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sábado, 26 de março de 2011

Semeadores de tempestades

«Le FN [Front National] suspend son candidat photographié en plein salut nazi»

terça-feira, 14 de setembro de 2010

UE avança judicialmente contra expulsão de ciganos por Sarkozi

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O regresso da memória incómoda

> julgamento do massacre do Bloody Sunday irlandês: «O pesadelo das vidas deles chegou ao fim», por Ana Fonseca Pereira
> a discriminação da população cigana na França de Vichy e na da «libertação»: «"Há ecos de Vichy que fazem hoje muito medo"» [entrevista ao cineasta Toni Gatlif], por Pedro Rosa Mendes

> memória da Guerra civil de Espanha: «Os medos da guerra civil continuam vivos», por Carlos Pessoa

Nb: sobre a memória da Guerra civil de Espanha na histografia portuguesa vd. este texto de Manuel Loff; para informação sobre a mesma no blogue do ex-movimento cívico Não apaguem a Memória! vd aqui. Na imagem, reprodução de foto incluída na recente exposição «Presas de Franco» (Centro Cultural Conde Duque).

domingo, 16 de maio de 2010

O cinema contra os silêncios políticos

Os filmes incómodos:
Draquila, l'Italia che trema, de Sabina Guzzanti [sobre a farsa da reconstrução da cidade L'Aquilla pós-terramoto e sua encenação para promoção de Berlusconi
Hors-la-loi, de Rachid Bouchareb [polémica sobre episódio da libertação argelina: o massacre de Setif]
O festival que os divulga: Cannes
Uma notícia relativa à perseguição ao segundo filme: «La polémique enfle autour du film "Hors-la-loi"»
Uma intervenção de cientistas sociais sobre as guerras da memória: «Le film "Hors-la-loi" de Rachid Bouchareb : les guerres de mémoires sont de retour»
Uma reportagem que destaca ambos os filmes: «A política meteu-se no cinema», por Vasco Câmara

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Joaquim Vital (1948-2010): exilado em Bruxelas e Paris, mentor da Éditions La Différence

A biografia de Joaquim Vital é marcada pela prisão, aos 16 anos, pela ditadura de Salazar. Foge para Bruxelas, e, 7 anos mais tarde, para Paris, onde criaria a editora La Différence, em 1976, já depois de ter voltado a Portugal e de não ter gostado do rumo das coisas. A La Différence editou mais de 1600 títulos, incluindo c. de 120 pertencentes a autores portugueses, o que significa uma impressiva divulgação da literatura portuguesa em França. Foi ainda autor de 4 livros, dispersos pelo ensaio, memórias e ficção (vd. aqui).

+inf. em «Joaquim Vital: literatura portuguesa em França era com ele», por Vítor Belanciano; e «Joaquim Vital (1948 -2010)», por Maria Luiza Rolim.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Identidade Nacional: Proponho que se discuta o caso dos polícias que andavam a roubar imigrantes legais

A França está em pleno debate sobre a identidade nacional, o grande debate de toda a sociedade que Sarkozy desejou, e que o seu ministro da imigração e identidade nacional (sic) tornou realidade (sobre o que já escrevemos aqui no Peão . A coisa está deveras interessante. Para começo de conversa, o ministério da identidade nacional enviou umas circulares com instruções sobre o que se devia discutir no tal grande debate nacional, e lá constava a relação entre a imigração clandestina e a delinquência (toda a gente sabe que esses malandros vêm para cá só para roubar, mas vindo do ministério tem outra legitimidade); só que depois o tal tema desapareceu dos documentos oficiais, como quem não quer a coisa. É o actual ministro, Besson, a seguir as pisadas do seu antecessor, Hortefeux, que acha que um árabe numa reunião do seu partido é uma coisa boa, quando há muitos árabes juntos é que é um problema; mas depois também veio dizer que não disse aquilo que tinha dito. Neste debate lá está também, como não podia deixar de ser, o presidente da junta, na circunstância de Gussainville - uma terriola com 40 habitantes -, eleito pela UMP de Sarkozy, que acha que este debate é essencial porque "está na altura de reagir, pois que senão vamos ser todos comidos" porque eles são "já 10 milhões pagos por nós para não fazerem a ponta dum corno"; está bom de ver, este também não é racista (vale a pena ler a justificação que faz jus ao velho "pior a emenda que o soneto"). Vá-se lá saber porquê há quem no próprio partido da maioria ache que a coisa não está a correr bem e se distancie da iniciativa.

