O Leituras de BD apresenta uma hoje entrevista a Mário Freitas.
Possui a loja especializada em BD, a Kingpin, responsável pela editora de BD "Kingpin Books" argumentista de BD, e organizador do evento de Banda Desenhada "Anicomics".
Como podem ver toca muitos instrumentos no panorama bedéfilo nacional, e nem sempre é bem compreendido.
Conhecido pelas suas opiniões muitas vezes politicamente incorrectas e polémicas, tenta sempre dar um abanão na dormência em que esta arte vai estagnando em Portugal.
Perante isto é sempre uma boa "vítima" para uma entrevista, e assim o Leituras de BD apresenta:
Entrevista a Mário Miguel de Freitas
Para nos situarmos nesta entrevista, em que muitas pessoas que vão ler não te conhecem, como te vês a ti próprio?
Sou um autor e editor de BD que gosta de se desafiar criativa e intelectualmente. Alguém que odeia dogmas, chavões e frases feitas e que tem por hábito questionar o porquê das coisas; acho que nunca cresci nesse aspecto. Falando do que interessa aos leitores do blog, gosto de pensar em mim como alguém que pensa a BD e analisa a BD como o “animal” único e específico que é. Sou uma pessoa exigente - sobretudo comigo próprio -, crítica e sincera. Procurem-me, se o que pretendem é uma opinião construtiva; não o façam, se o que querem é um elogio vácuo e uma palmadinha nas costas.
Como te situas no panorama da BD em Portugal?
Ainda hoje me vejo como um outsider, na medida em que não tenho formação artística e já entrei neste mundo tarde, aos 27 anos enquanto livreiro, e aos 34 enquanto autor. Porém, sou persistente e a minha curva de aprendizagem é rápida, pelo que, ao longo destes últimos 13 anos, tenho vindo a fazer tudo para recuperar o atraso, digamos assim. E acho que não me tenho dado nada mal.

Gosto de pensar em mim e que me vejam como alguém com uma visão integral e tranversal da BD, desde a génese da história até à edição final, passando por toda a envolvência cultural e comercial. Já escrevi, arte-finalizei, colori, legendei, fiz designs e paginei livros de BD; já escrevi críticas e ensaios; já ministrei cursos e masterclasses; já organizei eventos e exposições; já convidei autores estrangeiros e já moderei e participei em debates; para além, claro, da comercialização de BD, que é a minha profissão a tempo inteiro. Pela minha parte, sinto-me preenchido (mas jamais satisfeito), mas cabe aos outros julgar a qualidade do que tenho feito até agora. Costuma dizer-se que os outros nos julgam por aquilo que já fizemos, enquanto nós nos julgamos por aquilo que sabemos ser capazes de fazer. É possível que exista aqui um desencontro entre o que a maioria das pessoas pensa de mim e aquilo que eu gostaria que elas efectivamente pensassem; mas conto andar por aí muitos mais anos e continuar a fazer mais coisas, pelo que ainda não perdi a esperança de aproximar essa opinião das minhas expectativas.
Qual a tua opinião sobre a BD actual em Portugal e os principais bloqueios de que sofre?
Portugal é um país de grande potencial criativo e artístico e, na BD, não foge a essa regra. A nossa localização geográfica e predisposição cultural histórica torna-nos num sorvedor positivo de várias influências, das mais diversas proveniências. Lembro-me do CB Cebulski, actual vice-presidente da Marvel, ter dito em 2009, quando visitou Lisboa, que os artistas portugueses eram de uma grande originalidade e diversidade e não estavam colados a um único estilo ou escola, como acontecia com os espanhóis, franceses ou italianos. Isto deve-se certamente à tal absorção e posterior fusão de inúmeras influências, desde o franco-belga e o mangá, até aos comics americanos e à BD sul-americana. Dito isto, há todo um rol de problemas e obstáculos, que só se têm vindo a agravar ao longo dos últimos 15 anos.

Primeiro que tudo, a dimensão do país e a falta de dimensão cultural do mesmo, que acabam por se reflectir na exiguidade do mercado português de BD. Sem massa crítica de compradores, não se gera dinheiro; sem dinheiro, não se gera produção; sem produção suficiente, não se gera selecção e qualidade. Depois, a produção reduzida dos autores de qualidade ou, sobretudo, de autores de qualidade que publiquem álbuns em português. Assusta-me pensar na quantidade de óptimos autores, nomeadamente artistas, que não têm editado um álbum completo, só deles, em português. Há ainda excelentes artistas que têm um ritmo de produção absolutamente risível, ao ponto de nem poderem ser considerados como potenciais criadores de um álbum anual. Artistas com potencial há muitos, carradas deles! Mas além da preguiça, ou de outras prioridades, há aqueles que são incapazes de evoluírem e de se tornarem, efectivamente, no artista a sério que prometeram.
