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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Uma Igreja que casou-se com o Sistema



 Pastor João A. de Souza Filho


Eu tinha apenas sete anos de idade quando minha mãe aceitou a Cristo numa denominação pentecostal. Lá se vão quase cinqüenta anos! A exigência de se viver um padrão cristão e a disciplina rígida a que nos submetemos desde os primeiros dias da Escola Dominical marcaram nossas vidas.

Hoje consigo perceber os resultados no seio da família: Cansada e numa cadeira de rodas, mamãe não consegue dimensionar o rastro de seu testemunho: 1 filho pastor e escritor, uma filha esposa de pastor e pregadora, seis netos no ministério em tempo integral, afora tantos outros filhos, noras, genros, netos e bisnetos comprometidos em suas congregações com o evangelho de Cristo Jesus!

No decorrer dos anos entendi que o mundo olha para a igreja esperando nela ver um diferencial, um estilo de vida que contraste com o estilo de vida da sociedade.

O mundo costumava ver a igreja sob a ótica do respeito, de vida transformada, de gente diferente, de pessoas de bens - de cujo seio saiam empregados submissos, donde empregadas domésticas eram requisitadas, de gente que pagava em dia suas contas - em que o dono do armazém vendia fiado na caderneta sabendo que receberia seu dinheiro.

No dizer de Pedro, sem amoldar-se às paixões da vida mundana que tínhamos antes de receber a Cristo (1 Pe 1.14). No dizer de Paulo, viver sem conformar-se com esse mundo (Rm 12.2) mostrando ao mundo "como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade" (1 Tm 3.15).

Recordo-me que em 1962 quando a igreja pentecostal foi grandemente perseguida em Porto Alegre pelos meios de comunicação contrários à realização de uma campanha evangelística, um cidadão foi para o rádio defender os crentes. Sua defesa: os crentes eram seus melhores funcionários!

No entanto, no decorrer dos anos a igreja incorporou em seu seio os valores mundanos, a filosofia do mundo, seus modismos, deixando-se levar ao sabor do sistema. Confundiu contextualização com contemporização - não soube trabalhar no contexto da sociedade e acomodou-se à sociedade que ela tanto insiste em mudar.

Ainda hoje o mundo espera ver na igreja o diferencial entre aquilo que frustradamente vive e o que espera encontrar na igreja - e quase não o encontra! Os pastores, antes serviçais, em cujas casas os pobres do bairro encontravam lenitivo e alimento, escassearam!

No lugar desses surgiram pastores sonhadores de riquezas, profetas balaônicos de olho nos presentes de Balaque; ricos, abastados, vivendo em condomínios fechados, alienados da própria membrezia, vivendo na opulência e no fausto. Alguns optaram por uma teologia de prosperidade que contrasta com a simplicidade de se viver o evangelho.

Vivem longe de suas paróquias, enquanto no passado o certo era viver entre os paroquianos, entre as pessoas do mesmo bairro. O pastor outrora tão presente no lar dos fiéis, são vistos de longe, e na imensidão de seus templos parecem figuras minúsculas gesticulando no púlpito, a menos que sejam projetados no telão ou vistos na tela da tevê.

A nova geração de crentes - cujos avós eram tão pobres, mas fiéis - melhorou de vida, subiu socialmente para a classe média e, até mesmo alguns ricos despontaram no cenário evangélico. Membros de igrejas, antes considerados proletariados, prosperaram, e hoje fazem parte da nata industrial e comercial da nação, no entanto, muitos deles se esqueceram dos exigentes padrões bíblicos: tratam seus funcionários da mesma maneira - quando não pior - que os patrões mundanos.

Aliás, alguns empresários que não se confessam cristãos têm ótima reputação dos seus funcionários; por outro lado, alguns crentes sequer querem trabalhar para empregadores evangélicos. Da mesma forma, os empregados evangélicos perderam o respeito e já não se submetem aos patrões como é ensinado no Novo Testamento. Costumam ser piores do que os descrentes.

Para encobrir o que somos, criamos a moda gospel, buscando parecer que o estilo de vida cristã, sua música e mensagem tenham adquirido nova roupagem. Pelo menos existe o charme glamouroso (desculpe-me o pleonasmo) na substituição do termo em português pelo inglês! E a geração gospel vai para a televisão falar de Cristo e do novo nascimento, literalmente sem roupagem alguma!

Mulheres sensuais e seminuas com um palavreado profano - não que queiramos que todos aprendam o evangeliquês - afirmam ser membros dessa ou daquela igreja. Não apenas as mulheres, mas também os homens confundem pelo visual e palavreado a mensagem do evangelho!

Apesar da obscenidade e do mundanismo que repugna o mais vil pecador, seus pastores sorriem e caladamente consentem, afinal o nome de sua igreja e seus nomes podem ser ouvidos pela mídia nacional. Outros, vestindo a roupagem tradicional dos evangélicos, sugam dos pobres o dinheiro e os bens em troca de um compromisso com Deus!

Além destes, surgiram pastores, pregadores e cantores, em todas as denominações, que mesmo sem aquela extravagante aparência, sem as requebradas coreografias e palavreado mundano - mantendo a antiga forma de vestir e o visual tradicional dos crentes - mas que em nada diferem em seu comportamento e moral daqueles que não conhecem a Jesus, nem por ele foram transformados, agregam-se à classe vil protagonizada por Jezabel e Balaão.

Seus cachês são os mais altos e seu comportamento, pior! São pessoas que, mesmo mantendo a postura evangelical, a aparência tradicional, repito, encaixam-se perfeitamente no perfil traçado por Pedro e Judas (2 Pe 2.10-22 e Jd 8-16).

A opção de ser crente, de ser um fiel discípulo de Jesus - às vezes uma decisão difícil sabendo-se que há um preço a ser pago em seguir a Jesus - já não é levado em conta por boa parte dos que se dizem cristãos, por pessoas que dão péssimo testemunho, pois seu comportamento no campo de sua atividade profissional contradiz seu palavreado e suas afirmações de fé. E isso vai do carpinteiro ao artista, da empregada doméstica ao famoso atleta, do estudante ao político.

Algumas igrejas parecem ter perdido o rumo. A quantidade de divórcios entre seus membros é testemunha gritante de como o evangelho diluiu-se no meio de uma sociedade paganizada. A santidade de alguns jovens que se propõem viver castos até o casamento é motivo de chacota no seio da própria congregação.

À essas igrejas, aos seus pastores, cantores, líderes e políticos cristãos, o profeta ergue a voz em protesto!

A mensagem de Amós precisa ecoar novamente na igreja, pois tem uma palavra de alerta aos membros da comunidade da fé. Ele não apenas diria "afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias da tua lira" (Am 5.23), acrescentaria:

"Afaste de mim o palavreado das mensagens que você prega, pois fecho os ouvidos quando você sobe no púlpito; cerro os olhos para não ler o que você escreve; detesto quando você menciona o meu nome; sua música é muito linda, sua banda é perfeita, sua voz belíssima, mas o som de sua melodia chega aos meus ouvidos desafinado pelo estilo de vida perverso que você tem; o cheiro que você exala provoca-me náuseas...".

Amós clama pelas ruas:

"Vocês oprimem o pobre e o forçam a dar-lhes trigo" - (Am 4.11), isto é, sugam dos pobres todo o dinheiro que eles têm para satisfazer os desejos pessoais de vocês, para construir suntuosas catedrais e comprar aptos. e terras. "Vocês oprimem o justo, recebem suborno e impedem que se faça justiça ao pobre nos tribunais" (4.12b), isto é, vocês os mantêm sob o jugo da autoridade, ameaçando-os e intimidando-os com a possibilidade de exclusão pública do rol de membros. A opressão da vara do pastor, de todas, é a pior!

Amós clama na igreja:

"Vocês se deitam em camas de marfim e se espreguiçam em seus sofás" (6.4), enquanto os pobres da igreja dão duro e trabalham; enquanto seus obreiros andam em ônibus lotados, à pé, suando para fazer a obra de Deus, vocês como líderes, do alto de sua autoridade, descansam no sofá repassando um a um as centenas de canais de tevê, deleitando-se em viagens, dormindo nos mais caros hotéis e freqüentando os shoppings da moda.

Ele diz aos cantores e grupos que cobram altos cachês para se apresentarem nas igrejas:

Vocês "dedilham suas liras como Davi e improvisam em instrumentos musicais" (Am 6.5), mas não têm o coração de Davi; buscam, isso sim, seu próprio bem-estar e, depois de cantarem e louvarem nos cultos das igrejas ou nos festivais, fecham atrás de si as portas do quarto de hotel e deleitam-se na fartura da melhor comida e das bebidas mais caras, quando não em orgias sexuais!

"Vocês bebem vinho em grandes taças - não apenas vinho mas toda sorte de bebidas caras e finas nas festas de gente ímpia que detesta o nome de Cristo - e se ungem com os mais finos óleos - têm aparência de possuir grande unção e poder, confundem poder e unção com habilidade e profissionalismo; fazem do ministério seu ganha-pão - mas não se entristecem com a ruína de José - isto é, vocês não choram, nem clamam, nem jejuam, nem se importam com a ruína da igreja e do mundo! Pensam apenas em vocês mesmos!" (Am 6.6).

A bússola da verdade deve urgentemente ser consultada para que a igreja ande na rota traçada por Deus! Quando isso acontecer, o mundo voltará a olhar a igreja como uma sociedade séria, diferenciada; como sociedade que tem rumo próprio.

Políticos evangélicos, firmem-se na verdade, pois o mesmo Deus que vocês alegam que servem, haverá de sacudir os fundamentos da estrutura política, como tantas vezes o fez, expondo-lhes à ignomínia. A mídia que vocês tanto amam é laço que lhes prenderá os pés; mordaça que lhes impedirá de falar; espinho que lhes cegará os olhos - essa mesma mídia impedir-lhes-á a caminhada, mas por certo, se vocês tiverem temor de Deus, haverão de se firmar no Senhor, servindo-lhe e apenas a ele de todo o seu coração!

