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sexta-feira, 7 de maio de 2010

O patinho feio da política museológica não se dá por vencido

«Amigos do MNA avançam com acção popular contra mudança», por Alexandra Prado Coelho

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Museu de Portimão eleito melhor museu europeu do ano

O Museu de Portimão foi o vencedor do Prémio Museu do Ano 2010 do Conselho da Europa, atribuído por recomendação do European Museum Forum.

Os pontos fortes deste museu idealizado em finais de 1980 foram a relevância do tema (a mostra permanente, «Portimão: território e identidade», aborda a interacção entre população e meio ambiente durante 5 milénios), o programa educativo em prol da comunidade local e o lugar especial concedido à arqueologia subaquática.

Com efeito, este museu instalado na recuperada fábrica de conservas de sardinhas Feu Hermanos (na imagem) apresenta uma extensa colectânea de apetrechos recuperados do fundo do rio Arade (ap. nota do município local).

O Museu de Portimão, integrado na Rede Portuguesa de Museus desde 2001, tem direito a exibir durante um ano o prémio oficial representado nesta estatueta de bronze «La femme aux beaux seins», do artista espanhol Joan Miró. Este prémio é atribuído desde 1977, e Portugal só tinha recebido outro prémio destes em 1990, para o Museu da Água, da EPAL (vd. historial).

Mais inf. nesta reportagem da SIC e em artigo do n.º 1 da revista Museologia.

Museóloga Adília Alarcão contra saída do Museu de Arqueologia dos Jerónimos (e que tal parar para repensar?)

"Deslocá-lo (contra a opinião competente de tantas personalidades que já se pronunciaram sobre este assunto) para a Cordoaria Nacional, é condená-lo a uma espécie de exílio ad aeternum, pois dificilmente se disponibilizarão vontade política e meios financeiros para rever a situação, por mais meio século", escreve a museóloga na missiva.
A carta aberta da especialista na área da museologia arqueológica, agraciada em 2004 com a Medalha de Mérito Cultural, foi hoje divulgada pelo Museu Nacional de Arqueologia (MNA).
Na missiva, Adília Alarcão considera que o MNA "pode aguardar, o Museu da Marinha, o Museu dos Descobrimentos ou da Viagem [recentemente anunciado pela ministra da Cultura] podem aguardar. Urgente é um debate, alargado e sem preconceitos, sobre os museus portugueses na actualidade, que ajude a desenhar-lhes uma estratégia segura para os próximos anos", defende.

domingo, 18 de abril de 2010

Lisboa antiga também passa por aqui

A Assembleia Municipal de Lisboa recomendou hoje à Câmara a elaboração de um plano de pormenor para o antigo Paço do Lumiar que responda às “necessidades de proteção e recuperação de património” e de “reabilitação do espaço público”.

Parabéns pela iniciativa! Eu só acrescentaria que a tal reabilitação devia passar também por recuperarem a Qt.ª de N.ª Sr.ª da Paz e por aí acolherem um museu do Brinquedo e da Criança, o qual também serviria de chamariz para atrair mais público para os pouco divulgados museus do Teatro e do Traje. Como já escrevi vários posts sobre o assunto remeto os interessados em mais detalhes para a etiqueta «Propostas por Lisboa».

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A dança dos museus e os espaços do poder

«Novo Museu dos Descobrimentos vai para o espaço do Museu de Arqueologia»

PS: sobre esta polémica vd. os seguintes posts do Peão: «Prova dos nove», «A passerelle do centralismo», «Basta de trapalhadas: quem quer o novo Museu dos Coches?»; «Novas sobre a polémica das mudanças nos museus de Arqueologia e dos Coches»; «Ainda se vai a tempo de evitar um gasto deslocado, ainda por cima para mal dum sector tão carenciado como é o da cultura».

terça-feira, 30 de março de 2010

Prova dos nove

«Petição online quer avaliação de segurança da Cordoaria para acolher Museu de Arqueologia»

ADENDA: site da petição «EM DEFESA [D]O MUSEU NACIONAL DE ARQUEOLOGIA», promovida pela Comissão Nacional Portuguesa do Conselho Internacional dos Museus; site do Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia, que divulga a iniciativa.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Novas formas de contar a história de Lisboa

Este post serve de última chamada para uma exposição fantástica que está nos seus últimos dias. Chama-se ela «Lisboa tem histórias», enquadra-se nos 100 anos do Museu da Cidade e está patente só até ao final deste mês.

