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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Novas águas poéticas





Uma versão deste ensaio foi publicada no jornal Tribuna do Norte, Natal, 24/03/1998


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Quem não se lembra dos anos 80, do informativo 1º toque e da coleção Cantadas Literárias da editora Brasiliense? Foi através delas - as Cantadas... - que muitos leitores da minha geração conheceram a poesia de Paulo Leminski, Ana C., Chico Alvim, Chacal e autores consagrados como Walt Whitman, por exemplo.

Próximo à virada do milênio, novas águas poéticas deságuam nos mares de nossas letras, agora principalmente através de duas editoras: a 34 Ltda. (SP) e a Sette Letras (RJ). A editora paulista lançou nos dois últimos anos autores já consagrados, ou quase, como: Waly Salomão (Algaravias), Régis Bonvincino (Ossos de Borboleta), Duda Machado (Margem de Uma Onda), Nelson Ascher (O Sonho da Razão), Mirian Piglia Costa (Notícias do Lugar Comum), Sebastião Uchoa Leite (Ficção Vida), etc...

Como a editora Brasiliense nos anos 8O, a Ed. Sette Letras vem lançando autores novos e antigos (Mallarmé, Rilke, Jules Laforgeu, Mário Peixoto), mas privilegiando os primeiros. Dentre estes, destacam-se: Marco Antonio Saraiva (Entre Nervuras), Carlito Azevedo (Sob a Noite Física - Prêmio Jabuti, l997), Maurício Arruda Mendonça (Eu caminhava assim tão distraído), Rodrigo Garcia Lopes (Visibilia), Leila Coelho Frota (Brio), Álvaro Mendes (Íris Breve), Ângela de Campos (Feixe de Lontras) e Rose Calza (Entre Pedaços), dentre outros.

Além destes poetas jovens na sua maioria, destacam-se autores lançados por outras editoras, como Antonio Cícero (Guardar) e Waldo Motta (Bundo). O primeiro teve sua obra veiculada através da editora Record; o segundo, pela editora da Unicamp. Os dois livros foram publicados em 1996. Apesar de seus autores apresentarem dicções diferenciadas, suas obras possuem núcleos temáticos afins: ambas ostentam uma tonalidade homoerótica que parece ter na poética de autores com W Whitman um dos seus paradigmas.



“Um poema deve ser uma festa do intelecto”



A leitura destes novos e (alguns) já consagrados poetas, demonstra haver uma outra sensibilidade no ar, além do vôo de borboletas e dos sentimentos noturnos de plenitude. Mesmo quando se trata desses insetos de metamorfose completa, não são o vôo e suas asas que interessam, mas o osso - a forma, como demonstra o belo título de Régis Bonvincino (Ossos de Borboleta). Mesmo quando utilizam a noite como signo poético, não são as figurações marginais ou as abstrações românticas que se anunciam, como fica evidente em Sob a Noite Física, de Carlito Azevedo: “o dia contorceu-se até o avesso/ para nos dar/ uma noite como esta”. No final do século XX, é outra a forma do poema: do distraído jogo dos poetas alternativos ou marginais que marcaram oa anos 70 não restou sequer o apreço pela senha da via jugular.

Esta nova sensibilidade inscreve-se em sintonia com uma produção teórica e cultural. Estes autores lançam mão de certos procedimentos estéticos herdados da modernidade, alguns traços estilísticos clássicos e de um corpus intertextual oriundo das mais diferentes práticas artísticas. Quase todos estes poetas fazem uso (às vezes com ironia e humor) do arquivo de formas herdadas da tradição, além de demonstrarem consciência histórica em relação ao texto - herança do poeta-crítico da modernidade. Exemplar dessa historicidade é a re-leitura que Nelson Ascher faz de Goya - El sueño de la razión produce monstruos - exemplificando o uso do arquivo de formas para construir o título do seu novo livro de poemas, O Sonho do Razão. Já a festiva epígrafe de Waly, utilizada acima como título, dá mostra da nossa crítica herança moderna.

O uso de uma simetria bastante heterodoxa baliza essa produção poética que acena para o século XXI. Trata-se de uma verdadeira democracia das formas, que vai do poema breve ao longo (este, parece que bem mais utilizado), copia a forma do soneto, como faz Paulo Henriques Brito com bastante competência, e esbanja nos versos livres e brancos. Muito verso branco. Só que: diferentemente de algumas poéticas recentes, a poesia contemporânea parece mensurada pelo domínio do “fazer” literário, sugerindo ao poeta um exercício consciencioso do seu labor. Mas, tudo isso sem drama, como encena Rodrigo G. Lopes em “Como se fosse Bob Creeley: “o soneto tem sede/ mas ainda não é/ sequer um som”.