"Ouçam esta palavra, vocês (...) que estão no monte de Samaria - Os políticos. Vocês que estão em posição de autoridade, nas casas do povo - vocês que oprimem os pobres e esmagam os necessitados - cujos altos salários contrastam com o pobre salário mínimo, e com o baixo reajuste salarial dos velhos e velhas aposentados, vocês que dizem - tragam bebidas e vamos beber - isto é, que vivem em festas, no meio da fartura" (Am 4.1). Ganham altos salários para fazer pequenos discursos nas Assembléias e Câmaras do povo. Até quando suportará Deus o hálito das festas e da embriagues?

As eleições estão chegando e teremos que suportá-los novamente bafejando o odor do mundo de Maquiavel sobre os púlpitos de nossas igrejas! Será insuportável, uma vez mais, observar pastores, cantores e líderes seguindo o curso do mundo governado pelo diabo - seguindo a carreira do mundo!

Que Deus tenha misericórdia de nós e abra-nos os olhos para enxergarmos na sua bússola o Norte a seguir. Que a igreja volte a andar no caminho da santidade e se diferencie do mundo ao seu redor!


quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Vivendo e servindo: Cinco testemunhos impactantes de Carmen Sílvia Musa Lício

 


Obra de Deus

 

Carmen Sílvia Musa Lício

 carmen.a.musa@gmail.com

Lá pelo ano de 2020, um senhor que morava em uma casa bem em frente à minha, começou a me procurar, perguntando se eu poderia esquentar a sua marmita no meu micro-ondas.

Ele tinha uns 45 anos e estava fazendo parte de um grupo que fazia reformas e pinturas no conjunto residencial onde estava. Ele morava lá por ser o seu local de trabalho e veio de Ribeirão Preto, SP.

Depois de um tempo trazia só arroz e feijão para esquentar. Eu fiquei com pena e colocava carne e, depois de esquentar, colocava salada. 

Aos poucos fui conhecendo a sua história. Seu nome era Moisés. Era caminhoneiro e, como havia se tornado alcoolista, foi demitido. Esta foi a única oportunidade que encontrou para poder se sustentar; abandonou a sua família e veio morar em São Paulo.

Após algumas semanas pude perceber que estava novamente tomando muita bebida alcoólica, o que estava atrapalhando novamente a sua vida.  O senhor que o contratou só não o mandou embora por pena. Eu pedi para ele ter paciência...

Uma vez, estava sentado na pequena escada que ficava em frente à sua pequena casa, muito triste e choroso. Quando me viu, se levantou e veio conversar comigo, em frente ao portão da minha casa, e contou que não estava mais aguentando esta vida e que não sabia mais o que fazer para se livrar do álcool e sentir paz no seu coração. Eu procurei falar com calma, e disse que só Deus poderia ajudá-lo nesta situação; que ele só sentiria paz se tivesse Jesus no seu coração.  Expliquei como é a conversão a Jesus e ele me perguntou como poderia fazer isto. Eu disse que se ele quisesse aceitar a Jesus no seu coração poderia orar comigo, repetindo as minhas palavras. Ele disse que sim e eu comecei a orar. Lá pelas tantas, ele gritou bem alto, olhando para o Céu: – "Jesus, vem morar no meu coração! Eu o aceito como o meu Salvador".

Gritou tão alto que toda a vizinhança veio para fora para ver o que estava acontecendo. Confesso que fiquei até um tanto constrangida e envergonhada, mas é bem melhor ouvir isto do que ver uma briga...

Depois perguntei se ele queria uma Bíblia, o que ele agradeceu, e começou a ler todos os dias, por várias horas. Até o seu semblante mudou...

Após uns 3 meses veio me procurar e disse que havia voltado a usar álcool. Estava muito triste. Conversei com ele e perguntei se queria que eu visse uma clínica de reabilitação. Aceitou e tentei algumas evangélicas, mas estavam todas lotadas. Após algum tempo ele caiu da escada e teve uma torção na perna. Consegui um atendimento na UPA e a sua perna direita foi enfaixada. Tinha que usar bengala e eu acabei dando a bengala que eu tinha de lembrança do meu pai, já falecido há décadas.

Depois consegui um atendimento na PMSP, onde foi acolhido e levado a uma clínica de reabilitação.

Ficou lá por 2 meses e quando saiu conseguiu um emprego como caminhoneiro novamente.  Foi para Ribeirão Preto, onde a sua família morava, e veio se despedir de mim, agradecendo muito o que eu fiz por ele, dizendo que quando viesse a serviço para São Paulo viria me visitar.

Nunca mais o vi, mas quando me lembro dele peço a Deus que continue abençoando-o e fazendo a Sua obra na sua vida.

Mais um testemunho de como Deus pode nos usar para transformar vidas...

 

 

Vida Transformada

 

Em meados de 2002 eu estava no Posto de Saúde atendendo os usuários, como sempre. Nesta época eu era Auxiliar de Chefia e tentava, dentro do possível, resolver os casos mais difíceis que chegavam a mim.

Fui procurada por um senhor de aproximadamente 60 anos, com suspeita de câncer de língua. Estava muito difícil conseguir uma vaga em qualquer hospital de referência, pois as portas estavam fechadas; inclusive as vagas de 'câncer de boca' para o ano já estavam lotadas e estávamos ainda no mês de maio!

Demorei uns 20 dias, ligando para onde você possa imaginar. Enfim consegui uma 'alma caridosa' que passou por cima das regras, 'benditas' regras, e conseguiu a consulta mais rapidamente. Após a biópsia, o diagnóstico esperado.  Vinha então um novo desafio. Ele foi encaminhado para fazer radioterapia no ABC e não tinha dinheiro para a condução (2 passagens intermunicipais e 4 passagens municipais) e o tratamento durava 40 dias. Liguei para muitas pessoas para ver uma maneira de conseguir, e, finalmente, consegui que ele fizesse o tratamento...

Conversei muito com ele sobre a necessidade de não mais fumar nem beber, fazer o tratamento direitinho e que, humanamente, estávamos fazendo tudo o que era possível. Incentivei-o também a procurar alguma igreja, dessas que têm o dom de cura e que não lhe 'cobrasse dinheiro'. E assim foi; parou de fumar e de beber e fez uma campanha de oração em uma igreja evangélica.

Após a quimioterapia, sofreu uma cirurgia que retirou uma parte lateral posterior da língua. Estava muito magro e fraco, além de morar sozinho. Disse que a sua família não se importava com ele (talvez por ser alcoólatra). Não me ative muito à sua família, pois deu para perceber que os relacionamentos familiares estavam rompidos.

Ele conseguiu com a assistente social do hospital onde fez a cirurgia alimento completo, que vinha em 'caixas longa vida'. Mal conseguia alimentar-se, tendo sido necessário colocar uma sonda naso- gástrica por onde introduzia o líquido.

De vez em quando vinha nos procurar para lavar a sonda, que entupia devido ao líquido ser bem espesso. Nesta época confesso que pensei que não conseguiria superar esta fase, pois estava muito abatido, tanto física quanto emocionalmente. Isto me preocupou, pois era uma brecha para a doença evoluir.

Procurei melhorar o seu estado de ânimo e continuei a falar que 'para Deus não há impossíveis'. Fez um tratamento de fonoaudiologia e conseguiu reabilitar a sua fala! Ficamos muito felizes. A cada vitória, comemorávamos juntos.

Depois perdi o contato com ele. De vez em quando o encontrava na rua e conversávamos um pouco...

Após muito tempo um senhor veio me procurar perguntando se eu estava me lembrando dele. Olhei com atenção e vi que a sua fisionomia me era familiar (o engraçado é que eu sou boa 'fisionomista'). Quando ele começou a falar, percebi que era 'o próprio, ao vivo e a cores!' Estava completamente mudado. Mais gordo (não obeso), corado, alegre e falante. Foi um momento inesquecível!

Após 4 anos de 'capítulo após capítulo', eu o via renovado, tanto física quanto emocionalmente!

Contou que estava completamente curado, com alta médica e tudo o mais; que conseguiu, através daquela assistente social, uma aposentadoria de um salário mínimo que dava para os seus gastos pessoais. Então contou-me que, através de um amigo, pela Internet, reencontrou um irmão que tinha se 'perdido pela vida e pelo mundo' há mais de 20 anos; que já fora lá visitá-lo e estava morando com a família.

E tem mais, conseguiu um bilhete de passagem gratuita tanto para a sua locomoção dentro da cidade de São Paulo, como intermunicipal e, pasmem, interestadual. Começou a viajar para outros lugares, começando por Curitiba – para rever o irmão e conhecer os seus sobrinhos...

Tirou muitas fotos, que mostrou para mim, com um misto de satisfação e orgulho. Emprestou-me até um DVD onde está registrado a sua viagem de trem para Paranaguá, com a família do seu irmão.

Depois 'pegou o vício' e começou a viajar por aí, indo para Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Vitória... Como não tem dinheiro para pagar algum lugar para pernoitar, viaja à noite, enquanto dorme; passa o dia conhecendo o local e volta à noite para São Paulo. Foi assim que acabou conhecendo o Rio de Janeiro, pois não tinha passagem gratuita na noite seguinte para regressar de Belo Horizonte à 'terra da garoa'. Acabou conseguindo uma passagem para o Rio de Janeiro, e embarcou!

Sempre que volta das suas viagens vem ao posto trazer as fotos para eu 'conhecer o local'. Como a máquina fotográfica é emprestada do irmão, dei uma câmera fotográfica que eu tinha guardada no 'fundo do baú'. Ele demonstrou muita alegria e disse que estava para ir à Blumenau e que me traria umas fotos tiradas com a sua nova máquina.  Pedi então para tirar uma foto dele lá.  Ele tirou e me trouxe... Tenho até hoje de lembrança!

Não é uma vitória??? Aliás, muitas, muitas vitórias!