Ora, se é para discutir a relação entre a imigração e a criminalidade eu sugiro humildemente que se discuta este caso ocorrido a semana passada em Paris, que demonstra definitivamente que existe uma relação causa-efeito entre imigração e criminalidade: dois polícias da secção encarregue da imigração ilegal entram numa loja de telemóveis, propriedade de imigrantes, sob pretexto de levar a cabo um controlo de identidade, e de passagem pela caixa dão uma baixa no imigrante. Podem ver o vídeo aqui em baixo, e sim, são mesmo polícias, no exercício das suas funções, sigam o link para ler a história toda.


sábado, 14 de novembro de 2009

Da liberdade de expressão no país da identidade nacional

Marie NDiaye ganhou o pémio Goncourt este ano, com o seu romance "Trois femmes puissantes" (um história de vidas despedaçadas entre França e África, não li mas estou com imensa vontade). Marie NDiaye, e a família (companheiro e três filhos) vivem em Berlin desde que Sarkozy se tornou presidente da república francesa. Mudaram-se essencialmente por razões políticas. Marie NDiaye numa entrevista ao "Les InRockuptibles" afirmou que considera a França de Sarkozy "monstruosa" e que acha "detestável esta atmosfera policiesca e vulgar... Besson, Hortefeux [actual e anterior ministros da Identidade Nacional e Imigração], toda essa gente, acho-os montruosos". São opiniões, cada um tem a sua, NDiaye tem esta. O deputado Eric Raoult, da UMP (partido de Sarkozy), tem outra, acha que NDiaye não tem direito a expressar-se. Raoult não manifesta o seu desacordo, nem se digna contra-argumentar as opiniões da escritora, simplesmente que ela devia estar calada. Repare-se na pérola de raciocínio: Raoult considera que NDiaye tendo ganho o mais prestigiado prémio literário francês se torna de certo modo numa embaixadora de França, e como tal não deve criticar o seu presidente da república, Raoult inventa assim um suposto "dever de reserva" (sic) para os vencedores do prémio Goncourt, com o apoio generalizado do seu partido. Ou seja, na cabeça desta gente, para se ganhar prémios literários (ou quaisquer outros, imagina-se) há que abster-se de criticar sua excelência, o presidente da república. Estranho conceito de liberdade de expressão. NDiaye, que antes de ter conhecimento da posição de Raoult até admitia que as suas próprias afirmações eram algo excessivas, mantém inteiramente o que disse, enquanto Bernard Pivot, membro do júri do prémio Goncourt é bem claro no desmentir a existência do tal "dever de reserva". E tudo isto ocorre em França, quando se debate a identidade nacional, como referiu o André. O que me leva a colocar uma questão: teria Raoult atacado o vencedor do prémio Goncourt se ele/a se chamasse Lefèvre, e tivesse um pouco menos de melanina na pele?
P.S. - Vale a pena ler "Entre a voz da Frente Nacional e a dum escritor livre, há que escolher" por Christian Salmon.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Eu não podia estar mais de acordo com Sarkozy

O presidente francês - mailo seu pressuroso ministro da Imigração e da Identidade Nacional (sic) Éric Besson - acha que o debate sobre a identidade nacional é necessário.

Eu não podia, se o texto acabasse aqui, estar mais de acordo com Sarkozy. E até podia continuar 100% de acordo, se retirasse certas frases do seu contexto:

É com esta política da avestruz sobre a identidade nacional que deixamos o terreno livre para todos os extremismos".

Mas o contexto é tudo - e o debate necessário de que agora se fala é pura poeira atirada para os olhos (de la poudre aux yeux). A identidade nacional de Sarkozy é baseada na exclusão da diferença cultural, a qual diferença é logo amalgamada com o extremismo religioso (junto à conversa sobre a identidade nacional vem agora, como "soundbyte", a conversa sobre a proibição da "burka" na rua).