Outra questão falaciosa é a de haver “poucos argumentistas de qualidade”. Mesmo havendo poucos, e quase nenhum a tempo inteiro, qualquer deles tem, ou teria, capacidade de escrever dois ou três álbuns por ano, houvesse mercado para isso ou artistas disponíveis para os desenhar. E caramba, querem nomes de argumentistas de BD, capazes de escrever para BD, usando a linguagem da própria BD? O Rui Lacas, o Pedro Brito, o Miguel Rocha, o Nuno Saraiva, sendo predominantemente artistas, já mostraram que conseguem escrever excelentes

histórias! Depois há o José Carlos Fernandes, o Rui Zink, o João Paulo Cotrim, o Marcos Farrajota (que escreveu óptimos argumentos comerciais para o Fazenda), o Lameiras e o Ramalho Santos; isto já é muita gente! O André Oliveira está a aparecer mais agora e só lhe falta uma obra maior, de fundo, para provar se tem o que é preciso. E deixei para o fim os argumentistas que têm sido editados pela Kingpin Books, e onde se calhar se encontram os mais criativos e mais originais dos últimos anos: o David Soares, o Fernando Dordio, o Nuno Duarte e eu próprio. Lá está, há quem diga que só se lembra de dois ou três, eu só aqui contabilizei 15... Houvesse um mercado real de BD em Portugal e o correspondente retorno financeiro, e não duvido que bastavam estes nomes que eu mencionei para assegurar uma produção realmente relevante. E havendo isso que referi atrás, outros bons apareceriam decerto.
Não posso deixar de referir ainda o velho hábito português de misturar e baralhar tudo ou de entregar as coisas certas às pessoas erradas.
Tem alguma lógica que exista um curso superior de banda desenhada (em Guimarães) e as pessoas que ministram (ou ministraram) essa licenciatura sejam nomes totalmente desconhecidos da BD em Portugal? Com a honrosa excepção de um eminente teórico como o Pedro Vieira de Moura, não conheço, da parte de nenhum dos outros nomes, uma única palavra escrita sobre BD, uma única história escrita para BD, ou uma única prancha desenhada para BD. E mais: esse vício terrível e enervante de enfiar a BD no mesmo saco da ilustração, pior ainda, de subalternizar a BD à ilustração, como se de uma “coisa” menor se tratasse. Faz tanto sentido misturar um curso de BD com ilustração, como faria misturar BD com escrita criativa/literatura; mas não vejo praticamente ninguém a fazer isso. Enfim, acho que estamos quase todos fartos de cursos, cursinhos, mostras e exposições, pagos a peso de ouro, que pouco mais fazem do que criar ou alimentar pseudo-intelectuais alheados da realidade.
Como achas que se pode dar a volta a esta situação quase confrangedora da BD em português?
Se clonássemos o David Soares e o Osvaldo Medina e ficássemos com 5 de cada, só isso resultaria nuns 15 álbuns novos, todos os anos. O David é um escritor profissional e isso reflecte-se na facilidade e velocidade com que ele escreve um argumento completo para BD, layouts incluídos. Mais nenhum argumentista se compara, sequer, ao ritmo de produção dele. E o mesmo é válido para o Osvaldo, que desenha como respira e não está sujeito às preguicites e outros estados de espírito improdutivos que costumam assolar a maioria dos outros artistas. São ambos uma coisa raríssima: muito rápidos e muito bons.
Ainda assim, voltamos sempre ao mesmo: era preciso que houvesse mercado e colocação destes livros nas prateleiras. E, antes disso, era preciso começar a mudar as mentalidades, logo a partir dos primeiros anos escolares. Só que, para começar a educar as crianças desde tenra idade, tem de haver formadores, quer na escola quer em casa, que tenham já eles próprios uma nova mentalidade. É fácil de perceber assim a cadeia de entraves logísticos e culturais que temos pela frente.