 

 

Aborto Provocado

 

Estava de plantão no PS de um hospital, na zona sul de São Paulo, quando chegou uma moça passando mal. Perguntei o que aconteceu e a sua acompanhante me contou que ela havia tomado um remédio para provocar o aborto do feto que estava no seu ventre, de aproximadamente 2,5 meses de gestação.

Ela mal conseguia falar. Chamei o médico e contei o que aconteceu.

Como ela estava com muitas contrações, ele pediu para a levarmos para a Sala de Parto. Lá, após algumas contrações fortes, saiu o feto, ainda dentro da bolsa amniótica inteira, com o líquido amniótico.

Eu o peguei com a luva, enquanto o médico cuidava da paciente.

O feto não parava de se mexer, desesperado. Isto me chamou a atenção, pois parecia estar passando muito mal e se debatia sem parar, apavorado. Eu fiquei sem saber o que fazer, pois não havia o que pudesse fazer para salvar a sua vida, de aproximadamente 10 semanas.

Logo depois o médico veio observar e viu também o seu sofrimento...

Eu, para consolar o feto, envolvi as minhas duas mãos em volta dele, tentando aquecê-lo e fazê-lo sentir-se mais seguro. Ele se acomodou nas minhas mãos e morreu depois de poucos minutos...

Eu e o médico nos olhamos, e lágrimas escorriam dos nossos olhos.

Nunca havia passado por uma situação destas e vi como os fetos, mesmo com menos de 3 meses de gestação, sofrem muito quando são abortados.

Nunca mais me esqueci desta história.

Agora querem que o aborto seja legalizado, pois é um 'direito da gestante'. E o direito do pequeno ser humano, que nem consegue se defender?

Se não quer dar à luz, que evite a gestação usando camisinha, anticoncepcionais...

Depois que engravidou, que leve a gravidez até o final, e, se não o quiser, que o entregue para os familiares ou para adoção...

 


Conversão de José Wilson Lício

 

José Wilson, apesar de ser filho do rev. Wilson Nóbrega Lício, pastor Evangélico, se dizia ateu. Não acreditava mais na existência de Deus devido a algumas decepções...

Um dia, conversando com ele, eu disse que no dia que ele precisasse de uma ajuda maior, fizesse 'prova de Deus', pois na Bíblia há um versículo onde fala para O colocarmos à prova.

Depois de um tempo, houve o 'Plano Collor', onde todas as pessoas que tinham mais dinheiro no banco o perderam para o governo. Para não permitir que os seus colaboradores fossem à falência, ele os pagou e ficou zerado.

José Wilson era decorador e fazia decoração para empresários ricos, que moravam em São Paulo e Ribeirão Preto (SP).

Um dia ele foi entregar mais uma mansão decorada por ele. Ele fazia, muitas vezes, desde a escolha do terreno, a planta da casa, a decoração da casa e até do jardim.

Quando estava mostrando ao dono e à sua esposa a decoração do interior da casa, se lembrou de dois tapetes que ele importou da Índia, lindos, grandes e caros. O cliente que os havia encomendado acabou por desistir, devido à situação econômica do País; e o José Wilson ficou com o prejuízo, pois já os tinha importado e pago.

Os tapetes eram grandes, um de 3x5m e outro de 5x7m. Foi nesta hora que se lembrou do que eu dissera e, segundo ele, fez uma 'oração porca':

– Deus, se é  que você  existe mesmo, faça  com que este homem compre um dos tapetes, para me tirar dessa situação.

Falou para o senhor que os tapetes eram lindos e que ele poderia consultar a sua esposa sobre a sua compra, pois ficariam perfeitos na sala de jantar da mansão.

O senhor disse que não iria falar com ela, pois ela só sabia gastar...

Sem desistir, ele orou mais uma vez, em silêncio, falando para Deus, que se Ele existisse mesmo, que um milagre acontecesse.

O homem resolveu então ir falar com a sua esposa e enquanto estava no caminho da sala para a cozinha, José Wilson fez a sua última oração. E nesta mesma hora, o senhor se virou e disse:

– Não vou falar com ela, não.  Vou fazer uma surpresa! Vou comprar o tapete maior.

Voltou para onde o José Wilson estava e o encontrou com lágrimas escorrendo pelos olhos...

E assim Deus se manifestou para o meu querido irmão José Wilson, que se tornou crente, aceitando também a Jesus como o seu Salvador.

Glórias a Deus!!!

 

 

Aprendizado para toda a Vida

 

Eu tive um amigo que me era muito caro. Um rapaz inteligente que conheci desde que éramos pequenos ainda. Morávamos próximos e sempre visitava a sua família e ele a minha. As nossas famílias eram muito amigas. Brincávamos pelas ruas do bairro de Pinheiros, em grupos, e também a sós. Eram momentos de muita alegria.

Ele era realmente muito inteligente, além de esforçado. Tocava piano com maestria, falava sobre as plantas, quando via alguma em algum vaso ou pelas ruas e parques. Dizia os nomes científicos, como deveriam ser cuidadas. Ao ver um aquário, falava sobre cada um dos peixes, como deveriam ser cuidados, como deixar um aquário autossuficiente, de modo a não precisar ser esvaziado e limpo... Amava Astronomia e, ao ver as estrelas, discursava sobre cada uma delas, seus nomes e a qual constelação pertenciam. Tudo isto e muito mais, mas sempre com humildade, de uma forma tranquila, com bom humor, sem querer ‘aparecer’.

Quando chegou ao final da adolescência, resolveu cursar Medicina. Sendo estudioso, entrou em duas faculdades, escolhendo ir para Campinas, onde começou a fazer o seu curso. Depois desta fase eu quase não tinha quase notícias dele, a não ser pelos seus familiares, além de serem notícias esporádicas.

Depois de um tempo, pouco mais de um ano, desistiu, retornando a São Paulo. Passou um tempo em depressão e depois começou a trabalhar como ‘office-boy’ em Pinheiros e arredores. Pouco o encontrei ou conversei com ele nesta época, inclusive por eu ter me mudado de lá com a minha família. Uma vez o encontrei no Largo de Pinheiros e quando

perguntei por que resolveu ser ‘office-boy’, respondeu laconicamente que era bom, pois andava durante todo o dia e assim, ao voltar para casa, dormia logo, de tão cansado, e não ficava pensando, à noite, nos problemas da vida.

E o tempo passou...

Depois de alguns anos soube que ele resolveu novamente tentar fazer Medicina, e mais uma vez entrou em uma excelente faculdade pública em São Paulo, com excelente classificação. E assim acompanhei, de longe, o seu esforço para cursar a faculdade, sendo sempre muito bem avaliado.

Um dia, quando eu estava terminando a Faculdade de Enfermagem na USP, ele cursando o quarto ano de Medicina, meu pai recebeu um telefonema onde disseram que ele estava internado na UTI do Hospital das Clínicas, em estado grave. Fiquei consternada, sem saber o que pensar a respeito, só querendo vê-lo e saber como estava. Fui correndo para lá, ainda com o uniforme de estudante, o que me facilitou a entrada. Vi que estava mesmo muito mal, em estado de coma, com traqueostomia. Ao conversar com os médicos, eles me disseram que o seu estado era grave e que dificilmente sobreviveria.

Soube então da sua história. Seus pais resolveram viajar para o litoral e ele disse não querer acompanhá-los para ficar em casa e estudar para uma prova. Seus pais saíram de carro e logo depois resolveram voltar, pois seu pai havia esquecido um documento. Assim que chegou à sua casa, chamou pelo filho, que não respondeu. Subiu as escadas que dava para o andar superior e logo viu a porta do banheiro, entreaberta, com barulho de água corrente. Entrou e viu o filho sentado na banheira de ‘ofurô’, com os pulsos cortados, com o sangue jorrando até o teto. Ficou desesperado, fez um torniquete no braço, chamou a ambulância, que o levou ao Hospital das Clínicas.

Ele era um rapaz magro, alto, mestiço de japonês com brasileira, muito bonito. Eu não conseguia entender o que poderia tê-lo levado a um ato tão extremo. Ficava imaginando a sua aflição por algo que estava tirando a sua paz e a tristeza profunda dos seus pais, irmãos e familiares...

Comecei a visitá-lo todos os dias, após o meu estágio no próprio HC, e depois, mais à noitinha, após o término das aulas teóricas, no prédio ao lado. E sempre que ia lá, pegava na sua mão e conversava com ele, mesmo ele estando em estado de coma profundo. Dizia que era o meu amigo preferido, que o amava como a um irmão, que a sua vida era muito importante para mim, para os seus parentes e amigos. Sempre, antes de entrar na UTI, lia algum versículo da bíblia que falasse sobre o amor de Deus, sobre a sua imensa bondade, discorrendo depois sobre o texto. Sabia que algo muito sério deveria ter acontecido para que ele desistisse assim da vida e queria tocar o seu coração, pois sabia que só sairia dali vivo se ele mesmo quisesse e lutasse pela sua própria vida.

Uma vez um dos alunos de medicina, que cuidava dele, me contou que era seu colega de faculdade e relatou-me alguns fatos que aconteceram com ele, mas nada que justificasse toda esta tragédia. Eu percebia que havia uma razão muito séria por trás de tudo aquilo e orava para que Deus me desse a Sua sabedoria, para que eu pudesse chegar ao seu coração e tocá-lo de alguma forma. Pedia também para que Deus me desse tempo suficiente e a melhor forma de falar de Jesus para ele, que segurasse a sua vida até ele ouvir sobre a verdadeira mensagem do evangelho.

Depois de passados uns 15 dias, eu estava falando com ele, segurando a sua mão quando, de repente, eu disse:

– Olha, eu estou vindo aqui todos os dias. Tenho falado com você, sem ao menos saber se você me ouve ou se me entende. Não sei se estou falando com as paredes... Se você está me escutando, dê algum sinal, por favor! Pode ser um aperto de mão, um piscar de olhos, qualquer coisa... – E fiquei atenta.

