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sexta-feira, 20 de junho de 2008

A macumba saiu errada

Ontem Portugal foi eliminado do campeonato da Europa. Mas não vale a pena chorar sobre leite derramado.

A verdade é que falhámos. Claro que vão dizer que falhámos por culpa do guarda-redes Ricardo, ou do defesa Paulo Ferreira, ou do árbitro.

Mas só eu sei por que é que falhámos e é minha obrigação — e de superior interesse lusitano — dizê-lo aqui. Falhámos porque a macumba chegou tarde e saiu errada. Explico: vários e destacados membros do departamento de Português da Universidade de Rennes reuniram-se ontem aqui em minha casa para ver o jogo com a Alemanha (que o destino veio a revelar fatídico, mas apenas porque o contra-fatídico não chegou a tempo).

Aquilo começou a correr mal, como todos vocês viram, a partir dos 20 minutos, com continuação aos 24 e atenuação só aos 40 e tal.

Pois nós, com uma preguiça nervosa de fim de estação, só com o golo de Nuno Gomes decidimos fazer uma macumba contra os alemães. Só perto do intervalo é que acordámos e seguimos a receita da nossa grande chefe macumbeira.

E a receita foi esta:

Escrevemos o nome do Ballack e do Schweinsteiger em dois papéis diferentes. Escrevemos mais dois com o nome da Alemanha, em português e em alemão. Corremos para a cozinha, pegámos em Polenta (é uma farinha de milho italiana, não havia mandioca, tivemos que recorrer ao que havia), molhámos a Polenta, embrulhámos os quatro papéis na Polenta molhada, colocámos película transparente em volta da mézinha antecedente, enfiámos furiosamente pauzinhos nestes embrulhos para fazer agonizar os alemães. E, claro, no fim pusemos tudo no congelador.

Girei o botão do congelador para o 7, que é o máximo.

Mas era tarde de mais. A congelação revelou-se demasiado lenta e a macumba só começou a fazer efeito com o golo do Postiga, a três minutos do fim. O resultado é este: saímos do Europeu por culpa exclusivamente nossa, isto é, do departamento de Português de Rennes 2.

A única consolação é que a Alemanha não passa das semi-finais. Porque a macumba lá está, no frigorífico, pronta para estragar a vida do Ballack e do lourinho Schweinstai-não-sei-das-quantas.

(por favor, não tentem fazer isto sozinhos em casa e sem a assistência de uma verdadeira baiana. É demasiado perigoso)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O antónimo de Relativismo é: Absolutismo

E o Absolutismo Moral é o princípio e a justificação de todas as intolerâncias. Vem isto a propósito da crónica de Pacheco Pereira "Boomerang" no Público (16/02/2008), e em particular esta citação:

O "multiculturalismo", com o seu forte relativismo cultural, é cada vez mais difícil de compatibilizar com o adquirido civilizacional ocidental. Os valores que consideramos universais, em particular os direitos humanos, são postos em causa pelo relativismo "multicultural", que tende a desvalorizar a universalidade desses conceitos e a substituí-los por "interpretações" culturais que os põem em causa.

O relativismo moral não nos impede de defender perante outros os valores morais/éticos que consideramos justos, nem sequer nos impede de tentar persuadí-los com o uso de uma argumentação racional, e muito menos nos obriga a aceitar e/ou adoptar valores que não são os nossos. Impede-nos apenas, e bem, de impôr, em particular pela força, os nossos valores a quem tem valores diferentes. A única coisa que é posta em causa pelo relativismo "multiculturalista" é a possibilidade do ocidente impôr o seu adquirido civilizacional (o que quer que isso seja) a outros que o não queiram.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

O cosmopolitismo começa no estômago (em jeito de adenda)

Em jeito de adenda ao meu post anterior:
O que dizer de uma Tapenada de Anchovas (receita vagamente italiana) comprada no mercado de domingo (na banca do vendedor aparentemente magrebino) à qual se junta um pouco de piment das Antilhas e se barra numa faita de Pão Saloio?