“entre as vigas do verso” e o “mel da língua”



A leitura dessa nova safra poética parece nos mostrar que muitos procedimentos estéticos e culturais estão fora das atuais circunstâncias poéticas. Não valem mais os jogos de oralidade fácil e suas assonâncias, os trocadilhos. Poucos dão crédito para os versos centrados num ‘eu’ que não pára de sentir a si e dizer suas próprias opiniões e lamentações, a ponto de desleixar-se em relação ao outro, o diferente (o leitor); e mesmo os escritos “de passagem” - calcados no referencial da fala cotidiana - passam por um trabalho com a linguagem bem diferentes de alguns registros aparentemente banais dos anos 70 e 80.

Tudo isso fica claro na declaração de Marco Antonio Saraiva, autor de dois belos livros: Entre Nervuras e Sete Jardins e Uma Paisagem): Depois dos concretos, a gente voltou melhor pro verso. Selecionado para a nova antologia de Heloísa Buarque de Hollanda e prefaciado por Décio Pignatari, Marco é saudado pelo poeta concreto como uma autor que chega maduro demais à sua poesia inaugural. Cabralino confesso, como grande parte de seus contemporâneos (Waly Salomão, Carlito Azevedo, Nelson Ascher), Marco elabora em seu texto a tessitura de uma poética que consiste numa “educação pela folha, pela pluma”. Exemplo disso é o procedimento da metalinguagem operado no texto “Letmo”:

Emendavas as

linhas da mão às

linhas do papel,

escavando abismos na

fria superfície de

uma folha, até

que te passaste

todo para o branco.

Uma dupla de autores que contribui para a leitura diferencial dessa poética contemporânea são Maurício Arruda Mendonça e Rodrigo Garcia Lopes - parceiros na tradução de Sylvia Plath: Poemas (Ed. Iluminuras, l994). Maurício não é tão distraído, como anuncia no título de seu belo livro. Este apresenta domínio formal, além de esmerado trabalho com a "língua pedra-pome/uma sede de altura". Sua poética traduz uma dicção de cunho filosófico, e dá mostras de como o exercício da tradução influencia seu trabalho com o poema. Tecendo intertexto com Heráclito, Kerouac e Spinoza, dentre outros, o sujeito - nada distraído - escreve ritmado pelo dilema entre natureza e cultura, expresso em textos como “Perotinus”:


Dê asas aos lobos, sonho

e os jornais arderão de realidade.

O livro Visibilia, de Rodrigo G. Lopes, parece sintetizar, em “Talvez Seja Isso”, a visão da maioria de seus companheiros: ” A imagem iluminada desgastou/ depois que a duração virou mercadoria. O ‘eu’ lírico/ não subsiste num mundo de fluxos e superfícies vazias...” A inscrição desse texto diz de um espaço no qual um vazio “contempla/ sua própria rachadura” em meio a seres fragmentados, e estetiza um tempo ritmado por “uma velocidade que de repente não muda muito/ as coisas”.

A poética de Rodrigo G. Lopes, assim como a de Antonio Cicero, por exemplo, possibilita uma leitura deste espaço no qual inscreve-se o sujeito no vazio da cena contemporânea. Espaço cuja organização se dá de forma superficial, com amplas fachadas e informações a serem lidas velozmente, de passagem. São formas descartáveis, mutantes, situadas no plano da superfície; formas que se repetem, são re-feitas, deslocam o sujeito. Esse “estoque de formas” traduz o vazio e a fragmentação de um espaço-tempo constantemente mutável de uma “cidade que não tem mais fim” (Antonio Cícero).



A perda do olhar olímpico



Parece que dessa cena vazia, fragmentada e mutante pouco entendem os que cobram dos atuais poetas e narradores a construção de uma poética e/ou narrativa calcadas nas idéias de totalidade, ou na produção de um sentido que vise a noção de unidade. O poeta contemporâneo sabe da impossibilidade de vivenciar as coisas no âmbito de uma abrangência universal. Até porque as próprias coisas, no que concerne às suas gêneses e expressões, não mais são mediadas pelo sentido da totalidade nem originalidade. Essa consciência é estetizada pela maioria destes autores. Ouçamos Waly Salomão, poeta que considera otário quem não faz da dor investimento:


Esgotado o eu.../ A vida não é uma tela e jamais adquire/ o significado estrito/ que se deseja imprimir nela./ Tampouco é uma estória em que cada minúcia/ encerra uma moral./ Ela é recheada de... liquidações... apagamentos de trechos, sumiços de originais... Onde estão os originais?