De repente, senti um aperto de mão forte, o que me deixou muito surpresa e feliz, já que os médicos diziam, sempre, que eu estava falando com uma ‘planta’, pois ele nada poderia escutar, já que estava em um coma profundo. Diziam isto para que eu aceitasse a sua condição, e me conformasse.

Depois de saber que ele não só me escutava, mas também conseguia me entender, comecei a falar de uma forma mais clara e direta, pedindo a ele para que, se concordasse comigo, me apertasse a mão; se não, ficasse quieto. Quando não apertava a mão, pedia então para que, se não concordasse comigo, apertasse então a minha mão. E começamos assim a nossa 'conversa’.

Uma vez, antes de ir para o HC, passei pelo Largo de Pinheiros, onde pegaria outro ônibus para lá e, sem querer, enquanto conversava com um rapaz, ainda no ponto de ônibus, quando contei deste meu amigo, ele começou a contar que ele havia sido seu colega lá em Campinas.

Eu fiquei chocada com esta ‘coincidência’. Contou-me um pouco das razões que levou este meu amigo a desistir de ficar lá e terminar o seu curso, já que era um excelente aluno. Disse que ele, sendo de uma família evangélica, resolveu morar em uma república onde haviam vários rapazes. Um dos seus companheiros de quarto procurou-o no meio da noite, tentando manter uma relação sexual com ele, que ficou chocado, pois este rapaz era um dos líderes da igreja evangélica local. Não ficou claro para mim, nem para este rapaz, até que nível chegou este possível relacionamento. Só sei que foi por esta razão que ele abdicou do seu sonho de se formar em Medicina, voltando para São Paulo desesperançado, atormentado e deprimido, além de não mais confiar em Deus, na igreja, onde fora criado por tantos anos. Percebi que

não se sentia digno do perdão de Deus por tal ato. Lembrei-me então de como estava descrente quando o encontrei no enterro da sua avó, pouco tempo depois da sua volta de Campinas.

Então consegui entender um pouco da provável razão para ele ficar tão desacorçoado, sem acreditar mais no ser humano, na igreja, na vida, em Deus! E continuei a visitá-lo todos os dias, sempre tentando falar com ele sobre o que eu sabia ser a única razão que poderia tocar o seu coração: a fé em Deus.

Falei então sobre o versículo onde está escrito que Deus não só perdoa nossos pecados, como deles se esquece; que não há pecado, por mais escarlate que seja, que Deus não possa tornar mais branco do que a neve. E outros versículos que mostram o Seu grande amor por nós. Falei sobre Deus nos amar a tal ponto que nos deu o único filho para que fôssemos perdoados, já que não somos, nem conseguimos, ser perfeitos. Falei do sacrifício de Jesus na cruz e, no final, perguntei se ele queria entregar a sua vida a Jesus, confessar os seus pecados e aceitá-lo como o seu único Salvador. Pedi a ele que se concordasse apertasse a minha mão; não apertou. Disse que se não concordasse, que deveria apertar a minha mão. Não apertou. Então perguntei se estava me ouvindo; apertou a minha mão. Perguntei se estava na dúvida; apertou a minha mão. Então perguntei se poderia orar por ele, apertou a minha mão. Orei por ele e disse para ele pensar até o dia seguinte.

No dia seguinte, quando li outro versículo, disse a ele que eu ‘não iria enfiar pela goela abaixo algo que ele não quisesse, só porque estava sem poder me responder’. Ele respondeu, do nosso jeito, que eu poderia continuar a falar. No final perguntei se queria, afinal, aceitar a jesus como o seu Salvador, e ele apertou fortemente a minha mão. Orei com ele e me pareceu que até o seu semblante ficou mais calmo, mais sereno. Aquele ar de tristeza, de angústia, deu lugar a uma paz que parecia vir de dentro para fora. Depois de poucos dias começou a dar um pequeno sorriso, só de um lado da boca, quando eu brincava com ele. Comecei então a ter mais esperança e ia visitá-lo, mais animada.

Neste dia, quando fui conversar com os médicos eles me disseram que, mesmo que ele sobrevivesse, já havia perdido a visão, pois havia, além de tudo, tomado um veneno para plantas, que o havia tornado cego. Disseram ainda que também não andaria e talvez sobrevivesse com sérias limitações.

Sabendo que os seus pais e irmãos queriam muito visitá-lo, pedi a ele que os recebesse. Ele não queria, mas eu sabia ser importante para a sua mãe. Então, depois de uma certa insistência, ele aceitou.

Um dia, ao chegar lá, o encontrei chorando muito, convulsivamente. Chorava alto e o som do seu choro saia pela traqueostomia, fazendo um som horrível, gutural; o que me fez chorar também. Fui conversar com os médicos e perguntei o que havia acontecido e eles me disseram que ele ficou assim depois que a sua mãe o havia visitado, na noite anterior. Chorou durante toda a madrugada e durante toda a manhã. Conversei com ele e tentei acalmá-lo, dizendo que não sabia o que a sua mãe havia falado, mas fosse lá o que fosse, tentasse se lembrar de que uma mãe desesperada às vezes fala coisas que não deveria falar nunca, mas que ela sempre o amou. Orei com ele e ele se acalmou. Pedi então aos familiares para não o visitarem mais, até que ele melhorasse de vez...

Uma tarde, quando estava conversando com ele, um dos residentes me inquiriu, dizendo como eu podia dizer que conversava com um ‘quase morto’. Eu expliquei como havia sido o nosso processo e eles ficaram muito intrigados, além de curiosos. Falei para eles ficarem calados e acompanharem toda a minha conversa. E assim foi. Até que eu perguntei se ele havia dormido bem; ele não apertou a minha mão. Depois eu perguntei se havia dormido mal e ele apertou a minha mão. Daí resolvi perguntar o que havia acontecido. Pedi para que ele apertasse a minha mão quando chegasse na primeira letra da palavra que seria a causa da sua insônia. Falei todo o ‘abecedário’, e nada! O rapaz que era residente, já entusiasmado, falou bem alto que ele não havia entendido direito, que eu repetisse. Eu fiz sinal para ele ficar quieto e expliquei novamente como seria a nova fase do processo por nós descoberto. Foi quando eu disse ‘D’ e ele apertou a minha mão. Para agilizar eu já perguntei se estava sentindo alguma dor; ele respondeu que sim. Novo abecedário e na letra P, novo aperto de mão. Perguntei se era ‘dor no pé’ e ele respondeu que sim. Descobri os pés dele e pudemos observar enormes hematomas que foram feitos à noite, na tentativa de pegar uma nova veia.

Como ficou claro que ele percebeu que estava sendo observado durante a nossa conversa, pedi a ele que dali para a frente respondesse às perguntas dos médicos. Ficou ‘calado’, mas eu disse que eles queriam o seu melhor e assim ele estaria ajudando na sua própria recuperação. E assim ele concordou.

Nesta época ele apresentou uma infecção generalizada e eles entraram com antibióticos mais potentes.

Depois de alguns dias, percebendo que os seus cabelos estavam muito sujos e oleosos, perguntei se ele me deixava lavá-los e ele aquiesceu. Pedi uma bacia e uma jarra com água morna, uma toalha de banho e uma auxiliar de enfermagem me auxiliou, já que ele não conseguia se movimentar. Não quis dar banho no leito nele por achar que possivelmente ficaria constrangido, sendo eu mulher e sua grande amiga.

Depois deste ‘banho’ resolvi dar uma volta pelas redondezas para esfriar a minha cabeça e voltar no final da tarde para visitá-lo novamente, no próximo horário de visita. Fui ao cinema, no Conjunto Nacional, próximo dali, e ‘assisti’ a um filme. Não me perguntem qual foi o filme, pois o filme que passava na minha cabeça era tudo o que havia acontecido nestes últimos 20 dias...

Só pensava em como Deus havia atendido às minhas orações e em tudo que já havia acontecido. Mas continuava a orar por ele, pedindo a Deus que se fosse para ter tantas sequelas, uma vida em cima de uma cama, sem qualquer qualidade de vida, que o levasse para junto de Si.

Na volta visitei-o novamente e ele até deu um sorriso para mim. E saí dali mais tranquila, mesmo sem saber qual seria o final desta história.

Chegando em minha casa, conversei com os meus pais, e fui dormir, não sem antes orar mais uma vez por ele. Confesso que naquela hora pensava na possibilidade de ele sobreviver, sem maiores sequelas, e usufruir uma vida, produtiva e feliz. E adormeci...

Fui acordada lá pelas 5:30h do dia seguinte, com o pai dele me dizendo que ele sabia que eu 'já esperava por esta notícia’. Disse que ele morreu à noite, dormindo, sem sofrimento algum. Eu agradeci a ele e disse que iria logo para lá. Confesso que à estas alturas eu não esperava este final, assim, tão rápido...

Ele se foi, mas ficaram as memórias, as boas e más lembranças, e, principalmente, ficou a certeza de que ele está junto a Deus, gozando da Sua presença e do Seu grande amor. Quando lá eu chegar, só quero dar um abraço bem apertado nele, que falará por si só...

Ficou a enorme gratidão a Deus por haver permitido que eu pudesse ter tempo para falar de Jesus e, principalmente, de ele O aceitar como o seu Salvador.

E ficou o grande aprendizado que auxiliou durante toda a minha vida profissional, como enfermeira, bem como na minha vida pessoal, com os meus familiares...


domingo, 15 de março de 2020

J. N. DARBY E O SALMO 23


Conta-se sobre o famoso tradutor e estudioso da Bíblia, John N. Darby (1800 - 1882), que, durante um feriado entre as montanhas, ele conheceu um pastor pobre que estava doente. Averiguando, descobriu que o jovem havia adoecido depois de procurar um cordeiro de seu rebanho que havia se perdido na neve; salvou-lhe a vida ao custo da sua porque estava morrendo de tuberculose como resultado das horas passadas ao ar livre naquela noite.

