Este post provoca duas situações inéditas no Leituras de BD. A primeira é que desde que criei esta rubrica "A Palavra dos Outros" é a primeira vez que alguém fala de uma obra oriunda do Japão, ou seja Manga. A segunda é que será a primeira vez que uma obra neste blogue tem direito a dois posts! Porque Pluto merece todo este destaque, aceitei pacificamente esta escolha do Mário Freitas. Assim terão a minha visão sobre a obra, e agora a de Mário Freitas.
O meu post sobre Pluto já foi feito há bastante tempo e podem vê-lo aqui: PLUTO. De qualquer modo as imagens que eu coloquei nestes dois posts foram ajustadas, de modo a não repetir as mesmas.
Será também a primeira vez que Mário Freitas, editor da Kingpin e proprietário da loja com o mesmo nome (Kingpin), participa neste blogue, e espero que não seja a última!
Fiquem com as palavras de Mário Freitas:
PLUTO
Naoki Urasawa - Monstro do Século XXI
O que faz de nós verdadeiramente humanos? Será a nossa capacidade para raciocínios elaborados ou antes para emoções extremas? Para amar, sofrer, e, sobretudo, odiar? Foi esta questão primordial que Naoki Urasawa, o mais premiado autor japonês de BD dos últimos 20 anos, colocou no seu penúltimo épico, «Pluto», que a Viz editou em inglês entre 2009 e 2010.
Num futuro indeterminado, humanos e robôs coexistem pacificamente num plano de aparente igualdade, graças a legislação criada ao longo dos anos que conferiu aos robôs direitos e garantias comparáveis às de qualquer cidadão. É então que os robôs mais sofisticados e poderosos do planeta, assim como activistas humanos dos direitos dos robôs, começam a ser misteriosamente eliminados e o Agente Gesicht, da Europol, ele próprio um desses robôs, é encarregado da investigação desses crimes.
Numa visão simplista, “Pluto” (Plutão, o deus romano da morte), é um remake, e a simplicidade aparente da trama é herdada da história original de Osamu Tezuka, o pai do manga, que criou na década de 60 "O Maior Robô na Terra", aquela que se viria a tornar a aventura mais popular de sempre de Astro Boy (Tetsuwan Atom). Mas onde Tezuka dirigia Astro Boy objectivamente para um público infantil – não é por acaso que foi alcunhado de “Walt Disney do Japão -, a abordagem de Urasawa é adulta e de uma complexidade fascinante, tecendo uma teia de intriga social, política e até geoestratégica, com paralelismos evidentes em acontecimentos reais. No “Pluto” de Urasawa, os robôs a abater (onde se inclui o próprio Astro Boy) fizeram parte da força de manutenção de paz que interveio na 39ª Guerra Centro-Asiática, um conflito iniciado pelos Estados Unidos da Trácia – liderados pelo Presidente Alexander, o mero testa de ferro de uma força sinistra -, sob pretexto da existência de robôs de destruição maciça na Pérsia do Rei Dário XIV;
e os humanos visados formavam a equipa de observadores internacionais que procurou, sem sucesso, a existência dessas armas. Mas em “Pluto”, como na realidade, a guerra é inevitável haja ou não pretexto para ela, e as forças de paz acabam sempre elas próprias por se tornar nas armas de destruição maciça que se destinavam a combater. A analogia às invasões americanas do Afeganistão e, sobretudo, do Iraque, é clara, mas Urasawa não cai no cliché e na crítica fácil à administração Bush (então responsável por essaas invasões), antes usando a premissa para narrar um conto sublime sobre a humanidade e a natureza do que é ser-se “humano”, seja esse “humano” feito de carne e osso ou portador de uma inteligência artificial avançada. Aliás, a impossibilidade de distinguir a olho nu um humano “normal” de um robô avançado fica bem marcada no nome do protagonista, o polícia-robô Gesicht (cara, rosto, em alemão), um agente de fato e gravata aparentemente comum.
