Não nos deixemos adormecer,
quero ouvir nos teus olhos
o memento de todas as estrelas,
até que eles reflitam
o ultimato ciumento
da absoluta estrela diurna
que nos quer separados.
Às vezes, quando já pus a cabeça no travesseiro,
Um poema importuno me ocorre.
Não me levanto para registrá-lo!
Resolvo submetê-lo ao acaso da travessia,
Decorando seus versos
Como quem conta carneirinhos.
Hipnos deve adorar esses meus poemas,
Se raramente os devolve a mim
Pela manhã.
Realizo estranhas sessões
de dissecação,
mesmo de objetos sem pele,
sem entranhas
cuja cara é o próprio íntimo;
compactos, unos,
como as pedras
e raríssimos entes humanos.
Mesmo porque não se trata
esse tal dissecar,
de fazer cortes nos corpos,
de afastar carnes,
para deparar os tendões, os
músculos e ossos das coisas,
mas de recortá-las ao fundo,
como espécimes
de íntegra solidão
sem contextura.
Não é, por exemplo,
como separar rubros frutos
do verde complementar
que já os expulsa,
mas seccionar os filamentos
rígidos da memória
que os encadeiam
Oh, cândido poeta,
segues espargindo pétalas
pelo caminho,
caracol apressado
que leva às costas
a casa sempre ensolarada
com jardim anexo;
tua voz é uma flauta,
tua língua um arco-íris.
Às vezes, me adoecem as tuas cores,
e o teu sorriso-soro-glicosado.
É preciso ter alguma revolta consciente,
alguma mordacidade
que faça rosnar ao menos um verso
entre os caninos à mostra;
ou mesmo furar um dedo
na recordação do pacto com a morte.
Talvez simular que os cortes do teu pulso
ainda não estão cicatrizados,
para a que a dor que deveras sentes
pareça ainda maior.
Porque só assim o teu poema presente
terá alguns ramos balançando
ao vento do futuro, do teu, do nosso.
Obs. Após clicar em Publicar Postagem, apareceu no painel do Blogger um anúncio Google: Chega de Lágrimas (com marca registrada). Só rindo mesmo.
Eu pretendia registrar
Uma impressão seminal, inadiável;
A súmula geográfica de um mundo
Desabitado que há dentro de mim,
Uma intuição fabulosa
Finalmente capturada
Refletindo-se num espelho de mão.
Mas, um poema tomou o lugar dessa impressão.
Por mais que o releia,
Ele não me recorda o que eu pretendera dizer.
Para ter a sensação da própria permanência
É preciso olhar o dia por um microscópio.
Você parecerá, então, um titã com amplo domínio
Sobre as horas minúsculas. Uma espécie de Gulliver.
Porém, não mire a olho nu o firmamento,
Não pense diante do mar
(ele jamais foi um acúmulo de gotas),
Não olhe nos olhos dos grandes panoramas,
O geográfico, o histórico.
Porque toda essa grandeza o recordará
Do frágil fio do seu olhar,
Do ofício sinistro das Parcas,
Da tesoura de Átropos.
Por que não me acostumo ao sofrimento
Se ele sempre foi de casa
Com lugar guardado à mesa,
Se ele apenas brinca de esconde-esconde,
Fingindo que vai embora?
O nosso convívio seria mais amigável
Se ao suposto retorno dele
Eu simulasse surpresa?
Há quanto tempo!
Entra! Sai já dessa soleira!
Por onde tens andado?
Andas muito ocupado?
Hum... Pareces mais gordo!
Anda, conta!
Puxa uma cadeira...
Há palavras que surgem planando
como sementes de dente-de-leão.
Pequenos pára-quedas surreais
cujo destino é fecundar o chão.
Mas, com sopros impertinentes,
brinco de mantê-las suspensas
até me cansar, perder a atenção.
Cadê?
Devia tê-las recolhido à tempo
ao contra-destino da minha mão.
Parece que me propus
a suspensão da escolha.
Escolhi nada escolher,
cansado de ter olhos
pendulares,
ou desse meneio mecânico
da minha cabeça
como se assistisse
à uma interminável
partida de tênis.
Na encruzilhada
a vida me crucifica
com cravos-placebos.
Perdoa-me, tempo,
se não sei o que faço
com a tua oferta!