O fulcro da mostra é quase um «ovo de Colombo»: apresentação de 20 personagens de Lisboa caricaturados por João Fazenda, com um subtítulo (regra geral, a alcunha) e um conjunto de peças diversificadas directamente ou indirectamente atinentes, desde artefactos arqueológicos, loiça, fotos, etc. (videozinho promocional aqui). A Sofia já aqui tinha chamado a atenção, mas vale a pena insistir.

Além desse núcleo, a mostra incluiria ainda a exibição dum filme de Abílio Leitão, «com imagens actuais dos locais da cidade que estão associados a cada um dos 20 personagens». O problema é que, ontem (e noutros dias) não estava a ser exibido, nem mesmo a pedido dos visitantes e sem que nenhuma explicação tenha sido avançada.

O Museu da Cidade era uma das coisas mais tristes do país, parado no tempo, pequeno, e tudo o que a Sofia já aqui desvelara, para nossa vergonha... Este evento prova como pequenas ideias podem ajudar a mudar as coisas, a tirar o pó à mobília, e logo as pessoas aderem: isso mesmo o atesta a significativa audiência para o pouco tempo e a pouca publicidade feita (10 mil visitantes até recentemente). E nem é preciso ter mega-espaços (isto dito, ainda assim o museu precisa de mais espaço, um outro pólo, p.e.). A este propósito, seria bom que, após fecho da mostra e caso não fosse possível incorporar a mostra na colecção permanente, incluissem uma sua versão video em tela numa das salas do museu. Seria a melhor forma de o honrar e de dar um sinal no caminho da sua necessária renovação. Também nesse sentido vai a instalação duma colecção de cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro no jardim do museu e que a Sofia também elogiou há uns dias atrás. E as exposições temporárias, claro.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

E façam o favor de serem felizes

Já está nas lojas uma antologia do Raul Solnado em 3 cd's, numa edição de luxo, noticiou o último telejornal de hoje da RTP2.
É uma boa ideia, ainda por cima com parte da receita revertendo a favor da Casa do Artista, um espaço em Lisboa que dá alojamento a artistas que o pretendam e que tem um teatro em actividade (só é pena esta fixação nas edições de luxo, como se os portugueses nadassem em dinheiro; tal como os livros de capa dura, também a música/ teatro tem o seu fetiche de maximização do lucro).
Ainda não vi o conjunto, mas deverá ter um cheirinho deste vinil que figura na imagem ao lado.
Entretanto, também os filhos de Solnado anunciaram que irão leiloar brevemente os quadros do pai, revertendo metade da receita para a criação duma escola de teatro e dum museu com o seu nome. Outra excelente ideia.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Museus transferidos para os municípios

Ainda a propósito de museus, a nova ministra da Cultura anunciou que 28 museus serão transferidos da rede museológica nacional para as autarquias onde estão instalados. O 1.º a sair da rede será o Museu José Malhoa, das Caldas da Rainha.
Trata-se duma medida descentralizadora, que se espera tenha algum tipo de apoio a nível central, pelo menos no arranque, sob pena desses museus perderam capacidade de atracção e relevância.

Da enciclopédia ao museu?