Mas sejamos práticos: procurando uma forma imediata de melhorar a situação, o que poderia ser feito? Simples: termos responsáveis livreiros, nomeadamente das principais cadeias portuguesas (Fnac, Bertrand, Leya), minimamente informados sobre BD e que soubessem lidar com a BD e expô-la condignamente ao público. Ver a BD relegada para um ghetto, bastas vezes misturada ou perdida no meio de livros infantis e catalogada como “publicação infanto-juvenil”, é uma dor de alma e um insulto que sofremos todos demasiadas vezes. E, neste caso, o mal nem se aplica apenas à BD portuguesa, mas sim à BD como um todo.

Outra solução óbvia seria expandir a co-edição, que tem havido entre editoras de BD e jornais diários de grande tiragem, a álbuns de BD de autores portugueses. Não precisaria de ser uma colecção imensa, mas facilmente me lembro de uns 10 álbuns que seriam dignos representantes do que se faz ou do que já se fez. Mas atenção! Uma coisa fundamental seria criar uma selecção que pudesse, de facto, criar um público novo ou, no mínimo, chamar à atenção dum público diferente. A minha principal crítica às colecções de BD que têm sido lançadas nesses moldes é que pouco mais fazem do que se dirigiriem e pregarem aos convertidos do costume. E, para além do conteúdo em si dessas BDs, seria fundamental apresentá-las num package moderno e atractivo, que se destacasse de alguma forma nas bancas. O design da esmagadora maioria dessas colecções tem sido inestético e anacrónico.
Claro que muitas destas críticas que tenho feito, e soluções que tenho apontado, têm sido recebidas com o clássico “lá está este a dizer mal e com a mania que sabe mais que os outros”. O mundo da BD portuguesa é pequeno e tende um bocadinho à palmadinha incestuosa nas costas; quem não o faz acabará, invariavelmente, acusado de não “remar para o mesmo lado”, o que quer que isso signifique. Eu gosto de pensar que, se há algum lado para onde reme, é para o lado da qualidade. Exigia-se uma maior capacidade crítica - sobretudo de auto-crítica -, e um maior poder de encaixe dos autores para que, aí sim, ficássemos todos a ganhar.
O que surgiu primeiro, o lojista, o editor ou o argumentista/arte-finalista?
Profissionalmente falando, foi o lojista, em 1999, o que não quer dizer que já não andasse antes com ideias criativas na minha cabeça. Na prática, foram essas ideias criativas que me levaram depois a assumir o desafio editorial em 2006.

O que falta para a editora Kingpin Books dar “o salto” (e por “salto” entende Portugal para além de Lisboa) comercialmente?
Os livros da Kingpin Books já estão noutros sítios para além de Lisboa: estão na Dr.Kartoon em Coimbra, na Mundo Fantasma no Porto e, enquanto duram as consignações específicas de cada livro, em várias lojas da Fnac. Agora, isso não invalida que a tiragem curta dos livros seja um entrave a uma maior expansão da sua distribuição, embora isto seja uma enorme pescadinha de rabo da boca: por um lado, a tiragem é curta não permitindo uma maior distribuição; por outro, a deficiência da distribuição de BD em Portugal desaconselha uma micro-editora como a minha a ser mais generosa nessa mesma tiragem.
Já, enquanto editor/autor/empresário, tentaste levar as tuas edições além fronteiras? Se a resposta por “sim”: Onde? Se a resposta for “não”: Porquê?
Ainda não, mas isso está no horizonte para breve. Alguns dos livros têm uma realidade demasiado portuguesa, nomeadamente o CAOS, mas outros há que, com maior ou menor adaptação, se encaixariam como uma luva noutros mercados, nomeadamente no europeu. Incluo neste lote A Fórmula da Felicidade e O Pequeno Deus Cego, e conto que os respectivos argumentistas possam fazer brevemente a necessária tradução.
Entretanto, o novo Super Pig: O Impaciente Inglês está a ser escrito parcialmente em inglês e tem uma história universalmente abrangente que seria certamente bem acolhida nos mercados anglófonos (desde que aguentem as revelações terríveis que eu faço sobre uma das vacas sagradas dos ingleses, o “velho bulldog” Winston Churchill). Confusos quanto ao “parcialmente em inglês”? A razão é simples: como acabei de aflorar, a história gira em volta de um artefacto singular outrora pertencente à corte britânica (estão a ver os livros de Dan Brown? Não tem NADA a ver) e é protagonizada por várias figuras históricas como a Rainha Isabel I, Oscar Wilde e Winston Churchill. Já experimentaram pôr estas figuras clássicas a falar português? Eu experimentei e odiei, pelo que comecei a escrever os diálogos directamente em inglês, diálogos esses que irão coexistir com outros em português, dependendo das personagens ou das situações. É uma experiência arriscada, que tenho plena noção que vai despertar a fúria de alguns puristas, mas é algo que considerei fundamental para conferir o feeling e a intenção narrativa que pretendo para a história.
