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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Bob Layton na Kingpin Books

 


Bob Layton escolheu a Kingpin Books para a sua paragem em Portugal nesta sua digressão europeia, que celebra os seus 50 de trabalho em Comics. Anteriormente este na MegaCon Live em Londres e na Comic Shop de Copenhaga, a Fantask Books. O seu paragem seguinte vai ser na Barcelona Comics.

Layton foi um importante protagonista nos anos 80/90 na indústria de Comic US, como desenhador e como arte-finalista. Os seus trabalhos em Iron Man e Secret Wars são dos mais conhecidos. Foi também um dos fundadores da conhecida editora Valiant Comics com os conhecidos Jim Shooter e Barry Windsor-Smith.

Este senhor de 72 anos demonstrou muita vitalidade e espalhou simpatia por toda a loja da Kingpin Books.

O espaço estava muito composto, ou seja, a loja estava cheia, o que sinceramente me agradou. Sempre gostei muito deste espaço e é um prazer verificar que muita gente aderiu a este evento com um autor de Comics, assim como muita gente estava na loja simplesmente porque foi comprar algo acabando por "cair" dentro deste evento.

Para além dos prints (dois tamanhos), Bob Layton levou bastante originais para vender, para quem tivesse mais alguns Euros para gastar em boa arte.

Da minha parte foi um print do Iron Man e assinou a sua participação na grande run do John Carter of Mars publicada originalmente pela Marvel em 1978, ou seja, um dos seus primeiros trabalhos, e neste caso foi como arte-finalista.

Parabéns à Kingpin Books pela iniciativa








Boa leituras

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Anicomics 2016: Falta 1 dia
Entrevista a Mário Freitas


Falta menos de 1 dia para que este grande evento se inicie.
Esperemos que esta edição num ambiente maior leve ainda  mais grandiosidade ao Anicomics, já há muito tempo que merecia um espaço maior e agora com o Fórum de Lisboa este requisito de crescimento foi satisfeito!

Fiquem com uma pequena entrevista ao organizador Mário Freitas:

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O Anicomics ao fim de tantos anos muda de local, e esteve quase para não se realizar este ano. Quais foram os motivos para esta situação e como conseguiste assim a mudança para o Fórum de Lisboa em tempo recorde?

Antes de mais, obrigado pela oportunidade, Nuno. Só lamento que isto vá ter de ser telegráfico. Pouco depois da edição do ano passado, cheguei a ter tudo acertado com o Teatro Armando Cortez para fazer lá o evento este ano. Infelizmente, uma mudança repentina na gestão do espaço e o vazio que se chegou a criar obstaram a que se concretizasse a mudança para esse espaço. Quando voltaram a contactar-me, já foi tarde demais.

O que podemos esperar desta mudança de espaço? Com certeza tiveste de adaptar bastantes situações devido à formatação de tantos anos para a Biblioteca Orlando Ribeiro.

Algumas, mas não tantas assim, sobretudo porque este espaço é maior e com melhores condições e, quando assim é, tudo se torna mais simples. E isso responde à tua pergunta: podemos todos esperar um AniComics maior e melhor e, sobretudo, com muito mais espaço e conforto para os vistantes no auditório. Passámos de 140 para 701 lugares.

Este ano, mais uma vez, vais passar em revista nos painéis e lançamentos bastante do que se editou e vai editar nos tempos mais recentes da BD feita por portugueses. O que pensas da vitalidade da BD portuguesa relativamente ao ano passado?

Creio que não há grandes alterações, até porque 2015 foi dos melhores anos da BD portuguesa, desde há muito tempo. O que é fantástico é que continuam a surgir novos autores e novos projectos com enorme qualidade e pernas reais para andar, e creio que isso vai ficar demonstrado de forma inequívoca nesta edição do AniComics.

O mundo do Cosplay vai estar em grande neste Anicomics 2016. Esperas uma nova subida de qualidade devido à cada vez maior afluência de concorrentes?

Espero sempre dos visitantes e concorrentes e exijo sempre isso dos meus convidados. O AniComics foi pioneiro em Portugal na apresentação de shows de qualidade sem carga competitiva ,e nas situações insólitas e inesperadas em palco que trazem sempre uma gargalhada aos presentes e tornam este evento tão especial. Este ano, quem subir ao palco terá uma plateia enorme à sua frente; só espero que não fiquem nervosos perante tal responsabilidade. Já mencionei que são 701 lugares sentados?


Reparei que o Steampunk (que eu adoro) vai dar entrada no Anicomics com um painel e com um Workshop. O que te fez pensar na inclusão deste tema no programa?

Começou timidamente o ano passado com um pequeno painel e este ano alargámos a parceria com a Liga Steampunk de Portugal. O Steampunk tem um visual espectacular e muito criativo e casa muito bem com toda a cultura POP e de Cosplay, tão marcante neste evento.

O Painel “Cultura POP” ainda não tem nomes designados. Não consegues adiantar nenhum nome que tenha sido confirmado nestes últimos dias?

Já foram todos confirmados, desculpa o atraso na resposta à entrevista :) São pessoas ligadas a blogs e magazines online que se dedicam à cobertura e divulgação de cinema e séries de TV, e vários deles nutrem em comum uma enorme febre coleccionista pelos Funko POP, as figuras de vinil que ameaçam, seriamente, dominar o mundo.

Que mensagem podes deixar para os leitores do LBD e para o público em geral?

Não percam este AniComics. Não vão mesmo arrepender-se, por todas as razões deste mundo. Um alerta em particular para os fãs de Banda Desenhada, que terão direito este ano a um painel de luxo de autores portugueses, presentes na Artist's Alley Pro do evento. Vamos oferecer à entrada um booklet exclusivo composto quase integralmente por ilustrações inéditas de vários desses artistas presentes. E será exclusivo do AniComics, não contem em comprá-lo depois do evento.

Obrigado Mário :)

Fiquem com uma imagem do booklet a ser oferecido à entrada...


...e com a planta do Fórum de Lisboa com o programa deste Anicomics 2016


A informação completa está no site do Anicomics, é só seguir o link!

http://anicomics-lisboa.net/

Boas leituras e bom festival!



sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Super Pig: O Impaciente Inglês


O universo Super Pig está em expansão, e em melhoramento contínuo. Quem leu o primeiro volume sente isso mesmo, um grande amadurecimento de ideias e a própria construção deste universo está mais meticulosa.

Pegando no primeiro parágrafo que escrevi, o primeiro volume estava um pouco desequilibrado ao nível do desenho e layouts, visto que foi uma compilação de várias revistas feitas por diferentes autores. Isto já não acontece no segundo (Roleta Nipónica), desenhado exclusivamente por Osvaldo Medina – em que ganhou com este livro na categoria “Melhor Desenho Nacional” – nem neste terceiro volume, em que o André Pereira foi responsável único pelo desenho.
Outra particularidade curiosa é a diferença de formatos ao longo do tempo. O primeiro volume era de dimensões reduzidas no que toca a altura e largura, mas o Mário Freitas editor resolveu (e bem) aumentar a dimensão do Super-Pig: Roleta Nipónica, e neste último volume temos uma publicação ainda mais alta e larga, aproximando-se do formato europeu. Será que o próximo volume irá ser ainda maior e de capa dura…?
:D

Como o argumentista Mário Freitas diz no seu prefácio, este livro seria impossível há uns anos. É resultado do seu amadurecimento como argumentista, e porque não dizê-lo, de editor.
Uma história coerente preparada com atenção aos detalhes, e digamos que não é fácil… uma história com uma personagem protagonizada por um porco antropomorfizado, roçando a Ficção-Científica e disparando várias personagens históricas através de várias camadas temporais, não é uma coisa fácil de tornar coerente e verosímil. Mário conseguiu-o através de aturada pesquisa histórica e de uma imaginação louca e fervilhante!

As passagens através do tempo estão muito boas, e a ideia de colocar aquele pequeno “filme” em rodapé acompanhando a ideia principal, completando muitas das ideias da história principal e preenchendo lacunas da vida do Super Pig, sobretudo na sua relação com o seu pai Calouste Pig, foi um excelente achado.