A monumental Enciclopédia da música em Portugal no século XX é hoje apresentada em Lisboa (Teatro S. Carlos, 19h), após 12 anos de trabalho duma equipa de 151 colaboradores dirigida pela Prof.ª Salwa Castelo-Branco (do Instituto de Etnomusicologia da FCSH-UNL). A obra, em 4 volumes, tem 1440 páginas, mais de 1250 entradas, 550 imagens e índices temático e onomástico. Segundo nota informativa, abrange as músicas erudita, popular, tradicional, o folclore, o pop-rock, o jazz, o fado, a canção coimbrã e a música nas comunidades migrantes. Aborda ainda «modos expressivos em que a música desempenha um papel central, como a dança, o cinema e o teatro». Por tudo isto, e pela qualidade do trabalho, é a 1.ª «grande obra de referência dedicada à música praticada em Portugal» no século passado.
Em depoimento ao DN, Salwa Castelo-Branco alertou para a necessidade de se preservar em museu próprio os registos sonoros dessa centúria: «Espero que sirva para que o Governo leve a sério a necessidade de se criar um museu. É preciso um arquivo sonoro e eu ando há muitos anos a pedi-lo. Há muito que faz falta um Museu de Música, um local que reúna a história musical dos últimos 100 ou 110 anos, desde que se inventou o gramofone».
Só o 1.º dos 4 volumes editados pelo Círculo de Leitores será hoje apresentado. Os restantes volumes chegarão em Março (letras C a L), Maio (L-P) e Julho (P-Z). Cada volume custará aos associados entre 24,9€ e 29,9€, chegando depois às livrarias do Círculo e da Temas & Debates.

sábado, 20 de junho de 2009

O futuro dum Museu de Arte Popular

O  Museu de Arte Popular de Lisboa está em risco de desaparecer, e com ele os murais e pinturas de artistas plásticos reconhecidos, bem como o seu acervo. O pretexto é a construção dum Museu da Língua no seu lugar, sem se argumentar da validez em obliterar parte da arte popular portuguesa musealizada e da memória da Exposição do Mundo Português e da política cultural dum regime anterior, esse ditatorial.

Aliás, se mais nada ilustrasse, este caso é, lamentavelmente, um novo comprovativo da ausência de estratégia patrimonial por parte deste governo. Isto incluí a relevante vertente museológica.

Como o Estado central faz figura de «corpo presente», um movimento da sociedade civil forçou aquilo que deveria ser um pressuposto básico inicial: a existência dum debate público alargado, crítico, claro e informado. Esse movimento lançou esta petição e este blogue. Hoje fará uma apresentação pública das suas ideias junto ao  Museu de Arte Popular, em Belém, defronte ao CCB do lado do rio (e da ferrovia), pelas 16h. Esse colóquio público contará com as intervenções de Raquel Henriques da Silva, João Leal, Rui Afonso Santos, Vera Marques Alves, Alexandre Pomar, Catarina Portas, Joana Vasconcelos, Rosa Pomar, entre outros.

Para não parecer que o Estado é monolítico, convém dizer que a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou esta moção apelando à defesa do MAP por parte do órgão executivo municipal.

Nb: imagem da fachada do MAP, foto de Mário Novais. Vd. também este mural de Tom e Manuel Lapa para a sala de Entre-Douro-e-Minho do MAP.