Qual a publicação da tua editora em que tens mais orgulho?
Isto pode parecer politicamente correcto, mas é a mais pura das verdade: geralmente é aquela que acabei de editar. Empenho-me sempre de igual modo em todas as edições, sejam elas escritas por mim, pelo David, pelo Fernando ou pelo Nuno, e quaisquer que sejam os artistas envolvidos. E pugno sempre para que cada edição seja melhor que a anterior, do ponto de vista do package completo, do objecto específico que um livro é. Com a perda crescente que as edições em papel têm registado face às versões digitais, um livro tem de ser um objecto fisicamente agradável e atraente que dê vontade de ter. Presto o máximo de atenção ao design, à encadernação, à qualidade do papel, às margens e à paginação, e só tenho pena da impressão digital não atingir ainda a qualidade ou as possibilidades do off-set, para continuar a inovar nestes parâmetros. Dito isto, ainda não houve nenhuma edição que me tenha deixado 100% satisfeito, porque observo sempre detalhes na capa ou nos interiores que poderiam ter ficado com uma qualidade superior de impressão.
Quais vão ser as próximas apostas editoriais da Kingpin, e já agora a sua data estimada de saída para o público?
Este ano foi muito calmo e isso deveu-se mais a uma mera coincidência, do que propriamente a questões económicas. Ainda assim, conto que “O Baile”, do Nuno Duarte e da Joana Afonso (MUITA atenção a ela), seja finalmente publicado por ocasião do Amadora BD ou perto disso. Para 2013, sim, haverá - espero eu - muitas edições novas. No AniComics, o Fernando e o Osvaldo já tiveram oportunidade de falar do “Mindex”, um conto de ficção científica que se encontra agora em fase de desenvolvimento, o mesmo acontecendo com o “Palmas para o Esquilo”, do David Soares e do Pedro Serpa. Este último será um drama psicológico passado num asilo de loucos, no habitual registo de horror personalizado e inteligente a que o David já nos habituou. Ainda do David, poderá sair o “Sepulturas dos Pais”, um argumento a ser desenhado pelo André Coelho, um dos artistas que colaborou com o David no “É de noite que faço as perguntas”.

Para além disso, o Osvaldo anda a desenvolver um projecto a solo e, se bem o conheço, mal ele pegue nisso a sério, ficará pronto num ápice. Há pouco, falei igualmente do Super Pig: O Impaciente Inglês, o meu magnum opus, que tem andado enguiçado por motivos diversos, mas que conto que possa finalmente sair para o ano. Resta-me decidir se o irei dividir em dois volumes ou se editarei tudo de uma só vez (solução que me agradaria bastante mais, dado o impacto que a leitura integral da história teria, mas que tem o senão de implicar um preço de venda bastante superior, visto estarmos a falar de um álbum com 88 páginas).
Relativamente ao teu trabalho como argumentista, como lidas com os teus desenhadores na construção de uma BD? Dás-lhes muita ou pouca liberdade nos storyboards e quem é que geralmente os faz?
Dou-lhes a liberdade suficiente, nunca me esquecendo que o argumentista sou eu e os artistas são eles. Eu tenho uma forma muito visual de pensar, até porque também sei fazer uns rabiscos, por isso, quando penso numa cena, tenho geralmente uma ideia bastante concreta do que pretendo para a arte. Ser-se argumentista de BD implica sermos nós a ditar o ritmo da história e o ritmo das cenas e, nesse sentido, é fulcral que sejamos muitas vezes “ditatoriais” na descrição do que pretendemos. É evidente que nada disto é estanque e que o grau de flexibilidade é variável consoante o artista com quem se trabalha e o grau de confiança ou empatia que temos com ele. Além de que eu gosto de escrever coisas que tirem o melhor partido dos pontos fortes e características de cada artista específico.
