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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Bibliofilia 220

 

O meu interesse pelo poeta e filósofo romano Tito Lucrécio Caro (c. 94 a. c. - c. 50 a. c.) deu-se por leituras de Vergílio Ferreira (1916-1996), que o refere algumas vezes nos seus livros de ensaios. Assim, em meados dos anos 80, adquiri em leilão de José Manuel Rodrigues, da Livraria Antiquária do Calhariz (Lisboa), o poema A Natureza das Coisas (2 volumes, encadernados num só, 1851/53), traduzido para português pelo médico e político António José de Lima Leitão (1787-1856).
Por carimbo e etiqueta de posse consegui apurar que o proprietário inicial do, agora e ainda, meu exemplar, terá sido Sebastião d'Almeida e Brito (1797-1868), nascido em Figueira de Castelo Rodrigo, que, em Coimbra, terá sido companheiro de quarto de Almeida Garrett, e que era filho de um abastado lavrador. Consta, também, ter tido uma boa biblioteca, com obras raras. De seguida, o livro transitou para a posse de Adolpho Soares Cardozo que faleceu no Porto, em 1895. No entretanto, desconheço os donos intermediários, até mim.

O meu exemplar, com encadernação modesta, encontra-se em muito boas condições.
Em breve pesquisa pela net não encontrei muitas vendas, apenas duas de iguais exemplares,, com preços entre 60 e 140 euros. Uma delas da Livraria Manuel Ferreira (Porto).



sábado, 7 de setembro de 2024

Do que fui lendo por aí... 65



Com a habitual franqueza crua e desapiedada escrita, assim se pronuncia, a páginas 43 do Diário Selvagem, Luiz Pacheco (1925-2008) sobre os diários que ia lendo:

"Destes diários que li nas últimas semanas o mais aprazível foi o da BEATRIZ COSTA. Não é uma literata. Decerto não está à espera do prémio Nobel porque não se considera escritora. Mas Sem Papas na Língua tão-pouco revela travões na escrita. Fala de si, da sua vida, dos seus amantes com ALEGRIA.
Não é um engasgado, estilo Vergílio Ferreira. Ou um tipo que parece estar sempre com dores de barriga, enjoadinho, como o Alçada Baptista (terei de reler a Peregrinação Interior II deste, de que gostei muito na altura e ler a I que não me cheirou quando saiu). A Beatrizinha bate-os a todos. É ela. Fez melhor que o Solnado, o qual encarregou uma fulana de escrever. É ela."

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Do que fui (re)lendo por aí... 52



Subscrevo, integralmente:

"Vou comprar o jornal, compro-o todos os dias. Não para ler mas para ver se há alguma coisa para ler. Porque às vezes há."

Vergílio Ferreira (1916-1996), in Conta-Corrente 4 (pg. 94).

terça-feira, 16 de agosto de 2022

Divagações 180



Cidades há que têm um encantamento natural e próprio. Para não dizer: magia. Até para reis (D. João II, D. Manuel I...) Ainda há dias, no seu Memórias e Imagens, Margarida Elias dedicou a Évora uma série de fotografias, testemunhando assim a sua beleza indesmentível. Eu fui lá, pela primeira vez, aos 20 anos, e foi simpatia instantânea. Lá comi, em estreia, a primeira Sopa à Alentejana. E de lá trouxe um pequeno, rústico prato pintado à mão, com a imagem de um ceifeiro. Objecto a quem dedico, ainda hoje, um particular afecto. Até em memória da cidade.



voltei há pouco pelas palavras de Vergílio Ferreira, em Conta-Corrente 1 (1972, 18 de Fevereiro):
"Regressados de Évora. Foi agradável, como sempre, a estadia em casa dos Silvas. Compareceram os Brancos e os Charruas. Só não compareceu o passado. E foi por ele que lá fomos." (pg. 109)

