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terça-feira, 6 de julho de 2010

Colóquio internacional sobre Paul Ricoeur começa amanhã

O nome original deste encontro internacional é Reading Ricoeur Once Again: Hermeneutics and Practical Philosophy / Relire Ricoeur à notre tour: herméneutique et philosophie pratique, uma vez que as línguas de trabalho serão o inglês e o francês.

Pretende ser uma homenagem àquele que é, segundo os organizadores, «uma das figuras mais importantes da filosofia contemporânea». Serão apresentadas mais de 100 comunicações sobre o seu contributo para a Ética, a Filosofia Social e Política e a Hermenêutica . Entre os oradores contam-se alguns dos maiores especialistas mundiais da obra de Ricoeur, como Axel Honneth (Johann-Wolfgang von Goethe Universität), sucessor de Habermas na direcção do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt e um dos filósofos mais influentes da actualidade, Richard Kearney (Boston College), divulgador da filosofia contemporânea europeia nos EUA, bem como diversos membros do Fonds Ricoeur (Paris).

Decorrerá até sábado, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (torre B, piso 1, aud.º 1). A organização cabe ao Centro de História da Cultura da FCSH-UNL e ao grupo Linguagem, Interpretação e Filosofia da Universidade de Coimbra.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Representações da República

Ao que tudo indica, também lá estarei...

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Ainda as imagens mentais (IV)

Embora me pareça que as nossas posições sejam diferentes, e estejam bem patentes, tenho ainda alguns comentários a fazer ao excelente post de Fernando Belo a respeito das imagens mentais. Correndo o risco que repetir alguns argumentos, não podia deixar de responder.

Primeiro tenho que reconhecer que o artigo de Gallant e colaboradores, de que temos estado a falar, não constitui uma demonstração formal da existência de imagens mentais. O artigo demonstra que, utilizando imagens de ressonância magnética e algoritmos apropriados, é possível modelizar com uma grau de aproximação muito apreciável os padrões de actividade cerebral quando o cérebro está a processar imagens que os olhos estão a ver. As imagens de ressonância magnética mostram apenas padrões de actividade cerebral. Fernando Belo prefere chamar-lhes, e bem, imagens cerebrais. No entanto, não sendo uma demonstração formal de que as imagens mentais existem, e menos ainda a visualização dessas imagens mentais. Se as imagens de ressonância, devidamente auxiliadas por um algoritmo, revelam ou não a existência de imagens mentais é uma questão de interpretação. Pela minha parte penso que os resultados são coerentes com a existência de imagens mentais. Se não o posso prová-lo, tampouco alguém o pode refutar formalmente, com base em observações empíricas. Estamos portanto no terreno do desconhecido, onde a especulação faz parte do processo de interpretação. É bom que se saiba, e que seja afirmado claramente, e as precauções necessárias devem ser tomadas. Isto é apenas uma opinião, ninguém tem que acreditar.

Apetece-me evocar aqui - desviando-me brevemente da discussão - a descoberta científica que, na minha humilde opinião, mais implicações filosóficas tem: princípio da incerteza de Heisenberg. Demonstra esse princípio que o observador não pode ter a percepção do 'verdadeiro' objecto, mas apenas a percepção da sua interacção sobre esse objecto. O observador não é portanto neutro, e altera forçosamente o próprio objecto. O exemplo em questão não podemos ver grande coisa do cérebro humano, a não ser que o alteremos, por exemplo com contrastantes que depois podem ser detectados por ressonância. A nossa observação não é neutra, é o resultado duma manipulação. E as conclusões que tiramos são necessariamente o resultado duma interpretação. Mas convém ter o princípio da incerteza presente também no momento de definir o próprio conceito de imagem, e de imagem mental.

