Mostrar mensagens com a etiqueta Autores. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Autores. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Autores: Gerry Conway
(Setembro 1952 – Abril 2026)

 


Gerry Conway faleceu hoje.
Ficará sempre nas nossas memórias como um dos grandes autores de comics de sempre. Vou recuperar um texto sobre ele do  neste blogue, em sua homenagem.

Este escritor de comics norte-americano é conhecido por ter criado dois heróis, um na Marvel (Punisher) e outro na DC (Firestorm), e por ter escrito um dos momentos mais marcantes dos comics em Spider-Man: The Death of Gwen Stacy! Para além disso o primeiro crossover entre a Marvel e a DC: Superman vs The Amazing Spider-Man. De resto escreveu para estas duas editoras em quase todos os seus grandes símbolos.


Ficam as palavras de Hugo Silva:

Gerry Conway faz falta

Gerry Conway é um dos maiores nomes da indústria de comics Norte-Americana, o seu trabalho nas duas grandes editoras faz com que seja um nome reconhecido e respeitado devido à sua escrita em títulos como Homem-Aranha ou Liga da Justiça entre outros.

Ele foi o primeiro a escrever um grande crossover entre as duas companhias, que colocava nas mesmas páginas os maiores símbolos da DC e da Marvel: Superman e Spider-Man. O seu tempo em Amazing Spider-Man é lendário, já que todos recordam a storyline que levou à morte da Gwen Stacy. Muitos relembram também as suas criações, nomeadamente Punisher para a Marvel e Firestorm para a DC.

Conway começou a escrever ainda nos seus 16 anos, para as revistas de horror da DC, até que conseguiu um lugar na Marvel pela mão do escritor e editor Roy Thomas. Foi no início da década de 70 que se deu a estreia em grande deste jovem numa breve passagem por títulos de segunda linha como Ka-zar, Inhumans e Black Widow. Apesar da sua idade ele passou ainda por alguns com mais importância da Marvel, como o Iron Man, Daredevil e Hulk, para além de criar personagens que seriam no futuro importantes para a mesma. Werewolf by Night, Tomb of Dracula e Man-Thing são algumas personagens que conheceram a luz do dia pela mente do jovem escritor.

Os tempos eram outros e só assim um jovem com 19 anos teria a oportunidade de escrever os 2 títulos que davam basicamente nome à companhia, Amazing Spider-man e Fantastic Four. O talento dele sobressaiu e este esteve à altura dos mesmos, levando a duas runs memoráveis em especial no cabeça de teia. No Aranha os personagens de apoio eram sempre bem retratados e ganhavam uma vida e importância tal que gostávamos tanto deles como do herói principal. Foi aproveitando esse destaque que ele escreveu logo no começo da sua run, a morte de uma das mais importantes personagens secundárias, a namorada de Peter Parker, Gwen Stacy.

Outro marco nos seus 3 anos em frente dos destinos do Aracnídeo foi a co-criação com Ross Andru de uma personagem que seria antagonista do nosso herói, mas que seria mais tarde uma das personagens mais importantes da editora, o Punisher, para além de alguns dos combates mais memoráveis com os vilões Tarântula, Escorpião, Mysterio, e ainda a primeira Saga do Clone.

No Quarteto, ele faz o Namor aparecer outra vez no caminho dos heróis e usa da melhor forma um dos melhores rivais da equipa, o Mago e o seu Quarteto Terrível.

Em 1975 o jovem escritor cometia o feito de voltar à DC e assim escrever para ambas as companhias, isto numa altura em que isso não era muito comum. Talvez por isso ele acabou por ser o escolhido para escrever aquela que seria uma revista marcante na história dos comics Norte-Americanos, o crossover que envolvia Superman e Spider-Man. Na casa das ideias, ele fez parte do rodopio de Editores-Chefe no final dos anos 70 tomando esse cargo durante pouco menos de um ano sucedendo a Marv Wolfman e deixando o lugar para Archie Goodwin.

Em Janeiro de 1977, o nome de Conway era já tão importante saíram 9 títulos para as bancas com o seu nome nos créditos. Avengers, Defenders, Spectacular Spider-man, Iron Man e as estreias de Ms.Marvel e Logan's Run para a Marvel enquanto que na DC seriam os títulos Superman e Action Comics a trazerem o seu nome, Foi aliás esta companhia que marcaria a sua carreira na década de 80.

Conway foi dos poucos a ter direito a duas runs diferentes com a Liga da Justiça, a primeira no final dos anos 70 com a Liga do Satélite e esteve envolvido nas histórias que trouxeram de volta a tradição anual dos encontros entre as duas equipas da DC, a JLA e a JSA. Ele também escreveu outros títulos grandes como Superman ou Batman sendo que no morcego realça-se a sua história que envolve o perigoso Hugo Strange.

