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terça-feira, 5 de abril de 2011

Dia Mundial da Dança

Mensagem oficial para o Dia Mundial da Dança, 29/04/2011

Durante a maior parte da história da humanidade, a dança acontecia ao ar livre. As pessoas reuniam-se nas clareiras das florestas, nas praças dos vilarejos, nos átrios das igrejas ou nos celeiros para desfrutar, por horas e horas, do prazer de dançar. Hoje, a dança é praticada sobretudo nos salões de baile, nos clubes, nos teatros, nos salões nobres das escolas, em estúdios, em discotecas...

Para este ano, propomos que se dê um passo em direção à natureza celebrando o Dia Mundial da Dança em espaços abertos: ruas, praças, parques, estádios, praias, estacionamentos, clareiraS - em qualquer lugar a céu aberto.

O desejo de dançar é um impulso natural. Quem dança celebra a natureza, conecta-se ao universo e sente sua essência jorrando através de si.

Ao longo de todo o ano ensinamos dança, ensaiamos, dançamos entre quatro paredes. Neste dia especialmente dedicado à dança, façamos a diferença praticando, ensinando ou dançando para que todo mundo veja. Faça frio ou sol e mesmo que o piso não seja tão bom e o vento abafe a música, a beleza dos movimentos e a alegria no rosto dos bailarinos iluminarão o coração do público espontâneo dos transeuntes.

Prof. Alkis Raftis
Presidente do Conselho Internacional da Dança Council (CID / UNESCO, Paris)

sábado, 13 de março de 2010

Iara Rennó e o carimbó

Vivi ontem uma experiência memorável: depois dos trabalhos da II Conferência e de um bom banho no Plaza Bittar, onde me hospedo, fui ao Espaço Funarte prestigiar os shows da noite.

Além da rápida visita a alguns estandes dos estados (inclusive o da Bahia, onde vi uma das coreografia do Balé do Senegal transmitida pela TVE), assisti a dois espetáculos interessantíssimos.

Iara Rennó: Oriki

A performance da cantora, compositora, instrumentista, arranjadora e produtora paulistana Iara Spíndola Rennó no Palco Brasília do Espaço Funarte foi gostosíssima, suas canções, passeando entre a MPB, o blues, o rock e o jazz etc. Tive a impressão poderosa de estar ouvindo uma música nova, de inspiração contemporânea e de grande sensibilidade. Acabei com uma vontade bem grande de levá-la pra casa num CD ou de ouvi-la numa sala de melhor qualidade acústica.

Quando Iara deixou o palco, parecia que tudo ia se acabar na noite e pronto. De repente, porém, começou a agitar-se um povo na platéia, que logo subiu ao palco e foi anunciado como três grupos originários do Pará. Depois de três belas toadas de abertura, o grupo enveredou por uma série de peças frenéticas tão cheias de alegria, que acabei totalmente contagiado. E, enquanto ria e dançava, também chorava de prazer, por incrível que isto possa parecer. Fazia tempo que um evento artístico não me pegava tão de surpresa e fazia muito tempo que eu não dançava com tão profundo prazer. Obrigado, gente linda do Pará!

domingo, 19 de julho de 2009

E se eu te contasse o meu segredo?

Este é o título da coreografia que a Cia. Jovem da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil mostrou na Mostra Contemporânea de Dança, neste 27. Festival de Dança de Joinville.

Trata-se de uma bela coreografia de Clébio Oliveira, construída na forma de fuga, com repetições que funcionam como ecos ou rimas internas.

Um motivo proposto por um duo inicial vai se reproduzindo depois, em variações diversas, em solos e grupos, por quase todos os momentos da coreografia, até explodir numa espécie de gran finale, num tutti, quase um número de chorus line, uma celebração coletiva do movimento.

sábado, 18 de julho de 2009

Pra não esquecer mais.

Vi nesta sexta-feira, na Mostra de Dança Contemporânea do 27. Festival de Dança de Joinville, uma bela performance da Pip Pesquisa em Dança: 3 MG - Gingaestética. Depois que dormir, comento.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

O peso da consciência.

