Amanhã é um dia histórico. Discute-se na assembleia da república a possibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo. A moratória de Sócrates sobre o dever de voto na bancada socialista é obscena. Não tem outra palavra. E vem provar que os homossexuais são como qualquer outro ser, o primeiro-ministro é disso um vergonhoso exemplar. Não só sobre a sua opção em esconder para presumir uma eleição(que julgo uma presunção correcta) e mesmo a existência de uma vida política ( e sobre os efeitos nefastos de tamanha hipocrisia,não só na sua vida mas nas demais). Ainda que, no que nos diz respeito a todos, este não seja o seu pior crime. Se bem que esta ideologia dos hábitos e costumes não possa ou não deva ser separada das opções políticas, da mesma forma perniciosas, opacas, com falta de um empenho de coração, a falta total de uma ideologia. Se no plano genérico e económico é isso hoje tão facilmente reconhecido ao PS, amanhã quando os deputados deste partido votarem contra não é de outra coisa que estamos a falar. De qualquer forma não deixa de ser um dia importante para todos os homossexuais livres (e não só) deste país. Apesar de ouvir, como hoje no trabalho, que há assuntos mais importantes a tratar- como se a igualdade entre cidadãos fosse uma questão pequenina no contrato político a que estamos vinculados uns com os outros (Constituição?)- ou como se numa sociedade geradora de tantas desigualdades houvesse umas mais importantes do que outras (olha pá, n me importo que me paguemmenos que o meu colega por ser mulher porque há pessoas sem recursos para se tratarem nos hospitais públicos). As uniões de facto, ainda que consagrassem todos os direitos e garantias a que estão reservados os casamentos não seria suficiente para colocaras coisas no lugar. Porque a verdade é que as instituições sociais, como o casamento, configuram de forma simbólica o que uma sociedade tem como legitimado, e ao não legitimar, através do casamento ou da adopção, os casais do mesmo sexo, só estamos a afirmar que estes podem viver a sua vidinha desde que tuteladospor uma maioria silenciosa que norteia e normaliza empurrando para a sombra quem da sombra quer sair. Será preciso lembrar que não podemos viver em liberdade quando há pessoas na sombra
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09 outubro 2008
09 julho 2008
O futuro ainda é o que era
Fui ao Braço de Prata ver o colóquio Esquerda: uma política para o gosto? inserido na iniciativa 1001 culturas organizado pelo Miguel Portas. A ausência de Manuel Gusmão, justificada pelo monolítismo estéril que grassa pela direcção do pcp, e o atraso descontraído de 45 minutos, a dar a ideia de que estes encontros de fazem entre amigos, não augurava nada de bom. Não fosse a comunicação de António Guerreiro e nada de bom tinha de facto acontecido. Manuela Ribeiro Sanches apresentou um texto tão certo e redondo e generalista que podia ser lido num colóquio sobre alterações climáticas, alimentos trangénicos,a comunidade guineense em Roterdão ou a política de emigração da Europa. Apesar de António Guerreiro ter sido o único a trazer uma comunicação no âmbito do tema, propondo inclusive que este fosse alterado para uma política do gosto em vez de para ogosto, dados os mal entendidos que este para pudesse sugerir, ainda recebeu no final, por parte do moderador Miguel Portas e da outra conferenciasta a opinião de que o que tinha ali trazido sobre esquerda e direita na literatura era desprovido de interesse (interesse operativo no dizer de Portas). Disse Ribeiro Sanches, o que me interessa e o que é importante hoje são as migrações,o multiculturalismo, as relações com o Outro... Estes dislates permitem-me concluir ou ser levada a concluir que, longe de querer organizar um ciclo de debates e conferências sobre as 1001 culturas, Miguel Portas deveria ter organizado um ciclo de reuniões entre militantes e simpatizantes onde pudessem discutir as tácticas ou estratégias para a cultura (1001 novesforazero). Poupava os seus convidados ouvirem que o seu pensamento ou conhecimento não tem interesse e poupava umas quantas pessoas de irem ao engano.
02 novembro 2007
Pobres casados
A Associação de Famílias Numerosas tem vindo há cerca de oito anos a reclamar a equiparação a pais casados ao que já existe para pais separados ou divorciados em termos de regimes de isenção em sede de IRS. O seu presidente João Castro, esta semana, em entrevista à Rádio Europa, diz já contar com o apoio do CDS e do BE. E diz também o seguinte: “os pais que se separam têm um aumento de qualidade de vida entre 10 a 20% “ porque podem isentar mais ou menos esta percentagem a mais com as despesas dos seus filhos. Já conhecemos mais ou menos esta Associação e as preocupações que tem pela (sua) natalidade mas vir sugerir o contrário do que é do mais senso comum - um dos constrangimentos do divórcio não é a questão económica? - e receber o apoio de partidos como o BE já é um bocadinho de abuso. Diz ainda o sr. João Castro: “o alargamento do horário escolar não é uma política para a família. Porque a família está separada.” Não nos disse quantos filhos tem o sr. João Castro e quantas vezes ia multiplicar o valor a deduzir em sede de IRS mas com a ausência de preocupação sobre a ridícula rede do pré-escolar e com esta frase lapidar percebemos o que realmente importa a esta Associação
14 abril 2004
Famílas (a)Normais
É bastante curioso o entendimento que este Governo tem de família. Considerar família normal, aquela que se compõe de pai, mãe e filhos é, a todos os títulos, uma novidade.
Se tivermos em conta a história de Portugal vemos que desde a reconquista cristã, passando pelos descobrimentos, até aos mais recentes exílios políticos e de origem laboral proporcionados pelo fascismo, as famílias nunca foram maioritariamente assim. Os homens saiam em busca de "melhor sorte" ou de territórios deixando as mulheres sozinhas em casa a cuidar dos seus filhos. A normalidade, portanto, era a da união entre as mulheres, mães e avós, em torno da educação dos filhos. E claro havia os foras-da-lei. Existiam de facto! Gente que vivia fora das cidades e das suas leis. Não queriam nem aceitavam a ordem vigente e aí há muitos relatos de famílias muito diferentes... (das que este governo toma por iguais).
Isto tudo só para dizer uma coisa: por debaixo de uma capa de "fim das ideologias" e do apregoar da "normalidade" este governo não faz mais que tentar uma ideologia bem vincada de conservadorismo e da mais elementar agressividade aos direitos dos cidadãos, que cada vez mais não optam por esse tipo de famílias (felizmente).
rui
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