Em 1986 voltou em grande à co-criação de personagens, e uma que rapidamente se tornou uma das favoritas dos fãs de Comics, o herói da DC, Firestorm. Conway escreveu mais de metade dos números da revista em que retratava um jovem, Ronnie Raymond e as suas aventuras como o herói nuclear ou apenas como o adolescente na faculdade. Sem sombra de dúvida que a influência Peter Parker via-se no mesmo, e isso que ajudava ao sucesso dele já que também aqui Conway dava importância ao elenco de apoio. Mais tarde a personagem fez parte inclusive da Liga da Justiça.

Antes de se concentrar nos seus trabalhos para TV e Cinema (que incluíam coisas como Conan, the Destroyer, Hercules, Law & Order e Perry Mason entre outros), Gerry teve ainda tempo de voltar ao cabeça de teia para escrever no final dos anos 80 as revistas Spectacular Spider-Man e Web of Spider-man.

Mais uma vez Conway mostrou como gosta de dar atenção ao elenco de apoio e personagens como Nick Katzenberg, Gloria Grant, Aunt May, Nathan Lubensky, Joe Robertson, ou Randy Robertson todos tinham algum destaque na vida da personagem. Também era dado destaque a personagens com poderes como por exemplo, Puma, Rocket Racer, Will-O'-The-Wisp, Prowler, Sandman, Silver Sable, Molten Man, Green Goblin e Chamelon a darem que fazer ao nosso herói, ficando esses personagens pela revista Web of Spider-Man.

Em Spectacular era o bom e velho JJJ, Ben Urich, Mary Jane, a volta do clone da Gwen Stacy e vilões como Tombstone, Kingpin e Duende Macabro a complicarem a vida do aracnídeo. Até a sua co-criação Punisher deu o ar da sua graça nesta última run do escritor antes de decidir concentrar-se na TV.

Deixa saudades porque é daqueles poucos autores que conseguiu mais que uma run memorável, ou agradável, com alguns dos maiores heróis de ambas as companhias.



Esta foi a homenagem do LBD a este grande Herói dos comics Norte-Americanos 


Boas leituras

segunda-feira, 11 de março de 2019

Autores: John Byrne


Um dos meus autores preferidos, John Byrne foi o primeiro artista que segui a sério, procurando as revistas com os seus trabalhos, mesmo que fosse em personagens que nem conhecia bem.

Não tenho a certeza do primeiro trabalho que vi de Byrne, nunca fui muito de prestar atenção a quem escrevia/desenhava, mas tenho ideia de ter sido algum Luke Cage/Punho de Ferro, mas sei que o que mais me marcou foi o encontro do Aranha com o Capitão Britânia. Depois li uma história dos X-Men na Saga da Fénix Negra, e foi com a sua pequena (mas memorável) fase mo Hulk, que fiquei para sempre seu fã.

John Byrne nasceu a 6 de Julho de 1950, em Inglaterra, crescendo no Canadá (mudou-se para lá com 8 anos) e era um ávido leitor de comics, tanto DC como Marvel, começando o seu trabalho na indústria em 1973, como freelancer na Charlton e fazendo alguns fill-ins para a Marvel. Começou a ser chamado regularmente e desenhou diversas edições de Iron Fist, Champions e Marvel Team-up, muitas delas escritas por Chris Claremont.

Já fora da Charlton, começava a receber cada vez mais trabalho da Marvel e foi com Claremont que teve uma fase memorável com os X-men, um título que pouco vendia na altura, mas que tinha começado a receber alguma atenção de autores como Len Wein e Dave Cockrum. A dupla Claremont/Byrne funcionava bem, e começaram a aparecer histórias atrás de histórias fantásticas, Proteus, Dark Phoenix, Days of Future Past e personagens como as do Clube do inferno ou a Tropa Alfa.


Notava-se a predilecção de Byrne pelo pequeno Wolverine, dando-lhe sempre algum destaque, e exigindo a sua presença na equipa, criando muitos dos elementos que ajudaram a que se tornasse o personagem mais popular da Marvel a dada altura.

Começaram a trabalhar com os mutantes em X-Men #108, de Dezembro de 1977, e no #114 começou a aparecer como co-autor, deixando de ser apenas um desenhista. Mesmo assim era pela sua arte que era conhecido e no final da década de 70, e começo de 80, desenhava também histórias na revista Avengers (com argumentos de David Michelinie) e no Capitão América, fez uma série de histórias com o seu amigo Roger Stern, muito elogiadas pelos fãs e pela crítica.

