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quarta-feira, 7 de julho de 2021

Adriano Nunes: "Sobre uma passagem de Νεφέλαι, de Aristófanes" - para Caetano Veloso

 Sobre uma passagem de Νεφέλαι, de Aristófanes (para Caetano Veloso)


Ao fim da peça Νεφέλαι (As nuvens), de Aristófanes, apresentada aproximadamente em 423 a.C., temos algo inusitado: o autor sugere explicitamente que Sócrates (que está na plateia, segundo relatos antigos!) e os seus amigos seguidores sejam mortos, por não acreditarem nos deuses da πόλεως. O que era para ser uma simples comédia satírica, tornar-se-á, 25 anos depois, um sério instrumento de acusação contra Sócrates o qual será condenado à morte.

O texto grego original é este, em que a acusação é resumida:

Στρεψιάδης (Strepsíades)
τί γὰρ μαθόντες τοὺς θεοὺς ὑβρίζετε,
καὶ τῆς σελήνης ἐσκοπεῖσθε τὴν ἕδραν;
Ερμῆς (Hermes)
δίωκε βάλλε παῖε, πολλῶν οὕνεκα,
μάλιστα δ᾽ εἰδὼς τοὺς θεοὺς ὡς ἠδίκουν.

Pus o texto para evidenciar algo também importante: nas edições diversas, todos esses fragmentos têm sido atribuídos a Strepsíades, quando, em verdade, os dois últimos versos desses fragmentos (versos 1008 e 1009) são ditos pelo deus Hermes. Por que Aristófanes põe esses 2 últimos versos na voz de um deus? O que está por trás dessa acusação de fundo dogmático religioso?

Primeiro, vamos à tradução:

Strepsíades:
Por que insultas os deuses e contemplas a morada da Lua?
Hermes:
Persegue, ataca, destrói! Eles merecem por motivos vários, máxime porque insultaram os deuses.

Mesmo a edição em que Carlo Rovelli se baseia para escrever o seu brilhante livro "Che cos'è la scienza. La rivoluzione di Anassimandro" não faz essa pequena distinção. Nem mesmo a edição The Complete Plays of Aristophanes, editada e com introdução de Moses Hadas faz. Inúmeras importantes edições fazem símile, inclusive algumas brasileiras, como a traduzida por Gilda Maria Reale Starzynski. Os motivos? Talvez, nunca saberemos. A fonte em que se debruçaram para traduzir? Mesmo no site Perseus, importante sítio de cultura grega e latina, que traz o texto grego original, com a fala de Hermes, suprime Hermes ao traduzir, pondo tudo na boca de Strepsíades.
Voltemos aos possíveis motivos das acusações. O real sentido deste pequeno ensaio sócio-histórico crítico.

A primeira razão para não suprimirmos a fala do deus Hermes parece óbvia: se se está a criticar moralmente um descrente, nada mais coerente que um deus pronuncie a sentença radical, cruel. A presença da fala de Hermes marca a última possível palavra para os rumos da existência humana. No teatro grego antigo, as ações humanas são in totum determinadas pelos deuses, pela vontade divina. Essa ruptura teatral dar-se-á apenas com Shakespeare e a sua "invenção do humano", como defendeu e atestou Harold Bloom. Hermes ditar o que deve ser feito com Sócrates, põe uma ordem no universo de tudo que há. Mas há algo mais...

Por que Strepsíades se refere a contemplar a morada da Lua? Em grego antigo, lua é ἡ σελήνη (no nominativo, por Selene, Selena e termos derivados). O texto grego traz τῆς σελήνης (no genitivo). A lua, como todos os astros, está acima da terra, no céu. E estar no céu significa pertencer ao reino dos deuses. O céu é o âmbito inviolável do divino, logo tudo que nele ocorre se dá por vontade divina, por ordem divina. Os fenômenos celestes, incluindo os raios, os trovões, as nuvens, a chuva, etc. são as mais visíveis manifestações da divindade, isto é, há uma ordem além-humanidade onde as coisas acontecem porque fazem parte exclusivamente do divino. Por isso, os gregos antigos, além da palavra ἄνθρωπος, para indicar seres humanos, humanidade, usavam uma específica para demarcar o traço mais humano que há: a mortalidade. Para indicar que o ser humano é mortal, distinto dos deuses, os gregos usavam a palavra βροτός. Insultar os deuses é uma forma de atestar que o insultador é um mero βροτός.