terça-feira, 31 de março de 2009

A passerelle do centralismo

O novo Museu dos Coches tornou-se no caso do ano na Cultura, por 2 razões interligadas: a ausência duma política cultural com visão e o laxismo na gestão do erário público.
No sector museológico português, os museus que deviam estar no topo das prioridades são os de Arte Antiga, do Chiado/arte contemporânea e de Arqueologia. São estes que, pelo seu valor patrimonial/ cultural e as graves carências que têm, mereciam ser o alvo prioritário duma política cultural pública. O 1.º precisa de alargamento e mais recursos (ou mesmo, dum museu de raiz); o 2.º espera há anos por uma expansão para o espaço ocupado pela PSP; o 3.º deveria ser expandido nos Jerónimos, onde está há 100 anos (ou ter direito a um museu de raiz). Isto mesmo é dito por vários peritos em museologia (daí a petição lançada para se repensar este processo), inclusivé pelo actual dir. do Instituto de Museus e Conservação ("Bairrão Oleiro acha que não há outro museu que justifique um edifício de raiz, mas há outros que precisam de uma ampliação, como o Museu do Chiado, o Museu de Arqueologia e o da Música"). A isto, João Neto (pres. da Associação Portuguesa de Museologia e subscritor dessa petição) aditou o seguinte: "Aquilo de que necessitamos é de um espaço destinado a grandes e boas exposições temporárias temáticas, feitas pelos museus portugueses, num trabalho de coordenação, e que possam ser exportadas da mesma maneira que nós importamos grandes exposições". Para nada disto servirá o novo museu: não foi pensado para o efeito, nem a sua direcção está interessada, como assumiu Silvana Bessone.
Entretanto, foi lançada uma contra-petição, assaz corporativa (iniciativa da Ordem dos Arquitectos e inicialmente subscrita quase só por arquitectos), em desagravo da proposta do novo Museu dos Coches. Há aqui um grande equívoco: ninguém questionou a validade dessa obra arquitectónica (2.ª versão, sem silo automóvel) do arq.º brasileiro Paulo Mendes da Rocha (dadas as suas credenciais, a maqueta e as avaliações entretanto surgidas, e pese não ter havido concurso público internacional). Já descabida é a ideia de que tal obra será "se calhar, sobretudo, um projecto urbano numa área da cidade que está expectante e degradada". Mas qual área "expectante e degradada"?! Aquela zona é a coqueluche do turismo cultural no país! É a passerelle do poder central desde os tempos da expansão ultramarina, e, sobretudo, desde que o Estado Novo a adoptou para a sua estetização da política e exaltação imperial. Foi nos idos de 1940, e, entretanto, até o regime democrático quis deixar lá a sua marca: foi o CCB de Cavaco Silva e do tempo das vacas gordas, em que as «derrapagens» nas obras públicas se tornaram moda. Foi ainda com Cavaco Silva e Santana Lopes como responsável pela pasta da Cultura que surgiu a ideia dum novo Museu dos Coches... Cavaco Silva, agora PR, nada diz sobre o assunto, apesar da audiência com os autores da 1.ª petição...
Entretanto, dois dos promotores da 1.ª petição, com provas dadas na política cultural, lançaram uma ideia de compromisso que deveria ser reflectida pelos decisores políticos: o arqueólogo Luís Raposo (director do Museu Nacional de Arqueologia) e Raquel Henriques da Silva (historiadora de arte e ex-dir. IPM) propõem a reformulação funcional dos 2 edifícios do projecto de Mendes da Rocha: o principal poderia ser adaptado a um Museu da Viagem (evocativo da "diáspora portuguesa em toda a sua extensão temporal"); o 2.º edifício, mais pequeno, seria afecto ao Museu dos Coches para "ampliação dos espaços expositivos", mas mantendo-se "o conjunto mais emblemático" no antigo Picadeiro Real. Ademais, sugerem um levantamento do parque museológico e monumental da zona de Belém, com vista a um "plano integrado de valorização de cada peça e do seu conjunto" (p.e., para potenciar circuitos integrados, via "percursos pedonais, bilheteiras comuns, navette de ligação gratuita" para portadores de ingressos nos museus ou monumentos). Instam ainda à "reabertura do Museu de Arte Popular no seu lugar próprio"; à inserção do Museu Nacional de Etnologia na "rede"; à extensão do da Marinha a poente e para a Cordoaria Nacional; e à ampliação do de Arqueologia nos Jerónimos (vd. aqui).
Haja sensatez para reflectir nos argumentos dos críticos. O interesse público sairia a ganhar. A tradição sobranceira do poder, porém, não dá muita esperança. Como se viu com mais este caso, o poder central gosta de se exibir, e quanto mais espampanante e expedita for a solução, melhor. É a lei não escrita do umbiguismo do poder, do fausto, que por cá tem uma larga tradição...
PS: 5 prós e contras das 2 posições podem ser vistos aqui; cartoon de GoRRo (c) 2007-9.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Basta de trapalhadas: quem quer o novo Museu dos Coches?