Se em Roleta Nipónica tivemos uma história de acção, simples e directa apesar de algumas referências culturais que algumas pessoas não terão “apanhado” logo na primeira leitura, agora temos essas referências aumentadas exponencialmente, com uma narrativa mais lenta e mais minuciosa no detalhe. Garantidamente houve muita pesquisa histórica para se fazer este argumento sem “plot holes” aparentes.

No que toca à escolha do inglês para as falas das personagens oriundas de países anglófonos, bem… também foi explicada no prefácio. Não tenho nada contra, aliás, acho que é lógico no contexto da história, mas penso que teria sido bom um apêndice no final do livro com uma tradução. Isto porque apesar de grande parte do público-alvo falar inglês, haverá sempre pessoas que não se sentirão tão à vontade na leitura desta língua, e porque não dizer, com essa tradução aumentar as margens para outro tipo público.

André Pereira tem um estilo neste livro de que eu gosto sinceramente. Garantidamente penso que uma das grandes influências gráficas neste seu estilo será Frank Quitely (e por arrasto Moebius). Mas eu disse influências, o estilo apresentado pelo André foge para o grotesco muitas vezes. O seu Pig é encorpado, detalhado e muito expressivo. Os layouts estão muito bem feitos, alguns possíveis problemas gráficos em alguns dos layouts foram muito bem resolvidos pelo desenhador, que se mostrou inventivo na apresentação de muitas das cenas.
Um desenhador a reter com certeza. Espero que se mantenha e evolua neste estilo, trabalhando mais em livros do que em fanzines. O grande público merece ver mais dele, e o circuito dos fanzines não permite essa abrangência de público.

Quanto à cor, bom… adorei! Foi das coisas que mais gostei neste livro. Uma excelente escolha na paleta de cores, muito homogénea ao longo do livro. Sóbria na maior parte do livro, o que faz explodir as cores mais vivas quando estas são necessárias para determinada cena!
Gostei muito do trabalho de cor de Bernardo Majer, sem dúvida! Mário Freitas apostou em dois artistas muito jovens e ganhou esta aposta, na minha opinião.

Quanto ao design… é muito bom.
A balonagem também está muito boa, mas a fonte usada nas partes em inglês que contam a história do artefacto está um pouco manuscrita de mais. Passo a explicar, eu uso óculos para ler, e tive de fazer um certo esforço para ler. A fonte é bonita e cai bem nestas falas, mas para mim foi um pouco difícil de ler.

Não me vou alongar na apresentação da história propriamente dita. Não quero “spoilar”, mas está em causa o passado familiar do Super Pig. Nas viagens ao passado deste livro encontramos o pai do herói ao lado de Winston Churchill, e a receber deste um misterioso artefacto. Artefacto este que vai iluminar muitos segredos do pai, e porque não dizê-lo, da história Vitoriana até quase aos nossos dias (ficção, claro…).

É um livro em que o argumentista Mário Freitas põe muito de si emocionalmente (sente-se e percebe-se perfeitamente), e cabe a vocês leitores descobrir as várias facetas e “nuances”, umas aparentes e outras escondidas, deste livro.
Gostei sinceramente, e fico à espera do 4º volume…
Para quem vai visitar o Amadora BD neste último fim-de-semana, o livro estará à venda no stand da Kingpin Books e o seu autor, desenhador e colorista presentes para dar autógrafos.

Podem ler nos seguinte links a minha opinião relativamente aos anteriores livros:
Live Hate
Roleta Nipónica
Lançamento Kingpin: Super Pig - O Impaciente Inglês (com mini-entrevista)

Boas leituras

Softcover
Criado por: Mário Freitas, André Pereira e Bernardo Majer
Editado em 2013 pela Kingpin Books
Nota: 9 em 10

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Lançamento Kingpin: Super Pig - O Impaciente Inglês (com mini-entrevista)


O livro chama-se o "Impaciente Inglês". Mas decididamente acho que o argumentista Mário Freitas está mais que impaciente pela saída oficial do livro!
Por vários motivos, claro... para além de argumentista, foi o legendador e fez o design da publicação.

Por esses motivos, e outros, nada como apresentar aqui em 1ª mão e em exclusivo, o prefácio. Este prefácio é o mais visceral que li até hoje. Mário Freitas tornou-o completamente pessoal e emotivo!
Não é muito normal eu apresentar aqui prefácios, mas este tem uma força que vem de dentro, tal é o comprometimento deste autor com o seu livro. Vale a pena quando assim é!

Apresento também uma mini-entrevista ao desenhador André Pereira e ao colorista Bernardo Majer. Sabendo o que o Super Pig representa para o Mário Freitas, foi de uma grande coragem "contratar" estes dois jovens, um de 26 anos outro de 23, para este livro.

Fiquem então com o texto de Mário Freitas e com a mini-entrevista aos dois artistas. As perguntas são exactamente iguais para os dois.

Prefácio do Autor

Não sou um português paciente.

Reza a lenda que estive quase a nascer no carro, tal a pressa de vir ao mundo, não fosse a louca correria do Comandante José de Freitas pelas ruas de Lisboa, sem particular respeito pelos sinais, luminosos ou outros. Felizmente, era de madrugada; e estávamos em 1972.

Perante este meu traço marcante de carácter, parece assim um paradoxo que a história que estão a prestes a ler tenha germinado na minha mente no já longínquo ano de 2006, provavelmente o mais difícil e conturbado da minha vida. Paradoxalmente também, ou talvez não, esse período coincidiu com um dos meus períodos criativos mais férteis, como se as agruras e incertezas da realidade me forçassem a sitiar num local recheado de ideias e potencialidades infinitas. Foi num desses escapes criativos que aquilo que começou como um simples trocadilho seco explodiu subitamente em várias direcções. As ideias fervilharam; os actores históricos perfilaram-se numa concorrida audição, exigindo presença destacada na teia que se desenrolava à minha frente. Obrigaram-me a pesquisá-los; a investigá-los. Fui forçado a escolher os mais marcantes, os mais carismáticos, os que mais persistiram no meu cérebro, tornando-os peças imprescindíveis na galeria de personagens do livro.

E que surpresas encontrei; que incríveis coincidências e bizarrias históricas me foram sendo servidas de bandeja e se encaixando na perfeição na trama secular que ia urdindo. De facto, nada consegue ser tão bizarro quanto a própria realidade: as alegadas conjurações e conversas de John Dee com o arcanjo proscrito Uriel; John Milton, totalmente cego, a ditar à sua filha trechos inteiros do seu poema épico «Paraíso Perdido»; os longos 24 anos que mediaram o início das pesquisas de Darwin nas Galápagos e a publicação de “A Origem das Espécies”; e, talvez o mais bizarro de todos os episódios reais, a fama inusitada que a dentadura de Churchill ganhou, antes e depois da sua morte, ao ponto de ser alcunhada de “a dentadura que ganhou a guerra” (e não é todos os dias que uma dentadura, ou parte dela, é leiloada pela módica quantia de 15.000 Libras Inglesas). Toda esta teia de particularidades históricas clamava por algo maior; ou por um fio condutor ainda mais bizarro...

Em última instância, a paciência, por vezes, é mesmo boa conselheira: o Mário Freitas argumentista de 2006-2008 não tinha ainda a maturidade e a experiência para lidar com um leque tão vasto e arrojado de ideias, e transformá--las numa verdadeira história. Além do mais, ainda não havia AniComics; e, sem AniComics, não haveria o André e o Bernardo, fundamentais pela qualidade e dedicação que emprestaram ao livro. 90 páginas de BD em 14 meses não são para qualquer um no panorama nacional. Hoje em dia, acredito que consigo conferir à minha escrita a subtileza humana imprescindível a uma saga desta natureza e que evite a queda fácil nos clichés narrativos clássicos dos múltiplos Códigos DaVinci deste mundo. Bendito seja Borges pelos conselhos inestimáveis sobre a paternidade e a abominação que representa. O cariz emocional deste livro passa muito por aí.

