Mostrando postagens com marcador intelectuais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador intelectuais. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Carta aberta.

Escrevi este texto para ser publicado no jornal. Mas, acabou muito longo e não tive paciência para enxugá-lo sem truncar o conteúdo. Aqui, está, portanto, neste espaço de plena liberdade de ideias... e de número de caracteres. ;)

Caro Apolinário

Borges de Garuva

“O fim de um mundo”, diz Alain Touraine, “não é o fim do mundo”. As grandes mudanças paradigmáticas por que tem passado a humanidade não significam tragédias, necessariamente.

Teu artigo “Estado de indigência” (A Notícia, 16/01/2011) parece um grito desesperado de alguém que estivesse ficando para trás, que submergisse inexoravelmente no mar da História, impotente diante das novas forças que se levantaram para redefinir os cenários da vida política, econômica e social. O povo (“subserviente”, como dizes) acabou finalmente decidindo – sem armas, sem violência, assim, meio na base do jeitinho brasileiro – que os rumos tinham de ser outros.

O Brasil, Apolinário, não é diferente de outras nações. Cada qual a seu tempo, elas foram arrancadas – pela força imperiosa do povo (“capado”, como dizes) – da paralisia histórica que as entrevava, para serem vertiginosamente encaixadas nos trilhos da mudança que as transformou para sempre. Foi assim, nos últimos séculos, com a Revolução Francesa e também – por que não? – com a Revolução Bolchevique, que acabou com os czares que vinham mantendo a Rússia 200 anos atrasada em relação aos outros países da Europa. Tem sido assim em muitos países dominados por oligarquias insensatas que mantêm sua gente, por séculos, em estado de escravidão ou de colônia – e que de repente se vêm no mato-sem-cachorro, tendo de abandonar as riquezas ilegitimamente acumuladas e fugir, na calada da noite, com o rabo entre as pernas, para algum paraíso fiscal deste grande mercado em que se transformou o planeta.

Pois, no Brasil, caro historiador, não foi diferente – a não ser pelo estilo: aqui, o povo (“subserviente e capado”, como dizes) foi chegando devagarinho ao poder, foi entendendo que podia, que tinha lá o seu mecanismo de governar por meio de representantes, acatando princípios republicanos e democráticos e, empunhando a arma do voto, elegeu um operário e, agora, uma mulher, que, para infelicidade tua e de teus pares, não pertencem às oligarquias que sempre nos mantiveram subservientes e capados. O resultado foi muitíssimo melhor que o esperado, apesar das más heranças que temos tido de enfrentar (tu mesmo és testemunha: lembras dos tempos das “marolinhas” de que tanto tiraste sarro?).

Por mais que o governo popular não seja aquele sonho revolucionário que alguns desejariam (mesmo porque, ao que parece, já não estamos em tempos de revoluções febris), é, sim, a marca de uma grande mudança de paradigma na história do Brasil: embora não tenham ficado para trás definitivamente, as velhas oligarquias parece que se tornaram repentinamente obsoletas, ainda que seus cantos de cisne moribundo ecoem aqui e acolá, inclusive em vozes como a tua.

Teu texto lembra os discursos da minha juventude, nos bares da vida, em que, já avançada a madrugada, falseávamos estatísticas, conceitos, princípios, datas, fatos históricos e brandíamos acusações furiosas contra tudo e contra todos, com a facilidade irresponsável que a embriaguez nos facultava.

É isto: teu texto é falaz e irresponsável. Desabona inclusive os esforços mais sérios da resistência conservadora contra os avanços inegáveis do governo popular, que só não vê quem não quer... ou que não pode.

____________________

Leia também Histeria apocalíptica

sábado, 23 de janeiro de 2010

De Adorno & Horkheimer:

Uma das lições que a era hitlerista nos ensinou é a de como é estúpido ser inteligente. Quantos não foram os argumentos bem fundamentados com que os judeus negaram as chances de Hitler chegar ao poder, quando sua ascensão já estava clara como o dia! Tenho na lembrança uma conversa com um economista em que ele provava, com base nos interesses dos cervejeiros bávaros, a impossibilidade da uniformização da Alemanha. Depois, os inteligentes disseram que o fascismo era impossível no Ocidente. Os inteligentes sempre facilitaram as coisas para os bárbaros, porque são tão estúpidos. São os juízos bem informados e perspicazes, os prognósticos baseados na estatística e na experiência, as declarações começando com as palavras: "Afinal de contas, disso eu entendo", são os statements conclusivos e sólidos que são falsos.

_________________

(Dialética do esclarecimento, p. 195)

domingo, 4 de janeiro de 2009

O que reúne os escritores numa comunidade intelectual é a grande conversação em que estão envolvidos. Nos trabalhos mais recentes de um certo período, encontram-se autores que atentam para o que seus predecessores tiveram a dizer sobre esta ou aquela idéia, sobre este ou aquele tópico. Tais autores não apenas escutam as idéias de seus antecessores, como também lhes dão respostas, comentando-as de muitas formas.

(Mortimer Adler: "The Great Conversation Revisited," in The Great Conversation: A Reader's Guide to Great Books of the Western World, Encyclopædia Britannica)

sábado, 29 de novembro de 2008

"Os palhaços"

Foi lançado na última quarta-feira o texto teatral de Miraci Dereti que, por censura verbal, não pôde ir à cena na Lyra em 1968.

Trata-se de Os palhaços, que Cristóvão Petry organizou e publicou com o apoio do Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura.

Além da peça de Miraci Dereti, transcrita a partir de dois textos originais com anotações do autor realizadas provavelmente durante os ensaios, o livro traz um estudo do próprio Cristóvão Petry sobre a censura e sobre o contexto em que Os palhaços foi censurada, trazendo à tona algumas borbulhas da história do nosso teatro nos anos 60-70. Lendo-o, deu vontade de partir para uma pesquisa séria a respeito do período e das razões pelas quais nosso teatro simplemente desapareceu no início dos anos 1970. (Somente nos últimos anos dessa década é que voltaram a surgir iniciativas mais consistentes de ocupação da cena, seguidas pela efervescência ocorrida na primeira metade dos anos 80.)

O tema taí. Sei que há pessoas mexendo com ele. Um dia precisaremos tramar todos os fios.

sábado, 9 de agosto de 2008

Susan Sontag: extratos de Contra a interpretação, 2

 

Comecei em julho a publicar algumas passagens que assinalei na minha primeira leitura de Contra a interpretação, de Susan Sontag. Elas refletem também um certo estado de encantamento que marcava, naquele tempo, a minha relação com a arte. [Os extratos do último capítulo foram publicados a 19/07/2008.]

 
Contra a interpretação.1

[Tarefinha pra depois do almoço e da conseqüente sesta, neste sábado chuvoso.]

___________________________

(1) SONTAG, Susan. Contra a interpetação. Porto Alegre: L&PM, 1987. p.11-23.[voltar]