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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Carlos Alberto dos Santos (1933 - 2016)



A abertura deste ano do Leituras de BD vai ser em modo de homenagem.
Carlos Alberto dos Santos foi um homem que aprendi a respeitar muito. Gostaria de ter estado mais vezes com ele, infelizmente foram poucas as vezes, mas ficou-me na memória o seu estúdio de pintura repleto de grandes pinturas, elmos e gládios romanos, falcatas lusitanas e muitos outros artigos históricos. Era um estúdio que cheirava a História, ou não fosse esse um dos temas preferidos deste pintor.
Neste post vou recuperar parte de um texto que já tinha escrito sobre ele.

Carlos Alberto nasceu em 1933 e começou a trabalhar em ilustração por volta de 1947. Em 1970 realizou a sua primeira exposição, com trabalhos a óleo em que os motivos históricos eram o centro dos seus trabalhos. Infelizmente quase nenhum dos seus trabalhos se encontra em Portugal, sendo a maior parte possuída por colecionadores particulares estrangeiros, tanto europeus como norte-americanos.
Para além da pintura fez Banda Desenhada e ilustrou algumas coleções de cromos!

Uma parceria importante aconteceu em Agosto de 1949, quando aos 16 anos publicou a sua primeira história em BD (História Maravilhosa de João dos Mares), no primeiro número da mítica revista portuguesa Mundo Aventuras, o que é um marco pois também foi a primeira publicação da editora Agência Portuguesa de Revistas (APR).

Trabalhou também com outras editoras da época como a Camarada e com a Editorial Dois Continentes, mas foi com a APR que teve uma ligação mais estreita. Quase todas as publicações desta revista contiveram capas, ilustrações ou bandas desenhadas deste artista.

Ainda para o Mundo de Aventuras, criou uma biografia ilustrada chamada "Camões, Sua Vida Aventurosa", publicada em 1972 no último volume da série Álbum Especial, e esta história também existe em BD!
Os seus últimos trabalhos importantes de BD e ilustração foram feitos para a Editora ASA
Mas foi na Portugal Press de, e com, Roussado Pinto (Ross Pynn) que criou um dos ícones portugueses dos anos 70: Zakarella!

A revista Zakarella assentava nas histórias de duas míticas publicações norte-americanas, a Eerie e a Creepy. As histórias em Banda Desenhada destas duas revistas, servidas por excelentes autores, povoavam o interior da revista Zakarella. Mas quem dava o nome a esta revista mítica portuguesa era mesmo a heroína criada por Carlos Alberto dos Santos com histórias ilustradas em que Ross Pynn (Roussado Pinto) fazia a parte dos textos.

Carlos Alberto dos Santos, em conversa comigo, disse que o esquema criativo era um pouco ao contrário do normal… ele, Carlos Alberto, fazia uma ilustração da Zakarella e Roussado Pinto fazia a história com base nessas mesmas ilustrações. Carlos Alberto disse que essas ilustrações eram, à data, o “libertar dos seus demónios interiores” e que hoje seria incapaz de reproduzir algo da Zakarella.




Este grande artistas, infelizmente, começou a sofrer muito da vista obrigando-o a abandonar trabalhos mais minuciosos, como por exemplo BD e pequena ilustração, sendo a pintura em grandes telas o escape para a sua irremediável falta de vista.
Mas continuou sempre ligado à arte, nunca desistindo de pintar sobre encomenda, os seus trabalhos são muitos, e superiormente admirados por todo o mundo… infelizmente em Portugal é quase um desconhecido!
Uma nota sobre como a vida dá voltas… nunca eu pensei com 8 anos de idade ao fazer a colecção de cromos “Camões” (124 guaches) que passados 40 anos iria escrever sobre este artista!

Exposições importantes de Carlos Alberto dos Santos:

  • National Society for Fine Arts, Lisbon, 1970, 1972, 1974, 1976
  • Faculty Club of the MIT, Boston, 1984
  • Casa da Saudade Library, New Bedford, 1986
  • Cambridge Public Library, Cambridge (USA), 1986











É meu credo que o Homem vive para além da morte. Vive na memória dos outros homens, e vive mais tempo quanto maior for excelência da marca que deixou em vida. Carlos Alberto continua a viver através da sua arte. Faleceu em Novembro do ano passado, mas vai ficar na minha memória enquanto eu for vivo.