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Osmose 125



É minha convicção, de há muito, que um (bom) poeta pouco produz de qualidade, na velhice. Haverá raras excepções, como talvez Herberto Helder mas mais pelo registo diferente ou insólito dos poemas dos últimos livros, em relação ao estilo anterior a que estávamos habituados, seguramente.
Ora, em Conta-Corrente 2 (1977-1979), Vergílio Ferreira (1916-1996) vem em meu socorro, corroborando a minha ideia, parcialmente e de algum modo, ao escrever: "...E contei que a Simone de Beauvoir, no seu livro La Vieillesse, e segundo as estatísticas, dá os limites da criatividade em cada sector cultural. Assim o pintor é quem dura mais, pintando praticamente até à idade mais avançada; o matemático e o físico cessam pelos trinta e poucos anos, o romancista acabará aí pelos sessenta mais ou menos." (pg. 18)

domingo, 24 de julho de 2022

Da leitura 52



Da releitura em vez de leitura, diria eu melhor, mas depois de iniciar o livrinho de Helder Godinho, apeteceu-me foi revisitar o romancista pensador. Peguei assim, de seu concreto, na Conta-Corrente 1 (1969-1976) e já vou, gostosamente, na página 98. Talvez porque a maneira de ser dos povos sempre me interessou, destaco, transcrevendo:

"Regressados da Grécia. Da Grécia actual, nada visto. Só entrevisto. Terra agreste, montanhosa, apenas verdura no Peloponeso. Não vi um curso de água. Fizemos três viagens «turísticas»: a Delfos, à Argólida e uma por mar, às ilhas Egina e Hidra. Grandes espaços desabitados, uma ou outra pessoa de longe em longe pelos campos. Aspecto miserável. O Grego lembra o Português: pequeno, aspecto sujo, aldrabão. Fui logo vigarizado, assim que cheguei, por um motorista." (pg. 94)

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Últimas aquisições (40)



O livro já tinha saído em 2017, mas eu não dera por ele, senão agora na livraria, exposto na bancada. O trabalho sobre Vergílio Ferreira (1916-1996) é de Helder Godinho, um especialista da sua obra.
Ao lado, HMJ lembra-me que o Autor já terá sido excluído, em tempos recentes, dos programas escolares. No século XX, Pessoa em poesia, e Saramago na prosa, como bons eucaliptos, secaram tudo à volta...
Será Vergílio Ferreira mais um dos próximos grandes esquecidos do futuro?
Consolêmo-nos entretanto com a leitura deste livrinho de fino gosto e módico preço (6/ 5,40 euros).

domingo, 8 de agosto de 2021

Pensar - 1

 

Embora gostando de algumas palavras pelo efeito sonoro, como é tagarelar, não aprecio, no caso em apreço, o sentido do termo pelo facto de se enquadrar, na perfeição, neste mundo oco e pouco dado a exercícios mentais mais consistentes.

Assim, e querendo registar – porventura para memória futura – alguns pensamentos que se me vão surgindo nas leituras, escolhi a palavra pensar que, no seu sentido infinitivo, se afasta cada vez mais da nossa vida quotidiana. Infelizmente.

 Lembrei-me logo do livro Pensar, de Vergílio Ferreira, a propósito da minha escolha do tema para registar, oportunamente, algumas máximas ou pensamentos estimulantes. Do autor citado, segue uma frase com que abre o seu livro: “Não se pode pensar, fora das possibilidades da língua em que se pensa.”

Acrescento meu: dominando várias línguas, aumentam, sem dúvida, as possibilidades e variantes de pensamento.

 Para o início desta secção dos meus contributos no Arpose, encontrei uma observação de Jorge de Sena, sobre o Romantismo e o Modernismo Brasileiro que não queria perder. Aqui vai:

 “Os modernistas (...) apelavam para uma quebra de todas as tradições e para uma renovação com algo mais fundo e mais verdadeiro para com a vida do que qualquer tradição. É esta a essência do espírito modernista. E devo apontar que só à primeira vista é possível achar que o Romantismo pode ser definido quase nos mesmos termos. A diferença está na qualidade: o Romantismo era tudo isto como maneira de ser: o Modernismo não foi nunca uma maneira de ser mas uma maneira de entender o nosso ser.”