Noutro ponto, um dos maiores riscos que assumi neste livro foi a adopção de duas línguas distintas, consoante as personagens e as situações ocorridas. Debati-me com isso, acreditem; ponderei bastante. A minha ideia inicial era fazer o livro todo em Português, como é “normal”, como é a “regra”, afinal de contas. A dúvida assaltou-me quando comecei a escrever os diálogos das personagens históricas (Churchill, na circunstância) e senti uma dificuldade enorme em “entrar” nelas, fora da sua língua materna. Tudo o que o “Velho Bulldog” me assoprava ao ouvido e me impelia a reproduzir estava em Inglês e só assim a voz da personagem me soava verdadeira e verosímil. Com Oscar Wilde não foi diferente; dei por mim a imaginar a brilhante interpretação que Stephen Fry fez do dramaturgo irlandês a ser dobrada pelo Pedro Granger. Como castigo, senti a minha alma a ser arrastada para o paraíso perdido que John Milton idealizou. O velho puritano podia ser cego e já estar morto há perto de 350 anos; mas jamais foi surdo e a sua alma ainda hoje zela pela integridade artística dos seus pares. Dito isto, selei a minha decisão e comecei a escrever directamente em Inglês todos os diálogos das personagens históricas, assim como as narrações da personagem mais bizarra que a minha imaginação já concebeu (e não me refiro a Lorde Kent Waite...).


Perguntam-me se não receio que vá perder com isto uma fatia considerável de potenciais leitores, e a minha resposta é um não rotundo. Vivemos em tempos bilingues, em que cada vez mais os jovens adoptaram o Inglês como segunda língua, desde tenra idade. Na minha actividade livreira, não é incomum receber grupos de clientes que falam várias vezes Inglês entre si, just because, alternando-o com o Português materno, sem qualquer estranheza ou aparente dificuldade. E este é um livro de contrastes; de paralelismos; e a coexistência das duas línguas contribuirá, e muito, para o enriquecimento da experiência de leitura e para imergir ainda mais o leitor na história.

E por falar em história, sinto crescer em vós uma certa impaciência para começarem a lê-la, pelo que chegou o momento de me despedir. Pela minha parte, tenho muita curiosidade em saber a vossa reacção. Confesso até que estou impaciente por isso.

Mário M Freitas
Outubro de 2013




Entrevista a André Pereira (AP) e Bernardo Majer (BM)


Podes contar aos leitores deste blogue algo sobre o teu percurso na Banda Desenhada até chegares a este livro?

AP - Em termos de trabalho exposto, limitou-se a participações no Amadora BD; concorri pela primeira vez em 2006 e consegui o primeiro prémio do júri para o escalão A. A partir daí contribuí todos os anos com trabalhos novos até 2012. Pelo caminho consegui outro primeiro lugar (2010), um terceiro lugar (2008) e duas menções honrosas (2007 e 2012).
Fora isso, e imediatamente antes de ter sido convidado a participar no Super Pig, tinha começado a preparar um zine com o João Machado que acabámos por lançar pouco mais tarde, na Feira Laica de Verão de 2012; esse zine, o Enjoo de Invocação, foi entretanto relançado sob a chancela Clube do Inferno, a editora que, juntamento com outros dois amigos, fundámos no final do ano.
E houve ainda o primeiro contacto com o Rudolfo, que comecei a seguir no Tumblr por volta dessa altura também e que, depois de visitar a minha página, me convidou a participar no Lodaçal Comix que também iria sair nessa Feira Laica.

BM - O meu percurso na bd é relativamente curto - sendo que sempre tive o hábito de desenhar, comecei a fazer as primeiras experiências mais sérias em banda desenhada em 2011, com a ideia de que poderia fazer uma webcomic. Percebendo que ainda estava muito verde, passei o ano de 2012 a entrar em concursos, primeiro o Anicomics, depois o Portusaki e por fim o Amadora Bd, ganhando o primeiro lugar em todos. Certamente com alguma sorte, mas foi um excelente incentivo para tentar fazer alguma coisa mais séria.

Como surgiu esta oportunidade de desenhar este livro?

AP - Através do concurso do Anicomics de 2012: na altura já estava a desenhar o Enjoo e andava a tentar formar um portefólio de ilustração/BD para enviar a editoras, ver o que acontecia. O concurso do Anicomics era uma oportunidade como qualquer outra e a Kingpin, a editora por trás do festival, já tinha lançado trabalhos sérios e consistentes. Mandei o barro à parede e, apesar de não ter ganho nada no concurso, acabei por ser contactado pelo Mário para trabalhar com ele.

BM - Conheci o Mário Freitas devido ao concurso do Anicomics, na altura ele apesar de gostar da BD, achou que a Cor era ainda um dos meus pontos fracos. Só depois do concurso Portusaki, e de ele ter visto aquilo que eu tinha feito no facebook, é que me convidou para fazer o Super Pig com ele e com o André.

Quais foram as tuas principais dificuldades neste projecto?

AP - Acertar com as expressões do Pig, numa fase inicial. Tinha tendência a desenhar o que parecia ser uma pessoa deformada e não um porco airoso nas primeiras páginas, mas foi imediatamente corrigido.
Mas a dificuldade que se manteve constante até terminar o livro foi o processo de inking. Não foi fácil encontrar um registo de finalização que desse profundidade ao traço, mas para o final lá comecei a encontrar uma forma de o fazer que me agradasse minimamente.
Também foi a primeira vez que trabalhei com outra pessoa encarregue de colorir os meus desenhos; acho que no início não tomei isso em grande consideração, mas a partir do momento em que vi as primeiras páginas coloridas comecei a trabalhar com a colaboração em mente.

BM - Iniciais muitas. Foi realmente um período em que as aprendizagens foram imensas, é o que acontece quando encontras um desafio que está mesmo acima das tuas capacidades. Eu não estava a conseguir fazer nada. Mas com muitas primeiras páginas, lá foi ao sítio. Depois, nunca tinha colorido algo que não tivesse sido eu a desenhar, o que foi outro problema. O meu estilo de desenho é muito diferente do do André. Mas fui-me habituando, até se tornar quase automático.

Como é trabalhar com o Mário Freitas?

AP - É fácil. Ele deu-me desde logo bastante liberdade na concepção dos layouts e em grande parte dos enquadramentos. Nos momentos em que era preciso representar uma cena de forma mais detalhada, essas especificações vinham no guião.
Não me lembro de ter acontecido muitas vezes, mas quando algo não estava como ele queria, isso era discutido logo na fase dos lápis e trabalhava-se à volta o desenho nessa altura para que ficasse tudo em condições.
Fora isso, o Mário reconhecia sempre o esforço quando as páginas lhe agradavam particularmente e comunicava-o de forma igualmente clara.

BM - É confortante. Sendo eu muito novo nestas andanças, sei que o Mário consegue prever como é que o produto vai resultar. O projecto é dele, nesse aspecto sou um colorista e não um autor, o que realmente alivia imensamente a minha parte. Mas foi sempre uma relação de trabalho que correu muito bem, sem existirem verdadeiros altos e baixos. E apesar de por vezes ser chato ter de refazer páginas quando ele dizia que algo não estava bem, que o chão não devia ter aquele tom ou qualquer coisa do género, a página acabava por ficar sempre melhor. Pagaria a alguém para me fazer isso nas minhas bds todas.

Trabalhaste de que forma neste Super Pig, tradicional ou digital?

AP - Trabalho sempre em papel, tanto os lápis como as tintas. Da minha parte, o computador só serviu para corrigir alguns erros.

BM - Photoshop sempre.

Gostaste do resultado final do livro?

AP - Só lhe vou pegar pela primeira vez amanhã, mas pelo que pude ver do PDF, acho que a coisa ficou sólida. Acho que vou gostar.

BM - Gostei muito. Ainda não tive o produto final nas minhas mãos, mas fiquei contente com as páginas como as vi.

E para o futuro, já tens projectos?