De 1981 a 1986 entrou para revista que o fez apaixonar-se pelos comics, Fantastic Four, e no quarteto fez uma obra prima, escrevendo e desenhando, com arte final de Terry Austin. Foi uma fase elogiada por todos, com momentos que marcaram a equipa para sempre, e mudando várias coisas como o ter acabado com o edifício Baxter, o mudar a cor dos uniformes, o ter introduzido a Mulher-Hulk para o lugar do Coisa, ou o ter dado mais destaque à Sue Storm, tornando-a na Mulher Invisível.



Ao mesmo tempo, ajudou a criar a revista para a equipa que tinha criado nos X-Men, a Tropa Alfa, numa série de números bem interessantes de se seguir, com bons confrontos e uma arte fantástica. Isto apesar de dizer que não era um grande fã da sua própria criação, mas mesmo assim foi uma série acima da média do que se fazia na altura.

Byrne estava bem instalado, apesar de uma relação conflituosa com Shooter, o editor-chefe, que fez com que saísse abruptamente da companhia, e deixando uma série de histórias com o Hulk por concluir, com o autor Al Milgrom a terminar essa fase. Uma pena, porque foram poucos números, mas cheios de acção, com um Byrne em forma tanto na arte como na construção de história. Em poucos números ele separa o Hulk do Banner, casa-o com a Betty e faz com que meio universo Marvel persiga o golias verde.

Naquilo que foi uma mudança controversa, Byrne acaba por ir para a DC, incumbido de fazer um revamp na personagem principal da companhia, o Super-Homem. Aí produz uma fase odiada por uns, amada por outros, mexendo bastante no status quo do herói, reduzindo-lhe os poderes, ou a sua intensidade, no seu passado como Superboy, eliminou a fortaleza da solidão e tornou-o o único kryptoniano do universo DC.


Clark Kent tornou-se menos pamonha, e Lex Luthor tornou-se um homem de negócios com um ódio visceral ao homem de aço, isto tudo numa fase onde o autor experimentou muita coisa, e muitas mantiveram-se durante anos, e usados em outras mídias como nas séries televisivas.

Byrne fez também a mini-série Lendas, que ajudava a introduzir novas personagens no universo DC depois de Crise, mas manteve-se sempre pelo universo do Superman no seu tempo na DC. Em 1989, e com Shooter fora do comando, volta à Marvel, para os Vingadores da Costa Oeste.

Para além dos Vingadores, cria também uma revista da Mulher-Hulk, num tom mais cómico que tornou a personagem muito popular. mas problemas com os editores fazem com que saia cedo da revista. Byrne pega em Namor e também faz uma série de histórias fora do que estávamos habituados com a personagem.

Estes foram os seus últimos trabalhos regulares na Marvel, depois começou a fazer trabalhos criados por si, de raiz, em diversas companhias, nunca nada com muito sucesso. Voltou à DC em 1995, para uma série de histórias com a Mulher-Maravilha, e reinterpretando o quarto mundo de Jack Kirby, numa série regular que teve 20 edições.



Nesta altura Byrne fazia trabalhos para as duas companhias, fosse só como desenhista (como no Homem-Aranha de Howard Mackie), fosse como escritor e desenhista em várias  minis como
 X-Men Hidden years ou Superman & Batman: Generations.

No começo de Século, o seu trabalho aparecia mais na DC, em Liga da Justiça, Patrulha do Destino ou mesmo Super-Homem, que voltaria a desenhar. Na segunda década, começa a trabalhar mais para a IDW, em revistas de séries de TV como Star Trek ou Angel.

Felizmente pudemos acompanhar quase todo o seu trabalho do Século XX na editora Abril, e ter assim conhecido um dos melhores autores de BD Norte-Americana.







terça-feira, 13 de novembro de 2018

Stan Lee: 1922 — 2018 (I)



A primeira parte de uma homenagem a um homem cuja imaginação tocou milhões por esse planeta fora

:(

Boas leituras




sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Autores BD: Len Wein


O meu primeiro contacto com Len Wein, foi numas histórias da Liga da Justiça, uma fase que apreciei bastante, e depois comecei a ver que o seu nome aparecia em outras revistas que lia, como Hulk ou Aranha, percebendo que este seria um autor ao qual deveria começar a prestar atenção.

Para além de ter escrito em títulos como Batman, Homem-Aranha, Hulk ou Liga da Justiça, Wein ficou também conhecido por fazer um bom trabalho como editor, de onde se salienta a mini Camelot 3000, revistas de linha como Novos Titâs, Batman e os Renegados, ou aquela que é considerada a melhor obra dos quadradinhos, Watchmen. Ajudou também a criar personagens como Wolverine, Noturno, Tempestade, Colossus, Monstro do Pântano, Human Target e Lucius Fox, entre tantos outros.