Pois é: eu não podia estar mais de acordo com Sarkozy. A identidade nacional tem de ser debatida. Mas não porque esteja demasiado ameaçada. E o debate teria de ser todo diferente, não telecomandado pelo ministro da expulsão dos imigrantes (é o verdadeiro nome do ministério).

Política da avestruz é não perceber que a identidade nacional entrincheirada em si mesmo, na tal da aldeia global, para além de ser uma forma vil de fazer salivar o eleitorado xenófobo, se torna em mais uma forma de comunitarismo.

PS: continuando a descarregar a bílis, sugestão de lema épico para o sarkozysmo (não só francês) em versão europeia. Extraído dos Lusíadas, canto I, estância 64, fala Vasco da Gama:

"não sou da terra, nem da geração
das gentes enojosas de Turquia,
Mas sou da forte Europa belicosa"

sábado, 10 de outubro de 2009

50 anos dum poder local especial...

...o da aldeia gaulesa de Astérix e Obélix!! Isso mesmo, as Aventuras de Astérix festejam o redondo feito este mês, e já têm festa a preceito: o lançamento da bd comemorativa O aniversário de Astérix e Obélix - o livro de ouro, com estreia mundial às 0h00(,01s?) de 22 deste mês.

Os contornos do futuro 'banquete' foram anteontem revelados pelo desenhador Albert Uderzo e pela filha do argumentista René Goscinny, Anne Goscinny.

O pequeno mundo dos «irredutíveis gauleses» teve a sua estreia a 29/X/1959, no 1.º n.º da revista francesa Pilote. A dupla Goscinny & Uderzo prosseguiu com esta epopeia em forma de bd até 1977, ano da morte do argumentista.

Mais info no blog Astérix, e no site oficial.

domingo, 19 de julho de 2009

As contas do Sr. Sarkozy

As boas contas fazem os bons amigos, excepto no caso de Nicolas Sarkozy. Pela primeira vez em França o Tribunal de Contas inspeccionou as contas de um Presidente da República (relatório disponível aqui). Como resultado Nicolas Sarkozy teve que devolver 14000 euros ao estado, de despesas particulares pagas "por engano" com dinheiros públicos. Mas 14000 euros não é nada comparado com os quase 400 mil que a presidência pagou à empresa Opinion Way, ao longo de 2008, para encomendar sondagens que foram depois publicadas em media supostamente independentes, no caso o Le Figaro e a LCI. Temos portanto o presidente a tentar manipular a opinião pública à custa do dinheiro dos contribuintes, e não foram uma nem duas sondagens, foram 15 num ano, ou seja mais de uma por mês. O Tribunal de Contas criticou severamente estas sondagens "patrocinadas" pela presidência ("commandités" é a palavra usada no relatório) e outras despesas ainda como por exemplo as viagens oficiais, em que considera que podem ser feitas economias. O Le Figaro pelo seu lado decidiu não mais publicar qualquer sondagem realizada empresa OpinionWay porque prejudicam a credibilidade do jornal.

terça-feira, 21 de abril de 2009

O duplo assassinato do sr. Hulot, ou nem tanto


Não é um policial, mas bem podia ser. É apenas mais um caso dos tempos que correm: o famoso Monsieur Hulot não pôde aparecer de cachimbo no anúncio à retrospectiva organizada pela Cinemateca Francesa, devido às leis antitabágicas. Pior do que isso: no lugar do cachimbo, surge uma disparatada mini-ventoínha, símbolo do metro de Paris (vd. aqui), empresa que, pelos vistos, tem alguém muito manholas a trabalhar na publicidade lá da casa. Costa-Gravas, director da Cinémathèque Française, também parece ter sabido aproveitar bem a ocasião, granjeando até o apoio da Liga dos Direitos do Homem.