Em O processo, a dança reivindica para si
o direito ao drama

Leio isto no programa do espetáculo que acabo de ver na Mostra Contemporânea do XXVI Festival de Dança de Joinville. Coreografia cíclica, limpa (embora de difícil execução), organizada como uma grande fuga a 5 vozes, cujo tema (a culpa) vai passando de uma a uma ao longo do trabalho e acaba aos poucos produzindo no espectador a sensação opressiva que se pode sentir na leitura da obra de Kafka.

Para minha sensibilidade, O processo, da Cia. Borelli, é um dos dois mais importantes espetáculos apresentados na mostra de 2008.

Não tenho muita certeza do que afirmo (é uma opinião apressada, como dizia há pouco a uma repórter), mas me parece que a mostra tem pecado por trazer ao palco trabalhos experimentais em processo (no sentido de que ainda não chegaram aonde se propõem chegar), quando implicitamente o que o público procura, sobretudo num festival competitivo, é produto bem acabado. (Aqui me coloco como o público que a organização tem em mente, conforme deduzo do que a assessoria de imprensa costuma divulgar.)

A primeira referência que ouvi sobre a peça enquadrava-a como dança-teatro. Mas, o que a epígrafe parece querer dizer é outra coisa: quando a dança reivindica o direito ao drama, não está deixando de ser dança para ser teatro - o drama é uma das propriedades possíveis da dança. Parece paradoxal que, equanto o teatro começa a querer fugir do drama, a dança queira apropriar-se dele por direito.

Mas, acho que entendo o Sandro: a grande dança - aquela consagrada pelo tempo, tornada clássica (como o Don Quixote que vimos hoje) - está na quase sua totalidade vinculada ao drama, nasce do drama, exprime-se como drama. Não necessariamente como narrativa, como um processo que, passando pelo conflito se resolve de algum modo em final feliz ou tragédia, mas como algo que se desenrola no tempo, que quer ser ou significar alguma coisa para além da própria dança. É legítimo, portanto, não pensar dança apenas como o resultado estético da exploração das possibilidades gestuais, rítmicas e expressivas do corpo, ou disso que chamam de body mnotion (pra que isto, se podemos dizer em português?!) etc. É legítimo pensar que, embora seja oportuno e necessário que os artistas da dança experimentem, pesquisem, explorem, tentem caminhos, também se dêem ao trabalho de ir mais além, isto é, de aproveitar as descobertas e os materiais colhidos na pesquisa para produzir uma obra ou um evento capaz de alcançar também mais alguém para além daqueles que vivem diretamente envolvidos com os mistérios da própria dança. Em palavras mais simples: olhar para o próprio umbigo durante a pesquisa e para a humanidade na hora da criação.

[Como o cansaço bateu, vou dormir. Amanhã continuo.]

sábado, 19 de julho de 2008

A dança no conceito será sempre outra na cena?

 

M.E.I.O.: Reve(fe)rências. Sei que é imperdoável, mas cheguei atrasado para ver Reve(fe)rências, da M.E.I.O. Artistas Associados (Belo Horizonte), apresentado na segunda noite da Mostra de Dança Contemporânea, em Joinville. "Cinco minutos", disseram-me.

Primeiro contato com a obra foi auditivo: a voz de Meredith Monk entoando uma de suas canções (de Gotham Lullaby, de Dolmen Music). E logo o olhar constata: no palco, a voz de Meredith está materializada nos movimentos dos três bailarinos da M.e.i.o. O encanto é imediato: o que vejo em cena é dança. Contemporânea.

Gostaria de não ter preguiça de fazer o exercício de discernir claramente o que vejo em cena e, ao mesmo tempo, entregar-me ao prazer próprio do espectador: deixar-me tocar pela obra, a tal ponto que as intenções dos seus criadores me alcançassem e produzissem aqueles efeitos que a generosidade do artista busca produzir.

Minha "tradição" como espectador de dança leva-me a ler a performance da M.e.i.o dentro de um dos caminhos do contemporâneo, a dança-teatro. Mas, pelo que leio da história desses bailarinos e do grupo, há algo mais aí: essa busca de realizar uma reflexão através da dança. Isto me fascina. E, por isso, aquela minha pergunta do título.

A verdade, agora, é que os três que vi ontem ficaram dançando em mim. Dormi com eles, sonhei com eles e, pela manhã, eles haviam, sim, produzido algo em mim, como aquelas leituras de Camus (ou como o Estorvo do Chico Buarque): enquanto lemos, parecem narrativas normais como tantas outras; aos poucos, porém, infiltram-se no nosso cotidiano e seguem conosco por dias a fio, alterando sutilmente nosso modo de ver.