AP - Sim. O Clube do Inferno vai continuar vivo e já temos vários projectos na calha para a Feira Morta de Dezembro; da minha parte, podem contar com uma história de 20 páginas que se vai chamar Safe Place. Já há esboços pela internet fora, mas não vou adiantar muito mais detalhes para já.
Também estou a colaborar com 3 talentosos mancebos (o Afonso Ferreira, o Zé Burnay e o Rudolfo) na criação de um livro que, se tudo correr bem, sairá ainda este ano, lá para o Natal. Não vou adiantar muito sobre este projecto, mas posso dizer que já temos editora para o pôr cá fora.
Fora isso, continuarei a fazer uns biscates esporádicos em ilustração e arquitectura, para ganhar algum. E tenho sempre o meu emprego diário, que ainda me exige 8h por dia.

BM - Coisas ainda muito no início, sem nada que interesse para contar.

Queres deixar alguma mensagem aos leitores deste blogue?

AP - Que continuem a gostar de BD e a apoiar a produção nacional, talvez; continuem a visitar os grandes festivais como o Amadora BD e o Anicomics, mas dêem também um salto a eventos mais reduzidos, como a Feira Morta, onde há um contacto mais directo com os novos artistas que estão a aparecer. Têm aparecido coisas bem giras por lá e algumas destas pessoas começam já a dar o salto para carreiras internacionais promissoras, mas que estão a passar um bocado despercebidas por cá (o Rudolfo, por exemplo, acabou de lançar o primeiro número no Negative Dad, que foi escrito pelo Nathan Williams, dos Wavves).

BM - Acho que não. Comprem a bd se quiserem, se acharem gira.

Obrigado André e Bernardo!
:)

Não se esqueçam, o livro será lançado este Sábado durante o festival de Banda Desenhada Amadora BD!

O André mandou estes links de projectos a que de algum modo está ligado:


Boas leituras

domingo, 15 de setembro de 2013

Apresentação oficial do livro Palmas para o Esquilo na loja Kingpin Books


Aconteceu este Sábado.
Uma apresentação descontraída com os autores e editor.

Claro que estes eventos servem também para colocar conversa em dia com alguns amigos do meio, saber novidades e conhecer algumas pessoas com que só tínhamos tido contacto virtual.

Estiveram cerca de 30 pessoas, o que me pareceu decididamente estranho devido a ser um lançamento com autores com provas dadas, e o David Soares com provas dadas também fora do meio da Banda Desenhada.


O evento foi amplamente divulgado e na realidade eu estaria à espera de meia centena de pessoas.
Poderia falar mais sobre o assunto, mas o editor Mário Freitas já disse o que pensava do assunto, expressou-se melhor do que eu o faria, e eu subscrevo perfeitamente o que ele escreveu sobre isto.
Já agora, algumas pessoas que se dizem muito bedéfilas dizem que não vão aos eventos da Kingpin por causa do Cosplay... que eu saiba ontem não houve Cosplay. Ontem apenas houve BD. Onde é que estão esses apoiantes da BD nacional? Hummm ... treinadores de bancada?


A conversa foi perfeitamente informal, ficamos a saber como surgiu a ideia para este livro, o porquê da escolha do Pedro Serpa para o desenhar, e para além disso uma novidade foi anunciada.

David Soares

Foi uma hora e meia bem passada no meio de pessoas que gostam de BD. Ficam algumas fotos do evento.

Pedro Serpa


Mário Freitas (ao meio) a moderar a apresentação

Podem ver a minha crítica ao livro no link em baixo:
Palmas para o Esquilo

E já agora, para quem não leu, no post de lançamento deste livro aqui no Leituras de BD, foi feita uma pequena entrevista aos autores, se quiserem visualizar e ler cliquem no link abaixo:
Lançamento Kingpin: Palmas para o Esquilo (entrevista a David Soares e a Pedro Serpa)


Boas leituras

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Lançamento Kingpin Books: Vamos Aprender



Hoje é um dia de orgulho para mim!
Este lançamento é aquele me deu mais prazer até hoje, e porquê?
Já justifico.

“Vamos Aprender” é mais uma edição da Kingpin, que com este livro inicia uma nova área de edição para esta editora: Banda Desenhada para crianças.
Não, não é um livro de ilustração infantil, é mesmo Banda Desenhada para crianças!


Este livro vai sair exactamente no dia 1 de Junho, Dia Mundial da Criança, no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja.
Compõe-se de seis histórias num total de 48 páginas.
O preço de lançamento em Beja será de 10€, e poderá ser assinado, autografado e desenhado pelos respectivos autores.

O objectivo deste livro é ensinar algo às crianças de maneira lúdica. Quando falo em ensinar algo, estou a referir-me a comportamentos e não a programáticas escolares.
Este livro tem como autores Aida Teixeira (histórias) e Carlos Rocha (desenho).
Agora o porquê do orgulho e prazer…

A génese deste livro vem do Natal de 2010. A Aida Teixeira (minha mulher) inventava “histórias de 5 minutos” baseadas em desenhos da minha filha Sofia. Eram histórias contadas à Sofia antes de ela adormecer! O processo criativo entre a minha mulher e a minha filha era simples, a Sofia desenhava um animal e a Aida inventava uma história com base nesse animal. Esses desenhos e histórias foram compilados num livro manufacturado cá em casa (eu fiz a capa, lol) e foram oferecidos aos nossos amigos mais próximos como prenda de Natal em 2010. A Sofia tinha seis anos nesta altura…


Em 2 de Abril de 2012 criei a rubrica “Lugar aos Novos” neste blogue com o objectivo de autores que nunca tivessem sido publicados quisessem mostrar os seus trabalhos. Iniciou-se com uma maravilhosa história de Aida Teixeira desenhada por Petra Marcos, chamava-se “Diferentes”.
Em 10 de Abril de 2012 Carlos Rocha resolveu mandar uma história para esta rubrica: “Guga – O Curioso”! Depois disto Carlos Rocha mandou mais cinco histórias, e uma deles foi uma experiência de colaboração entre a Aida e o Carlos, a história chama-se “O Rato Miguel”!

Esta história correu tão bem entre os dois que essa parceria avançou para um patamar superior: um livro.
Para esse livro foram adaptados os contos de “cinco minutos” que tinham sido usados para adormecer a Sofia! Continuaram a ter como base os desenhos originais da Sofia, mas claro, desenhados pelo Carlos.

O resultado é este livro que o Mário Freitas teve a coragem de editar, sim, é preciso muita coragem para editar BD infantil!
Para o Mário este livro foi um delicioso desafio, pois ele nunca na vida tinha pensado em editar e publicar um livro deste género! Será o primeiro livro de capa dura da Kingpin Books.
O Mário foi o responsável também pelo design e legendagem deste livro!


No final acabo por ter a minha mulher, a minha filha, e dois grandes amigos todos unidos num livro. Daí eu dizer que é um livro que me é muito querido, e eu só tenho de agradecer ao blogue que criei, o Leituras de BD, que me trouxe todas estas interligações que eu prezo, e das quais me orgulho muito.

Este livro como já foi referido, é de capa dura e as dimensões (19,6cm x 26,1cm) são parecidas com as dos novos livros Tintin da ASA. Um bom formato para crianças, não é muito grande, não é muito pequeno e tem a resistência da capa dura.

Apressem-se a encomendar o livro, pois já conta com inúmeras reservas! Em Beja o livro estará um pouco mais barato, e como disse atrás, poderá ser autografado pelos seus autores.
A Aida Teixeira e o Carlos Rocha convidam-vos a assistir ao lançamento do “Vamos Aprender” neste excelente Festival de Banda Desenhada!

O preço de lançamento em Beja é de 10€, a partir daí será vendido com o seu preço de capa: 11,99€.

Desculpem este post um "pouco" emocional, mas quem não tem emoções é porque está morto...
:)
Quem quiser ver todos os posts da rubrica "Lugar aos Novos" é só clicar no link em baixo:
Lugar aos Novos

Como veem dá resultado mostrar os trabalhos aqui no Leituras de BD.
:D
Parabéns aos dois autores pelo seu primeiro livro! Quando se luta por um sonho, às vezes ele acontece!

