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sábado, 15 de junho de 2024

1629 Vol.1 - O Boticário do Diabo
... ou a história apavorante dos náufragos do Jakarta


 "- Para nós, o mar cheira a puta velha, e o nosso barco tresanda a uma mistura de merda e vómito."

Para início de viagem, desta viagem, isto coloca logo tudo no devido lugar.

Conheço mais ou menos bem a história do Batávia (traduzido para Jakarta) devido a uma investigação que fiz aos primórdios da Austrália anos atrás. Embora não vá falar dos eventos históricos que me chamaram à atenção na altura, para não fazer spoiler à conclusão da narrativa do final do 2º volume.

Este horrendo drama histórico é base para um excelente prefácio do próprio autor, Xavier Dorison, que traça aí uma ligação ao livro do psicólogo norte-americano Philip Zimbardo: The Lucifer Effect: Understanding How Good People Turn Evil. Ou seja, como uma pessoa boa ou perfeitamente normal é capaz das maiores atrocidades se as condições espaço-sociais se propiciarem a isso. Aconselho a leitura do prefácio, não é comprido nem chato e dá logo uma luz do que vamos estar prestes a testemunhar: a extinção da alma.

De notar também que a narrativa de Dorison é uma adaptação da história verídica dos acontecimentos descritos nesta viagem, mas foram incluídos também elementos ficcionais para melhorarem a transposição para a banda desenhada, e colar melhor a atenção do leitor ao livro, tudo isto sem deturpar a parte real da tragédia.

Depois desta primeira introdução, vou falar da minha relação com histórias de piratas ou ambientadas em aventuras marítimas do séc. XV ao séc. XVII. Nunca fui de predisposição inicial para pegar nelas, sejam literatura ou BD, ainda me lembro que levei uns tabefes ligeiros para ler a Ilha do Tesouro! Mas depois de começar, e se a história for boa, já não largo mais. É assim comigo também nos Westerns. Manias! 🤷🏻‍♂️
Comecei em BD neste tipo de registo há muitos anos (muitos) com os dois livros da Íbis da série Howard Flynn e lembro-me que gostei, embora não fosse o meu género preferido.

Desde essa altura já li muitas aventuras do género, e já bocejei muitas vezes também, portanto aquela parte do been there, done that costuma andar por aqui algumas vezes, e estava com medo que me acontecesse aqui sobretudo depois de Dorison ter escrito também o argumento do Long John Silver (editado cá pela ASA) há poucos anos. Mas não aconteceu. 🙂


 Tenho uma boa relação com a obra de Xavier Dorison. Começou há muitos anos com o O Terceiro Testamento (Witloof) que adorei, e mais recentemente com o O Castelo dos Animais (Arte de Autor) e Undertaker (Ala dos Livros). Gosto da estrutura, força e fluidez que costuma imprimir nas suas narrativas e esta adaptação não foge a esta trindade de predicados que um argumento deve ter.

Não é fácil escrever uma história num enredo já muito visto, ambientado na altura do comércio marítimo e pirataria, tráfico de riquezas, motins e donzelas em perigo no mar, violência, fome e sede a bordo, enfim…  para sobressair tem de ser muito bem contado. Penso que Dorison o conseguiu. Não é nada de inovador, já foi contado muitas vezes, mas a leitura deste livro torna-se bastante interessante e o leitor não sai defraudado.

As primeiras páginas vão definir o clima. A escolha dos responsáveis do navio, duas pessoas que se odiavam e depois uma terceira desconhecida, mas que podemos pensar logo que não é flor que se cheire. Logo de seguida é-nos apresentada Lucrécia Hans que ao longo do livro é por vezes a narradora que faz a cola entre várias cenas de acção. E é uma bonita jovem aristocrata obrigada a ter de embarcar para ir ter com o seu marido a Java.

