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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Caderno de memórias coloniais

Porque a história do colonialismo português tem sido um dos meus temas de estudo e investigação, estou atenta ao que se vai publicando nesta área. Também procuro ler os livros de memórias e os romances históricos sobre o período colonial que vão aparecendo. Interessam-me, particularmente, as memórias, pois abordam as expriências de vida, as emoções, o quotidiano, aspectos que as fontes documentais oficiais,  regra geral, não reflectem.

Por estar atenta a essa literatura autobiográfica ou memorialística sobre África, escrita por portugueses que regressaram à antiga metrópole depois das independências africanas, posso dizer que Caderno de memórias coloniais (Coimbra, Angelus Novus, Dez. 2009), de Isabela Figueiredo (autora do blogue Novo Mundo), é um livro fora do comum. Ao contrário da esmagadora maioria da «emergente literatura dos 'retornados'» (como lhe chamou Sheila Khan), é um exclente livro em termos literários. E esse será o melhor motivo para ler e recomendar a obra. Acresce que consegue dar um contributo significativo para a desconstrução de uma imagem hegemónica e monolítica das vivências dos colonos portugueses em África. A partir das memórias de infância e adolescência, trabalhadas literariamente, somos confrontados com a sua visão do sistema colonial, do racismo, da sexualidade, do «retorno», da sociedade portuguesa... Como pano de fundo e elemento catalizador, a sua relação com o pai; figura que, para ela, a partir de certa altura, passou a personificar o colonialismo. Não obstante a educação e os valores cristãos que sempre lhe transmitiu.

O colonialismo português paternalista do pós-II Guerra Mundial, que a um ideário humanista (fundado numa suposta vocação ecuménica dos portugueses) continuava a aliar uma prática de violência, discriminação e exploração dos africanos, ganha corpo neste livro.

domingo, 9 de setembro de 2007

Passagens para Ler Devagar

Já lá vão quase 15 anos que conheço a Cláudia. O nosso percurso científico foi quase simultâneo - licenciatura, mestrado, doutoramento - e nas mesmas instituições (primeiro na FCSH e depois no ICS). Mas foi neste último instituto, em que tive a oportunidade de ser seu colega no I curso de doutoramento, que pude conhecê-la mais de perto. Fiquei espantando com a sua tenacidade e com a capacidade de trabalho. Lembro-me da nossa sessão conjunta de apresentação dos projectos, na qual a Cláudia foi questionada pelos 'séniores' sobre a ambição do seu projecto e da extensão do horizonte temporal que este abarcava: "era uma missão quase impossível" - disseram. Face às críticas a então aluna de doutoramento não vergou e disse simplesmente que esse seria o desafio do próprio projecto. Quatro anos e tal depois (em 2005) o desafio concretizou-se (e tudo foi escrito em apenas um só ano, o último precisamente).
Toda esta conversa vem a propósito da publicação do seu mais recente livro Passagens para África: O Povoamento de Angola e Moçambique com Naturais da Metrópole (1920-1974), que corresponde a parte substancial da sua tese de doutoramento. Uma obra que já é referência e que marcará o campo de estudo da História da migração e da colonização. Não sou especialista, por isso, remeto para esta recensão escrita pelo crítico Eduardo Pitta.

O livro será lançado dia 14 de Setembro (sexta-feira), na Livraria Ler Devagar, Rua Fernando Palha, 26 (Fábrica do Braço de Prata), Lisboa. A apresentação estará a cargo do Doutor Valentim Alexandre.
Não digam nada, mas sei, de fonte segura, que haverá petiscada com sabor e aroma luso-tropicalista.