Quanto à questão 'há' num automóvel, e aquilo que o automóvel é estamos de acordo (e daí..., talvez haja umas nuances). Na minha visão materialista uma coisa e outra estejam tão intimamente ligados que talvez se confundam. Aquilo que o carro 'é' resulta daquilo que nele 'há', mas aquilo que 'há' num carro tem que se constituir num processo coerente para que se transforme naquilo que o carro 'é'. Não basta ter porcas e parafusos, cilindros e cambotas, gasolina e explosão, combustão e piloto. Todos estes elementos, montados aleatoriamente dificilmente darão um carro que verdadeiramente o 'seja'. Aquilo que 'há' tem que constituir de uma determinada forma, coerente, que permita um encadeamento preciso de acontecimentos, os processos, que leve ao funcionamento do automóvel. As componentes encaixam-se segundo um plano preciso. O mesmo se passa com o cérebro. Não há apenas neurónios e sinapses, neurotransmissores e impulsos iónicos, há-os organizados de como uma série de processos coerentes, ou se preferirem de um modo funcional. A diferença entre o cérebro e o automóvel é que este é uma criação da mente humana, é fácil partir das partes, aquilo que 'há' perceber como se organizam e funcionam, é fácil perceber a coerência dos seus processos uma vez que foi o homem quem os criou. Já quanto ao cérebro não conhecemos o plano, temos que partir da nossa percepção daquilo que ele 'é' para tentar perceber aquilo que nele 'há' para depois ainda tentar perceber como as suas partes se organizam numa entidade funcional, aquilo que ele 'é'. Isto num constante vai-e-vem entre uma coisa e outra, aprofundando o nosso conhecimento passo a passo. E isto que digo não muito diferente, parece-me, do que diz Fernando Belo (parágrafo 5 do seu post).

Voltanto à questão inicial, as imagens de ressonância magnética mostram a actividade cerebral não as imagens mentais. No entanto, na minha opinião, as imagens mentais existem, são o produto dos tais processos coerentes que constituem o funcionamento do cérebro, e estão subjacentes à actividade cerebral que é possível ver nas imagens de ressonância magnética.

Tomemos o exemplo dado Ana Matos Pires (quando se debateu esta questão no 5dias): os amputados continuam a sentir o membro que perderam. Sentem-no porque os terminais nervosos que antes transmitiam ao cérebro a sensação desse membro continuam a fazê-lo mesmo que o membro não esteja lá. Isto demonstra que no cérebro existe uma representação desse membro. Não é uma imagem, no sentido visual de uma imagem captada pelo sentido da visão, mas é uma representação resultante da propriocepção. O membro esse não existe mas a representação mental desse membro é bem real, como o atestam as dores que sentem os que foram amputados. A representação mental de um objecto percebido pelo sentido da visão funciona de modo análogo.

Fernando Belo dá-me aliás um excelente argumento quando diz que as únicas imagens mentais são os sonhos. Ora acontece que, tanto quanto sei (que reconheço, é pouco nesta matéria) o cérebro processa as imagens dos sonhos e outras quaisquer imagens - as que evocamos de memória por exemplo - da mesma maneira. Se umas são imagens mentais, então as outras também são.

No fundamental onde eu acho que estou em desacordo com Fernando Belo é na ideia de que o conceito de mente seja o herdeiro do conceito de alma. A alma, no sentido religioso, é uma entidade metafísica superior ao corpo, e que lhe sobrevive. A mente é o resultado do funcionamento dos processos "superiores" do cérebro (consciência, abstracção, etc...), há mente enquanto houver um cérebro com os seus processos superiores em funcionamento. A mente é bem material está alojada no corpo, mais precisamente no cérebro, e não lhe pode, por maioria de razão, sobreviver. Não estou certo que este minha posição seja uma defesa do "dualismo cérebro / mente" mas quanto às reservas de Fernando Belo sobre "irredutibilidade metodológica entre o acesso ao neuronal com a aparelhagem laboratorial e o acesso a esta estruturação psíquica, por via do discurso (ou da introspecção)" tendo a considerar todas as limitações das aparelhagens laboratoriais não como limitações fundamentais e inultrapassáveis, mas apenas como circunstanciais. Naturalmente que esses aparelhos nos dão uma imagem limitada, como o nosso conhecimento será sempre limitado e incompleto. Novas máquinas e novas técnicas permitir-nos-ão de ver um pouco melhor, e o nosso conhecimento do cérebro avançará um pouco mais, sempre parcial e incompleto mas um pouco melhor. Não me parece irredutível, e pelo contrário a via do discurso e da introspecção avançará a par das aparelhagens laboratoriais.