Com o passar das páginas as personagens vão sendo desenhadas e aprofundadas aos poucos, num enredo sombrio, e numa narrativa que se vai tornando sufocante e violenta em crescendo. Aquele navio foi montado para “explodir” pela Companhia Holandesa das Índias Orientais. Com uma carga enorme de ouro e jóias e uma tripulação do crème de la crème dos párias que tinham sido rejeitados por outros barcos não havia como falhar! Como condimento temos o Comandante Pelsaert, um disciplinador inflexível a quem é dado o comando do Jakarta para chegar a Java em 120 dias, ou seja, muito curto. Do Imediato, o nosso amigo Boticário, não falo, é para vocês descobrirem a ler o livro. E por tudo isto, um motim está sempre na ordem do dia! 🤷🏻‍♂️

Este livro aflora também problemas da época, como a posição social das mulheres, religião em algumas das suas vertentes (Luteranismo, Ateísmo, etc.) e o clima ditatorial que se vivia tanto dos Directores da Companhia em cima dos Oficiais, como dos Oficiais em cima dos tripulantes. O contacto e comércio com tribos africanas também é aflorado, na Serra Leoa, com alguns problemas inerentes à diferença de cultura, e visto que neste caso o Jakarta não era um navio negreiro, surgiam outro tipo de problemas.

Deixo o resto para vocês descobrirem 😎

Para ilustrar e dar vida ao argumento de Dorison foi escolhido Timothée Montaigne, um desenhador que já havia trabalhado com Dorison em Long John Silver, Castelo dos Animais e Terceiro Testamento.

E sim, Montaigne dá vida ao argumento e dá lustro a esta história. Ele adequa o seu estilo de modo a dar o tom a esta história negra. Consegue ser sufocante no estreitamento visual de algumas vinhetas, para depois explodir em enormes painéis de página dupla. Aquela sensação de claustrofobia da vida a bordo, misturada com caras de fisionomia paranóica está bem marcada em muitas páginas, sobretudo quando evocam a brutalidade a bordo.

Os detalhes que Montaigne aplica neste livro são maravilhosos, sobretudo quando estamos a falar no navio Jakarta, tanto nos interiores como exteriores deste barco, e os detalhes não atrapalham minimamente a fluidez da narrativa da sua arte. É dinâmico! Por isso uma segunda leitura é necessária, para podermos colocar os olhos nos detalhes e pormenores, parar e apreciar.

Clara Tessier deu cor à arte de Montaigne. A sua palete de cor muda drasticamente quando estamos no interior do navio, um ambiente escuro e deprimente, para os tons muito claros e luminosos (duh…  estamos no mar, néh?) no exterior, excepto tempestades… aí passamos novamente para os tons escuros e deprimentes 😅 A sua coloração da costa da Serra Leoa estava muito bonita. Gostei.

Falando do livro como objecto. Aqui não há dúvidas que estamos perante um excelente trabalho do editor/livreiro Mário Freitas e da editora Arte de Autor. Mário Freitas foi responsável pela paginação, tradução e excelente legendagem deste livro. Fez um excelente trabalho, aliás, um livro destes não mereceria outra coisa a não ser excelência, por quem edita e trabalha nele. Mas...  e a capa? Meu Deus, a capa! É linda com texturas para serem sentidas enquanto se manuseia este livro 💚

Agora falta-me saber quando vamos ter o segundo volume, visto que ainda não foi publicado em França.
O LBD recomenda a leitura deste livro.



 

1629 vol 1: O Boticário do Diabo
Autores: Xavier Dorison e Timothée Montaigne
Editora: Arte de Autor
Páginas: 136, a cores
Encadernação: capa dura
Dimensões: 235 x 310 mm
ISBN: 978-989-9094-36-9
PVP: 34,95€

 Por informação da editora Arte de Autor, o volume 2 que completa a obra vai ser publicado no final do deste ano de 2024.

Boas leituras


segunda-feira, 19 de julho de 2021

Undertaker Vol.2: A Dança dos Abutres



"E Deus disse: aqueles que são suficientemente estúpidos para descer ao Inferno merecem aí permanecer para sempre."
- Carta de Jonas aos Californianos

Este é o segundo volume desta série escrita por  Xavier Dorison e desenhada por Ralph Meyer. A Ala dos Livros publicou esta A Dança dos Abutres no início do ano, e fecha este arco do Undertaker.

Podem ler a minha crítica ao primeiro volume clicando no link Undertaker Vol.1: O Devorador de Ouro

Achei este livro magistral na sua construção. É bom ler uma boa história, mas é excelente ler uma boa história com uma construção minuciosa do ambiente emocional, ambiente esse completamente ligado ao espaço que se vai apertando lentamente, quase claustrofóbico no meio dos desfiladeiros, para se abrir repentinamente nos ocres desérticos dos grandes espaços abertos.

A tensão entre os três protagonistas equilibra-se precariamente, bastando qualquer desequilíbrio para pôr à prova o pacto acordado de levar o corpo morto e malcheiroso de Cusco, até ao local acordado para o sepultar. Todos os três têm uma razão diferente para querer levar este trabalho até ao final com êxito.