O Leituras de BD apoia e recomenda o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja

Boas leituras

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Super Pig: Roleta Nipónica




Este vai ser um ano particularmente activo da Kingpin Books enquanto editora, senão vejamos:
  • Super Pig: Roleta Nipónica (Mário Freitas e Osvaldo Medina)
  • Vamos Aprender (Aida Teixeira e Carlos Rocha)
  • Palmas para o Esquilo (David Soares e Pedro Serpa)
  • Super Pig: O Impaciente Inglês (Mário Freitas e André Pereira)
  • Hawk (André Oliveira e Osvaldo Medina)

Mário Freitas tem sabido rodear-se por bons artistas e autores e o resultado está à vista!


Roleta Nipónica é uma prequela na série Super Pig que nos leva até aos anos 70. Mário Freitas assume perfeitamente que o Super Pig é a sua personagem, e já foi acompanhado por vários artistas nas aventuras do suíno mais carismático e “cute” de Portugal! Desta vez o desenhador foi Osvaldo Medina (Fórmula da Felicidade, Mucha, C.A.O.S.), e claro, as coloristas de eleição da Kingpin: Gisela Martins e Sara Ferreira.
A legendagem, claro… é de Mário Freitas. É a sua especialidade, e com certeza não a ia deixar na mão de mais ninguém!

Mário Freitas apresenta uma história no passado do nosso Pig, onde acabamos por conhecer o seu pai, Calouste Pig, um Pig de muitas habilidades!
O autor conseguiu fazer uma excelente passagem do presente para o passado do Super Pig, valendo-se de um peixe…  o Fugu. A transição é aparentemente fácil, sem ser forçada, e para dar mais força à viagem para o passado as páginas iniciais no presente são a cores, quando o passado invade o livro temos um excelente cinza e tramas Manga. Aliás, no próprio design do livro tudo leva para este estilo. A cor do papel e a falta de margens superior e inferior aliadas ao trabalho de Gisela Martins e Sara Ferreira num ambiente Manga, promovem algo de original nesta saga do Super Pig. De resto o argumento está bem construído e é “fácil de gostar”.

Osvaldo Medina tem aqui uma das suas melhores prestações gráficas, na minha opinião e para o meu gosto. Definitivamente a Fórmula da Felicidade e este Roleta Nipónica são aqueles que preenchem de forma mais completa o meu gosto pessoal, sem desprimor para as outras obras do mesmo desenhador.

E claro, o trabalho das duas coloristas enriqueceu bastante o registo do desenhador…
:)

A história conta um episódio da vida de um Pig juvenil e apresenta-nos o seu pai. Vemos aqui de que “massa” são feitos os Pigs, num ambiente mafioso onde os bandidos de Aveiro estão de conluio com a Yakuza japonesa.
O rapto do Pig é feitos pelos empresários pouco escrupulosos desta região (Aveiro) , mas a reunião com os Yakuza não corre bem…
Calouste Pig decide salvar o seu “rebento” (Mário, tens de apresentar a mãe…) sozinho. Mas não pensem que este Pig é um suíno indefeso! Longe disso…
Tenho de dar os parabéns pela original “roleta” mortal que ele arranjou. Não vou “spoilar”, mas saiu-me um WTF no meio de uma gargalhada quando percebi qual era a roleta que dava o título ao livro.

É um livro de muita acção, muitas referências a tradições portuguesas e japonesas (sabiam que Aveiro é uma cidade geminada com Oita no Japão desde 1978?) e leitões da Bairrada, por exemplo. Leiam este livro com atenção porque por trás desta história aparentemente simples está um argumento muito inteligente!

Penso que este livro lança muito bem o próximo episódio no seu final (Impaciente Inglês), e se era bom entretenimento que o Mário Freitas desejava atingir com esta Roleta Nipónica, acho que esse objectivo foi muito bem conseguido.
É bom ver boa Banda Desenhada feita por portugueses...

Boas leituras

Softcover
Criado por: Mário Freitas e Osvaldo Medina
Editado em Maio de 2013 por Kingpin Books
Nota: 8 em 10

sábado, 29 de setembro de 2012

BD ao Forte (Evento integrado na Desenha '12)

Durante dois meses a BD vai ao Forte!
O Forte é o Forte do Bom Sucesso, em Belém junto à Torre, e conta com bastantes Workshops de desenho e legendagem, para além de outras actividades relacionadas com BD.

Passo a citar:

de 13 de Outubro a 15 de Dezembro

No âmbito da primeira edição da Trienal Movimento Desenho DESENHA’12, um evento partilhado por dezenas de instituições com iniciativas acerca da temática do desenho nas suas mais variadas vertentes e abordagens, ocorrerá BD AO FORTE, o certame que se centrará sobretudo no universo da banda desenhada.

Em parceria com a Liga do Combatente, todas as actividades decorrerão no Forte do Bom Sucesso em Belém, durante os dois meses do festival. No fundo, consistirá num conjunto de propostas para promover e divulgar a BD no nosso país, com workshops, exposições, lançamentos de projectos e apresentações variadas. Além disso, no lançamento e encerramento haverá uma feira de banda desenhada com a presença de alguns autores.

Saúdo André Oliveira pela sua determinação relativamente à divulgação da BD, e por mais esta boa iniciativa. Tem sido uma pessoa inexcedível em promover a BD, seja como autor, como um dos responsáveis pelo projecto Zona, ou como organizador de eventos como este.
Congratz!

Publicito quatro workshops, dois de Mário Freitas e dois de Pedro Moura:
  1. A Legendagem na BD - Um Importante Instrumento Narrativo (Mário Freitas)
  2. Análise Formal de BD (Pedro Moura)
  3. Escrita para Banda Desenhada – Linguagem e Forma (Mário Freitas)
  4. BD Experimental (Pedro Moura)

Todas as dúvidas podem ser tiradas no blogue BD ao Forte:

BD ao Forte


Boas leituras

domingo, 15 de julho de 2012

Entrevista: Mário Freitas (Autor, Organizador de Eventos e Lojista especializado em BD)


O Leituras de BD apresenta uma hoje entrevista a Mário Freitas.
Possui a loja especializada em BD, a Kingpin, responsável pela editora de BD "Kingpin Books" argumentista de BD, e organizador do evento de Banda Desenhada "Anicomics".
Como podem ver toca muitos instrumentos no panorama bedéfilo nacional, e nem sempre é bem compreendido.
Conhecido pelas suas opiniões muitas vezes politicamente incorrectas e polémicas, tenta sempre dar um abanão na dormência em que esta arte vai estagnando em Portugal.
Perante isto é sempre uma boa "vítima" para uma entrevista, e assim o Leituras de BD apresenta:

Entrevista a Mário Miguel de Freitas

Para nos situarmos nesta entrevista, em que muitas pessoas que vão ler não te conhecem, como te vês a ti próprio?

Sou um autor e editor de BD que gosta de se desafiar criativa e intelectualmente. Alguém que odeia dogmas, chavões e frases feitas e que tem por hábito questionar o porquê das coisas; acho que nunca cresci nesse aspecto. Falando do que interessa aos leitores do blog, gosto de pensar em mim como alguém que pensa a BD e analisa a BD como o “animal” único e específico que é. Sou uma pessoa exigente - sobretudo comigo próprio -, crítica e sincera. Procurem-me, se o que pretendem é uma opinião construtiva; não o façam, se o que querem é um elogio vácuo e uma palmadinha nas costas.

Como te situas no panorama da BD em Portugal?

Ainda hoje me vejo como um outsider, na medida em que não tenho formação artística e já entrei neste mundo tarde, aos 27 anos enquanto livreiro, e aos 34 enquanto autor. Porém, sou persistente e a minha curva de aprendizagem é rápida, pelo que, ao longo destes últimos 13 anos, tenho vindo a fazer tudo para recuperar o atraso, digamos assim. E acho que não me tenho dado nada mal.