Darby contou a ele do Bom Pastor que veio do céu à procura de ovelhas humanas perdidas, sacrificando sua vida por amor a elas. Darby ensinou a ele o primeiro versículo do Salmo 23 e, para ajudá-lo a se lembrar, ele disse as palavras contando nos dedos. Existem cinco: "O Senhor é meu pastor" e ensinou-o a enfatizar a palavra MEU, segurando o quarto dedo da mão. O senhor Darby retornou no próximo ano ao mesmo lugar e foi visitar a cabana onde morava o pastorzinho doente. A mãe disse a ele que poucos dias depois de sua primeira visita, havia encontrado o filho morto. Ele segurava o quarto dedo da mão. Darby se sentiu muito emocionado ao ouvir isso e teve certeza de que encontraria o pastor no céu, pois não duvidava que o menino havia aceitado o Senhor Jesus como seu Pastor e Salvador.

Adolfo Robleto - 501 Ilustraciones Nuevas

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A influência do líder cristão - Amor sacrificial



A INFLUÊNCIA DO LÍDER CRISTÃO

Provavelmente nenhum estrangeiro exerceu uma maior liderança sobre as pessoas de Shaohsing, na China, em princípios do século vinte, que o doutor Claude H. Barlow (1876 - 1969). Este missionário médico, que foi homem modesto, foi a personificação do domínio próprio.
Uma estranha enfermidade, cuja cura era desconhecida, estava matando as pessoas e não se dispunha de um laboratório no qual pudessem se realizar, sobre a doença, pesquisas apropriadas. O doutor Barlow encheu seu caderno de notas com observações acerca das peculiaridades da enfermidade em centenas de casos. Então, avendo se apoderado de uma pequena proveta que continha os micróbios da enfermidade, navegou até os Estados Unidos. Pouco antes de chegar, aplicou os germes em seu próprio corpo e foi rapidamente até o Hospital da Universidade Johns Hopkins, onde havia estudado.
Claude Barlow estava muito enfermo, de maneira que se pôs nas mãos daqueles que haviam sido seus mestres, oferecendo-se como cobaia, para que eles estudassem e experimentassem sobre seu corpo. Encontraram a cura e o jovem médico se recuperou. Regressou de novo ao barco para a China com o tratamento científico que curaria aquela praga e logrou salvar a vida de multidões inteiras.
Quando lhe perguntaram acerca de sua experiência, o doutor Barlow disse simplesmente: “Qualquer um faria o mesmo. Por acaso em encontrei na situação adequada e tive a oportunidade de oferecer meu corpo”. Que tremenda humildade! Que grande amor o seu!
Não é de estranhar, portanto, que as multidões seguissem a liderança de Barlow, depois de seu regresso. Demonstrou o domínio do amor. Arriscou a vida e digamos que também sua reputação e seu futuro ministério, tentando o impossível e motivando a outros graças a seu amor que foi manifesto na entrega de todo o seu ser para o benefício do próximo. E a qualidade inigualável desse amor foi seu autodomínio, seu controle de si mesmo.
É essa classe de líderes a que atrai seguidores e os faz desejar seguir atrás de um tal condutor.
John Haggai

(Traduzido do livro 502 Ilustraciones Selectas, de José Luis Martínez).


sexta-feira, 1 de março de 2019

Não preste atenção na montanha – O aprendizado de Bill Hybels na Índia



Este é o primeiro princípio para vencermos os problemas: a fé vem pelo olhar para Deus, não para a montanha.
Há alguns anos, um membro do coral da minha igreja e eu fomos convidados por um líder cristão para ir ao sul da índia. Ali nos reuniríamos a um grupo de ministério composto por pessoas de diversas regiões dos Estados Unidos. Foi-nos dito que Deus nos usaria para alcançar para Cristo muçulmanos, hindus e pessoas sem religião. Todos nós nos sentimos chamados por Deus para ir, embora sem saber o que nos aguardava.
Ao chegarmos, o líder indiano nos convidou para ir a sua casa. No decorrer dos dias, falou-nos de seu ministério.
O pai dele, orador e líder dinâmico, havia iniciado a missão em uma região de domínio hindu. Certo dia, um líder hindu pediu a seu pai que orasse.
Ansioso para orar com o homem, na esperança de levá-lo a Cristo, aquele cristão conduziu-o a uma sala particular, ajoelhou-se com ele, fechou os olhos e pôs-se a orar. Enquanto orava, o hindu tirou uma faca da roupa e apunhalou-o repetidas vezes.
Meu amigo, ouvindo os gritos do pai, correu em seu auxílio. Tomou-o nos braços, enquanto o sangue se espalhava pelo assoalho da cabana. Três dias depois, o pai morreu. Em seu leito de morte, falou ao filho: "Diga, por favor, àquele homem, que ele está perdoado. Cuide de sua mãe e continue com este ministério. Faça o que for necessário para ganhar pessoas para Cristo."
Com mais coragem e fé do que a maioria das pessoas jamais sonharia em obter, este homem de Deus obedeceu. Há mais de vinte anos vem trabalhando com fervor inacreditável. Fundou mais de cem igrejas, uma clínica médica, além de vários tipos de ministérios.
Todo ano, geralmente em fevereiro, ele aluga um enorme parque, monta um palco e um sistema de som improvisados, pendura algumas lâmpadas e dirige reuniões evangelísticas durante uma semana. Faz publicidade das reuniões por intermédio de cartazes e alto-falantes por toda a cidade. As pessoas acorrem aos milhares e sentam-se no chão, em frente ao palco, homens de um lado e mulheres e crianças, do outro.
As reuniões da noite começam às 18 horas. Por cerca de meia hora eles ouvem música instrumental gravada, seguida por alguns números especiais. Depois, vem o sermão de aquecimento. Instrutivo, prático e relevante para a vida diária, seu objetivo é mostrar aos ouvintes que o Cristianismo faz sentido.
Mais ou menos às 20 horas, mais dois números musicais são apresentados, antes da mensagem principal, que é sempre centrada na pessoa de Jesus Cristo. O pregador fala sobre quem era Jesus, o que Ele fez, como morreu, como sua morte paga o preço pelo pecado, como sua ressurreição dá poder àqueles que colocam sua fé e confiança nele.
Das 21h até 21h30, os ouvintes, quer sejam hindus, muçulmanos ou não religiosos, são convidados a crer em Cristo. São chamados à frente para receber perdão, purificação e vida eterna, depois são desafiados a abandonar outros deuses ou sistema religioso que trouxeram consigo para a reunião, e a colocar fé e confiança somente em Jesus.

Uma missão assustadora na índia

De terça até quinta-feira, minhas tarefas foram viáveis. Eu falava em uma reunião bem pequena, na parte da manhã ou pregava o sermão de aquecimento, à noite. Na sexta-feira, o líder do ministério disse: "Eu recebi orientação de Deus e quero que você se encarregue do sermão principal desta noite."
Estarrecido, fiquei imaginando por que eu não havia recebido uma orientação semelhante.
A barreira do idioma parecia quase intransponível, mesmo com o tradutor.
Eu não estava familiarizado com a cultura e minha palavra seria de pouca ou nenhuma relevância para a situação das pessoas. Seria difícil usar ilustrações engraçadas. Eram tantas incógnitas que, toda vez que eu tentava orar, depois de trinta segundos era impedido por dúvidas e temores. De que adianta?, pensava. As barreiras são intransponíveis.
A noite chegou. Pegamos um riquixá para o parque. Ao nos aproximarmos, ouvi a primeira mensagem pelo alto-falante. Havia um pouco de tempo para acalentar minha paranoia.
Sentamos no fundo do palco. Olhei, e vi o maior mar de rostos que já vira na vida. Um dos líderes indianos me cutucou e disse: "Temos vinte mil hoje, talvez trinta."
Depois desta, qualquer migalha de confiança que eu pudesse ter, desapareceu. Vai ser um desastre - pensei. O que estou fazendo aqui?
Olhei para trás do palco. O líder do ministério e diversos líderes de sua confiança, com os rostos em terra, oravam.
Sei a respeito do que estão orando - refleti. Já se deram conta de que o americano que vai pregar o sermão principal é bem capaz de esvaziar o parque em questão de minutos!
Era do meu conhecimento que aqueles homens viviam na pobreza e lutavam com dificuldades incríveis para pregar a Palavra de Deus. Haviam dado suas vidas para que as pessoas presas em sistemas religiosos falsos pudessem conhecer a verdade de Jesus Cristo. Como as reuniões anuais eram o ponto alto de seus esforços de todo um ano, sentia-me angustiado com o revés que o trabalho deles iria sofrer devido à minha pregação inepta.

Grande é a tua fidelidade

Àquela altura, o primeiro pregador terminou a mensagem. Eu teria ainda cerca de dez minutos antes de entrar na linha de fogo. Pouco depois, a solista da minha igreja se aproximou do microfone, para cantar.
Tenho que sustentá-la em oração - pensei - mas serei o próximo, e quando o navio está afundando, é cada um por si.
Minha oração tornou-se mais veemente. Oh, Senhor, livra-me. Faça chover. Faça com que eu desapareça!
A montanha parecia tão grande que eu não via porque pedir a Deus para removê-la. Eu ficaria feliz se ela caísse sobre mim e me libertasse da angústia.
Enquanto minhas orações lastimáveis dançavam em minha mente cheia de dúvidas, eu ouvi timidamente a solista.

Grande é a tua fidelidade, meu Pai celestial,
Não há sombras ao teu lado;
Tu não mudas, tuas misericórdias jamais se acabam;
Como tu eras, sempre serás.
Grande é a tua fidelidade! Grande é a tua fidelidade!
Tuas misericórdias se renovam a cada manhã;
Tua mão provê todas as minhas necessidades —
Grande é a tua fidelidade para comigo, Senhor!