A desconstrução emocional e física dos mineiros de Anoki City está excelente. Pessoas normais tornam-se autênticos animais na perseguição da caça. A violência, o calor, a sede, tudo contribui para os desumanizar na busca do ouro que acham que é deles por direito. O rasto de morte que o carro funerário leva agarrado na sua traseira é enorme, a cupidez insidia-se completamente naqueles mineiros.

Eu tinha dito na crítica ao primeiro volume que faltava na história "surpresa" no enredo. Pois bem, agora neste volume temos mais do que uma. O enredo dá algumas boas voltas, por vezes enreda-se para se desenredar, tem velocidade e cria no leitor uma sensação de antecipação de um grande final, que não desilude. 

Uma nota especial para Jed, o abutre. Que bem conseguida foi esta ligação aos abutres. Este personagem, que tinha anteriormente uma função apenas decorativa, e por vezes o confidente de desabafos, um pouco tipo comic relief do coveiro, transforma-se em coadjuvante repentinamente quando nada o fazia prever. Muito bom.

A arte de Ralph Meyer, em conjunto com as cores de Caroline Delabie, continua muito boa. Os seus planos evocam e dão vida ao faroeste, seja em que situação for: chuva, calor, dia, noite, deserto árido, desfiladeiro claustrofóbico... enfim, tudo e tudo. 
Mais, consegue oferecer-nos ainda uma cidade viva de pormenores, em que podemos pensar que era mesmo assim que se vivia numa cidade desterrada, e enterrada, no Oeste profundo.

Adorei esta história e estou mesmo à espera do anunciado 3º livro: O Monstro de Sutter Camp.

O Leituras de BD recomenda está série

Em baixo a nota de imprensa da Ala dos Livros



UNDERTAKER – tomo 2
A DANÇA DOS ABUTRES 

Argumento: Xavier Dorison 
Desenho: Ralph Meyer 
Cor: Caroline Delabie 


Jonas Crow, o cangalheiro, Rose, a governanta inglesa, e Lin, a criada chinesa, dirigem-se à mina de “Red Chance” para aí sepultar um antigo milionário que decidiu ser enterrado com o seu ouro. 

Têm, diante de si, três longos dias de viagem e cinquenta milhas percorridas na carroça fúnebre através dos abrasadores e poeirentos desfiladeiros do deserto. E, atrás de si, há toda uma multidão de mineiros exaltados que os persegue, apostados em não lhes facilitar a vida… 

Assinado por Delabie, Dorison e Mayer, «A Dança dos Abutres» é o segundo tomo da série UNDERTAKER e, tal como o primeiro, conta com um enredo trepidante, servido por um desenho soberbo. Esta série, difundida em 14 países entre os quais se inclui agora Portugal, obteve desde o início da sua publicação em França, em 2015, numerosos prémios e distinções. Salientam-seo Prix Saint Michel 2015 du Meilleur Dessin, o Prix Le Parisien 2015 de la Meilleur BD, o Prix 2015 des rédacteurs de scenario.com e ainda a distinção Album preferé des lecteurs de BD Gest 2015

Sobre os autores: 

Argumento: Xavier Dorison (1972) 
Xavier Dorison nasceu em 1972. Depois de três anos numa escola profissional, durante os quais lançou um Festival de BD, começou a escrever o argumento para o primeiro volume de Troisième Testament (Terceiro Testamento) série desenhada por Alex Alice e publicada pela Glénat. Foi um sucesso. 

Seguiu-se o trabalho com Mathieu Lauffray no primeiro volume da série Prophet (Les Humanoides Associés, 2000), e depois com Christophe Bec na série Sanctuaire (Les Humanoïdes Associés, 2001). 


Xavier Dorison estabeleceu, em muito pouco tempo, um estatuto firme no mundo da banda desenhada franco-belga, um estatuto confirmado com W.E.S.T. (Dargaud), que escreveu em parceria com Fabien Nury para um dos maiores nomes actuais do realismo, o desenhador Christian Rossi. Mas Dorison não se limitou ao universo da BD. 

Em 2006, foi lançado o filme Les Brigades du Tigre, uma adaptação da série de TV com o mesmo nome, que Dorison voltou a escrever em parceria com Nury. 

