(Para Tânia R. Contreiras)
Não será neste estúdio fechado
Que pretendo ser plenamente.
Devo estar lá fora, en plein air
Tendo lições, na luz que houver,
Do que é viver anonimamente.
Isso requer deixar alguns nomes
Guardados aqui dentro, sem ar,
Sós, apenas nomes, literalmente.
Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner
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terça-feira, 18 de janeiro de 2011
ADVÉRBIOS
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10:57
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sábado, 18 de dezembro de 2010
ÂNGULO
Umedeço com beijos
os oito vértices mornos
entre os teus dedos
em ansiosa evocação.
os oito vértices mornos
entre os teus dedos
em ansiosa evocação.
| Man Ray (solarização de 1930) |
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14:59
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terça-feira, 14 de dezembro de 2010
TRANSE
Decalco o desenho
dos teus seios
como se os estive criando.
dos teus seios
como se os estive criando.
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15:23
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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
SALINO
Como uma onda que retorna,
deixo nas tuas costas
um rastro de suor.
Quando secar
terás no teu
o sal do meu corpo.
deixo nas tuas costas
um rastro de suor.
Quando secar
terás no teu
o sal do meu corpo.
| Egon Schiele, Nu, aquarela e grafite s/ papel |
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010
INESPERADO
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12:31
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terça-feira, 23 de novembro de 2010
NOTURNOS
Na minha noite
haverá luas,
serão essas duas
no teu colo
ancoradas.
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14:59
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quarta-feira, 10 de novembro de 2010
FUGA
Os cães grassam.
A caravana estaca
.
Escapo lírico,
o olhar liberto,
o coração frutuoso,
amparado
no nunca deserto.
Paul Klee, Dois Dromedários e um Burro, aquarela.
A caravana estaca
.
Escapo lírico,
o olhar liberto,
o coração frutuoso,
amparado
no nunca deserto.
Paul Klee, Dois Dromedários e um Burro, aquarela.
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14:49
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domingo, 7 de novembro de 2010
FLORAL
(Para Juliana, minha filha)
Mensageira de todos os jardins futuros,
Flor andante,
O seus olhos perfumam
As minhas alamedas para o mundo.
Mensageira de todos os jardins futuros,
Flor andante,
O seus olhos perfumam
As minhas alamedas para o mundo.
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14:05
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sexta-feira, 15 de outubro de 2010
NO CHÃO
Saltita o passarinho
sobre o cascalho.
Três pulinhos
e se inclina
em reverência...
Bico garimpeiro:
beija-terra.
sobre o cascalho.
Três pulinhos
e se inclina
em reverência...
Bico garimpeiro:
beija-terra.
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13:52
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segunda-feira, 11 de outubro de 2010
CHAMADO
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16:36
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quinta-feira, 7 de outubro de 2010
REORIENTAÇÂO
Para Luiza Maciel Nogueira
( sobre seu comentário na postagem anterior: "Sem coordenadas".)
Sim.
Por que falar da grande nuvem atípica
que escurece o mar
e fecha os olhos sem pálpebras
dos peixes?
Se há azul
é porque acima vela o sol
que incendeia a consciência
viva e fixa
da minhas células
que não se sabem temporárias.
Vista do Mar, de Luiza Maciel Nogueira.
Em Versos de Luz: http://versosdeluz.blogspot.com/
( sobre seu comentário na postagem anterior: "Sem coordenadas".)
Sim.
Por que falar da grande nuvem atípica
que escurece o mar
e fecha os olhos sem pálpebras
dos peixes?
Se há azul
é porque acima vela o sol
que incendeia a consciência
viva e fixa
da minhas células
que não se sabem temporárias.
Vista do Mar, de Luiza Maciel Nogueira.
Em Versos de Luz: http://versosdeluz.blogspot.com/
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16:14
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SEM COORDENADAS
Não havia na barriga
do peixe
indícios das distâncias
que percorreu.
Mas os olhos dele
eram duas ilhas
de um mar morto.
Alexander Adriaenssen, Natureza morta com peixes
do peixe
indícios das distâncias
que percorreu.
Mas os olhos dele
eram duas ilhas
de um mar morto.
Alexander Adriaenssen, Natureza morta com peixes
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14:02
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sábado, 2 de outubro de 2010
NÃO-MANIFESTO
Não quero fazer arte do meu tempo.
A minha arte é contratempo.
A minha arte é contratempo.
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quarta-feira, 29 de setembro de 2010
[PARA LUCAS, MEU FILHO]
Meu pequeno cavalheiro
de olhos postos
no horizonte pontilhado
chamando o dia para junto de si...
Se eu pudesse renascer,
gostaria de ser como você!
Mas, espere...
De algum modo,
nos seus desejos espontâneos
já renasci.
de olhos postos
no horizonte pontilhado
chamando o dia para junto de si...
Se eu pudesse renascer,
gostaria de ser como você!
Mas, espere...
De algum modo,
nos seus desejos espontâneos
já renasci.
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15:29
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terça-feira, 28 de setembro de 2010
JORNADA
O meu dia
é um longo silêncio de formigas trabalhando,
entrecortado
aqui e ali
por iludidos gritos
de...
