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09 outubro 2012

Alex Tsipras fala sobre a situação do país e da Syriza

Creio que o modelo europeu deve ser reconstruído desde baixo. Não podemos ficar satisfeitos com o que hoje se chama Europa. A crise atual não é uma crise europeia, mas sim uma crise mundial. A Europa não conta hoje com mecanismos para enfrentar e controlar o ataque financeiro mundial contra os povos da Europa. Isso explica porque a Europa se converteu em um continente onde o ataque do sistema financeiro mundial é feroz. Estamos sem defesa.

O euro, a moeda única, não é uma moeda impossível, quer dizer, uma divisa que não representa a realidade dos 17 países que compõem a zona euro e que, por conseguinte, impõe sacrifícios a muitas nações que não estão à altura do que o euro necessita para existir?
O euro não é a única razão da crise, mas é parte dela sim. A mola propulsora da crise é a arquitetura do euro dentro da Europa. Precisamos de ter uma moeda única, mas não uma moeda controlada, cuja única função é fazer favores ao grande capital e aos ricos. Precisamos de uma moeda que responda às necessidades dos povos. Temos uma moeda única, mas faz-nos falta contar com a capacidade de ter políticas para todos os países, em especial para os países da periferia que estão a sofrer neste momento. O Euro é um fenómeno mundial único: temos uma moeda única, ou seja, uma união monetária, mas carecemos de união política e de um Banco Central Europeu capaz de oferecer ajuda a todos os países da Europa.

Não há uma contradição na sua postura: ser de esquerda e, ao mesmo tempo, defender o euro?

Essa contradição existiria se defendesse o atual modelo de funcionamento do euro, o que representa, a sua arquitetura e a hegemonia exercida dentro dessa moeda única. O problema não é a moeda única, mas sim as políticas que acompanham essa moeda. O euro converteu-se numa prisão para os povos da Europa, em especial para as economias mais débeis da periferia que estão a enfrentar a crise. A contradição está na base a partir da qual se construiu o euro. O euro é um barril de pólvora que vai explodir se seguirmos neste rumo. As políticas de ajuste que andam de mãos dadas com o modelo neoliberal dentro do euro vão conduzir-nos à destruição da moeda. Mas quem vai pagar por isso serão os povos e não os bancos que vão tratar de salvar-se. O sectarismo dogmático das elites europeias que defendem esse modelo está a provocar um retrocesso de muitas décadas na Europa.

O grau de diagnóstico que você e a esquerda fazem da problemática é brilhante. Mas não se encontra a mesma eficácia na forma de enfrentar o sistema liberal. Como sair então da poesia do diagnóstico e entrar de verdade num processo de reforma contundente?

Uma boa maneira consiste em começar a mudar as correlações de força na sociedade. Em maio e junho passados, o partido Syriza esteve muito perto de romper essa correlação de forças que existia. A Grécia converteu-se numa experiência ultra-liberal, num porquinho da índia. Aqui colocou-se à prova a política do choque para logo em seguida ampliá-la para o resto da Europa. Mas temos a reação da sociedade. As pessoas já não têm a vida cotidiana que tinham antes e são essas mesmas pessoas que reagiram para que as coisas mudassem. Com a sua mobilização a sociedade ameaçou as elites do nosso país. Isso significa que estamos a mudar a correlação de forças mediante o comportamento crítico das massas. Cabe recordar que depois da ocupação nazi-fascista de nosso país, poucos anos depois, em 1958, a esquerda esteve a ponto de chegar ao poder. Perdemos as últimas eleições por uma margem estreita. Mas é preciso levar em contra que, do outro lado, não tínhamos como adversários somente as forças políticas, mas também um sistema financeiro mundial e europeu muito poderoso, que nos combateu com todas as suas armas de maneira feroz.
Se tivéssemos vencido as eleições, talvez a Grécia se converteria no elo débil capaz de romper a cadeia que sujeita hoje a Europa. Talvez a Grécia pudesse ter passado, assim, da condição de um rato de laboratório para a de um futuro bebé, o embrião da esperança. Mas ainda não perdemos essa oportunidade histórica. Os povos ainda não deram a última palavra

ler a entrevista completa em esquerda.net


20 fevereiro 2012

Gregos e Troianos

"Ao fim de dois anos de medidas de austeridade e de imposições absurdas e terroristas, que desestruturaram a sociedade grega, paralisam a sua economia e que instalam o caos no país, os gregos saem à rua. E perante as chamadas forças da ordem, os conflitos estalam. Mais de 160 feridos. As notícias dizem que 45 prédios ficaram em chamas. O que é mais preciso acontecer na Grécia para se assumir que a democracia foi suspensa e que se vive um clima de guerra civil? Se o que se passou em Atenas se passasse numa cidade do Médio Oriente, da Ásia, de África, ou da América do Sul, o que diriam os políticos europeus e a opinião publicada? Porque é que na Europa as palavras queimam, falamos com eufemismos e se vive uma censura velada de não-ditos?"


São José Almeida, "Mais algumas perguntas", Público, 18 de Fevereiro