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quinta-feira, 14 de julho de 2022

Eu, Louco



Segundo livro da Trilogia do "Eu", obra de António Altarriba  e Keko, sendo este volume publicado em português pela editora Ala dos Livros. em Setembro de 2019.

Podem ler a minha opinião sobre o primeiro volume, Eu, Assassino, neste link. Esta é a segunda faceta de "falha" Humana, a loucura, ou não...
Esta reflexão foca-se no mundo farmacêutico, mas para apreender a totalidade, e por alguma coisa é uma trilogia, convém ler o Eu, Assassino.

Para além de aparentemente se passarem no mesmo espaço, existem detalhes e toques entre estes dois relatos com várias personagens e ideias comuns entre os dois livros, e isso deixa-me com mais curiosidade para ler o terceiro, Eu, Mentiroso.

"Os homens são tão necessariamente loucos, que não estar louco seria estar louco com uma outra espécie de loucura."
- Blaise Pascal

Não considero esta reflexão de Altarriba nem melhor nem pior que a do seu anterior livro. Eu, Louco é diferente, é engenhoso e tem um twist final de alguma atracção para mim.
Na realidade estamos no chamado rabbit hole das conspirações, ou suas teorias. Não deixa de ser interessante este livro ser um pouco anterior ao Covid-19, uma doença cujas explicações de origem deixam muito a desejar.

A Indústria Farmacêutica só existe porque existem doenças. Uma empresa só gera mais lucro se houver mais pessoas a comprar. Podemos fazer o exercício de juntar estas duas premissas e dizer que se aumentarmos o número de doenças, aumentaremos o lucro desta indústria. 

É aqui que o enredo deste livro vai navegando. 


Angel Molinos, um dramaturgo fracassado com doutoramento em Psicologia trabalha para a Outrament, subsidiária da da Pfizin (a sério?? :D ) e está encarregue de descobrir e inventar novas doenças mentais, manias ou síndromas. É a melhor maneira de "provocar" doenças! Por outro lado descobre o lado negro da experiência de administração de fármacos não testado, que não são mais que cocktails químicos que os médicos vão experimentando em desgraçados loucos.

Mas Molinos, também tem a sua conta de loucuras, traumas recalcados, abusos infantis, a cada vez mais o seu sono é apenas um pesadelo.

Infelizmente para ele, cai numa teia conspirativa, vai ser manipulado ao extremo por pessoas, e porque não dizê-lo, loucas! A Ética acaba por ser a semente de loucura do protagonista.

No meio desta manipulação vamos ter contacto com a ex. mulher do assassino (Henrique) e a sua namorada, e também com os polícias, tudo personagens do volume anterior.

Keko continua sombrio, talvez menos detalhado que no volume anterior. Em vez do preto & vermelho de Eu, Assassino, vamos ter um magnífico preto & amarelo. Amarelo foi a cor escolhida para realces de loucura neste livro, assim como o vermelho o foi no livro anterior para o crime.
Excepto! 

Excepto nas páginas onde Begona tenta seduzir Molinos, ou onde ela está na sua intimidade. Ela e o quarto aparecem com uma cor tipo um verde cyan escuro. Nessa cena do quarto, as zonas íntimas de prazer de Begona são pintadas de amarelo, claro... loucura! :)

De notar pormenores de ligação deliciosos, como por exemplo no trabalho de Cristina (a ex. mulher do assassino) em que os avatares vermelhos do livro anterior são substituídos pelo amarelo, como no caso da maça da Branca de Neve. Pormenores interessantes.

Este é mais um livro de crítica social, uma crítica forte, e em que caminhamos pelas veredas de uma teoria da conspiração com fundamentação lógica muito firme.
Para a semana Eu, Mentiroso



Boas leituras

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Eu, Assassino


Chamam-lhe a Trilogia Egoísta, ou Trilogia do "Eu", uma série reflexiva em três relatos de "falhas" Humanas: Eu, Assassino, Eu, Louco e Eu, Mentiroso. Obra de António Altarriba  e Keko.

Foram todos publicados em português o primeiro pela Arte de Autor e os dois seguintes pela Ala dos Livros.

Hoje o LBD vai olhar para o primeiro volume Eu, Assassino publicado pela editora Arte de Autor.

"Matar não é um crime, matar é uma arte."
- Enrique Rodriguez

É assim que começa o livro, e começa com um assassinato rápido e brutal ,em plena rua durante o dia.
Esta obra é complexa. Os temas abordados, para além do óbvio (assassinatos) são tratados com mais ou menos profundidade dentro de um quotidiano negro com problemas políticos, adultérios, solidão física e emocional, traição, enfim, todas estas vertentes de um diário escuro são peças do xadrez pensado por Altarriba e pintado por Keko num excelente Preto & Vermelho.

Henrique é um professor universitário de Arte, ao mesmo tempo é também um crítico conceituado de um género de pintura, em que o sofrimento é base emocional dessa mesma obra. Em determinado momento da sua vida de solidão a dois, acaba por transpor para a vida real a arte dessas pinturas.

Não se considera um serial killer na verdadeira acepção da palavra, visto que não está imbuído de vingança ou impulsos emocionais provocados por traumas da sua vida. É completamente despido de emoção quando mata, e quando o faz é arte. Apesar de tudo, pode-se entender que algo se passa com ele emocionalmente porque não consegue relacionar-se com mulheres, acaba por se separar da mulher e não consegue nunca cativar as amantes. Todo o trabalho de estudar as vítimas, os cuidados para não ser relacionado, enfim, o seu trabalho de casa para que o seu trabalho desprovido de ganhos, sim, porque a arte é gratuita, e pinta quadros reais com muito vermelho... enfim... tudo isto não ajuda os relacionamentos, sobretudo o desapegar-se de emoções.

Estando rodeado por morte, afectado pelo terrorismo basco e o clima de opressão política que paira sobre os professores universitários, que obrigados a escolher entre os dois lados, sabendo que a escolha poderia provocar a sua queda profissional, acaba por não ter os cuidados devidos e é acusado de uma morte que não provocou. Não falo mais sobre o enredo deste livro, porque senão retirava-lhe a pitada de descoberta que o leitor deve sempre ter nas suas leituras.

Eu Assassino ataca ferozmente os pseudo-intelectuais, a falsa moralidade e os impostores artísticos. É um livro perturbador, negro (e vermelho) que se lê avidamente em determinados pontos.

A arte de Keko faz lembrar muito Alberto Breccia, do qual deve ser fã. As figuras são um pouco mais gritty que as de Breccia na minha opinião.
Um excelente preto e branco, umas vezes polvilhado de vermelho, outras com autênticos baldes dessa cor. Gostei muito da sequência gráfica deste livro, penso que é um trabalho exemplar de Keko.

O livro em si é uma boa edição da Arte de Autor com um papel de alta gramagem. Imperdível para quem de BD noir a preto e branco

Para a semana terão aqui o Eu, Louco.


Boas leituras

 

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