depois de gravar todas as apresentações para estudo futuro das letras e das melodias e também para dar veracidade aos tipos humanos do romance que estou a escrever (e que me trouxe para cá) e cujo personagem central nasce em Alcáçovas no ano de 1470 fui ao Quiosque da Praça, onde alguns rapazes brincavam com o cante, em versões que pareciam escandalizar a proprietária do lugar.

Um dos puxadores era um trabalhador do campo que eu já havia encontrado na véspera, numa tasca da freguesia, e que, por feliz coincidência, chama-se Pedro, como o meu personagem, cuja construção ficou definitivamente contagiada pelo perfil deste tosquiador de ovelhas do século XXI. As corruptelas que fazia do cante alentejano (usando como referência, entre outras, o Grândola, vila morena) ou as brincadeiras com textos infantis ou mais ou menos malcriados da música popular, mais a imitação dos trejeitos próprios do modo de entoar o cante me fizeram rir e contemplar brevemente a realidade e as potencialidades desse patrimônio musical do Alentejo) também na sua espontaneidade tão aberta à irreverência, como toda boa tradição da música popular.

Enfim, a impressão geral que me ficou do cante até o momento é dessa combinação deliciosa entre a força de suas raízes tradicionais plantadas na Idade Média e sua conexão profunda com a terra alentejana viva de hoje, com a vida no campo e na casa e com as mazelas que o país está vivendo, vítima dessa estúpida roleta universal que é o mercado financeiro, e do qual, como o Brasil anterior ao governo popular iniciado com Lula em 2003, parece não conseguir escapar. Neste sentido, o cante é revolucionário, é sério, é triste mas de uma tristeza que beira o bom espírito de liberdade da anarquia como bandeira do bem-viver coletivo e musicalmente rico, capaz de abrigar e promover tanto o gosto pelo canto coletivo quanto servir de campo de expressão para saborosíssimas particularidades vocais e para a capacidade de improviso dos indivíduos. O cante é, assim, uma forma popular de arte uma tradição musical que sobreviveu às tentativas de filtragem e achatamento desde os anos 30-40 da ditadura de Salazar que, como nos vinte anos da ditadura brasileira, não queria ouvir os lamentos do povo, porque lhe interessava mostrar ao próprio país e ao mundo uma realidade pujante e feliz, que, no entanto, era falsa.

O cante é, enfim, uma expressão do patrimônio cultural em que o povo do Alentejo, ao mesmo tempo, conta cantando suas dificuldades e sofrimentos de todo dia e pede respeitosamente solução, mas não de forma resignada e sim como uma advertência que diz: estamos aqui a viver isto e pedimos ajuda, mas se ela não viver, em algum momento encontraremos nossa própria solução.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Bera

Botando (finalmente!) ordem no meu estúdio, redescobri esta foto que havia separado há meses para publicar no BGlog. Foi feita por mim, com uma Zenit 12XP, em meados dos anos 80.

sábado, 13 de março de 2010

Iara Rennó e o carimbó

Vivi ontem uma experiência memorável: depois dos trabalhos da II Conferência e de um bom banho no Plaza Bittar, onde me hospedo, fui ao Espaço Funarte prestigiar os shows da noite.

Além da rápida visita a alguns estandes dos estados (inclusive o da Bahia, onde vi uma das coreografia do Balé do Senegal transmitida pela TVE), assisti a dois espetáculos interessantíssimos.

Iara Rennó: Oriki

A performance da cantora, compositora, instrumentista, arranjadora e produtora paulistana Iara Spíndola Rennó no Palco Brasília do Espaço Funarte foi gostosíssima, suas canções, passeando entre a MPB, o blues, o rock e o jazz etc. Tive a impressão poderosa de estar ouvindo uma música nova, de inspiração contemporânea e de grande sensibilidade. Acabei com uma vontade bem grande de levá-la pra casa num CD ou de ouvi-la numa sala de melhor qualidade acústica.

Quando Iara deixou o palco, parecia que tudo ia se acabar na noite e pronto. De repente, porém, começou a agitar-se um povo na platéia, que logo subiu ao palco e foi anunciado como três grupos originários do Pará. Depois de três belas toadas de abertura, o grupo enveredou por uma série de peças frenéticas tão cheias de alegria, que acabei totalmente contagiado. E, enquanto ria e dançava, também chorava de prazer, por incrível que isto possa parecer. Fazia tempo que um evento artístico não me pegava tão de surpresa e fazia muito tempo que eu não dançava com tão profundo prazer. Obrigado, gente linda do Pará!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Why does it seem that you never let go

Why don´t you realize when I say no

I want you to leave and I want you to know

I like to be lonely alone with my soul

So please get the message and get up and go


Just go go go through the door

Leave leave leave me alone


(Tatiana Kressmann [Eric´s blues])

sábado, 23 de agosto de 2008

A Barca ("Trilha") em Joinville.

 

Foi das coisas mais lindas que já vi. Quero dizer: pra ser feliz, não preciso mais que isto e não acho, mesmo, que exista muita coisa de maior qualidade do que o trababalho da Barca - música feita com alegria e competência, inspirada nos cantares populares que trazem consigo sempre um traço das verdades cotidianas e toda uma generosa humildade na concepção do projeto (o documentário Turista Aprendiz, a oficina de dança Roda de Música / Música de Roda e o saboroso show Trilha).

De inspiração mario-andradiana (no sentido dessa busca de contato com os cantares do povo), o projeto A barca, nascido em 1998, vem desde 2004 cavando melodias populares e transformando-as em matéria-prima para seu trabalho artístico, que acabará ficando como um registro muito digno das cantigas do Brasil.

O show tem momentos musicalmente brilhantes, nascidos tanto da qualidade musical individual, quanto da unidade que o conjunto consegue, reunindo instrumentos de procedências e usos tão diversos, como a dupla parafernália de percussão, a rabeca, o sax, o teclado, o contrabaixo etc. Além disso, Juçara Marçal e Renata Amaral têm vozes lindas e cantam de um jeito que dá muito gosto ouvir.

Vontade enorme de botar o pé na estrada com eles (ou o remo!), na sua expedição musical rumo ao maravilhoso!

Próximos cidades por onde o grupo passará:
Florianópolis, durante esta semana, e
Curitiba, no próximo fim de semana.

O endereço do grupo na rede é
http://www.barca.com.br

(As fotos são do cartão-convite e do encarte do CD "Trilha".
Exibidas aqui sem permissão, mas espero que a intenção justifique.