Leonard Norman Wein nasceu a 12 de Julho de 1948 em Nova York, e segundo o próprio, tendo tido uma infância onde ficava doente constantemente, os comics eram a sua companhia, e desenvolveu por esse género uma grande paixão. Mais tarde, ele e o seu amigo Marv Wolfman, iam desenvolvendo essa paixão com os seus trabalhos em fanzines, numa fase em que Wein demonstrava mais interesse em ser um artista do que um escritor.

Mas isso tudo mudou quando ele e Wolfman foram contratados pela DC, no final dos anos 60, e começou então a escrever revistas para a companhia. No começo, Wein andava pela linha de romance, terror, títulos de western ou até revistas relacionadas com programas de TV como Star Trek. Foi no começo dos anos 70 que o autor começou a escrever títulos de super heróis, com a sua estreia a acontecer no Demolidor #70, com a ajuda do escritor/editor Roy Thomas, tendo tido depois esporádicas passagens por títulos como Supergirl, Flash, Superman, e em 1971 cria, em conjunto com o artista Bernie Wrightson a personagem Monstro do Pântano, que viria rapidamente a ganhar uma revista própria.


O seu trabalho com a personagem chamou a atenção de todos, e foi-lhe então dada uma oportunidade para escrever a principal equipa da DC, a Liga da Justiça, com arte de Dick Dillin. e fez um trabalho competente, com constante utilização de personagens da Sociedade da Justiça e reintroduzindo grupos como Seven Soldiers of Victory ou Freedom Fighters.

Nessa altura começa também a escrever regularmente para a Marvel, tendo tido passagens longas por títulos como Marvel Team-up, Hulk e Homem-Aranha. Na sua passagem pelo golias verde, Wein deu destaque ao antagonismo entre Banner/Hulk e Glenn Talbot, revitalizou personagens como Doc Samson e co criou o Wolverine. Já no Aracnídeo, o autor apresentava um Parker divertido, e soube escrever como poucos, diálogos bastantes engraçados enquanto o Aranha enfrentava os seus inimigos.

O romance floresceu nas páginas do Aranha, já que o autor criou casais e personagens como Liz Allen, Betty Leeds e até JJJ encontraram o amor, isto tudo durante a sua fase pelo cabeça de teia. Ao contrário de Conway, que criou diversas personagens para o título, Wein reutilizou vilões que há muito não apareciam na revista, desde o Rei do Crime ao Shcoker, passando pelo Tinkerer ou Silvermane. Mesmo assim ainda criou algumas novas personagens, como o vilão Rocket Racer, que é um bom símbolo do humor apresentado pelo autor na sua passagem pelo Aranha.


Mas foi em 1975 que o autor deixou a sua marca na Marvel, co-criando uma série de personagens com o artista Dave Cockrum, com as quais revitalizaram o grupo de mutantes X-Men, começando uma caminhada que levaria a equipa a ser o título mais vendido da companhia. Curiosamente pouco tempo depois, em confronto com Jim Shooter segundo algumas pessoas, ele deixa a Marvel e volta para a DC, tanto como escritor, como também na posição de editor.

Em 1979, na sua primeira história em Batman, cria a personagem Lucius Fox, e fez algumas histórias interessantes em conjunto com o artista Marshall Rogers, para além de ter escrito a primeira mini do Homem morcego, The Untold Legends of Batman. Em Lanterna Verde, ajudou Dave Gibbons num título que voltava a ter algum destaque, para além de ter sido o escolhido para escrever o crossover entre Batman e Hulk.

Nos anos 80, ficou bem conhecido como editor, o seu nome aparecia em revistas que estavam em destaque, como Novos Titãs ou Batman e os Renagados, e fez parte de projectos como Camelot 3000 e Watchmen. Editou também Alan Moore na revista do Monstro do Pântano, numa passagem de testemunho extremamente bem sucedida. Escreveu ainda um revival do Besouro Azul, e os diálogos da mini série Lendas, ajudando John Ostrander nessa saga que tentava resolver as pontas deixadas soltas em Crise nas infinitas terras.

Nos anos 90, para além de uma passagem como editor na Disney, Wein escreveu para inúmeros programas de televisão, especialmente séries de animação, como Batman, Homem-Aranha, X-men, Phantom 2040, Street Fighter entre tantos outros. Voltou a escrever alguns comics para a DC já no Século XXI, mostrando sempre algum carinho por algumas das personagens desta editora.

Faleceu a 10 de Setembro de 2017, aos 69 anos, com problemas de coração, deixando para sempre um legado nas duas grandes companhias, que ninguém poderá ignorar.













terça-feira, 10 de novembro de 2015

A Palavra dos Outros:
Autores: Tony Sandoval


Tony Sandoval é conhecido pelos temas oníricos em que baseia as suas obras, e é exactamente neste ambientes que a sua arte encontra a melhor expressão. Estão editados dois livros deste autor em Portugal pela Kingpin Books, e assim sendo, a pessoa mais indicada para escrever sobre Tony Sandoval será o editor Mário Freitas.