Este é o mote para a concentração de protesto de hoje, às 18h, junto do espaço previsto para o novo museu, na Av.ª da Índia, em Lisboa. A iniciativa é da Plataforma pelo Património Cultural (PP-CULT) e do Fórum Cidadania Lisboa, sendo ainda apoiada pelo Instituto da Democracia Portuguesa.
Há 7 dias atrás, uma delegação da PP-CULT e da FCL entregou uma carta ao primeiro-ministro português questionando a necessidade de construir o novo museu ("que não constitui de modo nenhum prioridade da política museológica nacional") e criticando as demolições intempestivas iniciadas nas instalações da Av.ª da Índia, onde ainda se encontram funcionários, arquivos e colecções ligados à arqueologia.
A petição «Salvem os Museus Nacionais dos Coches e de Arqueologia e o Monumento da Cordoaria Nacional!», de que aqui demos nota, continua activa, tendo já mais de 2 mil assinaturas. A PP-CULT, criada em 2008, é uma rede inter-associativa que reúne grande parte das associações mais representativas do sector cultural.
Nb: a base informativa de parte do post vem aqui.; +inf. actualizada neste blogue do FCL.

sábado, 7 de março de 2009

A vida dos postais ilustrados na vida da comunidade

Alusivo ao tema em epígrafe, é inaugurada hoje uma exposição de postais, no Museu D. Diogo de Sousa, em Braga. A mostra é organizada pela Biblioteca Pública de Braga e integra o projecto académico «Postais ilustrados: para uma sócio-semiótica da imagem e do imaginário», do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho.
Em complemento, apresenta-se uma instalação cartográfica de Braga e um documentário, e ocorrerá uma tertúlia (vd. programa completo neste blogue).
Sumariamente, este projecto pioneiro visa a "recolha de postais ilustrados em quatro regiões de Portugal: Viana do Castelo/Braga, Bragança, Portalegre e Viseu. O repertório abrange postais desde 1860 até à actualidade, incluindo por isso variantes contemporâneas do fenómeno, como o são os free cards ou os electronic cards. Uma vez inventariado, esse material integrará uma base de dados, que se propõe constituir uma espécie de museu virtual da memória colectiva, de livre acesso".

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Novas sobre a polémica das mudanças nos museus de Arqueologia e dos Coches

A propósito da petição de que aqui falei ontem, hoje o Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia juntou-se ao Fórum Cidadania Lisboa na contestação ao projecto oficial de trocas & baldrocas de museus na zona ocidental de Lisboa. Entretanto, a petição está a acolher o apoio de peritos e dirigentes em várias áreas do sector cultural, como a historiadora de arte Raquel Henriques da Silva, o arq. Nuno Teotónio Pereira, o pres. da Associação dos Arqueólogos Portugueses, José Morais Arnaud e o dir. do próprio MNA, Luís Raposo. Todas as novidades na notícia "Amigos do Museu de Arqueologia ameaçam com «resistência cívica» e «acção popular»".

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Ainda se vai a tempo de evitar um gasto deslocado, ainda por cima para mal dum sector tão carenciado como é o da cultura

O título é grande, mas serve para destacar uma recente petição, que pretende ainda evitar que o governo português faça uma obra de regime completamente desnecessária e uns esquemas de trocas e baldrocas sem tino, em vez de usar o dinheiro para acudir e relançar a rede estatal de museus.
A petição confirma-nos o nível de soberba dos governos portugueses, que insistem em tomar decisões importantes sem prévia audição dos actores institucionais e sociais ligados às áreas em apreço, sem debate público e ao arrepio de qualquer lógica racional ou estratégica para essas mesmas áreas. Tudo se resume a obras de regime, mais betão (a obsessão com o novo é já patológica), propaganda e 'iluminismo' impante, quais Pombais de hoje.
A petição é promovida pelo Fórum Cidadania Lisboa. Dada a sua relevância, e porque a questão é complexa (sim, o governo ligou o complicador e misturou alhos com bugalhos, tudo sem estudos, ou pior, contrariando estudos técnicos anteriores), transcrevo-a integralmente:
Exmos. Senhores,
Presidente da República Portuguesa, Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva
Presidente da Assembleia da Republica, Dr. Jaime Gama
Primeiro-Ministro, Eng. José Sócrates
Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. António Costa

O Museu Nacional dos Coches sendo de génese monárquica foi com a República que adquiriu o carácter de organização museológica, transformando-se na instituição fundadora da museologia portuguesa, de carácter nacional e com projecção internacional.

