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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A Palavra dos Outros: Nação Chiclete com Banana por Linck Vargas


Alexandre Linck Vargas tem nacionalidade brasileira e é professor de Cinema. Estudou Comunicação Social - Cinema e Video e tem como citação favorita: Blergh!
Apresenta hoje um texto sobre uma revista que fez história no Brasil: Chiclete Com Banana!


Nação Chiclete com Banana

Primeiramente gostaria de agradecer o convite do Nuno para escrever neste espaço. Apesar de ser uma casa do outro lado do atlântico, e mesmo possuindo seus muitos leitores brasileiros, creio que aos leitores portugueses a banda desenhada (história em quadrinho) brasileira ainda é relativamente pouco conhecida. Isso não é nenhuma surpresa, afinal para nós brasileiros as nossas próprias HQs nos são em grande parte desconhecidas.

No entanto chama minha atenção como que os frutos da já lendária revista paulistana Chiclete com Banana têm ganhado espaço no atual mercado brasileiro. Há quem defende que se trata de uma natural revalorização do quadrinho brasileiro, ainda assim desconfio porque uma produção e período específico tem ganhado maior ressonância do que outros. Neste ano saiu uma edição com todas as tiras da Rê Bordosa de Angeli, e em 2007/2008 sairam três volumes luxuosos com as histórias dos Piratas do Tietê de Laerte; tudo isso sem contar as muitas edições de bolso e a antologia da própria revista que a editora Devir não concluiu. No âmbito acadêmico, é preciso dizer, o movimento é parecido – já me deparei com muitos artigos ou monografias sobre a revista ou seus personagens.


Tendo circulado entre 1985 a 1995, Chiclete com Banana contava com quadrinistas como Laerte, Angeli, Glauco e Luiz Gê, num total de 24 edições regulares,10 especiais e derivados. Era uma época de fortes mudanças no Brasil, havia o afrouxamento e fim da ditadura militar brasileira, a tímida retomada democrática, o dragão da inflação, os muitos planos econômicos e moedas nacionais, o movimento punk, a febre new wave, o fantasma da aids, a abertura de mercado, etc.

Penso por que personagens assumidamente penetrados nesse universo hoje ganham as universidades e livrarias. Difícil apresentar uma resposta pontual, no entanto uma hipótese bastante pertinente é a de que a revista e seus personagens ganham os contornos de um momento que persiste no imaginário brasileiro. Ou seja, reler Chiclete com Banana é pensar a trindade “quem somos, de onde viemos, para onde vamos” numa versão nacionalista bem-humorada.

O que há em comum na violência e cinismo dos Piratas do Tietê, no desencanto sessentista de Wood e Stock, no niilismo oitentista de Bob Cuspe, na mulher sem glamour em Rê Bordosa, na piada gratuita nos Skrotinhos ou na sexualidade problemática em Mara Tara? Penso eu, um misto de desânimo por velhas condições e uma desconfiança pelas novas. 

Não que com isso Chiclete com Banana sofra de pessimismo crônico, o otimismo está no humor, no tipo de humor que transita entre a mais absoluta gratuidade até aquele riso nervoso que nos escapa quando estamos envergonhados diante do politicamente incorreto. Graficamente ocorre um diálogo semelhante, que vai do cartunesco fofo ao imundo do traçado. Esse humor de traço impreciso é a boa-nova da Chiclete com Banana para esse período de mudanças no Brasil. As soluções definidoras podem esperar, precisamos primeiro aprender a rir de tudo isso, a chorar de rir acima de tudo, de maneira que limpe o passado com lágrimas e abra o futuro com um sorriso debochado.

Mas eis então os dias de hoje, onde uma geração que era criança ou muito jovem agora reencontra os fantasmas da revista. Talvez esse retorno ao imaginário se dê porque nós brasileiros não aprendemos direito a rir, nosso riso ainda é do tipo vago, um tanto escapista, não é um riso irônico, desconfiado, naturalmente crítico. Como esse humor não se resolveu, deixando assim de garantir um paradoxal, porém necessário, ceticismo otimista, nos resta agora o riso atrofiado que retorna como um trauma e uma terapia de uma época de mudanças que não foram bem assimiladas ainda hoje. A pergunta existencial nacionalista persiste e a Chiclete com Banana retorna ameaçadoramente engraçada para toda uma nova geração de brasileiros. Mas que porra, hein!

Texto: Alexandre Linck Vargas



Espero que vos tenha agradado e visitem o excelente blogue do Linck:

Quadrinhos na Sargeta

Foi o primeiro artigo de um leitor brasileiro, e espero que não seja o último!
:D

Boas leituras!

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