[sublinhado meu da máxima que tirei do artigo de Jorge de Sena, com o título, «Modernismo Brasileiro: 1922 e Hoje», in Estudos de Cultura e Literatura Brasileira, Lisboa, Edições 70, 1988]

 HMJ

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Freud, Eça, ambições, fogos e património - uma outra miscelânea...


Os Pêerres, todos eles, é suposto dizerem qualquer coisa, mesmo que circunstancial, quando um grande incêndio nacional lhes bate à porta. Não fugiu à regra o PR brasileiro, com gel, e cagança hipócrita, ao pronunciar-se sobre a tragédia que, lambeu pelas chamas, uma considerável parte do Património do nosso País Irmão, no Rio de Janeiro.
Em tom menor, e medíocre como é habitual, dei hoje pelo Eusebiozinho (vide Os Maias) nacional, que escreve, com barba por fazer, no jornal Público, às terças, quintas e sábados, a desafiar o nosso mais ocupado e frenético diplomata, sobre o tema candente (?) da recondução ou não, da nossa inefável PGR, joaninha. A ver se o embaixador lhe resiste... Ao bochechudo.*
O processo é corriqueiro e muito conhecido. Desinquietar os famosos, para ganhar espaço e visibilidade. Até o nosso eterno e putativo Nobel adiado o usou, nas suas primícias juvenis. Ao desinquietar Vergílio Ferreira. Que não lhe ligou peva, acertadamente.
(Abstenho-me, naturalmente, de citar os nomes dos peões de brega...)

* Em tempo (7/9/2018): o Embaixador não resistiu...

terça-feira, 10 de julho de 2018

A propósito do cinquentenário do Booker Prize Award


Com o patrocínio edipiano de Freud, em literatura, há muitos jovens aspirantes a escritores que, para  tentarem ganhar notoriedade, atacam os consagrados. Lembro-me, por cá, de Lobo Antunes escrever uns dislates sobre Vergílio Ferreira, que era uma espécie de monstro sagrado, com uma reputação literária à prova de bala, na altura. Creio que o escritor de Aparição não se incomodou muito com os dichotes juvenis...
Mas também acontece que alguns escritores, no outono da vida e com a sua vida literária já feita, não tendo já nada a perder, resolvem dizer umas verdades cruas sobre a obra de seus confrades, que foram calando anteriormente, talvez por amabilidade e diplomacia, ou por não se sentirem com audição credível suficiente para serem ouvidos. Os exemplos são inúmeros, nas repúblicas das letras...
Na Grã-Bretanha, talvez o mais importante galardão literário de ficção seja o Booker Prize Award que, presentemente, representa um prémio de 50.000 libras, e que é atribuido anualmente a uma obra de ficção escrita e editada em língua inglesa, desde 1969. E que pode contemplar escritores da Commonwealth, como foram os casos de Nadine Gordimer, Salman Rushdie ou Coetzee, este, por duas vezes.
O TLS (nº 6014), pela passagem do cinquentenário do Booker Prize Award, pediu depoimentos a anteriores galardoados, sobre o valor de escritores e confrades, quer tivessem sido premiados ou não. V. S. Naipaul (1932), que recebeu o prémio em 1971, começa o seu texto (a tradução é minha) assim:
Jane Austen é pura coscuvilhice. Ela atingiu proeminência, porque escreveu numa altura em que o Império Britânico tinha atingido os píncaros do seu poder. Se ela tivesse sido uma escritora croata, ninguém teria dado por ela. A sua obra é sentimental, provinciana e confinada ao reduzido espectro duma sociedade inglesa rural.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Em torno de uma fotografia


Por que se calam os poetas?
Eu diria que por várias razões, como dizia Camus, a propósito do suicídio, que ele apontava ter, normalmente, mais do que um motivo. Mas voltando à questão inicial, creio que os poetas emudecem por já ser ralo e intermitente o fiozinho de água que lhes resta (como disse, poeticamente, Vergílio Ferreira, por outras palavras), por amor ao silêncio (referido por Eugénio de Andrade, num arroubo confessional, em entrevista), mas por desencanto, também. E tão só pela simples desaparição física - método mais frequente e natural.
Pensei, hoje, em Antonio Gamoneda, em Echevarría, em Manoel de Barros, como poetas que me apetecia reler. Como poderia ter pensado em Sá de Miranda ou Ruy Belo. Porque me vão sempre dizendo coisas novas, apesar de os já ter lido muitas vezes. E também me lembrei de um Amigo.
A fotografia serviu apenas para fechar o círculo virtuoso.

para A. de A. M..

