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domingo, 18 de outubro de 2009

Fogo acaba com acervo de Hélio Oiticica

Pelo menos 90% das obras do artista plástico tropicalista Hélio Oiticica foi destruída devido a um incêndio na noite de ontem no primeiro andar da casa da família. Lá estavam abrigadas mais de 1.000 peças do acervo do “Projeto Hélio Oiticica” e quase nada se salvou.

A expressão “Tropicália” teve origem em um projeto ambiental do então arquiteto Oiticica na exposição “Nova Objetividade Brasileira”, exposta no MAM no Rio de Janeiro em 1967. Esta mostra teve como objetivo a busca de uma linguagem estética puramente brasileira, confrontando-a com os grandes movimentos artísticos mundiais.

O vídeo “H.O” (aqui dividido em 2 partes), de Ivan Cardoso (1979), focaliza a obra de Oiticica, com texto poético de Haroldo de Campos. Participam também: Caetano Veloso, Carlinhos do Pandeiro, Ferreira Gullar, Lygia Clark, Nildo da Mangueira, Nininha e Waly Salomão. Mais.

domingo, 14 de junho de 2009

IMAGEM DOMINICAL

Gal Costa (1977)

Mamãe, Coragem” - Torquato Neto/Caetano Veloso

Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo eu fui embora
Mamãe, mamãe não chore
Eu nunca mais vou voltar por aí
Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo eu quero mesmo é isto aqui
Mamãe, mamãe não chore
Pegue uns panos pra lavar, leia um romance
Veja as contas do mercado, pague as prestações
Ser mãe é desdobrar fibra por fibra os corações dos filhos
Seja feliz, seja feliz
Mamãe, mamãe não chore
Eu quero, eu posso, eu quis, eu fiz, Mamãe, seja feliz
Mamãe, mamãe não chore
Não chore nunca mais, não adianta eu tenho um beijo preso na garganta
Eu tenho um jeito de quem não se espanta (Braço de ouro vale 10 milhões)
Eu tenho corações fora peito
Mamãe, não chore, não tem jeito
Pegue uns panos pra lavar leia um romance
Leia "Elzira, a morta virgem", "O Grande Industrial"
Eu por aqui vou indo muito bem , de vez em quando brinco Carnaval
E vou vivendo assim: felicidade na cidade que eu plantei pra mim
E que não tem mais fim, não tem mais fim, não tem mais fim

quinta-feira, 29 de maio de 2008

40 anos do “Tropicália ou Panis Et Circensis”





exatos 40 anos nascia o que poderíamos chamar de Manifesto Tropicalista. O “Tropicália ou Panis Et Circensis” foi gravado sob a efervescência de Maio'68 e se opôs frontalmente à retórica conservadora e nacionalista dos produtores culturais tupiniquins. Foi um disco emblemático, rico em critica social e de costumes da época. Queiram ou não, foi a Tropicália que propôs uma ruptura estética e comportamental. Musicalmente, soube como mesclar a contracultura dos anos de 1960 com as vanguardas artísticas mais radicais, como a antropofagia” do Modernismo Brasileiro (década de 1920) e a Poesia Concreta (década de 1950). Com uma linguagem bem alegórica, não teve o menor pudor em valer-se de várias vertentes e estilos musicais. "Tropicália ou Panis Et Circensis" foi a obra-prima que marcou definitivamente a MPB, diga-se.

Criada pelo artista plástico Rubens Gerchman (1942 – 2008) e com a fotografia de Oliver Perroy , a capa do Tropicália foi uma paródia da capa do “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band” ( Beatles) com pitadas tropicalistas. Na foto aparecem Tomvestido com terno e segurando uma maleta, o penico como xícara nas mãos de Rogério Duprat, Gilberto Gil “fantasiado" de sgt. pepper, a saia e o penteado caipira de Gal Costa, o retrato de formatura do curso normal de Capinan, a seriedade dos “palhaços” Os Mutantes, a boina de Torquato Neto e Caetano Veloso segurando o retrato de Nara Leão. A contracapa traz um texto de um suposto roteiro cinematográfico escrito por Caetano Veloso, onde as personagens são os próprios tropicalistas travando um diálogo caótico e irreverente, que mistura Celly Campelo, Pixinguinha, Jefferson’s Airplane, a "the apple boutique” (a loja dos Beatles) e João Gilberto.