Talvez o que mais caracterize essa cena pós-moderna seja a consciência de que tudo que é sólido desmancha no ar; além da constatação de haver no cenário cultural, deste final de século, um sujeito esquizofrênico, permeável a tudo que se encontra ao seu alcance (Rouanet) . Esse sujeito possui na fragmentação, na simulação e na re-leitura seus signos recorrentes. Ele tem consciência da ruptura dos paradigmas estéticos e científicos; o que relativiza, de certa forma, aqueles conceitos de totalidade, originalidade, ubiquidade e unidade que tanto suporte deram para o projeto da modernidade. Daí a performance fragmentada e mutante destes novos poetas. Daí o suporte democrático em relação a uma pluralidade de formas, uma multiplicidade de linguagens, e não apenas a predominância de um estilo, como tantas vezes aconteceu em nossa poesia durante o século XX.


No geral, estes escreventes de fim-de-século mostram-se conscientes dessa problemática (belamente exposta nas orelhas de Algaravias e de Margem de Uma Onda por, respectivamente, Davi Arrigucci Jr. e Luís Costa Lima). Além de destituídos de quaisquer preceitos vanguardistas e de cultuarem simetrias múltiplas, estes poetas demonstram a importância dada à materialidade da linguagem, sem abdicar do trabalho com os níveis sintáticos e a sutileza de suas nuanças históricas e culturais.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A fala do "poliglota de silêncios"





Por Entre Nervuras


Publicado nO Jornal de Hoje
Natal, 18 / 06 /1998


A poesia feita nos anos 90 no Brasil vem revelando, ao contrário da década de 80, alguns bons e produtivos autores. Selecionado para Esses Poetas - a nova antologia poética de Heloísa Buarque de Hollanda e prefaciado por Décio Pignatari, Marco Antonio Saraiva é um dos novos. Nascido em 1960 no Rio de Janeiro e formado em Biologia e Literatura (UFRJ), o poeta lançou dois livros: Entre Nervuras (Sete Letras) e Sete jardins e uma paisagem. A seguir, a fala deste “poliglota” que conhece o “idioma da luz e o dialeto das sombras” e que, segundo Décio, apresenta “tanta sinuosidade promissora”, além de chegar “maduro demais “a sua poesia inaugural”.


Nonato Gurgel: Os títulos e textos Entre Nervuras (1995) e Sete Jardins e Uma Paisagem (1997) remetem ao que você chama de uma “educação pela pluma, pela folha”. Em que isso difere da poetizada “educação pela pedra” de João Cabral?

Marco Antonio: Quando Cabral trabalha a linguagem seca, está buscando a forma, diferente do lirismo barato. Na leveza da pluma, você tem diversos encontros com a vida, com o lirismo. Embaixo da pedra há umidade, folha, que são um tipo de lirismo em estado de latência. O que interage com a pedra é a leveza, a folha. Mas isso é uma faca de dois gumes: a nuvem é mais leve que a pedra, mas quando chove pode ter mais peso.


NG: Em termos literários, o que diferencia Entre Nervuras de Sete Jardins e Uma Paisagem?

MA: Quando falo entre nervuras, estou literalmente no espaço da metáfora; quando entro no jardim, estou do lado de fora da nervura. As metáforas são, entre as árvores, genealogias de diversas linguagens de poesia. Ou seja: universalização.


NG: Os procedimentos literários, o culto à forma e o sofisticado recorte vocabular que você seleciona têm por base a produção poética de João Cabral, dos irmãos Campos e de Otávio Paz, dentre outros. Quem mais influenciou na elaboração do seu texto?

MA: Drummond, Bandeira, Trakl, Ungaretti, Décio, os poetas ingleses e franceses, românticos e modernos do século passado: J Donne, Keats, Baudelaire, Mallarmé. Penso muito na idéia de tempo em Proust. Rilke, não da forma que a geração de 45 leu, mas com um olhar presente. Vejo uma atitude muito sensata nos concretos, pela crítica e visualidade. O concretismo renovou a linguagem; 45 freia o verso, o pensamento, a sensibilidade. Depois dos concretos, a gente voltou melhor para o verso.


NG: Que bom, esse retorno! Usar termos oriundos do contexto tecnológico e das áreas científicas é um recurso ao qual você recorre, assim como o fizeram Augusto dos Anjos e João Cabral. Qual a importância dessa terminologia para a construção poética?