EUREKA!
é um longo silêncio de formigas trabalhando,
entrecortado
aqui e ali
por iludidos gritos
de...
EUREKA!
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15:49
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010
DOLCE
Olhos caramelados:
a visão atravancada
de formigas.
Algo se cristaliza,
depois se desmancha
em poeira açucarada.
a visão atravancada
de formigas.
Algo se cristaliza,
depois se desmancha
em poeira açucarada.
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12:45
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terça-feira, 21 de setembro de 2010
PAISAGEM COM VIAJANTE
-a-
Hoje nuvens negras
Figuraram ameaças.
O vento as dissipou a tempo.
Toda nuvem escura passa.
Toda nuvem clara passa.
Não há senão lembrança
Vaga de qualquer nuvem.
Toda visão de nuvem esgarça-se.
-b-
Chove verão.
Rosto na vidraça fria.
Água cantando:
Sim não sim não sim.
-c-
Ouvido atento
Ao que a chuva dirá.
Se vier de longe
Trará notícias suas.
-d-
Van Gogh, propõe mais alto
O teu koan!
Tenho duas orelhas
E não posso ver-te.
-e-
Quando o luar se extinguiu
A vida me contou segredos:
Viver é aguardar presenças.
Um inseto se chocou contra
A lâmpada.
-f-
Tudo está brutalmente presente.
Defino isso como felicidade.
Ela, eu, eles, as coisas,
As formas, as cores e as ações.
Nada se excede
Ou sai de si mesmo
Para ocupar uma ausência.
Se isso acaso ocorre,
É um ato que termina e outro que
Começa…
-g-
Só sei fabricar imagens
Na intenção de que nelas
A poesia viva
Como um lobo que nunca vi,
Ou cante como um pássaro
Que cruza uma rua tranqüila.
-h-
O meu polegar é operoso,
Mas mudo.
Nada sabe de palavras.
-i-
A suavidade é o extremo da vida:
É a paixão que, ciente de si mesma,
Destila-se e escorre como córrego.
A brutalidade é que se represa.
-j-
Como uma gaveta
Com luz interna própria
Que é aberta ao sol
Do meio-dia
E ainda assim ilumina ao redor.
-k-
Quando uma folha cai
Ainda a vemos como árvore.
Se o vento a leva,
A árvore também se move.
Pois cada folha é toda a árvore.
-l-
Se me ouves
Enquanto falo
Tu me iluminas.
Mas se repetes
Minhas palavras,
Delas me perco.
-m-
A solidão deve ser o momento
De perceber o outro,
Jamais a ocasião de inventá-lo.
-n-
Um pássaro confidenciou à outro
Que a vida, esse momento
Entre o salto para o vôo e o pouso,
É trágica.
O outro respondeu:
-Não, a vida não é trágica,
Trágicos somos os pássaros!
E voou.
-o-
Inventar espaços próprios
É ardil da covardia:
Ser é desabrigar-se.
-p-
Tantos pássaros formam um bando.
Um só canta.
Qual foi?
Ele sabe que cantou por todos.
-q-
Pontilhões entre dois vazios
As questões que me proponho.
Desabam quando as atravesso.
Não almejo abarcar o mundo,
Quero um barco para cruzar
O meu mundano dia.
-r-
Acompanhei os movimentos do teu olhar
Inquieto
Como a pena de um sismógrafo.
Ele percorreu planícies lisas,
Quedou em vales fundos,
Cruzou cordilheiras tortas,
Planou sem rumo,
Sondou cavernas marinhas,
Levitou pelas ruas da cidade
Para, enfim, focar-se
Nos meus olhos atentos.
-s-
Borboleta sem rumo,
Inquieta, foco de sol.
Não é leve nem é pluma.
Leve é o paquiderme
Estacionado no próprio sono.
-t-
Decalquei meu gesto no gesso.
Mas, côncavo,
Ele perdeu o sentido.
O vazio tem que contornar
O gesto.
-t-1
Aos gestos barulhentos
O olhar surdo não capta.
-t-2
O olhar pode ser um gesto?
Se pode deve ser como um peixe
Que gesticula no próprio nado
Dentro do aquário.
-t-3
Enquanto procurei pelo gesto perfeito
Ele não ocorreu
Quando o esqueci e não o pretendi,
Ele surgiu do meio do meu corpo.
-u-
Depressivo por tanto pensar
Deixo, enfim, que o meu olhar
Percorra círculos
Como os ponteiros de um relógio.
Em algum ponto ele encontra
A hora da luz e pára.
-v-
Uma caixa de fósforos
Tão concretamente caixa-de-fósforos
Tão percebida como-caixa-de-fósforos
Mesmo sem estar-para-fósforos
Mesmo não-sonora-caixa-de-fósforos
Caixa-de-fósforos-vazia-de-fósforos.
-w-
Imaginamos a chuva
Assim que o vento úmido
Agita a luz do sol
Com sopros curtos reinterados.
Ela virá musicar esta tarde.
-x-
Não posso mais
Numerar os nichos vazios
Do passado,
Comunicar a presença do futuro
Na foz dos rios.