A dado momento, por exemplo, as minhas colaborações com o Carlos Pedro (1º artista do Super Pig) passaram a ser muito orgânicas, e os layouts eram definidos em conjunto, durante meetings informais que fazíamos aqui na loja; discutíamos a minha ideia original e ele procurava, se caso disso, formas mais dinâmicas de a pôr em prática. Com o GEvan.., o método foi muito diferente, porque ele é sobretudo um ilustrador, por oposição a um narrador visual. Com ele, optei por explorar mais o design das páginas e as formas geométricas e é por isso que surgem páginas com relógios, grades de prisão ou gráficos de cotações de mercado a servirem de vinheta. Quando pretendo algo assim tão específico, sou eu próprio que faço os layouts/storyboards, até porque gosto destas soluções imaginativas e menos óbvias e gosto de “brincar” com a linguagem da BD. O plano do papel não é um tela de cinema e a forma de contar uma história em BD é muito própria e pode ser explorada de diversas formas. Não faz sentido nenhum usarmos a BD para contar as histórias do mesmo modo que o faríamos no cinema ou na TV. O tempo dos “widescreen comics” já lá vai e só resultou enquanto foi novidade; de resto, esgotou-se num ápice.

Outra das ferramentas que mais tenho vindo a explorar na escrita do novo livro (Super Pig: O Impaciente Inglês) é a utilização de pausas e repetições narrativas e essa é uma das coisas que melhor distingue um storyboard de cinema de um layout de BD. E é das coisas que melhor serve para controlar o impacto emocional das cenas e o pacing, o ritmo da própria BD. Eu digo há muitos anos que o que distingue os melhores argumentistas dos outros é o pacing narrativo e nada mais. Há vários argumentistas com excelentes ideias e uma escrita fluida e eloquente, mas a quem falta a imaginação visual e o sentido rítmico para cadenciar as suas histórias na perfeição. Ter lido três obras completas do Naoki Urasawa, nos últimos anos, foi uma belíssima lição de ritmo narrativo. Os melhores japoneses, aliás, são grandes mestres nisso, e é uma pena a forma desastrada como certos autores americanos tentam copiar isso, não percebendo que a descompressão narrativa não são páginas e páginas seguidas de cabeças falantes a debitar diálogos redundantes (sim, Bendis, estou a olhar para ti). Um dos escritores americanos que já demonstrou há vários anos que sabe fazer isto como poucos é o JM DeMatteis, embora ajude sempre trabalhar com narradores visuais do calibre de Mike Zeck (em Spider-Man: Kraven's Last Hunt) e Sal Buscema (em Spider-Man: The Child Within).
Alguns lojistas especializados em BD queixam-se de tudo e mais alguma coisa no seu negócio. A Kingpin está nesse saco também?
Não, de todo; sou muito criterioso quanto aos sacos em que me enfio, e com quem me enfio nesses sacos. Acho que certas lojas deviam olhar mais para si próprias em vez de se queixarem de deus e do mundo. Eu é que se calhar devia queixar-me de algumas dessas lojas, porque não são benéficas para ninguém, com o percurso errático em que persistem: não trazem qualquer valor acrescentado para o cliente, muito menos para o mercado, e parecem daquelas baratas nojentas e irritantes que nunca mais morrem.
Tu és conhecido por fazer e fazer vários pequenos e grandes eventos. Para além do movimento de pessoas que consegues provocar, isso reflecte-se comercialmente?
Reflecte-se, claro, nem que seja pela lógica irrefutável dos números: mais pessoas aumentam automaticamente a probabilidade de mais vendas. E não se pode descurar a vertente promocional, claro: um visitante de um evento pode tornar-se num cliente da loja. Para além do AniComics, que é o tal evento maior que organizo, tenho apostado em festas periódicas aqui na loja, aproveitando o excelente espaço que tenho e proporcionando, em simultâneo, aos visitantes momentos de convívio e animação. Isso é cada vez mais fundamental na criação de um elo entre uma marca e os seus consumidores e na afirmação de uma identidade própria dessa marca. E parece-me inegável que a Kingpin Books tem uma identidade absolutamente distinta dos seus concorrentes mais directos.
Qual o evento em que participas comercialmente mais atractivo para a tua loja?
Do ponto de vista comercial, acaba por ser o Iberanime, porque vendo quase tanto quanto no Anicomics, mas não tenho nem metade das despesas e do trabalho. A máquina logística e promocional da Manz (organizadora do Iberanime) consegue de facto transformar esse evento num peso-pesadíssimo, como o comprovaram os quase 7.000 vistantes da última edição em Lisboa.
Falando de eventos, qual é tua opinião sobre os vários festivais e salões que se vão fazendo ao longo do ano em Portugal?
Honestamente, só vejo quatro eventos revelantes, sendo que um deles, o Iberanime, nem sequer é um evento de BD. O Amadora BD vem de dois anos muito maus, mas continua a dispor de condições e de uma tradição ímpares. O Festival de Beja tem enorme qualidade artística e excelentes conteúdos, mas a localização intrínseca e uma certa incapacidade em atrair um público exterior à BD não o tornam comercialmente atraente. O AniComics é uma aposta pessoal minha, um evento mais moderno e arejado e que visou reunir o melhor dos universos da BD e do entretenimento oriental, e o seu crescimento visível e continuado têm comprovado a viabilidade dessa aposta.