Em 2007, trabalhou uma vez mais com Mathieu Lauffray em Long John Silver, granjeando de novo um enorme sucesso. Em 2008, a Dargaud convidou Xavier Dorison para escrever o argumento do primeiro volume de XIII Mystery, uma sequela da famosa série XIII. O desenho foi confiado a Ralph Meyer, o que deu início a uma outra colaboração prolífica. Foi então que o par criou a épica história viking Asgard (Dargaud). 

E em 2014, com Thomas Allart, Dorison produziu H.S.E. (Dargaud; Europe Comics 2017), um enredo de suspense sobre a possível queda em espiral de uma sociedade ultraliberal. Trabalhador incansável, Dorison dedica-se simultaneamente a várias séries, para além de continuar a escrever argumentos para a TV e o cinema. 

Passando com facilidade do argumento para as séries já mencionadas, e ainda para Le Chant du Cygne (2014, Le Lombard), Red Skin (2014, Glénat) e o seu último e enorme sucesso Undertaker (Dargaud 2015, Europe Comics 2016), Dorison provou a sua habilidade para trabalhar em diferentes géneros, que vão do western ao drama histórico, sem nunca perder a força do argumento e a solidez estrutural que caracteriza o seu trabalho. Não é por isso de admirar que tenha sido chamado a continuar a série Thorgal (Le Lombard), um dos maiores ícones da BD franco-belga de todos os tempos. 

Desenho: Ralph Meyer (1971) 
Nascido em Paris em 1971, Ralph Meyer era muito novo quando começou a cultivar a sua aptidão e interesse pelo desenho e por histórias. Quando chegou a altura de decidir o que fazer da sua vida, pareceu-lhe natural escolher a banda desenhada. Enquanto insaciável jovem leitor, apreciava o humor de Gaston Lagaffe e as aventuras de Blake e Mortimer, bem como os problemas existenciais dos super-heróis vestidos a rigor e que povoam as edições mensais de Strange

A sua descoberta do trabalho de Giraud (também Moebius) durante a sua adolescência, terá mais tarde uma grande influência no seu próprio trabalho. Com 20 anos, deixou Paris e mudou-se para a Bélgica para seguir o curso de ilustração no Instituto Saint-Luc, em Liège. 


Após três anos e finalizado o curso, começou a apresentar-se a várias editoras com um número variado de projectos, mas sem sucesso. Em 1996, decidiu apresentar o seu trabalho ao escritor Philippe Tome. Este deu a Meyer, para trabalhar, um argumento particularmente sinistro. Um ano mais tarde, lançam o primeiro volume de «Berceuse Assassine», uma trilogia (1997, Dargaud; 2016, Europe Comics). 

Meyer fundou, entretanto, com alguns outros autores, a "Parfois j'ai dur" workshop. Foi aí que realizou Des Lendemains sans Nuages, (Le Lombard; Cinebook,) série que co-ilustrou com Bruno Gazzotti, sob argumento de Fabien Vehlmann. A seguir, ainda com Vehlmann, iniciou a série de ficção Científica I.A.N (Dargaud; Cinebook), a qual relata as aventuras de um ser de inteligência artificial, completado com pele e nervos humanos. 


Em 2008, com Xavier Dorison lançou o primeiro volume da série XIII-Mystery, uma colecção da Dargaud pela qual recebeu, em Bruxelas, o Prémio St. Michel. O ano de 2010 pareceu representar para Meyer uma reviravolta gráfica, ao efectuar Page Noire, com argumento de Denis Lapière e Frank Giroud. Em 2012, ele e Xavier Dorison voltaram a trabalhar juntos nas paisagens nórdicas do díptico Asgard, seguindo-se posteriormente a terceira colaboração na série Undertaker, a qual continua a conhecer junto dos leitores de vários países um crescente sucesso. 

Cor: Caroline Delabie 
Curiosa por natureza, Caroline Delabie começou, desde tenra idade, a “meter o nariz” na imensa colecção de BD dos pais. É aí que descobre Gaston Lagaffe, Obélix, o Capitão Haddock e Thorgal. Estes, ensinam-na a ler. 

 E em breve muitos outros moradores da biblioteca se juntam a eles, acompanhando Caroline durante a infância. Na adolescência, conhece Jojo (que depressa se tornou o seu melhor amigo), Violette, Brousaille, Gil Jourdan, Julien Boisvert, Pélisse… Aquando do seu último ano de Arquitectura de Interiores, na Escola de Saint Luc, em Liège, e graças a Jean-Claude Hubert, um amigo ilustrador, Caroline conhece Ralph Meyer. 