Ou dito de outro modo, onde eu estou em desacordo com Fernando Belo é na oposição entre o real e o mental, ideia de que o "ser-no-mundo" esteja nos "antípodas do mental" (parágrafo 4 do mesmo post). Do ponto de vista da actividade cerebral um e outro são processados do mesmo modo, utilizando as mesmas redes neuronais. O mental é tanto uma representação do real (o "ser-no-mundo"), tal como uma representação de outros reais possíveis.

P.S. - Num post anterior deixei uma provocação a João Galamba, que entretanto respondeu (por sinal com bastante mais elegância do que a minha provocação) na caixa dos comentários. Aproveito, porque é o direito de resposta, e sobretudo porque é mais uma interessante contribuição para o debate, e transcrevo aqui o comentário de João Galamba (com quem estou obviamente em desacordo):

Peço desculpa mas só vi este post agora. Eu não digo apenas "porque não". Se ler os meus posts com atenção e, sobretudo, os comentários vai ver que a minha posição é de outra natureza.

A mente é caracterizada por intencionalidade, o que faz com que ela não possa ser tratada como um objecto. A intencionalidade significa que ela é constituída por relações normativas de significado (algo totalmente diferente de relações causais) com o mundo que lhe é exterior, o que faz com que o paradigma interior-exterior deixe se ser uma dicotomia.

O problema da ciência é que ela pressupõe a noção de objecto (sem o qual não há ciência), e isso distorce a natureza da mente. Antes de se estudar o que quer que seja é necessário clarificar a ontologia subjacente ao nosso estudo. Ora isto é coisa que a ciência não faz nem pode fazer, pela simples razão que ela própria necessariamente pressupõe uma ontologia.

A discussão é longa, mas acredite que se há coisa que eu não faço é dogmaticamente dizer que não.

domingo, 20 de abril de 2008

Ainda as imagens mentais III - A(s) resposta(s) de Fernando Belo

Fernando Belo publicou dois posts no seu blogue ainda a respeito do debate sobre as imagens mentais: Um post em resposta ao que escrevi aqui no Peão (tenho que digerir, e fazer algum trabalho de casa antes de responder). Outro post em contra-resposta ao artigo de opinião de A. Castro Caldas no Público (de que falei aqui), que era uma resposta a um outro artigo de opinião de Fernando Belo, também no Público, e que começou todo este debate.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Ainda as imagens mentais II

Continuando o post de ontem. O debate anda à volta do artigo publicado na revista Nature pela equipa de Jack L. Gallant, da U. C. Berkley. O artigo começa logo por declarar "A challenging goal in neuroscience is to be able to read out, or decode, mental content from brain activity." (um desafio central em neurociências é ser capaz de apreender, ou descodificar, conteúdo mental a partir da actividade cerebral), sem dúvida ambicioso. O artigo demonstra ser possível a partir de imagens de ressonância magnética funcional (fRMI) do cérebro de um indivíduo deduzir que tipo de imagens ele está a visualizar (isto numa determinada situação experimental). Dois indivíduos visualizaram uma série de imagens enquanto eram observados por fRMI, e a partir deste primeiro conjunto de observações elaborou-se um algoritmo que estabelece um padrão. Num segundo tempo os mesmos indivíduos são observados novamente por fRMI enquanto visualizam imagens que não tinham visto antes. Com o algoritmo tenta-se determinar que imagens estão a ser visualizadas. A eficiência, para um conjunto de 120 imagens foi de 92% num caso e 72% no outro, a probabilidade de acertar por acaso era de 0,8%. Isto quer dizer que com uma eficiência apreciável o algoritmo, analisando o fRMI, consegue determinar que tipo de imagem um indivíduo está a ver, sem ter que lhe perguntar (o que é, tanto quanto sei, um resultado muito inovador). Ou seja é possível olhando para um padrão de actividade cerebral deduzir as imagens que esse cérebro está a processar. Será isto uma imagem mental? Segundo a notícia no Público, de Ana Gerschenfeld, trata-se de facto de imagens mentais (e, a meu ver, bem).

Fernando Belo discorda:
"(...) não é possível dizer desta experiência que se trata de ‘fotografar imagens mentais’, só há imagens fotográficas exteriores e imagens de ecrã da actividade neuronal. E por conseguinte também não é possível, nem creio que fosse o intento dos autores, provar com ela que ‘há’ imagens mentais."
"(...)no cérebro o que há são células, química e electricidade iónica (que interage com a química). Palavras, músicas, imagens, tudo isso é exterior e ‘percebido’ por certos órgãos periféricos que os transformam em electricidade neuronal."