Adenda à adenda:
E o que dizer daquela Crèperie da rue Mouffetard que de bretã tem muito pouco? O patrão é sul-americano, os empregados falam todos espanhol excepto uma senegalesa. Os recheios dos crepes variam entre a Ratatouille (que sendo francesa é mediterrânica), o Salmão fumado do Mar do Norte, e o Chilecito (que do pouco que sei parece ser um guisado da Argentina). Para que o desrespeito pela tradição bretã não seja total, pode sempre beber-se uma cidra.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Cosmopolitismo: Os Libaneses e as Sanduíches

Uma nota prévia: Como já foi referido algures aqui no Peão, Cosmopolitismo e Multiculturalismo não são a mesma coisa (encontrei uma boa explicação da diferença aqui). Eu próprio confundi os dois em posts anteriores, fica aqui o esclarecimento, entre um e outro prefiro sem hesitações o Cosmopolitismo. O Cosmopolitismo cria pontes onde o Multiculturalismo ergue barreiras. Aliás, até mais do que pelo Cosmopolitismo sou mesmo é pela Misturas, pela Miscigenação.

E nas minhas deambulações (sobretudo por Paris, mas não só) cheguei à conclusão que o Cosmopolitsmo começa pelo estômago, ou se quiserem pelas papilas gustativas. Não conheço maneira mais fácil de começar a criar pontes entre comunidades do que a gastronomia. Veja-se o exemplo das Sanduíches Libanesas no Quartier Latin. Há várias casas que se dedicam ao negócio, mas a mais aconselhável é "Au Vieux Cèdre" (187 rue St. Jacques, ou 2 rue Blainville). Como quem não quer a coisa as sandes são baratinhas. Kefta ou Mahkaneke, ou melhor ainda Chiche Taouk (frango marinado em alho e lima), enrolado em pão tipo pita com salada e molho, e para quem quiser - o que é definitavamente uma boa ideia - um complemento de batata à la Libanaise. A sandes é depois tostada tipo panini - uma delícia! Em momentos de não rara simpatia o cliente tem o direito a um chá libanês - com menta e tomilho e mais alguns ingredientes, estamos em negociações para obter a receita - oferta da casa para compensar a espera (que é, em média, de 3m42s). Há ainda sobremesas como a irresitível Balohria, à base de flor de laranjeira. "Au Vieux Cèdre" é também um local de encontro com um pouco, por pouco que seja, da cultura libanesa, pelo menos a música, que toca em permanência. Mas pode ser também um ponto de contacto com a vida política do Líbano. Durante a Guerra do ano passado fez-se circular muita informação sobre as acções de solideriedade para com o Líbano decorridas em França, e blogues libaneses. Rentemente o "Au Vieux Cèdre" lançou uma nova sanduíche, a Fajita. E agora pergunta o leitor: Fajita? Mas isso não é mexicano? E responde este vosso bloguer: é mexicano, mas numa sandes libanesa é daqui (e aperta o lóbulo da orelha direita entre o polegar e o indicador), uma maravilha!

Sendo a concorrência na área das sanduíches libanesas díficil, uma outra família de libaneses decidiu diversificar. Abriram o "Pains, Salades et Fantesies" (22 rue Gay Lussac, mesmo ao pé do Jardin du Luxembourg). O nome diz tudo quanto ao tipo de comida que servem. Não se pode é dizer que seja um tipo de gastronomia calssificável pelos padrões canónicos. Não é libanês, nem francês, nem outra qualquer etnicidade, é uma misturada, e da boa. Paninis de salmão fumado, ou frango, ou vegetariano à base de beringela. Saladas "Californianas" ou de marisco, ou "Tropical". Uma variedade de escolha apreciável, e a confecção muito boa (só é pena ser tudo muito saudável). Nas sobremesas é absoulutamente imperdível o "Fraicheur", iogurte natural, com folhas e menta e passas. Tudo isto num ambiente muito tranquilo onde se ouve um Jazz muito "select" a décibeis reduzidos, numa decoração neo-eco soft vegi-friendly e onde se podem ler jornais escritos em árabe. Os preços são mais do que acessiveis, e o serviço é rápido (excepto quando a clientela bcbg exagera na especificações pós-modernas da condimentação; é um risco real), a degustação essa convém que seja lenta e "sur place".