Como eu, a cantora não sabia a língua dos ouvintes. Portanto, ela não podia apenas cantar uma canção; devia haver uma comunicação de coração para coração, ou nada aconteceria. Ao mesmo tempo em que ela se comunicava, de coração para coração, com milhares de pessoas diante do palco, também se comunicava com um pastor angustiado, inseguro, sem fé, que precisava bem mais daquela música do que a própria multidão. Algo aconteceu comigo ao ouvir a letra de: "Grande é a tua fidelidade". Enquanto as palavras penetravam em meu cérebro, lembrei-me para onde eu havia direcionado a minha atenção durante todo o dia. Em mim mesmo: a barreira da linguagem, minha perplexidade cultural, minha inexperiência, minha fraqueza, meu medo de fracassar, meu pavor de uma multidão tão grande. Eu estava olhando apenas para a minha montanha, e só conseguia ver minha incapacidade para removê-la.
Minhas orações eram lamentáveis porque eu olhava para minha insuficiência, em vez de olhar para a suficiência de Deus!

Mudança de direção

À medida em que o hino continuava, disse a mim mesmo: Espere um pouco, vou mudar a direção agora mesmo. Vou olhar para Deus, não para Hybels.
Eu tinha pouco tempo, e comecei a orar com fervor: "Oro ao criador do mundo, rei do universo, o Deus Todo-Poderoso, onisciente e fiel. Oro ao Deus que criou as montanhas e que, se for preciso, pode movê-las. Oro ao Deus que tem sido sempre fiel a mim, que jamais me desapontou por mais assustado que eu estivesse ou por mais difícil que fosse a situação. Oro ao Deus que deseja produzir frutos por meu intermédio, e confio que serei usado por Ele esta noite, não por ser quem eu sou, mas por quem Ele é. Ele é fiel."
Quando o hino terminou, o meu interior era de uma pessoa diferente. Eu bem que aceitaria um substituto, caso alguém se oferecesse, mas não me sentia mais apavorado. Estava pronto para começar, porque um Deus fiel era o objeto de toda a minha atenção. Quando subi à plataforma com o tradutor, fiz a oração que move montanhas, porque estava firmemente direcionada para a suficiência de Deus, e não, para a minha insuficiência.
Naquela noite falei com a confiança concedida pelo Espírito Santo, baseada na suficiência de Deus. Contei àquelas pessoas que alguém havia derramado o sangue para pagar pelos seus pecados. Este alguém não era Buda, nem um deus hindu, ou um personagem de um mito, ou conto de fadas. Foi um ser humano de verdade chamado Jesus, o único Filho de Deus. Repeti inúmeras vezes: "Você é importante para Ele. Ele derramou o próprio sangue para perdoar os seus pecados e vocês podem ser libertos se colocarem sua fé e confiança nele."
Eu sabia que Deus estava operando enquanto eu falava.
Terminei a mensagem e as pessoas foram convidadas para aceitar a Cristo.
Voltei para o fundo do palco, caí de joelhos e comecei a orar: "Senhor, sei como estas pessoas são importantes para ti. Traga-as para junto de ti."
Centenas e centenas de pessoas vieram à frente: hindus, muçulmanos, incrédulos de todos os tamanhos e formas, cores e idade. Foram tantos que pensei que meu coração fosse explodir. Estava me rejubilando por todos os que encontraram uma nova vida em Cristo e, também, porque naquela noite Deus, por intermédio da oração, havia pego uma montanha chamada medo e a havia lançado nas profundezas do mar.
Naquela noite eu aprendi que, para Deus, não existem barreiras. Deus está pronto para me usar. Quando eu me concentrei em Deus e não na montanha, Ele pode operar por meu intermédio.

Bill Hybels

Trecho do livro Ocupado Demais Para Deixar de Orar (Editora United Press).


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Biografia de Casiodoro de Reina, principal tradutor da Bíblia conhecida como Reina-Valera


Seu nome é amplamente conhecido no mundo cristão de língua hispânica – mas a sua história não. Associado à Bíblia de maior prestígio e difusão, muitos tem chegado a atribuir a sua versão da Bíblia o caráter de «inspirada».
Casiodoro de Reina e seu assistente Cipriano de Valera –na versão da sua Bíblia tal como é conhecida hoje–, formam a dupla mais conhecida de nomes quase sagrados para o povo evangélico de língua hispânica.
Além de sua condição de tradutor da Bíblia, Casiodoro de Reina representa a sorte e o destino de muitos cristãos da sua época. Perseguições, difamações, estreitezas econômicas, incompreensões dos seus próprios irmãos, formaram parte do caminho que teve que seguir o homem que, sem sabê-lo, teria que abençoar a tantos na posteridade.
Por detrás da tradução da Bíblia que hoje tanto desfrutamos, há uma vida oferecida a Deus no altar do holocausto.

Um frade dissidente
Casiodoro de Reina (ou Reyna, no espanhol antigo), nasceu em Montemolín, Badajoz, Espanha, por volta de 1520, apenas um ano depois que Lutero cravou as suas 95 teses na porta da catedral de Wittenberg.
Logo depois de estudar na universidade, ingressou no monastério jerônimo de São Isidoro do Campo em Sevilha; o qual, neste tempo tinha se transformado em um foco do «luteranismo», até o ponto de atrair sobre si a atenção da Inquisição.
O Novo Testamento de João Pérez de Pineda e outras obras protestantes, trazidas de contrabando pelo valoroso Julianillo Hernández, eram o alimento cotidiano dos frades daquele convento.
De fato, Casiodoro tinha se transformado no guia espiritual daquele lugar, e inclusive do grupo secular simpatizante das doutrinas da Reforma na cidade de Sevilha. Mas diante da repressão desencadeada, Casiodoro e outros companheiros, entre eles Cipriano de Valera, fogem para Genebra em 1557.
De todos os frades de San Isidro do Campo que fugiram de Sevilha, e se dirigiram para Genebra, Casiodoro de Reina foi o único que não teve que fazer estudos suplementares de teologia no Théodore de Bèze em Lausanne, e também o único a quem os Inquisidores sevilhanos no Auto de Fé do 23 abril de 1562 deram o honorável título de ‘heresiarca’, que quer dizer, mestre dos hereges.
Segundo testemunho dos próprios inquisidores, Casiodoro tinha propagado com muito êxito a doutrina evangélica entre os seculares de Sevilha. Inclusive um documento da inquisição assinalava que um Frei Casiodoro era o responsável pela súbita conversão ao luteranismo de todos os monges de San Isidro.
O próprio Casiodoro, em seu livro Sanctae Inquisitionis Hispanicae Artes, afirma que somente foram dois frades de San Isidro que deram início a este assunto, com o resultado de que em poucos meses quase todos os frades do convento, ou tinham se convertido, ou pelo menos simpatizavam com eles. Um destes iniciadores foi naturalmente o próprio Casiodoro, quem por modéstia ou cautela entra no anonimato, sendo ele mesmo o verdadeiro autor deste primeiro grande livro contra a Inquisição publicado em Heidelberg em 1567 sob o pseudônimo de Reginaldus Gonsalvius Montanus.

Permanência em Genebra
Quando Casiodoro chegou a Genebra, planejou de traduzir a Bíblia completa para o espanhol. Ele foi falar com Juan Pérez de Pinheiral sobre os seus planos, quem tinha apoiado na tradução do Novo Testamento de Francisco de Enzinas, publicada em 1543.
A estes mesmos planos Casiodoro certamente em um de seus encontros, fez menção a Calvino, quem não deixaria de lhe recordar como Enzinas tinha lhe solicitado, cinco anos atrás, intervir pessoalmente para assegurar o financiamento final de sua própria versão da Bíblia em espanhol.
 Calvino aceitou colaborar em tal empreendimento, mas o que Calvino não sabia era que a tradução de Enzinas não tinha sido feita à partir dos textos originais, mas da versão latina de Sebastian Castellion, apóstolo da tolerância religiosa, amigo íntimo de Enzinas e o homem mais odiado por Calvino e os calvinistas.
A excelente versão em latim clássico de Castellion, que fascinou, além de Enzinas, também a Fadrique Furió Cerol –primeiro caudilho espanhol da difusão da Bíblia em idioma vulgar–, devia gostar tanto de Casiodoro, que decidiu, a despeito de João Pérez, de Cipriano de Valera, e de outros espanhóis submissos a Calvino, de escrever uma carta a Castellion.
Casiodoro se tornou assim suspeito aos ultraortodoxos calvinistas de Genebra, por sustentar, além disso, que também deveria considerar como irmãos os anabatistas, por propagar entre os refugiados espanhóis o livro de Castellion  ‘que não se devia queimar os hereges’, e para dizer que Miguel Servet tinha sido queimado injustamente em Genebra. Os seus inimigos reprovaram a Casiodoro que ‘cada vez que ele passeava diante do lugar da fogueira de Servet, lhe saltavam as lágrimas’. E quando se inteiraram mais tarde que Casiodoro tinha partido para a Inglaterra para fundar ali uma nova comunidade cristã, não demoraram em lhe pôr o adjetivo de ‘Moisés dos espanhóis’, porque conseguiu levar consigo muitos dos seus compatriotas.
 Assim Casiodoro se tornou abominável para os genebrinos, e Genebra abominável para Casiodoro. Com efeito, o que Casiodoro viu em Genebra não foi do seu agrado: em 1553 executaram Miguel Servet e o tratamento dado aos dissidentes era muito controvertido. Reina se opunha à execução de hereges –reais ou supostos– por considerá-la uma afronta ao testemunho de Cristo. Traduziu secretamente o livro de Sebastián Castellion «Sobre os hereges», De herectis an sint persequendi, que condena as execuções por razões de consciência e documenta a rejeição original do cristianismo a semelhante prática.
Ainda que Casiodoro de Reina fosse firmemente trinitário e, portanto, não compartilhava as crenças unitárias por motivo das quais Servet foi queimado, não podia aceitar que alguém fosse executado por suas crenças. Entrou em tal contradição com João Calvino e a rigidez imperante, que lhe fez dizer que «Genebra tinha se convertido em uma nova Roma».