Sem querer transformar o debate numa mera questão semântica, parece-me que o significado da palavra imagem é central nesta discussão. Convém definir claramente o que se entende por imagem. Se entendermos por imagem uma representação visual de um objecto, então as imagens mentais existem. Uma fotografia de uma bola é uma imagem, a bola é o objecto. A fotografia, seja ela uma película de negativo, uma impressão em papel, ou um ficheiro JPEG é sempre uma imagem, é sempre uma representação do objecto. Então e se forem sinapses em vez de grãos de prata em película ou bytes em JPEG, é menos imagem por isso? Como Fernando Belo refere há a percepção do objecto que é exterior, até dada altura. A luz que é emitida pela bola e captada pela retina é exterior até precisamente ao momento em que é captada pela retina, mas até aí não há representação do objecto, apenas a primeira fase (por assim dizer) da percepção. E de cada vez que evocamos a imagem da bola sem que ela esteja à nossa vista, mas que conseguimos visualizá-la mentalmente há uma imagem (por maioria de razão) mental que se forma, tal como se fizermos duplo-clique no icon do ficheiro JPEG há uma imagem digital que se forma.

Sem surpresa a única coisa que Castro Caldas diz de interessante (cf. o post de ontem) é quando se digna argumentar: "Quando Fernando Belo diz que no cérebro só há células, química e electricidade, está a ser extraordinariamente reducionista." De facto a imagem de que no cérebro só há células, química e electricidade é algo redutora. É como dizer que o motor de um carro é só cilindros, porcas, parafuso, cambotas, óleo e gasolina. Sim é tudo isso, mas um motor parado é só isso, e um motor parado não nos interessa muito. O que nos interessa é perceber como funciona o motor, quando está em movimento. Assim também o cérebro é células, química e electricidade, mas é também os seus processos: a transmissão sináptica, a formação de sinapses, os potenciais de acção, etc... É isso que o artigo de Gallant consegue demonstrar pela primeira vez: que determinados padrões de actividade neuronal correspondem a determinadas imagens. Por isso o título da notícia de Ana Gerschenfeld "Cientistas fotografam imagens mentais" é tão certeiro. Uma fotografia, ou um padrão de actividade cerebral, podem ser uma imagem e um objecto ao mesmo tempo. Pode obter-se portanto uma imagem duma imagem (fotografar imagens). O artigo da equipa de Gallant mostra imagens de fRMI de imagens mentais, como muito pouca resolução obviamente (por enquanto). É como se se fizesse uma radiografia de uma máquina fotográfica para perceber como ela funciona, enquanto ela própria gera imagens fotográficas.

A argumentação de Fernando Belo é estimulante, e espero ter dado alguma resposta. Já este post de João Galamba, ainda sobre o mesmo tema, é-me mais difícil perceber. Parece-me uma recusa liminar de uma abordagem científica do estudo da mente, apenas porque sim. E porque não? Quais mistificações? Por que raio não há-se ser a mente passível deste tipo de abordagem? É um objecto de estudo como outro qualquer. Parece-me aliás bastante plausível que a actividade neuronal seja bem mais do que suficiente para explicar a mente humana, sem recurso a explicações metafísicas (sim, sou profundamente materialista).

Nota: A imagem é retirada do artigo da equipa de Gallant.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Ainda as imagens mentais I

Não é todos os dias que o público tem a oportunidade de ver um diálogo interessante entre filósofos e cientistas, sobre importantes avanços da Ciência. O filósofo Fernando Belo, que se interessa em particular por questões científicas, escreveu um artigo de opinião (que se pode ler aqui) no passado 14 de Março, no 'Público' com o título "O que são isso das imagens mentais?". Em questão está uma peça da jornalista Ana Gerschenfeld, de dia 6 de Março (que transcrevi no lado b), que por sua vez reporta um artigo científico publicado na revista Nature. Na minha opinião Ana Gerschenfeld faz um excelente trabalho jornalístico, a notícia faz jus ao artigo.