Gosto de pensar em mim e que me vejam como alguém com uma visão integral e tranversal da BD, desde a génese da história até à edição final, passando por toda a envolvência cultural e comercial. Já escrevi, arte-finalizei, colori, legendei, fiz designs e paginei livros de BD; já escrevi críticas e ensaios; já ministrei cursos e masterclasses; já organizei eventos e exposições; já convidei autores estrangeiros e já moderei e participei em debates; para além, claro, da comercialização de BD, que é a minha profissão a tempo inteiro. Pela minha parte, sinto-me preenchido (mas jamais satisfeito), mas cabe aos outros julgar a qualidade do que tenho feito até agora. Costuma dizer-se que os outros nos julgam por aquilo que já fizemos, enquanto nós nos julgamos por aquilo que sabemos ser capazes de fazer. É possível que exista aqui um desencontro entre o que a maioria das pessoas pensa de mim e aquilo que eu gostaria que elas efectivamente pensassem; mas conto andar por aí muitos mais anos e continuar a fazer mais coisas, pelo que ainda não perdi a esperança de aproximar essa opinião das minhas expectativas.


Qual a tua opinião sobre a BD actual em Portugal e os principais bloqueios de que sofre?

Portugal é um país de grande potencial criativo e artístico e, na BD, não foge a essa regra. A nossa localização geográfica e predisposição cultural histórica torna-nos num sorvedor positivo de várias influências, das mais diversas proveniências. Lembro-me do CB Cebulski, actual vice-presidente da Marvel, ter dito em 2009, quando visitou Lisboa, que os artistas portugueses eram de uma grande originalidade e diversidade e não estavam colados a um único estilo ou escola, como acontecia com os espanhóis, franceses ou italianos. Isto deve-se certamente à tal absorção e posterior fusão de inúmeras influências, desde o franco-belga e o mangá, até aos comics americanos e à BD sul-americana. Dito isto, há todo um rol de problemas e obstáculos, que só se têm vindo a agravar ao longo dos últimos 15 anos.

Primeiro que tudo, a dimensão do país e a falta de dimensão cultural do mesmo, que acabam por se reflectir na exiguidade do mercado português de BD. Sem massa crítica de compradores, não se gera dinheiro; sem dinheiro, não se gera produção; sem produção suficiente, não se gera selecção e qualidade. Depois, a produção reduzida dos autores de qualidade ou, sobretudo, de autores de qualidade que publiquem álbuns em português. Assusta-me pensar na quantidade de óptimos autores, nomeadamente artistas, que não têm editado um álbum completo, só deles, em português. Há ainda excelentes artistas que têm um ritmo de produção absolutamente risível, ao ponto de nem poderem ser considerados como potenciais criadores de um álbum anual. Artistas com potencial há muitos, carradas deles! Mas além da preguiça, ou de outras prioridades, há aqueles que são incapazes de evoluírem e de se tornarem, efectivamente, no artista a sério que prometeram.

Outra questão falaciosa é a de haver “poucos argumentistas de qualidade”. Mesmo havendo poucos, e quase nenhum a tempo inteiro, qualquer deles tem, ou teria, capacidade de escrever dois ou três álbuns por ano, houvesse mercado para isso ou artistas disponíveis para os desenhar. E caramba, querem nomes de argumentistas de BD, capazes de escrever para BD, usando a linguagem da própria BD? O Rui Lacas, o Pedro Brito, o Miguel Rocha, o Nuno Saraiva, sendo predominantemente artistas, já mostraram que conseguem escrever excelentes
histórias! Depois há o José Carlos Fernandes, o Rui Zink, o João Paulo Cotrim, o Marcos Farrajota (que escreveu óptimos argumentos comerciais para o Fazenda), o Lameiras e o Ramalho Santos; isto já é muita gente! O André Oliveira está a aparecer mais agora e só lhe falta uma obra maior, de fundo, para provar se tem o que é preciso. E deixei para o fim os argumentistas que têm sido editados pela Kingpin Books, e onde se calhar se encontram os mais criativos e mais originais dos últimos anos: o David Soares, o Fernando Dordio, o Nuno Duarte e eu próprio. Lá está, há quem diga que só se lembra de dois ou três, eu só aqui contabilizei 15... Houvesse um mercado real de BD em Portugal e o correspondente retorno financeiro, e não duvido que bastavam estes nomes que eu mencionei para assegurar uma produção realmente relevante. E havendo isso que referi atrás, outros bons apareceriam decerto.

Não posso deixar de referir ainda o velho hábito português de misturar e baralhar tudo ou de entregar as coisas certas às pessoas erradas.
Tem alguma lógica que exista um curso superior de banda desenhada (em Guimarães) e as pessoas que ministram (ou ministraram) essa licenciatura sejam nomes totalmente desconhecidos da BD em Portugal? Com a honrosa excepção de um eminente teórico como o Pedro Vieira de Moura, não conheço, da parte de nenhum dos outros nomes, uma única palavra escrita sobre BD, uma única história escrita para BD, ou uma única prancha desenhada para BD. E mais: esse vício terrível e enervante de enfiar a BD no mesmo saco da ilustração, pior ainda, de subalternizar a BD à ilustração, como se de uma “coisa” menor se tratasse. Faz tanto sentido misturar um curso de BD com ilustração, como faria misturar BD com escrita criativa/literatura; mas não vejo praticamente ninguém a fazer isso. Enfim, acho que estamos quase todos fartos de cursos, cursinhos, mostras e exposições, pagos a peso de ouro, que pouco mais fazem do que criar ou alimentar pseudo-intelectuais alheados da realidade.


Como achas que se pode dar a volta a esta situação quase confrangedora da BD em português?

Se clonássemos o David Soares e o Osvaldo Medina e ficássemos com 5 de cada, só isso resultaria nuns 15 álbuns novos, todos os anos. O David é um escritor profissional e isso reflecte-se na facilidade e velocidade com que ele escreve um argumento completo para BD, layouts incluídos. Mais nenhum argumentista se compara, sequer, ao ritmo de produção dele. E o mesmo é válido para o Osvaldo, que desenha como respira e não está sujeito às preguicites e outros estados de espírito improdutivos que costumam assolar a maioria dos outros artistas. São ambos uma coisa raríssima: muito rápidos e muito bons.

Ainda assim, voltamos sempre ao mesmo: era preciso que houvesse mercado e colocação destes livros nas prateleiras. E, antes disso, era preciso começar a mudar as mentalidades, logo a partir dos primeiros anos escolares. Só que, para começar a educar as crianças desde tenra idade, tem de haver formadores, quer na escola quer em casa, que tenham já eles próprios uma nova mentalidade. É fácil de perceber assim a cadeia de entraves logísticos e culturais que temos pela frente.

Mas sejamos práticos: procurando uma forma imediata de melhorar a situação, o que poderia ser feito? Simples: termos responsáveis livreiros, nomeadamente das principais cadeias portuguesas (Fnac, Bertrand, Leya), minimamente informados sobre BD e que soubessem lidar com a BD e expô-la condignamente ao público. Ver a BD relegada para um ghetto, bastas vezes misturada ou perdida no meio de livros infantis e catalogada como “publicação infanto-juvenil”, é uma dor de alma e um insulto que sofremos todos demasiadas vezes. E, neste caso, o mal nem se aplica apenas à BD portuguesa, mas sim à BD como um todo.

Outra solução óbvia seria expandir a co-edição, que tem havido entre editoras de BD e jornais diários de grande tiragem, a álbuns de BD de autores portugueses. Não precisaria de ser uma colecção imensa, mas facilmente me lembro de uns 10 álbuns que seriam dignos representantes do que se faz ou do que já se fez. Mas atenção! Uma coisa fundamental seria criar uma selecção que pudesse, de facto, criar um público novo ou, no mínimo, chamar à atenção dum público diferente. A minha principal crítica às colecções de BD que têm sido lançadas nesses moldes é que pouco mais fazem do que se dirigiriem e pregarem aos convertidos do costume. E, para além do conteúdo em si dessas BDs, seria fundamental apresentá-las num package moderno e atractivo, que se destacasse de alguma forma nas bancas. O design da esmagadora maioria dessas colecções tem sido inestético e anacrónico.

Claro que muitas destas críticas que tenho feito, e soluções que tenho apontado, têm sido recebidas com o clássico “lá está este a dizer mal e com a mania que sabe mais que os outros”. O mundo da BD portuguesa é pequeno e tende um bocadinho à palmadinha incestuosa nas costas; quem não o faz acabará, invariavelmente, acusado de não “remar para o mesmo lado”, o que quer que isso signifique. Eu gosto de pensar que, se há algum lado para onde reme, é para o lado da qualidade. Exigia-se uma maior capacidade crítica - sobretudo de auto-crítica -, e um maior poder de encaixe dos autores para que, aí sim, ficássemos todos a ganhar.