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Da leitura (22)


Vou a cerca de 4/5 do fim de uma leitura que me tem sido extremamente agradável. E é muito pouco provável que a parte final do livro me venha a anular o prazer de o ter lido. A obra, do escritor Mário de Carvalho (1944), tem o enorme título de: Quem disser o contrário é porque tem razão - Letras sem tretas, e foi editada, pela primeira vez, em 2014.
Quanto ao grafismo da capa, não será de meu agrado, mas a qualidade do produto, que embrulha, faz-me esquecer aquele desatino foleiro da Porto Editora. Por outro lado, eu teria grandes dúvidas em classificar este livro, assim ambiciosamente, como de ensaio e, para entre família, eu diria que é, apenas, (um livro) de conselhos a um futuro escritor.
Assim um pouco como as Cartas a um jovem poeta, de Rilke, mas destinado a um público de promissores prosadores e, ao contrário da seriedade rilkeana, aquele está recheado de uma quase constante ironia, de fundo. E bem actualizado, pela referência (sorridente e compassiva) a Workshops e a essa ciência oculta a que, nas modernas universidades, se dá o nome disciplinar e esperançoso de Escrita Criativa (que vai dando de comer a muitos publicitários-escritores-catedráticos, de terceira divisão da nossa paróquia literária nacional). 
Perene boa disposição é o que este livro de Mário de Carvalho nos traz, com a frescura de uma escrita num português limpo, claro e divertido. Vou transcrever três pequenas citações da obra, só para aguçar o apetite de algum futuro presumível leitor:

"Problema diferente é o da procrastinação. Significa, literalmente, «deixar para amanhã», mas aplica-se a toda a vontade de adiar o trabalho da escrita. Vergílio Ferreira disse, em tempos velhos, que nunca escreveria tal palavra. A verdade é que ela actualmente tem curso desenfreado." (pg. 67)
...
"Conta-se que a velha criada de Alexandre Herculano, quando um jornalista lhe perguntou o que fazia o mestre desterrado em Vale de Lobos, respondeu: «Nada. Nadinha. Passa os dias a ler e escrever.»" (pg. 70)
...
"Em Portugal costuma mencionar-se a este propósito (distracções de escritor) o caso de uma escritora (não sei quem foi) que deixou uma personagem grávida durante vários anos." (pg. 120)

Quem quiser balancear, a contrapeso, as agruras destes nossos tempos, pois que compre e leia este livro, em que irá encontrar leveza divertida, mas também palavras sábias, durante algumas horas de leitura. Em suma: eis uma obra bem escrita, e de qualidade muito acima das burundangas que se vão publicando (e lendo, infelizmente), em Portugal.

domingo, 31 de janeiro de 2016

As cidades e as serras


A actual ficção portuguesa é, retintamente, urbana. Talvez pela negativa. Houve tempo em que eu pensava que, prosa e poesia, lusas, seriam eternamente bucólicas, campestres, verdejantes ou acastanhadas pelo Outono. Mas o neo-realismo excedeu as medidas, saturou, numa obrigação ideológica que pouco tinha de natural. Entretanto, as populações foram abandonando o campo e as serras interiores, para os trocarem pela terra prometida das cidades. Seminários e Escola do Exército (Academia Militar) forneciam, também, o trampolim necessário ao desígnio dos mais ambiciosos e inteligentes, embora fatidicamente pobres: assim, Aquilino, assim, Vergílio Ferreira...
Ficaram, no entanto e actualmente, em alguma da literatura portuguesa, vestígios residuais: um lado muito provinciano de ver a vida, um apetece-me estar em paraísos artifíciais, uns piercings caracterizantes de mais nada, um ronceiro hábito de cafés cosmopolitas, uma fome de séculos, uma miopia de civilização natural, um lado patego e irreal de imaginar as metrópoles mais emblemáticas. E uma enxúndia barroca de palavras que ainda cheira a estrume e folhas mortas, na sua origem, agora artificial, irrealista, irrelevante. Porque não era assim, dantes, nem lembrava o falso, quando de cenários se falava, ou de viver se escrevia.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Bibliofilia 131