 Ralph apresentou-lhe Joe e Martha Telenko, os personagens de Berceuse Assassine. Passa na sua companhia alguns serões agradáveis mas prefere, de longe, a companhia de Ralph. E decidem partilhar a maior parte dos seus serões, a ler. 

Terminados os estudos, Caroline dedicou-se à profissão de Arquitecta Decoradora independente, embora a sua curiosidade tenha sido espicaçada pela coloração de BD, já que esse trabalho parece ligar o mundo das cores, que a cativa desde que iniciou os seus estudos, à sua paixão pela BD. Ralph aceita ensinar-lhe os seus segredos. 

Assim, e durante vários anos, Caroline Delabie assume, em paralelo, a profissão de Arquitecta Decoradora e a de Colorista (I.A.N., XIII Mystery, Seuls, Asgard, Page Noire, Undertaker). Até que, por fim, decide tornar-se apenas colorista. Todavia, em 2014, esta curiosa insaciável completa a formação, em seu entender muito curta, de Guia da Natureza. 

56 páginas. Cor. 
Cartonado. 235 x 310 mm 
Fevereiro de 2021. 
Ala dos Livros PVP: 16,65 € 
ISBN: 978-989-54726-7-3






Boas Leituras



domingo, 21 de fevereiro de 2021

Undertaker Vol.1: O Devorador de Ouro

 


O velho Oeste costuma trazer boas histórias, sou fã de algumas séries, como Bouncer, Comanche ou Tenente Blueberry. E estranhamente são os europeus que fazem as melhores histórias desta época selvagem do continente norte-americano.

A Ala dos Livros iniciou a publicação de Undertaker no final de 2019 com este volume e prepara-se para editar o segundo da série: A Dança dos Abutres. Mas isso fica para outro post, agora tenho aqui O Devorador de Ouro nas mãos.


Esta série escrita por Xavier Dorison e desenhada por Ralph Meyer já tem cinco livros publicados em França, com um assinalável sucesso, e existem razões para isso. Recordo-me quando peguei no livro pela primeira vez... olhei para a capa e pensei: cóbóis. Coloquei-o de lado para ler noutra altura porque na realidade é-me difícil pegar em westerns devido à qualidade das séries que referenciei no primeiro parágrafo.

Passado cerca de um mês resolvi pegar nele a sério. Que grande anormal preconceituoso fui! O livro é muito bom! E a série será garantidamente boa.

E assim, Dorison conta a história de um "gato-pingado" e do seu abutre a um ritmo bem rápido, com boas transições (parece que estou a falar de futebol...), e diálogos que compõem a narrativa gráfica, sem a encher de modo a que o leitor consiga acompanhar as cenas de acção em toda a sua velocidade.

A personagem principal, o nosso coveiro, é carismática, transporta consigo uma certa dose de mistério e é imbuída de um humor que eu aprecio. As personagens que rodam à sua volta estão bem construídas, e têm alguma tridimensionalidade, o que o Nuno Amado aprecia :)

Este primeiro volume está muito bem estruturado, com a tensão e novos detalhes sobre as personagens a serem descobertos na altura certa. Está tudo muito bem feito, mas gostaria de um pouco mais de "surpresa" no enredo, é a única pecha. De resto tem tudo o que um western deve ter, saloons, armas, sheriffs, tipo rico mau, miúda gira com um passado misterioso, personagem oriental coadjuvante e o coveiro... só que desta vez o coveiro é a personagem principal, e todas as outras aparecem na hora certa da maneira certa.

A arte de Meyer é muito boa. Consegue interpretar perfeitamente o ritmo da história dando-lhe fluidez e por vezes grandiosidade. Nota-se perfeitamente também que este desenhador tem a influência de Blueberry na ponta da sua caneta, o que não é uma coisa má. O toque final é dado pela cor de Caroline Delabie. Perfeita.

Só a premissa inicial de um coveiro chamado para o enterro de alguém que está vivo e ser essa mesma personagem a fazer o contrato do seu próprio enterro, mostra logo algo de diferente.

Só me resta recomendar este livro da editora Ala dos Livros, com o segundo volume já aí à porta para resolver o enorme cliffhanger final deste primeiro tomo. Um excelente western!