A palavra grega antiga ἕδραν significa "situação" ou "posição" e também "nádegas". Refere-se, então, às investigações meteorológicas dos socráticos e à sua insolência e indecência; Precisamos, assim, aqui, também pensar na Lua personificada como uma mulher. E mais: é importante lembrar que ἕδραι são os quadrantes do céu em que os presságios aparecem, acontecem, como percebemos esse sentido nos textos de Ésquilo e Eurípides. Agora sim, estamos quase lá! Por que Sócrates e seguidores ofendem os deuses? O que eles defendem que seja tomado como uma ofensa grave? E de onde será que partiu essa defesa, qual a sua origem?

A palavra ὑβρίζετε vem do verbo ὑβρίζω que, em Atenas, tinha um sentido legal, significando fazer um ultraje pessoal, maltratar, agredir. Usá-la, neste sentido, já que possuía outros, significa mesmo reforçar o caráter de ofensa. E a palavra ὕβρις, em seu sentido mais comum, significava devassidão, violência desenfreada ou insolência. A acusação feita contra Sócrates era então mesmo grave, pois mexia, abalava e insultava a ordem das coisas, o κόσμος como um todo.

Aproximadamente 2 séculos antes de Sócrates, um pensador de Mileto dava início a esse abalo na ordem das coisas: Anaximandro, que viveu aproximadamente entre 610-546 a.C. E o que fez Anaximandro? De acordo com Carlo Rovelli, a partir de Anaximandro, nasce a ideia de que seja possível compreender os fenômenos celestes e meteorológicos como ligados a causas naturais, independentemente das vontades e decisões divinas. A chuva, para Anaximandro, é um fenômeno natural. Surge a partir da evaporação da água do mar. Esta se acumula, formando nuvens (Νεφέλαι). Dizer isso, abertamente, promoveu uma das maiores rupturas na história do conhecimento humano. E as implicações disso trariam consequências sérias e até mesmo letais, como a morte de Sócrates.

Aprendemos, com Jean-Pierre Vernant, que a religião grega, além do θάμβος (temor reverencial, espanto, o maravilhar-se) e do sentimento difuso do divino (δαιμόνιον e θεῖον), apresenta-se como uma vasta construção simbólica, complexa e coerente que compreendia, assim, mito, rito e representação figurada. Esse conjunto de signos e sentidos configuravam uma ordem divina que se distinguia plenamente da esfera humana, ainda que com ela muito e intensamente se relacionasse. E era essa mesma ordem divina que era tomada por homens que se diziam descendentes direta ou indiretamente dos deuses, que ditavam, também a bel-prazer, os νόμους como se fossem legitimados pelos deuses citadinos, principalmente por Zeus. E, também, a partir daí, talvez, uma das origens do homem violento, da intolerância, como parte paradoxalmente do processo civilizatório.

A acusação de Strepsíades contra Sócrates e seus amigos. A sentença bárbara de Hermes. O motivo real disto, isto é, a ousadia racional de pensar o mundo fenomênico não mais como um objeto de vontades e caprichos dos deuses, apesar de sua consequência funesta para Sócrates, lançou mundos no mundo. Este lançar mundos no mundo abriu a existência para as possibilidades do conhecimento, das verdades fatuais, das ciências. Quase 2500 anos depois, ainda nos deparamos com novos Strepsíades, com novas sentenças de novos Hermes impiedosos, que buscam, a todo custo, negar a razão e seus fundamentos e efeitos mais visíveis: liberdades, conhecimentos, verdades fatuais. A pandemia veio mostrar-nos que os novíssimos tribunais da Inquisição ainda estão com as suas fogueiras acesas, com a sua barbárie prêt-à-porter, seus séquitos de negacionistas, irracionalistas, de intolerantes violentos.