O que surgiu primeiro, o lojista, o editor ou o argumentista/arte-finalista?

Profissionalmente falando, foi o lojista, em 1999, o que não quer dizer que já não andasse antes com ideias criativas na minha cabeça. Na prática, foram essas ideias criativas que me levaram depois a assumir o desafio editorial em 2006.


O que falta para a editora Kingpin Books dar “o salto” (e por “salto” entende Portugal para além de Lisboa) comercialmente?

Os livros da Kingpin Books já estão noutros sítios para além de Lisboa: estão na Dr.Kartoon em Coimbra, na Mundo Fantasma no Porto e, enquanto duram as consignações específicas de cada livro, em várias lojas da Fnac. Agora, isso não invalida que a tiragem curta dos livros seja um entrave a uma maior expansão da sua distribuição, embora isto seja uma enorme pescadinha de rabo da boca: por um lado, a tiragem é curta não permitindo uma maior distribuição; por outro, a deficiência da distribuição de BD em Portugal desaconselha uma micro-editora como a minha a ser mais generosa nessa mesma tiragem.


Já, enquanto editor/autor/empresário, tentaste levar as tuas edições além fronteiras? Se a resposta por “sim”: Onde? Se a resposta for “não”: Porquê?

Ainda não, mas isso está no horizonte para breve. Alguns dos livros têm uma realidade demasiado portuguesa, nomeadamente o CAOS, mas outros há que, com maior ou menor adaptação, se encaixariam como uma luva noutros mercados, nomeadamente no europeu. Incluo neste lote A Fórmula da Felicidade e O Pequeno Deus Cego, e conto que os respectivos argumentistas possam fazer brevemente a necessária tradução.

Entretanto, o novo Super Pig: O Impaciente Inglês está a ser escrito parcialmente em inglês e tem uma história universalmente abrangente que seria certamente bem acolhida nos mercados anglófonos (desde que aguentem as revelações terríveis que eu faço sobre uma das vacas sagradas dos ingleses, o “velho bulldog” Winston Churchill). Confusos quanto ao “parcialmente em inglês”? A razão é simples: como acabei de aflorar, a história gira em volta de um artefacto singular outrora pertencente à corte britânica (estão a ver os livros de Dan Brown? Não tem NADA a ver) e é protagonizada por várias figuras históricas como a Rainha Isabel I, Oscar Wilde e Winston Churchill. Já experimentaram pôr estas figuras clássicas a falar português? Eu experimentei e odiei, pelo que comecei a escrever os diálogos directamente em inglês, diálogos esses que irão coexistir com outros em português, dependendo das personagens ou das situações. É uma experiência arriscada, que tenho plena noção que vai despertar a fúria de alguns puristas, mas é algo que considerei fundamental para conferir o feeling e a intenção narrativa que pretendo para a história.


Qual a publicação da tua editora em que tens mais orgulho?

Isto pode parecer politicamente correcto, mas é a mais pura das verdade: geralmente é aquela que acabei de editar. Empenho-me sempre de igual modo em todas as edições, sejam elas escritas por mim, pelo David, pelo Fernando ou pelo Nuno, e quaisquer que sejam os artistas envolvidos. E pugno sempre para que cada edição seja melhor que a anterior, do ponto de vista do package completo, do objecto específico que um livro é. Com a perda crescente que as edições em papel têm registado face às versões digitais, um livro tem de ser um objecto fisicamente agradável e atraente que dê vontade de ter. Presto o máximo de atenção ao design, à encadernação, à qualidade do papel, às margens e à paginação, e só tenho pena da impressão digital não atingir ainda a qualidade ou as possibilidades do off-set, para continuar a inovar nestes parâmetros. Dito isto, ainda não houve nenhuma edição que me tenha deixado 100% satisfeito, porque observo sempre detalhes na capa ou nos interiores que poderiam ter ficado com uma qualidade superior de impressão.


Quais vão ser as próximas apostas editoriais da Kingpin, e já agora a sua data estimada de saída para o público?

Este ano foi muito calmo e isso deveu-se mais a uma mera coincidência, do que propriamente a questões económicas. Ainda assim, conto que “O Baile”, do Nuno Duarte e da Joana Afonso (MUITA atenção a ela), seja finalmente publicado por ocasião do Amadora BD ou perto disso. Para 2013, sim, haverá - espero eu - muitas edições novas. No AniComics, o Fernando e o Osvaldo já tiveram oportunidade de falar do “Mindex”, um conto de ficção científica que se encontra agora em fase de desenvolvimento, o mesmo acontecendo com o “Palmas para o Esquilo”, do David Soares e do Pedro Serpa. Este último será um drama psicológico passado num asilo de loucos, no habitual registo de horror personalizado e inteligente a que o David já nos habituou. Ainda do David, poderá sair o “Sepulturas dos Pais”, um argumento a ser desenhado pelo André Coelho, um dos artistas que colaborou com o David no “É de noite que faço as perguntas”.


Para além disso, o Osvaldo anda a desenvolver um projecto a solo e, se bem o conheço, mal ele pegue nisso a sério, ficará pronto num ápice. Há pouco, falei igualmente do Super Pig: O Impaciente Inglês, o meu magnum opus, que tem andado enguiçado por motivos diversos, mas que conto que possa finalmente sair para o ano. Resta-me decidir se o irei dividir em dois volumes ou se editarei tudo de uma só vez (solução que me agradaria bastante mais, dado o impacto que a leitura integral da história teria, mas que tem o senão de implicar um preço de venda bastante superior, visto estarmos a falar de um álbum com 88 páginas).


Relativamente ao teu trabalho como argumentista, como lidas com os teus desenhadores na construção de uma BD? Dás-lhes muita ou pouca liberdade nos storyboards e quem é que geralmente os faz?

Dou-lhes a liberdade suficiente, nunca me esquecendo que o argumentista sou eu e os artistas são eles. Eu tenho uma forma muito visual de pensar, até porque também sei fazer uns rabiscos, por isso, quando penso numa cena, tenho geralmente uma ideia bastante concreta do que pretendo para a arte. Ser-se argumentista de BD implica sermos nós a ditar o ritmo da história e o ritmo das cenas e, nesse sentido, é fulcral que sejamos muitas vezes “ditatoriais” na descrição do que pretendemos. É evidente que nada disto é estanque e que o grau de flexibilidade é variável consoante o artista com quem se trabalha e o grau de confiança ou empatia que temos com ele. Além de que eu gosto de escrever coisas que tirem o melhor partido dos pontos fortes e características de cada artista específico.

A dado momento, por exemplo, as minhas colaborações com o Carlos Pedro (1º artista do Super Pig) passaram a ser muito orgânicas, e os layouts eram definidos em conjunto, durante meetings informais que fazíamos aqui na loja; discutíamos a minha ideia original e ele procurava, se caso disso, formas mais dinâmicas de a pôr em prática. Com o GEvan.., o método foi muito diferente, porque ele é sobretudo um ilustrador, por oposição a um narrador visual. Com ele, optei por explorar mais o design das páginas e as formas geométricas e é por isso que surgem páginas com relógios, grades de prisão ou gráficos de cotações de mercado a servirem de vinheta. Quando pretendo algo assim tão específico, sou eu próprio que faço os layouts/storyboards, até porque gosto destas soluções imaginativas e menos óbvias e gosto de “brincar” com a linguagem da BD. O plano do papel não é um tela de cinema e a forma de contar uma história em BD é muito própria e pode ser explorada de diversas formas. Não faz sentido nenhum usarmos a BD para contar as histórias do mesmo modo que o faríamos no cinema ou na TV. O tempo dos “widescreen comics” já lá vai e só resultou enquanto foi novidade; de resto, esgotou-se num ápice.

