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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

REUNIÃO URGENTE

Tenho uma reunião urgente na segunda.

E a França vai entrar em recessão técnica muito em breve, por causa da crise financeira. Embora o governo, como lhe compete, recuse falar em recessão.

Ninguém está a salvo (nem de reuniões urgentes nem de recessões nem de palavras, mesmo recusando-as).

Álvaro de Campos está entre as minhas leituras obrigatórias -- é mais uma coisa urgente para fazer, entre a obliteração de dois bilhetes, um de autocarro e o outro de metro.

Boa sexta-feira de manhã para todos.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Os 120 anos de Pessoa e o segredo da juventude

«Sou um ano mais velho do que o seu correspondente e sinto-me jovem pelas razões exactamente opostas às dele. Tenho trinta e oito anos e sinto-me mais novo cada ano, porque todos os anos estou mais próximo de nunca ter realizado coisa alguma na vida. A realização envelhece-nos. Tudo tem o seu preço; o preço da realização é a perda da juventude. Só a falta de objectivos e um modo de vida inconsequente – se a palavra “modo” pode ser aplicada a uma tal ausência de rumo – nos mantêm jovens. Não me casei e por isso mantive-me livre tanto dos prazeres especiais como dos cuidados próprios dessa espécie de parceria; e o bem e o mal desse estado são igualmente envelhecedores. Nunca assentei numa profissão ou num rumo de vida, nem sequer numa opinião que durasse mais que o minuto passageiro em que foi defendida. Nunca tive uma ambição que um belo dia (e Lisboa tem sobretudo dias belos, em todas as estações) ou um vento leve não dissipassem e reduzissem a um sonho agradável e acidental. Nunca fiz um esforço real atrás de coisa alguma, nem apliquei fortemente a minha atenção excepto a coisas fúteis, desnecessárias e ficcionais. Sinto-me jovem porque tenho vivido desta maneira.»

ZENITH, Richard (Edição), Cartas. Obra Essencial de Fernando Pessoa, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007, pp. 274-275.

120 anos da "não-existência" de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro, Bernado Soares, Alexander Search...

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

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Aqui mais de 1000
poesias



Almada Negreiros - Retrato de Fernando Pessoa
(1954): óleo s/ tela, 200 x 200

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(...) Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.

Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. (...)
Álvaro de Campos
TABACARIA
(15-1-1928)

domingo, 15 de julho de 2007

Poesia por Lisboa

"Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
[...]
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo –,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma”

Excerto de "Lisbon Revisited (1926)", in Fernando Pessoa, Poemas de Álvaro de Campos




(Imagem: Teresa Teixeira)

Outra vez te desejo – Desassossego e sonho e tudo.