Adriano Nunes

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Adriano Nunes: Sereias e cera: Ὀδυσσεύς dado ao canto ou ao silêncio? – para Antonio Cicero


Sereias e cera: Ὀδυσσεύς dado ao canto ou ao silêncio? – para Antonio Cicero


I


Em sua Ὀδυσσεία, Homero, entre os versos 173 e 179, do Livro XII (“αὐτὰρ ἐγὼ κηροῖο μέγαν τροχὸν ὀξέι χαλκῷ/τυτθὰ διατμήξας χερσὶ στιβαρῇσι πίεζον:/αἶψα δ᾽ ἰαίνετο κηρός, ἐπεὶ κέλετο μεγάλη ἲς/Ἠελίου τ᾽ αὐγὴ Ὑπεριονίδαο ἄνακτος:/ἑξείης δ᾽ ἑτάροισιν ἐπ᾽ οὔατα πᾶσιν ἄλειψα./οἱ δ᾽ ἐν νηί μ᾽ ἔδησαν ὁμοῦ χεῖράς τε πόδας τε/ὀρθὸν ἐν ἱστοπέδῃ, ἐκ δ᾽ αὐτοῦ πείρατ᾽ ἀνῆπτον:”), canta-nos que Odisseu – este relatando em primeira pessoa ἐγὼ (eu) - corta uma massa redonda de cera em fragmentos pequenos que são esquentados pelas próprias mãos. A seguir, ele põe a cera nas orelhas dos seus companheiros para que não ouçam o canto das Sereias, alerta dado por Κίρκη (Circe) que, nos versos 159 e 160, se apresenta assim: “Σειρήνων μὲν πρῶτον ἀνώγει θεσπεσιάων/ φθόγγον ἀλεύασθαι καὶ λειμῶν᾽ ἀνθεμόεντα.” (“Primeiro ela nos mandou evitar a voz das maravilhosas Sereias e o seu prado florido.”). A palavra grega antiga para Sereia é Σειρήν (no caso nominativo singular, quando faz a função de sujeito). No texto analisado, a palavra Σειρήνων está no genitivo plural, fazendo, portanto, a função de complemento nominal, pois “a voz das maravilhosas Sereias”.  É preciso compreender ainda que não se trata de um simples aviso, mas de um oráculo, isto é, uma informação divina acerca do destino. E Circe deixa explícito que é para evitar a morte, pois nos versos 155 a 157, Odisseu relata a necessidade de todos conhecerem o que a deusa disse, para que não morram: ” θέσφαθ᾽ ἅ μοι Κίρκη μυθήσατο, δῖα θεάων:/ ἀλλ᾽ ἐρέω μὲν ἐγών, ἵνα εἰδότες ἤ κε θάνωμεν/ κεν ἀλευάμενοι θάνατον καὶ κῆρα φύγοιμεν”. Percebam que o verbo grego ἀλέομαι (ἀλευάμενοι) significa “evitar”, “afastar”, e a palavra θάνατος significa “morte” que, no texto, apresenta-se como θάνατον, ou seja, na forma acusativa singular cumprindo a função de objeto direto, isto é: evitar o quê? Θάνατον! Todavia, por que Circe afirma que Odisseu deve ouvir o canto das Sereias e os demais não? Por que ela quer dar esse privilégio apenas ao herói de Ítaca e não a alguns de seus companheiros, já que todos, obviamente, não poderiam ouvi-lo pois morreriam? Seria isso uma dádiva restrita a alguns (no caso, Odisseu) ou apenas o capricho de uma deusa apaixonada (a proximidade com a morte evidencia alguma espécie de prazer para os deuses?)? Por que Odisseu aceita ouvir o canto das Sereias sem ter a certeza de que os outros não ouvirão? Por que ele não tapa as orelhas, segundo o relato de Homero? Ou ele tapou as orelhas e nem mesmo Circe, os deuses, os companheiros e nem mesmo Homero sabia disso, já que o poeta grego costuma chamar Odisseu de astuto, sagaz, inteligente, usando epítetos tais como πολύτροπος (versátil, multifacetado), logo até no começo da Odisseia: “ἄνδρα μοι ἔννεπε, μοῦσα, πολύτροπον, ὃς μάλα πολλὰ/ πλάγχθη, ἐπεὶ Τροίης ἱερὸν πτολίεθρον ἔπερσεν”? Seria outra astúcia do personagem que, enfim, liberta-se do seu criador e de todo o destino, até do leitor? 