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Multiculturalismos literários (e cinematográficos)

Já todos os suplementos literários recentes analisaram o actual papel das mulheres indianas na literatura. Arundathi Roy, nascida em Shillong, Meghalaya e a viver em Nova Deli, foi, de alguma forma, a percursora deste movimento, ao ganhar o Booker Prize de 1997 com o seu livro The god of small things (O Deus das pequenas coisas. Asa), fábula familiar de contornos políticos de denúncia do sistema de castas. Aliás, a autora, não tem escrito ficção para se dedicar ao activismo político.
Nove anos depois, em 2006, outra indiana ganha o Booker, Kiran Desai, nascida em Nova Deli, residente nos Estados Unidos, filha de Anita Desai, três vezes nomeada para o mesmo prémio. O livro chama-se The inheritance of loss e foi já traduzido para português (A herança do vazio. Porto Editora), história intimista, também com uma incursão política que ofendeu o Nepal.
O destaque, agora, vai para Abha Dawesar de Nova Deli, a viver em Nova Iorque que causou sensação no Salão do Livro de Paris, com o título Babyji, já lançado no nosso país pela Asa, cujo enredo segue as descobertas (homo)sexuais de uma adolescente indiana e já foi classificado como muito à la Philip Roth.
E toda esta introdução para falar da até agora minha favorita, Jumpa Lahiri, nascida em Londres e criada nos Estados Unidos. Tem um belíssimo livro de contos The interpreter of maladies (O intérprete de enfermidades. D. Quixote), Prémio Pulitzer em 2000 e um romance The Namesake (O Bom Nome. D. Quixote), adaptado ao cinema, já este ano, pela também indiana Mira Nair (em exibição, mas eu ainda não vi). Talvez por ser a «menos» indiana de todas, a escritora tem procurado nestes livros reflectir sobre a identidade daqueles que vivem num país que funciona em simultâneo como país de origem e de acolhimento. As personagens debatem-se com o que os pais indianos neles projectam: a perpetuação da cultura de origem a milhares de quilómetros de distância, e a sua própria vivência num país onde nasceram. Esse conflito é, sobretudo, realçado no que diz respeito aos hábitos alimentares e à escolha de uma noiva/o, como se o corte, ou pelo contrário, o prolongamento com as raízes passasse pelos sabores originais e pela formação de um novo núcleo familiar. Acho as questões muito interessantes: quantos serão precisos a comer o quê e a apaixonar-se por quem para que se mantenha uma identidade? E será mesmo aí que reside o nosso sentimento de pertença a um lugar?

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Multiculturalismo (III) - Nas palavras de Gilberto Gil

Este Samba de Gilberto Gil basicamente resume o que penso do Multiculturalismo. Para quem quiser ouvir, já está a tocar no DJ Peão

De Bob Dylan a Bob Marley - Um Samba Provocação
Gilberto Gil (1989)

Quando Bob Dylan se tornou cristão
Fez um disco de reggae por compensação
Abandonava o povo de Israel
E a ele retornava pela contramão

Quando os povos d'África chegaram aqui
Não tinham liberdade de religião
Adotaram Senhor do Bonfim:
Tanto resistência, quanto rendição

Quando, hoje, alguns preferem condenar
O sincretismo e a miscigenação
Parece que o fazem por ignorar
Os modos caprichosos da paixão

Paixão, que habita o coração da natureza-mãe
E que desloca a história em suas mutações
Que explica o fato da Branca de Neve amar
Não a um, mas a todos os sete anões

Eu cá me ponho a meditar
Pela mania da compreensão
Ainda hoje andei tentando decifrar
Algo que li que estava escrito numa pichação
Que agora eu resolvi cantar
Neste samba em forma de refrão:

"Bob Marley morreu
Porque além de negro era judeu
Michael Jackson ainda resiste
Porque além de branco ficou triste"

quarta-feira, 28 de março de 2007

Multiculturalismo (II) - Os heróis que vêm da banlieue

Há quem ache que a política francesa de integração falhou, eu não. Acho que não sendo excelente foi até bastante boa, e estou a falar dos últimos 30-40 anos. A par de alguns erros, nomeadamente de urbanismo nas periferias das grandes cidades, as banlieues, a França é hoje um país multicultural e cosmopolita. Talvez por essa integração ter realmente acontecido, mesmo contra a vontade de uma parte da população conservadora e reaccionária, a extrema-direita tenha hoje algum peso político. Aliás o principal perigo de uma eventual eleição de Sarkozy é precisamente o mais que certo retrocesso nessas políticas de integração, e as tensões sociais que isso vai causar. Coincidência ou não duas das figuras públicas, ou talvez mesmo AS duas figuras públicas fora do mundo da política que mais oposição têm feito a Sarkozy nos últimos tempos (leia-se 1-2 anos) são dois exemplos de sucesso da integração, dois "heróis" saídos da Banlieue: o futebolista Lilian Thuram e o comediante Jamel Debbouze.