Mas nem tudo são desgraças (ao invés do que pode levar a crer o supracitado diário): no site da Cinemateca Francesa, Hulot surge imaculado, com o seu adereço inconfundível. Vale a pena dar uma espreitadela. Tem excertos da banda-sonora do filme O meu tio e está muito apelativo em termos gráficos. A retrospectiva só acaba em Agosto. Jacques Tati, se fosse vivo, teria aqui bom material para fazer mais uma crónica irónica à «vida moderna».

segunda-feira, 30 de março de 2009

A ronda infinita dos obstinados



Não sei que atenção tem merecido, fora de França o movimento de contestação universitário (de professores, em primeiro lugar) francês. Leva já praticamente dois meses de duração e dirige-se contra duas medidas fundamentais do governo: a reforma do estatuto da carreira docente e da formação de professores (para o ensino básico e secundário). Atrás disto está, como noutros países, o entendimento que os governos fazem do processo de Bolonha, e toda a política futura da universidade e da investigação científica.

O movimento tem, como todos, as suas contradições. Nalguns momentos, participo nele com o incómodo de poder parecer que estou a defender um sistema, o da universidade (e da escola) pública, com todos os seus defeitos. Mas peso os prós e os contras. E vejo que aqui, como em tantos outros casos, o problema não é reformar. É o conteúdo e o sentido da reforma. O governo Sarkozy está a torpedear o que existe - bom e mau - para criar uma mais que duvidosa selecção natural darwiniana.

O assunto daria pano para mangas. Deixo só este vídeo que ilustra uma das mais criativas manifestações em curso, de um simbolismo e uma dignidade impecáveis: a ronda infinita dos obstinados, na praça do município (noutros tempos, 'place de grève') em Paris. A ronda não pára, desde dia 23 de março passado. Como um carrocel, girando dia e noite. Já leva cerca de 150 horas, alimentada pela obstinação de cada qual. E promete só parar quando o governo perceber que é ele -- e não nós -- quem está a andar em círculos.

quinta-feira, 26 de março de 2009

A extrema-direita vai mostrando as suas garras

Le Pen e o Holocausto como detalhe da II Guerra Mundial. Nada de novo: apenas mais uma a juntar à sua já extensa colecção de execráveis bojardas retóricas. Em crescendo?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Um vento que sopra das Caraíbas


Talvez se tenha ouvido falar em Portugal de umas greves e manifestações aqui em França, mas duvido que se tenha falado do que se passa nas Antilhas francesas. Nem sequer na França metropolitana se tem falado. A ilha da Guadeloupe está em Greve Geral há 18 dias consecutivos, a que se juntou ontem e hoje a vizinha ilha da Martinique. Desde 20 de Janeiro que um colectivo "Liga contra a exploração" ("Liyannaj kont pwofitasyon" em crioulo antilhês) na Guadeloupe que engloba todos os principais sindicatos, partidos da oposição e inúmeras organizações da sociedade civil apela à greve. Um colectivo idêntico formou-se entretanto na Martinique. As duas ilhas juntas fazem perto de um milhão de habitantes, a que se poderá juntar ainda a Guiana francesa. A Greve é contra o custo de vida, os elevados impostos, os salários baixos, o desemprego e a pobreza. Sabemos que a insularidade tem um preço, e damo-nos conta agora que no caso das Antilhas são os antilheses que pagam o preço. Para contextualizar um pouco, o conflito começou com protestos contra o preço da gasolina. Em Dezembro depois da descida do preço do petróleo, os preço da gasolina desceram em todo o lado, excepto nas Antilhas. Houve então uma primeira Greve, que resultou numa descida dos preços, e nomeadamente a gasolina sem chumbo desceu 31 cêntimos... para ficar ao mesmo preço que na França metropolitana. SIm, a gasolina estava 30 cêntimos mais cara lá do que cá. Revelador. Nem de propósito uma reportagem do Canal+ veio por estes dias revelar a que ponto a economia das Antilhas continua nas mãos das famílias de "Békés" descendentes dos colonos brancos esclavagistas de há século e meio. Revela-nos que por exemplo essas famílias, 1% da população, detêm mais de metade das terras agrícolas e do imobiliário, e o monopólio da distribuição, o que é como quem diz que detêm a economia toda. Isto onde 90% (estimativa por baixo) da população é descendente de escravos. Por exemplo a banana da Guadeloupe e Martinique, que abastece toda a França é mais cara 40% nas Antilhas do que na metrópole. Isto faz sentido? Nessa mesma reportagem, um desses békés, Alain Huyghes-Despointes, por sinal o mais rico, diz que "Nas famílias mestiças as crianças são de cores diferentes, não há harmonia. Eu não acho isso bem. Nós quisemos preservar a raça. (« Dans les familles métissées , les enfants sont de couleur différente, il n'y a pas d' harmonie. Moi, je ne trouve pas ça bien. Nous, on a voulu préserver la race.» no original). Pode lembrar-se ainda que a França uso (para não dizer "usa") as Antilhas como reserva de mão de obra barata e pouco qualificada. Entre 1963 e 1982 existiu o BUMIDOM, que era simplesmente uma agência governamental com a missão de recrutar antilheses (e de outras colónias) para trabalhos pouco remunerados na metrópole, muitos deles na função pública. O resultado foi a deserção da população activa dessas regiões, com o consequente desastre económico. E entretanto nunca uma verdadeira política de desenvolvimento foi posta em prática.
Sarkozy ontem falou ao país, num cenário de contestação e crise, e apesar de 18 dias de Greve na Guadeloupe, e do início da Greve na Martinique, não disse uma só palavra sobre o assunto. Para resolver a crise antilhesa não fez mais do que mandatar um secretário de estado para negociar. Parece-me que o governo não está consciente da dimensão da questão. 18 dias de Greve Geral não é coisa pouca. As reivindicações independentistas ainda não se formalizaram, mas também ninguém esconde que há uma parte dos mentores dos protestos que defendem a independência. E é óbvio que esta situação está intimamente ligada à crise internacional. Acontece que por vezes estas crises têm consequências inesperadas.