Quase poderia dizer que descobri Vergílio Ferreira (1916-1996) através de "Manhã Submersa" (1954), primeiro livro que li do escritor português, e ainda hoje uma das obras dele de que mais gosto. Li-o pela primeira edição, que um amigo me emprestou. Por isso, só muito mais tarde, vim a comprar o romance e a relê-lo, com o mesmo agrado inicial, aliás.
É apenas a terceira edição, de 1968, esta que tenho, mas pertenceu a Ruben A. (1920-1975), tendo a particularidade de ter uma afectuosa dedicatória de Vergílio Ferreira, que só enriquece o volume. Por aqui fica, em imagem. Hoje, dia em que se completa o centenário do nascimento do Escritor.




para MR, em geminação com o Prosimetron.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Abusos


É certo que ninguém está livre de lhe usurparem o nome, ou de se apropriarem dele, de forma soez, mas comigo tem sido demais, embora eu o ache banal e pouco impressivo e, talvez por isso mesmo, goste dele, como coisa própria, identificativa e muito pessoal. Mas é melhor eu dizer ao que venho. Primeiro, foi o Pessoa que me usou o primeiro nome e último apelido, para um heterónimo insignificante e de obra breve e curta. Depois, veio o Vergílio Ferreira que, sem me dar cavaco, me meteu num romance (Aparição, 1959), como protagonista. Há uns anos (1979), ainda, Cardoso Pires enfiou-me à força num conto (de O Burro em pé), sem me pedir licença - fiquei fulo!...
Mas o pior ainda está para vir, e vou, nitidamente, baixar de categoria literária. Tive hoje notícia que uma senhora light da literatura (?) portuguesa, que eu não conheço de lado nenhum, se prepara para lançar um romance, em Dezembro próximo, em que eu apareço, nominalmente, como lorde Marçal (eu que até sou republicano!), e que ao meu último apelido acrescentou, pomposamente, de Mello (com 2 eles), imaginem!!! Não fora a idade e o gosto que tenho em me chamar como chamo, eu ia era crismar-me.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Divagações 66


A vontade de escrever um Diário surge - creio -, com maior amplitude e exigência, na adolescência (Anne Frank) e, depois, na velhice (Vergílio Ferreira). No primeiro dos casos, por uma desmesura ou excesso que não encontra saída bastante; no segundo, ou por um ajuste de contas, ou numa tentativa inglória de permanência e fixação memorial, para além do tempo. Pelo meio, vai-se vivendo...

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Lembrete 18


Aqui há muitos anos atrás, num ronceiro ferro-velho vimaranense (ou conimbricense?), que também costumava ter louças, móveis e livros, e que eu visitava, muito raramente, deparei-me com esta primeira edição (Vagão "J") de Vergílio Ferreira. O livro, truncado, tinha sofrido tratos de polé, não tinha capas e faltavam-lhe as primeiras 8 páginas, que teriam sido arrancadas. Fiquei indeciso, mas acabei por perguntar o preço - uma ninharia, disse-me o homem. E acabei por o trazer de bónus, com um rústico, mas bonito, prato roseiro, que lá comprei, na altura. Fiz-lhe umas capas artesanais, onde rabisquei uns desenhos pueris que, em nada, se comparavam à interessante capa, original, de Victor Palla. E assim ficou o livro, incompleto, na biblioteca.
Por isso, eu não poderia ficar indiferente a esta edição fac-similada. O Lembrete é que já vai tarde, porque o livro saiu ontem, com o jornal Público. Mas talvez ainda seja possível adquiri-lo, quem o quiser...