Boas leituras



sábado, 20 de fevereiro de 2021

O Castelo dos Animais:
Volume 1 - Miss Bengalore
Volume 2 - As Margaridas do Inverno

 



"Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros"

   - in O Triunfo dos Porcos - George Orwell  

Em Junho do ano passado, 2020, a editora Arte de Autor iniciou a publicação de uma excelente série de BD ambientada no mundo de George Orwell. A série é O Castelo dos Animais.

Série escrita por Xavier Dorison, já conhecido neste blogue por outras grande séries (O Terceiro Testamento e ), com arte de Félix Delep. Este título, para além de uma homenagem aos Triunfo dos Porcos de George Orwell, deseja contar essa mesma história de um outro modo, porque existem várias maneiras de resistir à opressão, não só pela violência, mas também com resistência passiva e inteligente.



Mais do que nunca, e sobretudo nos tempos que correm, 1984 e o Triunfo dos Porcos são leituras obrigatórias para todos, então... esta série vem mesmo no timing certo. No meu ponto de vista, claro. Quando vejo todos os dias em todos os lugares do mundo as liberdades serem cerceadas a bem da segurança, um pouco mais todos os dias, sempre uma pouco mais, porque a "segurança" é o mais importante de tudo.. bem, a estrada para os Porcos mandarem ao estilo 1984 está a ser pavimentada cada vez mais depressa.

Esta obra não a considero uma adaptação directa do Triunfo dos Porcos, é mais uma visão do mesmo problema mas com uma oposição e uma luta mais ao estilo Gandhi, como é referido por uma das personagens, em lugar da violência sangrenta que não funciona contra quem é mais poderoso.

E esta série é poderosa nesse sentido, toda a opressão gera raiva, e a raiva gera rebelião. A intensidade dramática atinge pontos bastante altos sobretudo no segundo volume, pois se o primeiro Miss Bengalore projecta a estrutura da história, Margaridas do Inverno dá corpo e sobe a intensidade narrativa dando por vezes um autêntico murro no estômago do leitor.

Dorison está de parabéns com esta sua narração bem estruturada, fluída, com pormenores maravilhosos, colando muitas vezes a personalidade da personagem à personalidade animal intrínseca. Tudo sempre em crescendo levando a vários climax, cada vez mais fortes. Dorison consegue fazer-nos transmitir a violência que a resistência pacífica pode trazer, esta não é de todo uma história suave e calma, antes pelo contrário.

A representação Invernal ao nível narrativo casou perfeitamente com a arte e cor de Delep, e por aqui posso começar a falar do trabalho deste artista. Graficamente muito bom, com um traço poderoso quando é necessário, as personagens transmitem sentimentos fortes, enfim, foi uma aposta mais que ganha. A sua arte consegue ser brutal, e no primeiro volume posso assim de repente pensar nas paginas 26-27.

No primeiro volume a cor esteve a cargo de Delep com Jessica Bodard, mas no segundo volume o artista assume a cor toda, e muito bem. O Inverno e tudo o que se passa nele tem uma palete de cor irrepreensível que dá a intensidade que o desenho e a narrativa necessitam para fornecer o impacto necessário aos olhos do leitor.

Esta obra é daquelas simplesmente a ler a integrar no nosso sistema límbico cerebral. Abrir a mente absorver tudo aquilo e extrapolar para a nossa sociedade, encontrar os pontos de convergência, e não deixar entrar os Sílvios que estão aí a estender os chifres, a preparar o sistema para mais um misto de Animal Farm e 1984.


O segundo volume cimentou o rótulo de "obra poderosa" a este Castelo dos Animais. O Leituras de BD recomenda esta obra, se eu desse pontuação de tomatoes, estes seriam fresquíssimos :)

Boas leituras

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Lançamento Arte de Autor: O Castelo dos Animais Vol.2
- As Margaridas do Inverno

 


A Arte de Autor inicia o ano com a publicação do segundo volume desta excelente série: O Castelo dos Animais.

Já foi dito publicamente que o primeiro volume desta série, com o nome "Miss Bengalore", ficou aquém das expectativas comercialmente. Sinceramente foi algo que achei estranho devido à qualidade apresentada, e brevemente farei uma crítica detalhada ao 1º volume, para que quem não conheça se sinta mais conhecedor do que poderá encontrar esse primeiro volume. Que eu gostei muito posso dizê-lo sem gaguejar.