II


 Passemos, agora, para a intrigante e instigante versão do mito contada por Franz Kafka em “Das Schweigen der Sirenen”. Kafka afirma que “um sich vor den Sirenen zu bewahren, stopfte sich Odysseus Wachs in die Ohren und ließ sich am Mast festschmieden”(para se proteger das Sereias, Odisseu tapou, com cera, as orelhas e fez-se atar ao mastro). Neste primeiro relato kafkiano, temos uma diferença substancial do relato homérico, pois o escritor grego disse que Odisseu não tapou as orelhas com cera, mas que chegou a ouvir o canto das sereias amarrado ao mastro. Vejamos: “ὣς φάσαν ἱεῖσαι ὄπα κάλλιμον: αὐτὰρ ἐμὸν κῆρ/ ἤθελ᾽ ἀκουέμεναι, λῦσαί τ᾽ ἐκέλευον ἑταίρους/ὀφρύσι νευστάζων: οἱ δὲ προπεσόντες ἔρεσσον.” (então elas falaram, enviando a sua linda voz, e o meu coração foi feliz em ouvi-la, e eu disse aos meus companheiros que me soltassem, acenando-lhes com as minhas sobrancelhas; mas eles prostraram-se em seus remos e remaram). Como poderia saber Odisseu que a voz das Sereias era mesmo bela, se não a ouvisse? Como saber que não era uma armadilha de Circe, senão ouvindo tal ὄπα κάλλιμον (bela voz)? É preciso compreender outro fato importante: as Sereias fazem questão de afirmar que sabem de todas as coisas que acontecem “ἴδμεν δ᾽, ὅσσα γένηται ἐπὶ χθονὶ πουλυβοτείρῃ” (verso 191, Livro XII). Se sabem de todas as coisas, certamente estavam “cons-cientes” de que Circe havia ajudado o seu estimado guerreiro, o astuto Odisseu. Se sabiam da cera e da proteção, insistiriam em cantar ou manter-se em silêncio? Conta-nos Kafka que “der Sang der Sirenen durchdrang alles” (o canto das sereias penetrava tudo). Parece agora haver um grande paradoxo, já que Circe disse que a cera protegeria a todos. Para Kafka, a arma mais poderosa das Sereias não é o seu canto, mas o seu silêncio: “nun haben aber die Sirenen eine noch schrecklichere Waffe als den Gesang, nämlich ihr Schweigen. Es ist zwar nicht geschehen, aber vielleicht denkbar, daß sich jemand vor ihrem Gesang gerettet hätte, vor ihrem Schweigen gewiß nicht” (agora, todavia, as Sereias têm uma arma ainda mais terrível do que o canto, ou seja, o seu silêncio. Pode não ter acontecido isso, mas é concebível que alguém tenha se salvado de seu canto, certamente não do seu silêncio.). O problema epistemológico que resulta disso é que Kafka não diz exatamente qual seria o poder desse silêncio, como ele agiria para que ninguém escapasse. Se ninguém escapou para relatar tal silêncio, como Kafka poderia saber disto? Homero não se atreve a tanto em sua ingenuidade brilhante. Para escapar desse labirinto de sentidos complexos, Kafka utiliza-se justamente das características que Homero dera a Odisseu. Assim relata, ao fim da sua pequena história, que “Odysseus, sagt man, war so listenreich, war ein solcher Fuchs, daß selbst die Schicksalsgöttin nicht in sein Innerstes dringen konnte. Vielleicht hat er, obwohl das mit Menschenverstand nicht mehr zu begreifen ist, wirklich gemerkt, daß die Sirenen schwiegen, und hat ihnen und den Göttern den obigen Scheinvorgang nur gewissermaßen als Schild entgegengehalten” (Odisseu, diz-se, era tão astuto, uma raposa tão ardilosa que até a Deusa do Destino não conseguia penetrar em seu íntimo. Talvez, embora seja difícil compreender sob os ditames da razão, ele pode ter percebido que as Sereias estavam silentes, e meramente se opunha a elas e aos deuses tendo como escudo o ato dissimulado supradescrito.). Ao que parece, em uma pesquisa de seus textos disponíveis, Kafka não mais tentou ouvir a voz da Sereias. Não as cita em nenhum texto mais. Silenciou-as em si.


Adriano Nunes










quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Adriano Nunes: "Beleza e poesia: os liames da indeterminação" (parte I)

"Beleza e poesia: os liames da indeterminação" (parte I)



Vez ou outra, alguns escritores, máxime poetas, quando indagados sobre o que é a poesia, vêm munidos de respostas que nos levam a crer/creditar/supor que a poesia é uma forma de revolução contra qualquer coisa estabelecida ou mesmo não-estabelecida e que, por isso, a beleza de um poema residiria em sua existência fora de qualquer padrão presumido, suposto, imaginado. Vê-se, então, o grande e grave engano que esses autores cometem por causa da própria definição que dão à poesia. 