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Retiradas do "Público" de hoje : 2 certeiras e 1 bacoca


"Temos um Rolls-Royce a apanhar ferrugem, sem gasolina ou mecânico"
Alexandre Delgado sobre o Teatro S. Carlos.
...
"Ele (A. Ramos Rosa) foi inteiramente poeta, exasperadamente poeta (mas não no sentido depreciativo e kitsch que a palavra pode ter), inapto para a vida pragmática de funcionário, como observou o seu amigo Vergílio Ferreira."
António Guerreiro sobre Ramos Rosa.
...
"Portas fez «contacto prévio» com equipa de Woody Allen em Nova Iorque"
Título de artigo de Joana Amaral Cardoso.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Da Janela do Aposento 28: Pensar




Como explicação assaz curiosa da imagem acima, verifica-se que o menino preenche uma folha, com exemplos em Castelhano, embora acompanhasse uma notícia sobre os resultados recentes de alunos portugueses em diversas áreas do saber. Para o efeito tanto importa, porque o mal é global e não exclusivamente português, porque falamos, certamente, de uma importação indevida e nociva, designadamente no que respeita ao essencial do ser humano.

Portanto, o acessório da imagem representa, em Português ou Castelhano, o grau zero da mobilidade manual e do aperfeiçoamento do movimento no desenho das letras, pousio indispensável ao desenvolvimento das ideias, ou seja, o domínio do exercício mecânico sobre a esfera do pensar.

Contrariando muitas almas caridosas, sempre rejeitei e não aceito, testes de importação, “à americana”, “de cruzinhas”, de “escolhas múltiplas” e quejandos, sobretudo no ensino da língua e da literatura, pela matricial incapacidade de representar o universo infinito de combinação da Língua e, sobretudo, de pretender abarcar um universo tão vasto como a Literatura. Confesso que a importação pobre de “testes de escolha múltipla” facilita, e muito, o trabalho de correcção, aumenta a estatística, sobretudo daqueles que, maioritariamente, apostam no factor “sorte” do ensino, em detrimento dos alunos que, com esforço, acham que vale a pena pensar antes de escrever.

E, à semelhança dos indigentes “exames de condução”, os testes “de escolha múltipla” costumam premiar os “sortudos” e penalizar os que pensam pela sua própria cabeça. Convenhamos que a Semântica e, sobretudo, a Pragmática não se esgotam numa simples frase fora do seu contexto. Desgraçados os que pensam pela sua cabeça e que, perante o beco sem saída do exemplo, frequentemente redutor, não podem escrever nem justificar as opções de um universo muito maior.

Assim, chegamos ao essencial do “post”. Ou seja, o lento abastardar das Ciências Humanas e, sobretudo, da Língua e da Literatura a um exercício contabilístico imediato, um “deve” e “haver” que, de todo, o pensamento, suportado por qualquer língua, rejeita.

Post de HMJ, recordando o Pensar, de Vergílio Ferreira.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A par e passo 29


LX
Bruscas mudanças de uma mesma coisa

Há por vezes estranhas, e bruscas interrupções de uma ideia, lembrança, um canto de móvel. De repente julgamos ver pela primeira vez, aquilo que já vimos mil vezes; apercebemo-nos da chegada à maturidade, - a puberdade - duma impressão.
Uma ideia parece pela sua força mais do que real; e entretanto tinhamos pensado nisso, e até intimamente, com vagar, mesmo com atento cuidado; - mas desta vez, ela é como que tangível. Este rosto fixa-me. Ao mesmo tempo, acontece que se compreende muito tempo depois, alguma coisa: uma intenção, um texto, uma pessoa, - em si mesma. - Compreendemos a intenção  de um olhar que nos foi dirigido há vinte anos por alguém que, entretanto, desapareceu: e o sentido de uma frase; e a beleza dum verso que sabemos de cor desde a infância.

Paul Valéry, in Tel Quel II (pg. 202).

Nota pessoal: não posso deixar de pensar, e dizê-lo aqui, que este é o tema matricial do romance "Mudança", de Vergílio Ferreira.