Um outro post que fiz sobre uma bela obra deste autor está neste link:

Camões: Sua Vida Aventurosa









Boas leituras



segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Camões: Sua Vida Aventurosa


Quero fazer aqui uma homenagem a um dos maiores desenhadores/ilustradores/pintores portugueses.
E vou servir-me de uma edição que a nível nacional nunca deve ter tido paralelo. Camões – Sua Vida Aventurosa teve direito a uma colecção de cromos (que eu fiz há quatro décadas…), um livro de Banda Desenhada a Preto & Branco (numa edição especial do Mundo de Aventuras) e a um livro super luxuoso com caixa, papel brilhante de altíssima gramagem com as ilustrações mais emblemáticas (e coloridas) da colecção de cromos. Isto foi inédito, e que eu saiba único em Portugal.
Estávamos em 1972!


Uma das razões pela qual eu estou a fazer este post, é porque os blogues mais conhecidos pela sua nostalgia e recuperação de autores antigos praticamente não os vejo falar de DEUS. Falam sempre dos mesmo históricos e “mestres”, sempre os mesmos…
E aqui DEUS é Carlos Alberto.

As belas mulheres de Camões retratadas por Carlos Alberto dos Santos

Este sim foi um fora de série, este sim esteve bem à frente de todos os “históricos”. Tão à frente que a maior parte dos seus trabalhos estão em colecções privadas no estrangeiro, muito pouco conhecido em Portugal… somo bons a reconhecer os nossos melhores… Não, este senhor não vai a Tertúlias, festivais e encontros (está muito velhinho…), mas porque não vai não tem de ser ignorado.


Carlos Alberto dos Santos é especial por uma razão muito simples. Consegue aliar uma enorme qualidade de desenho, a um enorme conhecimento de pintura. Os cromos que ele fez para a APR (Agência Portuguesa de Revistas) são autênticas pinturas! Estáticas, sim. Afinal era uma colecção de cromos!
Mas quando passamos para o livro de Banda Desenhada ele demonstra dinamismo, capacidade de narrativa gráfica, boa construção da página e até, vejam lá, numa vinheta parece ter as linhas de velocidade do Manga! Claro, ténue, mas o dinamismo que ele coloca nas suas páginas não tem igual para a época.
























E porque não falar do domínio do Preto & Branco?
Muito bom. Os seus “claro-escuro” estão muito bem colocados de maneira a darem profundidade, tanto gráfica como emocional.
Esta técnica tem alguns excelentes apontamentos em algumas vinhetas, e com aquela qualidade só as vi em grandes mestres estrangeiros.


E tem outro pormenor interessante para a época… Carlos Alberto dos Santos usava argumentistas! No caso deste livro foi Oliveira Cosme. Ou seja, saiu daquele registo da época de que o desenhador é o argumentista, o que é de louvar!
Porque não dizer… já na Zakarella (criação deste desenhador), não era ele que escrevia os contos! Era o prolífico Roussado Pinto, sob o pseudónimo “Ross Pynn”. Carlos Alberto apenas desenhava e pintava, era aí que residia a sua excelência. Resistiu perfeitamente a ser o argumentista das suas histórias.

As imagens apresentadas neste post pertencem aos dois livros publicados Camões – Sua Vida Aventurosa. As Preto & Branco pertencem ao livro de Banda desenhada, as coloridas ao mini-Absolute editado pela APR com o mesmo nome. Neste livro de luxo podem encontrar um texto/história de Oliveira Cosme e as ilustrações de Carlos Alberto algumas feitas para a colecção de cromos, mas aqui em ponto grande!

Esta série de publicações saiu para a comemoração do 4º Centenário da obra máxima de poesia, “Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões.
Aliás, a colecção de cromos fascinou-me para a vida do poeta. Ficou impressa na minha memória de uma forma indelével.
Infelizmente a caderneta perdeu-se, mas com o tempo consegui em alfarrabistas aquilo para o qual eu não tinha dinheiro em criança: estes dois magníficos livros.

A história do considerado maior poeta da Língua Portuguesa é apresentada desde a sua adolescência, até à publicação do grande livro da poesia portuguesa, Os Lusíadas (1572). Claro, até também à sua morte que aconteceu pouco depois da publicação do livro.

Oliveira Cosme e Carlos Alberto trazem um Camões bem caracterizado na sua alcunha, o “Trinca-Fortes”, mostrando o poeta sensível, mas também o seu carácter belicoso muito bem desenvolvido. Estas duas facetas provocaram muitas invejas e inimigos…

Inimigos estes que fizeram a vida do poeta num inferno. Desterrado para as colonias, ele foi guerreiro, pedinte, sacrificado e herói. Mas sempre poeta!
O argumento de Oliveira Cosme na sua essência não é mau. O problema é mesmo o registo do português usado, e a sua “entoação”, por vezes bastante arcaico e sem necessidade disso… que raio, já estávamos nos anos 70!