Peter Lavratti já dançou com o Raça, o Cisne Negro e o Grupo Corpo. Foto raptada da WorldwideDanceUK. Thanks.Aí está! O trabalho da M.e.i.o. tem algo de existencialista. E, apesar de minha leitura relativamente incompetente, a obra me penetrou.

A partir de agora, tenho dois desafios como espectador de dança: por um lado, tentar calar dentro de mim, durante a performance, aquele velho vício de querer ler tudo, interpretar tudo, explicar tudo: há coisas, na arte, que ocorrem sem que precisemos saber exatamente como; por outro lado, encontrar um modo de ir reconhecendo os aspectos próprios do fazer da dança, o vocabulário, o uso da linguagem corporal, o trabalho por trás da obra (exatamente como faço no cinema, no teatro, na literatura: reconheço os procedimentos que podem ter dado origem à obra do ponto de vista de sua construção real.

Edson Beserra já dançou com a Quasar, a Cia. Débora Colker e o Grupo Corpo. Foto raptada da WorldwideDanceUK. Thanks. Na linha do segundo desafio, penso que, apesar da evidente experiência técnica e qualidade corporal dos bailarinos da M.e.i.o. e do bom gosto geral que marca as escolhas, parece faltar algo - uma falta que nasce, me parece, de um hermetismo (eu tinha escrito "inconsistência" - mas como poderia ousar dizer isto?!) do desenho coreográfico1. (Sei, estou falando se fosse um expert, mas não sou. Apenas não encontro agora outro caminho para formular o que estou pensando: parece-me faltar à obra uma espinha dorsal, um argumento que lhe dê organicidade. Há, sei, uma proposta que está explítica no programa e no release divulgado; há uma idéia geral que comandou a realização da obra e a partir da qual deveríamos fazer nossa leitura. Mas, não encontrei correspondência entre essa proposta e a dança viva que vi na cena. (E será que isto importa? E quanto importa?

Enfim, isto é apenas um registro. Estou determinado a superar a necessidade de interpretar2. Também quero aprender a contemplar sem a necessidade de me submeter aos efeitos fáceis das narrativas. Mas, é preciso um tempo.

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(1) Fiquei confuso e enquanto não obtiver melhor informação, fica este registro: na ficha técnica do programa da MDC leio: coreografia: Peter Lavratti e Claudia Lobo; no programa da base do FDC, lemos: as peças da coreógrafa belga Anne Teresa de Keersmaeker. De quem são, afinal, as coregrafias que vi em cena? [voltar]

(2) Talvez seja hora de reler Contra a interpretação, de Susan Sontag, leitura que me balançou as estruturas no início dos anos 80 e que, me parece agora, ainda é superválida. (V. próxima nota.) [voltar]

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Como se chamará a dança contemporânea quando ela já for extemporânea?

O grande circo mística - Foto de Tom Lisboa.

Começou ontem (17/07/2008, 20h), a Mostra de Dança Contemporânea do XXVI Festival de Dança de Joinville. O público mediano que o Teatro Juarez Machado recebeu deixa evidente que isto que o festival joinvilense define como "dança contemporânea" não atrai muita gente. Sobretudo, não atrai a maior parte de bailarinos e bailarinas presentes no evento. (Estes são apaixonados por coisas mais nitidamente recortadas: clássico, jazz, folclore, sapateado, dança de rua. Ponto final.)

Agora, dança contemporânea - o que é isto? Arrisco aqui uma opinião que, embora não seja de um estudioso da dança, também não nasce de puro e simples achismo, mas de toda uma experiência como espectador que gosta de pensar sobre o que vê na cena e das minhas leituras e conversas sobre esta maravilhosa e inesgotável manifestação artística e cultural.