Aparte disto, há pequenos eventos interessantes e bem intencionados, e outros completamente anacrónicos, que se eternizam penosamente sempre nos mesmos moldes, sem qualquer capacidade ou vontade de se renovarem. Já não estamos nos anos 70 ou 80, pelo que a boa vontade, por si só, já não chega; aliás, diria que de nada serve, se não for devidamente acompanhada por uma pitada ou duas de rasgo e competência.
És mesmo arrogante, ou isso faz parte do “boneco” que criaste para ti mesmo?
Isso de bonecos e personas é para o Mourinho. Ele está inserido num mundo-cão que envolve milhões como é o futebol, pelo que percebo perfeitamente porque o faz. Eu sou apenas o “maior” de uma aldeia muito pequena, pelo que me limito a ser eu próprio. É claro que quem diz o que pensa e quem tem opiniões muito vincadas torna-se um alvo fácil ou, pelo menos, preferencial. Essa do “arrogante” deve vir daí, mas desculpem se não alinho em falsas modéstias ou se não peço desculpa por existir. Nunca ninguém me ouviu ou ouvirá vangloriar-me de coisas que não fiz ou de qualidades que não tenho. E acho que o respeito e amizade duradoura que os meus principais colaboradores têm por mim diz bem do meu comportamento para com as pessoas e aquilo que eu sou verdadeiramente.
Melhor obra de BD de sempre?
Ui... Depende do momento da vida ou do estado de espírito. Se pesar o impacto emocional, houve várias coisas que me marcaram. O Spider-Man: Kraven’s Last Hunt, por exemplo, foi um murro no estômago dos meus tenros 16 anos de então. Em termos de inovação e quebra dos cânones, há duas histórias em particular que nunca esqueço: Swamp Thing nº21 (The Anatomy Lesson), o primeiro número integral do Alan Moore no título, e que, mais do que uma lição de anatomia, é uma portentosa lição de escrita; e Animal Man nº26 (Deus Ex-Machina), onde Grant Morrison termina uma saga, já por si brilhante, revelando-se ao protagonista como o responsável por todos os seus infortúnios.
Não posso deixar ainda de mencionar The Invisibles, que me revelou a verdadeira natureza do universo; All Star Superman, a história perfeita de super-heróis, com uma simbiose perfeita entre escrita e arte; e Asterios Polyp, de David Mazzucchelli, um verdadeiro compêndio de (quase) todas as possibilidades artísticas e narrativas que a BD pode oferecer.
Qual o teu artista favorito?
Frank Quitely. Tem o talento único de fazer com que tudo pareça simples de desenhar. É de uma elegância e de uma economia narrativa inimitáveis.
Arte-Finalista?
Nisso não tenho mesmo um único favorito, mas posso mencionar Jim Mooney, Al Williamson, Wally Wood, Joe Sinnott, Tim Townsend (vá lá: um vivo em cinco)...
Escritor de Banda Desenhada?
Grant Morrison. Não é tão estruturado ou eloquente quanto Alan Moore, mas é mais capaz de me supreender e de me levar a descobrir coisas diferentes. E leva-se menos a sério.
E agora perguntas tontas… prato de comida preferido?
Já que uma intolerância alimentar me impediu de continuar a saborear lulas das boas, qualquer naco de carne saboroso e suculento é imbatível. E, sim, evitem pedir carne de vaca bem passada na minha presença, se não querem ouvir um sermão.
Melhor música de sempre?
Isso é tão ou mais difícil que escolher a “melhor” BD de sempre (acho que a palavra “favorita”, ainda assim, se adequa melhor). Algo tão estático não casa bem com a minha perspectiva de evolução contínua. De qualquer forma, e só para dar um exemplo, “Bigmouth Strikes Again”, dos Smiths, já me acompanha há 25 anos.
Como é para ti um dia perfeito?
Um dia em que a minha cabeça esteja totalmente livre de preocupações, na companhia de pessoas que me sejam queridas. Se puder acrescentar a isso algo de criativo ou produtivo, tanto melhor.
Se o mundo acabasse para ti amanhã, como gostarias de ser lembrado?
Um pessoa diferente. Uma pessoa especial.
Espera que a entrevista tenha agradado!
Boas leituras!