Assim, analisando essas teses, sob os ditames da razão e também sob os juízos estéticos, desde logo deve ser percebida a primeira tentativa sub-reptícia de que, por essa via estética subversiva, tudo que fosse estranho, não-convencional, destituído de quaisquer regras ou recursos formais seria, por lógica, novo, e tudo que fosse novo, consequentemente, seria belo. Então, teríamos, também por dedução lógica, que admitir que os erros grosseiros e inaceitáveis gramaticais fossem perdoados em nome de uma arte que se pretende obra de arte, teríamos também que admitir que palavras desconexas, postas aleatoriamente, sem constituir qualquer sentido semântico, léxico, constituiriam poemas e estes deveriam ser tomados por belos. 

Se se quer que a poesia seja o contra, primeiro dever-se-ia perguntar: contra o que especificamente? E por quê? Contra a linguagem comunicativa? Mas um poema em si não pretende mesmo comunicar nada. Não seria por isso, tendo em vista o conceito kantiano de o poema ser uma finalidade sem fim, que esses escritores achem, por causa dessa razão, que a poesia deva ser o incomunicável in totum? Não seria então preferível o silêncio a quaisquer rabiscos destituídos do mínimo necessário de inteligibilidade? Ainda nesta perspectiva, acreditam certos poetas que têm que romper com algo, seja presente, passado ou futuro. Portanto, demarcam a linha de beleza nesse estágio de rompimento. Concretizam o seu padrão de beleza no rompimento, mas não apresentam um juízo estético capaz de justificar o que eles aceitam como belo. E quando propõem um pretenso juízo de gosto são ineficazes para universalizá-lo e destituí-lo de interesse. 

Pois bem, chegamos ao cerne do problema estético: incapazes de em seu juízo de gosto afastar quaisquer interesses, propõem, à socapa, um juízo estético impregnado de suas ideologias políticas, reacionárias ou não, de seus arquétipos religiosos, de seus dogmas mais fecundos e cheios de raízes profundas, dando à poesia, além da ausência de beleza, um caráter panfletário, quando muito, pois, numa miríade de vezes, só querem não fazer parte de coisa alguma, principalmente da bela poesia.




Adriano Nunes

Adriano Nunes: "Os 70 anos de Antonio Cicero"

"Os 70 anos de Antonio Cicero"



Não se espantem se ouvirem, hoje, por aí, a flauta de Euterpe, a lira de Erato. Não se espantem se Baco aparecer com o melhor vinho, com seu séquito de bacantes. É o aniversário do grande poeta e filósofo Antonio Cicero, meu amigo amado. A poesia está em festa. O pesamento lúcido, preciso, sob os ditames da razão está em festa. A música brasileira está em festa. Tentar resumir a obra e a importância de Cicero para a poesia e para a música brasileira seria praticamente impossível, até porque poucos sabem que por trás de canções marcantes, belíssimas, por exemplo, está a mão do poeta Antonio Cicero, irmão da cantora e compositora Marina Lima. Assim, vejam, meus amigos, que foi Cicero quem fez a letra para "O Ultimo romântico" cantada por Lulu Santos, e que Caetano Veloso eternizou ao solo de Jacques Morelenbaum (https://www.youtube.com/watch?v=A7H4ElbZUPA). Sabiam que a belíssima canção de Ritchie "Loucura e mágica" (https://www.youtube.com/watch?v=is9X8RXi5GQ) foi feita por Cicero? E a magistral "Inverno" (https://www.youtube.com/watch?v=JpZH7SmEboc) cantada por Adriana Calcanhotto; a perfeita "Granito" (https://www.youtube.com/watch?v=6hP5Fu2H44g) cantada por João Bosco? E a enigmática e brilhante "Bobagens, meu filho, bobagens" (https://www.youtube.com/watch?v=3OjaEmgTfpw) que Caetano deu ar de imortalidade? E as tantas compostas e interpretadas por Marina, como a belíssima e viciante "Fullgás" (https://www.youtube.com/watch?v=ZOZLN7HxMJU), a belíssima "Virgem" (https://www.youtube.com/watch?v=F7u2e8UCyLM) e a ótima e linda "Acontecimentos"? (https://www.youtube.com/watch?v=nzUTdutb4xU). Bem, a lista seria imensa e levar-me-ia a passar horas a repetir as palavras "belíssima", "perfeitas", etc e tal. Cicero, acima de tudo, é humilde, generoso, humano, amigo. Fala mais de 8 idiomas. Traduz. Responde sempre que possível a e-mail e comentários de seus fãs e amigos. Autor do grande poema "Guardar", um dos mais belos escritos em quaisquer idiomas. Não se espantem ao saber que Caetano Veloso disse em "Verdade Tropical" que parte do seu pensamento foi moldado por Antonio Cicero. Veja aqui a passagem do livro:

"Cícero destrói a falsa opção para o Brasil entre a bizarria estridente e imitação modesta. Ter ele chegado a esse ponto, para mim, representa uma confirmação da identidade profunda que senti com sua percepção das coisas, desde Londres. E o faz situar-se, em minha imaginação, não distante do Mautner do transliberalismo delirante - e com batuque.
Mautner é três anos mais velho que Gil e eu, e foi, sob vários pontos de vista, um precursor do tropicalismo (nós o chamávamos com ternura e ironia, de mestre), enquanto Cícero, uns quatro anos mais novo que nós dois (uns sete mais novo que Mautner), foi ele próprio levado a dar guinadas em seu pensamento por causa do que julgava ver no que fazíamos, sendo assim, em alguma medida, uma espécie de seguidor do tropicalismo - embora, é claro, não tivesse motivos para nos chamar, mesmo brincando, de mestres.
Mas eu os apresento aqui juntos nesse paralelo por atribuir a ambos - Mautner sendo mais influente do que Cícero na fase Londrina, e este o sendo mais do que aquele depois da volta ao Brasil - papel decisivo na (não por culpa deles precária) organização do meu pensamento."

Não é à-toa que o mais novo CD de Gal Costa "Estratosférica" abre com a belíssima canção-rock "Sem medo nem esperança" (https://www.youtube.com/watch?v=gJQFzOLgldk) composta por ele e pelo grande Arthur Nogueira, amigo que muito estimo. Bem, Cicero é a Grécia e Ipanema. É a Roma Antiga e as delícias suburbanas de Salvador. Em seu último livro "Porventura", ele dedicou um belo poema a mim chamado "Leblon" (página 55), o que me deixou emocionadamente feliz e grato por existir contemporaneamente a ele, um dos maiores da poesia, da filosofia e música brasileiras. Viva Cicero! Não se espantem se ouvirem as nove filhas de Mnemosine e Zeus louvarem, hoje, alto, alegremente aquele que era chamado pelo pai de "inocente do Leblon".


Adriano Nunes

domingo, 27 de janeiro de 2013

Adriano Nunes: "Ensaio sobre a obediência servil, cega"


"Ensaio sobre a obediência servil, cega"


O Brasil está morto. Incendiado. Queimado. Carbonizado. Intoxicado. Sem palavras. De luto. Estou mais morto. Morto de mim para com a minha parte de tudo por pertencer ao instante em que se dá a dor de saber-me semelhante à imagem do que fere, cerca e alicerça toda a vida. Santa Maria precisa de ajuda. Precisamos de ajuda. Precisamos ser melhores conosco e com os próximos. E com os distantes. Médicos, enfermeiros, técnicos em geral, a população brasileira, todos nós devemos nos mobilizar para auxiliar no que for preciso. E precisamos refletir um pouco para não fazermos caos nem falsos juízos. Ateus, cristãos, crentes não têm motivos pra celebrar coisa alguma ou ficar com dogmas à mostra, salivando venenos sobre o como e o porquê do ocorrido, manifestando falsas morais em proveito de um episódio doloroso como esse. Falta de fiscalização nas boates? Há. Tragédias acontecem. Muitas acontecem. O que é inadmissível é ouvir grupos fanáticos se vangloriando diante das mortes de jovens. Pior que a falta da fiscalização da segurança estrutural na boate de Santa Maria foi a falta de humanidade diante do acontecimento em si, durante a saída desesperada das pessoas, isto é, a obediência servil, cega, dos seguranças da boate (num primeiro e lastimável momento, segundo noticiado. Porque, se houve tal empenho em não liberar os jovens, morto estou novamente. Bem mais morto que poderei estar um dia), que, a fim de evitar perdas financeiras, cumpriu bem o papel nazista de invalidar a esperança que as vítimas ainda tinham para viver. Lembra-me tudo os falsos cegos e os cegos mesquinhos de "Ensaio Sobre a Cegueira" de José Saramago. Resta o horror da face mais podre humana, aquela que ainda precisa de comprovante pago para provar que é digna, que pode ter livre acesso à saída do cárcere social.