Para verem os outros posts de Mário Freitas no Leituras de BD basta clicar no nome dele.

TONY SANDOVAL
As Serpentes da Imaginação

A obra de Tony Sandoval é marcada pelas mitologias, pelos cheiros, pelos sabores das vilas e costumes do México da sua infância. Origens que se cruzam com a Europa cosmopolita que o acolheu, com o Gótico e o Doom Metal que o inspiram e que ritmam a sua arte. A ingenuidade onírica dos desenhos de Sandoval e a suavidade da sua palete contrastam profundamente com o horror, o grotesco e o absurdo aparente das suas histórias. Porque o artista, tal como as suas personagens, clama incessantemente pelas bizarrias que procuram, em vão, esconder-se para além do limiar da imaginação.

Nascido há 42 anos na pequena cidade de Obregón, cedo o autor percebeu ser dotado de uma criatividade invulgar que o arrastava para construções narrativas bizarras que pululavam na sua cabeça. Parte para a Europa em meados da década passada e, influenciado pelas lendas e culto dos mortos tão comuns no seu país, por óbvios pastiches lovecraftianos e pelos acordes pesados da música que o inspira, inicia em Barcelona a sua colaboração com editoras espanholas, lançando as primeiras edições de El Cadáver y El Sofá e Nocturno, onde a sua obsessão pela morte e pela libertação do espírito criativo se tornam desde logo marcantes.

Em Paris, conhece o suiço Pierre Paquet, seu editor desde então, que dá a conhecer as obras de Sandoval ao público franco-belga. Em 2010, juntos colaboram em Un Regard Par-dessu L'Épaule, escrito por Paquet, num dos raros casos em que o autor mexicano ilustra uma história de outrem. Já com a reputação cimentada, é em 2012 que desponta para o estrelato com a nomeação de Doom Boy (Paquet, 2011) para o Grande Prémio de Angoulême, ano que marca também a sua primeira visita a Portugal, por ocasião da 3ª edição do Festival AniComics Lisboa, em Maio. Doom Boy sedimenta a maturidade artística atingida com Les Bêtises de Xenoxiphérox (Paquet, 2011), reforçando a simbiose entre o traço fino e solto a caneta e as cores suaves aguareladas que lhe dão corpo. Uma arte invulgar, única, feita de corpos esguios, fluídos como um líquido e dotados de enormes cabeças ovais e expressivas; um estilo singular, peculiar, dificilmente colável a influências evidentes e verdadeiro sinónimo de um artista ímpar. A história de ID, um jovem guitarrista mediano que se vê subitamente tocado por um talento divino, não parece diferir em muito da Marta de Les Bêtises... que faz um pacto com uma bruxa em troca de aptidões literárias. Porém, no que a decisão de Marta acaba por libertar o inevitável mal extra-dimensional das histórias de Sandoval (por muito que, neste caso, a personificação do mal seja uma criatura ridícula semelhante a uma pequena baleia voadora) com consequências devastadoras para a própria e para os que a rodeiam, a estrela que se acende em ID despoleta aquele que é, talvez e paradoxalmente, o menos apocalíptico dos livros do mexicano. A partir da premissa clássica da morte como catalisador, Doom Boy reflecte a "explosão" de ID como catarse do desaparecimento prematuro da sua amiga Anny, transformando-o numa lenda urbana do Doom Metal (a tal inspiração musical predominante do trabalho de Sandoval), um génio incógnito cujas gravações seminais se propagam e mitificam de ouvido em ouvido. O talento como alma eterna.

Em 2014, As Serpentes de Água marca a estreia da edição em português do autor (então a viver em Berlim) e o seu regresso a Portugal, por ocasião do lançamento do livro no Festival Internacional de BD de Beja. Mais do que qualquer outra das suas obras, As Serpentes de Água sintetiza as temáticas recorrentes das obras de Sandoval. O Rei belo de uma das facções do domínio da imaginação é aprisionado pelos seus opositores e transformado num polvo negro que esperará uma eternidade pela salvação; pela recuperação da verdadeira forma; pelo reacender da centelha da criatividade. Presentes em boa parte dos livros de Sandoval e símbolo comercial da colecção Calamari que o próprio dirige na Paquet, os cefalópedes assumem-se aqui, em definitivo, como Reis no gatilho criativo do mexicano. As Serpentes de Água é um clássico “coming of age”, um livro sobre o amadurecimento e libertação sexual, um grito libertador contra as grilhetas que o mundano e as pessoas comuns impõem aos espíritos livres. Mila é uma menina especial capaz de ver Agnès, aparentemente morta há 11 anos, mas que estará afinal prisioneira na dimensão alternativa da imaginação em que tanto da narrativa clássica de Sandoval se desenrola. Esta dimensão onírica, lar de anjos e demónios e palco de guerras milenares entre o Céu e a Terra, mais não é que o espaço privilegiado de cada personagem no seu combate pela individualidade, pela fuga à banalidade que tanto da realidade e dos seus protagonistas encerram.

