O melhor filme indiano que vi até agora foi o "Black" (apesar de não ter nem danças nem cantorias). É uma adaptação da biografia de Hellen Keller (pessoalmente, acho que é um dos mais notáveis seres humanos de que já ouvi falar). Black está longe de ser um remake de "The Miracle Worker". Excepto algumas referências em jeito de citação, os dois filmes têm pouco a ver. Logo aí se vê a diferença de olhar entre do cinema indiano e do cinema ocidental. Há, em particular dois aspectos, que num filme ocidental, sobretudo de Hollywood, seriam tabu. A mistificação a que são votados, no cinema ocidental, os heróis faz com que as suas fraquezas humanas sejam eliminadas, uma forma de desumanização portanto. Um aspecto é o romantismo/sexualidade da personagem principal. Como se pode imaginar ter uma vida sentimental e sexual para uma pessoa cega, surda e muda, mesmo Hellen Keller, não é evidente. Em "Black" o assunto não é evitado (contrariamente a "The Miracle Worker"), o personagem de Annie Sullivan - a professora que fez Hellen Keller sair do seu isolamento e que a ensinou a comunicar - é um homem. A relação que se establece entre Michelle - a Hellen Keller em "Black" - e o seu professor, vai evoluindo ao longo do filme, torna-se ambígua, e essa ambiguidade torna-se insustentável, mas o amor é impossível. Não somente o assunto é abordado como é absolutamente central no filme. O outro assunto que não é tabu é a relação de Michelle com a irmã. A posição que ocupa na família uma criança com dificuldades é sempre complicada de gerir, sobretudo a relação com os irmãos. Uma personagem como Michelle/Hellen Keller, que, sendo cega, surda e muda, exige muita dedicação e ao mesmo tempo, com todo o seu sucesso, desperta admiração, respeito e afecto, gera ciúmes na irmã, é inevitável. Um filme ocidental jamais focaria este problema, "Black" não lhe passa ao lado.
Mas há mais diferenças. Algo muito frequente nos filmes de Bollywood que já vi, mas particularmente bem conseguido em "Black" é o uso dos cenários como parte da realização, da composição da imagem. Como se se filmasse teatro, mas bem. O final também não é nada mau. Os papéis da aluna cega, surda e muda, e o professor que a consegue pôr em contacto com o mundo invertem-se, num golpe que tem tanto de ingenuidade tocante como de genial.
E para finalizar um palavra sobre Amitabh Bachchan, também conhecido por Big B. Actor maior de Bollywood (quem já entrou num video club indiano sabe-o), já foi um jovem actor de charme, galã. Envelheceu bem, tipo Paul Newman ou Marlon Brando, e faz tão bem um General austero e patriótico num conflito com o Paquistão como faz um incorrigível folião que já passou dos sessenta (lamento mas ainda não consigo fixar os títulos dos filmes em Hindi). Em "Black" faz o papel do professor/Annie Sullivan de forma - sem exagerar nas palavras - magistral. Em qualquer lado do mundo Amitabh Bachchan é um actor fabuloso, entre os melhores dos melhores.
Adenda (9/11/2010): Dois leitores chamam a atenção na caixa dos comentários para a designação de mudo que uso no post, e têm toda a razão. Mudo é quem não pode, por incapacidade, falar de todo, os surdos - como é o caso dos personagens destes filmes - podem falar (i.e. oralizar) se tiverem o treino que a fala requer num surdo. Surdo-mudo em geral - e no caso deste post em particular - é um atalho de linguagem pouco rigoroso, na realidade trata-se de surdos que não oralizam. Aqui fica o esclarecimento, com o meu pedido de desculpas.
P.S. - Para quem quiser saber mais coisas sobre o cinema indiano e asiático em geral aconselha-se este artigo que descobri aqui j há uns tempitos