Errando como proscrito
Em tal encruzilhada, Casiodoro foi a Londres no final de 1558. Ali teve a alegria de recuperar os seus parentes mais próximos – entre eles o seu pai e a sua mãe – que tinham escapado da Inquisição espanhola. Casiodoro organiza ali uma Igreja para os de língua hispânica, aceitando também como membros a italianos e  holandeses caídos em desgraça em suas respectivas igrejas.
No princípio se reuniam três vezes por semana em uma casa que o bispo de Londres lhe fornecera, e mais tarde, na igreja de Santa Maria de Hargs, que gentilmente lhes concedeu a própria rainha Isabel I. Por este tempo, Casiodoro se casa.
Em janeiro de 1560, redige a ‘Confissão de fé feita por certos fiéis espanhóis, que fugindo dos abusos que a igreja Romana e a crueldade da Inquisição da Espanha fizeram à Igreja dos fiéis para ser nela recebidos por irmãos em Cristo’. E desde então não deixa de trabalhar na tradução dos livros sagrados que pensava levar a bom termo em um tempo razoável.
Essa era a sua pretensão. Mas não contava com as trapaças provenientes de dois grupos, que ainda que totalmente opostos em seus interesses, fizeram-se unânimes na vontade de impedir o trabalho do tradutor da Bíblia.
Por um lado, os inquisidores, que conseguiu infiltrar um agente provocador na nascente igreja – nada menos que Gaspar Zapata, o assistente de Casiodoro no trabalho de tradução –, e fizeram chantagem ou promessas a alguns membros fracos, dispostos a denunciar o seu próprio pastor diante das autoridades inglesas do crime execrável de sodomia.
E por outro lado, os ciumentos calvinistas das igrejas francesas e flamencas de Londres, que guiado por sua extrema desconfiança e antipatia por Casiodoro, não faziam senão esquadrinhar os textos traduzidos, ainda incompletos, procurar heresias por toda parte, e denunciá-las imediatamente a Genebra, chegando ao extremo de apoiar cegamente o duplo jogo montado a todas vistas pelo embaixador da Espanha em Londres, e por agentes da Inquisição.
O resultado desta dupla conspiração foi a fuga precipitada de Casiodoro de Reina para Amberes, em janeiro de 1564, e a imediata dispersão da comunidade espanhola de Londres.
Por sorte, Casiodoro pôde pôr a salvo os manuscritos, que lhe foram enviados semanas depois a Amberes pelo velho pároco de San Isidro, Francisco de Farías, ou por algum outro ex-frade de toda a sua confiança. Em Amberes passou enormes dificuldades econômicas para poder continuar com a tradução da Bíblia.
Foi então quando o Rei Felipe II pôs a cabeça do fugitivo a prêmio, como se lê em uma carta do governador de Amberes ao regente dos Países Baixos: ‘Sua Majestade gastou grandes somas de dinheiro para encontrar e descobrir ao dito Casiodoro, para lhe poder deter, se porventura se encontrasse nas ruas ou em qualquer outro lugar, prometendo uma soma de dinheiro a quem lhe descobrisse’.
Procurado em toda parte pelos guardas da Inquisição, e suspeito de heresia, ou de piores coisas, mesmo por seus irmãos de fé, Casiodoro andou durante mais de três anos entre Frankfurt, Heidelberg, o sul da França, Basiléia, e Estrasburgo, procurando um lugar onde estabelecer-se como ministro da igreja, ou como simples artesão, para poder terminar a sua tradução.
Naquela época, ele escreve: "Excetuando o tempo que tomei nas viagens de um lado para outro pela perseguição desencadeada pela Inquisição e outro tempo que estive doente, a pena não saiu da minha mão durante nove anos inteiros".
Em 1567 e 1568 o encontramos de novo ocasionalmente na Basiléia, na casa do banqueiro calvinista Marcos Pérez, quem já tinha protegido a Casiodoro em Amberes, e quem agora continuou lhe defendendo contra as acusações de seus correligionários, apoiando finalmente com os custos de impressão da Bíblia. Basiléia era na época o centro da tipografia reformada.

A impressão da Bíblia
Ali fez contato com o tipógrafo Juan Oporino, quem se comprometeu a imprimir 2.600 Bíblias, depois de uma antecipação de 500 florins que Casiodoro tinha entregue por conta da impressão – dinheiro que os refugiados espanhóis de Frankfurt tinham reunido para tal efeito.
Ainda que Casiodoro residisse habitualmente na Basiléia, estava acostumado a fazer viagens a Estrasburgo, onde tinha deixado a sua mulher. De volta de uma destas expedições, caiu gravemente doente; esteve cinco semanas de cama, e ao convalescer-se soube que Juan Oporino tinha morrido.
Recuperar os 500 florins entregues como adiantamento era um difícil empreendimento, porque Oporino tinha morrido arrasado em dívidas, e os seus bens não bastavam para cobri-las. Casiodoro foi aos seus amigos de Frankfurt, que enviaram o dinheiro suficiente para continuar a impressão. Ele mesmo não pôde ir buscar o dinheiro por causa da sua saúde frágil e o rigoroso inverno de 1568, e encarregou esta diligencia aos seus íntimos amigos Conrado Hubert e João Sturm.
Os inimigos espanhóis de Casiodoro, que tinham decidido reimprimir em Paris o Novo Testamento de Juan Pérez, com todas as notas marginais da Bíblia francesa de Genebra (Geneva Note), começaram a exigir para seu projeto uma parte do dinheiro dos fundos dos refugiados espanhóis. A este conflito o embaixador espanhol Dom Francês de Ávila pôs inesperadamente fim, pois, tendo notícia do projeto, fez deter provisoriamente no verão de 1568 ao impressor de Paris. Os cadernos já impressos deste Novo Testamento, caíram nas mãos do embaixador, que se apressou a enviar-lhe ao rei Felipe II como o mais estimado troféu. 
Menos êxitos tiveram o rei e seus agentes para impedir o projeto da Basiléia, possivelmente por não estar informados suficientemente sobre o tempo e lugar onde Casiodoro estava imprimindo a sua Bíblia. Possivelmente foi o próprio Casiodoro quem indiretamente lhes tinha dado uma pista falsa ao escrever a Théodore de Bèze, em abril de 1567, que estava disposto a submeter a seu controle o texto bíblico antes da impressão, que poderia muito bem ser efetuada na gráfica de Jean Crespin em Genebra. Naturalmente que Casiodoro com este ato de submissão não pretendia a não ser obter dos ministros genebrinos seu reconhecimento como ministro, não pensando em nenhum momento em pôr a sua tradução nas mãos dos seus contraditores, e muito menos de imprimi-la em Genebra.
Mas a notícia deve ter chegado aos ouvidos de algum espião da Inquisição, o qual se apressou em transmiti-la para Madri. Em todo caso, já no verão de 1568 a Suprema ordenou aos inquisidores dos portos da península, de estarem bem avisados sobre os livros que entrassem, pois ‘Casiodoro tinha imprimido em Genebra a Bíblia na língua espanhola’. A resposta do Tribunal de Granada não se fez esperar: ‘depois de muitos controles podemos assegurar as suas Excelências que neste reino [de Granada] não entrou nem um único exemplar da Bíblia de Casiodoro’. Bem podiam dizer, pois nessa data (2 de julho), a Bíblia de Casiodoro ainda não tinha começado a ser impressa, pois a morte de Oporino tinha ocasionado um posterior atraso.
Uma nova intervenção de Marcos Pérez, emprestando a Casiodoro a fundo perdido a soma de 300 florins (equivalente ao salário de 3 anos de um professor de universidade), serve para fechar um novo contrato com o impressor Thomas Guarin, quem imprimiu finalmente os 2.600 exemplares. A impressão aconteceu nas oficinas do próprio Guarin e não, como se tem sustentado, na pequena gráfica de Samuel Apiario, de onde não saíam senão livros de pequeno formato e textos limitados.
Mas a impressão não esteve isenta de novas dificuldades. A saúde de Casiodoro era frágil; sentia constantemente dores de cabeça e contínuas febres. Quando começou a impressão de sua Bíblia, a tradução de Casiodoro não estava nem ao menos terminada, apenas a do Novo Testamento, e à medida que avançava o trabalho das prensas, o intérprete se viu cada vez mais apressado pelo tempo. Até maio de 1569 a impressão não tinha chegado aos Atos dos Apóstolos, e faltava por traduzir da segunda Epístola aos Coríntios até o fim.
As esperanças que Casiodoro tinha de utilizar ainda a revisão do Novo Testamento de João Pérez que era impressa em Paris, viram-se frustradas em 1568 pela intervenção do embaixador espanhol acima mencionado. Só ficavam, pois, a versão de Enzinas, e as cartas paulinas traduzidas por Valdés, de onde Casiodoro às vezes incorporava literalmente frases ou expressões em seu próprio texto, ou às vezes as indicava somente na margem como ‘outras variantes’.
Ao chegar ao Apocalipse, o trabalho do impressor havia quase já alcançado a do tradutor, e a Casiodoro não restou outro remédio que servir-se às mãos cheias do correspondente texto de Enzinas, contentando-se meramente com uma rápida revisão. Isto não significa um menosprezo do trabalho de Casiodoro, pois como monumento de alta piedade e erudição, ou como modelo de precisão e propriedade da língua espanhola, tanto vale a deliciosa e elegante prosa de Enzinas, como a ligeira e brilhante de Casiodoro.
Além das dificuldades anteriores, ele se encontrava sem dinheiro; necessitava de pelo menos 250 florins para acabar o livro, e não tinha recobrado nem um centavo da herança de Oporino, apesar das reclamações que fez ao Senado da Basiléia.
Apesar de tudo, um mês depois, em 14 de junho, deu aos seus amigos a boa notícia de ter recebido a última folha da Bíblia: ‘postremum folium totius texti biblici tam Veteris quam Novi Testamenti’; e pergunta-lhes se era conveniente dedicá-la à rainha da Inglaterra. João Sturm devia escrever a dedicatória latina, e assim o fez; mas finalmente preferiu encabeçá-la aos príncipes da Europa e especialmente aos do Sacro Império Romano.
Casiodoro gostaria enormemente de usar a simbólica imagem de um urso que Apiario já não utilizava como marca tipográfica desde muito tempo atrás, e, ou comprou, ou pediu emprestado o mencionado clichê para ilustrar a capa que depois seria chamada a Bíblia do Urso. Em todo caso, o próprio Casiodoro confirmou em sua dedicatória autografada no exemplar presenteado à Universidade da Basiléia, que a impressão tinha sido efetuada na tipografia de Guarin. Além disso, no catálogo ou pôster de vendas que Guarin imprimiu para a feira de livros de Frankfurt de 1578, figurava a Bíblia de Casiodoro: ‘Bíblia in Hispanicam linguam traducta’.
Em 6 de agosto, Casiodoro envia a Estrasburgo, por meio de Bartolomeu Versachio, quatro grandes tonéis de Bíblias para que Huber os recolhesse com o objeto que ele sabe; sem dúvida, para introduzi-los no Flandes, e dali na Espanha.
Por razões óbvias de cautela para difundi-la em terras católicas – a fim de prevenir a inevitável proibição imediata por parte da Inquisição – Casiodoro faz passar a sua Bíblia como uma obra católica, respeitando a ordem dos livros bíblicos segundo a Vulgata, cujo canon tinha sido recentemente confirmado pelo concílio de Trento, e omitindo o nome do tradutor e o lugar de impressão.
Por isso, só um ano e meio mais tarde, em 19 de janeiro de 1571, o Conselho Supremo da Inquisição se inteirou de que ‘a Bíblia em romance’ havia sido impressa na Basiléia, e ordenou o recolhimento de todos os exemplares que fossem descobertos. Dez anos depois, em 1581, o titular do bispado da Basiléia, Blarer von Wartensee, denunciava ao cardeal Carlo Borromeo que na Basiléia tinha sido impresso com data de 1569 uns 1600 exemplares da Bíblia em espanhol, e que 1400 delas acabavam de ser enviados de Frankfurt a Amberes.
Em Amberes finalmente, trocaram-se as capas de muitos destes exemplares pelo frontispício do célebre Dicionário de Ambrogio (ou Ambrosio de) Calepino (1435-1511), a fim de podê-los melhor difundir na Espanha. Este estratagema nem sempre funcionou, como demonstra o caso de um envio descoberto pela Inquisição em 1585, que deu lugar a um novo aviso aos tribunais da província: ‘Bíblias em espanhol, cobertas com folhas de Calepino, estão proibidos’. Muitos outros exemplares ficaram durante decênios depositados nas mãos dos membros da família de Casiodoro em Frankfurt, que fizeram ‘renovar’ periodicamente os exemplares não vendidos, atualizando as capas. Isto explica o porquê existem exemplares com o falso rodapé de impressão em ‘Frankfurt 1602’, Frankfurt 1603’ ou ‘Frankfurt 1622’.
A Bíblia de Reina não foi a primeira versão completa das Sagradas Escrituras em espanhol. Existia a versão de Alfonso X o Sábio de 1260, mas esta já tinha a partir de então um valor meramente histórico. Os judeus de Ferrara tinham editado todo o Antigo Testamento em castelhano em 1553, mas essa era uma versão de difícil linguagem, por ser muito literal. E, como se tem dito, o Novo Testamento já tinha sido traduzido para o espanhol por Francisco de Enzinas e por João Pérez de Pineda com antecedência a que fizera Reina.
Mas a versão de Casiodoro de Reina é a primeira tradução da Bíblia para o castelhano a partir do hebreu e do grego, completada após doze anos de árduo trabalho.