Da parte gráfica… já disse tudo o que tinha dizer.
NUNCA se esqueçam deste MESTRE da Banda Desenhada e ilustração em Portugal.
Foi DEUS!
A imagem de topo é composta pela contracapa e capa do livro de BD, e imagem aqui por baixo é da caixa (slipcase) do livro ilustrado (ambos os lados da caixa).
A imagem final... é o retrato do fim da vida de Camões... extraordinariamente bem captado por Carlos "Deus" Alberto dos Santos.



Boas leituras

Revista/Slipcased Hardcover/Colecção de Cromos
Criado por: Oliveira Cosme e Carlos Alberto dos Santos
Publicado em 1972 pela APR
Nota: 10 em 10 no conjunto das três publicações (estou a contar com a colecção de cromos).

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Camões: De Vós Não Conhecido Nem Sonhado?


“Foi o nosso poeta de meã estatura, grosso e cheio de rosto e algum tanto carregado da fonte. Tinha o nariz comprido, levantado no meio e grosso na ponta. Afeava-o notavelmente a falha do olho direito. Sendo mancebo, tinha o cabelo tão louro que tirava a açafroado. Ainda que não era gracioso na aparência, era na conversação muito fácil, alegre, e dizedor, como se vê em seus motes e esparsas, posto que, já sobre a idade, deu algum tanto em melancólico.”

Manuel Severim de Faria
Vários Discursos Políticos

Assim começa este livro editado pela Plátano da autoria de Jorge Miguel!
Camões tem sido alvo de diversas adaptações para Banda Desenhada, sendo esta a que eu mais gostei! A Banda Desenhada dita histórica tem muitos livros editados sobre episódios da nossa História, mas consegue ser muito maçuda para um leitor que está á espera de ver sequências de imagem com bastante acção e dialogo. Não estou a dizer que tecnicamente não haja excelentes livros, mas o público leitor/comprador não tem complacência pela BD tecnicamente boa sobre factos, ou não, da nossa história, mas apresentados sob a forma de uma grande "seca", normalmente comprados por quem nunca compra BD, mas achou que ia ser uma boa prenda de Natal para uma criança que não conhece bem... É necessário mais qualquer coisa para o público comprar BD histórica, e eu penso que este livro caminha para aí! Existem algumas falhas (no meu ponto de vista) que não o desenho ou o texto. Estou a falar das cartas de Camões para os seus amigos, e vice-versa, que quebram bastante a fluidez da acção. Estas cartas poderiam ser apresentadas como extras ou apêndices no fim do livro, até o tornariam mais interessante, pois, inclusivamente se poderiam inserir mais algumas cartas.
Jorge Miguel, que já colaborou nalgumas publicações, sendo mais conhecido pelas suas ilustrações e aguarelas, e com Camões fez o seu primeiro grande trabalho em Banda Desenhada.
Penso que Jorge Miguel omite algumas partes da vida do poeta propositadamente para dar mais leveza à estória, focando-se na sua vida em Lisboa (bairros típicos e o Paço), e aqui como toda a gente sabe, Camões cria tantos inimigos como amantes. A partir daqui a acção voa para além-mar, primeiro norte de África, depois Índia, Molucas, Macau e a respectiva volta (com paragens, claro) para Portugal. Jorge Miguel insere os mais lindos sonetos e estrofes durante a sequência de imagens de uma maneira bonita e sem atrapalhar as vinhetas. Muito conseguido neste aspecto.
No desenho faz lembrar um autor de que eu não me lembro o nome, no seu estilo caricatural, mas ao mesmo tempo sério. É um desenho que por vezes penso que podia ser um pouco mais pormenorizado, mas não compromete… Em relação à coloração e conhecendo outros trabalhos do autor, penso que poderia ter feito melhor.
Para finalizar, gostava de dizer que gostei desta abordagem ao nosso poeta, e se estivéssemos num país em que a BD fosse tratada de maneira diferente, Jorge Miguel conseguiria fazer um trabalho de se lhe tirar o chapéu se contasse a história de Camões em três volumes. Penso que este seria o tamanho ideal da obra! Torna-se difícil meter a vida de uma pessoa como Camões em 64 páginas! Mas mesmo assim Jorge Miguel está de parabéns!

Hardcover
Criado por: Jorge Miguel
Editado em 2008 por Plátano Editora
Comprado na Bulhosa
Nota média da série : 8 em 10

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