P.S. - Como de costume Lilian Thuram diz o que de mais inteligente se tem dito sobre o assunto.

Adenda: A reportagem do Canal+ "Les Derniers Maîtres de la Martinique" pode ser vista na íntegra aqui.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

E o prémio "deixa-me pôr em bicos de pés para a tomada de posse de Obama" vai para...

Ségolène Royal que nos assegura ter inspirado Obama, que acha ter sido copiada pela equipa de Obama, e que se deslocou a Washington para assistir ao discurso de Obama numa cadeirinha a 200 metros de distância.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Porque será que ainda existe racismo?

Em França a polícia pode interpelar uma pessoa sem precisar de uma justificação para o fazer, são os "coltrôles au faciès". Não existem dados oficiais sobre estas interpelações, um polícia nem sequer tem que preencher papel algum. No entanto CRAN (Conseil Répresentatif des Associations de Noirs) solicitou uma sondagem à CSA sobre a incidência, e a conclusão foi que os membros das minorias visíveis são duas vezes mais controlados pela polícia do que a média da população. Infelizmente não é muito surpreendente, mas fica a demonstração de que as interpelações arbitrárias pela polícia resultam em discriminação, e mesmo em racismo institucional. O CRAN, lançou a semana passada uma campanha de sensibilização para o problema, e fez vir dos EUA um sósia de Barack Obama para realizar o vídeo que está ali abaixo. A campanha tem sido um sucesso pelo menos da internet, segundo o presidente do CRAN, Patrick Lozès, o vídeo foi visto 160000 vezes em dois dias. Note-se que o CRAN não deseja o fim do "contrôle au faciès", mas propõe que um polícia que interpele uma pessoa seja obrigado a preencher um relatório indicando os detalhes e - sobretudo - a justificação para a interpelação. É uma proposta, na minha humilde opinião, bastante razoável, pretende-se apenas responsabilizar o polícia. Uma medida idêntica foi adoptada do Illinois quando Obama era senador, e foi uma das experiências que inspirou a proposta do CRAN, ainda segundo Lozès. De notar também que a chefia da Polícia acolheu favoravelmente esta campanha, tal como os meios político (com a excepção do ministro da Imigração e Identidade Nacional Eric Besson).
Curiosamente, quando o CRAN lança esta iniciativa e quando Obama se prepara para tomar posse, a revista Science publicou um artigo científico em que se analisa o comportamento de indivíduos que presenciam actos de racismo. O ponto de partida do estudo é uma aparente contradição das sociedades actuais: se por um lado o racismo é hoje em dia geralmente condenado e fortemente reprimido, por outro lado os actos racistas continuam a fazer parte do nosso quotidiano. A conclusão principal do estudo que explica, pelo menos em parte essa contradição, é que geralmente alguém que testemunhe um acto de racismo reage muito mais passivamente do que pensaria reagir. Entre a reacção que uma pessoa diz que teria caso presenciasse um acto de racismo, e a reacção que ela efectivamente tem, vai uma distância considerável. Infelizmente, mais uma vez não surpreende, mas a prova empírica vale ouro. E sim, o racismo ainda existe...



sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Nós aqui em França, no combate ao racismo, estamos muito à frente dos EUA

A ministra do Interior, Michèle Alliot-Marie, anunciou esta semana a nomeação Pierre N'Gahane para Prefeito (vagamente equivalente do Governador Civil) do departamento "Alpes de Haute-Provence". Quem sabe se no afã de não se ficar atrás da Obamania reinante, e para demonstrar que em França também temos governantes negros, o comunicado do oficial faz questão de precisar que se trata do primeiro Prefeito negro da República Francesa. E vai daí os media fazem coro a anunciar a nomeação do primeiro Prefeito negro da República (Le Parisien, RTL, JDD, Le Point, Le Post, etc... etc...). Simplesmente não é o primeiro Prefeito negro, honra lhes seja feita o Nouvel Obs reparou que houve vários anteriores, N'Gahane é pelo menos o quarto. A diferença, se é que é uma diferença, é que os anteriores são oriundos das Antilhas, entre os quais se encontra uma mulher, Marcelle Pierrot (na foto), enquanto que N'Gahane é oriundo de África. E nem sequer é o pimeiro prefeito oriundo da imigração, é apenas o primeiro prefeito negro oriundo da imigração, como aliás o próprio Ministério do Interior veio rectificar. Esta pequena estória suscita-me várias questões/comentários:
- Será N'Gahane apenas uma vítima da discriminação positiva? O Ministério do Interior e próprio vêem-se obrigados a gastar o seu tempo a explicar que não, que é apenas uma questão de mérito. Se é verdade - e deixando de lado o "pormenor" do anúncio ser feito no dia seguinte à vitória de de Obama - porque razão é o Ministério do Interior quem faz questão de frisar tratar-se do primeiro prefeito negro (o que ainda por cima é falso)?
- Qual é a diferença entre negros das Antilhas e negros Africanos? Sobretudo tratando-se apenas de uma questão de mérito, para quê distinguir o que quer que seja?
- Se é por uma questão de discriminação positiva, e se é para "responder" à vitória de Obama, note-se que 1) Há uma pequena diferença entre presidente dos EUA e Prefeito dos "Alpes de Haute-Provence" 2) Obama não precisou de discriminação positiva para ser eleito presidente dos EUA.
- E como é que um comunicado do ministério aprece reproduzido por essa imprensa fora sem que a verificação dos factos mais elementares seja feita? Na circunstância apenas um facto, um só, e basta ir ver nas páginas intitucionais, há prefeitos negros actualmente em funções, e no caso de Marcelle Pierre nomeada em 2007, que não foi assim há tanto tempo e não é segredo de estado (para minha grande decepção até o Rue89 se esqueceu desse pormenor, apesar da notícia ter a qualidade habitual).
- E o que dizer do comentário da ministra da Justiça Rachida Dati: "Talvez que Obama se tenha inspirado no governo francês"?
- E o que dizer do comentário de Patrick Ollier, deputado da UMP (partido do governo): Se não houve candidatos "de cor"(sic) eleitos nas últimas eleições é "porque eles não tinham um nível à altura das eleições"?
Via Milton Dassier