O valor artístico do espaço (antigo Picadeiro Real), a raridade da sua colecção (considerada universalmente como a mais notável no seu género, com especial destaque para os três coches monumentais da Embaixada de D. João V ao Papa Clemente XI, construídos em Roma em 1716 e únicos no mundo, bem como o raro exemplar de coche de viagem de Filipe II, construído em Espanha – Século XVI- XVII – e um dos modelos de coche mais antigos de que há conhecimento), e o sistema desenvolvido de exposição desta última, correlacionando-a com imagens e pinturas de época, garantiram-lhe a reputação europeia sem precedentes na história dos museus portugueses e na própria evolução da museologia, através de uma orientação estratégica pioneira pautada por princípios europeus modernos, criando um ambiente de exigência e trabalho de que os próprios republicanos se orgulhavam.

O projecto entretanto surgido para a construção de um novo Museu dos Coches pretende esvaziar o actual edifício e transferir a colecção para um novo espaço a construir, onde se erguem agora as Oficinas Gerais de Material de Engenharia, que serão demolidas. Não pondo em causa a qualidade do projecto de arquitectura, estima-se, no entanto, que este projecto terá um custo actual estimado de 31,5 milhões de euros.

Considerando a actual magnitude internacional do Museu Nacional dos Coches, que é o museu mais visitado de Portugal, muito significativamente por estrangeiros a quem não será indiferente a dignidade e o ambiente do espaço actual de notável valor formal e de antiguidade. Note-se que não é por acaso que em São Petersburgo se optou recentemente pela colocação de um espólio similar no antigo picadeiro real;

Considerando que o actual edifício do Museu, por imperativos técnicos e artísticos (vide, pareceres técnicos de finais dos anos 90), está impossibilitado de acolher a Escola Portuguesa de Arte Equestre, temendo-se, portanto, caso avance o projecto de novo museu, a sua subutilização;

Considerando que o projecto do novo museu não afecta somente o Museu Nacional dos Coches, mas antes constitui um verdadeiro 'terramoto' de efeito ricochete na museologia nacional, pois implicará a obrigação de deslocar os serviços do antigo IPA (actual IGESPAR) da arqueologia subaquática, do depósito de arqueologia industrial, para a Cordoaria Nacional e, por esta via, uma eventual transferência do Museu Nacional de Arqueologia para a mesma Cordoaria, que é Monumento Nacional desde 1996 (DL 2/96, DR 56, de 06-03-1996);

Considerando que a lei obriga a que uma intervenção num Monumento Nacional, como é o caso da Cordoaria Nacional, se fundamente num projecto de conservação e restauro e permita a salvaguarda dos seus valores arquitectónicos e técnicos integrados, não permitindo que se faça uma mera adaptação como parece ser o caso, o que pré-figuraria uma atitude de vandalismo de Estado;

Considerando, portanto, que o projecto em curso se nos afigura completamente desnecessário e impede que as verbas respectivas sejam aplicadas em projectos culturais de verdadeiro interesse público urgente (ex. renovação dos outros museus nacionais sediados em Lisboa, recuperação dos MN em perigo de desclassificação pela UNESCO, qualificação da Cordoaria Nacional, como monumento técnico significativo da actividade marítima portuguesa, etc.);

Os abaixo-assinados requerem a Vossas Excelências uma intervenção rápida no sentido de travar o projecto em curso do novo museu dos coches, garantindo assim a manutenção, nos espaços actuais, do Museu Nacional dos Coches e do Museu Nacional de Arqueologia e a conservação da integridade física e técnica original da Cordoaria, enquanto monumento nacional de interesse internacional.
Paulo Ferrero, Bernardo Ferreira de Carvalho, Jorge Santos Silva, Fernando Jorge, Luís Marques da Silva e Renato Grazina
S.F.F, Assine e DIVULGUE:

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O galo de Barcelos e outras histórias...