Outra das ferramentas que mais tenho vindo a explorar na escrita do novo livro (Super Pig: O Impaciente Inglês) é a utilização de pausas e repetições narrativas e essa é uma das coisas que melhor distingue um storyboard de cinema de um layout de BD. E é das coisas que melhor serve para controlar o impacto emocional das cenas e o pacing, o ritmo da própria BD. Eu digo há muitos anos que o que distingue os melhores argumentistas dos outros é o pacing narrativo e nada mais. Há vários argumentistas com excelentes ideias e uma escrita fluida e eloquente, mas a quem falta a imaginação visual e o sentido rítmico para cadenciar as suas histórias na perfeição. Ter lido três obras completas do Naoki Urasawa, nos últimos anos, foi uma belíssima lição de ritmo narrativo. Os melhores japoneses, aliás, são grandes mestres nisso, e é uma pena a forma desastrada como certos autores americanos tentam copiar isso, não percebendo que a descompressão narrativa não são páginas e páginas seguidas de cabeças falantes a debitar diálogos redundantes (sim, Bendis, estou a olhar para ti). Um dos escritores americanos que já demonstrou há vários anos que sabe fazer isto como poucos é o JM DeMatteis, embora ajude sempre trabalhar com narradores visuais do calibre de Mike Zeck (em Spider-Man: Kraven's Last Hunt) e Sal Buscema (em Spider-Man: The Child Within).


Alguns lojistas especializados em BD queixam-se de tudo e mais alguma coisa no seu negócio. A Kingpin está nesse saco também?

Não, de todo; sou muito criterioso quanto aos sacos em que me enfio, e com quem me enfio nesses sacos. Acho que certas lojas deviam olhar mais para si próprias em vez de se queixarem de deus e do mundo. Eu é que se calhar devia queixar-me de algumas dessas lojas, porque não são benéficas para ninguém, com o percurso errático em que persistem: não trazem qualquer valor acrescentado para o cliente, muito menos para o mercado, e parecem daquelas baratas nojentas e irritantes que nunca mais morrem.


Tu és conhecido por fazer e fazer vários pequenos e grandes eventos. Para além do movimento de pessoas que consegues provocar, isso reflecte-se comercialmente?

Reflecte-se, claro, nem que seja pela lógica irrefutável dos números: mais pessoas aumentam automaticamente a probabilidade de mais vendas. E não se pode descurar a vertente promocional, claro: um visitante de um evento pode tornar-se num cliente da loja. Para além do AniComics, que é o tal evento maior que organizo, tenho apostado em festas periódicas aqui na loja, aproveitando o excelente espaço que tenho e proporcionando, em simultâneo, aos visitantes momentos de convívio e animação. Isso é cada vez mais fundamental na criação de um elo entre uma marca e os seus consumidores e na afirmação de uma identidade própria dessa marca. E parece-me inegável que a Kingpin Books tem uma identidade absolutamente distinta dos seus concorrentes mais directos.


Qual o evento em que participas comercialmente mais atractivo para a tua loja?

Do ponto de vista comercial, acaba por ser o Iberanime, porque vendo quase tanto quanto no Anicomics, mas não tenho nem metade das despesas e do trabalho. A máquina logística e promocional da Manz (organizadora do Iberanime) consegue de facto transformar esse evento num peso-pesadíssimo, como o comprovaram os quase 7.000 vistantes da última edição em Lisboa.


Falando de eventos, qual é tua opinião sobre os vários festivais e salões que se vão fazendo ao longo do ano em Portugal?

Honestamente, só vejo quatro eventos revelantes, sendo que um deles, o Iberanime, nem sequer é um evento de BD. O Amadora BD vem de dois anos muito maus, mas continua a dispor de condições e de uma tradição ímpares. O Festival de Beja tem enorme qualidade artística e excelentes conteúdos, mas a localização intrínseca e uma certa incapacidade em atrair um público exterior à BD não o tornam comercialmente atraente. O AniComics é uma aposta pessoal minha, um evento mais moderno e arejado e que visou reunir o melhor dos universos da BD e do entretenimento oriental, e o seu crescimento visível e continuado têm comprovado a viabilidade dessa aposta.

Aparte disto, há pequenos eventos interessantes e bem intencionados, e outros completamente anacrónicos, que se eternizam penosamente sempre nos mesmos moldes, sem qualquer capacidade ou vontade de se renovarem. Já não estamos nos anos 70 ou 80, pelo que a boa vontade, por si só, já não chega; aliás, diria que de nada serve, se não for devidamente acompanhada por uma pitada ou duas de rasgo e competência.


És mesmo arrogante, ou isso faz parte do “boneco” que criaste para ti mesmo?

Isso de bonecos e personas é para o Mourinho. Ele está inserido num mundo-cão que envolve milhões como é o futebol, pelo que percebo perfeitamente porque o faz. Eu sou apenas o “maior” de uma aldeia muito pequena, pelo que me limito a ser eu próprio. É claro que quem diz o que pensa e quem tem opiniões muito vincadas torna-se um alvo fácil ou, pelo menos, preferencial. Essa do “arrogante” deve vir daí, mas desculpem se não alinho em falsas modéstias ou se não peço desculpa por existir. Nunca ninguém me ouviu ou ouvirá vangloriar-me de coisas que não fiz ou de qualidades que não tenho. E acho que o respeito e amizade duradoura que os meus principais colaboradores têm por mim diz bem do meu comportamento para com as pessoas e aquilo que eu sou verdadeiramente.


Melhor obra de BD de sempre?

Ui... Depende do momento da vida ou do estado de espírito. Se pesar o impacto emocional, houve várias coisas que me marcaram. O Spider-Man: Kraven’s Last Hunt, por exemplo, foi um murro no estômago dos meus tenros 16 anos de então. Em termos de inovação e quebra dos cânones, há duas histórias em particular que nunca esqueço: Swamp Thing nº21 (The Anatomy Lesson), o primeiro número integral do Alan Moore no título, e que, mais do que uma lição de anatomia, é uma portentosa lição de escrita; e Animal Man nº26 (Deus Ex-Machina), onde Grant Morrison termina uma saga, já por si brilhante, revelando-se ao protagonista como o responsável por todos os seus infortúnios.

Não posso deixar ainda de mencionar The Invisibles, que me revelou a verdadeira natureza do universo; All Star Superman, a história perfeita de super-heróis, com uma simbiose perfeita entre escrita e arte; e Asterios Polyp, de David Mazzucchelli, um verdadeiro compêndio de (quase) todas as possibilidades artísticas e narrativas que a BD pode oferecer.


Qual o teu artista favorito?

Frank Quitely. Tem o talento único de fazer com que tudo pareça simples de desenhar. É de uma elegância e de uma economia narrativa inimitáveis.


Arte-Finalista?

Nisso não tenho mesmo um único favorito, mas posso mencionar Jim Mooney, Al Williamson, Wally Wood, Joe Sinnott, Tim Townsend (vá lá: um vivo em cinco)...


Escritor de Banda Desenhada?

Grant Morrison. Não é tão estruturado ou eloquente quanto Alan Moore, mas é mais capaz de me supreender e de me levar a descobrir coisas diferentes. E leva-se menos a sério.


E agora perguntas tontas… prato de comida preferido?

Já que uma intolerância alimentar me impediu de continuar a saborear lulas das boas, qualquer naco de carne saboroso e suculento é imbatível. E, sim, evitem pedir carne de vaca bem passada na minha presença, se não querem ouvir um sermão.


Melhor música de sempre?

Isso é tão ou mais difícil que escolher a “melhor” BD de sempre (acho que a palavra “favorita”, ainda assim, se adequa melhor). Algo tão estático não casa bem com a minha perspectiva de evolução contínua. De qualquer forma, e só para dar um exemplo, “Bigmouth Strikes Again”, dos Smiths, já me acompanha há 25 anos.


Como é para ti um dia perfeito?

Um dia em que a minha cabeça esteja totalmente livre de preocupações, na companhia de pessoas que me sejam queridas. Se puder acrescentar a isso algo de criativo ou produtivo, tanto melhor.


Se o mundo acabasse para ti amanhã, como gostarias de ser lembrado?

Um pessoa diferente. Uma pessoa especial.

Espera que a entrevista tenha agradado!

Boas leituras!

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