Em Mil Tormentas (Kingpin Books, 2015, em estreia mundial simultânea com as editoras espanhola, italiana, suíça e polaca), o autor reforça a unicidade do seu universo autoral, cruzando subtilmente referências dos seus últimos livros e praticamente revelando que o domínio da imaginação (onde residem o “céu” e o “inferno”, consoante as crenças de cada um) é um, e um só, em todas as suas histórias. À semelhança de Mila, Lisa é uma adolescente solitária com uma obsessão coleccionista que desperta a desconfiança e a crueldade das outras crianças, e uma curiosidade inerente que a mergulhará na tal dimensão alternativa, onde sonho e realidade, vida e morte, se misturam e confundem. O equilíbrio é precário, e entre roubos compulsivos e oferendas de paz, a conclusão das narrativas de Sandoval aponta muitas vezes para o apaziguar dos demónios internos, mais até do que dos ficcionados. Não será por acaso que os protagonistas das suas histórias são, em regra, adolescentes e jovens adultos diferentes ou solitários que se debatem com as angústias e dúvidas existenciais típicas da idade. A excepção a esta regra surge em Les Échos Invisibles - editado em 2 volumes e em que a história e layouts de Tony Sandoval são servidos pela belíssima arte da italiana Grazia LaPadula – onde o protagonista, Baltus, é um fotógrafo de cerca de 40 anos, cuja vida desaba após a morte prematura da sua mulher. Mais uma vez, a morte servirá de catalisador para a descoberta de um dom, que colocará o protagonista em rota de colisão com as expectativas e perspectivas comuns sobre a vida, sobre a morte e sobre potenciais renascimentos, reais ou criativos.


Em termos artísticos, o recente Mil Tormentas é menos denso que o seu antecessor, predominando a caneta e suaves cores pastel, pontuadas apenas, aqui e ali, pelas aguarelas clássicas de Sandoval. Esta flexibilidade visual das suas obras contribui para o reforço de uma sensação de desconforto, de incerteza, quer para as suas personagens, quer para o próprio leitor, bastas vezes prisioneiros numa fina, quase imperceptível, membrana entre o sonho e a realidade. Aliás, procurar uma lógica narrativa nas histórias de Sandoval torna-se um exercício inútil. A sua abordagem insere-se antes em fogachos de sensações, em pinceladas de intenções, com uma leitura e coerência interna muito próprias que caberá ao leitor decifrar. Sandoval não é David Lynch, mas partilha com o cineasta a intercepção rotineira entre a realidade e o sonho, entre o presente narrativo e saltos temporais nem sempre perceptíveis numa primeira leitura. Mas no que Lynch é intenção, é ciência calculada, Sandoval é instinto, é pureza narrativa.


Tony Sandoval respira arte. Diria que também a transpira por todos os poros. Compartilhar com ele uma qualquer mesa de café ou restaurante é vê-lo, inevitavelmente, a rabiscar algo de belo no seu inseparável bloco de notas ou até numa toalha de mesa de papel. Se a sua infindável criatividade é o alicerce da sua arte, as pinceladas a aguarela, a café, ou até a cerveja, são a palete que dá cor a cada momento da sua existência terrena. Porque Tony sabe que um dia o seu corpo partirá, mas a sua alma e o seu talento permanecerão ad aeternum na tal dimensão conturbada da imaginação, prontos a dar mão a criadores hesitantes, que anseiem ou desesperem, até, por uma qualquer inspiração divina.

Texto: Mário Freitas

Boas leituras



segunda-feira, 25 de maio de 2015

Autores: Ted Benoît
XI Festival Internacional de BD de Beja



Ted Benoît é um desenhador francês de 67 anos conhecido em Portugal por ter desenhado dois dos álbuns da série Blake & Mortimer pós E.P. Jacobs, aliás, o primeiro álbum desta segunda vida da série, O Caso Francis Blake, foi desenhado por ele.

Mas Ted Benoît não é apenas desenhador, é também argumentista, e foi nessa vertente que ganhou o seu primeiro prémio, logo com o seu primeiro livro: Hopital. Mas já vamos a essa parte...