MA: Além da universalização de você buscar algo que atualize a emoção e o sentimento, típicos da nossa cultura através do pensamento que é geral, lidando com palavras de outros contextos, tem o processo de você retransformar o que é meramente tecnológico, em prol da necessidade do homem de expressão que se forma do espírito, da própria arte. Esse processo torna mais humana a própria tecnologia. A arte tem um lado biológico e outro artístico.


NG: Essa dualidade lembra-me um verso do Antonio Cícero: “em parte a gente é arte; em outra parte, técnica”. Mas, voltemos a Rilke e seu “olhar presente”, como você sugere. O poeta das elegias diz que todos os poetas falam uma língua comum, com estilos diferentes. Além do apreço pela simetria, da consciência da metalinguagem e dos acentuados ritmos sintáticos, quais procedimentos caracterizam o seu estilo?

MA: A tentativa de fundir aspectos da cultura popular e artesanal (Patativa do Assaré) com o que há de mais salutar, desde expoentes do nosso modernismo aos concretos e Ferreira Gullar, junto com paradigmas da ciência. Reler as artes plásticas em relação ao verso. O caos, por não ter resposta, me dá todos os domínios destas. Não posso ficar num determinado autismo. É preciso ser instintivo e cultural: você começa a desconfiar da cultura e volta a usar o instinto dentro da cultura. Recuperar o olhar da caverna, do indígena.


NG: Para os parnasianos e simbolistas do final do século passado, a música e o exercício da arte pela arte eram a tônica da criação. Além dessas posturas instintivas e culturais, o que move um criador neste final de século?

MA: Todos os paradigmas plásticos e musicais do Romantismo, do Parnasianismo e Simbolismo convergem, neste final de século, de forma sincrética, na minha criação. De forma não apenas estética, mas social e humana, onde busco o enfrentamento com o mundo frio e calculista da tecnologia. Por isso no meu neo-barroco, se é que posso chamar meu estilo assim, aparece a mais pura carga cênica. Houve uma época em que era possível ter só inspiração ou calculismo métrico. Agora é viável uni-los.


NG: Quais autores se destacam como representativos da poética brasileira dos anos 90?

MA: Claudia Roquete Pinto, Naila Rachid, Josely Viana Batista, Lu Meneses, Janice caiafa, Ângela de Campos, Rose Calza, Maria Rita Kehl, dentre outras. Em nenhuma época houve uma geração em que as mulheres tenham se destacado tanto em qualidade e quantidade, em suas produções e na geração. Dentre os poetas, Nelson Ascher, Carlito Azevedo, Eucanaã Ferraz. Augusto Massi, Heitor Ferraz, Duda Machado, Carlos Ávila, Paulo Henriques Brito, Arnaldo Antunes e Júlio Castañon Guimarães.


NG: Além dessa possibilidade de unir “inspiração” a “calculismo métrico”, o que mais caracteriza a produção desses autores?

MA: A concisão, sem escravizar-se a modelos formalísticos ou ideológicos, mas sem perder de vista a visão social.


NG: Essa “visão social” é bastante acentuada na escrita da modernidade, quando a consciência histórica do poema acentuou a pertinência do poeta-crítico. Você, que resenha e ensaia, como lê a situação da crítica?

MA: A pós-modernidade finge ser a convergência de vários estilos de época. Porém, entre a estética e a política e a preferência dita do crítico, prevalece a política. Ou seja: os cânones do poder vinculados a uma prática de dominação cultural, antes de ser o desenvolvimento do momento social posto a serviço da arte. A arte depende, portanto, dos artistas. Não dos cânones do poder.

NG: Existe uma nova sensibilidade no ar? A consciência da alteridade, o culto à diferença, a fragmentação estética, a consciência das identidades móveis e abertas, a produção de simulacros e o uso irônico e bem humorado do arquivo de formas herdadas da tradição caracterizam uma pós-modernidade?


MA: Existe algo novo no ar. Muito do que se escreve é ainda instinto. No pós-modernismo, se é que existe, parece que você está escrevendo no futuro. Eu não sei se estamos escrevendo no futuro. Somos reféns do século XIX, de todos os conceitos científicos e humanos. Se você pensa na máscara africana, ela tem todo um devir estético e social. A gente não fugiu da máscara africana, do construtivismo de Picasso. Tivemos estilos de época que se diferenciaram, com diluição de artes que vieram depois. O pós é uma continuação do moderno, com refrações indicando algo novo no ar, e que somente mais tarde será confirmado pela crítica, pelo gosto do público de arte.