Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner
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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (Final)

A escrita é um quebra-luz do dia.
Apertada trama de fios de linho
Nesses sudários sobre as janelas.

Rembrandt, Fausto

domingo, 23 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (59)

Não nos deixemos adormecer,
quero ouvir nos teus olhos
o memento de todas as estrelas,
até que eles reflitam
o ultimato ciumento
da absoluta estrela diurna
que nos quer separados.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (58)

Às vezes, quando já pus a cabeça no travesseiro,
Um poema importuno me ocorre.
Não me levanto para registrá-lo!
Resolvo submetê-lo ao acaso da travessia,
Decorando seus versos
Como quem conta carneirinhos.

Hipnos deve adorar esses meus poemas,
Se raramente os devolve a mim
Pela manhã.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (57)

Dia canibal,
canibal bulímico:
devora inapetente
outros dias semelhantes,
e
vomita tempo perdido.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (56)

O meu rosto queima-se,
chama branca,
no espelho.

Ao fundo,
o reflexo de uma janela
(espelho dentro de espelho)
por onde a paisagem entra
no incêndio prateado.

Somente há viva cor
em dois círculos castanhos,
semi-foscos,
do centro dos quais
um vulto geminado,
estranhamente,
não grita por socorro.

Por trás dele
a mesma janela,
agora reflexo insignificante
de qualquer paisagem
externa ao espelho.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (55)

É possível andar ao sol do meio-dia
De um dia de verão,
Sob um amplo toldo íntimo
Em cuja sombra,
Sobre alfombra,
Deita o espírito com hipotermia.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (54)

Realizo estranhas sessões
de dissecação,
mesmo de objetos sem pele,
sem entranhas
cuja cara é o próprio íntimo;
compactos, unos,
como as pedras
e raríssimos entes humanos.

Mesmo porque não se trata
esse tal dissecar,
de fazer cortes nos corpos,
de afastar carnes,
para deparar os tendões, os
músculos e ossos das coisas,
mas de recortá-las ao fundo,
como espécimes
de íntegra solidão
sem contextura.

Não é, por exemplo,
como separar rubros frutos
do verde complementar
que já os expulsa,
mas seccionar os filamentos
rígidos da memória
que os encadeiam
à uniforme essência da doçura.

Cézanne, Natureza Morta com Prato de Cerejas, OST
   

domingo, 16 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (53)

Oh, cândido poeta,
segues espargindo pétalas
pelo caminho,
caracol apressado
que leva às costas
a casa sempre ensolarada
com jardim anexo;

tua voz é uma flauta,
tua língua um arco-íris.

Às vezes, me adoecem as tuas cores,
e o teu sorriso-soro-glicosado.

É preciso ter alguma revolta consciente,
alguma mordacidade
que faça rosnar ao menos um verso
entre os caninos à mostra;
ou mesmo furar um dedo
na recordação do pacto com a morte.
Talvez simular que os cortes do teu pulso
ainda não estão cicatrizados,
para a que a dor que deveras sentes
pareça ainda maior.

Porque só assim o teu poema presente
terá alguns ramos balançando
ao vento do futuro, do teu, do nosso.





Obs. Após clicar em Publicar Postagem, apareceu no painel do Blogger um anúncio Google: Chega de Lágrimas (com marca registrada). Só rindo mesmo.

sábado, 15 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (52)

Eu pretendia registrar
Uma impressão seminal, inadiável;
A súmula geográfica de um mundo
Desabitado que há dentro de mim,
Uma intuição fabulosa
Finalmente capturada
Refletindo-se num espelho de mão.

Mas, um poema tomou o lugar dessa impressão.
Por mais que o releia,
Ele não me recorda o que eu pretendera dizer.

Só agora percebo que todo poema é desapontamento.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (51)

Os meus olhos fugazes
Têm a empatia necessária
Para acompanhar de perto
A fuga de todas as coisas.

As referências
Vêm de um cenário ensolarado,
Conservado por princípios,
E visto pelas janelas estreitas
Da memória retardatária.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (50)

Para ter a sensação da própria permanência
É preciso olhar o dia por um microscópio.
Você parecerá, então, um titã com amplo domínio
Sobre as horas minúsculas. Uma espécie de Gulliver.

Porém, não mire a olho nu o firmamento,
Não pense diante do mar
(ele jamais foi um acúmulo de gotas),
Não olhe nos olhos dos grandes panoramas,
O geográfico, o histórico.

Porque toda essa grandeza o recordará
Do frágil fio do seu olhar,
Do ofício sinistro das Parcas,
Da tesoura de Átropos.

E parecerá tão iminente não estar mais aqui.

Jacob Matham, As Parcas, gravura (1587)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (49)

Por que não me acostumo ao sofrimento
Se ele sempre foi de casa
Com lugar guardado à mesa,
Se ele apenas brinca de esconde-esconde,
Fingindo que vai embora?

O nosso convívio seria mais amigável
Se ao suposto retorno dele
Eu simulasse surpresa?

Há quanto tempo!
Entra! Sai já dessa soleira!
Por onde tens andado?
Andas muito ocupado?
Hum... Pareces mais gordo!
Anda, conta!
Puxa uma cadeira...

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (48)

Canto de pássaro
é corpo de pássaro
para meus ouvidos
urbanos,
ocupados.

Um corpo coletivo,
editado,
mosaico feito com
retalhos-clichês
de pássaros raros.

Imagem tocada
de ouvido,
cubismo sonoro.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (47)

Ela acaricia a toalha de mesa
Como os cabelos de uma criança.

Talvez pretenda ali entranhar
Uma porção de nada, de cinzas.

Talvez esteja brunindo
O ponto ocupado
Por uma ausência
Numa lasca de espelho.

Ou apenas queira sentir
A remota temperatura
De uma imagem que gotejou
Das suas pupilas dilatadas.

domingo, 9 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (46)

Um dia tão claro-claro
Onde tudo pode olvidar-se
Mergulhado na luz.

Como escrever com luz
Sobre páginas de luz?

Como obter contraste?

Um grito tão claro-claro
Não poderia ser ouvido.

Malevich, Branco sobre Branco (1918)

sábado, 8 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (45)

Há palavras que surgem planando
como sementes de dente-de-leão.

Pequenos pára-quedas surreais
cujo destino é fecundar o chão.
Mas, com sopros impertinentes,
brinco de mantê-las suspensas
até me cansar, perder a atenção.
Cadê?
Devia tê-las recolhido à tempo
ao contra-destino da minha mão.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (44)

Um desfolhar
das coisas
revela o óbvio
ainda não pensado:

reparei que uma árvore seca
recorda uma bacia hidrográfica.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (43)

Um dia não vivido,
aquele evaporado,
sopro quente
que embaça
o vidro temperado
dos meus olhos.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (42)

Parece que me propus
a suspensão da escolha.
Escolhi nada escolher,
cansado de ter olhos
pendulares,
ou desse meneio mecânico
da minha cabeça
como se assistisse
à uma interminável
partida de tênis.

Na encruzilhada
a vida me crucifica
com cravos-placebos.

Perdoa-me, tempo,
se não sei o que faço
com a tua oferta!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (41)

Eu poderia diagnosticar
como turismo alucinatório
essas paisagens assombrosas,
que subversivas me ocorrem
entre obrigações tediosas?