Antes de Hopital, Ted Benoît esteve muito ligado ao cinema e à televisão, tirou o seu curso no L'Institut des Hautes Etudes Cinématographiques. Mas largou a televisão em 1971 para se juntar ao cartunista Nikita Mandryka no L'Echo des Savanes. Colaborou nos anos 70 com vários magazines, como a Metal Hurlant, Geranonymo, Libération e À suivre.

E é em 1979 que lança o seu primeiro álbum a solo, o atrás referido Hopital, e com esse mesmo livro ganha o prémio para melhor argumento no Festival de Angoulême desse mesmo ano de 1979!

Mas a técnica deste desenhador foi mudando, começando por ter um traço expressionista em Hopital, acabando por "cair" num estilo que ficou célebre na Europa, a já bastante referida "Linha Clara". Aliás, quem conhece o seu trabalho na série Blake & Mortimer pode admirar a sua mestria neste estilo iniciado por Hergé.
Para além dos dois livros desenhados para esta série (que lhe trouxeram notoriedade), criou Ray Banana com razoável sucesso.

  • 1979 : Hopital, Les Humanoïdes Associés
  • 1981 : Vers la ligne claire, Les Humanoïdes Associés
  • 1982 : Histoires Vraies, argumento de Yves Cheraqui, Les Humanoïdes Associés
  • 1982 : Berceuse Électrique, Ray Banana Vol.1, Casterman
  • 1986 : Cité Lumière, Ray Banana Vol.2, Casterman
  • 1987 : Bingo Bongo et son Combo Congolais, Les Humanoïdes Associés
  • 1989 : L'Homme de Nulle Part, Les Mémoires de Thelma Ritter Vol.1, desenho de Pierre Nedjar, Casterman
  • 1996 : L'Affaire Francis Blake, Blake et Mortimer Vol.13, argumento de Jean Van Hamme, Blake et Mortimer
  • 2001 : L'Étrange Rendez-vous, Blake et Mortimer Vol.15, argumento de Jean Van Hamme, Blake et Mortimer
  • 2004 : Playback, desenho de François Ayroles, com adaptação de Ted Benoit de um argumento de Raymond Chandler, Denoël
  • 2013 : Camera Obscura - Vers la ligne claire et retour, Champaka.
  • 2014 : La Philosophie dans la Piscine, Ray Banana Vol.3, La Boîte à Bulles.

No Festival de Angoulême de 1997 ganha mais um prémio: Alph'Art du public, com o seu livro L'Affaire Francis Blake.
Em Portugal está publicado nos seguintes livros:

  • Cidade luz (Ray Banana), ASA, 1990
  • O Homem de Nenhures - As memórias de Thelma Ritter, Nedjar (desenho), ASA, 1992
  • O Caso Francis Blake, Van Hamme (argumento), Meribérica, 1997; Público/ASA, 2008 (Blake & Mortimer Vol.13)
  • O Estranho Encontro, Van Hamme (argumento), Meribérica, 2001; Público/ASA, 2009 (Blake & Mortimer Vol.15)
























    Podem encontrar Ted Benoît no Festival Internacional de BD de Beja, onde falará para o público, e claro... dará autógrafos!

    O Leituras de BD apoia o Festival Internacional de BD de Beja

    Boas leituras, e comprem um livro no festival!
    :)

    domingo, 13 de outubro de 2013

    Os Comics e os Anos 90: Autores - Stephen Platt (Splatt) [27]


    Stephen Platt apareceu de rompante nos anos 90, associado à Image e a Rob Liefeld na sua maneira de desenhar. Aliás, penso que levou os “estilo” de Liefeld ao extremo!

    “Splatt” é um desenhador norte-americano que se começou a tornar conhecido pelas capas que fez para Marc Spector: Moon Knight, para além da arte-final, e pela “Soul Saga” para a Image. Soul Saga é uma obra sua, creator owned, mas que a final issue nunca saiu…


























    Para a Image trabalhou também em Prophet. E desenhou para Alan Moore Supreme: The New Adventures…

    O seu estilo caótico representava anatomias impossíveis, musculaturas hiperbólicas, mulheres completamente deformadas que deixariam Rob Liefeld corado de vergonha!
    Os seus desenhos cheios de hormona foi do pior que surgiu nos anos 90, mas ao mesmo tempo (e porque não dizê-lo) também foi do melhor!
    Tinha uma legião de fãs, que foi diminuindo conforme a febre dos anos 90 foi desaparecendo, acabando por desaparecer tranquilamente…

























    Mas acabou por descobrir mercado para si na indústria cinematográfica... se não vejam:
    • Esquecido - Oblivion (storyboard artist)
    • O Dia em que a Terra Parou - The Day that Earth Stood Still (storyboard artist)
    • Outlander - A Vingança (concept story artist: Ninth Ray Studios)
    • Homem de Ferro - Iron Man 2008 (storyboard artist)
    • O Nevoeiro - The Fogg (storyboard artist)


    Recentemente a Marvel acabou por ir recuperar este desenhador para os seu título X-Sanction, dentro do espírito Avengers Vs X-Men.