Não posso mais
Buscar o tempo oculto
Com que os profetas se embriagaram
Não, não mais!
As raízes estão agora acima do solo
E são tão banais…
[Poema composto no verão de 2009 e publicado antes em Cadernos de Arte com o título "Poemas de Fevereiro.]
Hoje nuvens negras
Figuraram ameaças.
O vento as dissipou a tempo.
Toda nuvem escura passa.
Toda nuvem clara passa.
Não há senão lembrança
Vaga de qualquer nuvem.
Toda visão de nuvem esgarça-se.
-b-
Chove verão.
Rosto na vidraça fria.
Água cantando:
Sim não sim não sim.
-c-
Ouvido atento
Ao que a chuva dirá.
Se vier de longe
Trará notícias suas.
-d-
Van Gogh, propõe mais alto
O teu koan!
Tenho duas orelhas
E não posso ver-te.
-e-
Quando o luar se extinguiu
A vida me contou segredos:
Viver é aguardar presenças.
Um inseto se chocou contra
A lâmpada.
-f-
Tudo está brutalmente presente.
Defino isso como felicidade.
Ela, eu, eles, as coisas,
As formas, as cores e as ações.
Nada se excede
Ou sai de si mesmo
Para ocupar uma ausência.
Se isso acaso ocorre,
É um ato que termina e outro que
Começa…
-g-
Só sei fabricar imagens
Na intenção de que nelas
A poesia viva
Como um lobo que nunca vi,
Ou cante como um pássaro
Que cruza uma rua tranqüila.
-h-
O meu polegar é operoso,
Mas mudo.
Nada sabe de palavras.
-i-
A suavidade é o extremo da vida:
É a paixão que, ciente de si mesma,
Destila-se e escorre como córrego.
A brutalidade é que se represa.
-j-
Como uma gaveta
Com luz interna própria
Que é aberta ao sol
Do meio-dia
E ainda assim ilumina ao redor.
-k-
Quando uma folha cai
Ainda a vemos como árvore.
Se o vento a leva,
A árvore também se move.
Pois cada folha é toda a árvore.
-l-
Se me ouves
Enquanto falo
Tu me iluminas.
Mas se repetes
Minhas palavras,
Delas me perco.
-m-
A solidão deve ser o momento
De perceber o outro,
Jamais a ocasião de inventá-lo.
-n-
Um pássaro confidenciou à outro
Que a vida, esse momento
Entre o salto para o vôo e o pouso,
É trágica.
O outro respondeu:
-Não, a vida não é trágica,
Trágicos somos os pássaros!
E voou.
-o-
Inventar espaços próprios
É ardil da covardia:
Ser é desabrigar-se.
-p-
Tantos pássaros formam um bando.
Um só canta.
Qual foi?
Ele sabe que cantou por todos.
-q-
Pontilhões entre dois vazios
As questões que me proponho.
Desabam quando as atravesso.
Não almejo abarcar o mundo,
Quero um barco para cruzar
O meu mundano dia.
-r-
Acompanhei os movimentos do teu olhar
Inquieto
Como a pena de um sismógrafo.
Ele percorreu planícies lisas,
Quedou em vales fundos,
Cruzou cordilheiras tortas,
Planou sem rumo,
Sondou cavernas marinhas,
Levitou pelas ruas da cidade
Para, enfim, focar-se
Nos meus olhos atentos.
-s-
Borboleta sem rumo,
Inquieta, foco de sol.
Não é leve nem é pluma.
Leve é o paquiderme
Estacionado no próprio sono.
-t-
Decalquei meu gesto no gesso.
Mas, côncavo,
Ele perdeu o sentido.
O vazio tem que contornar
O gesto.
-t-1
Aos gestos barulhentos
O olhar surdo não capta.
-t-2
O olhar pode ser um gesto?
Se pode deve ser como um peixe
Que gesticula no próprio nado
Dentro do aquário.
-t-3
Enquanto procurei pelo gesto perfeito
Ele não ocorreu
Quando o esqueci e não o pretendi,
Ele surgiu do meio do meu corpo.
-u-
Depressivo por tanto pensar
Deixo, enfim, que o meu olhar
Percorra círculos
Como os ponteiros de um relógio.
Em algum ponto ele encontra
A hora da luz e pára.
-v-
Uma caixa de fósforos
Tão concretamente caixa-de-fósforos
Tão percebida como-caixa-de-fósforos
Mesmo sem estar-para-fósforos
Mesmo não-sonora-caixa-de-fósforos
Caixa-de-fósforos-vazia-de-fósforos.
-w-
Imaginamos a chuva
Assim que o vento úmido
Agita a luz do sol
Com sopros curtos reinterados.
Ela virá musicar esta tarde.
-x-
Não posso mais
Numerar os nichos vazios
Do passado,
Comunicar a presença do futuro
Na foz dos rios.
Não posso mais
Buscar o tempo oculto
Com que os profetas se embriagaram
Não, não mais!
As raízes estão agora acima do solo
E são tão banais…
[Poema composto no verão de 2009 e publicado antes em Cadernos de Arte com o título "Poemas de Fevereiro.]
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