Lilian Thuram é "só" o jogador com mais internacionalizações da história do futebol francês, e continua aí para as curvas, depois de ser campeão mundial e europeu, ter ganho tudo na Juventus, aos 34 anos ainda joga no Barcelona e na selecção francesa. No fim-de-semana passado foi - finalmente - capitão de equipa no jogo contra Lituânia. Lilian Thuram é francês nascido nas Antilhas, mais precisamente na Guadeloupe, mas veio para a metrópole ainda com 9 anos, e começou a carreira nas camadas jovens do clube "Portugais de Fontainebleau". Mas Thuram é mais que o seu futebol, é membro do Alto Conselho para a Integração, e toma posições políticas geralmente com bastante impacto. Quando estava na ordem do dia a crise dos sans-papiers de Cachan, numa atitude simbólica ofereceu-lhes bilhetes para irem ver o jogo França - Itália (contei a história aqui), ou a seguir ao campeonato do mundo deu uma entrevista de fundo ao InRockuptibles (a provar a sua inteligência, mostra que conhece o seu público alvo) em que lançou a expressão "La Sarkoïsation des esprits", como referiu na altura o peão Hugo. Quando Thuram fala em público, Sarkozy ressente-se.

Jamel Debbouze é um comediante hilariante, é o descendente de imigrantes de sucesso, árabe nascido em Paris de família marroquina, passou até uma parte da infância em Marrocos. Começou a carreira da radio, passou para a televisão e para o cinema ("O Fabuloso destino de Amélie Poulain", "Astérix e Cleópatra", "Angel-A", etc...). O talento não é só como comediante, mas também como produtor, foi co-produtor do filme "Indigènes" nomeado para os óscares e produz vários jovens comediantes. Jamel não esquece de onde vem, e os comediantes que tem lançado vêm do mesmo meio que ele, o caldo cultural da integração francesa. O seu espectáculo mais recente "Jamel Comedy Club" é um show de "stand-up" em que participam os mais novos talentos que Jamel está a lançar, vindos das banlieues, oriundos das mais diversas origens culturais, o que o Libération chamou "Jameltting Potes" (fantástico jogo de palavras). Naturalmente a sua vivência das banlieues, e o tal caldo de cultura é um dos temas, senão o tema que mais usa para fazer humor. Outro tema é Zidane, com quem Jamel tem uma relação especial, Jamel marcou um golo no jogo contra a pobreza a passe de Zidane, e já lhe fez uma declaração de amor em cena (não é preciso perceber o que diz Jamel, veja-se a reacção do público e de Zidane). Fica aqui para amostra um vídeo em que Jamel relata um golo de Zimzou - perdão - Zizou, podem ver o referido golo no fim para comparar.


domingo, 25 de março de 2007

Multiculturalismo (I)

Há ali um restaurante turco onde aqui o tuga vai amiude comer uma sanduiche grega (discutivelmente a melhor Donner "sauceblanchesaladetomateongion" de Paris), e não é apenas o tuga, também lá vão a amiga antilhesa, o vizinho argelino do supermercado e mais uma rapaziada daqui do bairro de diversas origens africanas, entre outros. O restaurante tem um empregado novo, que é do Bangladesh e fala muito pouco francês, o pouco francês que fala é o patrão (turco) que lhe vai ensinado, mas a maior parte do tempo falam em inglês.

sexta-feira, 23 de março de 2007

Disseram "multiculturalismo"?

Na capa de "Público" de hoje:

"Uma mulher de origem marroquina mas com passaporte alemão, com 26 anos e dois filhos, pediu ao tribunal de família de Frankfurt autorização para se divorciar rapidamente do marido, que lhe batia e ameaçava matá-la. A juíza que apreciou o caso considerou que não havia pressa, porque o casal é de cultura muçulmana e o Corão autoriza os maridos a castigar as mulheres."

P.S. - Isto é para antecipar o emblema que deve estar aí para vir de que o blogue é "multicultural" :)))