Fernando Belo contesta a existência de imagens mentais, e por consequência considera que o artigo da Nature não demonstra a existência de imagens mentais. A. Castro Caldas respondeu a Fernado Belo num artigo de opinião, também no 'Público'. O artigo de Castro Caldas, embora sobre a questão científica estejamos provavelmente de acordo, parece-me bastante infeliz e mesmo deselegante. Começa por nos lembrar que os leigos têm em geral uma visão disparatada dessas coisas das Neurociências, de onde se deduz que provavelmente não vale a pena discutir estes assuntos com leigos. Depois sugere a Fernando Belo que os filósofos se devem dedicar à Filosofia e os cientistas à Ciência, concedendo que "não são graves as incursões pontuais nos campos e metodologias uns dos outros" (esta é um primor, o negrito é meu). Este tipo de atitude é antes de mais de uma lamentável pequenez, é fácil esquivar-se ao debate e ao escrutínio escudando-se atrás de uma autoridade académica/científica. Quando alguém, seja quem for, nos interpela para debater uma assunto, qualquer que seja, tentar remeter esse alguém para um acantonamento de posições é deselegante, mais ainda se a pessoa em questão tem bagagem e argumentos suficientes para um debate de qualidade. Antes de mais faz parte do trabalho do cientista, não apenas produzir conhecimento mas difundi-lo, e não apenas no domínio da sua especialidade mas para todos quantos o queiram. É um dever ético. E não chega uma declaração de intenções, não chega afirmar "os neurocientistas estão cientes disso [a má informação do público], desenvolvendo trabalho para corrigir esses erros" quando o resto do que escreve pouco faz para o demonstrar. Castro Caldas exibe também um profundo desprezo pela pluridisciplinaridade, erro típico de uma tradição científica e académica arcaica. Nem é necessário estar a lembrar a quantidade de avanços na ciência moderna apenas possíveis graças ao diálogo entre disciplinas diversas. Mais ainda, é esquecer que todas as questões (realmente importantes) a que os cientistas se dedicam foram formuladas primeiro por filósofos (o que é a vida?, o que é Universo?, o que é a mente?, etc...). Fernando Belo fala da filosofia espontânea dos cientistas, eu vou mais longe, os cientistas limitam-se (e eu incluo-me) a recuperar as questões já formuladas pelos filósofos. Mas permita-se-me uma provocação, e puxo a brasa à minha sardinha, serão sempre os cientistas a dar resposta a essas perguntas. Quando se coloca uma questão sobre determinado objecto, para se encontrar resposta não basta pensar, debater, discutir, divagar, ou opinar, é preciso manipular o objecto e testar hipóteses, sem o que nunca se terá uma resposta digna desse nome. É aí que os cientistas entram em acção.

E eu que queria discutir 'imagens mentais' e expor as razões porque discordo de Fernando Belo, e acho que as imagens mentais de facto existem... O post já vai longo, e desviou-se ligeiramente. Fica para a próxima.

Nota: Fernando Belo tem um blogue onde apresenta resumidamente a sua mais recente obra: "Le Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida", uma obra em dois volumes em que debate a Ciência moderna de forma aprofundada, do seu ponto de vista de filósofo. Tem um capítulo dedicado precisamente à questão neurológica.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Escrever a memória