Podemos entender dança contemporânea1 como:

  1. um conjunto de novas técnicas que, aos poucos, vêm também se consolidando em torno de linhas (Cuningham, Graham, Limón-Hamphey-Weidman, Laban, Alexander) que combinam elementos tais como alinhamento, centramento, contração, equilíbrio/desequilíbrio, conflito/emoção, gravidade, liberação, queda, recuperação, tensão/relaxamento, respiração, suspensão etc. - cada termo destes com suas variantes em conceito e tradução;
  2. o conjunto das obras criadas na atualidade com base na combinação das diferentes atitudes do nosso tempo em relação à expressão estética com o patrimônio acumulado dos vocabulários da dança - tanto dos novos, nascidos da aplicação das ditas técnicas contemporâneas, quanto do clássico, que, por oposição a esses "novos", imaginamos congelado no tempo, mas não: trata-se apenas, na minha visão de leigo, de uma espécie de "reserva de mercado" do meio profissional do balé tradicional, que pretende entender que o acervo de passos, posições e soluçõs coreográficas da dança clássica não podem mais sofrer transformações e nem devem variar jamais.

Qualquer que seja o viés por onde se queira enquadrar a dança contemporânea, sempre surgirão dificuldades para classificar (e/ou qualificar) os espetáculos criados no tempo presente - o que, me parece, é problema dos especialistas. Para nós, o público, os fruidores de dança em geral, a questão está na atitude com que nos colocamos diante do espetáculo, pois dessa atitude depende o maior ou menor proveito que poderemos ter da obra.

Hoje, vimos Luís Arrieta, que abriu a Mostra com seu Carnaval dos animais (música de Saint-Saëns). Depois, o Riscas mostrou o seu Escape. Bonitos ambos. Gosto mais do que propõe Arrieta, porque o trabalho do Riscas ainda está, do meu ponto de vista, em construção: tem coisa ali acontecendo apenas para dar tempo à duração da música, isto é: a coreografia, em alguns momentos, é apenas um esboço.

Mas, mesmo Arrieta, aqui, está colocado como que para legitimar a tendência redutiva em relação à contemporaneidade da dança que sinto no festival de Joinville (evidente já no fato de colocar, na mostra competitiva, a modalidade de dança contemporânea nas mesmas noites da dança de rua, quando se sabe que os públicos atraídos por estas formas são quase total e absolutamente diversos). Por que a mostra de dança contemporânea não pode abrir com um grande bailado contemporâneo do nível de O Grande Circo Místico2? Por que, enquanto o festival abre com um bailado completo do repertório clássico (O lago dos cisnes, do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e tem ainda uma noite de gala com outro ballet completo do nosso Bolshoi (Dom Quixote), a mostra contemporânea tem de abrir com um solo e um espetáculo que requerem uma leitura de público mais habitué? Por que isto é próprio do contemporâneo? Não: é porque a organização parte de um pressuposto nascido do senso comum de que "o público não gosta de contemporâneo, então não vale a pena investir muito no contemporâneo".

Seremos, nesta mostra paralela, um público privilegiado? O contemporâneo está aberto a todos os conceitos e tende a tocar mais profundamente os espectadores abertos para os horrores e as maravilhas de sua própria época (estes turbulentos inícios do século XXI) - o que não quer dizer que deva justificar a posta em cena de laboratórios, exercícios preparatórios ou pirações terapêuticas particulares.

Penso que, em termos de dança, a atitude do espectador deva ser semelhante àquela com que encaramos a música contemporânea: embora sempre aberta à experimentação e à exploração de novas possibilidades, é preciso que a música seja música, isto é, que seja construída por meio da linguagem da música - não aquela das clássicas cadências V-I, IV-I etc., mas, através de novas soluções sonoras e novas resoluções harmônicas que dêem origem a um discurso musical intencional, coerente com uma gramática legível para o ouvinte ou o espectador.

Um dia, talvez, por insistência de coreógrafos e bailarinos que sonham com a possibilidade de combinar na cena os diversos idiomas que a dança explorou e construiu ao longo de sua história (articulados inclusive com os dialetos locais, como já estamos vendo acontecer no Bolshoi de Joinville), a Mostra de Dança Contemporânea do maior festival de dança do mundo ganhe o status que toda arte contemporânea merece: ela é criação de gente viva voltada para a sensibilidade do nosso tempo. ___________________________

(1) O respeito que tenho pela história não me permite admitir a designação impensada de "pós-contemporâneo", como há quem queira chamar as formas ainda mais recentes da dança. Pós-contemporâneo é uma idéia absurda e irresponsável.

(2) A remontagem de O Grande Circo Místico, do Ballet Guaíra, com coreografia de Luis Arrieta, apresentou-se em Joinville no festival de 2003.