Sendo o galo de Barcelos um dos ícones da portugalidade, é curioso como tão pouco se sabe sobre a sua criação, enquanto peça artesanal e enquanto símbolo. Sim, porque isto de criações, mesmo na vertente mais longue durée da cultura popular tradicional, tem uma origem, por muito longínqua ou vaga que ela possa ser.
Não, não estou a referir-me à lenda sobre o galo de Barcelos, mas sim à fixação desta figura do artesanato popular como ícone da portugalidade. Foi o salazarismo que o consagrou (naquele formato padronizado a preto e encarnado, com um coração inscrustado a pontilhado e base azul desmaiado, repetido ad nauseum), anexando-o ao seu programa de nacionalização e domesticação de aspectos «castiços» do folclore português. Na euforia nacionalista dos «magriços» de 1966, o galo de Barcelos foi vestido de cavaleiro medieval, calçado com chuteiras e de bola nos pés, como relembra Ana Santos. Em pleno PREC, os anarquistas desmontaram o ícone no seu cartaz «Ruim por ruim... vota em mim!...», figurando um exemplar atazanado. Há quem se lhe refira como um falso emblema nacional, mas a renovação do artesanto local por artistas populares como Rosa Ramalho, irmãos Baraça, Mistério e Júlia Côta, entre outros, permitiu que ele não ficasse refém dum estereótipo nacionalista, embora o comércio prossiga na sua uniformidade cansativa e, agora, transfronteiriça (o made in China tem sido o quebra-cabeças dos de Barcelos).
Há uns anos atrás, deparei-me com um artigo que falava da invenção deste ícone na I República. Infelizmente, não consigo localizar esse texto, mas não é de surpreender a datação, pois esse foi um período de redescoberta e reinvenção dum país com base nalgumas das suas tradições, costumes, gentes, monumentos e paisagens, fosse numa perspectiva mais de esquerda ou de direita. A título de exemplo, veja-se o Guia de Portugal, lançado por Raúl Brandão.
Vem este arrazoado a pretexto do último programa televisivo Câmara Clara, onde falaram dois peritos em museologia, Joaquim Pais de Brito e Raquel Henriques da Silva.
O tema era museologia e, a dada altura, saltou-se para o Museu de Olaria, onde está patente, até 2010, a mostra antológica «Rosa Ramalho: a colecção», dedicada à famosa artista popular barcelense.
O Museu da Olaria tem um grupo de amigos, a Amimuola, a exemplo dos Amigos do Museu do Trajo, de S. Brás de Alportel, e doutros. Este tipo de associações são um fenómeno novo, pois antes era exclusivo dalguns museus nacionais, como o MNAA ou a Cinemateca. São uma boa ideia, pois ajudam a promover estes museus locais e, desse modo, o próprio desenvolivmento local.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Tudo isto é fado

Felizmente que nem tudo são más notícias quanto ao panorama museográfico luso (e à CML), como o atesta a reabertura do Museu do Fado, em Lisboa, no passado dia 2 (após 7 meses de obras de requalificação).
Este museu, da responsabilidade do município alfacinha e situado em Alfama, apresenta agora um novo programa museológico, com postos de consulta que permitem o acesso digital ao seu espólio. Imagens, repertórios, registos áudio, biografias, programas de espectáculos e pautas estão assim mais facilmente acessíveis.
Até final do ano, também nele se poderá apreciar o famoso quadro «O fado», que José Malhoa pintou em 1910 e aqui reproduzido. Estão ainda presentes outros pintores, como Constantino Fernandes e Júlio Pomar.
É um museu que aproveita muito bem o espaço modesto e que faz muito sentido: o seu modelo devia ser mais seguido, pois aposta numa singularidade, num aspecto da cultura portuguesa que é único e singular, não existindo em mais nenhum país.
A sua directora anunciou ainda que em 2009 será apresentada a candidatura do fado a património da UNESCO, para que a canção lisboeta "tenha a consagração que merece".
Outras fontes: Fado.com e Público.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Legendagem