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Por enquanto o boneco Voodoo de Sarkozy continua a ser legal

Uma empresa lançou no mercado um boneco Voodoo com a imagem de Nicolas Sarkozy (e outra de Ségolène Royal), com agulhas e tudo. Ao contrário de Royal, que até acha divertido, Sarkozy não gostou, e entrou com uma acção na justiça para retirar o seu boneco voodoo do mercado, alegando a defesa do seu "direito à imagem". Não só perdeu a acção, como viu o juíz fazer questão de vincar que o boneco está dentro dos limites da liberdade de expressão. Sarkozy leva uma lição que era perfeitamente evitável, se ele não se tomasse por um semi-deus intocável. Mas como não gosta que o contrariem já recorreu da decisão.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Siné Hebdo

O histórico, e cáustico, cartonista Siné - depois de despedido à má fila do jornal satírico Charlie Hebdo com uma acusação que mistura anti-semitismo com Jean Sarkozy (filhinho do papá Sarkozy) - lançou agora a sua própria publicação: o Siné Hebdo. A coisa promete. Consta que Siné se tornou mais irreverente com o passar dos anos. E conseguiu em muito pouco tempo reunir um número considerável de colaboradores e pôr a sua publicação nas bancas. Saiu ontem o primeiro número.
Nota: Mais sobre as polémicas recentes de Siné aqui.

domingo, 7 de setembro de 2008

Ele há mau jornalismo que nem os Arganazes conseguem explicar

Eu sei que há jornais maus, que até costumam vender bem, e que há maus jornalistas. Mas o "Público" seria suposto ser um jornal de referência, mesmo sendo o director um tal de José Manuel Fernandes. Pura ingenuidade - a minha, claro! Esta notícia é mesmo do piorzinho que um "jornalista" (entre aspas) pode escrever. E não deixa de ser irónico que a gravidez de Rachida Dati parece estar a causar mais excitação nas redacções fora de França, do que por cá. Quem diria que eu alguma vez viria a defender Rachida Dati. A ministra de Justiça francesa não tem qualquer talento político reconhecido, nem sequer tinha actividade política (e não digo experiência política relevante, não tinha pura e simplesmente qualquer actividade política anterior, seja num partido seja em cargos políticos) antes de Sarkozy a escolher para sua porta-voz durante a campanha eleitoral no ano passado. Não me lembro de na altura o "Público" ter questionado os putativos laços pessoais entre Dati e Sarkozy. Dati tornou-se em seguida ministra, e é uma péssima ministra. Conseguiu a proeza, ainda hoje inigualada, de em apenas três meses e meio à frente do seu ministério ver não menos de sete membros do seu gabinete se demitirem. Não me recordo do "Público" ter feito disso notícia. Tal como não me lembro de ter sido referido que Rachida Dati ultrapassou todos os limites de gastos em despesas de representação em 2007, e precisou duns irisórios 100.000 euros extra (nem quero imaginar como seria se ela fosse ministra dos Negócios Estrangeiros). Nada disto é politicamente relevante, o que é politicamente relevante, pelo menos no entender da redacção do "Público" é a gravidez de Rachida Dati e os seus mistérios. O que dizer duma notícia em que Dati é apelidada logo no título de "A Sarko Babe"? E que acrescenta, ainda o título "vai ser mãe solteira" (o que tecnicamente é falso, ela já foi casada). Isto é uma informação política relevante? O inenarrável texto continua afirmando na caixa de destaque que "só falta saber quem é o pai". Who cares?. Até a imprensa cor-de-rosa francesa se impõe a si própria limites éticos à devassa da privacidade mais rigorosos do que o "Público". A cereja no topo do bolo é a reprodução de nomes de potenciais pais da criança que circulam na internet. Isto é jornalismo? Reproduzir rumores num assunto que pertence exclusivamente ao foro privado?
Rachida Dati confirmou a sua gravidez e afirmou relativamente à identidade do pai da criança "Tenho uma vida privada complicada e este é o limite que me imponho em relação à imprensa; não direi nada sobre o assunto". Dêem-me uma boa razão para não respeitar a decisão de Rachida Dati.