Fiquem com a nota de imprensa da editora Arte de Autor:


O CASTELO DOS ANIMAIS

AS MARGARIDAS DO INVERNO

O inverno conquistou o castelo. O clima é severo para os seus habitantes... Mas Miss B. e os seus amigos, o coelho César e o rato Azélar, não disseram a última palavra. 

Baptizado de "as Margaridas", o seu movimento continua. Para Miss B, derrotar a ditadura só pode ser feito evitando a mais terrível das armadilhas: a tentação da violência. Ela será capaz de convencer os seus amigos a resistirem pacificamente? O desafio parece muito difícil... 

Argumento: Xavier Dorison 
Desenho: Félix Delep 
Edição: Cartonada 
Número de páginas: 56 
Impressão: cores 
Formato: 232 x 310 
Editor: Arte de Autor 
ISBN: 978-989-54827-6-4 
PVP: 20,50€ 

Xavier Dorison conheceu o sucesso aos 25 anos com o seu primeiro argumento, Le Troisième Testament. Dedicou-se à escrita de séries como Sanctuaire e Long John Silver, com vendas superiores a dois milhões de exemplares. 
Em 2006, assinou com Fabien Nury o argumento do filme Brigadas do Tigre. Professor na escola Emile Cohl e nos Ateliers da NRF, publicou ainda a série de sucesso Undertaker (Dargaud) e também Comment faire fortune en Juin 40, na Casterman. 


Félix Delep nasceu em 1993, formou-se na escola Emile Cohl e O Castelo dos animais é o seu primeiro livro. 
Notável desenhador de animais e colorista brilhante, Felix Delep é também um talentoso narrador, influenciado sobretudo pelos cartoons de Tex Avery. 
Este é o seu segundo livro a ser publicado, onde reafirma a sua mestria ao desenhar animais






Boas leituras




segunda-feira, 14 de julho de 2008

O Terceiro Testamento


Mais uma grande série de BD completamente editada na nossa língua! Infelizmente a editora Witloof já não existe, mas pelo menos conseguiu oferecer duas pérolas ao nosso pequeno mercado de BD em português: "O terceiro Testamento" e "Sambre", esta última também será sujeita a post!
Eu penso que esta série fica lindamente depois de "Revelações", ou seja, mais uma intriga religiosa! Para além disso, quem gostou do filme "Em Nome da Rosa" vai adorar esta série... (porque é que será que teimam em por as feições do Sean Connery em tudo o que é série deste género??)
Esta série é formada por quatro livros:
- Marcos ou o Despertar do Leão
- Mateus ou a Face do Anjo
- Lucas ou o Sopro do Touro
- João ou o Dia do Corvo

A intriga começa com o julgamento inquisitório do Conde de Marbourg, ele próprio um inquisidor mas caído em desgraça por perseguir quem não devia... é salvo pelos seus amigos (e inimigos também, pois está-lhe destinado um lugar de destaque no futuro de seus adversários...). É convidado passados vinte anos (dado como morto num incêndio) pelo seu amigo o Arcebispo d´Elsenor, que lhe vai confiar uma investigação. Infelizmente os perversos "homens do Corvo", assim lhes chamei eu quando li pela 1ª vez o livro (risos), acabam por assassinar este Arcebispo e Conrad foge com a filha adoptiva deste, Elisabeth d´Elsenor. Estes partem rumo a uma grande aventura com muita intriga, ficção, meias-verdades, Templários... enfim tudo o que uma estória com muitos codex e cadernos religiosos proibidos nos pode oferecer, e no cerne disto tudo temos Julius da Samaria e os seus escritos, que levavam ao Terceiro Testamento e à 13ª tribo de Israel!
Já perceberam que adorei esta estória, mas ainda não disse que a arte de Alex Alice é fenomenal! E as cores... meu Deus, as cores são celestiais! (Convêm este tipo de arranjo, com palavras deste género numa estória com muitos motivos religiosos) eheheh...
Já agora, de notar que as datas são sempre referentes à datação utilizada nos Cadernos de d´Elsenor (são verdadeiros), em que o Ano Novo era fixado no dia de Páscoa... isto até 1564 em França! Curiosidades...
Eu recomendo vivamente esta série, é muito boa e encontram-na a preços de super saldo, visto que Witloof já não existe!
Boas leituras!

Hardcover
Criado por: Alex Alice e Xavier Dorison
Editado entre 2000 e 2004 por Witloof (original pelas Éditions Glénat)
Comprado na Bertrandt
Nota : 10 em 10

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