Cipriano de Valera
A Bíblia de Cipriano de Valera, publicada 33 anos depois, em 1602, na realidade uma edição só levemente corrigida da tradução de Reina, tal como se reconhece nas versões contemporâneas Reina-Valera, a qual, no entanto, suprimiram os livros deuterocanônicos traduzidos por Reina e colocados como apêndices na edição de Valera, à maneira da Bíblia de Lutero.
O que Valera pretendia com a sua nova edição de 1602, era, não só suprir a falta de exemplares, reimprimindo a tradução que seu antigo mestre Casiodoro tinha levado a bom termo, mas também o seu verdadeiro intento mais ou menos consciente era acabar de uma vez por todas com o fato, vergonhoso aos olhos de alguns estreitos calvinistas espanhóis, de ter que utilizar uma Bíblia que tanto na ordem dos livros como nas notas teológicas marginais não correspondiam exatamente às Bíblias oficiais de Genebra.
Ao sair a Bíblia de Casiodoro, os pastores de Genebra a examinaram minuciosamente. E certo é também que, não obstante ‘à sinistra opinião’ que dizem seguir tendo de Casiodoro, não encontraram absolutamente nada que reprovar na edição, a não ser um insignificante engano tipográfico em Gênesis 1:27 (‘macho fêmea os criou’). Também ele se deu logo conta do engano, fazendo imprimir um adesivo com as palavras ‘e fêmea’, que ele mesmo inseriu na correspondente linha de um grande número de exemplares. Das verdadeiras ‘heresias’ exegéticas, que Casiodoro introduziu engenhosamente nos epígrafes de muitos capítulos de sua Bíblia, nem se inteiraram os pastores de Genebra, nem tampouco Cipriano de Valera, pois os deixou intactos em sua revisão.
Não obstante esta aprovação tácita da versão de Casiodoro pelos pastores de Genebra, Valera ficou por volta de 1580 em Londres, por sua própria conta, para revisar a Bíblia de Casiodoro, quem naquele caso era duplamente suspeito: por seus ‘servilismos’ passados, e por seu ofício presente de pastor da igreja luterana. Mas para evitar a acusação de comportar-se como um plagiador, Valera esperou até a morte de Casiodoro, que aconteceu em Frankfurt em 15 de março de 1594, para publicar em Londres em 1596 uma ‘própria’ edição do Novo Testamento. Esta edição de Valera não parece ter sido muita difundida no continente, pois três anos mais tarde, com a ocasião da edição do Elias Hutter do Novo Testamento em doze línguas, Nuremberg 1599-1600, o texto ali impresso não é o de Valera, mas o da Bíblia de Casiodoro.
A diferença na realidade, não se havia feito muito notar, pois o trabalho de Valera em sua edição do Novo Testamento não tinha consistido em muito mais que em tirar ou acrescentar notas marginais, alterar de vez em quando o texto, e omitir de todo o nome o tradutor que havia morrido. Tal silêncio, naturalmente, Valera não pôde manter no todo em sua edição da Bíblia completa, impressa em Amsterdam em 1602, e é por isso que no longo prefácio, ao verdadeiro tradutor Casiodoro vêm dedicadas umas poucas linhas, não carentes de reticências, enquanto que o nome do revisor, Cipriano de Valera, figura em grandes letras no meio da capa.
Mas também nesta ‘revisão’, como era de esperar, o próprio trabalho de Valera consistiu, sobretudo em acomodar a ordem dos livros ao canon reformista (que é na realidade o canon hebreu-cristão), e em tirar ou acrescentar notas marginais, seguindo especialmente as notas das Bíblias de Genebra. As alterações do texto não significam sempre melhoria, e o mesmo se pode dizer de sua escrupulosa eliminação de expressões como ‘porventura’, que Valera apagou, como ele mesmo escreve, ‘por ter sabor de gentilidade’. Tais alterações não superam, em todo caso, 1% do texto.
  Portanto, é justiça sublinhar que o mérito maior da Bíblia Reina-Valera é de Casiodoro de Reina, quem, contra ventos e marés, até face à oposição de muitos dos seus próprios irmãos, fez uma tradução que nenhum outro cristão espanhol depois da segunda metade do século XVI foi capaz de fazer.

O comerciante de sedas
Tendo concluído a sua grande obra na Basiléia, Casiodoro saiu desta cidade e se dirigiu a Frankfurt, Alemanha, onde lhe foi conferido o título de cidadão ilustre. Dali foi para Amberes, Bélgica, para encabeçar em 1579 a congregação dos franceses que se aderiram à Confissão de Augsburgo, igreja que reorganizou e que desdobrou uma grande atividade.
Quando Amberes caiu nas mãos de Alejandro Farnesio (espanhol opositor dos emancipados de Roma) em agosto de 1585, deixou esta cidade e voltou para Frankfurt, onde a sua figura foi muito respeitada entre os cristãos que tinham emigrado para a Holanda, sendo sustentado por seu próprio trabalho com um comércio de sedas.
Algum tempo depois, em 1593, tendo mais de setenta anos, foi eleito pastor auxiliar na igreja de Frankfurt. Durante oito meses ainda pôde exercer o seu ministério, até que dormiu no Senhor em 15 de março de 1594. O seu filho Marcos foi, dois anos mais tarde, eleito sucessor do seu pai.
A Inquisição o queimou em figura no ‘Auto de Fé’ celebrado em Sevilha em 1562, e seus escritos foram postos no Índice de Livros Proibidos.
A versão de Reina-Valera é até hoje a mais usada pelos cristãos de língua hispânica. Foi durante séculos a única tradução acessível em espanhol, e foi reconhecida até pela Igreja Católica, como superior às duas versões delas, a versão de Scío (1793), e a editada por Torres Amat (1825, tradução de José Miguel Petisco), ambas mais tardias e únicas até tempos muito recentes.
Quando seus inimigos mencionavam o abuso que se podia cometer pelo mau uso das Escrituras na língua vernácula, Casiodoro replicava que seria como se «o rei ou o príncipe, porque há muitos que fazem mal uso do pão, da água ou do vinho, do fogo, da luz, e das outras coisas necessárias à vida humana, ou as proibisse de tudo, ou fizesse da venda delas algo muito caro, e com grande escassez».