Toda a polémica em torno da legislação sobre robôs e a própria vivência quotidiana destes servem igualmente de alegoria às minorias raciais e sociais, e Urasawa não foge a questões como a adopção de crianças-robôs, a utilização destes como “carne para canhão” para fins militares ou, até, as condições de encarceramento de robôs criminosos, personificados no frio Brau 1589, o (aparentemente) único robô que alguma vez matou um humano, contrariando a sua programação elementar. Isso é habilmente usado por Urasawa como forma de reforçar a convicção que outro dos traços realmente humanos é a nossa capacidade de autodeterminação e livre arbítrio e de nos libertarmos de condicionamentos psíquicos e sociais.
Outro tema recorrente na obra de Urasawa é a forma como os acontecimentos na infância moldam o carácter e definem a personalidade futura; acontecimentos que definem a formação de heróis e definem, sobretudo, a formação de monstros. O próprio vilão aparente de “Pluto” é como uma criança influenciável, moldada por actos que a ultrapassam e cuja abrangência não compreende. “Pluto”, aliás, é todo um jogo de manipulações cruzadas
A grande riqueza das personagens de Urasawa está precisamente nesses dilemas éticos com que se deparam e na forma como todas encerram dentro de si uma grande capacidade para o bem ou para o mal. E aquilo que separa um homem (ou um robô) comum de um monstro cruel é muitas vezes apenas a capacidade de controlar as emoções extremas. E é notável a perafernália de personagens secundárias que Urasawa vai introduzindo ao longo da narrativa e que se tornam elas próprias no motor dessa narrativa, ao ponto dos protagonistas das histórias serem dispensados durante vários capítulos, sem haver a sensação de desconexão da trama principal. E o certo é que essa desconexão, de facto, não existe: cada capítulo, cada personagem aparentemente menos relevante que surge e desaparece logo a seguir, são peças imprescindíveis de um puzzle imenso que se vai formando na mente do leitor e que constrói, quando terminado, um edifício estruturado de solidez narrativa ímpar.
E falar de edifício estruturado na obra de Urasawa assume outra particular significância: a riqueza arquitectónica dos cenários que desenha, desde a Neo Tokyo City futurista de “Pluto” ao classicismo marcante do traço de cidades europeias como Praga ou Düsseldorf, palcos privilegiados de “Monster” cujas ruas e gentes Urasawa retrata de forma verosímil, revelando bem a mentalidade de um autor culto e viajado que rejeita a aversão ao exterior muito típica dos autores japoneses. O próprio traço artístico de Urasawa demarca-se claramente do manga mais estilizado, associado a olhos e bocas grandes e a expressões exageradas, e é de uma elegância e de uma falsa simplicidade notável. A solidez da caneta de aparo, marcada aqui e ali por toques de pincel e de aguarela, confere à arte uma clareza e um toque polido que servem na perfeição os intuitos narrativos e a fluidez da história. Urasawa exibe a marca ímpar do autor completo e isso é bem visível no ritmo, na cadência perfeita, implacável, da composição das suas páginas, livres de confusões visuais ou artefactos estilísticos supérfluos.
Cimentada a sua carreira e o seu prestígio no Japão, durante a última década do século XX, Naoki Urasawa já não é apenas um dos mais premiados e conceituados autores japoneses da actualidade. Aos 52 anos, o argumentista, ilustrador e músico nascido em Tokyo está a tornar-se igualmente um nome incontornável na Europa e nos Estados Unidos e é hoje, indiscutivelmente, um dos grandes “monstros” da BD mundial neste início do século XXI.
Texto: Mário Freitas
Obrigado ao Mário por esta primeira colaboração!
Apenas faço o comentário sobre Pluto, o Deus. É minha opinião que o nome de Pluto dado ao robô tem mais a ver com o Pluto de Arístofanes, e neste caso o Deus da Riqueza dessa peça de teatro. Pode-se ler também uma dualidade oscilante entre estes dois registos "Pluto", visto que na série ele é usado como destruidor mas também é dito que a função original era tudo menos essa! (Tenho de reler Pluto...).
São estes os pormenores e diferenças de interpretação que fazem desta obra uma das melhores que eu já li!
Boas leituras