Depois do lançamento do disco, Caetano Veloso se apresenta em São Paulo, em setembro, no 3° Festival Internacional da Canção (FIC) com a cançãoProibido Proibir”. O uso de guitarras elétricas não agrada o público, que responde com uma forte vaia e lança tomates no palco. O cantor reage com um inflamado e emocionado discurso. Depois disso, em 27 de dezembro, ele e Gilberto Gil são expulsos do Brasil. Eram dias de chumbo da ditadura militar e o fim da Tropicália.

Ouça aqui a integra do discurso de Caetano Veloso.

As músicas do disco: os arranjos são de Rogério Duprat com produção de Manuel Berembeim.

01- Miserere Nóbis (Gilberto Gil/Capinan) Gilberto Gil
02- Coração Materno (Vicente Celestino) Caetano Veloso
03- Panis Et Circensis (Gilberto Gil/Caetano Veloso) Os Mutantes
04- Lindonéia (Caetano Veloso) Nara Leão
05- Parque Industrial (Tom ) Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Os Mutantes
06- Geléia Geral (Gilberto Gil/Torquato Neto) Gilberto Gil
07- Baby (Caetano Veloso) Gal Costa e Caetano Veloso
08- Três Caravelas (A. Algueiró Jr./G. Moreau/ Versão João de Barro) Caetano e Gilberto Gil
09- Enquanto Seu Lobo Não Vem (Caetano Veloso) Caetano Veloso
10- Mamãe, Coragem (Caetano Veloso/Torquato Neto) Gal Costa
11- Bat Macumba (Gilberto Gil/Caetano Veloso) Gilberto Gil
12- Hino ao Senhor do Bonfim (João Antonio Wanderley) Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Os Mutantes.

domingo, 9 de setembro de 2007

Tom Zé está constipado

Aproveitando a "febre tropical" que anda no Peão, gostaria de deixar o meu humilde testemunho: apesar de ser académico, não tenho uma grande paixão pela vertente bossa da música brasileira (como também não sou um coleccionador de jazz nem costumo trabalhar ao som de ópera - por favor, não contem a ninguém se não sou banido da comunidade científica...).

Há, no entanto, um artista que me "tira do sério": Tom Zé. Passo a enumerar duas ordens de ideias para que tal aconteça:


1) Por canções e letras como esta:



















2) Por ser visita frequente no programa do Jô (o que em si não tem, no fundo, nada de especial) e fazer questão de se esmerar na vestimenta ridícula (aqui sim, é digno de louvor):



P.S. Não sei se repararam, mas há uma epidemia de gripe no palco e na plateia do Jô.

Tropicália (parte 1)

Filme elaborado para um seminário de Antropologia. Ver segunda parte no DJPeão.

sábado, 8 de setembro de 2007

O espólio tropicalista*

Foi na paralisia da bossa nova e a alienação da jovem guarda [1] que surge em São Paulo a Tropicália (1967 - 69), movimento que agregava não só a música, mas também as artes plásticas de Hélio Oiticica, o cinema de Glauber Rocha e o teatro, com montagens dirigidas por Zé Celso Martinez. Tendo como protagonistas a musicalidade de Gilberto Gil e Caetano Veloso (mais a irreverência de Tom Zé e Os Mutantes), a poesia de Torquato Neto e José Carlos Capenam e a genialidade do maestro Rogério Duprat nos arranjos , os tropicalistas se opõem frontalmente à proposta de MPB da época, que já nascia caduca, sem imaginação e com um blablablá puramente nacionalista, que infelizmente monopolizava os discursos de cantores, compositores e outros produtores culturais.

