As investidas da direita contra o Estado social visam um só objectivo: substituir o Estado pelo mercado. Como se entre estas duas instâncias não existisse mais nada. No entender do discurso económico dominante (infelizmente, parece que deixou de haver discurso económico de esquerda), tanto o Estado, como o mercado são constituídos, basicamente, por factores de racionalidade. Nesta óptica, a racionalidade do mercado gira fundamentalmente em torno da maximização de ganhos e da minimização de custos, enquanto a racionalidade do Estado é, do seu ponto de vista, essencialmente reprodutiva, no sentido da manutenção dos interesses instituídos.
Por outro lado, fora destas instituições parece que domina a irracionalidade. Para estes iluminados, a sociedade civil é um logro e uma inutilidade. Quando se manifesta move-se segundo as batutas manipuladoras de algumas organizações que lhe são exteriores, como é o caso dos partidos ou dos sindicatos. Por este motivo, sempre que a rua ganha aos parlamentos ou às bolsas, é porque foi instrumentalizada. Nunca reconhecem racionalidade à rua, encaram-na, na maior parte das vezes, como um bando de alienados cuja motivação é simplesmente insondável e, por isso, muito pouco racional.
Face a esta visão, conservadora no que diz respeito ao Estado e liberal no que concerne ao mercado, é necessário encetar um contraponto… Uma outra narrativa que conte uma história diferente sobre a natureza da sociedade civil e da sua importância enquanto elemento (re)organizador dos sistemas sociais económicos. Uma narrativa que a partir da rua construa novos horizontes ao Estado, ao mercado e também à democracia. As movimentações de protesto representam um ponto de partida que não culminam com o recuo, meramente circunstancial, do Estado (ou do mercado). O protesto gera consciência e esta, por sua via, deverá gerar discurso e acção.
Muito bem, provavelmente até aqui as várias esquerdas estarão de acordo. O problema é quando na rua surgem diferentes narrativas que, em certa medida, parece colidirem ou, pelo menos, são aparentemente inconciliáveis. Por exemplo, veja-se o caso francês, nas últimas semanas tivemos simultaneamente uma greve dos sindicatos e trabalhadores, e o ressurgimento dos protestos nos subúrbios das maiores cidades. Em traços muito redutores podemos dizer que os primeiros protestam contra a perda de alguns direitos legitimamente instituídos e que os segundos clamam contra a sua contínua marginalização no acesso a determinados direitos básicos. Face a este desequilíbrio a direita (e alguma esquerda?) não tem dúvidas na resposta a dar: corte-se nalguns direitos dos primeiros para que os segundos possam aceder a um pouco mais. Basicamente a ideia é: nivelar por baixo.
E qual é a proposta da esquerda? Anunciar a ineficácia do Estado, da democracia e propor a realização de uma greve geral? Quanto a mim, essa já não pode ser a receita (se é que alguma vez foi?). O pior que pode acontecer à esquerda é que a rua se divida e se barrique na defesa de interesses particulares e supostamente antagónicos. Transformar o Estado e a democracia como os inimigos a abater é um erro crasso por parte da esquerda. É, basicamente, dar uma margem ainda maior para que o poder económico e financeiro transnacional se reproduza e continue a acumular. Face a isto é preciso encontrar uma outra narrativa, uma racionalidade que agregue na mesma reinvidicação o acentuar contínuo da precarização ao ciclo vicioso da marginalização. É necessário propor alguma coisa, um caminho… algo de concreto: uma prática política.
Nota: este post é uma versão aumentada de um outro publicado aqui.