    Visto que ele é um artista muito "gráfico", espero que estas imagens “impressionantes” de Stephen “Splatt” vos tenham agradado!
    :D

    Podem ver as outras entradas nesta rubrica nos links aqui em baixo:

    Os Comics e os Anos 90: Image Comics - Youngblood
    Os Comics e os Anos 90: DC Comics - A Morte do Super-Homem
    Os Comics e os Anos 90: DC Comics - A Queda do Morcego
    Os Comics e os Anos 90: Dark Horse - Hellboy
    Os Comics e os Anos 90: Marvel - Onslaught 
    Os Comics e os Anos 90: DC Comics - Elseworlds: Golden Age
    Os Comics e os Anos 90: Marvel - Heroes Reborn 
    Os Comics e os Anos 90: Wizard Magazine
    Os Comics e os Anos 90: Marvel - Os Monos da Marvel
    Os Comics e os Anos 90: DC Comics - Hal Jordan: Ascensão, Queda e Redenção
    Os Comics e os Anos 90: Alex Ross
    Os Comics e os Anos 90: A Falência da Marvel
    Os Comics e os Anos 90: Top Cow - The Darkness & Witchblade
    Os Comics e os Anos 90: DC Comics - Sidekicks
    Os Comics e os Anos 90: Marvel - New Warriors
    Os Comics e os Anos 90: WildStorm - Planetary & Authority
    Os Comics e os Anos 90: Substitutos
    Os Comics e os Anos 90: Vertigo - Origens
    Os Comics e os Anos 90: Swimsuit Editions
    Os Comics e os Anos 90: As Sagas que toda a gente quer esquecer...
    Os Comics e os Anos 90: Novos universos de super-heróis
    Os Comics e os Anos 90: Top Cow - Fathom
    Os Comics e os Anos 90: Marvel - Saga do Infinito
    Os Comics e os Anos 90: Marvel - Saga do Clone
    Os Comics e os Anos 90: DC Comics - Superman Red/Superman Blue

    Boas leituras

    segunda-feira, 24 de junho de 2013

    Autores: Bruce Timm


    Essencialmente ligado à animação, Bruce Timm redesenhou os heróis da DC para os ecrãs. Foi o responsável pela forma como estes heróis se apresentam agora aos mais novos (e alguns velhos novos), tendo tido grande sucesso com as séries de animação Batman: The Animated Series, Superman: The Animated Series, The New Batman Adventures, Batman Beyond, Batman Beyond: The Return of the Joker, Justice League e Justice League Unlimited.

    Harley Quinn

    Mas o seu começo nesta indústria foi He-Man and the Masters of Universe e She-Ra: Princess of Power. Claro que fez mais trabalhos, mas não é a vertente de animação que me interessa para este post. Apenas falei dela para situar os leitores.

    Bruce Timm é possuidor de um traço muito próprio, inconfundível. Meio estilizado, meio retro com grande dinamismo! Talvez esta sua dinâmica venha do seu trabalho em animação, mas o que é certo é que agrada a quem lê… não há como não gostar daquele estilo simples, com bocas muito bem delineadas por lábios bem marcados, olhos sempre rasgados e afastados mas muito expressivos, o corpo é sempre longilíneo e sem exageros musculares e garantidamente as suas “bonecas” não usam implantes.

    Uma das suas criações para a DC Comics foi a excelente Harley Quinn, em conjunto com Paul Dini. Nasceu nas suas séries de animação e rapidamente passou para o papel!
    Fez duas histórias em que esta personagem completamente louca e apaixonada pelo Joker pontificou:
    • Mad Love and Other Stories
    • Harley and Ivy
    A primeira teve um elogio de que não há muitas no mercado dos EUA que se possam gabar, Frank Miller disse: "The best Batman story of the decade".
    Pode-se não concordar, mas quando alguém com a importância deste autor fala assim quer dizer que temos uma boa história com certeza! E Batman: Harley and Ivy está mais que esgotado...

    Shanna

    Para quem gosta mesmo da arte deste homem aconselho o excelente "Naughty and Nice: The Good Girl Art of Bruce Timm". A representação não censurada do corpo feminino visto por Bruce Timm! Todas dentro do seu estilo "simples", bonitas e apelativas.

    Batman: Black & White
    Conan























    Vampirella e Buffy
    Sin City
































































































    Boas leituras

    Disqus Shortname

    sigma-2

    Comments system

    [blogger][disqus][facebook]