Com uma linguagem poética alegórica e uma música que não tinha pudores em misturar o erudito, o popular brasileiro e o pop rock, o tropicalismo tenta trazer à luz as contradições próprias da sociedade brasileira, mostrando o moderno e o arcaico, o nacional e o estrangeiro, o urbano e o rural, o progresso e o atraso de um Brasil que era sufocado por uma ditadura militar e uma classe média ainda enfeitiçada pela american way of life. Por isso, pagou um preço alto: foi recusado pela esquerda, desterrado pela direita e esquecido por todos os brasileiros.

Passados quase 40 anos, a crítica européia e norte-americana parecem ter descoberto na Tropícalia uma sedutora escola de vanguarda da world music (expressão criada por coincidência com o lançamento, em 1989, de Beleza Tropical, uma coletânea de MPB produzida pela gravadora de David Byrne, ex-líder do Talking Heads). Assim, músicos como Tom Zé e Os Mutantes ganham das platéias estrangeiras o reconhecimento que nunca tiveram no Brasil, um país hoje entorpecido pelo lixo musical da axé-music, do pagode meloso e nojento e do sertanejo travestido de caubói terceiro-mundista. Em suma: a jovem guarda tupiniquim não morreu e o samba sepultou a bossa. E a Tropicália? Bem, essa foi enterrada viva sem qualquer ressentimento e seu espólio é agora disputado por alguns produtores musicais europeus e norte-americanos. E Pindorama [2] acha tudo “Divino Maravilhoso” [3].
Nb: Capa do disco, gravado em 1967. Na foto aparecem em cima: Mutantes ( com o Caetano do lado da Rita Lee) e Tom Zé( à direita). Em baixo: Rogerio Duprat (segurando o penico) , Gal Costa e Capenan. Em primeiro plano, Gil, com uma foto de Torquato Neto.
_____
[1] A jovem guarda brasileira foi um movimento musical e comercial (mais comercial que artístico), liderado por Roberto Carlos, que surge em 1965 (portanto, logo depois do golpe militar), cujo maior objetivo não era a música propriamente dita, mas divulgar programas de televisão, revistas, filmes, bijuterias, vestuário, gírias produzidas nas agências de publicidade e todos os subprodutos correlatos. Musicalmente, o estilo "jovem guarda", também chamado de "iê-iê-iê" por influência do "yeah, yeah, yeah" dos Beatles, pode ser resumido como uma mistura de qualidade duvidosa do pop rock europeu, twist, bossa nova e até marchinha. Ou seja, não tem nada que se aproxime da frase de Vladimir Lênin, em seu discurso quando da tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia : "O futuro pertence à jovem guarda porque a velha está ultrapassada".

[2]Em tupi, também significa “Terras das Palmeiras” e era o nome dado ao Brasil pelos índios tupis.

[3]Música de Caetano Veloso e Gilberto Gil, com produção musical de Rogério Duprat, gravada pela Gal Costa, em 1969. “Atenção ao dobrar uma esquina/ Uma alegria, atenção menina/ Você vem, quantos anos você tem?/ Atenção, precisa ter olhos firmes/ Pra este sol, para esta escuridão/ Atenção/ Tudo é perigoso/ Tudo é divino maravilhoso/ Atenção para o refrão/ É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte/ Atenção para a estrofe e pro refrão/ Pro palavrão, para a palavra de ordem/ Atenção para o samba exaltação/ Atenção/ Tudo é perigoso/ Tudo é divino maravilhoso/ Atenção para o refrão/ É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte/ Atenção para as janelas no alto/ Atenção ao pisar o asfalto, o mangue/ Atenção para o sangue sobre o chão/ Atenção/ Tudo é perigoso/ Tudo é divino maravilhoso/ Atenção para o refrão/ É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte”.

*Manolo Piriz