Ir a uma exposição em que as legendas das peças são o que está melhor, não será bom sinal. E, de facto, não foi. Falo da exposição patente na Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, Olhares curzados sobre Arte e Islão. Mostra insignificante e de representatividade questionável, mas essa não será já uma característica de todas as exposições que por cá vão aparecendo?
A grande novidade aqui, pelo menos para mim, eram mesmo as legendas que remetiam directamente para o título Olhares cruzados..., ou seja, algumas peças tinham a explicação de uma historiadora da Arte (Inês Fialho Brandão), de um historiador (Rui Santos), de um arqueólogo (Cláudio Torres) e de um imã (Sheik David Munir), cada um, consoante os casos, com direito a um parágrafo de cor diferente.
Cruzadismo museológico muito interessante, já que diversas podem ser as leitura dos objectos artísticos, ou quotidianos, ou sagrados por detrás das vitrines.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Museus de Cera

Gosto muito de visitas de estudo. Considero-as momentos privilegiados de aprendizagem e fico muito desanimada quando o não são, o que acontece com alguma frequência nos nossos museus.
Destaco, aqui, dois casos particularmente sinistros do panorama museológico (voltarei ao tema quando me parecer oportuno).

Museu da cidade: logo à entrada, ficamos com a impressão de ir perturbar uma sacrossanta modorra, o que não é desmentido com a chegada da monitora que afivela uma expressão de que representamos a pior altura do seu dia... Como a visita é sobre o séc. XIX, passamos directamente a essa secção, ou seja, a três ou quatro salas que se sucedem e onde estão amontoadas, encafifadas, empilhadas as «fontes históricas» (foi o que a monitora lhes chamou): quadros da partida da família real para o Brasil (motivada, antes de mais, pelo facto de D. Maria não estar «boa da cabeça», também palavras da monitora) junto a gravuras das profissões de Lisboa; um quadro de D. Fernando acompanhado de vários mapas da cidade; tinteiros e outros objectos de escrivaninha encimados por vistas do Passeio Público, tudo num enigmático jogo de associações.
A única regra que parece existir na relação entre gravuras e vitrines, quadros e molduras parece ser a de «enquanto houver espaço...», o que num local maioritariamente visitado por escolas (o que iria outra pessoa lá fazer?!? E mesmo as escolas...) é sempre uma boa estratégia à resistência de materiais: 30 alunos vêem, ao mesmo tempo, os 12 desenhos de profissões que se encontram todos no mesmo expositor.
Acrescento que a visita teve o seu momento interactivo quando a monitora deu a ler excertos, incompreensíveis para os alunos, de obras de Eça de Queirós, em formato de fotocópia devidamente acondicionada dentro de uma mica (porque não os livros?!?).
O museu «termina» com a sala/cubículo dedicada à República, onde exibe, com orgulho, o piano em que foi composta «A Portuguesa». É evidente que o orgulho não vai ao ponto de alguém limpar o pó ao instrumento.

Museu do traje: a mesma modorra, a mesma expressão «calorosa» de boas-vindas. O pó, substituído pelas traças que parecem esvoaçar à volta dos trajes expostos, também, sem grande coerência, novamente um amontoado de manequins que «desfilam» sala, após sala.
Aqui, a jóia da coroa é um vestido de baptizado de um qualquer Bragança...

É difícil encontrar soluções para cenários tão negros. Fechar? Fundir? Dar formação? Despedir?
Proponho, então, que se comece por limpar o pó e matar as traças, por reorganizar as colecções expostas: a família real com o D. Fernando; o Passeio Público com as idas à tourada; os mapas com os mapas, até traçando percursos de acontecimentos e locais, o mais evidente começa pelos «passos» do 5 de Outubro. Seria interessante ouvirem-se os pregões e, na sala da República, «A Portuguesa»
Ter, sobretudo, a noção que não é preciso expôr tudo o que se tem, mas antes criar ambientes: a vida política, a vida social, o espaço público e o espaço privado, que podem ser mais ou menos apelativos se tiverem sons, música, imagens de época, ou até jogos interactivos, como por exemplo, experimentar uma peruca, vestir um saiote (veja-se o excelente trabalho desenvolvido no Victoria and Albert Museum).

P.S. - Agradeço ao Daniel a inspiração para escrever este post.

Imagem: National Wax Museum, Dublin. Site oficial do turismo da cidade (?!?!)