Com a devida autorização do autor, nos próximos dias publico excertos de textos cuja versão integral se encontra na secção de crítica da revista Prelo, nº4 (INCM, 3ª série, Lisboa, Janeiro-Abril 2007). Uns aqui, outros no outro lado.
«Paulo Tunhas, O Essencial sobre Fernando Gil, INCM, Lisboa, 2007; José Augusto Seabra, Por uma Nova Renascença, INCM, 2006.
Toda uma geração central na história contemporânea de Portugal, nascida nas décadas 1920 e 1930, formada na década de 1945-1955 (sensivelmente) e desde então, mas sobretudo após 1974, à frente das instituições e cargos que efectivamente comandam as áreas decisivas do país, está, desde a década de 1990, a sair de cena. Entre os numerosos exemplos possíveis, José Augusto Seabra (1937-2004) e Fernando Gil (1937-2006) destacam-se pelo valor do seu trabalho, influência das respectivas obras e pelos percursos que tiveram na sociedade portuguesa desde a segunda metade do século passado. A edição póstuma de um conjunto de textos ainda preparado em vida por J. A. Seabra e a primeira obra dedicada ao pensamento de Fernando Gil, por Paulo Tunhas, merecem por isso uma nota conjunta, desde logo pelas substanciais diferenças que as marcam no que respeita a algo de há muito comum no pensamento português, a falta de cuidado com a posteridade.
Mais vinculado na sua Obra à história da cultura portuguesa, J. A. Seabra terá porventura tido uma consciência mais aguda do problema. A sua última obra, que reúne textos escritos ao longo de mais de duas décadas, agrupando-os em torno de temas maiores do seu pensamento e acção político-diplomática (Renascença Portuguesa, mas igualmente Educação e cultura, a língua portuguesa, ou as relações luso-brasileiras, para não nos alongarmos), não só será um útil ponto de entrada dos leitores na sua vasta produção literária como constitui um exercício testamentário invulgarmente lúcido. Fiel às origens mais fundas da sua forma mentis, Seabra prolonga as inspirações de Teixeira de Pascoaes e de Leonardo Coimbra de forma produtiva, o que é um aspecto decisivo: na segunda metade do século XX, isso só se poderia fazer através de uma abertura às ciências sociais e humanas a que o autor permaneceu sempre sensível e que, aliás, dominava com uma grande segurança.
Apesar de alguns esforços nos últimos anos de sua vida, sobretudo em Mediações e em Acentos (2001 e 2004, respectivamente, ambos na INCM), Fernando Gil não chegou a legar-nos uma síntese da sua Obra. Muito embora, como Paulo Tunhas exemplarmente sintetiza no seu ensaio, o seu percurso tenha tido uma coerência teórica assinalável (Tunhas chega mesmo a contrariar a opinião de Gil a esse respeito, cf. p. 4), a sua própria especificidade filosófica tornou-o tão autónomo quanto influente, isto é, tão isolado quanto considerado. Não pretendendo ser uma introdução ao pensamento de Fernando Gil (cf. p. 6), este Essencial corresponde bem ao perfil da Obra de Gil: escrito para ser lido por filósofos, isto é, por leitores com treino e habituação à linguagem filosófica.
(…)»

domingo, 15 de abril de 2007

O Pós-Modernismo de Sócrates e Aristóteles

Uma versão de filosofia antiga à la Quentin Tarantino.
Republic Dogs, By Nathaniel Daw


(...) Aristotle: [Draws a gun, fires a shot into the air, and points it at Alcibiades] Interrupt me again, motherfucker. Interrupt me again. Nobody's trading with anybody. This is my allegory.
[Alcibiades gestures submission.]
Aristotle: [Putting away gun.] So as the philosopher king, it would be my duty to keep seditious literature out of the city
-- Socrates: I got it. I understand.
Aristotle: Shut up, motherfucker, how can you understand my perfect city when I haven't explained it yet?
Socrates: No, dickhead, not that, I understand what you were saying before, about perfection. It's all about forms.
Aristotle: Forms?
Socrates: Yeah, motherfucker, forms. Like, something don't have to physically exist for it to be perfect; it exists as the perfect ideal, the perfect form, beyond mortal comprehension.
Alcibiades: Socrates, you're supposed to pour your libations on the ground, not drink them till you're talking like a crazy Bacchae bitch.
Socrates: Normally, I'd be pouring libations with your spinal fluid right now, but since I'm feeling at peace with the universe I'll try to enlighten your sorry ass instead. Imagine there's this dark, underground cave. (...)

terça-feira, 20 de março de 2007

Aguardamos a resposta, impacientes...

A pergunta é perfeitamente pertinente (feita ali): "E, afinal, Hugo, o que é que a sociologia francesa já nos deu?". Eu bem gostaria de saber. Refira-se que quem fez a pergunta acha isto.
Ora ultimamente escreveu-se muito sobre Baudrillard, que eu na minha ignorância desconhecia por completo, mas quando vejo este vídeo (postado aqui) fico inquieto. É que pela amostra junta fico com a ideia - perdoe-se-me a provocação desnecessária e gratuita, e ainda para mais o senhor morreu há tão pouco tempo, mas hoje estou um nadinha pr'o iconoclasta - que se trata do campo da Filosofia (e quem diz Filosofia diz Sociologia, ou Antropologia, ou Ciências Sociais, ou as Ciências simplesmente) que eu menos aprecio: a masturbação intelectual.